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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Após acidente, cadeirante cuida da casa e da filha e quer velejar em 2015 (G1 Rio Grande do Sul)


Leandro de Oliveira dirige, faz tarefas do lar e realiza tratamento para andar. Ex-agente penitenciário perdeu os movimentos das pernas após acidente.

Em uma casa no bairro Camaquã, na Zona Sul de Porto Alegre, Leandro Rosa de Oliveira acorda todos os dias cedo para levar a filha Lívia, de quatro anos, à creche de carro. Após voltar, põe roupas para lavar na máquina, varre a casa e prepara o almoço. A rotina parece simples, não fosse um detalhe: o homem, agente penitenciário aposentado por invalidez, não caminha há mais de quatro dos 32 anos de vida, devido a um acidente de trânsito em 2011. Sentado em sua cadeira de rodas na sala de estar da residência, Leandro lembra a importância de realizar tarefas normalmente para sua reabilitação.

"Peço para pessoas com deficiência não deixarem os outros trazerem tudo nas mãos, porque é algo que facilita. É cômodo você estar em casa e receber o almoço, o copo d’água nas mãos. E cada coisa que você deixa fazerem, por mais simples que seja, o corpo deixa de se movimentar e você freia sua reabilitação. Digo para o pessoal não desistir e sempre buscar um recurso, buscar um profissional da área, porque a vida não termina. A vida só termina para quem quer", afirma.

Para 2015, o cadeirante tem mais uma meta: voltar a velejar. Ele já havia praticado a vela adaptada por meio de uma iniciativa gratuita realizada no Iate Clube Guaíba, na Zona Sul de Porto Alegre. "Eles têm fisioterapeutas à disposição e uma equipe para te locomover e te colocar nas velas e depois saem contigo, com colete salva-vidas e tudo", conta empolgado.

O acidente aconteceu em 2011, quando Leandro ainda trabalhava na Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), tendo como tarefa investigar possíveis delitos cometidos dentro de prisões em todo o estado. Ele viajava de carro com um colega na BR-290 em Alegrete, na Fronteira Oeste, quando o veículo, a 150 km/h, colidiu com uma carreta. O motorista morreu, e ele foi auxiliado por um agricultor que passava pelo local e atendido às pressas por um médico argentino que havia parado na estrada. O condutor da carreta chegou a ficar hospitalizado, mas se salvou. "Só sei disso porque ele relatou. Eu não lembro, porque a pancada na cabeça me deu traumatismo e apagou umas duas horas de memória", conta.

Após o acidente, Leandro ouviu dos médicos que não poderia mais caminhar. Foi submetido a uma cirurgia "apenas para poder sentar". O golpe só não foi mais duro que a reação da filha ao vê-lo no hospital. "O que mais me doeu foi quando ela chegava ao hospital bebê, no colo dos outros, olhava pra mim e não queria chegar perto. Eu estava com aparelhos ligados ao meu corpo e ela não me reconhecia".
Após sair do hospital, Leandro foi encaminhado para o Centro de Reabilitação de Porto Alegre (Cerepal) e, posteriormente, para a AACD, entidade que atende portadores de deficiência. "Lá eu tive meus 11 meses de muita descoberta e evolução. Comecei a ver que um cadeirante poderia seguir a vida normalmente", contou.

Em meio à reabilitação, se separou da ex-mulher. O cadeirante, no entanto, garante que o fim do relacionamento não foi consequência do acidente. "O casamento já não ia bem mesmo", diz. Da união que fora interrompida, surgiu a grande motivação para seguir em frente. A guarda da pequena Lívia é compartilhada, mas Leandro aproveita o tempo livre para tomar conta da filha, que dorme ora com o pai, ora com a mãe.

Enquanto o pai supera as limitações para tomar conta da filha, a pequena Lívia retribui ajudando em tarefas simples, desde recolher prendedores de roupa que caem pelo chão até carregar o carrinho de compras. "E ai de mim se não deixar. Já me senti constrangido em supermercados, pois ela pega o carrinho da minha mão e vai levando. O pessoal fica me olhando e eu digo que, se eu tirar o carrinho dela, arrumo briga. Ela vai empurrando até pesar. Quando pesa, me entrega. Ela é um anjo".

A força de vontade é tanta que Leandro já contrariou uma projeção dos médicos. Após ouvir que nunca se levantaria da cadeira de rodas, ele foi procurado por uma especialista em reabilitação de pacientes com lesão medular. Cerca de um ano depois de dar início ao tratamento, ele já caminha com a ajuda de um andador.

"Ainda uso bastante a cadeira, pelo fato de cozinhar, pois se eu chego perto do fogão com o andador, corro o risco de cair e me queimar. Mas eu saía sempre em meu carro adaptado com a cadeira. Hoje não, eu saio com o andador, porque eu chego nas casas e consigo ir ao banheiro, e chegar a outros cômodos, pois muitas casas são limitadas para cadeira. Hoje dou valor por poder estar no andador", afirma.

Se a pequena Lívia faz com que Leandro se sinta motivado a dar sequência à sua reabilitação, a fé em Deus é o principal alicerce ao qual ele se apoia. Em meio a tantas tarefas, não deixa de ler a Bíblia. Uma vez por semana, participa de cultos e grupos de estudo religiosos. A crença no cristianismo já existia, mas se fortaleceu quando o ex-agente penitenciário ainda estava no leito do hospital após o acidente e um homem foi falar com ele, para pregar a religião evangélica. Em meio à conversa, Leandro descobriu que se tratava de um velho conhecido. Os dois serviram juntos ao Exército em 2001 em Bagé, na Região da Campanha. Para ele, não foi uma simples coincidência. "A partir dali eu decidi entregar a minha vida para o Senhor".

Em meio a tantos afazeres, Leandro ainda encontra tempo para defender sua classe. Ele explica que, ao se aposentar por invalidez devido a um acidente de trabalho, obteve o direito de receber um salário equivalente à maior remuneração que poderia alcançar se a carreira não tivesse sido abreviada. Como era da categoria A, a primeira após o funcionário ingressar na Susepe, receberia o valor da categoria E, a última a ser atingida.

Porém, uma lei que vigora desde maio de 2013 não prevê este benefício, o que reduziu a remuneração de Leandro. "Cada um dos poucos aposentados por invalidez da Susepe ficou recebendo de acordo com a classe em que estava. Eu sou o mais prejudicado, porque meu salário ficou como se eu recém tivesse ingressado no esMas se acomodar não é da índole de Leandro, que fez contato com o Sindicato dos Servidores Penitenciários do Rio Grande do Sul (Amapergs) e com os demais aposentados na mesma situação que ele para tentar reverter a situação. Há duas semanas, pouco antes do recesso parlamentar, esteve na Assembleia Legislativa para acompanhar uma sessão que poderia terminar com a aprovação de uma emenda prevendo a volta do benefício. Apesar de não ter tido sucesso na empreitada, ouviu de deputados governistas e oposicionistas – papéis que se inverterão a partir da posse de José Ivo Sartori (PMDB) em janeiro – o compromisso com sua causa.

Sendo nas galerias da Assembleia Legislativa, em um barco à vela, no caminho da creche da filha ou na cozinha da própria casa, Leandro ensina uma lição não apenas para os cadeirantes, mas para os seres humanos: é preciso superar obstáculos para sentir-se vivo.












domingo, 4 de janeiro de 2015

Adaptação veicular para cadeirantes com mobilidade reduzida


O melhor amigo...do cadeirante - Lucas Vasques


Pessoas com mobilidade reduzida podem contar, agora, com a companhia de cães que ajudam em várias tarefas e facilitam o cotidiano

O sonho de unir o conhecimento em adestramento de cachorros à vontade de ajudar a sociedade, em especial pessoas com deficiência, foi o que motivou um grupo de amigos a criar o projeto Cão Inclusão. A importância desses animais está cada vez mais acentuada e estudos comprovam que eles podem, realmente, transformar vidas, com seu carinho, espírito de equipe e, principalmente, com seu amor. O benefício que trazem é inestimável. Por tudo isso, quatro profissionais da área se juntaram para desenvolver treinamento especial com os cachorros, trazendo o desejo de ajudar as PcDs, com foco específico, no caso, nos cadeirantes.

A utilização desses animais no auxílio às pessoas com deficiência visual é bem conhecida. No entanto, há outras categorias de cães de assistência, que se enquadram de acordo com a deficiência da pessoa. "Podemos dividir os cães de assistência em, basicamente, três grupos: cão guia, para pessoas com deficiência visual; cães ouvintes, para quem tem deficiência auditiva; e os cães de serviço, que trabalham com outras limitações, como autistas, diabéticos e pessoas com problemas de mobilidade, que é o nosso caso. Esses últimos são chamados cães de serviço para cadeirantes", explica Marina White, especialista em marketing e na captação de recursos da Cão Inclusão.

Ao lado de Leonardo Ogata, adestrador e cofundador da empresa, Sara Favinha, também adestradora e cofundadora, e de Victoria Pryor, adestradora e médica veterinária, Marina é responsável por esse novo trabalho. "Nosso público é composto por todas as pessoas que amam cães e que admiram o trabalho incrível que eles podem desenvolver, auxiliando a pessoa no dia a dia. Por enquanto, atuamos apenas em São Paulo. Contudo, temos uma mente um projeto de expansão, mas não para este ano."

Perfil

O cão para cadeirantes, além de ser um excelente companheiro, ajuda no dia a dia da pessoa, abrindo e fechando portas, gavetas e armários, buscando um cobertor ou algum outro item, acendendo e apagando luzes, pegando objetos que caiam no chão, atividades que, muitas vezes, acabam se tornando tarefas difíceis para um cadeirante. Eles também alertam uma pessoa próxima em caso de emergências ou acidentes com o cadeirante, trazendo essa pessoa até o local onde o cadeirante se encontra.

"OS cães de serviço são muito conhecidos na Europa e nos Estados Unidos. Lá, eles são, frequentemente, prescritos por médicos, quando necessário. A escolha da dupla é feita a partir do temperamento e da personalidade do cão. Realizamos uma avaliação das características do animal e, então, por meio do perfil dele, selecionamos a pessoa com deficiência que melhor se enquadra. O processo é feito dessa forma para minimizar a incompatibilidade da dupla. Não é qualquer cachorro que combina com qualquer pessoa. Por exemplo, cães com um nível de energia mais elevado se adaptam melhor a pessoas que possuem um vida mais agitada", revela Marina.

A Cão Inclusão, hoje, conta com um animal, que será entregue este ano, e outro sendo preparado. "O treinamento dura, em média, dois anos e consiste em algumas etapas. Inicialmente, realizamos a seleção genética do animal e, assim que ele nasce, enquanto está com a mãe, realizamos testes de temperamento nos filhotes para selecionar o que melhor se enquadra à função de um cão de assistência. A segunda etapa é a da família socializadora, na qual voluntários são selecionados para cuidar do filhote no primeiro ano de vida dele, ensinando comandos básicos de obediência e socializando-o com pessoas e outras cães, recebendo aulas particulares e participando das aulas em grupo. A terceira etapa consiste no treinamento específico, no qual o animal retorna para a Cão Inclusão, onde são iniciados os treinos destinados ao auxílio que ele dará ao cadeirante. Essa fase dura em torno de oitos meses. Assim que o cão esteja pronto, selecionamos a pessoa com deficiência que melhor se enquadra àquele cachorro e, então, começamos a quarta etapa, que trata da formação da dupla, com treinos diários. Quando a pessoa e o cão estiverem se relacionando bem, realizamos o 'desmame' do treinador, que vai, gradativamente, de desvinculando do animal. A quinta fase consiste no acompanhamento trimestral da dupla, até a aposentadoria do cão, que trabalha, em média, nove anos e se aposenta por volta dos 11 anos de idade. Caso a pessoa com deficiência não possa ficar com ele, nós, da Cão Inclusão, ficamos responsáveis por proporcionar uma qualidade de vida muito boa para o cachorro em sua aposentadoria, atendendo a todas as suas necessidades".

Requisitos

Os critérios de seleção para participar do projeto são baseados no perfil da pessoa, bem como em todo o contexto, como a família, o lar, se os interessados possuem cães sociáveis na casa, entre outras características. "Por outro lado, existem muitos fatores que devem ser avaliados para que o animal se torne um cão de serviço. Essas questões abrangem inúmeros aspectos, como a seleção genética do filhote, a fim de evitarmos temperamentos indesejáveis ou futuros problemas de saúde, personalidade, temperamento e aptidão. Esse cão deve ser muito sociável e, por isso, trabalhamos, especificamente, com golden retriever e labrador retriever, que são mais sociáveis. Entretanto, não precisa ser, necessariamente, dessas raças. Precisa ter um comportamento tranquilo, que não apresente agressividade no relacionamento com outros cães ou pessoas e que desenvolva, pelo menos, três tarefas que auxiliem a PcD no seu dia a dia." Marina aproveita para explicar o que é uma família socializadora e sua importância para o sucesso do processo: "É ela que vai ensinar os comandos básicos de obediência como 'senta, fica, deita', andar na guia corretamente e será responsável pela boa socialização do animal em relação a outros cães e pessoas, fazendo com que o cão não se incomode com ruídos, como os que são produzidos por motos, ônibus, skates e, também, com objetos caseiros, como aspirador, vassoura etc. O cão de serviço não pode apresentar medo ou receio de nada e a família socializadora é responsável por trabalhar isso no animal e deixá-lo muito bem comportado e sociável, tendo aulas particulares de adestramento, uma vez por semana, e participando de aulas em grupo, também uma vez por semana. Apenas um cão bem socializado pode se tornar um cão de serviço".

Custo

Por ser um trabalho extremamente especializado e que requer uma preparação bem específica em todas as fases do projeto, os custos acabam sendo elevados. "O treinamento de um cão de serviço custa, em média, R$ 90 mil. Nós trabalhamos com um formato diferenciado de patrocínio, no qual as empresas interessadas não precisam financiar o treinamento todo, podem patrocinar mensalmente o cão e terão sua marca exposta no colete do animal, que passeia diariamente e frequenta diversos lugares, como shoppings, parques, praças, ruas e eventos. A logomarca da empresa patrocinadora terá destaque em nosso site e em nossa página do facebook, que vem crescendo significativamente desde nossa inauguração, e também realizamos post semanal sobre a empresa e seu apoio. Hoje, nossos cães são patrocinados pela Tudo de Cão, empresa franqueadora de adestramento, e contamos com a parceria da UHELP, instituição não governamental que capta recursos para ajudar pessoas com deficiência, na qual estamos participando para prospecção de recursos para o treinamento final do Toddy", acrescenta Marina.




(texto publicado na revista Sentidos nº 85 - ano 14)