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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Meu Maracanazo - Matthew Shirts


A Copa de 1994 foi responsável pela minha carreira de cronista. A de 1998 provocou o fim do meu primeiro casamento. Vivi as duas intensamente. Mas talvez nenhuma outra tenha tido o mesmo impacto que a da Espanha, em 1982. Foi ela que me fez querer ficar no Brasil.

Adquiri com os brasileiros o hábito de marcar o tempo em períodos de quatro anos, de acordo com os Mundiais, como se vê. Era jovem em 1982. Tinha 24 anos.

Começara a estudar a história do futebol no Brasil três anos antes, graças ao José Carlos Sebe Bom Meihy, meu professor no intercâmbio que fiz na Universidade de São Paulo. Ele se encarregara de me apresentar a cultura popular do país.

Naqueles tempos, diferentemente de hoje, havia pouca coisa boa publicada sobre a evolução do esporte "bretão" no Brasil. Entre as exceções estavam O Negro no Futebol Brasileiro, livro glorioso de Mario Filho (irmão de Nelson Rodrigues) e um ensaio sinuoso e cheio de bossa de Anatol Rosenfeld sobre o inventor da bicicleta, Leônidas da Silva. Neste, o cronista alemão interpreta a maneira de jogar dos brasileiros como uma das mais altas expressões artísticas do país. Fiquei empolgado com aquilo. E fui atrás. Passaria os próximos anos enfronhado nas maravilhosas bibliotecas americanas em busca do fio da meada da cultura popular brasileira.

Quando começou a Copa de 1982, eu estava em ponto de bala, portanto. Jovem e apaixonado pelo Brasil, assisti aos primeiros jogos num Centro de Estudos Latino-Americanos na Califórnia, junto com "los hermanos", como se diz hoje. O time brasileiro era lindo de ver. Jogava por música. Zico, Sócrates, Falcão, todos no auge. Só artistas. Rosenfeld tinha razão, pensei, durante uma das partidas. Assistir aos 3 a 1 contra a Argentina do Maradona ao lado dos compatriotas do próprio não tem preço, diga-se. Os brasileiros vingaram o resultado discutível da Copa de 1978.

Horas depois, entrei num avião e vim para São Paulo, pronto para encarar o time da Itália. O motivo alegado para a viagem da Califórnia até aqui era "pesquisa". Precisava ver a reação brasileira diante da vitória na Copa. Para quem, como eu, estudava festas e cultura popular no Brasil, não poderia haver momento maior. Convenhamos.

Perder, àquela altura, não me passava pela cabeça. Enturmei-me com os amigos paulistanos na Associação Alumni, uma escola de inglês na qual trabalhara em 1980, então nos Jardins. Estava lotada a sala do telão. Todos ali torciam pela seleção, é claro. Do resto, não me lembro, confesso. Tenho uma vaga recordação, apenas, de perambular, meio perdido, pela Avenida Paulista em meio a brasileiros que choravam, depois da derrota por 3 a 2. Foi o meu Maracanazo, meu e de muita gente, de toda uma geração, desconfio. No mínimo. Aprendi, ali, e para sempre, que a arte e a vitória nem sempre andam juntas. Mas continuei a torcer pela arte. #vaiBrasil.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 18 de junho de 2014)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Um café com Simon Kuper: O sorriso em meio à bagunça do futebol - Marco Bezzi


Estudioso acredita que grandes eventos esportivos, como a Copa, são capazes de gerar uma onda de felicidade nas pessoas por anos. Será?

O britânico Simon Kuper decidiu misturar futebol e economia ao coescrever o livro Soccernomics (ed. Tinta Negra). Kuper descobriu em suas pesquisas que um evento como as Olimpíadas ou a Copa do Mundo não faz um país mais rico. Mas o faz mais feliz. "Os políticos ainda preferem usar apenas a linguagem do dinheiro quando sediam um grande evento. Falar sobre felicidade parece algo menos", diz. Segundo Kuper, após o Mundial, mesmo com os seguidos protestos contra sua realização, o Brasil deve ser atingido pelo mesmo efeito verificado em estudos como o do instituto Eurobarometer, que submete os cidadãos europeus a pesquisas sobre felicidade há 40 anos. Uma grande amostra dos pesquisadores na Europa, após grandes eventos esportivos, se dizia mais feliz, algo que seria apenas possível com um aumento de salário substancial.

Como funciona a ciência da felicidade após um grande evento esportivo?

Em países europeus, as pessoas reportaram uma maior satisfação com a vida após seu país abrigar uma Copa ou um Campeonato Europeu. Em outras palavras, receber um grande evento faz as pessoas mais felizes. Esperamos que a Copa possa beneficiar um país maluco por futebol como o Brasil ao menos por um ou dois anos.

De onde aflora esse sentimento?

Vem de compartilhar uma experiência comum. No trabalho, na escola, no ônibus, os brasileiros vão falar mais uns com os outros sobre a Copa do Mundo, sobre os jogos, sobre a organização. Essa conversa nacional cria unidade e reúne as pessoas em torno de algo maior.

Mas e se o Brasil não ganhar a Copa?

Não há diferença, segundo o que vimos em outros países. Uma tragédia (como a derrota do Brasil para a Itália em 1982) também é uma experiência compartilhada.

As manifestações contra a Copa podem apagar o clima festivo?

Não acredito. Mas acho que as pessoas fazem bem em demonstrar seu descontentamento. O governo deve fornecer aos brasileiros escolas e hospitais no "padrão Fifa".



(texto publicado na revista Vida Simples nº 147 - julho de 2014




quinta-feira, 10 de julho de 2014

Brasileiros na Copa: Brasileiros contra o Brasil - Vinícius Mendes


Na história das Copas, só três atletas brasileiros jogaram contra a Seleção Brasileira, número que pode ser igualado no Mundial deste ano. Sammir, da Croácia, é um exemplo do novo fenômeno de naturalização de jogadores

Do banco de reservas do estádio Delle Alpi, em Turim, o meia-atacante brasileiro Alexandre Guimarães dividia seus olhares entre o preparador físico da Seleção Costarriquenha e o grande painel preto instalado acima das arquibancadas. No gramado à sua frente, o Brasil vencia a Costa Rica por 1 a 0, gol do atacante Müller, aos 33 minutos do primeiro tempo, no 64º jogo da Seleção Brasileira, então tricampeã em Copas. Era o fim da tarde de 16 de junho de 1990, sétimo dia em que a Itália acordava apenas para assistir aos jogos do Mundial.

Guimarães já havia feito seu aquecimento, amarrado as suas chuteiras e esperava pelo cumprimento da promessa que o então treinador croata Bora Milutinović havia feito a ele depois da estreia do time, quando não entrou em campo: ele jogaria contra a Seleção Brasileira. "Eu estava ansioso e ninguém me chamava. Aí, tive de enviar um recado pelo preparador físico, dizendo: 'Oh, estou aqui e quero entrar. Como vai ser?"', conta Alexandre. Milutinović olhou-o no minuto seguinte. No telão, grandes letras amarelas anunciavam a saída de Juan Cayasso e a entrada de Guimarães. Nem ele, nem o treinador, nem o jogador substituído e nem os 58.007 torcedores que assistiam ao jogo sabiam, mas aquela era a primeira vez que um jogador de futebol brasileiro entrava em campo para jogar contra o Brasil em uma Copa do Mundo.

Daquela tarde em diante, só outros dois jogadores nascidos no Brasil e naturalizados por outros países talvez possam explicar o sentimento de enfrentar a Seleção Brasileira em Mundiais: o zagueiro Alex Santos foi titular no jogo em que o Brasil goleou o Japão, por 4 a 1, na terceira partida da Copa de 2006, na Alemanha. No Mundial seguinte, na África do Sul, em 2010, o também defensor Pepe jogou até os 18 minutos do segundo tempo contra a Seleção Brasileira, no terceiro confronto da primeira fase, que terminou sem gols.

Com 36 anos, Alex ainda joga no Japão: foi a grande contratação do Tochigi Soccer, da segunda divisão do país, para a temporada do ano passado. Pepe, ao contrário, é um dos principais jogadores do futebol mundial: defende o poderoso Real Madrid, da Espanha, e está na lista do técnico Paulo Bento, de Portugal, para disputar o torneio no Brasil.

Outras seleções

Desde 1930, quando foi disputada a primeira Copa do Mundo, no Uruguai, 16 jogadores brasileiros já jogaram por outras Seleções. O paulista Anfilóquio Guarisi Marques, conhecido como Filó, foi o pioneiro da lista: mesmo sendo um dos principais jogadores da liga de São Paulo na década de 1920, ele não foi chamado para integrar a Seleção Brasileira no Mundial de 1930, por causa de uma briga entre as federações paulista e carioca. "Ele arrebentou jogando na Itália e, como a mãe dele era italiana, a naturalização aconteceu tranquilamente. Foi o primeiro jogador brasileiro campeão do mundo, 20 anos antes do título mundial no Brasil, em 1958", conta Nelson Marques Filho, neto de Filó.

Nas pré-listas de 30 atletas encaminhadas à FIFA por todas as federações que disputarão a Copa deste ano, nota-se a presença de sete brasileiros em outras Seleções, sendo que cinco deles foram confirmados no início deste mês de junho e estarão no Brasil para a Copa. Entre os cinco naturalizados, dois devem enfrentar, inclusive, a Seleção Brasileira no primeiro jogo do Mundial, no dia 12 de junho, na Arena Corinthians, zona leste de São Paulo: o meio-campista Sammir, que recentemente foi para o espanhol Getafe, e o atacante Eduardo da Silva, que joga no ucraniano Shakhtar Donetsk, ambos pela Seleção da Croácia. Há a possibilidade, ainda, de o time do Brasil encontrar o atacante alagoano Diego Costa, do Atlético de Madrid, da Espanha, que decidiu defender a Seleção Espanhola em outubro do ano passado, já nas oitavas de final.

Jogar contra o próprio país em uma Copa do Mundo atrapalha até o desempenho dos jogadores na hora da partida, segundo Alexandre Guimarães. "Fiquei mais emotivo nos  dias anteriores ao jogo porque a mídia explorou o assunto. Entrevistaram até meus pais em Recife. Foi uma emoção que transpassava o atleta. Estar ali com as pessoas do meu país de nascimento, escutar meu idioma, sentir o ar repleto de brasileiros. O momento mais forte é na hora do Hino Nacional. Pega muito. É difícil até para jogar", diz Guimarães.

Zico, um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro, relatou dificuldades emocionais para trabalhar no jogo contra o Brasil na Copa de 2006, quando treinava o Japão. E Didi, campeão do mundo como jogador, em 1958, e treinador do Peru nas quartas de final da Copa de 1970, no México, revelou, tempos depois, que temeu ser chamado de  traidor, caso o seu time eliminasse a Seleção daquele Mundial.

A regra de naturalização de jogadores em vigor, regulada pela FIFA, define que atletas que já defenderam as Seleções de seus países em amistoso oficiais não podem jogar por outros países. Em agosto do ano passado, o técnico da Seleção Argentina, Alejandro Sabella, convocou o atacante argentino Mauro Icardi, da Internazionale, Itália, apenas para garanti-lo ao futuro do futebol do país, já que a Federação Italiana pretendia convidá-lo à naturalização.

Sammir, baiano de Itabuna, que chegou a jogar com a camisa 10 da Seleção Croata nas últimas eliminatórias, é um caso que exemplifica esse fenômeno. Ele começou a carreira em uma escolinha de futebol da cidade, em 1999, quando chamou a atenção de um olheiro do Atlético Mineiro e foi contratado pelo clube de Belo Horizonte, onde jogou nas categorias de base até 2005. Foi para o Atlético Paranaense, de Curitiba, e a sorte se repetiu: um empresário croata o viu jogando e levou-o para o Dínamo Zagreb, maior clube da Croácia. Ele tinha 19 anos.

Hoje, aos 26, Sammir, que está no espanhol Getafe, ainda é um dos ídolos da Croácia, celebrado até pelo maior deles, o ex-atacante Davor Suker, artilheiro da Copa de 1998, na França, com seis gols e que preside a Federação Croata de Futebol. Sammir diz ter tido problemas financeiros e sido vítima de preconceito. Em 2012, criou polêmica ao fazer com que o meio-campista Pranjić recusasse uma convocação para a seleção nacional por causa da sua presença entre os atletas chamados. Sammir falou com a Brasileiros por telefone.

Brasileiros - Como é sua vida na Europa?

Sammir - Cheguei aqui com 19 anos e hoje eu tenho 26, então já são sete anos. Eu me adaptei bem, pensei que seria mais difícil. Saí da Croácia e vim para a Espanha para jogar no Getafe, meu primeiro clube de outro país europeu. Está tudo tranquilo.

Brasileiros - Nos clubes brasileiros pelos quais passou, chegou a jogar no profissional?

Sammir - Não, fiquei nas categorias de base. Fui convocado para todas as etapas das Seleções de base também. Joguei com o Lucas Leiva, hoje volante do Liverpool. Ele foi meu capitão na Seleção Brasileira sub-18, mas faz muito tempo que não falo com ninguém do Brasil. Depois que eu saí do País, perdi totalmente a comunicação.

Brasileiros - Da Seleção Brasileira atual, você conhece alguém?

Sammir - Não. Ninguém.

Brasileiros - Como surgiu o convite para defender a Seleção Croata?

Sammir - Três anos depois de estar jogando na Croácia, me chamaram para conversar e ofereceram um passaporte croata. Disseram que estavam satisfeitos com o meu futebol e queriam que eu jogasse pela Seleção. Conversei com a minha família e aceitei, até porque o futebol da Croácia não tem nenhuma visibilidade no Brasil e eu não teria chance na Seleção Brasileira novamente.

Brasileiros - Você se arrepende da decisão?

Sammir - Não me arrependo. Jogando na Croácia era muito difícil eu ser lembrado para jogar pelo Brasil. A Croácia também me deu tudo o que tenho joe, me abraçou, me deu todas as oportunidades que tive. Nem pensei muito quando fui convidado, sabendo das condições que eu tinha no momento. Estou feliz com a minha decisão.

Brasileiros - Como foi a reação dos torcedores croatas com a sua naturalização?

Sammir - No começo foi difícil, principalmente por eu ser negro. Atrapalhou bastante. Quando a gente jogava em Zagreb, não enfrentava dificuldades, mas quando ia jogar fora da capital, aconteciam várias coisas: pessoas imitando macacos, jogando casca de banana. Nunca me importei com isso. Talvez meu comportamento seja distinto do que sempre é com os jogadores. Eu jogava, mesmo com os insultos, sem ficar triste. Depois de tudo, me abraçaram, porque daí começaram a sair comentários positivos a meu respeito.

Brasileiros - No dia 12 de junho, na Arena Corinthians, o Brasil estreia contra a sua Croácia. Você está preparado emocionalmente?

Sammir - Com certeza vou chorar muito até porque joguei pelas seleções de base, né? Mas preciso ser forte. Tenho de ajudar a Croácia a tentar ganhar. Eu sei que vai ser difícil, o Brasil precisa vencer o jogo de estreia de qualquer jeito. Talvez, na hora, a motivação de não ter sido aproveitado pelo futebol brasileiro me ajude a jogar melhor. Penso mais no momento em que tocar o Hino Nacional. Vou me arrepiar todo.

Brasileiros - Alguns jogadores e ex-jogadores que enfrentaram o Brasil disseram ter problemas técnicos ao jogar contra a Seleção. Você acredita que também pode ter algum problema desse tipo?

Sammir - Eu espero que não. Na verdade, já que não tive a oportunidade de jogar pela Seleção Brasileira, vou fazer tudo o que eu puder para fazer a Croácia vencer, pois foi o país que me colocou ali. Não vou sentir, não. Vou tentar arrebentar com o jogo.

Brasileiros - Se você estivesse no lugar do Diego Costa, que escolheu a Espanha, mas poderia jogar pelo Brasil, o que você escolheria?

Sammir - Ah, aí eu escolheria o Brasil. É meu país e sempre sonhei em jogar pela Seleção Brasileira, como toda criança. Se eu estivesse no lugar dele, escolheria o Brasil, com certeza.

Brasileiros - Já falou com o Eduardo da Silva (jogador brasileiro naturalizado croata, que joga pelo time ucraniano Shakhtar Donetsk) sobre esse jogo contra o Brasil?

Sammir - Ainda não. Somos amigos, estamos sempre em contato e me dou muito bem com ele. Eduardo chegou aqui com 16 anos, casou com uma croata e é venerado na Croácia. Ele é mais croata do que brasileiro. Não sei como vai ser a reação dele. Não falamos sobre esse assunto. Acho que eu e ele estamos evitando falar disso (risos). Mas conversei sobre o jogo com alguns jogadores da Seleção Croata, e eles estão felizes. É o primeiro jogo da Copa, todo mundo estará vendo, e isso será uma propaganda legal da Croácia, que é um país bem pequeno.

Brasileiros - Você chegou a ter algum tipo de dificuldade no início da carreira?

Sammir - Sempre cuidei de mim mesmo. Nunca pedi dinheiro para a minha mãe, meu pai, meus familiares. Tive poucos problemas financeiros. Eu os tive, mas foram poucas vezes. Tudo sempre dependeu de mim. Não tenho do que reclamar. O que eu mais sofri foi de saudade da família, que sempre ficou distante.

Brasileiros - Tem um clube de coração da infância no Brasil?

Sammir - Por incrível que pareça, não.

Brasileiros - Você pensa em voltar para o Brasil?

Sammir - Penso, claro. Quero encerrar a minha carreira no Brasil. Tenho três anos de contrato no Getafe, mas depois quero voltar. A saudade aperta.



(texto publicado na revista Brasileiros nº 83 - junho de 2014)

















quarta-feira, 9 de julho de 2014

Homenagem ao Dr. Sócrates e ao locutor esportivo Luciano do Valle: Copa de 1982 - Brasil x União Soviética


O juiz não viu o pênalti (texto do Dr. Sócrates)

É ano de Copa do Mundo. Até lá, Época publicará a cada edição um texto em que o autor falará do jogo da Seleção Brasileira que mais o marcou em todas as Copas.



Jogar uma Copa do Mundo é um sonho para qualquer um que gosta de futebol. Quando fiz do esporte minha profissão, esse era meu maior objetivo. Felizmente, não demorou a acontecer. Ao estrear numa Copa, na Espanha, em 1982, contra a União Soviética, eu usava a braçadeira de capitão. Tinha a sensação de que eu não representava somente a equipe diante do árbitro. Eu me sentia representante de todo o povo brasileiro. É uma sensação única.

Quando os times se perfilaram para ouvir o hino nacional dos dois países, logo no primeiro acorde, eu chorei. Estava arrepiado. O desabafo foi bom, porque logo a ansiedade da estréia e o nervosismo natural de Copa do Mundo ficaram para trás. O jogo começou e eu já era pura adrenalina. O estádio estava cheio e alegre. Eu sabia que havia gente de todos os cantos do planeta nos vendo. E era emocionante saber que estava jogando em uma equipe excepcional.

Apesar disso, começamos um pouco desequilibrados. Toninho Cerezo, que seria um dos titulares, estava suspenso e não podia jogar. Em seu lugar, o técnico Telê Santana havia escalado Dirceu pelo lado direito. Só que Dirceu era canhoto. Acho que o time ficou torto durante todo o primeiro tempo. De repente, um baque: sofremos um gol. Foi uma bola chutada de longe que nosso goleiro, Valdir Perez, não conseguiu segurar. Foi como uma ducha de água fria. Mas eu não podia passar nem uma ponta de insegurança para meus companheiros. Peguei a bola com as mãos e calmamente andei até o meio-de-campo, conversando com todos. Falava que aquilo não era nada e que ainda tínhamos muito tempo de jogo para reverter aquele resultado. Tentava demonstrar a maior naturalidade possível, depois daquele "acidente". Apesar disso, demoramos para recuperar o controle emocional. O time ficou inseguro e nervoso. E assim terminou o primeiro tempo.

Voltamos do intervalo mais calmos e impondo nosso ritmo. Mas a bola insistia em não entrar. O goleiro deles, o Dasaev, estava pegando tudo. E nosso time ainda um pouco atrapalhado. Luizinho, um dos nossos zagueiros, chegou a dar um toque de mão dentro da área. Seria um pênalti que nos derrotaria. Felizmente , o juiz não viu ou não quis ver.

Até que, faltando pouco para terminar a partida, recebi uma bola espirrada na intermediária. Como não tinha muitas opções de passe, fui lentamente me aproximando do gol russo. Diante do primeiro defensor, ameacei chutar e saí pela direita. No segundo, fiz a mesma coisa. Foi quando se abriu um bom espaço para tentar um chute a gol. Disparei. A bola foi no ângulo direito e não deu para o gigante soviético defender. Quando vi a bola balançando a rede, não me contive. Saí correndo como um doido para o meio-do-campo, vibrando como nunca e tentando entender o que eu estava sentindo naquele momento. Não consegui compreender totalmente até hoje, mas com certeza foi o gol que mais comemorei na minha vida.



*Logo depois, Éder faria o segundo e jogo terminaria em 2 a 1 para o Brasil.



(texto publicado na revista Época nº 409 - 20 de março de 2006)



Brasil 2 x União Soviética 1 (Copa de 1982 na Espanha)