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domingo, 14 de outubro de 2018

Netflix presencial: Afeto e nostalgia garantem a resistência das viodelocadoras na era do streaming - Ana Capelli e Isabela Barreiros


Os corredores cheios de caixinhas coloridas, passar horas andando por eles, vagando por cada uma das seções e decidindo qual era a melhor opção. Pedir indicações ao dono da locadora, e às vezes até mesmo às pessoas que visitavam o mesmo corredor que você. Então devolver os filmes da semana seguinte - depois de rebobinar a fita VHS, antes dos DVDs chegarem - , frustrado quando o tempo não havia sido o suficiente para assistir todos eles. As idas e videolocadoras eram um programa frequente para quase qualquer um que tenha crescido entre a década de 1970 e meados dos anos 2000. Hoje em dia é raridade, e nos parece até estranho que alguém saia de casa para escolher um filme, quando temos milhares de títulos e apenas um clique.

A indústria mostrou rapidamente em menos de duas décadas, rebobinamos VHS, usamos aparelhos de DVD e agora assistimos Netflix. Em 2010, havia 2 mil locadoras de filmes registradas no Sindicato das Empresas de Vídeo em São Paulo. Cinco anos depois, o número já havia sido reduzido para 532. As causas disso vêm desde a evolução da Internet em si até os serviços de streaming hoje. Primeiro, as TVs a cabo, que possuíam diversos títulos e exigiam apenas a vontade de vê-los, com comodismo e facilidade. Devido ao avanço da pirataria nas redes, juntamente com a possibilidade dos downloads ilegais, o ato de sair de casa e ir à locadora passou a parecer desnecessário. Isso é ainda mais perceptível quando os serviços de streaming se tornaram os maiores companheiros dos que gostam de cinema. É bem provável que a grande maioria dos clientes das antigas videolocadoras hoje façam parte dos 131 milhões de assinantes que a Netflix coleciona ao redor do mundo.

Mas o computador não traz o cheiro que vem junto com as caixinhas de DVD. Também não consegue repetir a sensação de ter todas as opções de títulos no toque da sua mão. Andar pelos corredores das locadoras é muito mais do que apenas escolher algo para assistir - é a experiência de estar em um ambiente que te possibilite o "além-filme". A facilidade do streaming faz sentido em uma sociedade contemporânea que deseja rapidez e racionalidade em tudo, mas isso não quer dizer que a nossa relação com objetos de afeto precise ser analítica dessa maneira. "Existia uma magia no ato de levar um filme para casa. Eu me lembro do cheiro das fitas, de você precisar rebobiná-las após assistir. Era uma experiência física, muito sensorial e também sociocultural" explica o diretor do documentário CineMagia, que narra os últimos movimentos das videolocadoras no Brasil, Alan Oliveira.

E é acreditando nisso que alguns lojistas teimosamente mantêm seus estabelecimentos. Daquelas milhares de locadoras de São Paulo, poucas resistem até hoje, alimentadas por um tanto de saudosismo e outro de fidelidade. O fenômeno é mundial - nos Estados Unidos, berço de companhias como Hulu e Netflix, apenas uma das milhares de franquias da gigante Blockbuster continua de portas abertas. A dona da loja em Bend, Oregon, afirma: 'eu acredito que finalmente encontramos aquele ponto confortável, onde as pessoas começaram a entender que vir até aqui, escolher um filme, andar por aí, conversar sobre filmes... É algo de que as pessoas sentem falta."

"Há lugar para ambos. Há um lugar para Netflix e Hulu. E há um lugar para isso [as videolocadoras]". É o que Sandy, a proprietária da última franquia da Blockbuster nos EUA, também defende. E a resistência das últimas videolocadoras do país ressalta a possibilidade de coexistência de duas tecnologias que, em suas diferenças, expressam a mesma paixão pelo cinema.


(texto publicado na revista Fala! Universidades, conteúdo jovem de verdade - #36 - setembro de 2018)

domingo, 24 de novembro de 2013

Por um final feliz - Felipe Gutierrez (Folha de São Paulo)


Empresas ameaçadas por avanços tecnológicos devem investir em nichos e diversificar gama de serviços

Em um bom dia de negócios, cerca de 200 filmes são alugados no Top Cine, locadora da Dorani Trindade, 50, em um bairro nobre da zona oeste de São Paulo. Há dez anos, a empresa contava algo próximo dos 600 nos momentos mais agitados. O auge da loja foi logo depois da transição do VHS para o DVD, no começo dos anos 2000. De lá para cá, só decaiu.

"Eu vivo me perguntando se as locadoras vão acabar. Às vezes penso que sim e às vezes penso que algumas poucas, uma minoria minúscula, vai ficar", ela conta.

No começo deste mês, a última unidade da Blockbuster nos Estados Unidos fechou. A rede de locadoras já foi a maior do mundo.

Trindade sabe onde estão seus antigos clientes: na TV fechada, em serviços de streaming como o Netflix e em transferências de arquivos pela internet. Hoje, ela afirma sem titubear que o comércio precisa se reinventar para sobreviver.

Há um mês, a casa passou a alugar jogos eletrônicos para os videogames Playstation e Xbox 360. Segundo a empresária, já se nota um retorno de um público que quase não ia mais ao local: pessoas com menos de 30 anos.

Empresários que atuam em negócios que estão passando por mudanças tecnológicas "precisam aceitar que isso ocorre rapidamente e se mexer se quiserem sobreviver", afirma André Luiz Cica de Campos, professor de administração da Unicamp.

"Uma inovação profunda acaba com alguns mercados e gera outros", explica o professor da Unicamp.

O exemplo clássico, diz, é o serviço de transporte por tração animal: "Por mais eficiente que fosse, nunca poderia competir com as ferrovias e com os automóveis".

Mas a charrete do mercado fonográfico, o vinil, (a tecnologia mais antiga ainda disponível), ainda sobrevive: teve o maior crescimento percentual (33,5%) entre todas as mídias na primeira metade de 2013. Foram 3 milhões de unidades vendidas nos EUA, segundo a Nielsen.

Na outra ponta desse ranking está o CD, que teve uma queda de 14% no primeiro semestre desse ano (um total de 78 milhões).

Ademir Pedro Manzato, 57, abriu a loja de discos Pops em 1979, em São paulo e hoje trabalha apenas com CDs. "Não dá pra saber até quando [o comércio] vai continuar a existir. Na época em que começou essa história de baixar música, há uns oito anos, eu achava que tinha mais cinco anos, no máximo. Mas ainda estou aqui."

O melhor momento do negócio, segundo ele, foram os anos logo após a estabilidade da moeda, em 1994, quando o real estava valorizado. Ele afirma que, na época, vendia cerca de 150 CDs por dia. Hoje, em uma época boa, vende metade disso.

A maneira que ele encontra para continuar com as portas abertas é escolher o que realmente vende - segundo ele, na época de bonança, tinha de tudo na loja: "Sertanejo, axé, pagode, essas coisas". Hoje o acervo dele é formado por discos de MPB e de rock que saem em volume pequeno, mas de modo constante, como Novos Baianos, Hermeto Paschoal, Clube da Esquina etc.


FILHO

Durante anos, Cavi Borges, 37, tirou dinheiro de sua locadora, a Cavídeo, para que sua produtora de filmes pudesse existir. Hoje, conta, precisa fazer o contrário.

"Não vai fechar porque é como se fosse um filho para mim", diz Borges.

Ele conta que no último ano diminuiu a equipe, passou a fechar mais cedo (às 23, antes ele ia até às 2h) e vai comprar menos cópias de filmes. Ele afirma que irá vender produtos ligados a cinema, como imãs de geladeira.

Não será a primeira vez que ele busca receita dessa forma: antes de seu auge, no meio da década passada, a Cavídeo chegou a vender produtos ligados ao cinema.

A locadora foi aberta em 1997, quando Borges também era um judoca profissional.

Ele aproveitava as viagens como esportista para comprar filmes que, então, eram raros no Brasil. Assim, foi formando uma comunidade de cinéfilos em volta de seu negócio e se inserindo nesse meio. "Fiquei amigo das pessoas do cinema, comecei a namorar uma garota do cinema. Eu ajudava todo mundo, deixava os caras pegarem filmes de graça e conseguia comida de graça para os dias de gravação. E fiz meus curtas."

Assim nasceu a produtora de vídeo, que, hoje, é a principal fonte de renda.

A consultora Claudia Bittencourt diz que essa trajetória é a correta: antecipar uma mudança em um mercado e usar a marca em outros nichos e outros serviços.

Essa é a saída para a sobrevivência das lan houses, que viveram um boom na década passada, mas hoje estão perdendo espaço, afirma Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital. Segundo ele, no pico do setor, em 2009, o país tinha 108 mil desses estabelecimentos. Hoje, há cerca de 60 mil.

Em razão do avanço da banda larga residencial e da facilidade de jogar pela internet, já não se fatura tanto oferecendo a conexão à internet, mas sim com serviços, como os de impressão.

Francis Kanô, 51, dono de um desses locais de acesso na zona sul de São Paulo, conta que, hoje, fatura apenas um quarto do que ganhava há oito anos oferecendo conexão à internet e computadores para jogos. "Era um 'point'. A gente ficava aberto de segunda a segunda, até às 23h, e tinha uma espera de 40 minutos, diz. A loja tem nove computadores. Já foram 34.

Para compensar a perda, ele passou a alugar o espaço disponível para outros empreendedores, como massagistas e assistências técnicas de celular.



(texto publicado no caderno Negócios, empregos e carreiras da Folha de São Paulo de 24/11/13)