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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Leucemia linfocítica crônica ocorre mais a partir dos 60 anos de idade - Dr. Jacques Tabacof


Muitos pacientes ficam apreensivos e alguns até se apavoram ao saber do diagnóstico, mas não existe motivo para tanto. Esse tipo de leucemia não é agressivo e, em muitos casos, a pessoa irá precisar somente de acompanhamento médico durante um longo período. A boa notícia é que a Anvisa acaba de aprovar uma droga bastante eficaz para aqueles que precisam de tratamento.

Leucemia é o câncer dos glóbulos brancos, chamados leucócitos, que são as células produzidas na medula óssea para defender o organismo. Há vários tipos de leucócito, portanto diferentes tipos da doença.

A leucemia linfocítica crônica (LLC) é a mais comum e corresponde a cerca de 40% de todos os tipos da doença. Ela se manifesta sobretudo em pessoas de 60 a 65 anos e é mais frequente no homem. Muito rara no jovem com menos de 30 anos, não ocorre em criança. É ainda mais comum no mundo ocidental e rara no oriental.

A leucemia linfocítica é a proliferação descontrolada dos linfócitos. Há dois tipos da doença: a aguda e a crônica. A leucemia linfocítica aguda (LLA) caracteriza-se pela produção de células agressivas que se espalham rápido pelo corpo. Ocorre mais em jovens e é tratada com quimioterapia.

Já a leucemia linfocítica crônica se caracteriza pelo acúmulo em geral bastante lento e progressivo de linfócitos maduros na corrente sanguínea. Normalmente a pessoa descobre que esetá com LLC ao fazer um check-up de rotina. O hemograma, ao invés dos 2 000 linfócitos normais no organismo, acusa 10 000 e, em muitos casos, pode passar de 20 000 linfócitos por mm

Ao longo dos anos, o acúmulo na medula óssea e no sangue desses linfócitos "anormais", ou seja, células doentes que não conseguem combater as infecções, pode causar inchaço e inflamação nos gânglios linfáticos localizados no pescoço, atrás da orelha, axilas, tórax, abdome e virilhas. Só nos casos muito avançados da doença, o paciente terá febre, sudorese, anemia e cansaço. Isso porque a produção descontrolada de linfócitos acaba prejudicando a fabricação de glóbulos vermelhos e plaquetas pela medula óssea.

Muito importante, portanto, sempre que o hemograma indicar aumento de linfócitos, procurar um hematologista que, por meio do exame imunofenotipagem, irá identificar o tipo exato da céula e, se constatado de fato o câncer, indicar o tratamento mais adequado.

Diagnosticada a LLC, a maioria dos pacientes irá necessitar só de acompanhamento médico, sem a utilização de medicamentos. Isso porque o acúmulo de lincócitos costuma ser lento e não causar muito impacto na vida de uma pessoa mais idosa. O acompanhamento da evolução do crescimento de lincócitos, porém, deve ser rigoroso. Isso significa que o paciente precisa ir ao hematologista a cada quadrimestre.

Já quando a pessoa está numa fase mais adiantada da LLC, com anemia e/ou gânglios muito aumentados, é necessário recorrer a algum tipo de tratamento. Há atualmente remédios muito eficazes para o combate da LLC e o hematologista irá decidir pelo melhor método, considerando a faixa etária e a saúde geral do paciente.

Para pessoas mais idosas e com outros problemas de saúde, a melhor opção é a droga obinutuzumabe, anticorpo que ataca as células cancerosas. O medicamento acaba de ser liberado no Brasil pela Anvisa e é utilizado em associação com a quimioterapia oral clorambucil. Ainda não está disponível no SUS, mas é possível conseguir por intermédio dos convênios médicos e em alguns hospitais.

Já em pacientes com 60 anos ou menos ou com boa saúde, o mais indicado é uma combinação de drogas mais potentes, como fludarabina e ciclofosfamida com rituxinabe. Mas há o risco de provocar efeitos colaterais.



(texto publicado na revista Caras edição 1142 - ano 22 - nº 39 - 25 de setembro de 2015)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Descubra os 5 grandes benefícios de comer sementes de mamão (Melhor com Saúde)


Sabemos que esta fruta oferece diversos benefícios para a saúde, mas você sabia que as sementes de mamão também são comestíveis e podem inclusive fazer bem ao nosso organismo?

Riquíssimo em vitaminas e minerais, o mamão se firmou ao longo dos anos como uma das frutas mais saudáveis que existem, mas durante todo esse tempo nós não estávamos aproveitando as vantagens que suas sementes têm a nos oferecer.

Neste artigo você saberá o que as sementes de mamão podem fazer pelo nosso organismo e certamente nunca mais vai querer jogá-las fora como fazia antes.

Quais são os benefícios das sementes de mamão?

Combatem parasitas

As sementes são ricas em papaína, uma enzima proteolítica capaz de livrar nosso corpo da presença de parasitas. Ela ajuda a manter altos os níveis de enzimas digestivas na dieta, normalizando e fortalecendo o ambiente do trato gastrointestinal e tornando-o inóspito e menos propício à aparição e instalação de vermes e bactérias.

Outro componente importante das sementes é a carpaína, substância que comprovadamente pode matar vermes, parasitas e amebas. Estudos demonstraram que beber uma batida de sementes de mamão por sete dias ajudou crianças infectadas na Nigéria a se livrar de parasitas em 75%.

Desintoxicam o fígado

As sementes de mamão contam com propriedades desintoxicantes que são especialmente benéficas para "limpar' o fígado. Comer uma pequena quantidade delas todos os dias pode ajudar não só a ter um fígado mais saudável, mas a tratar doenças como a cirrose.

Um remédio natural amplamente usado no tratamento desta doença é ingerir as sementes trituradas ou amassadas em um pilão, misturadas com uma colher de sopa de suco de limão fresco. A recomendação é fazer isso duas vezes ao dia, por um mês.

Lembre-se de consultar o seu médico sobre a ingestão das sementes, caso já estiver fazendo tratamento para a cirrose.

Protegem contra o câncer

A papaína presente nas sementes de mamão é capaz de dissolver a camada de proteínas que se forma em volta das células cancerígenas, ajudando o sistema imunológico a destruí-las com mais facilidade.

Elas também contêm antioxidantes que ajudam a combater o câncer, fortalecendo as enzimas protetoras e estimulando a atividade anti-metástase. Além disso, as sementes possuem um composto chamado benzil isotiocianato, capaz de inibir a formação e o desenvolvimento das células cancerígenas, sendo importante na luta contra vários tipos de câncer, como o de mama, pulmão, cólon, pâncreas, próstata e leucemia.

Melhoram a circulação sanguínea

A fibrina é a substância presente nas sementes de mamão que ajuda a estimular a circulação sanguínea no organismo. Ela é capaz de reduzir o risco de formação de coágulos e melhorar a qualidade das células, contribuindo para manter um bom fluxo de sangue no sistema circulatório. Acredita-se que a fibrina também possa reduzir o risco de derrame.

Enzimas proteolíticas que contêm fibrina são especialmente úteis para pessoas que passam grande parte do dia sentadas, já que promovem a circulação nos membros inferiores e previnem a formação de coágulos. Elas também ajudam quem costuma passar muitas horas sentado em aviões. Dessa forma, quem tem problemas circulatórios pode se beneficiar muito adicionando estas poderosas sementes à dieta.

Possuem propriedades antibacterianas e antivirais

As substâncias e enzimas presentes nas sementes de mamão atuam como agentes virais que são capazes de tratar e curar diversos tipos de infecções. Elas são, por exemplo, comumente usadas na Costa Rica há anos no tratamento da dengue.

Além disso, estudos mostram que consumir sementes de mamão pode combater e matar bactérias famosas como a Escherichia coli, mais conhecida pela abreviação E. coli, estafilococos e salmonella. Elas também podem ser usadas como um tratamento eficaz para intoxicações alimentares.

Como consumir as sementes de mamão?

Depois de cortar o mamão pela metade, tire as sementes usando uma colher grande. Elas estão presas em uma substância gelatinosa que pode ser retirada passando-as em água corrente. Elas são um pouco amargas e possuem um sabor levemente apimentado.

As sementes podem ser consumidas puras, da forma como foram retiradas do mamão, ou adicionadas a molhos, saladas e sopas. Outra opção é fazer batidas misturando-as com outras frutas. Elas também podem substituir bem a pimenta do reino em qualquer prato.






sábado, 21 de fevereiro de 2015

Benefícios do mamão e suas sementes (Melhor com Saúde)


Em alguns países tropicais é muito comum encontrar árvores de mamão por todos os lados. A manutenção destas árvores é muito fácil e sua fruta é excepcional.

É uma poderosa defesa contra o câncer e tem muitos efeitos curativos. Há pouco tempo atrás o mamão era considerado apenas mais uma fruta, mas com o passar do tempo foram sendo descobertas suas vantagens.

Os benefícios da papaína para a saúde

O mamão contém uma enzima chamada papaína. Esta substância química é muito similar às enzimas do pâncreas que ajudam a digerir proteínas. As enzimas digestivas de proteínas (também chamadas de enzimas proteolíticas) podem dissolver a camada de proteína que se forma ao redor das células cancerígenas. Isto ajuda o sistema imune a destruí-las mais facilmente.

Outra enzima presente no mamão é a quimopapaína. Ambas ajudam a aproveitar melhor a proteína útil dos alimentos. As enzimas proteolíticas podem destruir os escudos de defesa dos vírus, tumores, alérgenos, leveduras e diversas formas de fungos, facilitando o processo de cura.

A papaína também ajuda a reduzir a inflamação, a curar queimaduras e a reduzir as cicatrizes na pele. O mamão realmente acelera o processo de cicatrização.

Carotenoides que protegem da oxidação

A cor rosa alaranjada do mamão se deve à presença de carotenoides, em particular de betacarotenos e licopenos. Estes são antioxidantes e são agentes eficazes na luta contra o câncer.

O licopeno pode reduzir o risco de câncer de próstata, pois induz a morte das células cancerígenas, aumenta a atividade anti-metástase e reforça as enzimas protetoras.

Em uma pesquisa realizada na China foi descoberto que a ingestão de alimentos ricos em licopeno e chá verde protege contra o câncer de próstata.

Isotiocianato para evitar a aparição de células cancerígenas

O isotiocianato é outro composto do mamão. Este composto demonstrou ser capaz de inibir a formação e o desenvolvimento das células cancerígenas.

Em experimentos com animais, foi demonstrado que os isotiocianatos são eficazes contra o câncer de mama, pulmão, cólon, pâncreas, próstata e leucemia.

Outros benefícios do mamão

- Os mamões são ricos em nutrientes, antioxidantes, carotenos, vitaminas C, E, A e flavonoides. Também contêm as vitaminas do complexo B, ácido fólico e ácido pantotênico e minerais como potássio e magnésio.

- Todos estes elementos promovem um sistema cardiovascular saudável e protegem contra o câncer. Também ajudam a manter um sistema imunológico saudável, previnem infecções recorrentes no ouvido, os resfriados e a gripe.

- Também são ricos em fibras, por isso podem reduzir os níveis de colesterol. A fibra também é capaz de enlaçar as toxinas causadoras de câncer de cólon e facilitar sua digestão.

Utilidade das sementes de mamão

As sementes de mamão podem ser ainda mais benéficas do que a fruta, mas o seu sabor picante e amargo podem dificultar o seu consumo. Apesar de tudo, seu valor medicinal é muito importante. Os benefícios das sementes são:

- Propriedades antibacterianas que as tornam eficazes contra E.coli, Salmonella e Staphylococcus.

- Podem proteger os rins de insuficiência induzida por toxinas.

- Facilitam a eliminação de parasitas intestinais.

- Ajudam a desintoxicar o fígado.

O mamão é uma fruta que vale a pena ser incluída na dieta diária. O ideal seria consumi-lo pelo menos uma vez por semana. Por seu sabor, é muito versátil e pode ser incorporado em receitas como saladas, sobremesas, em iogurtes, com limão, entre outros. Não perca essa oportunidade de aproveitar seus incríveis benefícios para a saúde.

































sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Exame genético mostra como tratar portador de leucemia mieloide aguda - Dr. Celso Massumoto


Este câncer se caracteriza pelo crescimento desordenado do tecido mieloide, um segmento da medula óssea. É mais comum após os 60 anos. Ele se deve a alterações em alguns genes, como o FLT3-ITD, o NPM1 e o CEBPA. Hoje, a identificação de qual deles está alterado é importante para a escolha do tratamento mais indicado e em breve poderemos ter remédios para corrigir tais alterações.

O tecido mieloide é um segmento da medula, que ocupa o interior de todos os ossos humanos. Ela produz os leucócitos, ou glóbulos brancos do sangue, que são responsáveis pelas defesas do organismo. Chama-se leucemia mieloide aguda ao crescimento desordenado das células desse tecido, isto é, um tipo de câncer. Essas células anormais são conhecidas como blastos. Não existe estatística sobre a doença no Brasil. Sabe-se, porém, que nos Estados Unidos ocorrem todo ano 12 000 casos novos. Lá a incidência anual é de três casos a cada grupo de 100 000 habitantes.

A leucemia mieloide aguda é rara em crianças. Em geral ocorre em homens e mulheres adultos de todas as raças, sobretudo após os 60 anos. A causa são alterações em alguns genes, como o FLT3-ITD, o NPM1 e o CEBPA. Os sintomas básicos são: cansaço extremo, febre de causa desconhecida de intensidade variável e manchas roxas na pele. Como você vê, são sintomas comuns a muitas enfermidades.

Considera-se que uma pessoa tem a doença quando os blastos já constituem pelo menos 20% do total das células medulares. Essa célula cancerígena, aliás, se multiplica rapidamente e aos poucos vai ocupando todo o espaço no interior dos ossos. O resultado é que os leucócitos e as plaquetas, responsáveis pela coagulação do sangue, não são produzidos e o paciente apresenta tanto hemorragias quanto infecções como sinusite e pneumonia de gravidade variável. Nas situações extremas, o doente pode ir a óbito em semanas ou até dias.

Infelizmente, ainda não é possível evitar o desenvolvimento da leucemia mieloide aguda. Pessoas com sintomas devem consultar um hematologista. Boa alternativa no serviço público é o Departamento de Hematologia das Universidades Federais e Estaduais existentes nas capitais e em muitas cidades grandes.

Diagnostica-se a doença com exame de aspirado de medula, com o qual se descobre que está com mais de 20% das células blásticas, e da tipagem por computador, com o qual se vê que são células de origem mieloide e não linfoide, outro tipo de tecido da medula. Para a escolha do tratamento, porém, é fundamental descobrir quais genes do paciente estão alterados. Pessoas que apresentam mutação no gene NPM1 e não no FLT3 e no CEBPA podem ser curadas apenas com quimioterapia. Já aquelas cuja alteração é apenas no FLT3-ITD têm o pior prognóstico e, além da quimioterapia, terão de fazer também transplante de medula óssea doada por um parente ou de banco de medula. O mesmo vale para as que não têm alteração em nenhum dos três.

Vale destacar que o tratamento de leucemia mieloide aguda é sempre realizado por uma equipe multidisciplinar, ou seja, um médico hematologista, um fisioterapeuta, a enfermagem e uma psicóloga. Isso se deve ao fato de que o doente fica completamente isolado, já está debilitado pela doença e a quimioterapia o deixará ainda mais enfraquecido, elevando bastante seu risco de infecções. Em um momento tão complicado, precisa ser acompanhado e apoiado pelo menos por esse grupo básico de profissionais. É fundamental destacar, finalmente, que o tratamento de tais pacientes em unidades especializadas aumenta muito a possibilidade de sucesso.




(texto publicado na revista Caras edição 1010 - ano 20 - nº 11 - 15 de março de 2013)







domingo, 28 de dezembro de 2014

Paulistanas Nota Dez: Mylene Duarte e Mariana Robrahn


Nomes: Mylene Duarte e Mariana Robrahn
Profissões: publicitária e designer
Atitude transformadora: criaram a ONG Cabelegria, que arrecada doações de mechas para produzir perucas destinadas a crianças com câncer

Quando os últimos fios de cabelo de Raissa Gonçalves, de 7 anos, caíram durante o tratamento contra a leucemia, a menina não conteve as lágrimas. Chorou copiosamente, não queria mais se olhar no espelho nem sair de casa. A mãe, Denise de Moura, cogitou comprar uma peruca, mas o preço, que varia de 2 000 a 4 000 reais, estava fora do orçamento da família. Por sugestão de uma vizinha, ela procurou a ONG Cabelegria, que arrecada doações de madeixas e confecciona gratuitamente o acessório para crianças com câncer. Em dez dias, a menina recebeu sua peruquinha. "Adoro ficar balançando meus cabelos novos", conta Raissa.

Assim como a garota, outras vinte crianças foram presenteadas desde outubro, quando surgiu o projeto. Na época, a publicitária Mylene Duarte sensibilizou-se com o gesto de uma colega que cortou o cabelo para iniciativa similar da Santa Casa. Assim, criou um grupo no Facebook e mobilizou os conhecidos para fazer o mesmo. Em apenas um dia, cerca de 1 700 pessoas haviam aderido à campanha. Com tamanho apoio, ela convidou uma amiga, a designer Mariana Robrahn, para estruturar a ONG. Hoje, a página da entidade na rede social conta com 200 000 participantes e as contribuições capilares chegaram à casa das 10 000 mechas. A dificuldade é justamente transformá-las em perucas ou até mesmo estocá-las. "Eu não tinha noção de que uma ação como essa pudesse tomar tamanha proporção. A sala da minha casa está cheia de caixas e já comecei a espalhá-las pelos quartos", diz Mylene.

Para confeccionar as perucas, as duas firmaram parceria com uma especialista, e a própria Mariana também se matriculou em um curso para aprender a produzi-las. Quem deseja participar deverá enviar uma porção de qualquer tipo de cabelo (mesmo com química) com, no mínimo, 10 centímetros de comprimento. Os interessados em receber a peruca precisam se inscrever pelo site e enviar um laudo médico. "Queremos dar leveza a essas crianças, que já estão sendo privadas de tantas coisas", resume Mylene.




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 11 de junho de 2014)






quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O lar do adeus - Angela Pinho


Primeiro espaço do país para crianças em estágio terminal começa a receber pacientes na Zona Leste

Em janeiro de 2012, Paulo Ricardo Ferreira de Almeida, então com 2 anos, chegou ao Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, com febre e dificuldade de comer. Os exames indicaram um tipo de leucemia grave. paulo foi submetido a quimioterapia, e o tratamento não surtiu efeito. No último dia 28, a equipe de médicos comunicou à mãe, a dona de casa Rosiane Ferreira da Silva, a notícia mais triste possível sobre um filho: não há mais possibilidade de conter a doença. No dia seguinte, Paulo foi encaminhado a um serviço gratuito de saúde inédito no país. Trata-se de uma casa para crianças com câncer em estágio terminal chamada Hospice Francesco Leonardo Beira, inaugurada no fim do ano passado em Itaquera. A palavra "hospice" designa tanto uma filosofia de tratamento como uma instituição que busca o alívio dos sintomas de pacientes sem chance de cura. O local está aos cuidados da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (Tucca), entidade beneficente que tem parceria com o Hospital Santa Marcelina. O objetivo é receber pacientes terminais da rede pública que necessitam de exames e medicamentos para não sentir dor, mas não precisam ficar em um hospital, com restrição de horário de visitas e sujeitos a outras infecções. "Cerca de 80% das crianças conseguem se livrar dos tumores, mas temos de cuidar também dos outros 20% que não conseguem", explica o oncologista Sidnei Epelman, um dos idealizadores da instituição. Há alguns centros semelhantes no Brasil, como um do Instituto do Câncer, em Cotia, a 31 quilômetros da capital, mas voltados para adultos. A Santa Casa de São Paulo tem um serviço de hospice, mas ele funciona no próprio hospital e realiza apenas atendimentos.

Em Itaquera, o garoto Paulo, hoje com 4 anos, é o primeiro a ocupar o espaço. Ele precisa ser medicado de quatro em quatro horas com morfina para não sentir dor nos ossos. Em sua casa, no Itaim Paulista, no extremo da Zona Leste, ele dividia uma cama de casal com a mãe e duas irmãs. O quarto tinha mofo. No hospice, fica em um ambiente semelhante a uma residência, mas com enfermeiros o tempo todo e visitas constantes de médicos e outros profissionais do Santa Marcelina, a duas quadras de distância. O local pode receber até três famílias ao mesmo tempo. Cada quarto tem uma cama para o paciente, uma bicama e um sofá-cama.

Por causa dos remédios, Paulo passa boa parte do tempo dormindo. Quando está acordado, gosta de assistir a desenhos animados, além de brincar com o tablet e o videogame. Se quiser, pode usar a sala de brinquedos ou dar comida aos peixes ornamentais que nadam em um pequeno tanque no jardim, como fez nos primeiros dias de sua estada por lá. As refeições são preparadas por uma cozinheira de segunda a sábado. A rotina rígida de um hospital não se aplica ali. Outro dia, Paulo, que costuma recusar alimentos por causa da medicação, acordou com vontade de comer carne. Ganhou um bife às 9 da manhã.

A ida do menino ao hospice provocou um inesperado reencontro familiar. Separados desde que ele ficou doente, os pais do menino praticamente não se falavam. "Se eu acompanhei dois dias de internação dele, foi muito. Eu me sinto culpado", conta o bombeiro Thiago Nelson de Almeida. Percebendo que o garoto sentia a falta dele, os médicos disseram que seria importante que o pai se reaproximasse. A família topou. O garoto tem dormido com Thiago na parte de cima da bicama e, durante a noite, às vezes desce para ficar com a mãe - algo impensável se estivesse na casa de um dos dois. O resultado, segundo os médicos, é que, apesar da evolução da doença, ele passou a precisar de uma quantidade menor de morfina. "Não é fácil, mas estou lidando com isso porque o importante é passar felicidade para meu filho", diz Rosiane, que saber estar vivendo os últimos dias com o menino e evita ficar muito tempo fora do hospice.

O pai ainda acredita em um milagre que salve o filho e recentemente levou religiosos da umbanda e evangélicos para a casa, que tem uma sala de oração. Como a família não contou ao paciente a gravidade da situação, o garoto parece não saber direito o que está acontecendo. "Ele acha que, depois do tratamento, vai voltar para casa", afirma Rosiane. Segundo a psicóloga Cláudia Epelman, vice-presidente do Tucca, muitas crianças em estágio terminal intuem que sua expectativa de vida é curta. "Algumas perguntam: 'Por que não tomo mais quimioterapia?'. Mas isso varia muito conforme o paciente."

O funcionamento do hospice custa 40 000 reais por mês, pagos com recursos privados. "Precisamos de mais doações", diz Sidnei Epelman. A casa teve boa parte da construção bancada por uma família que passou por uma situação semelhante Waldir Beira Júnior, presidente da fabricante de produtos de limpeza Ypê, perdeu o filho Francesco após nove anos de luta contra um tumor no cérebro. Em seus 11 de vida, o menino foi submetido a sete cirurgias e longos períodos de internação. Quando os médicos avisaram que não havia mais chance de cura, o empresário e sua mulher, Priscila, decidiram trazer o garoto de volta para casa. Levaram-no a diversos pontos turísticos de São paulo e tentaram aproveitar ao máximo os últimos dias ao seu lado. Após a morte do filho, em 2011, os recursos que os pais depositavam em sua poupança foram destinados ao hospice de Itaquera. "Quando Francesco partiu, sentimos saudade, mas uma paz muito intensa por termos vivido com ele um tempo com a melhor qualidade possível", emociona-se Beira Júnior.

Final digno

Como funciona o serviço inaugurado na casa em Itaquera

Cuidados médicos

Há permanentemente uma enfermeira de plantão. Outros profissionais do Hospital Santa Marcelina, a dois quarteirões, podem vir sempre que necessário.

Capacidade

Pode receber até três crianças ao mesmo tempo com a família. Cada quarto tem uma cama, uma bicama e um sofá-cama.

Cozinha

Uma funcionária prepara as refeições, mas os pais podem trazer alguma comida diferente se quiserem.

Infraestrutura

O local tem uma brinquedoteca e uma sala religiosa ecumênica.




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 19 de fevereiro de 2014)







sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Espírito solidário - Wladimir Weltman


Na parede de seu escritório há uma placa com os dizeres: "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis". É de Bertold Brecht, dramaturgo alemão. Vendo crianças com idades entre 2 e 11 anos, todas já sem cabelos por causa do tratamento contra o câncer, correndo no playground da Casa Ronald McDonald, no Rio de Janeiro, e conhecendo Francisco Carlos Neves, 64, em pessoa, a citação de Brecht faz todo sentido. Chico Neves, como o chamam ali, é um desses homens. Desde que Marcos, seu filho,  recebeu diagnóstico de leucemia, Chico não parou mais de lutar e tem feito muita diferença. "Venho de uma família humilde de pescadores. Descendentes de portugueses, que deram duro para que os filhos tivessem boa educação", conta Chico.

Nascido no Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1949, Chico se criou em São Cristóvão. Foi ali que conheceu sua companheira de vida. "Era 1970, durante a Copa do Mundo. O Brasil ganhou a taça Jules Rimet e eu ganhei a Sonia. Estamos juntos até hoje. Ela é minha eterna namorada". A vida de Chico era aparentemente tranquila, engenheiro, funcionário de uma boa empresa, feliz no casamento, pai de dois belos meninos, torcedor do Vasco e morador de São Cristóvão. Mas em 1983 uma notícia abalou seus alicerces: o caçula, Marquinhos, com apenas 2 anos, estava com leucemia. Nos seis anos que se seguiram, Chico e Sonia encararam todo tipo de tratamento na ânsia de curar o menino: "Buscamos as curas convencionais e as não convencionais", confessa. "Gotinhas mágicas, curandeiros, homens santos, umbanda, macumba e candomblé. Numa hora dessas, vale tudo".

Mas em 1989 o médico os chamou para conversar: "Olha, acabou, não tem mais nada a fazer". Chico diz à reportagem: "Era um bom médico, mas eu não aceitei. Perguntei: "Não há mais nada a fazer... no Brasil? Em outro lugar, ainda há o que fazer?" Ele respondeu: 'Tem sim, mas é caro... ' Em Nova York, nos EUA, havia uma médica brasileira fazendo um tratamento experimental - um transplante de medula de não aparentado. Hoje já se faz no Brasil. O Marquinhos tinha 40% de chance. Para nós era o suficiente. Nosso único problema era o dinheiro. O Brasil vivia uma inflação de 60% ao mês e as poupanças tinham sido confiscadas. Nós nos movimentamos, conseguimos ajuda da mídia e do meu time do coração. O Vasco, no qual o Marquinhos era mascote, organizou um jogo. Eles se sagraram campeões no domingo e na segunda-feira todo o time se apresentou em São Januário para jogar. As televisões cobriram o evento e o dinheiro foi para o tratamento. Em 45 dias arrecadamos 40 mil dólares".

Sem lugar para ficar em Nova York, foram para a Casa Ronald McDonald, abrigo para crianças em tratamento de câncer. "Nós pagávamos um valor simbólico de 5 dólares por dia. Ficamos lá três meses. Era uma Torre de Babel. Havia brasileiros, russos, israelenses, formamos um grupo muito legal de amigos, um apoiando o outro". Mas o  tratamento era pesado e Marquinhos tomava drogas que afetavam seu coração. Isso o deixou muito fraco. "Mesmo assim eu não deixava de falar com ele. Os médicos achavam que o Marcos não ouvia nada e que eu e minha mulher éramos malucos. Eu comprava o Jornal dos Esportes na 46, a rua dos brasileiros, e ficava lendo para ele ao pé do ouvido. 'Marquinhos, o Vasco ganhou...' Aí o médico chegou para mim e disse: 'Não quero me meter, mas seu filho está sedado. Não ouve nada'. Respondi: 'Está ouvindo, sim, quer ver? Eu me virei para o Marcos e disse: 'O médico está duvidando de que você me ouve. Para ele acreditar, mexe o dedão do pé direito...E, para espanto do médico, o Marquinhos mexeu o dedão!"

"Descansa, meu filho"

Apesar de todo o tratamento, Marcos não melhorava e sofria bastante. Na noite de 30 de janeiro de 1989, Sonia e Chico conversaram com o menino. "Eram umas 9 e meia da noite e a Sonia falou assim pra ele: 'Marquinhos, olha só! O que você tinha para nos provar já provou. O que tinha de batalhar já batalhou. Mas agora é sua hora de descansar. Descansa, meu filho... '" Às 2 horas da manhã foram chamados e o médico de plantão lhes deu a notícia: Marquinhos havia morrido... Na volta ao Brasil, Chico e a mulher ainda tinham parte do dinheiro do tratamento. Com ele criaram uma sala de recreações para as crianças doentes no hospital do Inca (Instituto Nacional de Câncer), como havia no Memorial Hospital de Nova York, onde Marquinhos se tratou: "Foi meu primeiro trabalho voluntário", Chico conta. "Foi fazendo isso que identificamos a necessidade de uma casa de apoio para pais que vinham ao Rio tratar os filhos, sem condição financeira para alugar ou pagar hotel."

Em 1991, o McDonald's doou a renda do McDia Feliz ao Inca para comprar uma bomba de infusão. Nesse evento, numa  coletiva de imprensa, o então presidente do McDonald's, Peter Rosemberg, apareceu. "Resolvi falar com ele", diz Chico. "Cheguei, cumprimentei e disse: 'Meu nome é Francisco, sou voluntário no Inca, tive um filho com câncer e fiquei hospedado na sua Casa Ronald McDonald de Nova York. Por que no Brasil não tem nenhuma?' Ele me respondeu com outra pergunta: 'Quer me ajudar a criar uma no Brasil?' Foi assim que acabei trabalhando aqui." Uma semana depois, Chico ficou surpreso com a ligação do presidente do McDonald's, dando andamento á conversa e, em 24 de outubro de 1994, surgia a primeira Casa Ronald McDonald da América Latina, no Rio de Janeiro. Hoje existem seis e mais duas estão a caminho. E o Instituto Ronald McDonald realiza uma série de outras atividades voltadas às crianças vítimas do câncer e suas famílias, sendo que Chico fez boa parte disso tudo sem ganhar um tostão. "De 1994 a 1999 meu trabalho era voluntário. Mas em 1999, quando eles resolveram criar o instituto, o McDonald's me pediu para largar o emprego e me dedicar totalmente a isso. Eles disseram: 'É agora ou nunca'".

Apesar de ser o superintendente do Instituto Ronald McDonald no Brasil, Chico ainda exerce ações voluntárias, trabalhando aos sábados e domingos. "O Instituto Ronald McDonald é hoje um órgão que atua com o Inca, a Sociedade de Oncologia Pediátrica e a Confederação Nacional de Apoio à Criança com Câncer, viabilizando projetos. Temos programas como o Diagnóstico Precoce, que capacita profissionais da saúde a identificar sintomas do câncer o mais cedo possível; o programa Atenção Integral, que apoia reformas e construções de unidades ambulatoriais, hospitais e casas de apoio, e outras ações importantes, além de uma série de atividades ligadas ao tema "Os beneficiários são as crianças e os adolescentes mais desprivilegiados do Brasil". O instituto apoia as crianças tratadas pelo SUS, Sistema Único de Saúde. A maioria é carente. Não trabalhamos com clínicas particulares nem com convênios, só com aquelas crianças que não têm condições de bancar um tratamento que é caro". O irmão de Marquinhos, Carlos, hoje com 36 anos, arquiteto, casado e com dois filhos, trabalhou voluntariamente na Casa Ronald McDonald desde sua fundação até 2008, quando foi efetivado como assessor de projetos e obras de lá.

Espírito mensageiro

Chico se empolga quando perguntamos sobre a eficácia do trabalho que desenvolve no país: "Temos ajudado a transformar a história da oncologia pediátrica brasileira. A doença é a primeira causa de morte por enfermidade na faixa etária de 5 a 19 anos, segundo dados do Inca. Os programas que apoiamos beneficiam anualmente cerca de 30 mil crianças e seus familiares. Com isso, a instituição tem contribuído para aumentar as chances de cura da doença, que há 30 anos era de cerca de 15% e hoje passa de 65%, podendo chegar a 85% em alguns casos". Pena Marquinhos não ter se beneficiado disso tudo? "Quando estávamos tentando salvar o Marquinhos, um moço de um grupo religioso me disse: 'Seu filho tem todas as características de um espírito mensageiro', que é aquele que vem à Terra unir as pessoas. Antes de ele ficar doente, tinha um monte de coisa dando errado na minha vida. Mas, quando adoeceu, todos os problemas acabaram e as pessoas se uniram em torno dele. Não sou extremamente religioso, mas acredito que existem razões que vão além da nossa compreensão. Sou grato a Deus e me considero privilegiado por fazer o que faço."




(texto publicado na revista Contigo nº 2029 - 7 de agosto de 2014)