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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Beato Luís Caburlotto - Cardeal Odilo Pedro Scherer


A famosa praça de São Marcos, em Veneza, estava tomada de povo. Não eram os turistas de todos os dias, que visitam a cidade aos milhares e se extasiam ao contemplar os mosaicos da basílica de São Marcos, a torre alta de tijolos e os edifícios harmônicos que compõem um dos cenários urbanos mais bonitos e conhecidos do mundo: no dia 16 de maio passado, foram paroquianos de Veneza e peregrinos de diversos países que encheram a praça, em composta assembleia litúrgica, para acompanhar a beatificação do Padre Luís Caburlotto.

Nascido em Veneza em 07.06.1817, filho de gondoleiro, o mais veneziano dos trabalhadores, o menino recebeu sólida educação humana e cristã. Depois dos estudos no seminário de Veneza, foi ordenado sacerdote na basílica de São Marcos, em 24 de setembro de 1842. Em meados do século 19, os tempos eram difíceis em toda Itália: depois da era napoleônica, e em plena revolução industrial, havia crise econômica, migrações, êxodo rural, falta de infraestrutura nas cidades, desemprego, pobreza difusa, violência... Além das tensões ideológicas entre "liberais" e "integristas", a crise moral e a desestruturação familiar eram marcantes. Será forçado ver aí semelhanças com a situação atual do Brasil, bem 150 anos depois?!

Padre Caburlotto foi encarregado de uma paróquia da periferia pobre de Veneza, com muita violência, abandono da infância, falta de escola, desintegração da família e degradação dos costumes. Além da pobreza, os paroquianos haviam também perdido as referências morais. Sem demora, arregaçou as mangas para ajudar o povo da paróquia San Giacomo dell'Orio; sua primeira preocupação foi dar escola e educação às crianças, com atenção especial para as meninas pobres, vítimas de frequentes abusos.

O padre olhava longe e queria prepará-las para o futuro: um dia, elas se casariam, seriam mães e poderiam educar bem os filhos e cuidar de suas famílias. Bem depressa, apareceu a ajuda voluntária e providencial de uma jovem senhora, que compreendeu o ideal e a preocupação do pároco e se dispôs a ajudá-lo. Foi o início da Congregação das Filhas de São José, uma congregação religiosa com o carisma da educação. As religiosas, orientadas pelo Padre Caburlotto, ocuparam-se com escolas, casas para menins órfãs ou com famílias desestruturadas e em dificuldades.

Ele compreendeu o quanto a educação era importante para o futuro das crianças e jovens; por isso, passou a dedicar-se também à escola para meninos e rapazes e aceitou a direção de importantes instituições públicas de educação em Veneza. Não permitiu que a educação fosse aprisionada nas lutas ideológicas entre liberais anticlericais e conservadores fechados, mas defendeu, acima de tudo, o direito das pessoas à boa educação, como condição para formar cidadãos livres e pessoas de bem. Por outro lado, teve a preocupação de promover a educação com valores morais, em todas as suas escolhas, sempre honrou os valores cristãos na educação.

Padre Caburlotto, educador visionário, faleceu em 07.07.1897, depois de ver bem consolidado o seu trabalho e também a Congregação das Filhas de São José. Elas estão presentes em vários países; em São Paulo, elas têm um colégio na Vila Matilde e outro em Santo André; mas também estão presentes em outros Estados do Brasil. A educação é motivo de constante preocupação também entre nós e a beatificação desse sacerdote educador, sem dúvida, é um sinal da Providência para que demos renovada atenção e importância à presença educadora da Igreja junto às crianças e jovens. Esse é um aspecto importante da missão da Igreja, que não pode ser abandonado.

Santos fazem santos. O menino Luís Caburlotto frequentou a escola dos Bens-aventurados irmãos Cavanis, fundadores de uma Congregação voltada para a educação, também eles; deles recebeu ótima formação cristã. Depois, como sacerdote, teve como bispo e Patriarca de Veneza aquele que se tornaria, mais tarde, o Papa São Pio 10º, que também o assistiu na hora do falecimento. A santidade é contagiante.

Na conclusão da beatificação, debaixo de um sol forte de primavera, o atual Patriarca de Veneza, Francesco Moraglia, aplicou ao beato Luís Caburlotto os pensamentos do Papa Francisco: esse sacerdote foi um verdadeiro missionário, que saiu ao encontro das pessoas nas periferias e se fez próximo delas; foi um verdadeiro bom pastor, com "o cheiro das ovelhas", que se dedicou a elas com todas as suas energias...




(texto publicado no jornal O São Paulo edição 3052 - ano 60 - 20 a 26 de maio de 2015)


domingo, 17 de maio de 2015

Sem comunicação, a família acaba - Cardeal Odilo Pedro Scherer



No domingo, dia 17 de maio, celebramos a Ascensão de Jesus ao céu; com esta solenidade litúrgica, recordamos também o envio missionário dos apóstolos: "ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura" (Mc 16,15). Essas palavras de Jesus referem-se à primeira e mais importante missão da Igreja, que é evangelizar. Nelas estão presentes três conceitos de comunicação: "ide", "anunciai" e "Boa Nova".

Por isso, a Igreja relaciona o Dia Mundial das Comunicações Sociais com o Domingo da Ascensão e o envio missionário: a Igreja tem a missão de comunicar; evangelizar é ação comunicadora feita de muitos modos, sobretudo na relação de pessoa a pessoa; é levar uma mensagem - o Evangelho; a um destinatário - "a todos os povos"; com uma metodologia - "ide", ou seja, saindo de si, dirigindo-se aos outros, inclusive com os modernos recursos técnicos da Comunicação Social.

Na sua Mensagem para o 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais, de 2015, o Papa Francisco trata da comunicação em família. Essa abordagem não podia ser mais oportuna, uma vez que a Igreja está preparando a assembleia do Sínodo, de outubro deste ano, sobre o tema da família. Achei a intuição do Papa Francisco muito iluminada! Com frequência, quando falamos do tema da família, pensamos logo nos grandes princípios cristãos que regem o casamento e a família; ou nos problemas do divórcio, da diminuição do apreço ao casamento e à família, nas questões morais ligadas à vida sexual e à transmissão da vida... Tudo isso tem sentido, mas as questões, tantas vezes, são bem mais simples; as pessoas não se falam mais, não há diálogo, não há sintonia no convívio familiar... E aí fica difícil manter viva a família!

O Papa está nos recordando que há questões bem simples na vida familiar, que não devem ser descuidadas no casamento e na vida em família. E se refere à "comunicação" na vida familiar. Será que muitos daqueles "grandes" problemas da família não estão ligados às questões de "comunicação"? Será que a atual avalanche de mensagens de todo tipo, recebidas e assimiladas por meio de todos os recursos de comunicação ao nosso alcance, de maneira nem sempre criteriosa, não está sufocando a comunicação que precisa existir no seio da vida familiar?

Seria interessante perguntar: quanto tempo ainda nos resta, cada dia, para a comunicação em família? Para conversar, trocar ideias, partilhar vivências, informações ou afetos? Ou, simplesmente, para "jogar conversa fora" pelo prazer de estar juntos, comunicar a alma, partilhar o convívio e manifestar estima e afeto? E qual é a qualidade desse tempo que ainda temos para a comunicação em família? Talvez, enquanto conversamos, a televisão ligada pede atenção, navegamos na Internet, atendemos a  telefonemas ou estamos ligados em mensagens de quem está bem distante de nós?

O Papa Francisco, na sua Mensagem, recorda que a família existe, acima de tudo, por um fato de comunicação: o namoro é comunicação; a vida do casal é comunicação; assim, as relações de paternidade e maternidade, de filiação e de fraternidade; sem esquecer que também as relações de parentesco se cultivam na comunicação dos parentes. Se os membros da família deixam de se comunicar de pessoa a pessoa, estas vão se distanciando e a família se torna insignificante. é sufocada e vai à falência múltipla, por falta de oxigenação...

Muitos problemas e crises no casamento e na vida familiar não surgiriam se a boa comunicação fosse mais bem cultivada no seu convívio; e muitas questões doutrinais, como a fidelidade e a indissolubilidade matrimonial, não seriam "problemas", se houvesse verdadeira comunicação na vida familiar.

Quanta coisa uma boa conversa consegue resolver! A comunicação mais elementar é a boa conversa, a escuta, a busca sincera da sintonia com o outro, para estar "ligado" nas mensagens dos outros; às vezes, é preciso desligar um pouco dos próprios programas e dar atenção ao outro; não raro, é bom abaixar o volume da voz ou ficar antenado nas mensagens cifradas dos outros, que pedem atenção e compreensão; e o diálogo, feito entrevista leal, consegue avivar novamente a qualidade dos relacionamentos...

Para não ser vítima do excesso de comunicação formal, que invade todos os espaços e minutos do dia, a família precisa zelar pela boa qualidade da comunicação entre os seus membros. A família vive de comunicação. Vale a pena ler a Mensagem do Papa.





(texto publicado no jornal O São Paulo ano 60 - edição 3051 - 13 a 19 de maio de 2015)