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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A arte de reinventar-se - Tatiana Ferrador



"Nunca desista. Mesmo que o mundo te fale ao contrário, acredite sempre"

Sabe aquele ditado popular que diz que se avida lhe der limões, faça uma limonada? Então, foi isso mesmo que Susana Schnarndorf fez quando recebeu o diagnóstico de Múltipla Atrofia do Sistema, doença degenerativa.

A atleta paralímpica começou a nadar aos 11 anos de idade, ainda que a preferência de sua mãe fosse, na verdade, o balé. Determinada, fez valer sua vontade e começou a treinar duas vezes por semana na escola de natação Tibungo, em Porto Alegre (RS). Logo passou a ir todos os dias. Sua paixão era a água, assim como a de seus irmãos, que praticavam canoagem, e de onde tirava sua inspiração.

Seu desempenho melhorava progressivamente e logo vieram as competições. Aos 12 anos, já pela escola Mauri Fonseca, cujo proprietário homônimo era o ex-nadador olímpico e um dos técnicos de natação mais respeitados do Rio Grande do Sul, recebeu um convite dele para treiná-la.

Até hoje atribui aos seus ensinamentos o mérito de conhecer os verdadeiros princípios para conquistar suas metas na natação. "Ele sempre me dizia que treinar era como construir um muro, cada dia vai-se colocando um tijolinho e quando faltam tijolinhos, o muro cai", lembra.

Já aos 18 anos, Susana foi convidada a nadar pelo Minas Tênis Clube em Belo Horizonte (MG), onde ficou até os 21 anos. Durante esses três anos, teve posição de destaque na natação infanto-juvenil brasileira, mas devido ao excesso de esforço, lesionou seus joelhos e se afastou das piscinas.

De volta à casa dos pais, em Porto Alegre, não conseguiu ficar parada, e durante sua reabilitação, conheceu o triatlo. Começava, então, o aprendizado em uma nova modalidade aos 24 anos.

Graças ao apoio do pai, Ervino Schnarndorf, foi ao Paraguai comprar sua primeira bicicleta. A partir daí, começou a treinar e disputar algumas provas nacionais. Mudou-se para o Rio de Janeiro e teve em sua carreira 13 ironmans, sendo cinco vezes campeã brasileira durante 14 anos na prática esportiva. Casou-se, teve três filhos, separou-se em 2005 e foi acometida de uma grande depressão.

Sintomas 

Engasgos e falta de coordenação. Esses foram os primeiros sinais de que algo não estava bem com sua saúde. Não conseguia mais cuidar das crianças, tampouco prosseguir na sua carreira como triatleta.  Diagnósticos imprecisos e díspares a fizeram pensar que sua vida estivesse chegando ao fim e, por algumas vezes, ganhou a sentença de morte ao ouvir as mais variadas análises, como lúpus, esclerose múltipla, Parkinson, entre outros. "Foram anos muitos difíceis, principalmente por me separar dos meus filhos", conta ela.

Foi apenas em 2010 que veio um diagnóstico mais assertivo: Múltipla Atrofia do Sistema, doença degenerativa. O que seria motivo de conformismo e desânimo, tornou-se uma mola propulsora, e Susana foi incentivada a voltar a nadar. Assim, procurou o mesmo clube em que treinava triatlo e sem nenhuma pretensão, conheceu a equipe de natação paralímpica, que estava treinando ali.

Recebeu o convite do técnico da equipe para treinar com eles. Susana não hesitou e, mesmo se sentindo fora de forma, já com 40 anos, aceitou. Tentou a classificação e foi elegível na classe 58 para a natação paralímpica. Vale lembrar que quanto maior o número de classe (de 10 a 0) menor é o comprometimento da deficiência.

O que Susana não esperava era que bateria cinco recordes brasileiros logo na primeira competição. Passou a integrar a seleção brasileira de natação paralímpica e representou o País nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, conquistando o quarto lugar no nado peito.

Já em 2013, foi eleita a melhor atleta paralímpica do ano, pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), após bater o recorde mundial nos 100 metros nado peito - classe SB6, em Montreal, Canadá. "Tirei força nos meus filhos, nado por eles e para eles. A natação é meu remédio diário", diz a nadadora.

Os anos de 2014 e 2015, foram outra prova de superação para Susana, pois sua doença progrediu e seus resultados caíram drasticamente. Desistir? Não, essa palavra não faz parte de seu dicionário. Ela, no entanto, precisou passar por uma reclassificação e, atualmente, encontra-se na classe S5.

Determinada, hoje, aos 49 anos, atingiu o índice para os Jogos Rio 2016 em sua nova classe e comemora a alegria de poder competir "no quintal de casa", como diz.

"Ter meus filhos, minha família e meus amigos na arquibancada é algo que não tem preço. Vou realizar o maior sonho da minha vida e espero dar a vitória para eles", afirma, enquanto segue treinando rotineiramente com a equipe em São Caetano do Sul (SP). E deixa ainda uma dica a todos que estão passando por algum tipo de dificuldade. "Nunca desista. Mesmo que o mundo te fale ao contrário. Acredite sempre." E ela está certa, não?



(texto publicado na revista Ponto de Encontro nº 63 - ago/set de 2016)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eu conduzi a tocha - Walcyr Carrasco



Pensei em bater com a tocha no presidente do Bradesco. Ele ficaria com o trecho plano. Eu, com a subida

Quando recebi o convite para conduzir a tocha olímpica, há meses, levei um susto. Eu, exemplo de atleta? A esteira, que comprei num momento de atitude saudável, serve de cabide. Mas fui convidado para conduzir a tocha em Marília, interior de São Paulo, cidade para onde me mudei aos 3 anos, com minha família. Saí aos 15. Ainda tenho amigos, dos tempos de criança e adolescência. A minha professora de ciências, dona Thelma, tão querida, que me ensinou a pensar, ainda está lá, velhinha. Aceitei, meio sem pensar.

Depois, fiquei apavorado. Em meio à novela Eta mundo bom!, como arrumar tempo para a viagem? Havia uma facilidade. Os filhos de Marília, convidados pelo Bradesco (que também começou na cidade), iriam de jatinho. Bem cedo. Às 7 da manhã, exatamente. Para quem vai dormir às 5, um belíssimo horário, não? Céus. Estaria exausto! Medo. E se derrubasse a tocha? Vergonha mundial!

Na noite anterior, tomei remédio para dormir e mudar meu ciclo de sono. Deitei às 10. Às 4h30 pulei da cama, lépido. Botei meus tênis de corrida (que também comprei em um momento de esperança de ter vida mais saudável). Fui para o aeroporto. Voamos de São Paulo para Marília. Fomos levados ao Instituto de Educação Monsenhor Bicudo, para receber os uniformes e as tochas. Foi lá que estudei. Nessa escola, ganhei meu primeiro prêmio, de redação. Também escrevi meus primeiros contos, incentivado pela professora de português, dona Nilce. E, justamente no local onde recebi o uniforme, fiz minha primeira peça, aos 12 anos. O rapto das cebolinhas, de Maria Clara Machado (eu era o vilão Camaleão Alface). A emoção cresceu.

Botei o uniforme, fizemos fotos. A coordenadora explicou como seria. Tudo incrivelmente organizado. Aprendi a “abrir” a tocha, para liberar o gás. A dar o “beijo da tocha”, quando uma pessoa passa o fogo para outra. Um ônibus me levaria ao ponto em que deveria esperar. Descobri que as tochas mudam a cada condutor. Mas o fogo tem a mesma chama que veio da Grécia, com as bênçãos de Apolo. Gosto muito de Apolo, deus que conduz o sol, na mitologia grega. Pedi uma forcinha.

– Todos vocês, sorriam. Aproveitem! É um momento especial! – avisou a coordenadora.

Em uma ocasião rara, o uniforme não estava deslizando na minha barriga. Salve! Se fico mais barrigudo, shorts deslizam. Se não seguro, fico de cuecas. Segurar como, com a tocha na mão? E aí ela explicou o trecho de cada um.

Horrorizado, descobri que ganhara 200 metros de subida íngreme! Perguntei ao Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, por que justamente aquele trecho era o meu! Somos amigos desde meninos. Ele explicou que era para eu entregar a tocha para ele, em nome da amizade. Ele correria no plano, encerrando o grupo. Depois, seriam os convidados da Coca-Cola. Ameacei quebrar a tocha na cabeça dele. Inútil. O percurso já estava decidido.

De tocha na mão, entramos no ônibus. As ruas estavam cheias, com gente dos dois lados. Fui deixado no meu lugar. Uma jovem, guardiã da chama olímpica, já estava a postos, para me dar apoio. Policiais também. Olhei a subida. Imensa. De repente, a guardiã avisou.

– Vamos atravessar a rua.

José Vicente, da Universidade Zumbi dos Palmares, corria na minha direção. Também é de Marília, começou como engraxate. E criou esse projeto incrível de educação para negros. Estendeu a tocha. Abri a minha. A chama se ergueu! De tocha na mão, escoltado, comecei a me mover. À frente, um carro com música. De súbito, baixou um sentimento inesperado. Corri na subida! Mais ainda, dancei. Não sei o que houve, nunca danço! Só pode ser a chama de Apolo. Quando percebi, já estava diante de Trabuco. Estendi a tocha e passei a chama adiante. E descobri que estava cansado. Mais tarde, ele também confessou:

– Na hora eu não sei o que houve, mas corri e me entreguei. Levei a tocha!

Depois, foi me trocar e voltar. Recebi mensagens mal-humoradas e agressivas pelas redes sociais. Diziam que eu devia ter vergonha de conduzir a tocha, que a Olimpíada nada acrescenta ao país. Penso que a vida deve ser encarada com bom humor. Politizar tudo é perder a paixão. Pouco mais de 1.800 pessoas conduzirão a tocha no país. Fui uma delas. Gostei. Subi 200 metros voando. E descobri o que é o tal espírito olímpico. A gente dá tudo de si, simplesmente.

Ganhei minha tocha. Será um troféu. Já posso me exibir. De barriga ou não, sinto-me na categoria de atleta olímpico.



(texto publicado na revista Época de 11 de julho de 2016)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Armadura para os Jogos Olímpicos - Natalia Cuminale


Com medo do vírus zika e da imundície das águas cariocas, delegações estrangeiras criam uniformes especiais para proteger seus atletas

Os Jogos Olímpicos são uma extraordinária oportunidade para que os fabricantes de trajes esportivos exibam novidades tecnológicas capazes de melhorar a performance dos atletas. A Olimpíada do Rio não deixará de ser uma vitrine para esse segmento, mas por um motivo constrangedor para o Brasil. Estilistas e engenheiros convocados para se debruçarem sobre a indumentária das delegações foram obrigados a lançar mão do conhecimento científico para elaborar trajes capazes de proteger os atletas das ameaças extraesportivas que terão pela frente na cidade-sede da 31ª edição dos Jogos da Era Moderna: as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti e a poluição das águas cariocas.

Em abril deste ano, a equipe olímpica sul-coreana desfilou o seu "uniforme antizika", um conjunto formado por calças, camisas de manga longa e casaco feitos de um tecido providencialmente embebido numa solução que repele o inseto, transmissor também da dengue e da chikungunya. Os asiáticos não divulgaram, mas provavelmente utilizaram uma substância chamada permetrina, que já demonstrou eficácia em afastar o Aedes aegypti e resiste a até 100 lavagens. Os trajes deverão ser usados pelos atletas sul-coreanos nas cerimônias de abertura e encerramento.

Por incrível que pareça, no entanto, nas condições atuais, o zika deve ser a menor das preocupações. A Olimpíada ocorrerá em agosto, quando a circulação do mosquito é naturalmente inibida pelas condições climáticas, fazendo com que caia o risco de contágio. Não por acaso, a exemplo do que já fizera o prefeito Eduardo Paes em entrevista a VEJA, o presidente do Comitê Organizador da Rio 2016, Carlos ARthur Nuzman, criticou os golfistas que anunciaram ter desistido da Olimpíada por causa do vírus. "A zika é pior na Flórida (Estados Unidos) do que no Brasil hoje. E os golfistas estão jogando na Flórida", declarou ele em uma palestra. "Eles não estão vindo porque não haverá premiação em dinheiro." O golfe está fora dos Jogos Olímpicos há 112 anos, ou seja, desde 1904, quando a competição foi realizada em Saint Louis, nos Estados Unidos. O tenista brasileiro Bruno Soares tem usado as redes sociais para ironizar os jogadores desse esporte que não vêm à Olimpíada sob o mesmo pretexto. "Minha esposa pediu para eu lavar as roupas hoje. Não o farei por causa do Zika #EfeitoZika", tuitou ele.

Se a ameaça vinda do ar pode ser considerada baixa, o mesmo não é possível dizer dos riscos escondidos nas águas. Assim, no fim do mês passado, a equipe americana de remo apresentou ao mundo seu "uniforme antipoluição". O traje será utilizado na contaminada Lagoa Rodrigo de Freitas, que, além daquela modalidade, abrigará as provas de canoagem de velocidade. Os novos uniformes, compostos de bermudas, calças, regatas e tops esportivos, funcionam como uma segunda pele, em duas camadas. A primeira impede que a água entre em contato com a superfície do corpo do desportista; a outra é revestida de um material de ação antimicrobiana. "Apesar das boas intenções dos especialistas, é improvável que a estratégia dos Estados Unidos tenha algum efeito prático na prevenção de doenças", diz o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses. Não se trata de pessimismo por mais que o tecido sintético receba um tratamento especial, os atletas de remo e canoagem ainda terão áreas do corpo descobertas, como os braços e principalmente o rosto. Ao contrário do que se imagina, a pele não é a única via de acesso dos patógenos. O risco de infecção também ocorre devido à ingestão ou inalação acidental de água poluída.

Infelizmente, a promessa de saneamento de 80% do esgoto despejado na Baia de Guanabara foi riscada das metas olímpicas. De acordo com uma investigação independente realizada pela agência de notícias Associated Press, as águas cariocas possuem níveis alarmantes e perigosos de microorganismos. Além de coliformes fecais, foram encontrados vírus e bactérias multirresistentes. Esses agentes são capazes de provocar infecções estomacais agudas, que causam vômito e diarreia, ou até problemas mais graves, como meningite, pericardite (inflamação da membrana que envolve o coração) e hepatite. Resta torcer para que, se as armaduras olímpicas não funcionarem, o fortalecido sistema imunológico dos esportistas seja capaz de resistir. E que os brasileiros possam superar a vergonha de oferecer águas poluídas aos atletas.




(texto publicado na revista Veja edição 2488 - ano 49 - nº 30 - 27 de julho de 2016)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Legado da paralimpíada - Roberto Mattus - CIEE


Bastaram um planejamento de longo prazo, iniciado em 2009, e um aumento nos investimentos, de R$ 168 milhões a R$ 375 milhões, para que a delegação de 287 atletas iniciasse ontem a disputa pelo pódio alimentando o sonho de terminar a Paralimpíada do Rio em quinto lugar, entre os 176 países participantes. E, o que é melhor, com a confiança dos brasileiros de que tem tudo para chegar lá. Afinal, de 1972, em Heidelberg, a 2012, em Londres, houve o apreciável salto do 32º para o 7º lugar no ranking paraolimpíco. No intervalo, o Brasil colecionou resultados significativos, atingindo a liderança do Parapan de Toronto (mais ouro que os Estados Unidos e Canadá) e boas marcas no Parapan de Guadalajara.

O histórico de superação dos paratletas não é diferente daquele de seus colegas que acabaram de disputar os Jogos do Rio. Ambas as delegações enfrentam os mesmos problemas de falta de apoio, de verba e de infraestrutura para treinamento, entre outros obstáculos. Com um adicional: "A gente é coitado ou super-herói. Somos tão humanos quanto qualquer pessoa, podemos errar ou acertar. Infelizmente esse estereótipo é uma pressão." A declaração - dada em entrevista pela velocista Terezinha Guilhermina, deficiente visual que em três jogos olímpicos conquistou seis medalhas (três ouros, uma prata e dois bronzes) - é válida também para a árdua competição que as pessoas com deficiência enfrentam na busca pela inclusão no mercado de trabalho.

Alinhado a essa causa desde 1999, com um programa específico de estágio e aprendizagem, o CIEE é testemunha da teia de preconceito e incompreensão que esse segmento enfrenta para conquistar o pleno exercício dos direitos da cidadania. Mas o CIEE também é testemunha, até por experiência própria, dos bons dividendos que a inclusão de deficientes traz para o ambiente organizacional, a começar por surpreendentes produtividade e capacidade e adaptação. Nossa expectativa é que os Jogos Paralímpicos do Rio deixem como legado, além da merecida coleção de medalhas, uma nova visão - mais justa e mais humana - sobre a inclusão das pessoas com deficiência.



(texto publicado no Jornal Jaguaré nº 209 - ano 18 - setembro de 2016)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Vida de Atleta - Natação paralímpica com Daniel Dias (01/05/16)


Susana Schnarndorf - Atleta Paralímpica


Diário de vida: Alex Zanardi, os jogos paralímpicos e a língua italiana


Confesso que não assisti aos Jogos Olímpicos desde o início, mas da metade para o fim acompanhei as competições, principalmente do vôlei masculino e fiquei super feliz com a medalha de ouro que o time obteve, com a emoção de todos, principalmente do libero Serginho, do Bruninho e do técnico Bernardinho. Além do vôlei fiquei super feliz com alguns exemplos de superação como a da judoca Rafaela da Silva, da nadadora Poliana Okimoto e o ginasta Diego Hypólito. 

Os Jogos Paralímpicos comecei a assistir desde o início no dia 7 de setembro e fiquei emocionada várias vezes com a garra dos atletas. Estou torcendo obviamente pelos brasileiros, mas ontem o meu lado italiano falou mais alto. Torci pelo paraciclista Alex Zanardi. Assistindo a alguns vídeos constatei a garra com que ele superou o acidente na corrida de Fórmula 1 em que perdeu as 2 pernas. 

E vendo todos esses exemplos de superação, dou bronca em mim mesma quando começo a me lamentar.

Viva a todos os atletas olímpicos e paralímpicos por terem contribuído para que o Rio 2016 fique na memória de todos nós!!!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Alex Zanardi e i 5 punti fondamentali della preparazione per Rio 2016


Alex Zanardi - Riflessione del campione di paraciclismo


Após ouro, Bruno Schmidt critica jogos noturnos do vôlei de praia na Rio-2016


Arthur Nory, Daniele e Diego Hypolito curtes as férias das Olímpiadas na Disney nos EUA


Após Serginho, Bernardinho pode estar se despedindo da Seleção Brasileira de Vôlei


sábado, 10 de setembro de 2016

Arthur Nory: O ginasta mais completo do Brasil - Márcio Kroehn


Eficiente nos seis aparelhos, o campeão brasileiro transformou um início de ano conturbado em um resultado inédito no mundial. Agora, se credencia para fazer história na Olimpíada de 2016

Todas as vezes em que chega para treinar no Esporte Clube Pinheiros, no Jardim Europa, bairro nobre da capital paulista, o ginasta Arthur Nory, 22 anos, olha fixamente para as fotos do japonês Kohei Uchimura, do americano Danell Leyva e do alemão Fabian Hambuchen. Eles são os principais nomes da ginástica artística masculina - e adversários implacáveis do brasileiro nos torneios mundiais. Uchimura  é um fenômeno. Aos 27 anos, se tornou o maior vencedor do esporte desde o último ciclo olímpico. Depois do ouro em Londres-2012, amealhou seis títulos mundiais seguidos no individual geral. Como inspiração, Nory colou as imagens deles no armário. "Olho e penso que um dia vou ser grande como esses caras", afirma. "Esse é o meu maior objetivo."

O ritual diário de Nory não se restringe a admirar os rivais. Ele também olha para si. Ao acordar, o ginasta repete em frente ao espelho que será campeão olímpico. Mais do que um mantra para ganhar autoconfiança, é uma maneira de não esquecer os motivos que o levam a acordar, todos os dias, às 7 h para cumprir uma pesada jornada de treinos em dois períodos, divididos em técnicas de ginástica e musculação. Ao todo, são de seis a oito horas de repetições de séries em busca da perfeição. O resultado é uma mão calejada e dolorida. Algumas vezes, para aliviar as bolhas que se formam, ele prepara o que chama de poção mágica: creme caseiro com Hipoglós, Bepantol, creme de ureia, Nebacetin, hidratante e Cicatricure (todos liberados pela comissão médica). "Eu quero muito a medalha de ouro", diz. "E sei o que tenho que fazer: acordar cedo, trabalhar forte e abrir mão de muitas coisas."

Os resultados em 2015 mostram que é possível, sim, sonhar com um lugar no pódio. No torneio mundial realizado em Glasgow, na Escócia, em outubro, Nory foi o primeiro brasileiro a alcançar a final na barra fixa. Terminou a competição em quarto lugar. O feito, inédito para a ginástica artística brasileira, também ajudou a tirar uma pedra do sapato. Em 2014, na disputa geral, ele teve uma queda no aparelho e perdeu pontos preciosos, terminando a competição em 21º lugar. O resultado ficou abaixo do obtido no ano de estreia em mundiais, em 2013, quando foi 17º. Ter chegado tão perto de uma medalha mostrou que Nory está evoluindo e se aproximando dos adversários. Uchimura, além da conquista individual, foi ouro na barra fixa. Leyva ficou com a prata.

O brasileiro mostrou no Mundial sua importância para a seleção. Ao lado de Arthur Zanetti, Diego Hypólito, Caio Souza, Lucas Bitencourt, Francisco Barreto e Péricles Silva, o time nacional alcançou o oitavo lugar e se classificou para a disputa por  equipes na Olimpíada. Nory provou ter todas as credenciais para ser o melhor ginasta generalista do País ao substituir Sérgio Sasaki. Aos 23 anos, Sasaki vinha conquistando resultados expressivos até ser atrapalhado por duas sérias contusões. 

Décimo colocado na Olimpíada de Londres e sétimo no Mundial de 2014 no individual geral, ele sofreu uma ruptura no ligamento do joelho direito em dezembro do ano passado. A operação foi realizada um mês depois e a lenta recuperação, típica nessas intervenções, só o fez retornar aos treinos em julho. Apesar de todos os passos do tratamento terem sido seguidos, uma infelicidade levou Sasaki novamente para a sala de cirurgia: uma lesão no ombro direito. Sem a presença do melhor brasileiro, Nory cumpriu o seu papel, algo que Sasaki já previa há dois anos, quando o companheiro estreava no Mundial da Antuérpia. "O Nory é um competidor de alto nível, com um bom histórico em campeonatos nacionais", diz Sasaki. "Tenho certeza que ele vai se sair bem em 2016."

Ser um ginasta eficiente nos seis aparelhos é algo complicado na ginástica. As barras paralelas, as barras fixas e as argolas exigem força e equilíbrio. O cavalo com alças pede movimentos circulares, enquanto o solo e o salto demandam performances acrobáticas. Sasaki se destaca no salto, no cavalo com alças e nas paralelas. Nory tem a barra fixa e o solo como pontos fortes. O físico deles também é  diferente do de um especialista como Zanetti, que tem os ombros, o peitoral e as costas desenvolvidos, o que é ideal para os exercícios na argola. Perto do campeão olímpico Zanetti, Sasaki e Nory não parecem ser tão fortes.

Sem a concorrência de Sasaki, Nory encerrou o ano com o primeiro título brasileiro no individual geral. "Era um objetivo e o dever foi cumprido", afirma. Ao olhar para o futuro, ele não se esquece das lições que o passado ensinou. Quem acompanhou seu primeiro semestre dificilmente acreditaria num desfecho de 2015 tão vitorioso. Em fevereiro, teve que se submeter a uma operação de menisco. A contusão aconteceu da pior maneira possível: uma desatenção na repetição de uma série de exercícios o levou para a mesa de cirurgia. "Eu falo para o Nory que ele tem de estar 100% concentrado", diz o treinador Cristiano Albino. "No nível dele, um descuido é suficiente para machucar."

O pior momento do ano não foi o afastamento de treinos e competições. Um vídeo publicado na conta pessoal de uma rede social de Nory foi reproduzido pelo jornal O Globo, em maio. Nele, Nory, Felippe Arakawa e Henrique Flores fazem piadas racistas direcionadas ao negro Angelo Assumpção, companheiro de clube e seleção. Nas imagens, Assumpção aparece visivelmente constrangido. Os atletas estavam concentrados com a seleção brasileira em Portugal e a repercussão os assustou. Um novo vídeo com um pedido de desculpas foi publicado e a Confederação Brasileira de Ginástica suspendeu os participantes por 30 dias. Aos 18 anos, Assumpção é especialista em salto e solo e disse recentemente ao jornal O Estado de S. Paulo que o episódio deixou uma ferida já cicatrizada. Nory não fala mais sobre o assunto. "O ano dele é de superação, por tudo o que passou", diz a psicóloga Carla ide, que acompanha o atleta desde 2010.

Por pouco Nory não envereda para outro esporte. O ex-judoca Roberto Mariano fez de tudo para o filho Arthur seguir seus passos. Mas Nory treinava no tatame do Palmeiras de olho no que acontecia na ginástica. Acabava o treino e ficava encantado com os movimentos e as técnicas dos atletas. Queria ser igual a eles, mas não havia negociação com o pai, comandante da TAM. Por sorte, a mãe, Nadna Oyakawa, profissional de educação física, foi ministrar aulas num clube da Zona Leste de São Paulo que estava implementando a ginástica artística. Nory começou a frequentar as aulas e, depois de seis meses, fez um teste no Pinheiros. Foi aprovado e, no mesmo dia, conheceu Assumpção. "O Nory não tinha técnica, mas o físico que precisava para ser um ginasta", afirma o técnico Cristiano Albino. "Foi a força de vontade que fez com que ele evoluísse muito rapidamente, em torno de3 seis meses."

Se não fosse pela persistência, Nory não teria ido longe. Durante um ano, para não desagradar o pai, dividia o tempo entre a ginástica e o judô. Não deu certo. Cansado, Nory percebeu que não iria em frente se não escolhesse o que realmente queria. Ficou com a ginástica, para decepção do comandante Mariano. A filha de Mariano, Rebeca Yori, seguiu os passos do pai, se formando comissária de bordo, assim como a irmã, Hanna Yumi. O outro irmão, Israel Mariano, tirou o brevê. Só Nory não está ligado à aviação. Nesse meio-tempo, os pais de Nory se separaram. Foi um choque para o jovem ginasta, especialmente num momento em que ansiava pela aprovação paterna. Triste, o garoto começou a demonstrar falta de concentração nos treinos e fraquejou nas competições. A família, que deveria ser o porto seguro, se tornou fonte de problemas.

O Pinheiros tratou de interferir para salvar o futuro do atleta. Em 2011, o comandante Mariano foi convidado para uma reunião com a psicóloga Carla, o treinador Cristiano e o coordenador técnico Raimundo Blanco, além de Nory. Numa conversa franca, eles perguntaram se o pai conhecia os resultados do filho. Não, ele não tinha ideia. Então foi apresentado aos números e descobriu que o filho não estava na ginástica por birra. O negócio era sério. Feito isso, o comandante Mariano entendeu o que o esporte significava para Nory. Daí em diante, tudo mudou. O benefício não foi apenas técnico, mas pessoal. "Hoje o meu pai tem orgulho de mim e mostra os meus resultados para  todo mundo", diz o ginasta.

A rigidez do comandante Mariano deixou marcas em Nory. Ele, que foi obrigado a tocar piano, utiliza o instrumento hoje em dia para relaxar. A música clássica é o estilo preferido nos momentos em que precisa de concentração. Ao contrário de outros ginastas, que atingem a maturidade aos 20 anos, Nory encontrou a sua dois anos mais tarde. A oito meses da Olimpíada, o momento não poderia ter sido mais apropriado. 




(texto publicado na revista IstoÉ 2016 - dezembro de 2015/janeiro de 2016)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Paradesporto traz inspiração para deficientes - Rafael Oliveira


A proximidade dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro voltou a colocar o esporte adaptado em pauta nas discussões, nas matérias jornalísticas e nas campanhas publicitárias. Um exemplo negativo dessa repercussão foi o polêmico caso da revista Vogue Brasil em associação com a Agência África, no qual os atores globais Cleo Pires e Paulo Vilhena foram retratados com os corpos de dois paratletas e provocaram críticas pela falta de representatividade das pessoas com deficiência.

Em contrapartida, o aumento da cobertura midiática - ainda que tímido ou impreciso - pode ter contribuído para modificar a situação dos ingressos dos Jogos Paralímpicos. A procura pelos 2,5 milhões de ingressos disponíveis para os eventos era baixa - sequer a cerimônia de abertura estava esgotada - até o último dia dos Jogos Olímpicos, mas, na semana subsequente ao encerramento, recordes de vendas foram batidas e o evento já superou a marca de um milhão de ingressos vendidos.

O interesse pelo esporte paralímpico - no qual o Brasil é consideravelmente mais vitorioso em relação ao esporte olímpico - parece ter crescido no imaginário da população brasileira. A uma semana do início dos Jogos, o JC conversou com os responsáveis e com os alunos do curso de natação inclusiva (CNI) da EEFE-USP para saber se esse interesse também se reflete nas pessoas com deficiência e nos profissionais da área.

Inspiração e saúde

Uma das principais esperanças de medalhas para o Brasil nas Paralimpíadas de 2016 é Daniel Dias, dono de 16 medalhas - 11 de ouro, conquistadas em Pequim e em Londres. O nadador paulista é também o primeiro nome que vem à mente dos alunos do CNI quando o assunto é inspiração.

Vanessa Teixeira, que há mais de 2 anos faz parte do curso de natação inclusiva, já foi do mesmo clube que Daniel e garante que vai acompanhar os Jogos Paralímpicos. Para ela, apesar dos problemas políticos, a inédita realização do megaevento no Brasil é "super importante" para o país. A nutricionista de 32 anos, que desde criança pratica a natação, já chegou a competir fora do país, fazendo parte inclusive da seleção brasileira em sua categoria. Hoje, ela nada apenas por diversão e saúde, e se considera uma "atleta aposentada".

Um dos colegas de Vanessa nas terças e quintas de manhã é um funcionário da USP que, apesar de não ter deficiência, possui um problema na coluna e buscou o CNI como forma de tratamento complementar. Para ele, a prática do esporte por pessoas com deficiência "[os] valoriza como pessoas, além de favorecer a parte física" e a convivência com os outros colegas é "bem agradável". "[A realização dos Jogos Paralímpicos no Brasil] é fantástico, o Brasil deveria investir mais em Olimpíadas e nas Paralimpíadas  também. Essas pessoas [com deficiência] merecem isso. É um incentivo a mais estar sendo aqui no Brasil", finaliza o aluno.

Colega de raia do funcionário da USP, Marcos Caelles diz se impressionar com os paratletas. "A gente fica bobo de ver eles nadando, de ver até onde  eles chegam", diz. Aos 54 anos, o aluno do CNI colleciona medalhas de natação e resultados expressivos em corridas de longa distância, com participações na São Silvestre, a principal maratona do Brasil. O paulistano, que começou a praticar natação como forma de tratamento a sua deficiência motora, diz ficar "de olhos inchados" com a emoção de ver os paratletas nadando. "Eu acompanho bastante, [especialmente] as pessoas que têm a mesma deficiência que eu. A gente fica de boca aberta. Esporte é uma coisa que estimula a gente."

A professora Elisabeth de Mattos, responsável pelo curso, compartilha da opinião de Caelles. "Ao praticar atividades físicas, a pessoa com deficiência transforma sua rotina diária e beneficia a saúde do corpo e da mente", explica. Além dos benefícios para o corpo - já que a prática orientada contribui para prevenir enfermidades secundárias à deficiência -, Elisabeth ressalta que o esporte para pessoas com deficiência "promove a integração social, levando o indivíduo a descobrir que é possível, apesar das limitações, levar uma vida ativa e saudável.

As aulas de natação inclusiva da EEFE-USP iniciaram-se em 1995 por iniciativa da professora Elisabeth de Mattos, que desde então é a responsável pelas atividades do curso. Inicialmente, as aulas eram destinadas apenas para deficientes físicos, mas hoje o CNI também aceita deficientes intelectuais e pessoas que não são deficientes, mas possuem problemas de saúde e recebem recomendação médica para a prática da natação. Além disso, parentes ou amigos que sejam responsáveis pelo deslocamento dos deficientes até o curso também são bem-vindos à piscina da Escola de Educação Física e Esporte da USP. As inscrições para o primeiro semestre de 2017 serão abertas nos primeiros dias de janeiro e o valor fica em torno de 300 reais.

História do paradesporto

O esporte é repleto de histórias emocionantes. Vitórias improváveis, esforços recompensados e muitas doses de superação. Impossível esquecer-se de Gabrielle Andersen em 1984, por exemplo. A suíça, que na maratona dos Jogos de Los Angeles completou os últimos duzentos metros da prova exausta e cambaleante, tornou-se a representação maior da superação nos Jogos Olímpicos. Esses elementos, intrínsecos ao esporte, tornam-se ainda mais latentes quando o paradesporto entra em cena. Exemplo disso é a tão inesquecível quanto inesperada vitória de Alan Fonteles sobre o então imbatível Oscar Pistorius - que participava semanas antes dos Jogos Olímpicos - ao lado de atletas sem deficiência - nos 200 m T44, em Londres 2012.

Gabrielle Andersen - Los Angeles 1984

Para que o esporte adaptado alcançasse o alto nível competitivo, com próteses de alta tecnologia e participação de paratletas nos Jogos Olímpicos, porém, quase 70 anos se passaram desde o início do paradesporto. A história do esporte adaptado confunde-se com o fim da Segunda Guerra Mundial. À época, Ludwig Guttmann, um neurologista alemão exilado na Inglaterra, começou a utilizar a atividade esportiva como mecanismo de reabilitação para soldados que retornavam da guerra com sequelas provenientes de lesões medulares. Com o desenvolvimento de sua experiência, em 1948 foram realizados os primeiros Jogos de Stoke Mandeville, cujo nome faz referência ao hospital inglês em que os soldados se recuperavam.

Medalha de ouro para Alan Fonteles em Londres 2012

Doze anos depois, Roma - que havia sediado os Jogos Olímpicos de 1960 apenas alguns dias antes - recebeu 400 atletas de 23 países na nona edição dos Jogos de Stoke Mandeville, no que foi considerado a primeira eidção dos Jogos Paralímpicos.

Desde então, o movimento paralímpico tem se fortalecido e se expandido. Em sua décima quinta edição, no Rio de Janeiro, os Jogos Paralímpicos terão o recorde de 4500 atletas de 176 países - um aumento substancial em comparação com os Jogos de Roma. O Brasil também levará delegação recorde, com 278 atletas - 181 homens e 97 mulheres - nos 22 esportes que comporão essa edição.




Paralimpíadas
Olimpíadas
Faixa de preços da cerimônia de abertura
R$ 100,00 a
R$ 1200,00
R$ 200,00 a
R$ 4600,00
Posição do Brasil em 2012
6º
22º
Número de medalhas em 2012
43
17
Ingressos vendidos a duas semanas da abertura
20%
80%



(texto publicado no Jornal do Campus nº 461 - ano 34 - segunda quinzena de agosto de 2016)

Resumo geral das Paralimpíadas 2016


Estrelas do esporte chegam ao Rio para as Paralimpíadas