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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Gotas que caem das árvores são excretas de insetos - Ana Gabriela Zangari Dompieri


Em algumas épocas os frequentadores do campus podem ver e até sentir muitas gotas caindo de árvores, um fenômeno às vezes tão intenso que parece estar chovendo embaixo delas. Matheus Januário explica o que gera esse curioso gotejamento.

Apesar de vermos normalmente no campus as gotas caírem de tipuanas, porque elas são as mais comuns nos espaços de circulação, várias espécies de árvores podem passar pelo processo que causa os pingos, resultado de uma relação de parasitismo. "O que cai, na verdade, é uma excreta que vários insetos soltam". Esses insetos são, principalmente, os hemípteros, parentes das colchonilhas, dos percevejos e dos pulgões. "Eles se alimentam da seiva das árvores, que é por onde correm os nutrientes das plantas".

Então, por mais que pareça e que a utilizada expressão "árvores que choram" leve a crer que são as árvores que pingam, não é isso que acontece. Matheus justifica a dúvida: "parece que são elas, porque esses insetos são muito pequenos, então é difícil vê-los, além de que como não conseguem furar a casca das árvores, eles ficam nos ramos mais novos e altos".

A seiva é composta à base de água, açúcar e outras substâncias como aminoácidos, mas são principalmente essas outras substâncias que interessam para os insetos. "Eles estão sugando essa seiva, absorvendo os compostos nitrogenados e expelindo o açúcar e água em excesso". Os  insetos vão soltando essa substância até que elas se agregam e pingam, não das árvores, mas deles.

A maior parte do líquido com que entramos em contato é uma inofensiva mistura de água com açúcar, mas ainda assim é uma excreta, então não se recomenda beber.

Observamos melhor esse fenômeno na primavera e verão, porque no calor os insetos crescem mais rápido e se reproduzem mais intensamente. Matheus acredita que se o processo estivesse prejudicando fortemente as árvores elas apresentariam fraqueza visível.

As árvores excretam substâncias também, principalmente na forma de resina (que em alguns casos se torna âmbar), mas normalmente não é com essa substância que temos contato na USP.

Os insetos chegam às árvores sozinhos ou carregados por algumas espécies de formigas, que têm o comportamento de carregá-los e defendê-los, esperando para usufruírem do produto açucarado do parasitismo.


(texto publicado no Jornal do Campus - segunda quinzena - novembro de 2019)

domingo, 27 de maio de 2018

A guerra aos canudos - André Lopes e Tatiana Babadobulos


Depois que o vídeo de uma tartaruga sufocada por um cilindro de plástico viralizou na internet, ganhou força a grita contra um símbolo do nosso tempo

Os números

500 milhões de canudos são usados diariamente nos Estados Unidos, o país que mais consome esses objetos de plástico - se todos fossem enfileirados, dariam duas voltas e meia na Terra

Zero é o número desses itens que podem ser totalmente reciclados, pois a química usada na fabricação não permite o reaproveitamento

12 000 toneladas de CO2 são produzidas anualmente pela indústria de poliestireno - o principal material da fabricação de canudos - apenas nos EUA, quantidade suficiente para derreter uma área de gelo ártico equivalente a quatro campos de futebol, no mesmo período

8 milhões de canudos foram retirados das praias nos últimos trinta anos

500 anos é o tempo que um único canudo leva para se decompor na natureza

Quando se pede uma bebida em um fast-food, é comum ela ser servida com um canudo plástico embalado em papel - ou mesmo em plástico! O costume surgiu nos Estados Unidos dos idos de 1960 e se popularizou ao redor do planeta. Contudo, nos últimos três anos essa tradição tem sido questionada, em razão da crescente conscientização em torno dos impactos ambientais da fabricação dos aparentemente inocentes canudinhos. Em alguns lugares, especialmente nas regiões do mundo em que as preocupações conservacionistas são mais agudas, eles começam a ser abolidos.

No Estado da Califórnia, por exemplo, há um projeto de lei, com alta probabilidade de aprovação, que propõe punição, com multa de 1 000 dólares e até seis meses de prisão, a donos e funcionários de estabelecimentos que oferecerem o canudinho aos clientes sem perguntar se eles querem. O banimento vem se espalhando gradualmente pelos Estados Unidos, com adesão de restaurantes em metrópoles como Nova York. Na Inglaterra, a rainha Elizabeth II comoveu-se com o documentário Blue Planet 2 (Planeta Azul 2), lançado pela BBC no ano passado, que trata do impacto que a poluição dos mares pelo descarte de materiais plásticos provoca nos animais marinhos. Ela decidiu proibir o uso dessas mercadorias nas propriedades da família real e sugeriu que gostaria que a medida fosse replicada em todo o Reino Unido. No Brasil, o grito também já começa a ecoar.

A guerra contra os canudos teve início espalhafatoso em 2015, quando se difundiu pela internet (e onde mais poderia ser?) um vídeo no qual dois pesquisadores retiravam cilindros plásticos da narina de uma tartaruga marinha, no litoral da Costa Rica. A operação, de improviso, realizada com um alicate, durou quase dez minutos e levou o animal a desesperadora agonia. A comovente gravação viralizou e chamou atenção para o problema. Mais da metade das tartarugas marinhas morre asfixiada pela ingestão de alguma forma de lixo, em especial o constituído de insumos plásticos, que correspondem a 90% dos detritos despejados nos oceanos. Apesar de sua fabricação demandar apenas 4% do plástico produzido no planeta, os canudinhos figuram entre os dez resíduos mais achados em praias e mares.

Eles são um grande inimigo da natureza por várias razões. A principal delas é que, mesmo que a vida útil de cada um deles seja de dez minutos - o tempo que se gasta para  tomar um refrigerante - os cilindros de plástico levam 500 anos para se decompor. Por isso, desde que a produção em larga escala teve início, nos anos 60, estima-se que vaguem por aí, como detritos, 8,3 bilhões de toneladas de objetos feitos de plástico. Além disso, a indústria do poliestireno colabora para o agravamento do aquecimento global, pela emissão de gás carbônico (CO2) na atmosfera, polui ecossistemas e ameaça a sobrevivência de animais em risco de extinção, como algumas das espécies de tartarugas marinhas.

Diante dos dados alarmantes, iniciou-se o movimento de extinção dos canudos. Convenhamos, substituí-los é fácil. A alternativa mais simples é tomar direto do copo. Para quem não gosta da prática, por receio de beber de latas infectadas ou copos mal lavados, também há substituições possíveis. Nos EUA, tem se tornado comum pessoas carregarem consigo versões reutilizáveis, feitas de inox ou silicone. Medida essa que começou a se disseminar por outras nações, como o Brasil. Baseada no Rio de Janeiro, a fabricante Mentah! é uma das pioneiras, em âmbito nacional, na venda exclusiva de modelos reutilizáveis produzidos com vidro - de sua fábrica, saem 3 000 unidades por mês. Outro bom exemplo é o da rede espanhola de hotéis Iberostar. No ano passado, a multinacional baniu os canudos das 110 filiais que possui pelo mundo, incluindo duas na Praia do Forte, na Bahia.

Defende a antropóloga franco-marroquina Mounia El Kotni, uma das fundadoras do movimento francês Bas Le Pailles (Abaixo os Canudos): "É preciso engajar as pessoas nessa meta. Temos nos manifestado, com protestos deflagrados em setenta cidades de trinta países". Entretanto, se é tão fácil substituir os canudos plásticos, quais são os impedimentos para que isso ocorra de vez ? Há dois: um econômico e um cultural. O mercado de canudos comercializa, só nos EUA, 500 milhões de exemplares ao dia. No Brasil, não há dados tão precisos, mas o IBGE divulga que a produção foi de 2 800 toneladas em 2015. Esses números grandiosos resultam em lucro e empregos. Já do ponto de vista dos costumes, o canudinho se tornou um item do dia a dia. O primeiro modelo popular data de 1888, inventado pelo americano Marvin Stone, e era feito de papel, também danoso à natureza. Com a explosão das lanchonetes nos EUA, iniciou-se a venda das versões de plástico, porque os papéis eram considerados frágeis. E o canudo rapidamente virou unanimidade mundial - do milk shake à caipirinha, da Coca-Cola ao suco de laranja. O fato é que o canudo, tão simpático, com seu ar infanto-juvenil, está deixando de combinar com outro hábito mais moderno e inteligente: o de viver de forma sustentável.


(texto publicado na revista Veja edição 2571 - ano 51 - nº 9 - 28 de fevereiro de 2018)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Por que salvar as abelhas - Raquel Beer


A drástica redução, em todo o mundo, da quantidade desses insetos desperta preocupação porque, além da importância que têm para a biodiversidade, eles são responsáveis pela polinização que garante a existência de quase 40% dos alimentos consumidos por nós - muito mais que o mel, portanto

As picadas dolorosas e o zunido insistente  no ouvido fazem com que geralmente, as abelhas não sejam lembradas de maneira amistosa - a despeito das delícias do mel. E com uma ressalva fundamental: o mel está longe de ser a grande contribuição das abelhas para a humanidade. Sem elas, metade das gôndolas de alimentos dos supermercados estaria vazia. Por meio da polinização, esses insetos promovem o seu maior impacto na biodiversidade e na produção dos alimentos: 35% das lavouras e 94% das plantas silvestres dependem dessa atividade. A má notícia é que esse por assim dizer, "serviço ecológico" está em risco diante de um fenômeno batizado de desordem do colapso das colônias. De 1940 até hoje, o número de abelhas diminuiu de forma drástica no mundo - nos Estados Unidos, o país mais afetado pelo problema, caiu pela metade. Ainda é misteriosa a razão por trás desse sumiço, apear de existirem fortes hipóteses. Na segunda-feira 22, a ONU planeja chamar atenção para o assunto com a divulgação, em evento na Malásia, do relatório Polinizadores, Polinização e Produção de Alimentos. O documento, o primeiro fruto do órgão internacional Plataforma Intergovernamental para Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), procura identificar, entre outros pontos, os motivos que levaram à desordem que faz sumir as colônias e as possíveis soluções.

O trabalho é resultado do esforço conjunto de 75 pesquisadores, de diversas nações. VEJA teve acesso a informações presentes no documento. Ele combina o conhecimento acadêmico que se tem sobre as abelhas e os demais animais polinizadores (como outros insetos, aves e morcegos) e suas contribuições, traz exemplos de boas práticas para a proteção das espécies e propõe soluções para a situação adversa - como a adoção de políticas ambientalistas. "É um tópico de enorme importância política, visto que o desaparecimento das colônias pode afetar negativamente a economia, além da dieta de cidadãos, de um país", ressalta a bióloga Vera Lúcia Fonseca, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do IPBES, o órgão da ONU. "Antes de tudo, o relatório procura conscientizar a todos da importância dos polinizadores, além de promover a união de governos para protegê-los", completa Vera.

Não é por acaso que a pesquisadora faz referência aos danos econômicos potenciais da desordem. Estima-se que um mercado de 218 bilhões de dólares anuais depende do serviço de polinização prestado pelas abelhas. Os Estados Unidos, o maior exportador agrícola do mundo, perderiam 15 bilhões de dólares por ano com a intensificação do problema - no Brasil, o prejuízo seria de 12 bilhões de dólares. Isso explica por que, em junho de 2014, o presidente americano Barack Obama transformou o alarme em questão de Estado, ao anunciar a criação de uma força-tarefa, composta de cientistas e políticos, para ir atrás de respostas.

Os estudiosos ainda investigam qual seria a raiz do problema. Acredita-se que sejam dois os principais fatores: a disseminação do uso de pesticidas, que enfraquecem as colônias, e a ação de parasitas, como o varroa, ácaro que ataca o organismo do animal, e o Acarapis woodi, que afeta o sistema respiratório. Entretanto, há consenso de que não existe apenas uma razão (ou duas), e sim um somatório que acabou por construir um cenário cruel para os insetos. As abelhas estão perdendo seu habitat quando florestas e jardins dão lugar a construções ou mesmo a plantações de uma única cultura - a espécie necessita de alimentação variada para sobreviver. As intensas mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, em consequência do aumento da emissão de gases do efeito estufa pelo homem, também colaboram para o desaparecimento dos insetos. As estações menos definidas, além das elevações e quedas bruscas na temperatura e na umidade, acabam por bagunçar o ciclo de florescimento das flores, das quais as abelhas são dependentes.

Os Estados Unidos são tidos como o país que mais vem se movimentando para combater o ritmo da desordem. O comitê criado por Obama apresentou no ano passado o documento Estratégia Nacional para Promover a Saúde das Abelhas e Outros Polinizadores. Nele, estabeleceu-se como meta reduzir a baixa de abelhas durante o inverno e no máximo 15% em dez anos - hoje, a taxa é de 23%. Nas últimas décadas, após o inverno, as colônias não têm conseguido recuperar-se desses períodos de perda. Caso a diminuição das colônias seja menor nas estações de frio, o efeito esperado é que elas consigam se restabelecer na primavera e no verão. Também se planeja aumentar a presença de outros polinizadores, como a borboleta-monarca. O governo americano calcula que haja atualmente 30 milhões de exemplares dessa espécie colorida na América do Norte, diante dos 970 milhões que existiam em 1996. O que se espera é reverter a queda, alcançando ao menos o número de 225 milhões. Entre as estratégias para proteger os polinizadores está, por exemplo, a restauração de 28 000 quilômetros quadrados (o equivalente ao território do Havaí) de seus habitats nos próximos cinco anos.

Por que o lado ocidental do Hemisfério Norte tem sido mais prejudicado que o restante do planeta? O motivo é a dependência das plantações americanas e europeias de apenas um tipo de abelha, a apis mellifera. Importada da África e da Ásia para a polinização de plantações comerciais, a espécie ganhou a preferência de apicultores por não ser agressiva e manter colônias enormes e resistentes. Agora, porém, ela é a maior vítima da amedrontada desordem.

Na França, por exemplo, 100 000 colônias de Apis mellifera foram perdidas desde 1995, e a taxa de mortalidade das abelhas triplicou. Diante disso, Paris é uma das cidades que mais têm adotado medidas conservacionalistas. Em junho do ano passado, o município assinou o protocolo Abelha: a Sentinela do Meio Ambiente. Nele, a capital francesa se comprometeu a proibir a venda de uma série de pesticidas, além de ampliar o apoio à apicultura. Até 2020, planeja-se o plantio de 20 000 árvores em jardins parisienses, além de 300 000 novos metros quadrados de espaços verdes - em torno de um quinto da dimensão do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Paris ainda é o centro urbano com a maior presença de criadouros de abelhas da Europa, com um total de 600, ocupando uma área de 4,6 quilômetros quadrados - parte deles instalada em tetos de edifícios e casas.

Há indícios de que a redução no número de abelhas esteja se repetindo, em ritmo acelerado, em outros locais, incluindo países pobres. No entanto, muitas  vezes os dados coletados não são suficientes para corroborar a tese. É o caso do Brasil, que não conta com um histórico do número de abelhas em território nacional, de forma que os pesquisadores não têm como comparar o número atual com os anteriores. Assim, ficam sem saber se a redução é alarmante por aqui. "Mas há sinais de que também sofremos do mesmo mal", afirma a bióloga Tereza Cristina Giannini, do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável. "Em pesquisas de campo, descobrimos que existem regiões nas quais as plantações apresentam déficit de polinização, refletido na baixa produção de frutas, flores e alimentos", relata Tereza.

A favor do Brasil, contudo, pesa um ponto que nos deixa em posição de vantagem ante a desordem. O país não é dependente de apenas uma espécie, como ocorre com os Estados Unidos e a Europa. Uma pesquisa da revista científica Apidologie, especializada em apicultura, estima a existência de pelo menos 250 tipos de polinizadores em todo o território brasileiro, dos quais 87% são de abelhas.

Por que, então, mundo afora, apesar da essencialidade desses insetos para o equilíbrio do meio ambiente, as campanhas de proteção a eles não recebem tanta atenção quanto as destinadas aos ursos-polares ou aos elefantes-africanos, por exemplo? Explicou a VEJA a bióloga americana Heather Mattila, do Wellesley College: "O modo de funcionar do nosso sentimento de empatia está no centro desse dilema. Sentimo-nos próximos de animais parecidos conosco, grandes mamíferos que vivem em grupos e interagem socialmente. Devíamos, porém, olhar direito para as abelhas. Elas trabalham duro para alimentar suas crias, organizam-se em colônias e até se preocupam com a higiene e a segurança de suas casas. Não devia ser tão difícil para o homem identificar-se com esses elementos". O.k., se o fator da empatia não funcionar com as abelhas, lembre-se então de quanto elas são fundamentais para garantir a existência de grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa. Perto disso, um zumbido chato não é nada.




(texto publicado na revista Veja edição 2466 - ano 49 - nº 8 - 24 de fevereiro de 2016)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reciclar é preciso


O lixo é um dos maiores problemas gerados pela população humana hoje em todo o mundo. Em pesquisa recente realizada pela associação empresarial CEMPRE (Compromisso Empresarial para Reciclagem), ficou demonstrado que até este ano apenas 1055 (18%) dos municípios brasileiros possuíam sistema de coleta seletiva implementado. Ainda bem que em nosso município, e em nosso bairro, muitas iniciativas têm ajudado a solucionar, pelo menos, parte desse enorme problema.

Na Vila Leopoldina, trabalhadores que se conheceram na antiga Usina de Compostagem do bairro, se uniram e deram origem à cooperativa CooperAção, que funciona na rua Froben desde 2010. Neilton Cesar Polido, que hoje está no cargo de presidente, a secretária Jacy Cardoso, a 1ª vogal Maria Ivete de Lara Lima Joviano, a tesoureira Helia Terezinha Pereira de Oliveira e a 2ª vogal Regiane Rodrigues Faria são alguns deles. Muitos moradores da região, entretanto, desconhecem a grande importância do trabalho da cooperativa, e são até contra a sua existência no local. "Não temos catadores aqui. Temos sim caminhões que realizam a coleta e maquinários específicos que compramos com o dinheiro vindo da venda dos materiais. Podíamos nos unir aos moradores e realizar muitas parcerias, mas enfrentamos certa hostilidade por parte de alguns deles", comenta Neilton.

O trabalho da CooperAção resumidamente é receber o material, vindo de empresas, condomínios e também de pessoas físicas, separar por tipos e vender para indústrias que necessitam da matéria-prima para a produção de novos itens. "Como somos cooperados, tiramos o nosso sustento da venda desses materiais", enfatiza Maria Ivete.

A maior dificuldade dos trabalhadores da cooperativa é lidar com resíduos misturados. "As pessoas ainda não sabem muito bem separar o lixo comum do material reciclado. Alguém precisa fazer esse trabalho... e esse "alguém", somos nós", declara Jacy.

A CooperAção recebe vidro, papel, papelão, plástico, sucata ferrosa, além de eletroeletrônicos, móveis e até roupas e sapatos em bom estado. O que não é vendido para a indústria, é colocado em bazares e, em geral, comprado pelos próprios cooperados (55 pessoas atualmente).

Funciona de segunda a sexta, das 8 às 17h, e aos sábados até 16h.




(texto publicado na revista Guia Daqui nº 229 - ano 20 - outubro de 2016)

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quanto você contribui para o aquecimento global? - Tiago Cordeiro


Se você pensa em chaminés industriais quando alguém fala em aquecimento global, saiba que todos os anos, cada "pessoa física" do planeta produz, em média, 7 toneladas de gás carbônico. A estimativa, feita pela ONU, não inclui fábricas e usinas, só a soma de todas as emissões que as pessoas provocam ao ligar o carro, acender o fogão ou comer carne. Somadas, elas são responsáveis por 0,9% das 7 gigatoneladas anuais de gás carbônico que a humanidade joga na atmosfera (número semelhante à emissão de fenômenos naturais, como vulcões e incêndios florestais). "O impacto pessoal na formação do efeito estufa é muito grande. Quanto mais prejudicamos o clima, fica mais urgente ainda tomar uma atitude", diz Osvaldo Martins, da ong Iniciativa Verde.

Não há mais muita dúvida de que o homem é responsável pelas alterações que o clima do planeta sofreu nos últimos 50 anos. De acordo com o relatório Mudanças Climáticas 2007, as chances são de mais de 90%. "Mesmo que as emissões de gases na atmosfera fossem reduzidas em 60% para que o planeta recuperasse o equilíbrio, já experimentaremos a cada década durante os próximos 100 anos", diz Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A melhor atitude a se tomar é diminuir a emissão pessoal de gás carbônico.

1. Transporte
(emissão de CO2, por quilômetro)

De todo o gás carbônico que cada pessoa emite, 40% vêm de seu automóvel. A solução para esse problema é andar menos de carro e preferir álcool como combustível.

2. Viagens aéreas

Em 1600 quilômetros, um avião joga no ar 150 quilos de CO2. Para percorrer a mesma distância, um trem só emite 3 quilos. As aeronaves já são responsáveis por 3,5% da emissão de gases que causam efeito estufa. Em 25 anos, deverão ser responsáveis por 5%.

3. Carne bovina

Na produção de alimentos, a criação de gado é a maior vilã ambiental. O grande problema da carne está na digestão da vaca. Não é pouca coisa: o gado é responsável por quase 1/5 de todo o aquecimento global do planeta. Nas flatulências, o bicho emite gases, especialmente metano. Isso para não falar do desmatamento que é provocado para que ele tenha pasto. A agricultura também contribui - embora muito menos - para o efeito estufa.

4. Reciclagem

O lixo de um cidadão americano médio provoca a emissão de 227 quilos de CO2 por ano. Reciclar evita que novas embalagens tenham que ser produzidas. Além disso, reduzir a produção de lixo em 10% já é o suficiente para deixar de emitir 545 quilos de gás carbônico em um ano. 

5. Cigarros

À primeira vista, o efeito do cigarro é pequeno. Para produzir a mesma quantidade de CO2 que um carro a gasolina emite ao rodar um quilômetro, é preciso fumar 46 cigarros. Mas multiplique essa conta pelo número de maços que uma pessoa consome na vida e você vai ver que um fumante polui bem mais do que um não-fumante.

6. Conta de gás

Além das perdas no processo de armazenagem, o botijão produz CO2 quando a chama é acesa. O fogão também libera muito metano, que é 21 vezes pior do que o gás carbônico quando se trata de aumentar o efeito estufa.

7. Conta de luz

Na maioria dos países desenvolvidos, a energia elétrica é gerada pela queima de carvão. No Brasil, 95% da luz vem de usinas hidrelétricas, que emitem menos gás carbônico, mas provocam grandes danos ao ambiente. A melhor forma de evitar esses dois problemas é economizar luz.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 237 - março de 2007)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Alla cassa di un supermercato una signora anziana (Blog Pianeta Donna)


Sceglie un sacchetto di plastica per metterci i suoi acquisti.

La cassiera le rimprovera di non adeguarsi all’ecologia e gli dice:

“La tua generazione non comprende semplicemente il movimento ecologico. Noi giovani stiamo pagando per la vecchia generazione che ha sprecato tutte le risorse! “

La vecchietta si scusa con la cassiera e spiega:

“Mi dispiace, non c’era nessun movimento ecologista al mio tempo.”

Mentre lei lascia la cassa, affranta, la cassiera aggiunge:

” Sono persone come voi che hanno rovinato tutte le risorse a nostre spese. E ‘ vero, non si faceva assolutamente caso alla protezione dell’ambiente nel tuo tempo.”

Allora, un pò arrabbiata, la vecchia signora fa osservare che all’epoca restituivamo le bottiglie di vetro registrate al negozio. Il negozio le rimandava in fabbrica per essere lavate, sterilizzate e utilizzate nuovamente: le bottiglie erano riciclate. La carta e i sacchetti di carta si usavano più volte e quando erano ormai inutilizzabili si usavano per accendere il fuoco. Non c’era il “residuo” e l’umido si dava da mangiare agli animali.

Ma noi non conoscevamo il movimento ecologista.

E poi aggiunge:

“Ai miei tempi salivamo le scale a piedi: non avevamo le scale mobili e pochi ascensori.

Non si usava l’auto ogni volta che bisognava muoversi di due strade: camminavamo fino al negozio all’angolo.

Ma, è vero, noi non conoscevamo il movimento ambientalista.

Non si conoscevano i pannolini usa e getta: si lavavano i pannolini dei neonati.

Facevamo asciugare i vestiti fuori su una corda.

Avevamo una sveglia che caricavamo la sera.

In cucina, ci si attivava per preparare i pasti; non si disponeva di tutti questi aggeggi elettrici specializzati per preparare tutto senza sforzi e che mangiano tutti i watt che Enel produce.

Quando si imballavano degli elementi fragili da inviare per posta, si usava come imbottitura della carta da giornale o dalla ovatta, in scatole già usate, non bolle di polistirolo o di plastica.

Non avevamo i tosaerba a benzina o trattori: si usava l’olio di gomito per falciare il prato.

Lavoravamo fisicamente; non avevamo bisogno di andare in una palestra per correre sul tapis roulant che funzionano con l’elettricità.

Ma, è vero, noi non conoscevamo il movimento ambientalista.

Bevevamo l’acqua alla fontana quando avevamo sete.

Non avevamo tazze o bottiglie di plastica da gettare.

Si riempivano le penne in una bottiglia d’inchiostro invece di comprare una nuova penna ogni volta.

Rimpiazzavamo le lame di rasoio invece di gettare il rasoio intero dopo alcuni usi.

Ma, è vero, noi non conoscevamo il movimento ambientalista.

Le persone prendevano il bus, la metro, il treno e i bambini si recavano a scuola in bicicletta o a piedi invece di usare la macchina di famiglia con la mamma come un servizio di taxi 24 h su 24. Bambini tenevano lo stesso astuccio per diversi anni, i quaderni continuavano da un anno all’altro, le matite, gomme temperamatite e altri accessori duravano fintanto che potevano, non un astuccio tutti gli anni e dei quaderni gettati a fine giugno, nuovi: matite e gomme con un nuovo slogan ad ogni occasione.

Ma, è vero, noi non conoscevamo il movimento ecologista!

C’era solo una presa di corrente per stanza, e non una serie multipresa per alimentare tutta la panoplia degli accessori elettrici indispensabili ai giovani di oggi.

Allora non farmi incazzare col tuo movimento ecologista!

Tutto quello che si lamenta, è di non aver avuto abbastanza presto la pillola, per evitare di generare la generazione di giovani idioti come voi, che si immagina di aver inventato tutto, a cominciare dal lavoro, che non sanno scrivere 10 linee senza fare 20 errori di ortografia, che non hanno mai aperto un libro oltre che dei fumetti, che non sanno chi ha scritto il bolero di Ravel…( che pensano sia un grande sarto), che non sanno dove passa il Danubio quando proponi loro la scelta tra Vienna o Atene, ecc.

Ma che credono comunque poter dare lezioni agli altri, dall’alto della loro ignoranza!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Fotojornalista Sebastião Salgado propõe fundo para recuperação do Rio Doce - Elemara Duarte (Hoje em Dia)


O fotojornalista Sebastião Salgado antecipou a vinda ao Brasil para se inteirar da tragédia ambiental em Mariana cuja lama atinge a bacia do Rio Doce. Nesta sexta-feira (13), Salgado encontrou-se com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, para discutir propostas para recuperar a área, incluindo a criação de um “fundo” subsidiado pelas empresas responsáveis pelo desastre para recuperação das áreas.

A região é onde está sediado a organização não-governamental (ONG) Instituto Terra, criado por ele e a mulher Lélia Wanick Salgado, para recuperação de área vegetal e, principalmente, nascentes degradadas. O Instituto fica no município mineiro de Aimorés, onde Salgado nasceu.

Durante a semana, no perfil do Instituto Terra, no Facebook, vários internautas cobraram um posicionamento do fotojornalista sobre a tragédia. Hoje, Salgado está radicado na França. “Instituto Terra. Nenhum comentário sobre o desastre no rio Doce? Vamos ter mais um livro sobre as misérias?! Ou nem isso? Vocês são um instituto de preservação, são patrocinados por uma mineradora (!!) que é no mínimo responsável por 50% de tudo que está acontecendo. E não vão falar NADA????????”, questionou um dos internautas.

Outro internauta disse que o pronunciamento de Sebastião Salgado, “sobre algo que se confunde com a própria biografia dele, teria uma repercussão significativa nesse momento”. Para uma internauta, era “estranho o silêncio do Instituto Terra, sobre a destruição, provavelmente total, do Rio Doce”, mesmo quase dez dias após o acidente.

Sebastião Salgado deve permanecer no Brasil até a próxima semana. Está prevista a ida do fotojornalista até Aimorés. No final da tarde desta sexta-feira, a assessoria de comunicação do Instituto publicou nota no perfil da rede social e no site da ONG.

Acompanhe a íntegra do texto:

“COMUNICADO SOBRE O RIO DOCE

Autor: Comunicação - 13/11/2015

Solidário a todos os atingidos pelo rompimento das barragens de rejeitos no município de Mariana, em Minas Gerais, em especial aos familiares das vítimas, o Instituto Terra entende que o momento exige ações urgentes dos poderes constituídos, no sentido de minimizar o sofrimento da população envolvida e dos impactos causados ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que deve atuar na responsabilização das empresas envolvidas, de acordo com a legislação brasileira, no sentido de efetivar a integral compensação pelos danos causados.

Durante toda a sua existência, o Instituto Terra pautou-se pelo verdadeiro sentido da palavra sustentabilidade, buscando ser interlocutor, mediador dos conflitos locais, mas também apresentando soluções técnicas efetivas para promover o equilíbrio entre desenvolvimento e meio ambiente.

Diante do acontecido, o Instituto Terra imediatamente mobilizou todo o seu corpo técnico na elaboração de um projeto para recuperação do Rio Doce. A proposta prevê a criação de um Fundo com recursos financeiros subsidiados pelas empresas responsáveis pelo desastre, que possibilite, além da recuperação de nascentes, absorver todos os investimentos e ações destinados à reconstrução das condições ecológicas, bem como gerar recursos contínuos para projetos sociais, econômicos e de geração de emprego e renda em toda a região que constitui essa bacia hidrográfica.

O fundo deve permitir a criação de um patrimônio perpétuo para promover uma grande transformação no Vale do Rio Doce, saindo de um quadro de intensa devastação para um ambiente equilibrado, desenvolvido e produtivo.

O projeto já foi discutido com os Governadores de Minas Gerais e do Espírito Santo, bem como com o Governo federal. Cofundador e Vice-Presidente do Instituto Terra, Sebastião Salgado tratou do tema diretamente com a presidente Dilma Rousseff, na manhã desta sexta-feira (13 de novembro), em Brasília, que se mostrou empenhada e favorável à iniciativa, e assumiu o compromisso de criar um comitê para negociar com as empresas responsáveis pelas barragens de Mariana.

Além do Governo federal e dos Governos Estaduais, o plano para recuperação do Rio Doce deve envolver os governos municipais, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada, para pleno direcionamento dos recursos e tecnologias a serem empregados na região.

Já sabíamos que restabelecer a vida do Rio Doce seria um processo difícil e de longo prazo. Agora, exigirá mais empenho e urgência nas ações, bem como uma aprendizagem ambiental compartilhada com a sociedade.

Mais do que nunca, o resgate do Rio Doce, destruído ecologicamente pelo desastre, passará por medidas de recuperação de todas as nascentes da bacia, para garantir uma maior produção de água, bem como a reconstituição das matas ciliares e das reservas legais, para evitar a sobreposição e acúmulo de mais resíduos, assim como o fortalecimento de um modelo agroecológico de produção rural. Somadas a outras ações socioambientais e de monitoramento, de toda a cadeia produtiva, em especial a industrial, acreditamos que será possível alcançar o pleno restabelecimento da região.

O Instituto Terra reafirma seu compromisso com a missão de replantar a Mata Atlântica e trazer de volta a vida, a água, ao Vale do Rio Doce, com projetos conectados e voltados diretamente para a promoção do desenvolvimento pleno de um Vale que há anos sofre com os efeitos da degradação ambiental”. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Para quebrar a rotina, área rural oferece passeio com gostinho de fazenda - Graciela Zabotto


Com comida no fogão a lenha, passeio em trilhas e ordenha de vaca, parque fazenda em Caucaia do Alto ensina adultos e crianças a terem respeito pelo meio ambiente

Quem procura fugir da rotina de cidades movimentadas e busca atrações rurais, não precisa ir muito longe para encontrar um estilo de vida totalmente diferente. Na altura do quilômetro 39 da rodovia Raposo Tavares, à esquerda, na Estrada de Caucaia do Alto, altura do km 7, em Cotia, uma família resolveu transformar um sítio em um verdadeiro turismo rural.

Com uma área total de 120 mil metros quadrados, situado junto à Reserva Florestal em Caucaia do Alto, o parque fazenda Bichomania tem opções de lazer para adultos e crianças. Muito mais do que estar em meio ao verde e ter contatos com os animais, a proposta é ensinar as pessoas a respeitarem os bichos e o meio ambiente, cada vez mais 'engolidos' pela ânsia humana.

São 45 mil metros quadrados de área preservada e cerca de 60 animais divididos em 25 espécies. Todos autorizados pelo IBAMA. "Nós temos a licença ambiental para cuidarmos dos animais. Podemos ter macacos, corujas, araras e tucanos, dentre outros. Temos a licença mantenedora da fauna para preservação e animais que o próprio IBAMA apreendeu e foram levados para o parque fazenda para voltarem ao seu habitat, obedecendo a diversas normas exigidas pela instituição", contou Gustavo Pires, responsável pelo empreendimento. Para trabalhar com a educação ambiental, o parque fazenda mostra para adultos e crianças como é o dia a dia de quem mora no sítio e apresenta a beleza da vida em meio à natureza. Para muitas crianças que cresceram na geração internet, o passeio é quase como apresentar um outro mundo que vai muito além de senhas de acessos, redes sociais e Google.

"Aqui nós mostramos como tirar leite de vaca, como cuidar dos bezerros, cavalos, porcos, lhama, coelhos e a galinha chocando os ovos. Temos até casos dos próprios pais que nunca viram vários tipos de galinhas e nem sabem como ordenhar uma vaca", falou Pires, completando ainda que o dia no campo tem também passeios de charrete, para que as crianças saibam como era a locomoção antigamente, e a explicação de como funciona um engenho, para aprenderem como os escravos moíam a cana para produzir o açúcar. 

Os passeios são sempre monitorados. Os funcionários explicam detalhadamente os cuidados com cada animal e ensinam como cada um deve ser alimentado com ração e água, espécies de capim. Para que a experiência seja ainda mais completa, as crianças podem tocar em alguns animais.

"As próprias crianças fazem esse contato com os animais domésticos, inclusive com os filhotes, que eles podem acariciar e pegar no colo. Elas também podem passear em um pônei". Para Pires, essa é uma forma de influenciar as pessoas a terem respeito pelos bichos. "Percebemos que esses momentos de proximidade com os animais podem marcar bastante a vida dessas crianças e, inclusive, a dos pais. Eles passarão a ter outra visão sobre os animais". Já os animais silvestres podem ser apenas observados. Eles ficam no Mini Zoo e suas alimentações são regulamentadas com dietas e devem seguir as instruções rigorosas passadas pelo IBAMA. Dentre as belezas da fauna os visitantes têm a oportunidade de conhecerem araras, papagaios, quatis, macacos, jabutis, corujas, tucanos, veado e avestruz. Aos finais de semana o empreendimento recebe famílias. Já durante a semana o local fica aberto para escolas, com trabalhos voltados principalmente para o ensino fundamental. Por ano, em média de 35 mil crianças visitam o parque fazenda.

As escolas buscam o espaço rural para que os alunos possam fazer diversas atividades, dentre elas ações voltadas para a sustentabilidade, preservação do meio ambiente e trabalhos de campo, com pesquisa de espécie de árvores e plantas.

"As visitas escolares são agendadas com um projeto pedagógico. Os monitores explicam as características de cada animal para as crianças. Na fazenda, elas podem tocar e alimentar os animais. Os silvestres são para visitação com as explicações dos monitores sobre cada um. Temos tirolesa, arborismo, trilha na mata, parquinho, berçário de animais, labirinto, oca do índio Guarany e casinha caipira de sapê", completou o empreendedor.



(texto publicado na revista Viver grande oeste São Paulo nº 33 - outubro/novembro de 2015)

domingo, 23 de agosto de 2015

O ambiente que me veste (texto elaborado pelos alunos do 1º e 2º ano de jornalismo da Cásper Libero)


Com bruscas mudanças climáticas e diversidade cultural gritante, as ruas de São Paulo restringem e ampliam o guarda-roupa de seus moradores

O céu amanhece nublado na cidade de São Paulo. Dentro de um ônibus lotado, agasalhados com casacos, jaquetas e moletons, homens e mulheres disputam espaço durante o trajeto até os compromissos do dia. Do lado de fora, sapatos confortáveis e calças jeans de diversas tonalidades tomam conta das calçadas e das faixas de pedestres. As horas avançam e o termômetro faz o mesmo. Por volta do meio dia, os agasalhos são postos de lado, para serem trazidos de volta somente no fim da tarde.

As mudanças bruscas no clima, bem como a irregularidade das calçadas e a pressa típica da multidão que ocupa as ruas são apenas alguns dos fatores que interferem na maneira como as pessoas se vestem diariamente em São Paulo. "Na cidade, a relação entre o espaço e as pessoas estabelece um diálogo com o urbano, o concreto, o asfalto, a violência, a sujeira e a multidão", avalia Astrid Façanha, mestre em ciência da comunicação e especialista em composição e imagem de moda.

O guarda-roupa dos paulistanos tende a ser prático, confortável e versátil, preparado para qualquer ocasião. De um lado, as ruas são responsáveis por limitar as escolhas de vestuário de cada um, do outro, elas dão a oportunidade para quem quer se expressar a sua maneira numa grande cidade.

A roupa de cada dia

São Paulo é sede de 38% das 100 maiores empresas privadas de capital nacional e um dos principais centros empresariais da América Latina, o que explica a grande quantidade de engravatados que passam diariamente pelas principais avenidas da cidade. O gerente de marketing do escritório de advocacia AIDARsbz, Eduardo Ferreira, de 33 anos, é um deles. Ele começou a usar terno aos 23 anos e se habituou ao traje formal com o passar do tempo. Hoje, chega até a "dormir no sofá" usando gravata sem se incomodar. Não tenho problema com a roupa do trabalho, na verdade, só troco quando quando vou à academia", conta.

A vida profissional tornou-se um fator determinante na maneira como as pessoas se vestem. "Inevitavelmente, você vai ter que se adequar ao meio", pondera a especialista Astrid Façanha. No entanto, o código de etiqueta no vestuário do paulistano não se restringe ao ambiente de trabalho. Os moradores da cidade mostram no dia-a-dia uma preocupação com o estilo e, ao mesmo tempo, o conforto, no intuito de aguentar a agitada rotina paulistana.

Tal agitação fica ainda mais clara para os que se mudam de outras cidades para São Paulo. É  o caso de Dalva Falcão, enfermeira que trocou o sol carioca pela garoa paulistana. "O carioca é mais despojado; em São Paulo, as pessoas são mais contidas", afirma.

A temperatura foi um fator decisivo nas adaptações de visual da enfermeira: ela teve que aposentar várias peças que costumava usar no Rio de Janeiro depois da mudança. "No Rio, as mulheres em geral usam muitas peças decotadas e sensuais. Aqui em São Paulo, ando mais coberta", explica Dalva. De acordo com Astrid Façanha, "enquanto o carioca deseja ser sensual, o paulistano prefere mostrar que é informado. A configuração urbanística de São Paulo contribui para moldar esse estilo. A roupa urbana acaba se tornando mais acolchoada, com cores mais escuras e vai, aos poucos, se transformando numa roupa de proteção".

Dalva também percebeu essa mudança automática na cartela de cores de seus trajes: "As roupas que uso agora são mais escuras. Sempre optei por cores mais básicas, como bege e marrom, mas notei que em São Paulo se usa muito preto. Logo, também passei a usar - o que não fazia no Rio, até pelo calor".

Liberdade urbana

A convivência e a coexistência de pessoas com diferentes tradições e origens, bem como o aspecto urbano das ruas paulistanas, permitem que os cidadãos sintam-se a vontade para expressarem suas personalidades plurais. Para Alberto Hiar, diretor criativo da Cavalera, marca brasileira especializada em moda urbana, "as personagens das ruas mostram que o paulistano gosta de se vestir bem e com estilo. Como São Paulo é um local que recebe gente do mundo todo, os estilos se misturam e se complementam, criando algo único".

A hostess da casa noturna Club Yacht, Melissa Depeyre, de 34 anos, concorda: "Muitas pessoas migram para São Paulo de outras cidades, estados e países. Elas trazem consigo influências do seu lugar de origem e, quando chegam aqui, vão em busca do seu próprio estilo".

O jovem Luís Felipe Giuberti sentiu essa experiência na pele quando, há 5 anos, se mudou de Franca, no interior de São Paulo, para a capital. "No interior era difícil eu me encontrar, pois o padrão é limitado. Eu via peças diferentes, mas não tinha coragem de comprar porque faltavam ambientes para usá-las." Astrid explica esse processo que ocorre nas pequenas cidades: "A vantagem do grande centro urbano em relação às cidades menores é que não existe a pressão social que te obriga a se vestir de uma determinada maneira para compactuar com algumas normais sociais".

A mudança para São Paulo possibilitou que Luís desenvolvesse seu senso de estilo - e que ficasse mais confortável colocando-o em prática. "Em termos de liberdade na escolha da vestimenta e de julgamento alheio, a cidade é bem mais liberal. Eu nunca me senti julgado por algo que usei. Talvez alguém tenha olhado estranho, mas, no interior, eu seria expulso", conta.

Elegância prática

Melissa, que estudou arquitetura e já trabalhou como assistente de Glória Coelho, renomada estilista brasileira, acredita que o que pode ser generalizado em relação ao estilo presente nas ruas paulistanas durante o dia é a busca pelo conforto e pela praticidade. "As pessoas em São Paulo são muito ativas, estão se movimentando o tempo inteiro, andam de cima para baixo e por isso querem algo prático."

Junto a essa característica, vem o anseio pela elegância, que é visto no guarda-roupa da própria Melissa. Nele podem ser encontradas peças de estilistas como Alexandre Herchcovitch e botas de criação própria (mantidas guardadas, justamente por não serem práticas). Astrid Façanha descreve os paulistanos como pessoas que "almejam a elegância, o estar na moda, para serem descolados e chiques".

Esse contraste entre a praticidade e a elegância que ocorre em São Paulo se deve ao fluxo de informação e noção de estilo nas ruas e em toda a cidade. "Além de ter o próprio ambiente urbano como influência, a grande circulação de informação também contribui para a composição do estilo paulistano. Temos esse contraste: de um lado, o vestir urbano, e de outro, a informação de moda que vai se democratizando, dando uma quebrada na roupa de circulação, de proteção", explica Astrid.

Tal oposição pode ser melhor observada na transição do dia para a noite nas ruas de São Paulo. "Existe um movimento contrário de romper com a lógica cinzenta do espaço: uma intenção velada de desafiá-la", conta o especialista. As cores tão sóbrias e sólidas que, durante o dia, quase se misturam ao concreto dos edifícios, se intensificam à luz da lua. Alberto Hiar, da Cavalera, acredita que "São Paulo é mais que preto e cinza". Para ele, as cores da cidade surgem não só na agitação da noite, mas "a partir da arte de rua, da música, do rock ao hip hop e do grafite nos muros".



(texto publicado na revista Esquinas nº 54 - 2º semestre de 2013)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Diário de vida: tal dono, tal lixo


Uma das características do povo japonês que mais incorporei foi a de não fazer "sujeira" na rua, ou seja, prefiro carregar um papel de bala ou de chocolate dentro da bolsa do que jogar por aí. Moro em uma casa de esquina e volta e meia acabo recolhendo lixo e fezes de cães que os tutores não se dão ao trabalho de recolher porque, apesar de não ser obrigação minha fazer isso, sempre achei que o território do portão da minha casa para fora é patrimônio de todos. E a saúde também. 




Atualmente há muita reclamação com a redução da velocidade e consequente aumento no número de multas e ao ler o seguinte artigo achei interessante se os "porquinhos" de plantão também tivessem que pagar a cada lixo que jogassem pelo chão.

Como seu lixo vai identificar você

1 - O software consegue recriar com mais de 90% de precisão traços faciais, cor da pele e olhos, sexo e se a pessoa tem sardas ou não.

2 - Como o programa não consegue determinar a idade, o tipo de lixo encontrado ajuda a traçar um perfil provável.

3 - Já que o laboratório não prevê corte de cabelo ou acessórios, os rostos são apenas aproximações. A ideia é que isso baste para constranger os moradores.

Cuspido e escarrado

Todos os dias, os habitantes de Hong Kong descartam 16 mil toneladas de lixo. Assim, a ONG ambientalista HK Clean-UP resolveu levar a sério a luta contra a sujeira nas ruas por lá. Começou a recolher dejetos nas vias públicas - bitucas, chicletes, camisinhas - e mandá-los para um laboratório. Com os resquícios de DNA encontrados neles, recriou os rostos das pessoas que jogaram lixo no chão. E espalhou suas caras pela cidade.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 349 - julho de 2015)


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Peixes-boi brasileiros são despachados para o Caribe - Jennifer Ann Thomas



O Brasil abre mão da sua fauna em prol de uma iniciativa internacional. Pode parecer heroico à primeira vista, mas o que a medida expõe é o descaso brasileiro.

Ganhar uma passagem só de ida para o Caribe pode parecer um prêmio de loteria. Mas para cinco peixes-boi marinhos do Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA), em Itamaracá, Pernambuco, a realidade é outra. Ao invés de uma vitória, a transferência desses animais para o Parque Nacional de Guadalupe - com passagem marcada para meados de abril - representa o enorme fracasso da ciência brasileira.

Instituído em 1998, o CMA é uma continuação do bem-sucedido Projeto Peixe-Boi, que surgiu em 1980 para dar início às pesquisas sobre a espécie. Desde 2010, o CMA passa por dificuldades inegáveis. A situação é tão calamitosa que até mesmo a bióloga e coordenadora do CMA, Fábia Luna, admite ser este um dos motivos para o envio dos animais. "Precisamos fazer reformas nos recintos, e não temos como fazer isso enquanto os peixes-boi ocupam o espaço", explica. Do total de 19 animais, além dos cinco previstos para Guadalupe, dois serão transferidos para o Aquário de São Paulo.

É inadmissível presumir que o governo federal não poderia ter agido antes, com investimento, para resolver os problemas estruturais. Nesse contexto, o projeto de Guadalupe caiu feito uma luva. Caso dê certo, a importância de tirar a espécie da extinção - situação do peixe-boi marinho naquela região - é inquestionável. Contudo, os fins não justificam os meios. Com recursos do Ministério do Meio Ambiente, a estrutura conservacionista de Itamaracá, que abriga as espécies, recebe cerca de 3,5 milhões de reais por ano. Dinheiro que sai do bolso de todos os brasileiros. De acordo com a Associação de Pesquisas e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), o custo de um animal por ano chega a 400 000 reais. O governo francês começou o planejamento para receber peixes-boi marinhos há vinte anos. Com cerca de 1 milhão de euros (muito menos do que custaria no Brasil), finalizou-se a construção de tanques e instalações técnicas para abrigar os novos moradores do parque nacional.

No Brasil, o peixe-boi marinho, animal herbívoro, foi considerado o mamífero aquático em maior risco de extinção, por causa da caça. Hoje ele é elencado como "em perigo" pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), mas só existem duas pesquisas que estimam a sua população. A mais atual indica que são 1 000 indivíduos, e a anterior indicava 500, em áreas de observação distintas e com uso de metodologias conservacionistas diferentes.

Para calcular o valor econômico do peixe-boi, a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, fez um estudo sobre a sua função ecológica e a geração de empregos e renda com turismo. No condado de Citrus, na Flórida, um levantamento de 2004 mostrou que os peixes-boi renderam entre 8,7 milhões e 9,4 milhões de dólares por ano. Entre 1994 e 1999, o condado gastou quase 2 milhões de dólares por semestre a cada ano em tratamento mecânico e herbicida de vegetação aquática. Sem os peixes-boi, que naturalmente cumprem com essas funções, os gastos dobrariam.

A transferência entre países é legal e está prevista na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), tratado internacional do qual o Brasil é signatário. No caso do peixe-boi marinho, o acordo não pode gerar lucro para o Brasil. Se fosse o caso, existiria a opção de seguir o exemplo da China, que cobra 1 milhão de dólares pelo aluguel de cada panda em zoológicos pelo mundo. Mesmo assim, a legalidade caminha ao lado de uma controvérsia.

De acordo com o advogado especialista em direito ambiental, Fernando Pinheiro Pedro, o texto do decreto que regulariza a participação do Brasil, aprovado em 2000, tem uma falha. "Cada país deve ter uma autoridade administrativa e outra científica. Aqui, as duas são o IBAMA. Não há diálogo, o que ele decidir vai ficar por isso mesmo", explica. Com relação ao caso dos peixes-boi, o ICMBio foi designado para analisar o caso. "O segundo problema é que o ICMBio é o irmão siamês do IBAMA. Eles têm capacidade técnica plena, mas o tratado internacional fala em instituição científica no sentido de pesquisa e ensino, o que não é o caso de nenhum dos dois. A documentação para a transferência está em ordem, o problema é o decreto de quinze anos atrás", afirma.

Especialistas brasileiros se manifestaram e questionaram a medida. Para o diretor-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), João Carlos Gomes Borges, a situação da fauna do Brasil não é confortável para que o país abra mão de um exemplar sequer. "O projeto de Guadalupe pode ser replicado aqui. Existem dificuldades financeiras no CMA, mas não é sensato deixar que limitações econômicas definam as prioridades. Se vamos suprir a carência de um programa de reintrodução, não há motivo para que não seja no Brasil, já que as necessidades são semelhantes", afirma.

A discussão não se resume a Brasil versus Guadalupe. Os cinco animais não podem ser soltos na natureza, eles já se reproduziram e há irmãos de futuros filhotes nadando pelo litoral, o que representa um problema genético caso eles cruzem entre si. Ao mesmo tempo, a subespécie brasileira pode ter diferenças genéticas daquela de Guadalupe, impedindo que os animais sobrevivam no ambiente inadequado para eles.

Se permanecessem no Brasil, esses animais podem ficar em tanques de visitação em locais onde não há contato natural com o peixe-boi e servir para pesquisas sobre a espécie, e também como atração turística. Se a população tem contato com os animais, cresce o interesse em protegê-los. Um exemplo de sucesso é o Projeto Tamar, que com o dinheiro de seus centros turísticos conseguiu completar 35 anos com a marca de 20 milhões de filhotes de tartarugas marinhas soltos no mar.

O mico-leão-dourado, ameaçado de extinção na década de 70, foi reintroduzido com filhotes de cativeiro que nasceram em zoológicos ao redor do mundo, a exemplo do que será feito em Guadalupe. A diferença é que o pequeno primata é exclusivo do Brasil, endêmico da Mata Atlântica brasileira no Rio de Janeiro. Na década de 80 eram 200 animais na natureza, hoje são cerca de 3 200. A ararinha-azul é considerada extinta e, nesse mês, um casal nascido na Alemanha chegou ao Brasil para fazer companhia às outras 11 aves que vivem no país. Esses casos fazem pensar se o governo precisa mesmo que o peixe-boi marinho chegue a esse ponto para ter interesse em repatriar a espécie.

No começo deste ano, reportagem de VEJA mostrou o caso do boto cor-de-rosa, caçado aos milhares por pescadores na Amazônia há anos, sem fiscalização efetiva do governo. Foi somente com o desenvolvimento de um teste genético, por uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que se conseguiu aprovar uma moratória para aprimorar o trabalho que visa coibir a matança. Esses péssimos exemplos de descaso com nossa natureza indicam que o governo brasileiro está abrindo mão dos seus animais e deixando à mercê da sorte os centros que supostamente são responsáveis por garantir a sobrevivência das espécies que vivem no país.

Papa Francisco se une à batalha contra os transgênicos - Emilio Godoy (Tradução de Victor Farinelli)


O Papa criticou os transgênicos por seus impactos agrários, sociais e econômicos, e fala da necessidade de um debate amplo sobre o tema.

Há alguns séculos atrás, a indústria da biotecnologia poderia ter comprado uma bula para autorizar seus pecados e obter a redenção prévia. Porém, em sua ecológica encíclica Laudato si, o papa Francisco condenou os organismos geneticamente modificados (OGM) sem perdão possível.

Em sua primeira carta circular aos católicos desde que iniciou seu pontificado, no dia 24 de maio de 2013, o argentino Jorge Mario Bergoglio critica os OGM por seus impactos agrários, sociais e econômicos, e fala da necessidade de um debate amplo sobre o tema, e não somente desde a esfera científica.

Laudato si – “louvado sejas”, em italiano antigo – faz referência ao título de um cântico de Francisco de Assis que reza: “louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa Mãe Terra, a qual nos sustenta, nos governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas”.

É a primeira encíclica na história dedicada à situação ambiental e à reflexão sobre “a casa comum” da humanidade, o planeta.

O documento reconhece a falta de “comprovação contundente” sobre o dano que os OGM poderiam causar aos seres humanos, mas destaca que existem “problemas importantes que não devem ser relativizados”.

“Em muitos lugares, após a introdução desses cultivos, se constata uma concentração de terras produtivas nas mãos de alguns poucos, devido à progressiva desaparição dos pequenos produtores, obrigados deixar a produção direta, como consequência da perda das terras exploradas”, segundo a encíclica.

A partir disso, o primeiro papa latino-americano denuncia a precarização do emprego, a migração rural às periferias urbanas, a devastação dos ecossistemas e o surgimento de oligopólios de sementes e de insumos.

Nesse contexto, Francisco propõe “uma discussão científica e social que seja responsável e ampla, capaz de considerar toda a informação disponível e de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome”, porque “às vezes não se põe na mesa toda a informação, selecionada entre acordos pelos próprios interesses, sejam eles políticos, econômicos ou ideológicos”.

Está faltando esse tipo de debate em torno dos OGM, sobretudo porque a indústria biotecnológica se nega a abrir seus bancos de dados para comprovar se os produtos são mesmo inócuos, como eles defendem, ou se existem efeitos, e quais são.

Esse debate necessita, segundo argumenta a encíclica, “espaços de discussão onde todos aqueles que possam ser direta ou indiretamente afetados de alguma forma (agricultores, consumidores, autoridades, cientistas, produtores e vendedores de sementes, povoados vizinhos aos campos cultivados e afetados quimicamente, entre outros) exponham suas problemáticas ou tenham amplo e fidedigno acesso a informação, para tomar decisões visando o bem comum, o presente e o futuro”.

“O México já é uma referência na luta pela ‘justicialização’ do direito a um ambiente saudável, pela constância decidida das organizações sociais. Nossa demanda coletiva se robustece com a encíclica”, disse o sacerdote Miguel Concha, diretor do Centro de Direitos Humanos Frei Francisco da Vitória, em entrevista para Tierramérica.

O religioso católico faz suas as palavras da encíclica sobre as implicações sociais, econômicas, legais e éticas relacionadas aos transgênicos.

A encíclica dá uma especial importância às nações como o México, cenário de uma intensa luta sobre os transgênicos, principalmente no caso do milho, grão de enorme simbolismo cultural para este país latino-americano, além de base da sua alimentação.

E igualmente para Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica, que, junto com o sul do México, conformam o berço da civilização maia, na América Central.

O papa conhece de perto o impacto dos cultivos transgênicos, porque sua Argentina natal é o país latino onde as sementes modificadas mais alteraram a agricultura tradicional. Um exemplo disso é o cultivo da soja, onde 20,2 dos 31 milhões de hectares cultivados no país são de sementes modificadas.

A monocultura da soja leva ao deslocamento dos produtores locais, gera alta concentração no setor e cria “um círculo vicioso altamente perigoso para a sustentabilidade dos nossos sistemas produtivos”, explicou o acadêmico e engenheiro agrônomo argentino Carlos Toledo, em entrevista para Tierramérica.

Quase toda a produção mundial de OGM se concentra em 10 países: Estados Unidos, Brasil, Argentina, Canadá, Índia, China, Paraguai, África do Sul, Paquistão e Uruguai, nessa ordem. A maioria desses cultivos se destina a forragem para a pecuária industrial, mas o México pretende que o milho entre na cadeia alimentícia humana.

No México, está vigente desde 2013 uma suspensão judicial das autorizações para semear milho transgênico com fins comerciais, imposta a partir de uma demanda de ação colectiva promovida, em julho daquele ano, por 20 organizações civis e 53 particulares.

Além disso, desde março de 2014, as organizações de apicultores e as comunidades indígenas têm obtido outros dos amparos provisórios contra a plantação comercial de soja geneticamente modificada em estados do sudeste, como Campeche e Yucatán.

No dia 30 de abril de 2014, oito cientistas de seis países enviaram uma carta aberta a Francisco, pedindo para que chamasse a atenção sobre a situação dos OGM, especialmente a cruzada no território mexicano.

Na missiva, os especialistas denunciam as sequelas ambientais, econômicas, agrícolas, culturais e sociais provocadas pelos OGM, além de questionar seus resultados.

Os cientistas afirmam que a “enorme transcendência” de uma declaração de Francisco “criticando os transgênicos e apoiando a agricultura familiar, o que seria uma importante ajuda para salvar os povoados e para o planeta da ameaça que significa o controle da vida por parte das empresas que monopolizam as sementes, principal elemento de toda rede alimentária”.

Na Laudato si, o pontífice evidencia que escutou o pedido.

“A encíclica é muito esperançadora, porque expressa uma postura ecologista. Aborda temas muito sensíveis, a situação é terrível e amerita a intervenção papal. Nos dá força moral para seguir na luta”, declarou a Tierramérica a acadêmica Argelia Arriaga, do Centro Universitário para a Prevenção de Desastres, instituição ligada à também pública Universidade Autônoma de Puebla.

Mas as ações legais não puderam frear as ânsias do setor biotecnológico no México.

Em 2014, o Serviço Nacional de Saúde, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar (Senasica) recebeu da indústria biotecnológica e de centros investigadores públicos quatro pedidos para semear milho transgênicos experimentalmente.

Ademais, foram apresentados 30 requerimentos para a plantação piloto de algodão, experimental e comercial, para um total de 1,18 milhão de hectares. Também há um pedido para feijão transgênico, cindo de trigo, três de limão e uma de soja, todos em caráter experimental.

A Senasica também processa cinco solicitações da indústria para plantar algodão e alfalfa transgênicos a nível comercial e experimental, sobre mais de 200 mil hectares.

“Se trata de um modelo econômico e de desenvolvimento que ignora a produção de alimentos”, destacou o sacerdote Concha.

Logo após conseguir que os tribunais federais descartem 22 amparos impostos pelo governo e pelas empresas contra a decisão judicial de suspender temporariamente as licenças, os participantes da demanda se preparam para o julgamento que decidirá o futuro dos OGM no país.

Na encíclica, Arriaga aprecia o enfoque que vai além do tema do milho e dos transgênicos, pois envolve a outras lutas ambientais. “Para as pessoas, nas comunidades, é importante a mensagem papal, porque ela diz que eles têm que cuidar dos recursos. Ajuda a criar consciência”, explicou.

Um Everest de cocô - Rafael Gonzaga


A montanha mais alta do mundo está com um problema (de saneamento) básico. Mais de 4 mil alpinistas já a escalaram desde 1953 - são 700 a cada temporada, entre abril e maio - e não há nenhum banheiro por lá. O resultado são toneladas de xixi e cocô enterrados na neve. Autoridades nepalesas agora alertaram que tanto cocô está começando a causar doenças. Segundo o montanhista Victor Carvalho, do Clube Alpino Paulista, durante a escalada é comum que se recolha o lixo não-orgânico, e se enterrem (ou cubram com pedras) os dejetos orgânicos. Para o primeiro tipo de lixo, o governo agora impôs a regra de que cada escalador retorne com 8 kg de resíduos, a média gerada por escalada. Para o cocô, no entanto, a melhor solução ainda são sacos higiênicos descartáveis, que precisam ser carregados de volta. Nada muito agradável.



(texto publicado na revista Super Interessante nº 349 - julho de 2015)




quarta-feira, 29 de julho de 2015

Descartáveis: como e quando usá-los


O uso dos descartáveis está longe de ser uma unanimidade, mas de uns tempos para cá, eles vem ganhando uma nova roupagem e oque era sinal de festa despretensiosa, hoje significa maior praticidade e, dependendo da escolha, até chique.

Combatido por muitos ambientalistas que veem no uso dos descartáveis o aumento da produção de lixo a boa notícia é que esse cenário começou a mudar. Já estão disponíveis no mercado descartáveis considerados eco-friendlies. Alguns são desenvolvidos a partir de fontes renováveis como o amido de milho e o bagaço da cana de açúcar, e podem ser descartados juntamente com o lixo orgânico. Embora sejam mais resistentes que os antigos, degradam-se em 90 dias. Encontrados facilmente em papelarias, hipermercados e lojas de festas os descartáveis são práticos e muitas vezes são uma ótima solução para uma festa de última hora ou quando não se tem a quantidade de pratos, talheres e copos suficientes.

Uma reunião marcada na última hora, por si só, não deve ser formal. Assim, os descartáveis mais sofisticados, aliados  à criatividade dos organizadores, podem garantir um mínimo de charme à ocasião. Vale usar acessórios decorativos temáticos, adesivos e fitinhas para incrementar a mesa. Além disso, não são só doces que podem ser servidos em copinhos e colheres (sim, eles podem ser literalmente servidos em talher), as saladas também podem se transformar em arranjos coloridos se colocadas em taças mais largas, copos ou cumbucas. Essas últimas servem também para risotos, petiscos e complementos como vinagrete, patês, molhos, conservas, etc.

Os detalhes dos descartáveis de luxo são tantos que a primeira vista quem olha pensa que são de inox, tudo porque o acabamento é diferente e bastante caprichado, dando a impressão de serem verdadeiros com seus detalhes em prata, ouro ou ouro branco. Há ainda no mercado linhas que imitam porcelana. O material também é um pouco mais reforçado que os descartáveis comuns. A variedade é imensa. É possível, por exemplo, organizar uma mesa de jantar com travessas, bandejas, palitos para quitutes, cumbucas para sobremesas, pratos, talheres, taças de vários tipos, suportes para finger foods e cupcakes

O tradicional guardanapo de pano também vem sendo substituído pelo de papel. Na Europa, há muito tempo já não se usa mais guardanapos de pano. No Brasil isso também tem se tornado uma tendência. Hoje o mercado dispõe de opções mais luxuosas e práticas. É importante destacar que os guardanapos devem ser macios e de qualidade. Além de higiene e requinte, os novos guardanapos oferecem a possibilidade de personalização, com a impressão de iniciais de noivos, aniversariantes ou até a identificação da empresa, no caso de eventos corporativos.

Para os adeptos dos descartáveis são muitas as vantagens de utilizá-los. Entre elas é que quando quebrados, não geram os incômodos cacos que podem ferir os convidados e, principalmente, o constrangimento por parte deles de terem quebrado a louça. Além disso, ao terminar a festa não é preciso lavar uma pilha de louça ou tão pouco preocupar-se em contar a louça no caso de locação e se deparar com a falta de um ou mais itens que com certeza será obrigado a ressarcir para a empresa.

Quando usar?

Cristiana Prado, da empresa de festas Mog e Mug, especializada em festas infantis, diz que há ocasiões em que não há necessidade de tanto refinamento. Além disso, num serviço para crianças os descartáveis são mais seguros. A organizadora, no entanto, faz algumas ressalvas. Mesmo numa festa infantil há adultos e, para eles, ela prefere reservar pratos de porcelana e talheres de inox. Em relação às taças descartáveis, Cristiana, já não mostra a mesma complacência. "Não precisa nem ser cristal, as taças e tulipas podem ser até de vidro, mas é inaceitável servir champanha ou prosecco num copo plástico. As taças têm a função de manter a temperatura adequada da bebida. O plástico não contribui para isso e deprecia a bebida."

Com ou sem restrições, ninguém pode negar que os descartáveis são práticos e, se a ocasião for informal, não há motivo para preconceito, principalmente quando o evento reunir adolescentes, for realizado em casa ou ao ar livre. Levar louça para um piquenique no campo ou praia também não é adequado.

Daniela Folloni, do Blog IT Mãe, não vê problema no uso de descartáveis e lembra a variedade enorme de produtos com design diferenciado e licenciados, com personagens que as crianças estão amando no momento. Para fazer um evento bem organizado e bonito ela indica um passeio pelas lojas especializadas, mas quem não tem fôlego, nem tempo para esse tipo de "garimpo" pode escolher o que quer na internet. Há inúmeros kits prontos com os personagens do momento. Peppa Pig e os personagens de "Frozen - Uma Aventura Congelante" são os queridinhos do momento. 

Já a organizadora de eventos Letícia Alencar é radical. Ela não aceita o uso de descartáveis para nenhum tipo de evento. Mesmo para os chamados docinhos de colher, prefere usar potinhos de vidro. Segundo ela, a cerâmica, porcelana, vidro, cristal garantem um acabamento mais refinado em qualquer produção.

Letícia acrescenta ainda que nem sempre o custo-benefício dos descartáveis é vantajoso. "Em São Paulo, você encontra uma série de empresas que alugam material para festas com preços bem acessíveis", assinala Letícia.

Quanto comprar

Na hora de calcular a quantidade de material descartáveis é preciso lembrar que pratos são vendidos em embalagens de 10 e 8 unidades (os temáticos). Talheres são vendidos em pacotes de 8, 10 e 50, dependendo do tipo. Os guardanapos vêm em pacotes de 50 e 100 unidades. As taças e copos de acrílico são vendidos em embalagens com no mínimo 5 unidades. A quantidade oferecida, porém,não é o mais importante. O que o anfitrião precisa ter claro é o tipo e duração do evento, a quantidade e a variedade de comida e o perfil do público.

Para calcular o número de copos há vários métodos. Em geral, reserva-se de três a cinco copos por convidado. Se preferir levar em conta o tipo de bebida lembre que uma garrafa pet de 2 litros de refrigerante serve 10 copos de 200 ml. Colocando uma margem de segurança, providencie 12 copos para cada garrafa. No caso da cerveja, que pode ser consumida direto da lata ou garrafinha, o consumo de copos pode ser menor, mas não devem ser dispensados e o ideal é optar por copos mais rígidos. A média, nesse caso, é de 3 a 5 unidades por pessoa.

A quantidade de talheres e de pratos depende do tipo de refeição. Em geral, estima-se o número de convidados com um acréscimo de 20%, sem esquecer os pratos e talheres para a sobremesa.

A quantidade de guardanapos também está condicionada ao tipo de alimento a ser servido. Festas com mais petiscos exigem uma quantidade maior de guardanapos. Nesse caso, estima-se de 10 a 15 unidades por convidado ou um guardanapo (pequeno) para cada salgado. Quando for servida uma refeição como prato principal, reserve três guardanapos por pessoa. Se ao final, decidir servir café, calcule 40% do número de convidados presentes. Ah, lembre-se que em geral, 30% dos convidados não comparecem. Boa Festa!




(texto publicado na revista Collina edição 17)