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segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Adeus, trem fantasma - Heitor e Silvia Reali
Há cem anos era inaugurada, em Porto Velho (RO), a ferrovia Madeira-Mamoré, cuja implantação na Floresta Amazônica custou a vida de 6 mil trabalhadores, de trinta nacionalidades. Um século depois, parte do que resta da memória física da ferrovia épica vai submergir sob as águas das hidrelétricas do Rio Madeira.
Duas monumentais obras da engenharia brasileira do século passado foram implantadas em Rondônia: a quilométrica linha telegráfica da Amazônia, levada a cabo pelo marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, e a ferrovia Madeira-Mamoré, aberta em plena floresta tropical que completa 100 anos em agosto. Da primeira não resta um fio, mas a linha de comunicação que uniu Rondônia ao resto do Brasil não se desfez. A segunda está indo pelo mesmo caminho, sem ressalvas.
Raramente um historiador, lida com a história ao vivo, mas em Rondônia isso ainda é possível, pois o que sobrou da sucateada ferrovia ainda dá para ser vislumbrado. Muitos vestígios estão lá: locomotivas abandonadas, trilhos perdidos no mato, um museu em Porto Velho, outro em Guajará-Mirim, um cemitério abarrotado de cruzes, ruínas de estações ferroviárias e pontes metálicas enferrujadas.
Parte desse legado está submergindo sob as águas represadas das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, como a ponte metálica Jaci-Paraná, com 84 metros de vão, um ícone da ferrovia. "Essa vai para baixo d'água", lamenta o historiador Aleksander Palitot, da Faculdade Porto, da Fundação Getúlio Vargas de Porto Velho. "Vários trechos da ferrovia foram inundados. Outra perda é a inundação do Marco Rondon, ou Marco Divisório, um obelisco centenário construído pela expedição Rondon, que implantou as linhas telegráficas em 1911, durante a demarcação dos Estados do Amazonas e de Mato Grosso", diz o historiador. Da memória apagada sobreviverão, além dos museus, pontes ferroviárias convertidas em rodoviárias, já usadas na rodovia Porto Velho-Guajará-Mirim.
O descaso com a preservação do que resta da ferrovia histórica leva o arquiteto Luiz Leite de Oliveira, presidente da Associação de Amigos da Madeira-Mamoré, a denunciar "a degradação, o abandono e o completo desaparecimento que também ocultará o orgulho de termos construído uma obra considerada ciclópica na época".
Exagero? Nem tanto. Na ocasião, a construção da estrada foi comparada à abertura do Canal de Panamá. Personalidades como o presidente Theodore Roosevelt, dos Estados Unidos, o escritor Mário de Andrade e o médico e antropólogo Edgar Roquette-Pinto, pioneiro do rádio no Brasil, "vieram a Rondônia conhecer o resultado do desafio de construir uma ferrovia no coração da Floresta Amazônica", ressalta Palitot.
Saída para o mar
O apogeu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) foi sua inauguração festiva em 1º de agosto de 1912, em Porto Velho. Os 366 quilômetros da ferrovia cortavam a floresta unindo as recém-fundadas Porto Velho e Guajará-Mirim (na divisa com a Bolívia). Desde 1867, sonhava-se com a obra. Naquele ano o Brasil firmou com a Bolívia o Tratado da Amizade que permitia ao país andino a navegação pelos rios Beni, Guaporé, Mamoré e Madeira, para escoar produtos pelo Oceano Atlântico. Havia só um porém: faltava transpor um extenso trecho encachoeirado do Rio Madeira - o que só uma ferrovia conseguiria.
A primeira concessão para a construção da estrada foi acertada em 1868 e entregue ao americano George Church, presidente da Madeira-Mamoré Railway Co. Em 1872, iniciaram-se as obras. Com problemas similares aos encontraados pelo engenheiros franceses na primeira fase da construção do Canal do Panamá - agravados pelas dificuldades de abrir caminho pela floresta e o exorbitante número de trabalhadores mortos por malária e febre amarela -, duas empresas contratadas para a execução da ferrovia foram à falência, deixando para trás, em 1879, sete quilômetros de trilhos colocados.
Em 1879, a Bolívia sofreu uma traumática perda de território noa costa do Oceano Pacífico, conquistado militarmente pelo Chile durante a Guerra do Pacífico (1879-1883), travada também contra o Peru. Os bolivianos perderam a cidade de Antofagasta e se viram sem saída para o mar. A ferrovia Madeira-Mamoré e os rios amazônicos viraram a única alternativa para a exportação dos seus produtos, pelo porto de Belém, no Oceano Atlântico. Entretanto, nenhuma outra empresa de engenharia topou encarar o desafio e Church desistiu da empreitada.
Para piorar, as relações entre Brasil e Bolívia também se deterioraram. Na virada do século 20, a Amazônia ganhou prosperidade com o ciclo da borracha, graças à seringueira Hevea brasiliensis. Espalhadas pela floresta, as árvores produziam uma borracha de qualidade única, essencial para o transporte, a comunicação e a indústria da época, um pouco como o petróleo é hoje em dia. Até 1910 a borracha foi o segundo produto da exportação brasileira, perdendo apenas para o café. Em consequência, a região recebeu investimentos, conheceu um boom econômico, inaugurou o Teatro Amazonas, em Manaus, e os seringalistas que haviam invadido a floresta boliviana proclamaram a República do Acre, em 1889.
Graças aos esforços do diplomata José da Silva Paranhos, o barão do Rio Branco, evitou-se uma guerra com o país vizinho por meio do Tratado de Petrópolis, de 1903, pelo qual a Bolívia vendeu o Acre ao governo brasileiro. Pelo acordo, o Brasil se comprometeu a indenizar os bolivianos em dinheiro e a construir efetivamente a estrada de ferro. Em 1907, o governo federal assumiu a construção da ferrovia, entregando o empreendimento ao empresário norte-americano Percival Farquhar (1864-1953). Foi a primeira grande obra da engenharia civil norte-americana fora dos EUA após o início da construção do Canal do Panamá (então em andamento). Quase 800 engenheiros e trabalhadores norte-americanos participaram da empreitada.
Farquhar, na verdade, estava mais interessado na borracha acreana do que nos produtos bolivianos. Segundo o jornalista Elio Gaspari, pesquisador do empreendimento, o norte-americano foi o maior empresário de serviços públicos da história nacional. "Ao câmbio de hoje, seus investimentos no país equivaleriam ao controle da Light, da Vivo, da eletropaulo, da Acesita, dos metrôs do Rio e de São Paulo, e ele ainda seria o principal acionista de nossos portos e ferrovias", diz Gaspari.
Sob suas ordens, o trajeto da ferrovia foi alterado, pântanos foram saneados, o médico e sanitarista Oswaldo Cruz foi enviado a Rondônia para dirigir as campanhas de saúde, construiu-se um hospital de referência em Porto Velho e a capital de Rondônia ganhou sistema de água e esgoto.
Rastro de sofrimento
Depois de seis anos de construção, que empregaram 21 mil homens de 30 nacionalidades e percalços como desmoronamento causados por chuvas e ataques de índios, a obra terminou em 1912. Seis mil trabalhadores perderam a vida na empreitada, a maioria vitimada pela malária e a febre amarela.
Uma vez implantada, a "Ferrovia do Diabo" tinha tudo para dar certo, pois a borracha seguia valorizada no mercado mundial. Mas veio outro imprevisto. No fim do século 19, o inglês Henry Wickham contrabandeara para a Inglaterra 70 mil sementes da seringueira, liberada pela alfândega de Santarém como "espécies exóticas e delicadas para o Jardim Botânico de Londres". A hévea foi plantada na Indonésia e na Malásia e começou a produzir intensivamente em florestas cultivadas. Assim, em 1913, a ferrovia sofreu outro golpe: os plantadores asiáticos inundaram o mercado com uma borracha de boa qualidade a preços baixos. A biopirataria de Wickham arruinou a economia da borracha na Amazônia e deu à Inglaterra o monopólio global do produto até a Segunda Guerra Mundial, quando surgiu a borracha sintética.
Falida, a ferrovia se arrastou nas mãos da Madeira-Mamoré Company até 1934, quando a empresa rescindiu o contrato de arrendamento de 60 anos e a estrada voltou para as mãos do governo federal. Durante a Segunda Guerra Mundial a Madeira-Mamoré recuperou valor estratégico, recolhendo borracha para o esforço de guerra aliado. Até 1957, chegou a registrar tráfego de passageiros e cargas. Em 1966, entretanto, o governo federal determinou que fosse desativada e substituída por uma rodovia, para não configurar um rompimento do Acordo de Petrópolis. Tal rodovia é a união da BR-425 (Porto Velho-Guajará-Mirim) e da BR-364 (Porto Velho-Cuiabá). Em 1981, um pequeno trecho da ferrovia voltou a funcionar para fins turísticos, mas foi paralisado no ano 2000.
Quarenta anos depois do último apito das marias-fumaças, uma pátina de esquecimento líquido cai sobre a estrada, inundada pelas águas do reservatório da hidrelétrica de Santo Antônio. Como compensação pelos impactos da obra, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional determinou a restauração da oficina da EFMM em Porto Velho (5,7 mil metros quadrados de área construída e galpões de 13 metros de altura), paga pelo consórcio Madeira Energia, responsável pela usina.
Um trecho de oito quilômetros da estrada, entre Porto Velho e Santo Antônio, vai abrigar um trem turístico em 2014 - para matar saudades.
(texto publicado na revista Planeta edição 479 - ano 40 - agosto de 2012)
domingo, 6 de novembro de 2016
sábado, 5 de novembro de 2016
domingo, 30 de outubro de 2016
terça-feira, 13 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Mil novecentos e guaraná com rolha (Info Branding)
Pouca gente sabe, mas os refrigerantes, quase que no formato que conhecemos hoje, foram inventados por farmacêuticos e eram vendidos como produtos com propriedades medicinais!
Pois é, quem diria. Hoje martirizada por ter uma quantidade absurda de corantes, conservantes e açúcar, essa bebida começou quase como um suco, evoluiu para uma versão gaseificada e, após grande aceitação nos Estados Unidos, progrediu mais e mais. Ganhou componentes, cores, sabores, novas misturas e as receitas de sucesso passaram a ser guardadas como tesouros.
No Brasil, a novidade não foi aceita de primeira e alternativas tiveram que ser encontradas. Uma delas, o guaraná, pareceu ser boa escolha. Com apelo nacionalista, cor e sabor mais agradáveis ao gosto brasileiro, a bebida da fruta “matava dois coelhos em uma cajadada só”, seguindo a tendência mundial, tinha “propriedades medicinais” e altos índices de cafeína.
Uma das pioneiras no beneficiamento da bebida lançou sua versão com uma estratégia, digamos, interessante. A associação. Segundo alguns, o então Guaraná Champagne Antarctica, criado em 1921 pela Companhia Antarctica Paulista, recebeu esse nome por conta do leve amargor e da sua baixa adstringência. Outros defendem que as bolhas de gás carbônico e a coloração do produto é que contribuíram para essa escolha.
Outro ponto relevante é que as primeiras tampas-coroas metálicas, que selavam as garrafas, eram similares as de hoje em dia, só que em vez do plástico tinham um disco de cortiça (mesmo material das rolhas de champagne) para evitar o contato da bebida com o metal.
Qualquer semelhança é mera coincidência? Acredito que não. A companhia aproveitou esses “ingredientes” e abusou, chegando a deixar o produto sem identidade. As propagandas, o formato da garrafa, os elementos do rótulo, tudo fazia alusão aos champagnes da época, mais especificamente ao Mumm, um produto mais bem consolidado e com maior valor agregado.
A estratégia parecia boa, mas as vendas de refrigerantes, de qualquer sabor, ainda não eram um absurdo por esses lados, somente com o advento da tecnologia é que o povo brasileiro passou aceitar melhor o produto. Refrigeradores, latinhas e novos tipos de garrafa, facilitaram esse approach, e a essa altura a Coca-Cola, que vamos combinar, tinha muito mais poder financeiro e uma estratégia bem consolidada de mercado começou a nadar de braçada. Então qual foi à estratégia da Companhia Antarctica Paulista? Passou a utilizar em suas latinhas, elementos parecidos aos da latinha da Coca-Cola, cores e formas principalmente, e mais uma vez tínhamos um produto sem identidade.
A coisa evoluiu, e muito, com o produto refrigerante aceito, marcas começaram a surgir, o mercado se viu cheio de opções e algumas empresas passaram a se descolar, entre elas a Companhia Antarctica Paulista com o seu Guaraná Champagne Antarctica. O mercado tinha amadurecido e era preciso amadurecer, assim nova linguagem, novos elementos, novas cores passaram a ser adicionados à identidade do produto.
Nesse meio tempo, surgiu a Ambev (fruto da fusão entre a Companhia Antarctica Paulista e a Companhia Cervejaria Brahma) que se viu obrigada a fazer uma reforma no seu portfólio de marcas. A nova empresa tinha em suas mãos uma salada de produtos similares: Guaraná Brahma, Kas Guaraná, Guaraná Champagne Antarctica, Guará-Suco, Guaraná Baré, Guaraná Polar, entre outros. Descontinuou a maioria, restando somente o Guaraná Champagne Antarctica.
Tempos depois, trocou o nome do produto para Guaraná Antarctica, utilizar o termo champagne não fazia mais sentido, como dito, o rótulo tinha mudado, o formato da garrafa já não era parecido com uma garrafa de champagne e as propagandas não utilizavam mais esse gancho, enfim, um fechamento com chave de ouro para a família que, então, já contava com cores próprias, discurso amarrado e embalagens, teoricamente, bem resolvidas.
Hoje cheio de identidade, o Guaraná Antarctica, do Brasil, é vendido em diversos países (Argentina, China, Estados Unidos, Japão e Portugal são alguns exemplos) e está entre uma das marcas de refrigerantes mais vendidas no mundo. Uma evolução tão perceptível que contribuiu para o surgimento da expressão “Mil novecentos e guaraná com rolha”, uma alusão a coisas velhas/antigas e tempos passados.
domingo, 21 de agosto de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2016
A idade do ouro e do contrabando - Laurentino Gomes
Infestado de aventureiros, o Brasil respondia pela metade da produção mundial do minério no século 18
Trezentos anos atrás, quem estivesse em busca de aventura e fortuna tinha o Brasil como destino certo. No fim do século 17, a descoberta de ouro e diamante nos aluviões e contrafortes de Minas Gerais sacudiu o marasmo da colônia portuguesa, até então imersa por quase 200 anos na sonolência dos trópicos, e a transformou de repente numa serra Pelada de dimensões continentais. Poucos lugares do mundo foram tão agitados e perigosos nesse período quanto o interior brasileiro.
A data e o local da descoberta do primeiro filão de ouro no Brasil são desconhecidos. O mais provável é que tenha ocorrido entre 1693 e 1695, por aventureiros paulistas que andavam à procura de índios para escravizar na região onde hoje estão as cidades de São João Del Rei e Tiradentes. Pouco tempo depois, em 1697, a notícia já tinha corrido o mundo e aparecia nos relatórios que o governador do Rio de Janeiro enviava à coroa, em Lisboa, nos quais dizia que os garimpos "se estendem de tal modo ao longo do sopé de uma cadeia montanhosa que os mineiros são levados a crer que o ouro nessa região dure uma grande quantidade de tempo".
O governador tinha razão. A região compreendida por Minas Gerais e as províncias vizinhas de Goiás e Mato Grosso, exploradas alguns anos mais tarde, era tão rica em ouro que, de 1700 a 1750, respondeu por metade da produção mundial desse minério. O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699. Levava meia tonelada. A quantidade foi aumentando até chegar a 25 toneladas em 1720. No total, estima-se que entre mil e 3 mil toneladas de ouro foram levadas à capital do império.
O historiador Tobias Monteiro (1866-1952) estimou que só de Minas Gerais foram despachadas para Portugal cerca de 535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817, no valor de 54 milhões de libras esterlinas da época, ou cerca de 12 bilhões de reais corrigidos em 2008. Outros 150 mil quilos de ouro teriam sido contrabandeados no mesmo período, no cálculo de Monteiro. Em 1729, o fluxo de riquezas para a metrópole aumentou ainda mais com a descoberta das jazidas de diamante na colônia. O historiador Pandiá Calógeras (1870-1934) avaliou em 3 milhões de quilates, ou 615 quilos, o total de diamantes extraído no Brasil de meados do século 18 ao começo do século 19.
Como resultado da descoberta de ouro e pedras preciosas, a população da colônia passou de 300 mil para 3 milhões de habitantes em menos de um século. Foi a primeira grande onda migratória para o interior brasileiro. Só de Portugal, entre meio milhão e 800 mil pessoas mudaram-se para o Brasil de 1700 a 1800. Vinha gente de todo lado, "vagabundos e desordeiros, sendo a maioria deles da classe baixa e imorais", afirmou o governador da Bahia em 1701. Outra testemunha, um padre jesuíta, relatou: "Todos os anos, multidões de portugueses e estrangeiros chegam nas frotas para partir para as minas. Das cidades, vilas, plantações e interior do Brasil vêm brancos, mestiços e negros juntamente com muitos ameríndios contratados pelos paulistas".
Num cenário como esse, as confusões eram inevitáveis. A primeira, e mais importante, ficou conhecida como a Guerra dos Emboabas, na qual um grupo de paulistas foi massacrado, em 1709, por portugueses que vinham da Bahia e do interior de Minas Gerais. Em 1720, uma revolta contra o governador de Vila Rica teve de ser duramente reprimida pela coroa. A tensão continuaria até bem depois de esgotada a capacidade de produção das minas e resultaria na Inconfidência Mineira, de 1792.
Terra revirada
No auge da prosperidade, Vila Rica chegou a ser a maior cidade do Brasil, com 100 mil habitantes. O geólogo alemão Von Eschwege (1777-1855) contabilizou que no começo do século 19 ainda havia na colônia 555 minas de ouro e diamantes, que empregavam 6 662 trabalhadores, dos quais 6 493 eram escravos. A terra foi devastada pela atividade mineradora. "Por todos os lados, tínhamos sob os olhos os vestígios aflitivos das lavagens, vastas extensões de terra revolvida e montes de cascalho", descreveu o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) ao percorrer o interior de Minas Gerais. "Tanto quanto a vista alcança, está a terra toda revirada por mãos humanas, de tanto que o sonhado lucro excitou o desejo de trabalhar."
O controle sobre a mineração era rigoroso. Uma lei de 1733 proibia a abertura de estradas como forma de combater o contrabando, facilitando a fiscalização por parte dos funcionários portugueses. O ouro devia ser entregue às casas autorizadas de fundição de cada distrito, onde se cobravam os direitos da coroa. Um quinto, ou seja, 20% do minério em pó era reservado ao rei. Outros 18% pagos às casas de cunhagem. O restante ficava com os garimpeiros na forma de barras marcadas com seu peso, quilate, número e as armas do rei, além de um certificado que lhe permitia entrar em circulação.
Para facilitar o comércio, autorizava-se também a circulação de ouro em pó, em pequenas quantidades, usadas em pagamentos nas compras do dia-a-dia. Além do controle feito nas casas de fundições, havia postos de vigilância nas estradas, especialmente entre as minas e o litoral, onde uma guarnição militar tinha autorização para revistar qualquer pessoa. A punição para os contrabandistas era drástica: prisão, confisco de todos os bens e deportação para a África.
O contrabando dominava boa parte do comércio da colônia, apesar das tentativas de combatê-lo. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) calculou em 40% o total do ouro desviado de forma ilegal. Metais e pedras preciosas escoavam pelo rio da Prata rumo a Buenos Aires. Curiosamente, a mesma região, na fronteira com o Paraguai, ainda convive com o contrabando. A diferença é que agora por ali circulam clandestinamente pacotes de cigarros, artigos eletrônicos e bugigangas chinesas.
Trezentos anos atrás, quem estivesse em busca de aventura e fortuna tinha o Brasil como destino certo. No fim do século 17, a descoberta de ouro e diamante nos aluviões e contrafortes de Minas Gerais sacudiu o marasmo da colônia portuguesa, até então imersa por quase 200 anos na sonolência dos trópicos, e a transformou de repente numa serra Pelada de dimensões continentais. Poucos lugares do mundo foram tão agitados e perigosos nesse período quanto o interior brasileiro.
A data e o local da descoberta do primeiro filão de ouro no Brasil são desconhecidos. O mais provável é que tenha ocorrido entre 1693 e 1695, por aventureiros paulistas que andavam à procura de índios para escravizar na região onde hoje estão as cidades de São João Del Rei e Tiradentes. Pouco tempo depois, em 1697, a notícia já tinha corrido o mundo e aparecia nos relatórios que o governador do Rio de Janeiro enviava à coroa, em Lisboa, nos quais dizia que os garimpos "se estendem de tal modo ao longo do sopé de uma cadeia montanhosa que os mineiros são levados a crer que o ouro nessa região dure uma grande quantidade de tempo".
O governador tinha razão. A região compreendida por Minas Gerais e as províncias vizinhas de Goiás e Mato Grosso, exploradas alguns anos mais tarde, era tão rica em ouro que, de 1700 a 1750, respondeu por metade da produção mundial desse minério. O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699. Levava meia tonelada. A quantidade foi aumentando até chegar a 25 toneladas em 1720. No total, estima-se que entre mil e 3 mil toneladas de ouro foram levadas à capital do império.
O historiador Tobias Monteiro (1866-1952) estimou que só de Minas Gerais foram despachadas para Portugal cerca de 535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817, no valor de 54 milhões de libras esterlinas da época, ou cerca de 12 bilhões de reais corrigidos em 2008. Outros 150 mil quilos de ouro teriam sido contrabandeados no mesmo período, no cálculo de Monteiro. Em 1729, o fluxo de riquezas para a metrópole aumentou ainda mais com a descoberta das jazidas de diamante na colônia. O historiador Pandiá Calógeras (1870-1934) avaliou em 3 milhões de quilates, ou 615 quilos, o total de diamantes extraído no Brasil de meados do século 18 ao começo do século 19.
Como resultado da descoberta de ouro e pedras preciosas, a população da colônia passou de 300 mil para 3 milhões de habitantes em menos de um século. Foi a primeira grande onda migratória para o interior brasileiro. Só de Portugal, entre meio milhão e 800 mil pessoas mudaram-se para o Brasil de 1700 a 1800. Vinha gente de todo lado, "vagabundos e desordeiros, sendo a maioria deles da classe baixa e imorais", afirmou o governador da Bahia em 1701. Outra testemunha, um padre jesuíta, relatou: "Todos os anos, multidões de portugueses e estrangeiros chegam nas frotas para partir para as minas. Das cidades, vilas, plantações e interior do Brasil vêm brancos, mestiços e negros juntamente com muitos ameríndios contratados pelos paulistas".
Num cenário como esse, as confusões eram inevitáveis. A primeira, e mais importante, ficou conhecida como a Guerra dos Emboabas, na qual um grupo de paulistas foi massacrado, em 1709, por portugueses que vinham da Bahia e do interior de Minas Gerais. Em 1720, uma revolta contra o governador de Vila Rica teve de ser duramente reprimida pela coroa. A tensão continuaria até bem depois de esgotada a capacidade de produção das minas e resultaria na Inconfidência Mineira, de 1792.
Terra revirada
No auge da prosperidade, Vila Rica chegou a ser a maior cidade do Brasil, com 100 mil habitantes. O geólogo alemão Von Eschwege (1777-1855) contabilizou que no começo do século 19 ainda havia na colônia 555 minas de ouro e diamantes, que empregavam 6 662 trabalhadores, dos quais 6 493 eram escravos. A terra foi devastada pela atividade mineradora. "Por todos os lados, tínhamos sob os olhos os vestígios aflitivos das lavagens, vastas extensões de terra revolvida e montes de cascalho", descreveu o botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) ao percorrer o interior de Minas Gerais. "Tanto quanto a vista alcança, está a terra toda revirada por mãos humanas, de tanto que o sonhado lucro excitou o desejo de trabalhar."
O controle sobre a mineração era rigoroso. Uma lei de 1733 proibia a abertura de estradas como forma de combater o contrabando, facilitando a fiscalização por parte dos funcionários portugueses. O ouro devia ser entregue às casas autorizadas de fundição de cada distrito, onde se cobravam os direitos da coroa. Um quinto, ou seja, 20% do minério em pó era reservado ao rei. Outros 18% pagos às casas de cunhagem. O restante ficava com os garimpeiros na forma de barras marcadas com seu peso, quilate, número e as armas do rei, além de um certificado que lhe permitia entrar em circulação.
Para facilitar o comércio, autorizava-se também a circulação de ouro em pó, em pequenas quantidades, usadas em pagamentos nas compras do dia-a-dia. Além do controle feito nas casas de fundições, havia postos de vigilância nas estradas, especialmente entre as minas e o litoral, onde uma guarnição militar tinha autorização para revistar qualquer pessoa. A punição para os contrabandistas era drástica: prisão, confisco de todos os bens e deportação para a África.
O contrabando dominava boa parte do comércio da colônia, apesar das tentativas de combatê-lo. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) calculou em 40% o total do ouro desviado de forma ilegal. Metais e pedras preciosas escoavam pelo rio da Prata rumo a Buenos Aires. Curiosamente, a mesma região, na fronteira com o Paraguai, ainda convive com o contrabando. A diferença é que agora por ali circulam clandestinamente pacotes de cigarros, artigos eletrônicos e bugigangas chinesas.
(texto publicado na revista Aventuras na História edição 64 - novembro de 2008)
domingo, 22 de maio de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
sábado, 16 de abril de 2016
Andréia Horta está à altura da heroína das onze - Cristina Padiglione
Atriz se encanta ao falar de Joaquina, filha de Tiradentes, e de seus valores no delicado contexto político atual
Mineira como sua nova personagem, Andréia Horta está feliz com o aplique que tem feito a cabeça de Joaquina - "nunca tive cabelos tão compridos", celebra a protagonista da nova novela das onze, Liberdade Liberdade, que entra no ar hoje. Filha de Tiradentes, figura mítica cuja herdeira mal deixou rastros para registros históricos, Joaquina é prato cheio para uma atriz que sabe se valer de técnica e intuição para ocupar as linhas criadas pelo autor. E o autor, Mario Teixeira, já avisa que a trajetória traçada por ele é ficção pura, até porque, diz, "seria muito pouco provável que a herdeira de Tiradentes fosse levada por um fidalgo para crescer na Corte".
O Estado conversou com Andréia em um intervalo de gravações da nova novela, nos Estúdios Globo. Natural de Juiz de Fora, a atriz vestia figurino próprio, mas ostentava cabeleira de sua heroína. Joaquina surge na tela num momento em que o País carece de heróis na vida real. Não que ela espere preencher essa lacuna, ainda que ilusoriamente, mas mostra-se satisfeita em, quem sabe, provocar na plateia um interesse pelas causas daquela mocinha que questiona as liberdades do povo, a exploração e a corrupção vigentes no País. As bandeiras, infelizmente, chegam a ser muito atuais, embora o comando da época fosse ainda da Família Real portuguesa.
"Espero que (a novela) possa trazer alguma reflexão para as pessoas, muitas das nossas reivindicações já vêm daquela época. Ela fica indignada com o que vê quando chega de Portugal, não tolera a exploração, os maus tratos que testemunha com o povo, com escravos, enfim, ela traz as mesmas indignações que levaram o pai à forca", diz.
E ressalta o valor da palavra "justiça". Ela tem uma interpretação muito pura, na essência mesmo, do que é 'Justiça', sabe? Não é um termo relativizado ou tratado dentro de determinado contexto, no entender dela. Tem um significado no seu estado puro, sem contaminação".
A salvação da menina Joaquina, vivida por Mel Maia, logo após a morte de Joaquim da Silva Xavier (Thiago Lacerda) será obra de Raposo (Dalton Vigh), amigo do condenado, que oculta a condição de herdeira do "traidor" da Coroa para criá-la em Portugal. Na volta, ela será chamada por Rosa, para driblar as perseguições ainda latentes em Vila Rica.
Andréia se esmerou em aulas de equitação, tiros e esgrima. "A minha arma é linda, tem um cabo de madeira, é superbonita", derrete-se. Mas, se achava que tiraria de letra o manuseio de tais objetos cênicos, não foi assim tão destemida que ela se viu na hora de colocar a mão no gatilho ou de empunhar espadas. Bateu uma fragilidade, admite. "Descobri que sou mais mulherzinha do que imaginava."
Durante nossa conversa, Andréia escorrega com elegância para um "bocadim" discreto de seu acento mineiro, som que será usado de forma mais que moderada em Liberdade Liberdade, até porque a musicalidade presente naqueles dias era bem mais lusa - o que será evidenciado pela presença do português Ricardo Pereira, o coronel Tolentino.
Para Andréia, o privilégio do ofício, sem igual em qualquer outra profissão, é dar de cara com os sotaques, valores e histórias de um Brasil da Família Real, pouco depois de deixar o set de Elis, o longa-metragem de Hugo Prata, previsto para o segundo semestre. Trafegar entre universos tão distintos em tão curto espaço de tempo não é para qualquer um. Ela se comove ao lembrar de seus dias como Elis. Não se esquivou de cantar em cena, mas espera que o diretor insira no áudio a voz da própria cantora. "Acho que as pessoas vão ver o filme esperando ouvir a voz dela".
Encerrada nossa entrevista, vamos ao prédio de pós-produção, a bordo de um daqueles carrinhos elétricos que você vê no Vídeo Show. Andréia quer dar uma espiada no trabalho de edição da novela. No meio do caminho, passando diante de outro set, avistamos a adorável Rogéria. "Ah, vamos parar um minuto?", ela pede. As duas se abraçam e Rogéria não se cansa de festejar a atriz, a quem admira desde Alice, série da HBO que a lançou na TV. "Linda, linda, não se esqueça: nunca saia de casa sem rezar, porque você é uma es-tre-la", destaca a veterana, em bênção que só as divas conhecem.
Mineira como sua nova personagem, Andréia Horta está feliz com o aplique que tem feito a cabeça de Joaquina - "nunca tive cabelos tão compridos", celebra a protagonista da nova novela das onze, Liberdade Liberdade, que entra no ar hoje. Filha de Tiradentes, figura mítica cuja herdeira mal deixou rastros para registros históricos, Joaquina é prato cheio para uma atriz que sabe se valer de técnica e intuição para ocupar as linhas criadas pelo autor. E o autor, Mario Teixeira, já avisa que a trajetória traçada por ele é ficção pura, até porque, diz, "seria muito pouco provável que a herdeira de Tiradentes fosse levada por um fidalgo para crescer na Corte".
O Estado conversou com Andréia em um intervalo de gravações da nova novela, nos Estúdios Globo. Natural de Juiz de Fora, a atriz vestia figurino próprio, mas ostentava cabeleira de sua heroína. Joaquina surge na tela num momento em que o País carece de heróis na vida real. Não que ela espere preencher essa lacuna, ainda que ilusoriamente, mas mostra-se satisfeita em, quem sabe, provocar na plateia um interesse pelas causas daquela mocinha que questiona as liberdades do povo, a exploração e a corrupção vigentes no País. As bandeiras, infelizmente, chegam a ser muito atuais, embora o comando da época fosse ainda da Família Real portuguesa.
"Espero que (a novela) possa trazer alguma reflexão para as pessoas, muitas das nossas reivindicações já vêm daquela época. Ela fica indignada com o que vê quando chega de Portugal, não tolera a exploração, os maus tratos que testemunha com o povo, com escravos, enfim, ela traz as mesmas indignações que levaram o pai à forca", diz.
E ressalta o valor da palavra "justiça". Ela tem uma interpretação muito pura, na essência mesmo, do que é 'Justiça', sabe? Não é um termo relativizado ou tratado dentro de determinado contexto, no entender dela. Tem um significado no seu estado puro, sem contaminação".
A salvação da menina Joaquina, vivida por Mel Maia, logo após a morte de Joaquim da Silva Xavier (Thiago Lacerda) será obra de Raposo (Dalton Vigh), amigo do condenado, que oculta a condição de herdeira do "traidor" da Coroa para criá-la em Portugal. Na volta, ela será chamada por Rosa, para driblar as perseguições ainda latentes em Vila Rica.
Andréia se esmerou em aulas de equitação, tiros e esgrima. "A minha arma é linda, tem um cabo de madeira, é superbonita", derrete-se. Mas, se achava que tiraria de letra o manuseio de tais objetos cênicos, não foi assim tão destemida que ela se viu na hora de colocar a mão no gatilho ou de empunhar espadas. Bateu uma fragilidade, admite. "Descobri que sou mais mulherzinha do que imaginava."
Durante nossa conversa, Andréia escorrega com elegância para um "bocadim" discreto de seu acento mineiro, som que será usado de forma mais que moderada em Liberdade Liberdade, até porque a musicalidade presente naqueles dias era bem mais lusa - o que será evidenciado pela presença do português Ricardo Pereira, o coronel Tolentino.
Para Andréia, o privilégio do ofício, sem igual em qualquer outra profissão, é dar de cara com os sotaques, valores e histórias de um Brasil da Família Real, pouco depois de deixar o set de Elis, o longa-metragem de Hugo Prata, previsto para o segundo semestre. Trafegar entre universos tão distintos em tão curto espaço de tempo não é para qualquer um. Ela se comove ao lembrar de seus dias como Elis. Não se esquivou de cantar em cena, mas espera que o diretor insira no áudio a voz da própria cantora. "Acho que as pessoas vão ver o filme esperando ouvir a voz dela".
Encerrada nossa entrevista, vamos ao prédio de pós-produção, a bordo de um daqueles carrinhos elétricos que você vê no Vídeo Show. Andréia quer dar uma espiada no trabalho de edição da novela. No meio do caminho, passando diante de outro set, avistamos a adorável Rogéria. "Ah, vamos parar um minuto?", ela pede. As duas se abraçam e Rogéria não se cansa de festejar a atriz, a quem admira desde Alice, série da HBO que a lançou na TV. "Linda, linda, não se esqueça: nunca saia de casa sem rezar, porque você é uma es-tre-la", destaca a veterana, em bênção que só as divas conhecem.
(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo de 11 de abril de 2016)
Apresentação do elenco da novela das 11, "Liberdade Liberdade"
domingo, 3 de abril de 2016
sábado, 2 de abril de 2016
A imaginação a serviço da ciência: E se... a corte portuguesa não tivesse vindo ao Brasil? - Rodrigo Cavalcante
Cansado da poluição e do trânsito, um morador de São Paulo decide arrumar as malas, comprar um abadá e partir para o carnaval da Bahia. No aeroporto, enquanto imagina a Ivete Sangalo cantando, descobre que esqueceu o passaporte e não pode embarcar. Passaporte? Para a Bahia? Isso mesmo: se a corte portuguesa não tivesse vindo para o Brasil em 1808,a Bahia provavelmente seria uma nação e o resto que você conhece hoje como Brasil seria um amontoado de países. "Sem a transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, seria impossível preservar a unidade do que é o Brasil", diz o historiador Luiz Carlos Villalta, autor do livro "O Império Luso-Brasileiro e os Brasis. "Ocorreria com a América portuguesa o que ocorreu com a América espanhola, dividida em vários países que, hoje, formam conosco a América Latina."
Mas, antes de agradecer a D. João VI por não precisar de passaporte para pular o carnaval em Salvador, agradeça a Napoleão. Ao tomar o poder na França, em 1799, ele deu início a uma série de invasões na Europa que obrigariam a fuga da corte portuguesa para o Brasil. No final de 1807, as tropas napoleônicas estavam na Espanha e marchavam em direção a Lisboa. Confrontadas com a robustez das armas francesas, as frágeis tropas portuguesas não teriam como defender o país. Entre 25 e 27 de novembro de 1807, de 10 000 a 15 000 pessoas embarcaram em navios portugueses rumo ao Brasil - ministros, juízes, funcionários do Tesouro, militares, membros do clero. Trouxeram consigo também o tesouro real, os arquivos do governo, uma máquina impressora e várias bibliotecas.
No dia 28 de janeiro de 1808, na primeira escala na Bahia antes de chegar ao Rio de Janeiro, D. João VI decretou a abertura dos portos do Brasil às nações amigas - leia-se Inglaterra, que havia declarado guerra à França em 1803 e foi responsável pela proteção dos navios portugueses até o Brasil. Mas, se os mesmos ingleses conseguissem enviar tropas diretamente para Portugal, evitariam a invasão dos franceses e a necessidade da transferência da corte.
"Sem a vinda da Coroa portuguesa para cá, mais cedo ou mais tarde algumas províncias do Brasil iriam conquistar sua independência", diz Lúcia Bastos, professora de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que está pesquisando a influência da figura de Napoleão no império luso-brasileiro. "Naquele tempo, os deputados brasileiros da corte de Lisboa não falavam em nome do Brasil, mas em nome de Pernambuco, da Bahia, do Rio de Janeiro."
A historiadora diz que o Rio Grande do Sul, alvo de disputas entre Espanha e Portugal, provavelmente formaria um país independente anexado ao que é hoje o Uruguai. "É possível que essa região se tornasse uma espécie de República do Prata", diz Lúcia Bastos. E as divisões não terminariam por aí. Surgiria um novo país em Pernambuco - possivelmente anexando alguns Estados vizinhos -, outro formado pelo Pará e Amazonas, uma nação no Maranhão... enfim, o mapa da América do Sul seria outro.
E o mais surpreendente: é provável até que cariocas, paulistas, mineiros e paranaenses vivessem num mesmo país com sede no Rio de Janeiro. "Mesmo assim, a cidade do Rio seria provavelmente bem diferente do que é hoje", diz Luiz Celso Villalta. "Como não teria sido sede da corte portuguesa, a fisionomia do centro urbano seria semelhante à de uma cidade como Olinda, sem construções reais do século XIX."
A desigualdade econômica entre as regiões seria menor. "O Sudeste continuaria sendo um centro econômico importante, mas alguns países do Nordeste, livres do poder do Rio de Janeiro, poderiam ter enriquecido mais", diz Lúcia Bastos. "A abolição dos escravos também teria acontecido muito antes nesses Estados, já que a demora na tomada dessa decisão teve o apoio da elite cafeeira do Sudeste." No Estado do Ceará, por exemplo, a escravidão já havia sido praticamente abolida desde 1870.
Outro cenário seria a corte portuguesa não vir para o Brasil e cair nas mãos de Napoleão. "Foi isso o que aconteceu com a Espanha, que foi tomada pela França em 1808", diz Villalta. "Provavelmente ocorreria no Brasil o mesmo que nas colônias espanholas, que se tornaram independentes. "Não tendo de ser fiéis a um rei empossado por Napoleão, as províncias rapidamente alcançariam a independência. "De uma forma ou de outra, a fragmentação do território que hoje é o Brasil seria quase certa", diz o historiador.
Até mesmo o sotaque dos cariocas não existiria se a corte portuguesa não chegasse ao Brasil no século XIX. "É claro que o desembarque de 15 000 pessoas no Rio de Janeiro mudou o jeito de falar da maioria da população", diz Ataliba de Castilho, professor de Filologia e Língua Portuguesa na USP. "Como dava mais prestígio falar como os fidalgos portugueses, a população do Rio de Janeiro foi assimilando todos os chiados que hoje distinguem o típico falar dos cariocas. "Ele diz que, sem a vinda da corte, provavelmente não haveria muitas diferenças entre o falar de um surfista carioca de um cantor de dupla sertaneja do interior de São Paulo.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 173 - fevereiro de 2002)
sexta-feira, 1 de abril de 2016
"Eu fui fiscal do Sarney" - Mariana Coan
Há 30 anos, o então presidente José Sarney lançou o plano cruzado e convocou os brasileiros a fiscalizar uma das medidas do pacote: o congelamento dos preços. Desde aquela época, Solange é voluntária na luta pelos direitos do consumidor
A inflação se alimenta do medo, alerta a professora aposentada Solange Medeiros,de 66 anos. "É psicológico. Temendo que os preços subam, as pessoas se adiantam e sobretaxam o seu produto ou serviço. É uma bola de neve", explica. Ela sabe bem do que está falando. Solange viveu os anos de hiperinflação e o lançamento do Plano Cruzado, que completa 30 anos em 2016. Na época, ela foi fiscal do Sarney, título informal dos cidadãos que voluntariamente monitoravam o congelamento dos preços - uma das principais medidas do pacote implementado pelo então presidente, José Sarney, para combater a inflação galopante.
Antes do plano, em 1985, a inflação anual ultrapassara 240% - em 2015, em comparação, foi de pouco mais de 10%. Os preços chegavam a ser remarcados mais de uma vez por dia, tornando um pesadelo o taque-taque da máquina etiquetadora. "Quando a gente recebia o salário, ia ao supermercado e saia com carrinhos transbordando de macarrão, óleo, farinha, arroz, feijão... tudo que não estragasse", lembra Solange.
Lançado em 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado tentou resolver o problema congelando os preços - e também o câmbio e os salários, além de promover a troca da moeda de Cruzeiro para Cruzado. O estabelecimento comercial que desrespeitasse os valores fixados pelas tabelas da Sunab (a extinta Superintendência Nacional do Abastecimento) seria forçado a fechar as portas, e seus donos poderiam ser presos. Como seria impossível para o governo vigiar cada loja, o presidente foi à TV convocar os cidadãos a desempenhar essa função. Surgiu aí a expressão "fiscal do Sarney".
Solange, que sempre teve o costume de pesquisar preços, atendeu ao chamado. Levava a tabela da Sunab na bolsa e, quando encontrava um valor acima do permitido, confrontava o dono do mercado. Como não havia delegacia na Sunab na cidade onde ela morava na época, João Monlevade (MG), era preciso resolver a situação sozinha. "Eu falava que, se não trocasse o preço, eu uniria amigas e vizinhas em um boicote. Funcionava!"
No começo, o plano deu certo, e o país teve até uma pequena deflação. Houve aumento do poder de compra e uma explosão de consumo. Mas, em pouco tempo, o aquecimento provocou escassez. Fornecedores e comerciantes passaram a reter produtos, esperando um reajuste, ou a cobrar ágio - um valor extra, ilegal. Em 1987, o fracasso escancarou-se, com a inflação chegando a 363%.
Apesar da desilusão com o plano, Solange continuou empenhada. Em 1992, mudou-se para Belo Horizonte, onde entrou para o Movimento das Donas de Casa de Minas Gerais (MDC), que desde 1983 luta pelos direitos dos consumidores. Hoje, é coordenadora institucional da entidade, trabalhando como voluntária. Uma de suas funções é visitar supermercados, com prancheta na mão, pesquisando preços. Atualmente, ela se diz preocupada uma vez mais com a inflação: "Acho que as donas de casa vão ter que voltar a ser fiscais nas ruas". Para todos os consumidores, Solange tem uma lição: "Se está caro, não compre! Nesses 30 anos, aprendi que só isso faz o preço cair".
Cruzes, quantos nomes!
Nos últimos 30 anos, o Brasil teve cinco moedas. Relembre cada uma delas e o contexto em que foram lançadas - sempre tentando vencer a inflação.
Cruzado (Cz$) - De 1986 a 1989
O nome remete a uma antiga moeda portuguesa. Foi lançado no Plano Cruzado: para conter a inflação, o governo congelou os preços. Mas, como os gastos públicos não diminuíram e o consumo só crescia, faltavam produtos. Houve até desapropriação de bois para suprir a demanda. Com o fracasso do plano, a moeda expirou.
Cruzado Novo (NCz$) - De 1989 a 1990
Em janeiro de 1989, o governo Sarney lançou o Plano Verão para tentar diminuir a inflação, que havia chegado a 980% no ano anterior. O pacote incluía mais congelamentos e a troca da moeda para o Cruzado Novo. Três zeros foram cortados (Cz$ 1.000 = NCz$ 1). Os preços foram descongelados aos poucos e, no fim de 1989, a inflação chegou a 1.972%.
Cruzeiro (Cr$) - De 1990 a 1993
Logo que Fernando Collor assumiu a presidência, a moeda voltou a se chamar Cruzeiro, como era antes do Cruzado. O diagnóstico era que havia muito dinheiro em circulação. Como parte do Plano Collor 1, as poupanças foram confiscadas. O governo também facilitou a entrada de importados. Porém, o plano falhou, gerando recessão.
Cruzeiro Real - CR$) - De 1993 a 1994
No governo de Itamar Franco, nova mudança: 1.000 cruzeiros passaram a valer 1 cruzeiro real. A medida foi vista como preparatória para o Plano Real. Cédulas novas foram emitidas, mas outras foram reaproveitadas da época do Cruzeiro, recebendo um carimbo com o valor alterado.
Real (R$) - De 1994 até hoje
O Plano Real lançou a URV (Unidade Real de Valor), uma transição para o Real, que entrou em vigor em 1º de julho de 1994. Um real valia CR$ 2.750. Um dos trunfos foi o alinhamento dos preços, que, no início, passaram a ser fixados em URV. A unidade era corrigida diariamente, evitando descontrole. A inflação começou a cair já no primeiro mês.
(texto publicado na revista Todos - A vida é feita de histórias. Qual é a sua? edição 07 - abr/mai 2016)
segunda-feira, 21 de março de 2016
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
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