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sexta-feira, 3 de junho de 2016

E se... a Terra parasse de girar?


Paralisar o nosso planeta seria uma verdadeira revolução cósmica, de consequências nada agradáveis. Dois dos mais belos fenômenos da natureza - a alvorada e o crepúsculo - só ocorreriam uma vez a cada seis meses. Ou seja, o dia terreno passaria a ter a duração de um ano, metade dele com luz solar e a outra metade nas trevas.

Tudo isso, porém, ainda seria fichinha perto de efeitos colaterais bem mais graves, que tornariam a vida na Terra se não impossível, extremamente difícil. Dois cenários alternativos - e radicalmente antagônicos - desenhariam para a humanidade um futuro duro de encarar: usar toda a ciência e a tecnologia possíveis para sobreviver num ambiente inóspito: ou gelado como Júpiter (temperatura média de -130º C), ou tórrido como Vênus (460º C).

"Se, durante a longa noite de um dos lados do planeta, houvesse acumulação de neve ou congelamento do oceano, a Terra se transformaria num mundo gélido", afirma o meteorologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). "Tudo dependeria do transporte de água do lado quente (dia) para o lado frio (noite). Como a metade noturna teria sempre temperatura abaixo de zero, qualquer vapor d'água que para lá fosse levado cairia como neve e viraria gelo na superfície."

As correntes oceânicas também desempenhariam um papel fundamental nessa troca, transportando calor dos mares quentes, do hemisfério diurno, para os mares frios, da outra face do planeta. Se essas correntes não dessem conta do recado, surgiria, boiando sobre o oceano, uma camada de gelo tão espessa que não derreteria - nem quando voltasse a amanhecer no lado noite. "Como o gelo é branco, reflete muita radiação solar: 50% a 60%, em média. Assim, a pouca luz absorvida seria insuficiente para provocar o derretimento dessa camada. Esse, aliás, é o mesmo mecanismo que faz com que, uma vez estabelecidas, as eras glaciais durem milhares de anos. E se a massa de gelo não derretesse totalmente durante o primeiro dia de seis meses, entraríamos numa eterna era glacial", diz Carlos.

A outra alternativa seria o exato oposto: um calor infernal. Como haveria uma evaporação intensa de água dos oceanos do lado dia, boa parte desse gás permaneceria na atmosfera. "O vapor d'água é um forte gerador de efeito estufa: quanto mais vapor, mais alta ficaria a temperatura próxima à superfície; e, quanto mais alta essa temperatura, ainda mais vapor seria produzido", afirma o meteorologista. O aumento brutal desse efeito estufa poderia chegar ao ponto extremo de fazer evaporar toda a água dos oceanos. Nesse caso, a temperatura terrestre atingiria centenas de graus Celsius - completamente imprópria para a vida.

Mesmo que não acabássemos torrados durante o dia, provavelmente morreríamos por inanição à noite. "Sem luz durante seis meses, os vegetais - que transformam a energia solar em alimento para si e para os animais - se extinguiriam. Assim, desapareceriam também os herbívoros e, logo em seguida, os carnívoros", diz o biólogo Wellinton Delitti, do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, num mundo gélido de um lado e causticante do outro, os únicos organismos com chance de sobrevivência são aqueles que vivem no fundo do mar, próximos às fendas que expelem calor e enxofre vindos das profundezas da Terra. "Essa comunidade de organismos tem sua vida baseada na quimiossíntese e não na fotossíntese: são seres que independem da luz solar", afirma Wellinton. Mas, se essa forma de vida chegaria ou não a evoluir a ponto de, um dia, colonizar todo o planeta, só bilhões de anos poderiam dizer.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mexa-se e purifique seu corpo - Sonia Hirsch


Quer desintoxicar? Mexa-se. A natureza nos deu um fantástico serviço de limpeza que percorre o corpo inteiro e retira tudo o que não serve, mas só funciona quando existe movimento: é o sistema linfático. 

Formado por milhares de pequenos vasos semelhantes a veias e artérias, ele trabalha de baixo para cima - portanto contra a gravidade. Isso significa que, se ficarmos parados, a sujeira se estagna. Se ficarmos imóveis durante sete dias, os tecidos morrem.

O que o sistema linfático conduz é a linfa, um fluído clarinho formado principalmente por células linfócitas e macrófagas, famosas por tirar bactérias e outros bichos de circulação. São a chamada linha de frente do sistema imunológico. E a linfa remove também os excessos de líquido e proteína que os tecidos não conseguem absorver, bem como as sobras de todo o processo que converte comida em gente.

Aí é que está o pulo-do-gato. Por uma simples razão: mesmo não tendo bactérias, sempre há excesso e sobra. E isso engorda, dói nas juntas, inflama os tecidos, entope os tubos e atrai oportunistas como (exatamente) bactérias, fungos, protozoários, vermes. No corpo parado, tudo prolifera. No corpo em movimento, os músculos fazem pressão sobre os vasos linfáticos e praticamente bombeiam a linfa para cima. Ela assim pode vencer a resistência das minúsculas válvulas que impedem seu retorno para baixo e chegar aos gânglios linfáticos, onde é filtrada.

Equipe de plantão

Por isso é que o gânglios incham quando há uma infecção. O que está acontecendo lá dentro? As macrófagas (literalmente, "grandes engolidoras") engolem bactérias, células cancerosas, toxinas, substâncias alergênicas e partículas estranhas de qualquer tipo, enquanto os linfócitos se reproduzem e geram anticorpos para enfrentar os elementos perigosos.

Esse incrível sistema faxineiro também inclui as amígdalas e as adenoides (que são massas de tecido linfático, ou seja, feito de linfócitos e macrófagas), as manchas de Peyer (pequenas concentrações linfáticas ao longo do intestino delgado), o baço, o timo, a medula óssea e o apêndice e ainda está associado a muitas regiões das membranas mucosas que revestem quase todos os órgãos, especialmente dos sistemas digestivo, respiratório e geniturinário. É uma equipe trabalhando o tempo todo.

Mas o melhor é que ninguém precisa decorar nomes nem saber explicar o que acontece para fazer o que interessa: mexer-se. Só o movimento de respirar já bombeia a linfa. Respirar fundo e cantar, então, nem se fala. Andar é bom. Andar em passo acelerado, com ritmo e entusiasmo, melhor ainda. Isso explica por que muitas pessoas se curam de gripe ou resfriado jogando tênios, por exemplo. Consta que, com o esforço, a temperatura sobe e liquida os vírus. Mas agora sabemos que o movimento da linfa desempenha um papel importantíssimo na limpeza, inclusive dos vírus.

Fora, venenos!

A maioria de nós não tem ideia da quantidade de toxinas que chega nos tecidos. São 2,3 mil tipos de agrotóxicos definidos em 270 espécies de culturas, incluindo aí o pasto dos animais que fornecem carne e leite, afirmou recentemente a professora Silvia Tondella Dantas na Feira de Tecnologia da Unicamp, em Campinas, SP. "Um ser intoxicado adoece e qualquer tratamento deve começar pela desintoxicação", declarou a médica Fernanda Bignardi no mesmo evento.

Massagens de drenagem linfática são ótimas para desintoxicar. Escovar o corpo de baixo para cima também. Aquela bucha natural que se passa na pele durante o banho é maravilhoso. Deitar de cabeça para baixo num plano inclinado ajuda muito.

Mas nada se compara ao efeito de dançar, pular corda ou, como descobri há pouco tempo, ficar saltando na minicama elástica, nem que seja por dez minutos. É fácil e divertido, os movimentos acontecem naturalmente, a cabeça fica oca e aparece uma sensação corporal de rara alegria.

Não acredite. Experimente. Mexa-se!



(texto publicado na revista Bons Fluídos nº 51 - agosto de 2003)