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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Nasce um campeão - Lemyr Martins


Depoimento de Neyde Senna da Silva, mãe de Ayrton, extraído do livro Uma Estrela Chamada Senna

"Ainda fazia um calor de angustiar naqueles dias de outono de 1960. Eu me preparava para ir me deitar quando senti que alguma coisa de anormal estava acontecendo comigo: me assustei com o incontrolável desejo de urinar. Na época ainda havia muitos tabus e a gente não tinha grandes informações. Tanto que confundi o rompimento da bolsa com a minha micção. Eram 9h30 da noite do dia 20 de março de 1960. Contei ao meu marido da perda exagerada de líquido e do princípio de cólicas. Tentamos avisar o doutro Carizzatto, velho médico da nossa família e que já tinha assistido minha mãe no meu nascimento, mas não o encontramos. Foi a Antonieta, experiente parteira do médico, que afinal diagnosticou o rompimento da bolsa, quem ordenou que eu fosse imediatamente para o hospital e maternidade Promater. Enquanto partíamos do bairro do Tucuruvi (Zona Norte de São Paulo), Antonieta conseguiu tirar o médico de uma mesa de pôquer - nunca noite de sorte - para me atender.

Como eu já era mãe de uma menina, a Viviane, torcia por um filho. Tudo correu muito bem e às 2h45 do dia 21 de março de 1960 Ayrton nasceu. Foi o único dos meus três filhos que veio ao mundo de um parto seco (a bolsa já havia se rompido) e, que ironia, justamente ele que seria um campeão especialista em vencer no molhado. O primeiro comentário sobre o meu filho foi feito pela Eunice, minha cunhada e ele era pouco animador. Ela me disse:

- Zazá (meu apelido em casa), você ganhou um menino. É homem o seu filho.

E sem tomar nem fôlego me alertou:

- Olha, não quero te assustar, mas ele é muito feinho.

Eu tive que rir, nunca esqueci a sinceridade dela e fiquei curiosa para ver o meu filho. Olhei o neném, todo enrugadinho, com o rosto semi-encoberto e só com a boca à mostra, que me pareceu enorme, mas não o achei tão feio. O nome foi outro parto. O Ayrton saiu de uma lista de mais de 20 sugestões e só se chegou a um consenso porque já estávamos no último dos dez dias que o cartório estipula como prazo para o registro.

De Ayrton surgiu "Beco", um diminutivo oriundo da dificuldade da minha sobrinha Lilian em pronunciar o nome do novo primo. "Becão" foi o apelido assumido por ele. Mas havia outro que nem gosto de comentar e para o qual apelei apenas uma única vez em público. Foi em desespero de causa, na decisão da F-3 de 1983, em Snetterton.

Naquele dia havia um clima de suspense na corrida. O Beco ia disputar o título com outro piloto inglês muito bom (Martin Brundle). Eu estava um tanto ansiosa e nem fomos vê-lo antes da corrida, para não deixá-lo tenso. Ele ganhou. Então fomos chegando mais próximo da zona onde ele teria que passar depois de ter recebido a bandeirada (...) Se eu simplesmente gritasse o nome dele, ele não atenderia, tal era a multidão e a correria. Eu pensei, pensei, olhei meu filho vitorioso dentro do carro já sem capacete e foi aí que me ocorreu a única forma de ser ouvida por ele daquela distância de 30 metros. Enchi o peito de ar e de coragem e gritei a plenos pulmões:

- Macacôôôôôô!!!

Imediatamente eles nos olhou, riu e acenou para nós. O Milton, meu marido, que às vezes o chamava assim porque o Ayrton comia muita bana, não gostou e reclamou:

- Onde já se viu chamá-lo assim na frente de todos?

Eu não achei nada de mais. Afinal, ali na Inglaterra, quem iria entender aquele grito de mãe?

Na verdade, o pai sempre teve a mania de colocar apelido em todo mundo. Como o Ayrton e o irmão Leonardo gostavam muito de bananas, ele brincava de chamar um de macaco e o outro de sagui. E foi por essa sua mania que o Milton acabou sendo o Gibão para os íntimos, apelido carinhoso dado pela minha filha Viviane (...)

(...) O Ayrton sempre foi inquieto. Magrinho mas saudável, e muito desajeitado. Vivia sempre machucado. Não conseguia subir uma escada com mais de três degraus sem tropeçar. Sorvetes, comprava logo dois, porque um sempre acabava no chão. As trapalhadas do Beco me preocupavam tanto que resolvi levá-lo a um neurologista. Desconfiava da sua coordenação motora e resolvi submetê-lo a um eletroencefalograma. Felizmente, não havia nada de anormal com o menino. Os meus receios diminuíram quando o Ayrton, com 10 anos, me ensinou a colocar marcha-a-ré num carro hidramático que eu não sabia como manobrar. Depois, quando vi meu filho, que mal alcançava os pedais, dirigir com incrível facilidade um jipe pela fazenda, lá em Goiás, mudei de opinião e parei de me preocupar com seu jeito desastrado. Na verdade, ele era desajeitado por ser veloz. Aprendia tudo muito rápido e queria executar imediatamente. Não tinha noção de espaço que ocupava e jamaisa ficava quieto (...)

(...) As mães sempre acham que seus filhos não se cuidam o suficiente. Mas, quando o Beco partiu para a Europa, em 1981, para correr de F-Ford e se dedicar ao automobilismo, eu falei para ele que não ia lhe dar nenhum conselho especial. Meu coração de mãe sentia que a vontade dele era tão forte que só aquela carreira o faria feliz. Apenas beijei-o e disse:

- Eu te cuidei até aqui. Agora te entrego nas mãos de Deus. Ele vai guiar você.

E Deus fez a Sua vontade."


(texto publicado na revista Quatro Rodas ano 41 - dezembro de 2001)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Gatinhas manhosas - Ana Elisa Faria


Até nove dias atrás eu jamais poderia imaginar que dois pequenos seres de quatro patas e miado fino seriam capazes de virar minha vida - e meu apartamento - de ponta-cabeça.

Pretinhas, Evita e Federica Fellina, duas gatas sem raça definida (SRD) que nasceram em uma ninhada de cinco há nem quatro meses, chegaram em casa numa sexta-feira ensolarada no meio do barulho das janelas sendo teladas.

Evita tem listras acinzentadas do pescoço à barriga, é um pouco maior do que a irmã, mais atirada e come bem. Federica é toda preta, magrinha, desconfiada e bebe muita água. As duas têm olhos amarelos e olhar penetrante.

Durante as primeiras horas no novo lar - até então elas estavam com a Yara, uma adestradora que encontrou a mãe, prenha, na rua e a adotou -, minhas meninas escolheram ficar embaixo da cama. Saíam com certo custo, mas retornavam para o esconderijo ao som de qualquer espirro.

Agora, ambientadas, gostam de arranhar o sofá (novíssimo!), que ganhou uma capa improvisada, correr, pular e adentrar em cantos inimagináveis.

E eu também mal poderia imaginar, até nove dias atrás, que contaria os segundos para chegar em casa e encontrar as duas criaturas mais fofas do universo felino, mesmo estando tudo revirado.



(texto publicado na revista sãopaulo da Folha de S. Paulo de 19 a 25 de julho de 2015)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uma carreira entre os bichos - Julia Reis


A realização profissional pode estar longe da vida corporativa - e ao lado de animais

Laurelee Blanchard deixou uma carreira de sucesso como vice-presidente de uma empresa para seguir seu sonho: montar um santuário para bichos de fazenda. Em 1999 ela tinha dois gatos e uma rotina urbana na Califórnia, quando decidiu viver de forma diferente. Vegana e engajada, porém sem nunca ter vivido no campo, ela usou suas economias para comprar uma grande propriedade no Havaí para abrigar animais vítimas de maus-tratos.

A escolha de trabalhar ao lado de bichos não é mais exclusiva de ambientalistas, biólogos ou veterinários. Profissionais de outras a´reas resolveram mudar o rumo para estar perto deles - sejam cachorros ou leões -, motivados pela própria saúde, bem-estar, estilo de vida e claro, o prazer.

Longe dos prédios de escritórios, a estrutura de Laurelee cresceu e hoje o Leilani Farm Sanctuary abriga 300 animais entre cabras, coelhos, porcos, aves, vacas e burros. "Estou fazendo exatamente o que gosto", conta ela, que recebe visitantes com finalidade educativa.

O trabalho com animais também aparece de surpresa. Silvia e Marcos Pompeu há mais de 20 anos administram o santuário Rancho dos Gnomos, em Cotia (SP), onde moram pelo menos 230 animais - entre eles leões e onças. Mas o plano inicial não era esse. Em 1992, a jornalista e o funcionário público estavam passando uma temporada no sítio da família enquanto organizavam a mudança para Nova York. Uma cabra e alguns animais resgatados da rodovia foram a semente do que hoje eles chamam de missão. "Na época a gente não entendia o que estava acontecendo, mas parecia uma peça que a vida nos pregou para fazer algo maior. Me indicaram um congresso de proteção animal e ali nosso mundo caiu. Conhecendo casos de maus-tratos começamos a trabalhar e aos poucos ganhamos experiência", conta Marcos.

Mas não é preciso ter uma propriedade rural para mudar de vida. A analista financeira Alessandra Gomes resolveu trabalhar com cachorros para melhorar sua saúde. Ela tinha 12 de experiência na área e um recente diagnóstico de diabetes quando virou o jogo: obrigada a praticar exercícios e frustrada por não ter cursado veterinária, trocou o emprego em uma multinacional para ser dog walker e dog sitter, passeadora e babá profissional de cachorros. "Uni o útil ao agradável e ainda sou paga por isso!", diz ela. "Além de cuidar da minha saúde, trabalho feliz ao lidar com cães. Eles me deixam de alto-astral."

Um cachorro também foi o empurrão para Renata Ferraz deixar a advocacia e a gastronomia. "Eu era infeliz. Chegava em casa exausta, só chorava", conta. Quando descobri que sua vira-lata Nina tinha sérias alergias alimentares, Renata precisou fazer comidas especiais como parte do tratamento. O resultado da alimentação natural foi tão bom que a moça continuou a pesquisar e há mais de um ano comanda a Cãolinária, empresa que monta cardápios ou prepara comida em casa para pets. "Hoje, me sinto completa! Não importa a profissão, meu dom é cuidar de bicho", conclui.



(texto publicado na revista Bons Fluídos edição 200 - novembro de 2015)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O avô que não conheci - Lucas Herzog


Outubro de 2004. Era a primeira vez que meu pai me levava a uma cerimônia de entrega do Prêmio Vladimir Herzog - que reconhece as melhores reportagens realizadas, no ano, sobre Direitos Humanos. O evento ocorria no Memorial da América Latina, lá na Barra Funda, próximo à sede da TV Cultura, onde meu avô havia trabalhado nos meses anteriores à sua prisão e morte.

A premiação transcorria normalmente e eu, com meus 7 anos de idade, pouco entendia do que estava acontecendo e achava bastante cansativo os longos discursos daquelas figuras engravatadas que ocupavam a mesa no palco. Até que um premiado resolveu usar o microfone, de maneira eufórica, para fazer propaganda partidária: "Vladimir Herzog certamente votaria em fulano nas eleições que se aproximam!" (as eleições municipais de São Paulo ocorreriam nos próximas dias). Foi o suficiente para meu pai se levantar e pedir o microfone para classificar como absurda e desrespeitosa a fala do homem. Era inaceitável para ele o uso do nome de seu pai em apologias partidárias. Para mim, caiu ali a ficha da responsabilidade que eu carregaria para o resto da minha vida.

Antes desse episódio, sabia muito pouco sobre meu avô. Na realidade, nem sabia as circunstâncias de sua morte e misturava completamente a história da perseguição nazista que ele sofreu ao final da Segunda Guerra Mundial com sua história durante a Ditadura Militar no Brasil. Estava na hora de me informar melhor.

Conforme foram passando os anos, comecei a frequentar cada vez mais os eventos com a velha guarda do Partidão (apelido do Partido Comunista Brasileiro) e aquilo era o máximo para mim. O despertar de qualquer consciência política em mim surgiu ao ouvir as histórias e as risadas que ilustravam os jantares com os antigos amigos de meu avô. Apesar de tudo, das prisões e das torturas que quase todos passaram, lá estavam eles, cientes da importância de suas lutas para a redemocratização do Brasil embora menos rigorosos em relação aos valores que defenderam na juventude.

Vlado não teve a mesma sorte de seus colegas e não pode estar presente nesses momentos de reunião para contar as suas histórias. Não pode, porque foi assassinado pelas forças repressivas do regime militar, no dia 25 de outubro de 1975, e ainda acusado de suicídio em mais uma fantasia ofensiva à racionalidade alheia produzida pelos militares.

Graças à luta política da família, essa história não será redigida nas linhas mal traçadas pelos generais, sargentos e médicos legistas de plantão. Em 2013 foi emitido um novo certificado de óbito para a família, que reconhece a tortura sofrida por Vlado nos porões do Doi-Codi.

Nas palavras da mãe de Vlado, Zora Herzog, na carta que ela enviou ao juiz que concedeu a liminar contrária ao Estado, ainda em 1978: "Meu filho não voltará, mas seu bom nome não ficará manchado. Se seu desaparecimento não foi em vão para a história do país, para mim sua perda é definitiva, minha dor não tem consolo".

Este ano completam-se 40 anos da morte de meu avô. Mas completam-se também 40 anos da memorável missa ecumênica na Praça da sé, que reuniu 8 mil pessoas em homenagem ao Vlado e que marcou o início da queda da ditadura militar, pois a farsa começava a vir à tona.

Quando me perguntam o que significa ser neto de Herzog, não consigo fugir da dicotomia: a dor familiar de não ter conhecido meu avô, que tinha tantos amigos e era tão querido e o orgulho de ser neto de um homem que morreu lutando pela justiça e pela liberdade de expressão.



(texto publicado na revista Visconde edição IV - nº 26 - novembro de 2015)

domingo, 11 de outubro de 2015

Henfil: como enfrento a hemofilia - Rosana Romero


A doença é hereditária: falta às suas vítimas o fator coagulante do sangue. Sem socorro, um simples corte pode conduzir à hemorragia. Neste depoimento a Rosana Romero, o humorista, escritor e um dos mais famosos cartunistas do Brasil fala de sua briga com a moléstia incurável.

Véspera do aniversário de São Paulo, em janeiro. Ao gravar um especial sobre a cidade para a televisão, o desenhista e cartunista Henfil, 39 anos, bate levemente o tornozelo ao subir uma escada. Na hora, em meio à tensão geral, nada sentiu. Mas ao chegar em casa deitou para relaxar um pouco e a dor começou. No dia seguinte, pela manhã, ele mal podia andar. O corpo arqueado, os passos arrastados e os movimentos lentos indicavam o que significa uma simples batida no corpo de um hemofílico: dias de dores e a constatação da perene fragilidade com que convivem.

Mas cada hemofílico tem uma forma especial de enfrentar a doença (hemorragias espontâneas ou devido a machucados), cuja origem é a produção insuficiente do fator VIII de coagulação sanguínea - uma proteína quimicamente instável, presente no sangue. "Se me perguntam se sou hemofílico considero isso um insulto, porque é algo que já neguei, não aceito, não reconheço; não mantenho relações comerciais ou diplomáticas com a doença. Trata-se de algo clandestino em minha vida. Recuso-me a aceitar suas manifestações; toda vez que ela me atinge, considero a situação uma derrota e saio para luta - não me deixo vencer!"

"Essa determinação o acompanha desde moleque, no norte de Minas Gerais, quando Henfil constatou que ele e mais dois irmãos eram hemofílicos; oito irmãos não sobreviveram por falta de assistência médica (a família era pobre); e as cinco irmãs não tinham o problema - a doença é transmitida hereditariamente pela mulher, mas não a afeta. Isso provocava no menino uma revolta muito grande.

"Quando começamos a entender que as mulheres só transmitiam a doença mas não a sofriam, ah, que raiva das minhas irmãs! Elas podiam correr pra lá e pra cá, se cortar, jogar futebol; nós, os três machos, todos lá deitadinhos, cheios de recomendações. Um pequeno corte levava uma semana sangrando. Para arrancar dente era um mês de hemorragia. Bastava cair ou bater o joelho para formar um hematoma que ia crescendo e doía muito."

D. Maria, a mãe, passava noites acordada se um dos filhos estivesse com dor; porém não tinha consciência da real gravidade da doença.

"A gente era orientado para ter cuidado, mas o excesso de preocupação muitas vezes nos tornava mais vulneráveis; a falta de movimentação e de exercícios também é perigosa para o hemofílico."

Durante muito tempo, nenhum mineiro soube diagnosticar a doença daqueles meninos.

"As crendices da época diagnosticavam uma doença chamada "púrpura", desequilíbrio que já teria sido experimentado até por Jesus Cristo, e responsável por seus suores de sangue. Mas um dia meu irmão Betinho - aquele cantado por Elis Regina,na música O Bêbado e o Equilibrista (de João Bosco e Aldir Blanc) - caiu e cortou o lábio. Nada estancava a hemorragia e Betinho foi para um hospital, onde recebeu transfusões de sangue. Minutos após, pronto! O sangue parou. Fora um milagre!"

"Um médico, então, resolveu dedicar-se ao caso. Estudou e descobriu o que já era conhecido em outros países; o fator de coagulação inexistente poderia ser introduzido através da transfusão de sangue de uma pessoa normal."

"Constatada a hemofilia sentimos até orgulho,por ser uma doença de sangue azul, da nobreza. Dizem que é consequência dos cruzamentos familiares. Provavelmente somos filhos bastardos da rainha Vitória, descendentes de algum caso da rainha com o cocheiro."

Dependendo da situação emocional, pode ocorrer uma redução ainda mais acentuada do fator VIII de coagulação. No caso do menino Henfil, por exemplo, em época de festas, véspera de Natal, aniversários, homenagens, punições, a doença piorava. Mais comum era a artrite hemofílica - dor aguda no cotovelo, com menos inchaço do que a também comum artrose no joelho. A perturbação era resolvida com compressas de água quente, sedativos ou até mesmo "fortes mentalizações".

"Até a lua pode desencadear manifestações da doença - comecei a notar que em certos períodos do mês ficava mais propenso a sangrar ou a ficar dolorido. Parece que nós também temos menstruação. Só que receei virar cobaia de mim mesmo. Quer dizer, eu corria o risco de me condicionar a ter problemas toda vez que fosse lua nova e abandonei a ideia. Mas algo ficou marcado: periodicamente há uma baixa no fator coagulante do meu corpo."

"Nesses períodos uso de tensão, associada ao movimento. Explico. Até os 18 anos, quando jogava muita bola, caso levasse um chute, imediatamente tensionava o corpo. Em vez de paralisar os movimentos, esfregava a região até ficar bem quente. A circulação do sangue, então, evitava maiores derrames. Se levasse uma pancada no braço, ficava 10 minutos movimentando a articulação, com exercícios contínuos. O importante era não deixar a dor ganhar. Assim, evite uma série de deformações."

"Além das massagens e dos exercícios, havia um terceiro elemento fundamental: a raiva. Cada vez que não ava para exercitar o local atingido, eu lançava uma raiva tão grande, concentrada, na dor, que ela passava instantaneamente."

E isso vale para todos os hemofílicos?

"Cada um tem seu jeito. Um tratam a hemofilia como mãe. Têm o maior carinho, se entregam aos seus caprichos. Se você dá uma negativa para um cara assim, ele pode somatizar. Sua fragilidade, alimentada pela superproteção familiar, faz com que ele utilize a doença para receber carinho, não ir à aula, não ser punido. Ele não cresce nunca. Tem um complexo de Édipo com a doença, costuma ser franzino e tem muitos problemas físicos. Já o que tem complexo de Electra enfrenta a doença como um pai. Eu escolhi esse caminho. Rebelde, luto contra suas imposições e sou fisicamente forte, apesar das limitações."

"Também desenvolvi um sétimo sentido, para compensar a perda da flexibilidade infantil. Os orientais o obtêm com a prática de artes marciais; os negros, com o treino da capoeira. Eu, como bom mineiro, inventei minha própria técnica de destreza, quando trabalhava como boy numa agência de publicidade."

"Ao percorrer o centro de Belo Horizonte, onde circulavam milhares de pessoas, andava muito depressa, me desviando das pessoas com golpes de corpo. Quem via não entendia nada, mas era uma forma de treinar minha agilidade para evitar agressões e baques. O resultado é que, em brigas de turma, dificilmente alguém me acertava. Era também uma forma de garantir a rebeldia em relação à hemofilia. E dava certo."

A coisa complicou quando, aos 20 anos, Henfil virou desenhista, com vida sedentária.

"Minha profissão é favorável à hemofilia. O trabalho intelectual obriga a posturas incompatíveis. O homem não foi feito para ficar horas sentado, mas parece que a família e a sociedade encaminham o hemofílico para profissões supostamente de menor risco. Quando fico ansioso como desenhista eu crio, porém meu corpo não se movimenta. Resultado: a ansiedade, que é fatal para nós, não se esgota com a arte, pois ela gera sua própria ansiedade, puramente mental. E o físico contraído prejudica as articulações. Se eu quisesse ser artista deveria ter escolhido a profissão de ator, nadador ou ginasta olímpico. Mas já que o intelecto ganhou dos músculos, o jeito é desatrofiar. Com a ajuda de minhas verdadeiras aliadas da causa, amigas fisioterapeutas, consegui desenvolver fortes músculos de cinco anos para cá. As pernas engrossaram e uma verdadeira couraça muscular evita maiores baques."

O excesso de atividade intelectual, no entanto, foi responsável, durante anos, pelos terríveis derrames nos rins, comuns à maioria dos hemofílicos. Geralmente provocados por excesso de ácido úrico, eles são acompanhados de coágulos, cuja dor equivale a vários cálculos renais de uma só vez.

"Dá vontade de subir no telhado ou enfiar a cabeça no forno. A dor é horrorosa e não adianta tomar sedativo na veia, pois o metabolismo se tranca e o coágulo não passa. Pode levar seis horas ou dois dias e você nota quando ele está saindo pela uretra. Eu atesto: a coisa melhor do mundo é quando ele sai. Eu achava a vida uma maravilha, beijava todo mundo. Um dia, a dor estava tão aguda que eu gritava: chama o Fleury, eu confesso! Lembro que comecei a rir e quem estava perto riu comigo. Nisso, consegui algo dificílimo, mas imprescindível para facilitar a passagem do coágulo: um minuto de relaxamento. Aí deitei e tentei segurar a sensação, isolando o ponto que doía, pois o resto era radiação. Em meio à luta mental intensa, simulei que urinava e mentalizei meu dedo no coágulo, expulsando-o. Foi incrível. Ele se moveu lentamente e saiu."

Henfil praticou muito tempo a reflexologia e costumava usar o relaxamento hipnótico para ordenar ao cérebro que estancasse a hemorragia. Autoritariamente. Com sucesso.

"Sou mesmo um cara muito autoritário, até colérico. Quando fico com raiva pareço o Figueiredo, meu olho fica vermelho, faço loucuras. Resolvi utilizar essa energia. Era mais fácil do que relaxar em meio a tanta dor. Quando eu notava o primeiro sinal do coágulo - urina espumosa - me trancava no banheiro e dava bronca nela. Com raiva mesmo, xingando. Ela se modificava na hora. Cheguei a usar o treinamento autógeno, fixando-me num reforço de fora. Então, se ela estivesse cor-de-rosa - o segundo sinal de coágulo é um avermelhamento - eu mentalizava a cor amarelo-escura, olhando para algum objeto nesse tom. Depois aplicava a cor branca e o corpo obedecia. O gozado é que ela ficava três dias branquinha de medo."

"Mas nem sempre o esculacho funciona. Há dias em que estou de pouca fé, desmoralizado, politicamente incorreto, sem forças para dar ordens. Quando rebolo na área, fazendo conciliações, a técnica não funciona. É preciso estar mais pra Teotônio do que pra Tancredo."

Hoje existem métodos mais eficazes para controlar a hemofilia do que na infância do Henfil. Antes, qualquer hemorragia obrigava a transfusões de seis em seis horas. Quem ia arrancar um dente tomava mais sangue do que precisava e depois devolvia o excesso. Descoberto o fator coagulante no plasma sanguíneo, os hemofílicos passaram a tomar a quantidade conforme a circunstância.

"É o chamado crio, uma injeção de plasma na veia que pode ser aplicada em casa mesmo. Se você sofre um pequeno acidente ou vai arrancar um dente, toma o suficiente para evitar hemorragia. Mas minha rebeldia não aceita dependências. Resolvi doar meus crios para um Centro Hemofílico, por julgar que o seu uso favorece acidentes - afinal, relaxa as defesas e a vigilância. Resolvi partir sem proteção. Só tomo se acontecer algo sério. Como estou atento 24 horas por dia, sei me desviar dos obstáculos antes que me atinjam. E isso é válido até para o sono."

"Durmo extremamente contraído, condição indispensável para acordar em forma. Sempre que durmo relaxado, acordo com problemas. Costumo arrumar algo que provoque tensão. Por exemplo, agora quero fazer um filme e muitas sequências estão indefinidas. Durmo com a dúvida, tenso, e de manhã tenho a solução."

"Sou uma pessoa 100% tensa, mas sei dosar a raiva. O objetivo é criar uma permanente couraça muscular, associada à fisioterapia e correta atitude mental. Tudo deve ser equilibrado, pois o excesso de tensão pode gerar um infarto. Aplicada a disciplina, o espírito de combate pilota a hemofilia e atuo com eficiência maior na criação. Escrevi o Diário de uma Cucaracha em sete dias. A revista do Fradinho, de 50 páginas, com desenho e texto, levava oito dias. Sou capaz de trabalhar em todos os jornais do Brasil ao mesmo tempo e quando não tenho ideia entro num processo de tensão controlada e zupt! Em 15 segundos crio um cartoon. Os melhores saem assim."

Os hematologistas aliados respeitam o jeito de Henfil.

"Eles não vêm com a arrogância da maioria dos médicos que dizem: impossível. Nos EUA, quando eu dizia como piloto a hemofilia, me olhavam como se fosse macumbeiro. Com os que me entendem troco ideias, porque eles sabem que não posso depender de nada. Me viro ou morro."

Nesse jogo vale tudo. Devido à vida sedentária, Henfil perdeu dois joelhos, ambos com artrose irreversível, cuja única esperança é o raio laser, talvez em alguns anos. Ou a engenharia genética, que acena com o fator VIII produzido por bactérias ou fermentos, em dois ou cinco anos.

"Aí a gente se liberta do plasma, que hemofílicos tomam às vezes sem precisar, só para evitar problemas. E aí ficam sujeitos aos AIDS. Eu não vou ter AIDS porque não tomo plasma. Meu corpo até desenvolveu rejeição ao crio e eu tinha que receber uma combinação de elementos para obter o fator VIII. Por isso, além das dicas ensinadas pelas fisioterapeutas - as mulheres é que me trouxeram a doença, elas que tratem de segurar as pontas -, desenvolvi um oitavo sentido. Vou explicar."

"Sou um verdadeiro radar humano. Percebo quem é capaz de agressão, aquela que o povo diz que seca. Vem de pessoas capazes de prejudicar fisicamente uma outra, de adoecê-la. Soltam uma química, uma energia, que provoca alterações no metabolismo do outro. O famoso olho gordo. Como sou alguém de certo destaque,  o olho está sempre presente e pode me enfraquecer. Se não o anulo de imediato, adoeço. Já me aconteceu isso em restaurante, teatro, gravações."

"Como reconhecer o olho? A medida é o bem-estar. Se alguém olha e você fica alegre, a vibração lançada é a de vida. Quando você sente mal-estar, inquietude, a energia é destrutiva. Se não percebo a tempo já saio do local com o braço doendo, até sem conseguir andar. Prefiro, por isso, cultivar a tensão, evitando uma fragilidade perniciosa. Tem gente que diz: relaxe. Aí você vira bicho-grilo, jogador de fliperama, um odara, que é essa bucha de canhão para ser usada por qualquer nova invasão estrangeira. A prostituta cultural. O cara chamado tenso tem um caráter político bom, é revolucionário, rebelde, o elemento mais importante da nossa sociedade."

Atualmente, a proposta de Henfil é canalizar essa experiência para a cura dos joelhos.

"É megalomania mesmo. Vou analisar as radiografias com o dr. Eurico Coelho, o grande pai dos hemofílicos em São Paulo, e receber explicações sobre os pontos de calcificação. Depois limparei toda a área, mentalizando. Sem deixar de tomar meus remédios homeopáticos, claro. Tomo dois comprimidos diários contra hemorragias nos rins e nunca mais tive coágulos ou artrite hemofílica nos cotovelos. Outra substância infalível é o veneno de cascavel, Protamus horroris, cuja dose varia conforme a intensidade da dor. O tornozelo atingido nas últimas gravações só não inchou porque tratei logo de tomar meu veneno de cascavel. Além disso, em breve começarei a praticar antiginástica: estou precisando de flexibilidade, estiramento."

"Outra técnica: o poder do grito. Sempre que corto o dedo, cozinhando, dou um grito ou uma olhada tão furiosa para o corte, que ele nem chega a pingar sangue. Em dois dias está cicatrizado."

"Quanto a remédios, alerto contra certos medicamentos, principalmente a aspirina e todos que contenham ácido acetilsalicílico (Sonrisal, Melhoral, Alka Seltzer, etc.). Alguns hemofílicos continuam tomando, sem saber que o ácido provoca alterações sanguíneas que podem levar ao derrame nos rins, com hemorragias violentas. Também bebidas são perigosas. O vinho é vasodilatador. Se você bebe muito - isso vale para qualquer pessoa - e sofre um acidente ou baque, vai sangrar mais. No meu caso, a bebida é danada. Mas eu não deixo de beber por esse motivo. Lembre-se: eu é que piloto a hemofilia. Deixo de beber porque desejo manter a lucidez. Se relaxar fico desatento e posso me machucar."

Henfil olha para a frente. Não há pai mais severo, dentro de sua concepção do complexo de Electra. Nem mais combativo piloto do destino. Por isso, o mais conhecido cartunista do Brasil agora parte para a antiginástica e a colheita de um novo fruto em sua vida permanentemente criativa: o cinema. A hemofilia que se cuide.




(texto publicado na revista Viva Vida com Saúde! nº 6 - março de 1984)

sábado, 10 de outubro de 2015

Os conselhos do Dr. Zerbini para enfrentar a crise


Achei o seguinte artigo na revista Saúde de 1983 e apesar de já terem se passado 32 anos do seguinte depoimento do cardiologista responsável pelo primeiro transplante de coração no Brasil, o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, os seus conselhos valem até hoje.

Como você, outros 120 milhões de brasileiros estão vivendo sob o impacto emocional da crise que o País atravessa. Impedir que ela atinja o seu bolso é difícil. Mas evitar que ela faça do seu coração mais uma vítima, você pode. Saúde entrevistou o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, uma das maiores autoridades mundiais em cardiologia. Eis o que ele ensina.

Uma cidade tem vários canos e precisa de muita água para se abastecer. Se por qualquer problema os canos entopem, a água começa a diminuir e talvez não consiga chegar ao seu destino. Conclusão: a cidade pára.

O mesmo acontece com o nosso coração. Ele precisa do sangue para exercer as suas funções e não pode parar de trabalhar. Portanto, é necessário que as artérias, responsáveis por conduzir o sangue até ele, estejam em perfeito estado.

Isso, no entanto, nem sempre é possível. Em geral, com o avançar da idade, depósitos de gordura tendem a se acumular nas paredes arteriais, lesando-as. É a aterosclerose das coronárias.

No começo, a doença provoca uma diminuição do fluxo sanguíneo, prejudicando o coração devido à falta de oxigênio. Um sintoma desse estado é o aperto no peito - a angina pectoris. Às vezes, no entanto, as artérias são bloqueadas de vez e nenhum sangue chega. É aí que acontece o enfarte do coração.

Estas doenças não se instalam do dia para a noite. Com exceção das que resultam de fatores congênitos (nesse caso, não há o que fazer), são consequências de anos e anos de coração maltratado. E é exatamente aqui que você pode intervir, prevenindo-se contra as doenças cardíacas provocadas pela aterosclerose - a principal causa de morte em todo o mundo.

Cultive uma solene indiferença às tensões

Um dos grandes inimigos do coração, que caracteriza a instabilidade da vida moderna, pode ser driblado por você no decorrer da vida. Nome do bandido: stress.

Embora a medicina ainda não tenha conseguido estabelecer o quanto o stress é capaz de prejudicar o coração, vários estudos têm demonstrado que moradores dos grandes centros têm mais problemas cardiovasculares que os índios. A comparação é eloquente. Você concorda? Não bastasse isto, experiências de laboratório provaram que os animais, submetidos a stress contínuo, desenvolvem lesões nas artérias, dificultando a circulação do sangue. Conclusão: embora as provas ainda não sejam definitivas é bom certa indiferença em relação às situações que causam stress. Do contrário, quem sairá perdendo nesta luta será ele - o seu coração.

Outros fatores de risco já têm a sua culpa comprovada. Você os conhece bem, mas parece que nunca é demais lembrá-los. Um deles, definitivamente, é o fumo. Ele deve ser abolido da sua vida. Além de tóxico, interfere na saúde do miocárdio e pode provocar espasmo nas artérias coronárias, contribuindo para a diminuição do fluxo sanguíneo. Tradução: fumar é veneno com todas as letras.

A hipertensão arterial é outro fator de risco da insuficiência coronária. Por conseguinte, controlar a pressão arterial ajuda muito. Se a pressão alta for associada ao tabagismo, o risco de insuficiência das coronárias é maior. E se a esses dois fatores você acrescentar também o alto nível de colesterol, o perigo de insuficiência coronária se multiplica.

Diabetes, excesso de peso e álcool são outros inimigos do coração - isso está mais do que comprovado. Assim, controlar a diabetes, o peso e a ingestão de álcool são medidas preventivas, às suas ordens. Explicando melhor: diabetes lesa as artérias. O excesso de peso, entre outras consequências, força o coração a bombear maior quantidade de sangue (cada quilo a mais é esforço extra). E o álcool, mesmo em pequenas doses, pode provocar uma miocardite (inflamação do músculo cardíaco). Lição a extrair: beba só moderadamente - pequenas quantidades e de vez em quando.

Mexa-se, mas com orientação médica

Fazer exercícios é medida preventiva da maior importância. Adote um esporte para o futuro bem-estar do seu coração: não tenha preguiça! A falta de movimentos é que provoca a degeneração do sistema vascular dos músculos e de alguns órgãos. Além disso, geralmente é acompanhada do excesso de peso que, como você já sabe, faz mal ao coração.

Um reparo, no entanto: não adianta você se exaurir de tanto praticar esportes no fim de semana e depois passar os outros dias sedentários. Exercícios só são benéficos quando praticados assiduamente.

Outra coisa fundamental: você só deve praticar esportes sob orientação de médicos especializados. Eles é que devem indicar qual o exercício e a quantidade adequados ao seu caso. Essa regra deve ser obedecida, mesmo que você nunca tenha tido algum problema de coração. E se você já tem algum problema, está absolutamente proibido de fazer movimentos sem controle médico.

Os esportes ideais são aqueles passíveis de controle e que têm continuidade: correr, andar de bicicleta. Em outras palavras: deixes de lado os competitivos, que forçam o coração.

Existem outras moléstias cardíacas que você pode prevenir. A febre reumática é uma delas. Causada por uma bactéria chamada streptococo, e que ataca principalmente crianças e adolescentes, ela inicia-se nas articulações e pode lesar as válvulas do coração - em especial as do lado esquerdo, a mitral e a aórtica.

Como controlar? Um surto de febre reumática tem duração variada. E não é como outras doenças que, uma vez diagnosticadas e tratadas, nunca mais aparecem. Há sempre o risco de novos surtos e aí é que entra o tratamento preventivo à base de antibióticos (em geral, até que a pessoa atinja os 20 anos!).

Isso evita novos surtos e, consequentemente, protege o coração.

Cuidado com as infecções

Outra medida preventiva de grande importância é o controle cuidadoso de qualquer infecção que surja no corpo, inclusive focos dentários. Por quê? O germe, através da circulação do sangue, pode se disseminar pelo corpo, atingindo o coração e provocando uma doença que lesa as suas válvulas: endocardite bacteriana.

Já as cardiopatias congênitas não são passíveis de grandes prevenções. Infelizmente, três em cada 3 mil crianças nascem com elas.

Resultam da má formação do feto, mas sabe-se atualmente que determinados fatores interferem no seu aparecimento.

A talidomida, um remédio tranquilizante usado na década de 60, é um trágico exemplo. Foi responsável por deformações em todo o corpo, inclusive no coração. O caso demonstrou que substâncias tóxicas podem causar doenças cardíacas nos fetos em formação, particularmente nas primeiras semanas. O fumo e o álcool, aliás, estão entre elas, deveriam ser evitados a todo custo pelas futuras mamães. Elas precisam fazer o possível, também, para não se contaminar de infecções que lesam os fetos (a rubéola é a mais conhecida).

Como você vê, é possível prevenir em boa parte as moléstias cardíacas, mudando o seu modo de vida.

Os meios estão à sua disposição - é só optar por  eles.

Os resultados, você colherá a partir de hoje.



(texto publicado na revista Viva Vida com Saúde nº 1 - 1983)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Esta adolescente trouxe o namorado para casa. Mas jamais imaginou que o pai seria capaz DISSO! (Não acredito!)



Para qualquer pai, este certamente é um dos momentos mais difíceis da vida: encontrar outro homem na cama da sua filha adolescente. O importante é saber como lidar com a situação sem perder o controle. Este pai conta a sua experiência. O depoimento completo, que foi originalmente publicado na plataforma Reddit, é lindo e pode nos ensinar muito sobre a solidariedade e o amor. 

"Um manhã, eu me levantei, desci as escadas e dei de cara com esta situação: minha filha de 17 anos dormindo na sala com um garoto. E pelo visto, a noitada tinha sido "árdua". Em silêncio, preparei o café da manhã, subi de novo as escadas e disse para minha esposa, meu filho e minha filha mais nova que não podíamos fazer barulho porque tinha gente dormindo. Então, todos descemos. A nossa mesa fica do outro lado da sala, bem de frente para o sofá. Nós todos nos sentamos e eu gritei "RAPAZ!" Eu nunca vi alguém levantar tão rápido na minha vida. "O café está pronto", eu disse, com aquele tom de pai que está prestes a sugar sua alma pelo ouvido esquerdo. Puxei a cadeira ao meu lado. "Senta!"

Deve ter sido os 6 metros mais difíceis para um garoto totalmente nu atravessar, principalmente se ele também tem que esconder a inevitável ereção matinal. Minha filha mais nova e minha esposa não conseguiam parar de olhar. Ele vestiu as roupas jogadas ao lado da mesa e se sentou. Meu filho (1.90 de altura) deu um tapinha em seu ombro, olhou-o bem nos olhos, suspirou e sacudiu a cabeça. Neste ponto, o pobre garoto estava muito, muito nervoso. No meu tom mais intimidador eu então disse: "meu amigo, eu agora vou fazer uma pergunta muito important... para você..." O suor lhe escorria pelo rosto. "Você gosta de gatos?"

Ele era um garoto muito simpático e agradável. Não tinha muita educação formal, mas era óbvio que ele era inteligente. Minha filha me assegurou que ele era muito atencioso e carinhoso. Ela o conhecia há pouco mais de um mês. Daquela manhã em diante, ele passou a frequentar nossa casa diariamente, mas nunca mais passou a noite.

Todas as manhãs, ele a levava para a escola em sua bicicleta, a trazia para casa depois e se assegurava de que ela fazia o dever de casa. Ele cuidava dela quando ela adoecia e nós estávamos no trabalho. Ele investiu tempo e cuidados e tinha a paciência de um santo quando minha filha estava de mal humor. 

Ele disse que não tinha família, educação formal ou emprego fixo. Mas minha filha o adorava. Então, quem era eu para impedir que ela aprendesse com seus próprios erros?

Passados 8 meses, meu filho um dia me disse que havia feito perguntas e averiguado a história do namorado da irmã. Resulta que ele morava na rua. Seu pai, que havia sido violento, tinha cometido suicídio. A mãe, viciada em crack, o havia abandonado 3 semanas depois. Na época, eles viviam em um trailer alugado, mas desde a morte do pai e o sumiço da mãe 3 anos atrás, ele havia sobrevivido nas ruas, dormindo em parques, na casa de "amigos" e em albergues baratos. Ele estava trabalhando em uma obra quando minha filha o conheceu a caminho da escola. Ele era um rapaz atraente, ela uma garota de 17 anos, hormônios à flor da pele... acho que era mesmo inevitável.

Então, lá estavámos nós e este garoto. Um garoto de 18 ou 19 anos, educado, que chegava sorrindo e saía sorrindo. Um garoto que se importava, que ajudava sem precisar pedir, que fazia minha filha feliz. Um garoto que nunca teve a chance de ser criança. Filho de um pai maníaco depressivo e de uma mãe viciada em drogas, dependia dos vizinhos para comer ou então passava fome.

Às vezes, quando ele conseguia trabalho e não aparecia, sentíamos sua falta. Eles não eram melhores amigos, mas meu filho gostava dele. Minha filha mais nova confiava nele cegamente e a minha esposa já se sentia mãe dele também. E quanto a mim? Descobri que me preocupava com ele, queria que ele fosse feliz.

Eu contei à minha esposa e filha o que havia descoberto. Elas choraram muito. Para mim foi muito difícil contar toda a história, principalmente porque a reação da minha filha mais velha me decepcionou. Ela sabia a verdade. Ela deveria ter nos contado. Ela o amava mas o deixava ir todas as noites... para onde?! Pensei, que filha eu havia criado?!

No próximo dia, eu entreguei a ele a chava da nossa casa. Disse que o esperava em casa todas as noites. Em casa. Durante as próximas semanas, nós arrumamos o quarto de hóspedes, compramos móveis. Ele era muito habilidoso e gostava de construir coisas. Disse que queria ter seu próprio negócio algum dia. Nós garantimos que ele tivesse uma formação que lhe permitiu fazer exatamente isso.

Isso tudo foi em 2000. Hoje, 15 anos depois, meu filho e minha filha têm um negócio bastante próspero. Eles nos deram 2 netos lindos ano passado. Gêmeos, um menino e uma menina."

Às vezes o sentido da vida não está em descobrir quem você é mas em criar a pessoa que gostaria de ser. Esta família teria perdido alguém muito especial se este pai tivesse simplesmente expulsado o garoto de sua casa.

domingo, 27 de setembro de 2015

O adeus de Oliver Sacks (colaboração de Natália Oliveira)


Em carta pública, que repercutiu no mundo todo, o médico neurologista e escritor consagrado, em estado de saúde terminal, fala sobre a vida e a morte

Era para ser uma carta de despedida, mas é um tributo à vida, singelo, comovente e, ao mesmo tempo, profundo, à altura de seu autor, Oliver Sacks, um dos neurologistas com produção literária mais significativa da contemporaneidade. Publicado no The New York Times, em fevereiro último, o texto intitulado Minha própria vida repercutiu no mundo todo. Aos 81 anos, o escritor e cientista encontra-se em estado de saúde terminal devido a um melanoma raro no olho direito, com metástase. A carta recebe o mesmo título - e é por ela inspirada - da autobiografia do filósofo escocês David Hume (1711-1776), citado por Sacks.

"Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi", registrou o médico, que luta contra a doença desde sua descoberta, em 2006. Em seu livro O Olhar da Mente (2010) conta casos de pessoas com diferentes males, a maioria oculares, e se apresenta também como paciente. No capítulo "Persistência da visão: um diário", o autor faz uma reunião de relatos cotidianos sobre sua doença, desde a percepção de sua existência - em uma ida corriqueira ao cinema -, passando pelo diagnóstico e tratamento, até a cegueira que o atingiu no olho afetado.

"É difícil estar mais separado da vida do que eu estou no presente", afirma o neurocientista. Mas, completa, ao se distanciar da vida, olhando-a "como uma paisagem", sente maior conexão com a própria existência. "Isso não quer dizer que terminei de viver. Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento", escreveu. "Isso vai envolver audácia, clareza e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de  tolice)".

O médico reflete sobre sua jornada, mas em nenhum momento em tom de luto. "Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre".

Contudo, declara que não vai mais dedicar seu tempo para as notícias sobre política ou mudanças climáticas. "Isso não é indiferença, mas desprendimento - eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos - até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos."

Doença e identidade

Falando sobre a perda dos amigos, o médico demonstra sabedoria ao lidar com a morte. "Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte", escreveu.

Em entrevista ao jornal El País, em 1997, Sachs falou sobre como interpretava a relação de seus pacientes com as enfermidades que os acometiam. "Para mim é fundamental a relação que se estabelece entre doença e identidade, e a forma como a pessoa reconstrói seu mundo e sua vida a partir dessa doença". Para ele há um fenômeno de se descobrir uma vida positiva, diferente, após certos diagnósticos. "Mas não quero parecer sentimental perante a doença. Não estou recomendando que se tenha de ser cego, autista ou sofrer da síndrome de Tourette, de forma alguma, mas em cada caso surgiu uma identidade positiva após algo calamitoso. Algumas vezes, a doença pode nos ensinar o que a vida tem de valioso e nos permitir vivê-la mais intensamente".

Vivenciando sua teoria, Sacks irá deixar, além de uma obra importantíssima para a medicina e para a popularização da neurologia, uma bela mensagem de despedida. "Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante nesse planeta maravilhoso, e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura", finaliza.



(texto publicado na revista Ser Médico nº 71 - ano XVIII -abril/maio/junho de 2015)

domingo, 13 de setembro de 2015

Meu tipo inesquecível: Querido Beatle - Sir George Martin


No trabalho e nas amizades, George ia com calma - e então nos surpreendia

George Harrison estava com 19 anos quando nos conhecemos. Os Beatles ainda não haviam gravado nenhum disco e tinham aparecido nos estúdios de Abbey Road, onde eu me oferecera para ajudá-los com sua música. Depois de uma hora, chamei-os à sala de controle e disse:

- Escutem isso. E, se houver algo de que não gostem, é só falar.

George olhou para mim, e sorriu:

- Bem, para começar, não gosto da sua gravata.

John e Paul ficaram mortificados, achando que George havia estragado tudo com aquela insolência. Mas é claro que não estragou. Ele quebrou o gelo, todo mundo caiu na risada e eu o adorei. Daquele momento em diante, começamos a ficar amigos.

Muito embora fosse uma torre tão alta quanto as outras no castelo dos Beatles, George era o mais novo do grupo e sofria um pouco em consequência disso. Suas composições eram relegadas a segundo plano no estúdio, sobretudo porque John e Paul vinham produzindo uma série de músicas espetacular, numa época em que as obras dele não eram assim tão impressionantes. Foi difícil para George. Como não tinha um parceiro de composição, ficava isolado, mas sua contribuição para o sucesso dos Beatles não pode ser desprezada.

Sempre incluíamos pelo menos uma canção de George em cada álbum. Durante a gravação de Sgt. Pepper, ele surgiu com Only a northern song, que considerei abaixo do nível das demais músicas do disco, e lhe disse isso. Não era algo agradável de se ouvir e ele, compreensivelmente, ficou chateado. George, porém, era determinado, trabalhavam com afinco e aos poucos aprimorava suas composições. Por fim, apresentou-nos Within you without you, que era diferente de tudo, não muito comercial, mas original e intrigante. Em faixas desse tipo, muito influenciadas pela pesquisa indiana de George, a dinâmica mudava e ele passava a ser o especialista no estúdio. Por sorte eu já tinha experiência com músicos indianos e gostava de trabalhar com George naqueles ritmos exóticos.

Com o tempo suas composições evoluíram esplendidamente. Here comes the sun está entre as minhas canções preferidas dos Beatles e, sem dúvida, Something é uma das mais belas canções de amor já escritas. Fiquei muito feliz quando foi reconhecido como um grande compositor.

Depois que os Beatles romperam nunca mais tivemos oportunidade de trabalhar juntos, pois George não precisava de produtor, demonstrando-se auto-suficiente. Sempre comparo seu trabalho musical à vida do artesão que faz os tapetes persas, criando um desenho magnífico, com centenas de pontos a cada centímetro. George era assim: um grande artesão, de infinita paciência, sempre confiante de estar produzindo a obra certa. Precisei usar todo o meu poder de persuasão para convencer George de que os Beatles deveriam sair em turnê quando Ringo estava doente. Ele achava desleal usar um baterista substituto, argumentando: "Nós quatro estamos nisso juntos."

Há alguns anos, fiquei doente e me submeti a uma série de cirurgias que me deixaram bastante deprimido. George se mostrou extremamente preocupado e me visitou, levando uma pequena estátua do deus hindu Ganesha, lindamente esculpida. "Deixe-o na sua cabeceira", disse. "Ele vai cuidar de você." Devo dizer que, até hoje, tem cuidado.

A última vez que vi George foi pouco antes de sua morte. Ele estava trabalhando, na sua casa em Oxfordshire, no que seria o seu último disco. Até o fim, permaneceu aquele homem tranquilo, cuja fé inabalável transpareceu em sua música e jamais fraquejou. E de quem todos sentimos uma grande saudade.



(texto publicado na revista Seleções de outubro de 2003)

Algumas das composições de George Harrison


"Here comes the sun"



"Something"


"Taxman" com Eric Clapton


"While my guitar gently weeps" com Eric Clapton

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

"Fui contrabandeado para a Europa" - Jacyara Azevedo


A angustiante viagem de 12 dias do sírio Moutassem Yazbek em um barco que partiu da Turquia para a Itália, em uma travessia que já matou 1,5 mil pessoas somente este ano

Até onde o desespero pode levar alguém? Existe um limite? Enquanto você lê estas palavras, há milhares de pessoas tentando atravessar o inquieto Mar Mediterrâneo, amontoadas em botes infláveis ou em porões de navios cargueiros. São jovens, outros nem tanto, gestantes, idosos e crianças que passam dias à mercê de ondas furiosas, quase sem comida ou água. Estão fugindo de seus países de origem, contrabandeados, escolhendo arriscar a vida em busca de esperança. Muitos fracassam. Outros têm mais sorte, como o refugiado sírio Moutassem Yazbek, que concluiu a travessia da Turquia para a Itália em dezembro de 2014, em sua segunda tentativa. E é uma rara jornada bem-sucedida. Eis sua história...

O árabe pagou 6,5 mil dólares para um contrabandista colocá-lo em uma embarcação longe o suficiente da guerra civil de seu país, que já dura quatro anos e não tem perspectiva de solução. A viagem de 12 dias, que em condições adequadas levaria apenas dois, foi uma odisseia. "Eu teria feito qualquer coisa para chegar à Europa. Por mais difícil que seja acreditar, valeram a apena o risco, os maus-tratos e o medo. Tenho uma vida melhor agora", afirmou em depoimento a CNN Moutassem, um ex-executivo de vendas corporativas de uma empresa de aluguel de carros em Dubai, Emirados Árabes Unidos. Atualmente ele está na Alemanha, em Illingen, município da região do Sarre, onde ajuda voluntariamente outros recém-chegados da Síria.

Voltar para a Síria, jamais

Ano passado, Moutassem perdeu o emprego em Dubai. Seu visto de trabalho havia expirado e ele não tinha um lugar para ir. "Voltar para a Síria não era uma opção. Retornar significaria ter de matar ou morrer", ele explica. Assim, escolheu a Turquia (os sírios não precisam de visto para entrar naquele país) como ponto de parada antes de viabilizar um antigo sonho: o de chegar à Europa. Já em Istambul, procurou informações sobre o contrabando ilegal de pessoas e, sinal dos tempos, descobriu muitas páginas do gênero acessíveis via Facebook. Todas apontavam para a cidade portuária de Mersin, na fronteira sul da Turquia, como o local de partida das embarcações rumo à Itália. No hotel onde estava hospedado, conheceu um conterrâneo que planejava partir dentro de alguns dias. O novo amigo indicou-lhe um contrabandista. "Acertadas as condições de pagamento, o homem me disse para estar pronto. A qualquer momento eu receberia uma ligação para partir." Recebeu, poucos dias depois. Era noite e começava a jornada.

Ele perdeu tudo

Cerca de 100 homens e mulheres em cinco ônibus foram levados para um ponto de contrabando, distante de Mersin. Depois, todos tiveram de caminhar na escuridão por meio de fazendas de plantação de laranja, para evitar serem descobertos pela polícia. Moutassem andou por 30 minutos ao lado de gente como uma senhora e seus dois filhos. "Ela tinha muita dificuldade para seguir o grupo e foi informada que, se não caminhasse mais rápido, os barcos iriam embora sem eles", relembra. O plano era colocar os fugitivos em três barquinhos em direção ao navio principal. "Qualquer pessoa com um passado, mas sem nenhum futuro, seria capaz de fazer coisas insanas", justifica Moutassem, que esperou mais três dias no meio do oceano, já em águas internacionais, até receber outros dois grupos de fugitivos. No quarto dia, um total de 300 pessoas partiram. "Não havia como voltar atrás", diz. Oito horas depois, entretanto, o motor da embarcação quebrou e as ondas começaram a empurrá-la em direção à Chipre, ilha situada ao Sul da Turquia, até bater em rochedo e ficar preso. O grupo foi resgatado por um navio da guarda costeira e deportado de volta à Turquia - foram fichados e liberados mais tarde. "Eu já tinha perdido tudo e sonhava em ser tratado com dignidade. Decidi arriscar de novo, mesmo sabendo que aquela loucura muitas vezes termina em tragédia, cheia de infelizes sem nome empilhados uns sobre os outros", confessa Moutassem.

Renascimento

Em apenas 48 horas, ele recebeu uma nova chamada para o já conhecido ponto de contrabando. Dessa vez, encontrou um navio de carga, maior, talvez com 85 metros de comprimento. Esperou cinco dias até formarem o novo grupo, com 391 passageiros (todos refugiados de diferentes cidades da Síria - em 2014, foram 70 mil sírios atravessando o Mediterrâneo). A etapa seguinte foi inesquecível: "Estávamos no porão, não havia colchões, ondas gigantes invadiam o teto e o chão de metal. Passamos cinco dias sem comida e com pouca água. O 'banheiro' era um pneu velho de carro coberto por um pedaço de pano'. No 11º dia, o barco chegou a uma distância de 200 milhas da costa sul da Itália. "Guias" da embarcação tentaram alertar as autoridades italianas de sua presença, alegando que tinham sido deixados à deriva, sem um capitão ou uma tripulação (não era uma inverdade, pois o piloto não possuía registro).

Um navio islandês resgatou Moutassem junto de seus companheiros de viagem. "Os refugiados agitavam as mãos como crianças (...). Foi como um renascimento", lembra Moutassem que pisou em terra firme na província de Catânia, Sicília. Encaminhado para um campo de refugiados, o sírio ouviu que teria de fornecer suas impressões digitais para, então, ser simplesmente liberado. Seguiu para Milão com dois outros sírios. O trio passou por Paris e decidiu fincar bandeira na Alemanha.

Moutassem está em Illingen e tocando a vida. Diz a amigos e familiares em seu Facebook que está bem e sinaliza na rede social seu novo local de moradia. Compartilha vídeos como o de Angelina Jolie em favor dos sírios nas Nações Unidas e cenas de um seriado que gosta: Big Bang Theory. Por enquanto, sua vida de refugiado discretamente "escondido" é essa, até que consiga um visto oficial e realize o sonho de viver tranquilamente na Europa, como tantos outros.



(texto publicado na revista Contigo nº 2069 - 14 de maio de 2015)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Como aprendi a passar tempo sozinha - Liana Gergely


Saio comigo. Vou ao cinema e a museus sozinha. Faço refeições sozinha (e, sim, isso significa resistir à tentação de olhar o Instagram enquanto espero meu prato). Vou a cafés e escrevo meu diário sozinha. Pego o trem e vou para novas cidades, caminhando pelas ruas sozinha.

Entendo que isso possa parecer super idiota. Você deve estar achando que sou esquisita e solitária. Mas, curiosamente, eu era muito mais solitária antes de começar a passar tempo sozinha. A sensação de estar tão pouco à vontade na minha própria pele, achando que precisava estar cercada de gente o tempo todo para respirar fundo - isso era solidão. A sensação de completa ansiedade e medo quando um namorado terminava comigo - isso era solidão. Mas isso? Isso é paz. Isso é diversão. Isso é a matéria-prima da auto-estima. Eis como aprendi a passar tempo sozinha.

1. Fui lá e fiz. E parei de tentar parecer "tranquila"

Pode ser um clichê, mas fui lá e fiz. A primeira vez que você vai ao cinema sozinha é meio constrangedora. Sua bolsa está na cadeira ao lado e você finge para os outros que seu namorado foi só buscar um refrigerante. Aceite, você está sozinha. O constrangimento vai passar - assim como o medo do que os outros estão pensando de você. Pare de tentar parecer "tranquila". É muito provável que você nunca mais veja essas pessoas de novo, e elas provavelmente adorariam estar no seu lugar, vendo o filme sozinhas, sem aquela companhia que não para de falar.

2. Faça uma lista das suas coisas favoritas. E não espere ninguém

Percebi que talvez fosse o caso de passar mais tempo sozinha quando tinha um monte de coisas que queria fazer, mas nunca as fazia por falta de companhia. Se sua banda favorita vai tocar e nenhum dos seus amigos está livre, não perca a oportunidade. Poderíamos esperar até o fim dos tempos pelos outros e depois perceber que deixamos de fazer as coisas que gostaríamos. Além disso, se planejar sozinho é muito mais fácil: não tem aquela troca interminável de mensagens de texto (nem os malditos chats em grupo). Pegue um pedaço de papel e escreva todas as coisas que você gostaria de fazer, mas não faz por falta de companhia. Essa desculpa não cola mais.

3. Marque na agenda. E não dê o cano em si mesmo

Uma vez por semana marco na minha agenda um encontro comigo mesma. Isso pode significar ir ao cinema sozinha, ou simplesmente tomar um banho de banheira e assistir reprises de Sex and the City. Colocar na agenda significa que sou prioridade para mim memsa e me ajuda a não aceitar outros programas que possam aparecer. Não vou dar cano nem cancelar com um amigo, e estou aprendendo a ser amiga de mim mesma. Também é um alívio ter uma noite só pra mim, sem precisar fazer planos, ou procurar o grupo certo de amigos para sair, quando tudo o que mais quero é ficar no sofá. Sem estresse. Sem indecisão. É fácil e reconfortante. E, acima de tudo, tenho a chance de honrar a mim e ao que quero - falar é fácil; fazer, nem tanto.

No último ano, estou solteira por opção, não por circunstâncias. Não porque ninguém me chama para sair ou porque ninguém esteja disponível. É difícil para algumas pessoas aceitarem que prefiro não namorar, e que minha tia e meus amigos me olham meio torto. Por que alguém escolheria ficar solteiro? Para passar tempo sozinho? Não estou deixando a vida passar? Perdendo encontros marcados pelo Tinder? E se O Cara estiver por aí, mas deixo ele escapar porque decidi ficar solteira?

Não tenho o menor problema em dizer que estou saindo comigo mesma. Tem sido a melhor relação da minha vida. Não espero resposta para minhas mensagens (nem me preocupo se elas são muito elaboradas ou carentes). E não fico me perguntando se a outra pessoa me entende.

Isso não significa que não vá voltar a namorar no futuro - vou, com certeza. Mas agora sei que o relacionamento que construí comigo mesma é o exemplo para o relacionamento em que quero estar. Sou bondosa, gentil, paciente, amável e compreensiva comigo mesma. Rio dos meus erros e não me preocupo demais com eles. Sou forte e corajosa. Esse é o tipo de pessoa com quem quero estar e o tipo de relacionamento do qual quero fazer parte.

Sei que não vou entrar no relacionamento pela metade, vou entrar inteira. Portanto, se funcionar ou não, não perdi nada. Ainda sou eu mesma. Ainda sou plena. Ainda tenho a amizade que construí comigo e que aprendi a amar nos últimos 23 anos. Esse é o maior alívio de todos.