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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Minha péssima escolha de amigos - Walcyr Carrasco


Com evidente talento para bons negócios e truques financeiros, eu teria feito fortuna na vida política

Não sei escolher amigos. Diante do noticiário, descubro que amizade, real e verdadeira, é diferente de tudo que eu pensava. Vejam bem. O amigo do Aécio, segundo uma gravação, arruma R$ 2 milhões para ele pagar o advogado. O do Cunha, também segundo uma gravação, entrega uns R$ 500 mil por semana. Um amigo do Lula arruma tríplex, reforma. Sítio também. E ainda paga R$ 200 mil por palestra. Outro, em um vídeo, fala que destinou US$ 70 milhões ou US$ 60 milhões a Lula e outro tanto a Dilma. Os do Geddel enchem um apartamento de malas e caixas de grana. Meus amigos só perguntam se estou bem. Ouvem meus desabafos. Trocam WhatsApp. Muito de vez em quando, pagam um jantar. Mas no próximo a conta é minha. É o que digo, não sei mesmo escolher amigos.

Tive a chance de progredir no caminho do ganho rápido, por meio de amigos. No meu primeiro ano de escola, aos 7, eu estava inocentemente no recreio. Um amigo da classe aproximou-se e me ofereceu um relógio. A princípio eu não queria, mas ele insistiu tanto que comprei pelo equivalente a um pacotinho de balas. Cheguei em casa todo feliz com meu novo relógio, de adulto.

– Comprei!

Meus pais examinaram.

– Esse relógio vale muito mais – disse meu pai.

– Amanhã você leva na escola e entrega para a professora – exigiu mamãe.

Chorei, bati o pé. O relógio era meu! Não teve jeito. No dia seguinte, mamãe o embrulhou em papel de seda. Entreguei. O relógio era roubado! Meu amiguinho acabou saindo da escola. Chorei loucamente enquanto levavam meu precioso relógio. Frustrado, meu primeiro golpe! Poderia ter ido longe, começando tão bem aos 7 anos! Em breve possuiria uma coleção de relógios. Aos 10 talvez já tivesse um sítio em Atibaia!

Mais tarde, tentei desenvolver meu talento, outra vez. Eu passava as férias na casa de meus primos. Certo dia, titio deu 2 cruzeiros a meu primo e 1 para mim. Fiquei ressentido, óbvio. Melhor 2 do que 1, pensei com a lógica elementar de um Geddel. Na tarde seguinte, falei um bom tempo com meu priminho. Provei que a nota de 1 era mais bela que a de 2. Ele trocou! Não houve constrangimento. Meus argumentos eram bons, acredito. Feliz com meus 2 cruzeiros, fui comprar doce na padaria.

Mas meu priminho me delatou! Contou ao pai. Titio premiou a delação com mais dinheiro para ele. E levei uma bronca inesquecível.

– Isso é golpe! – afirmou.

Não tive como me defender, já que sabia perfeitamente a diferença entre 1 e 2. Fiquei sem ganhar mais nada o resto das férias. Logo fiz as pazes com meu primo, claro. Uma delação premiada faz parte da vida, penso com uma lógica bem atual.

Desde então, travei. Admito hoje que foi uma falha na minha educação. Com tão evidente talento para bons negócios e truques financeiros, eu teria feito fortuna na vida política. Estou satisfeito como escritor, não posso me queixar. Mas quanto eu teria hoje, escondido em algum paraíso fiscal? Quem sabe até uma banheira cheia de cédulas, para me banhar como o Tio Patinhas. Mas não. Meus amigos trabalham. Pagam prestações. Compram a crédito. Eu bem poderia ter escolhido outra turma. E daí se fosse dois ou três anos para a Papuda? Aproveitaria o tempo para reler os clássicos.

Só adulto tomei conhecimento dessa categoria de amigos generosos. Mas não na política. Eu trabalhava na extinta TV Manchete. Escrevia uma minissérie, baseada em O guarani, de José de Alencar. Procurávamos índias. Ou seja, moças morenas que aceitassem ficar seminuas para compor a tribo de Peri, o herói. Mais necessária era a nudez que uma grande interpretação. As índias falavam somente algumas frases em um tupi claudicante, escrito por mim mesmo a partir de um dicionário. Tive uma longa conversa com uma candidata muito bonita, morena de olhos verdes. Um delírio de mulher.

– Não importa o salário, quero fazer televisão – disse ela. – Tenho um amigo que me dá tudo. Outro dia me deu um carro zero.

Admirei-me com tanta generosidade. Dos meus amigos, nunca recebi um par de patins! Ao longo da vida, conheci outras moças – e rapazes – que ganhavam apartamentos. Joias e Rolex. Mas isso é bobagem perto de amigo de político. Esses sim são generosos!

Tivesse desenvolvido meu talento, hoje já estaria no mínimo fazendo uma delação premiada. Quem tem o que delatar, tem o que guardar, eis minha lógica. Mas estou aqui, de noite, teclando. Culpa de mamãe, papai e titio, que me fizeram honesto!


(texto publicado na revista Época de 26 de setembro de 2017)

domingo, 26 de novembro de 2017

Uma velhice arrebatadora - Walcyr Carrasco


Envelhecer é um fato e o sinal dos tempos em nosso corpo nos faz ver isso. Mas e a alma? Envelhece também ? Cheguei à conclusão que não. Depende de quanto queremos ainda viver, de quantos sonhos ainda temos, enfim, de quanto nos amamos e nos damos valor. 

Como nada em nossa vida acontece por acaso, enquanto esperava a sessão de quiropraxia, comecei a ler uma edição da Época. O primeiro texto que procuro toda vez que abro um exemplar dessa revista é a coluna do Walcyr Carrasco. E foi com prazer que o tema era justamente a velhice, mas uma muito bem vivida pela consagrada atriz Fernanda Montenegro.

Uma velhice arrebatadora

Fernanda Montenegro tem uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos

Já admirava Fernanda Montenegro havia muitos anos. Era jovem quando assisti a sua magnífica interpretação em As lágrimas amargas de Petra Von Kant. Saí impactado. Fernanda pertence a uma geração de atores formada nos palcos. Nunca fez questão de ser a mais bonita, a exuberante. Ao lado do marido, Fernando Torres, já falecido, investiu sempre na carreira teatral. Surgiram a televisão, o cinema. Foi finalista do Oscar por Central do Brasil. Feio fez a Academia, ao não lhe dar o prêmio. Há pouco tempo, ganhou o Emmy por uma série da TV Globo.

Ainda vive em mim algo do menino de interior de São Paulo que fui um dia. Fico tímido diante de quem admiro. Em um evento da Globo, há dois anos, ela me abordou. Para minha surpresa, disse que gostaria de trabalhar comigo. Quase me ajoelhei. Explicou que já tinha mais de 80. Seria bom não demorar muito tempo, avisou. Óbvio, criei um papel para ela na minha novela atual, O outro lado do paraíso. Um personagem especial, inspirado em uma vidente que conheci no interior do Tocantins. Dia desses, fui visitar as gravações. No camarim, Fernanda, orgulhosa, se contemplou no espelho.

– Estou sem maquiagem.

Aviso. Ouvir isso de uma atriz, ainda mais de uma estrela como é Fernanda, é raríssimo. Não só de atrizes. Eu mesmo gostaria, quando dou entrevistas, de passar pelas mãos mágicas de um maquiador. Uma boa maquiagem elimina sinais de idade. Diante da iluminação, torna os rostos muito mais atraentes. Para uma atriz, abrir mão da maquiagem é o mesmo que expor todos os sinais do tempo, as marcas da vida. Fernanda, como a vidente Mercedes, não usa nenhum artifício. Também a observei nas entrevistas. Lúcida, com um raciocínio exato e conciso, ao fazer declarações sobre os recentes ataques a exposições de arte. Surpresa! Justamente no dia da minha visita, era seu aniversário. Haveria um bolo em sua homenagem. Coisa simples, apenas com o pessoal que estava no cenário, não mais de seis ou sete pessoas.

Cantamos “Parabéns”. Cortamos o bolo. Oferecemos um buquê de flores. Alguém comentou sobre o fato de estar trabalhando justo no dia do aniversário. Ela disse:

– Só tenho a agradecer por estar com 88 anos, aqui, gravando. Ser atriz é o que quis fazer toda a vida. Possuir condições físicas para trabalhar é uma dádiva. A oportunidade de ter um papel, de viver meu personagem, é a melhor comemoração que posso ter. Existe felicidade maior?

Cortou o bolo, ofereceu. Depois se retirou emocionada e majestosa. Porque uma grande atriz, mesmo nas roupas simples da vidente Mercedes, continua a possuir uma aura. Uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos.

Sempre fui pessimista em relação à velhice. Meu olhar sempre se voltou para os problemas, as doenças. No entanto, diante de Fernanda Montenegro, descobri que a velhice pode ser uma fase intensa, cheia de vida, de emoções. No dia da estreia da novela, chovia. Também teve tiroteio no Rio de Janeiro, o que se tornou, lamento, habitual. Houve uma festa, perto dos Estúdios Globo, para atores e equipe assistirem ao primeiro capítulo juntos. Eu demorei uma hora e meia para chegar. Fui avisado. Fernanda não viria. Havia gravado o dia inteiro e voltado para casa. Precisava descansar.

Sentei-me, à espera da novela. Quase no momento de começar, veio novo aviso. Fernanda chegara. Fui até sua mesa. Peguei sua mão. Tremia. Emocionada, como uma principiante. As lágrimas caíam. Explicou. Estava em casa, havia trânsito e tiroteio no caminho. Mas não conseguiu ficar solitária no apartamento. Era uma estreia! Seu coração falou mais alto. Apesar de tantos trabalhos, prêmios, sua emoção era idêntica a minha, do diretor Maurinho, de todos os atores. A mesma emoção que senti quando meu primeiro livro foi editado, peguei impresso nas mãos. Cada estreia de uma peça, de uma novela, quase tenho um enfarte de tão rápido que bate o coração. É o sentimento de todo artista. Do pintor na última pincelada. Do escritor no ponto final. Talvez sejam essas emoções tão intensas que dão forças para um artista enfrentar o mundo. Arte proporciona um contato com algo que está além de mim, de nós. É uma conexão com o impossível.

Fernanda me tocou, me toca. Onde estarei aos 88 anos, pensei. Então entendi. Ela nunca terá os 80 cronológicos. Continua intensa a cada papel. É seu segredo para uma vida luminosa. Tornar a velhice tão arrebatadora e criativa como a juventude.

domingo, 10 de setembro de 2017

A saga das correções e atualizações automáticas - Walcyr Carrasco


O corretor automático do celular deve ter sido criado por uma velha fuxiqueira que quer ver briga

Você tem ideia do que é escrever uma novela? Não estou falando da parte glamourosa da vida de um escritor. Mas da labuta, da transpiração aliada à inspiração. São páginas e páginas por dia. Entro em uma espécie de transe. Mergulho na história. Certa vez um acupunturista me aconselhou a fazer algum tipo de alongamento a cada meia hora. Expliquei que é impossível. Esqueço. Começo a escrever. Quando vejo, o tempo passou. É um processo de entrega total. O mesmo acontece com meus livros, peças de teatro. Vou fundo.

Tudo seria perfeito se não fossem as atualizações automáticas. Estou escrevendo. De repente, vem um aviso. Dentro de 15 minutos meu computador será reiniciado por causa de uma atualização. Mas eu não posso reiniciar meu cérebro. Estou, como dizem os especialistas em produtividade, em “flow”, fluindo, vivendo minha nova história, a novela O outro lado do paraíso, que estreará na Globo em outubro. Portanto, não aceito. Ok. Dali a dois minutos volta o aviso. Vem e vem sem parar. Até que eu desisto, paro de trabalhar e espero atualizar e reiniciar. Imagine isso às 2, 3 da manhã. É o horário que costuma acontecer. Tranquilo, não? Quem inventou certamente é contra todos os escritores da face da Terra, que costumam trabalhar à noite. Mordo o teclado. É o que me resta. Se consigo evitar, quando durmo ele faz a atualização. No dia seguinte, o programa está diferente. Fico maluco até entender as mudanças. Mas aí, é claro, está na hora de nova atualização...

De todos os meus conhecidos, fui o primeiro a ter computador pessoal. Quando todo mundo ainda usava máquina de escrever. Passava horas decifrando programas, via mapas astrais, ouvia música, lia livros que só existem na internet. Escrevi minhas primeiras novelas nos primeiros computadores lançados no país, máquinas horrendas e lentas. Céus, sou do tempo do Orkut! Mas os programas mudaram. Atualizações e mais atualizações. Perdi o pé. Até em sites de compras me confundo. A Amazon brasileira, por exemplo. É tanta vontade deles de vender livro virtual que não consigo achar os físicos. Não sei mais baixar músicas. Não encontro música nenhuma. Depois de muitas atualizações, as bibliotecas virtuais tornaram-se atividade para iniciados.
Mas nem tudo está perdido.

Outro dia estava confuso no celular. Minha secretária do lar ofereceu ajuda. Explicou.

– Meu filhinho de 4 anos acha tudo!

Humilhação. O fato é que os mais novinhos também passaram por alguma atualização, que ainda não entendi.

Quem não odeia correção automática de texto em celular? Quem? Quem?

É um horror. O corretor automático me trai. Aposto que trai você também. Se digo que vou descansar, ele troca por desgastar, e de repente estou no meio de uma longa DR. Objetivo: descobrir por que a relação está desgastada. Explico que foi o corretor. Quem acredita? Uma amiga escreve que vai na TV. Explico que não estarei lá, trabalho em casa. Após um diálogo confuso, ela descobre que o corretor trocou “vi” por “vou”. Ela apenas viu um programa na TV e queria me indicar. Mas eu já fui grosso dizendo que não estaria lá. E ela entendeu que não me interessei pela dica que ela queria passar. Outro exemplo: Fui escrever “fala”. Mas botei um “l” a mais sem querer, “falla”. O corretor trocou por “Callado”, o dramaturgo, mas que lembra uma ordem impondo silêncio... quem leu, obviamente, não gostou muito. Fiquei um tempo tentando me explicar. Agora pouco quis escrever “importar”. Esqueci do “r” e foi “impotar”, ok. Mas o corretor tinha de trocar por “impotente”? Pronto, mais um amigo ofendidíssimo. O corretor automático de celular deve ter sido criado por uma velha fuxiqueira cujo maior objetivo é provocar rixas entre usuários de mensagens.

E correção em computador? Escrevo as falas de um personagem caipira. O corretor muda. Vou em cima, refaço. Nova correção. Depois, pontilhado vermelho embaixo de cada palavra considerada “errada”. Mas e se o personagem fala errado? Pronto, tiro as correções automáticas de texto. Acredite ou não, elas voltam, misteriosamente. Estão cravadas no interior do programa. Eu me debato. Quase choro.

Simplesmente queria saber: por que não posso voltar aos bons tempos em que podia usar um programa simples? Apenas adequado a minha principal atividade, que é escrever? Por que tenho de me tornar um expert em computador? Ixi, não posso continuar. Um aviso que meu antivírus está expirando insiste em piscar na minha tela. Fecho. Ele volta. Fecho. Ele volta. Socorro!


(texto publicado na revista Época - junho de 2017)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Quem fala por mim? - Walcyr Carrasco


Pior que qualquer denúncia é a destruição dos sonhos. Mas a chance de aparecer alguém para revigorar os ideais.

Tenho 65 anos e um profundo descrédito. Sou de uma geração que, certa ou errada, tinha um sonho. Era de esquerda, quando jovem. Está certo, nunca li O capital, mas a maioria dos esquerdistas também não. Li O manifesto do Partido Comunista, mais curtinho, que durante o regime militar circulava de mão em mão. Proibidíssimo. O mundo era mais simples: quem era de direita apoiava os militares. De esquerda, contra. Por causa desse pró e contra, pessoas morriam. O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado na cadeia. Muitos também morreram. Torturados. Eram guerrilheiros. Hoje pode parecer assustador falar que jovens se uniam, em pequenos grupos, como VAR-Palmares, Polop, para combater a ditadura militar. O objetivo era tomar o poder. Com frequência, saía a notícia no jornal: guerrilheiro morto em embate com a polícia. Mentira. Era alguém preso, torturado. Morto na cadeia. Os militares brasileiros até que davam uma disfarçadinha. Na Argentina, botavam em aviões e jogavam no mar, em grupos. Também lá, as mães se uniram em busca de seus filhos. Em um protesto contínuo na Plaza de Mayo, denunciando. Lá, também, muitos bebês eram arrebatados das jovens esquerdistas e adotados pelas famílias militares. As avós até hoje procuram seus netos, em pistas cada vez mais tênues. No Chile, na queda do presidente Salvador Allende, eram tantos presos e torturados que foram postos num estádio de futebol. Mas esses jovens tiveram um papel histórico: denunciaram a brutalidade dos regimes militares. Esses horrores estão na minha memória, assim como o primeiro comício de Lula, no ABC paulista. Eu estive lá. Assim como compareci à missa pela morte de Herzog. Medo da cavalaria.

Mas com o tempo meu lado escritor falou mais alto. À medida que a gente se profissionaliza, nem sempre pode participar de atos políticos. Enfim, o governo militar caiu. Tecnicamente, fez uma passagem pacífica para a democracia. Veio uma nova Constituição, e o país podia respirar. Podia? Durante anos, votei nos partidos de esquerda. Simplesmente por acreditar em justiça social. Por duvidar que um país possa ser feliz com crianças passando fome, gente morando na rua. Se me perguntassem o que eu faria se fosse presidente, diria que não sei. Também não quero ser presidente, deputado, ministro. Reconheço, com orgulho, minhas limitações.

Mas, quando Lula venceu, eu respirei fundo. Ele veio, ninguém pode negar, com um projeto de inclusão social. Fomos o último país a abolir a escravidão. Seremos os últimos em muitas coisas, parece. Porque veio junto essa roubalheira toda, pelo menos segundo o que está sendo denunciado abertamente, com nomes e quantias. Tudo bem. Ninguém pode ser julgado apenas pelas notícias. É preciso passar por um tribunal. Mas as notícias são avassaladoras.

Pior que qualquer denúncia, porém, é a destruição absoluta dos sonhos. A maioria dos partidos não tem um projeto capaz de falar por si. Políticos mudam de sigla como trocam de sapatos. Vão do que era esquerda para a direita, e vice-versa. O PT arruinado pelas acusações. Restam o PSOL e a Rede, embora eu sempre fique com um pé atrás porque Marina Silva é evangélica. Tem posturas firmes, que nem sempre coincidem com as minhas. Mas, se eu falo deles, pelo menos sei o que são. Os outros viraram uma omelete. E grandes ícones da minha juventude – não só Lula – hoje estão envoltos em denúncias. Se me perguntarem em quem votarei nas próximas eleições, direi que não sei. Não tenho a menor ideia, porque nenhum partido me representa. Político, então?

Muita gente briga quando ainda se fala de Lula, apesar das evidências. Dizem que é estar contra a classe trabalhadora. Uma coisa eu sei. Ser contra alguém não é duvidar de uma ideia. Todos, absolutamente todos aqueles que sejam a favor da inclusão social, de uma sociedade mais igualitária, podem ser presos por corrupção. Eu poderia ser o juiz a condená-los diante das provas, e mesmo assim continuaria a acreditar na possibilidade de um mundo melhor.

Meu descrédito não é com a política, mas com os políticos. Há um vácuo de poder, que pode até ser ocupado por um novo candidato messiânico tipo Fernando Collor. Mas também é a chance de aparecer alguém capaz de revigorar os ideais, não digo de uma esquerda antiga, mas de uma sociedade mais justa.

Se esse candidato aparecer, é nele que vou votar. Tenho esperança. Ainda vai aparecer quem fale por mim.



(texto publicado na revista Época de 24/04/17) 

sábado, 18 de março de 2017

A questão dos toaletes - Walcyr Carrasco


O banheiro virou tema de debate. Vou mais longe. Por que há banheiro para homem e para mulher?

Há alguns anos traduzi e adaptei para jovens A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. A certa altura, empaquei no original francês. O protagonista, Armand, seguia Marguerite até seu "toilete". Ela, recostada em um canapé, ouvia as juras de amor dele, ajoelhado. Quando ele saia, ela pegava uma pequena bacia e escarrava sangue. Estranhei. Comparei com outras traduções. Em todas, "toalete". Mas aqui usa-se o termo para banheiro social. Pede-se, educadamente, para evitar falar em necessidades físicas.

- Posso ir ao toalete? Rápido!

Mas Armand se ajoelharia para declarar seu amor ao lado de um vaso sanitário? Marguerite deitaria no canapé sob o risco de bater a cabeça e dar descarga? Fui à luta. Busquei plantas de prédios de meados do século XIX, em Paris, como o que Marguerite moraria. Conclui: tratava-se do que chamaríamos de quarto de vestir, com um penico embaixo do canapé. O prédio teria um local para jogar as "águas sujas", como diz Eça de Queiroz em O Primo Basílio. Traduzi como "quarto de vestir" para dar uma ideia mais aproximada.

Fiquei pensando em como adotamos toalete como se fosse um eufemismo. Até bem pouco tempo atrás, o banheiro não era bem visto pelos arquitetos. No interior, era comum que fosse fora da casa. O visitante pedia:

- Posso usar a casinha?

No lar, só penicos. Tinham suas vantagens. Estimulavam a flexibilidade das pernas, mesmo em idades avançadas. Mansões de décadas atrás ofereciam um banheiro para três quartos. No máximo, uma suite para o casal. Nos Estados Unidos, segundo o filme Vidas cruzadas (The help, de Tate Taylor, 2012), nos anos 1960 surgiu o banheiro de empregada. Questão de racismo, pois as patroas brancas não queriam usar o mesmo ambiente que as empregadas negras. Uma racista chega a dizer: "Elas carregam doenças diferentes das nossas".

Banheiro de empregada é discriminação. Racial ou social, por pobreza. O que faz alguém diferente de alguém a ponto de não poder usar o mesmo? No Brasil, a questão nem foi levantada. Herança das senzalas, os aposentos para empregadas permaneceram. E nunca se discutiu por que alguém pode trabalhar numa casa, participar da intimidade e à noite ser trancada num cubículo, com um banheiro cuja porta nem fecha.

Nos últimos anos, porém, os arquitetos e construtoras piraram na questão. Um apartamento de classe média alta hoje oferece todos os quartos com suíte. Mais toalete. E banheiro de empregada. Digamos, três quartos, cinco banheiros. Recentemente, em uma festa, ouvi uma ricaça reclamar:

– Mas como só um toalete para visitas? Seria preciso dois!

Livros já foram objeto de decoração nas salas elegantes. Perderam espaço para torneiras, pias e chuveirinhos. Apartamentos do tipo quarto e sala chegam a oferecer um “toa­lete” para visitas, além da suíte. Nos de luxo, dois banheiros na suíte do casal, para ele e ela. Que frenesi por banheiros é esse?

Agora vem uma nova questão, a de gênero. Os conservadores defendem que a pessoa só use o banheiro correspondente ao sexo da certidão de nascimento. Mesmo transexual ou travesti. Travestis e transexuais, com razão, sabem que nos banheiros masculinos podem ser vítimas de ofensas e agressões. Vou mais longe. Por que há banheiro para homem e mulher? Em eventos, quando vejo as longas filas dos femininos, costumo brincar com elas, todas tensas, segurando-se, mal-humoradas.

No Japão, em duas viagens que fiz, percebi que essa diferença é muito relativa. Em baladas, mulheres usam normalmente banheiros masculinos. Em banhos públicos, próximos de fontes vulcânicas, homens, mulheres e crianças misturam-se pelados, sem constrangimento. De banheiro de empregada não sei, até porque japonês nem tem esse tipo de funcionária. E, com o espaço reduzido de Tóquio, duvido que alguém tenha quatro suítes. Parece escandalosa e temível essa mistura?

Certa vez, no Museu do Louvre, em Paris, eu estava em pé, enfileirado, com uns cinco cavalheiros, naquele momento crucial. Filinha de espera. Uma mulher, turista oriental, entrou, passou por nós sem dar a menor importância e foi para um reservado. Tudo com extrema naturalidade.

Não sei explicar. Só queria entender. Por que o frenesi por banheiros entre os arquitetos? E como se transformou em debate encarniçado na questão de gêneros? Não seria mais fácil para quem quer entrar trancar a portinha?

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Dieta detox, socorro! - Walcyr Carrasco


De todos os pecados capitais, a gula é o que mais pratico. Ainda mais nas férias! Em recente viagem ao exterior, chafurdei em menus degustação de oito pratos, harmonizados com vinhos. Até no café da manhã pedia dois ovos fritos. Intuía o que vinha pela frente, mas resolvi não pensar no assunto. Quando voltei, vi exatamente o que veio pela frente: minha barriga. Imensa, estourando todos os paletós e camisas. A pior coisa para o homem, sei que muitos concordarão comigo, é olhar para baixo e ver... o umbigo. E não os atributos que a genética nos deu! Logo descobri que o problema não era só vaidade. Mas de saúde e financeiro. De saúde, porque a barriga enorme, para um homem maduro, leva ao que se chama de síndrome metabólica. Está associada a várias doenças: diabetes, problemas cardíacos, gordura sobre o fígado... A questão financeira é óbvia. Se nenhum paletó mais me servia, teria de comprar novos. Mais barato emagrecer. E mais cauteloso.

- Não comprei nada novo - disse meu amigo Luis Began. - Quando as roupas ficam, bem, a gente se acomoda.

Disse por experiência própria. Engordou e renovou o guarda-roupa. E se acostumou com a barriga! Adotei o lema: "Emagrecer é economizar". Conheci duas médicas gêmeas que emagreceram 24 quilos. Elas me indicaram a nutricionista. A profissional Tatiane Pilan, linda e magra, fez a consulta. Um amigo médico avaliou meus exames. Trágicos, a começar pelo colesterol.

- Você tem de começar por uma dieta detox, para dar uma limpada geral no organismo. Durante 20 dias.

Detox é abreviação para desintoxicante. Nem falou em remédio para passar a fome. Sua tese é que, comendo de três em três horas, a gente não sente fome. Talvez, se eu comesse um porco assado. Mas o menu é bem outro. Meia hora antes do café da manhã, um copo de limão espremido com farinha de berinjela. Imaginem o humor. Seria um jeito ótimo para começar o dia, se eu quisesse brigar com alguém. No café, suco verde, se eu quisesse brigar com alguém. No café, suco verde, composto de umas ralas folhas batidas. Ou um iogurte desnatado com chia, semente proteica que vem da Bolívia, acredito. O pão foi cortado definitivamente. Carne vermelha também. Almoço, frango grelhado na água, ou peixe idem. Quem já comeu peixe na água conhece o horror. Nos intervalos, chá de hibisco com farinha de berinjela. Queria saber quem inventou a tal farinha de berinjela. Dá vontade de atropelar. Jantar, poucas opções: omelete de claras ou um iogurte batido com papaia. No final da noite, o momento que espero o dia todo: maça com canela. Adoro maçã assada. Esperar por ela ainda me dá vontade de viver. Fora isso, chá de melissa, mais farinha de berinjela...

Estou nessa há duas semanas e meia. Encontrei a atriz Ingrid Guimarães e contei.

- Já fiz dieta detox - disse ela. - Foi quando pensei que encarar a morte deve ser uma coisa boa.

Depois, quase em lágrimas, confessou:

- Vou ter de fazer outra, por causa de um filme em que há uma cena de biquini.

Ingrid é magra. Se ela precisa de detox, lamento: gordos como eu não têm mais esperança.

O pior é que, quando começo uma dieta e decido ser firme e rígido, parece que vem uma praga e passo a ser convidado para tudo que é bom. É preciso força de vontade. Tive de dizer não, esses dias, a um convite da minha amiga Liége Monteiro: um jantar de caridade em Mônaco, com a presença do príncipe Albert e menu de uns 40 pratos. Balancei. Nunca vi um príncipe de perto. Só sapos. Como será esse jantar, ainda mais para um cara desinibido? Sou do tipo que se importa de errar na etiqueta ou de atirar o caroço de azeitona no prato do vizinho. Não pertenço a esse mundo, posso fazer feio. De qualquer jeito, não me tornarei amigo da família real. Mas... e a barriga? Nunca cuidei do meu corpo, nunca tive disciplina. Chegou a hora, ai meu Deus. Sem exceção, nem para príncipe.

Existem outros tipos de dieta detox. Todas têm em comum a restrição. Por incrível que pareça, me acostumei a comer menos. Já não sinto fome, fome... Também já sei que talvez nunca mais coma uma feijoada, torresmo... quindim! Sinto vontade de chorar ao pensar nos quindins.

Mas vamos lá. É a vida! Muitas barrigas já passaram pelo mesmo que eu. Ou passarão. Subi na balança, perdi 3 quilos. Faltam 17. Credo, ainda 17? Coragem! O jeito é seguir em frente. Ou minha próxima camisa será feita numa loja de cortinas.



(texto publicado na revista Época nº 829 - 21 de abril de 2014)

sábado, 31 de dezembro de 2016

O quilombo de Mumbuca - Walcyr Carrasco


Um incêndio criminoso isolou a área bem na época da colheita do capim-dourado, usado no artesanato

Há meses entreguei um prêmio no Ministério da Educação, em Brasília, para professoras que criaram projetos de incentivo à leitura. Uma das vencedoras me disse, emocionada:

– Comecei a ler por sua causa. E hoje sou professora.

É o tipo de mensagem que faz a vida de um escritor valer a pena! Ela vinha do quilombo de Mumbuca, no Jalapão, Tocantins. Convidou-me para visitá-lo. Aceitei. Escrevia uma novela na época, esperei terminar. Há semanas, parti. Desci em Palmas, capital do Tocantins. De lá, um guia me levou ao Jalapão, parte pouco conhecida do país, belíssima, com montanhas, areais, dunas, cachoeiras. Quando chegamos à pequena cidade de Mateiros, tivemos a notícia. O quilombo estava inacessível. A ponte que o liga ao resto do mundo sofrera um incêndio criminoso. Pior, justamente na época da colheita do capim-dourado. O artesanato com o capim, que só dá na região, é a base econômica do quilombo. Fazem bijuterias, vasos, chapéus, mandalas. Que têm reflexos dourados, daí o nome do capim. Convenci meu guia a botar o 4x4 no rio. Atravessamos o leito cascalhado. Em certo momento, a água quase entrou no motor, mas conseguimos. Ana, a professora que me convidara, já fora prevenida por telefone e me espera. Chego carregado de livros, de minha autoria, para a biblioteca do quilombo. Poucas vezes fui tão bem recebido. Cantam para mim. Mostram os campos de capim-dourado, lindos! Há um quadro com a árvore genealógica dos habitantes. Hoje são umas 60 famílias, que descendem de dois casais de escravos fugitivos. E... surpresa! É um matriarcado, desde sua formação. A grande mentora foi dona Miúda, falecida, que descobriu o uso do capim-dourado no artesanato. Quem nasce lá tem um profundo senso de comunidade. Pode sair, mas sempre volta.

– Moro uma parte do tempo em Palmas, onde trabalho, mas volto para a colheita do capim – conta-me Miriam, uma moça bonita. – Aqui é meu lugar.

Ana fez universidade. Mas voltou para seu quilombo. Um rapaz, Maurício, ótimo cantor, faz apresentações pelo Brasil todo. Mas sua casa é lá. A cada turnê, retorna. Uma senhora magra, de 60 anos e porte aristocrático, me recebe em sua casa de chão de areia – no quilombo o piso é esse, areia. É a Dotora, assim mesmo, sem o u. Faz curas com remédios caseiros, à base de buriti, a palmeira da região. Dá ajuda espiritual. Principalmente conselhos para manter a paz entre os moradores. Dona Santinha e dona Laurinda, a parteira, também contribuem com o bem-estar social. São mulheres fortes, experientes. Referências para os moradores. Observo a Dotora sentada na rede, conversando, gesticulando. Penso:

– Nunca vi mulher tão elegante!

A pobreza da cidade grande, com a qual estamos acostumados, é luxo diante da vida no quilombo. As casas têm paredes de tijolos não caiadas e tetos de folhas de palmeira. A sobrevivência é na base do mínimo. O calor, causticante. Há uma escola, mas, fora Ana, os outros professores não vêm há meses. Posto de saúde, nem pensar. Vivem como provavelmente viveram seus antepassados há 200 anos: da floresta, do rio, de uma pequena agricultura e criação doméstica – há galinhas em todas as casas. Há neles um sentido de comunidade que eu não via havia muito tempo: todos se preocupam com a sobrevivência de todos. As vendas do artesanato, concentradas em um salão da associação local, servem ao bem comum. Existe um grande tesouro: a colmeia da mumbuca, abelha que deu nome ao quilombo. Faz sua colmeia dentro da terra, em forma de cone. Seu mel raro só é extraído para a produção de remédios.

Apesar de toda a alegria com minha chegada, ninguém esconde a preocupação. A falta de ponte afastou os turistas na festa da colheita, o grande momento do ano. A época da cheia logo chegará. Nem um 4x4 conseguirá atravessar o rio. Mumbuca ficará definitivamente isolado. O governo do Tocantins alega falta de verba. A responsabilidade passou para o município de Mateiros. Este, embora viva de turismo e tenha no quilombo uma atração importante, também diz não ter como construir a ponte. O autor do incêndio não foi descoberto. Perguntei a um morador o que achava de tudo isso:

– Ficaremos como antes, há 200 anos. Isolados.

A abolição da escravidão aconteceu há muito tempo. Mas os moradores de Mumbuca continuam a enfrentar circunstâncias ruins, que parecem datadas da época em que seus antepassados fugiram de seus senhores. Estão por si mesmos, sozinhos na luta por sua ponte.



(texto publicado na revista Época nº 955 - 3 de outubro de 2016)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O drama após o Enem - Walcyr Carrasco


Há a proposta de reforma curricular e de exigir opções mais cedo. Como aos 15 anos alguém pode escolher uma área?

Veio o Enem. Ah, bom, para muitos não. Mas vem. E, durante ou depois do Enem, o jovem tem de escolher uma profissão. O que você será o resto da vida, eis a pergunta. Os que têm sorte fizeram um teste vocacional. Hum... testes vocacionais não são perfeitos. O resultado é difuso, aponta tendências. Na minha época, fiz um. Deu que eu tinha vocação para... tudo. É, tudo. Ler a palma da mão talvez seja mais exato. Um bom quiromante extrai verdades daquelas linhazinhas. Certa vez um estudante se aconselhou comigo por e-mail sobre que universidade cursar. Era de família pobre e falei para escolher algo seguro. Advocacia, medicina. Fez o teste e deu jornalismo na cabeça. Ainda insisti: os colegas jornalistas sabem que a profissão é dificil e não deixa ninguém rico. Ele insistiu em jornalismo. No meio do curso, descobriu seu ser mais íntimo: travesti. Travesti não é profissão. Mas daí decorrem várias questões e possibilidades profissionais. Algum psicólogo analisando teste vocacional consideraria essa hipótese? Pois virar travesti foi a melhor mudança que ele poderia ter feito. Virou um sucesso. Sobrevive do Snapchat e tornou-se um dos principais influenciadores do país. Agora fez ponta numa série de TV e juro que não tem dedo meu nessa história. Quer fazer stand-up comedy. E terá sucesso, eu sei. Repito: algum teste...???? Você visualiza uma psicóloga dizendo num teste vocacional:

– Bota peito, querida. Vai ser.

A garotada do Enem está saindo da adolescência. Há quem tenha sorte e saiba o que pretende fazer o resto da vida. Alguns, por uma vocação que explodiu muito cedo. Eu, por exemplo. Aos 11 anos avisei meus pais que seria escritor. Como a família não tinha nem sequer o hábito de ler (só eu), foi uma surpresa. Medo de que eu passasse fome. Papai me botou num curso de datilografia, aprendi a usar aquelas máquinas enormes, antigas. Observou:

– Se não der certo como escritor, pelo menos pode trabalhar num escritório.

Essa ferramenta ajuda-me até hoje. Sou rapidíssimo para escrever capítulos de novelas. Mesmo assim, como escritor não era exatamente uma profissão, tentei faculdade de história, cursei três anos na Universidade de São Paulo, prestei novo vestibular e concluí jornalismo na mesma USP. Se hesitei, foi porque viver de escrever não é algo linear. Tipo terminar uma faculdade e começar como trainee. Sempre soube o que desejava ser. É uma dádiva. Boa parte dos jovens se enquadra em dois tipos: os que escolhem a profissão desejada pelos pais e os rebeldes, frontalmente contra qualquer desejo ou sugestão dos mais velhos. O médico é filho de médico e surge uma dinastia. Roqueiro também pode ser filho de médico. Boa parte escolhe as profissões “certinhas”, de emprego certo, garantido. Um grande número deseja empregos públicos, estáveis. Mas isso criará seres humanos felizes? Pessoas têm um potencial, uma vocação. A família tenta induzir o jovem a escolher algo para “se dar bem”. Mas há um outro conceito de “se dar bem”. É tornar-se um ser humano pleno e realizado.

Estudei num colégio que fez nome na época. O antigo Colégio de Aplicação da USP, fechado pelo governo militar. Reabriu depois. Era experimental e proporcionava a todos nós experiências variadas e extracurriculares. Do Colégio de Aplicação saíram pessoas que se tornaram importantes em vários campos. Há a proposta de modificar o currículo e exigir que escolhas sejam feitas mais cedo. Como aos 15 anos alguém pode escolher uma área? Pior: não haverá opção. A maior parte estudará onde conseguir. Se houver vaga em um colégio mais voltado para humanas, é para lá que vai, mesmo que seja um gênio em física. No passado, havia clássico e científico. Mas em todas as escolas.

A decisão vocacional, muito difícil mesmo após o Enem, com um conhecimento tênue das carreiras, nem existirá mais. De certa forma, o Estado decidirá pelos cidadãos. Será muito dinheiro perdido. Engenheiros sem contato com a filosofia, já adultos, podem se apaixonar por ela e jogar anos de estudo fora para recomeçar. Da mesma maneira, filósofos que não se encontrarem na vida acadêmica vão recomeçar em arquitetura, por exemplo. Tempo, dinheiro e capital humano gastos à toa. Será mais caro. Se alguém sentir o impulso da vocação mais tarde, que se vire se não tiver as ferramentas apropriadas. A reforma educacional reduz opções. E reduz a vida. Vocação, para quê?



(texto publicado na revista Época nº 961 - 14 de novembro de 2016)

domingo, 25 de dezembro de 2016

Amor e sabor - Walcyr Carrasco



O convidado conhecia a alta culinária de Madri e Paris. Mesmo assim, repetiu três vezes minha canjica com amendoim

Comfort food. Não gosto muito de títulos em inglês. Mas, como os americanos gostam de dar rótulos para tudo, vai lá. A melhor tradução para comfort food seria “comidinha da mamãe” ou algo assim. Em um mundo onde o sal do Himalaia virou moda e às vezes a gente mastiga algo inexplicável num restaurante, surgiu um espaço, há anos, para a comida que aquece o coração. A culinária que remete à infância, às emoções caseiras. Faz tempo, eu estava lendo um livro de culinária de uma crítica americana (sim, todo guloso não só come, como também lê receitas! Pior: dizem que ler receita engorda. Mas isso é outra história). De A a Z, a cada letra, ela fazia uma pequena crônica e dava a receita do prato relacionado com aquela memória. A tantas, descrevia como era bom levar sanduíche de ovo frito para a escola quando criança. Levava no bolso de trás e no recreio comia o sanduíche amassadinho. Também sou fã de sanduíche de ovo frito. Igualmente, levava para a escola quando criança.

Lembro do caderno de receita que minha mãe mantinha. Esse caderno sumiu depois de seu falecimento. Que pena. Mas comprei um bom substituto: o livro Dona Benta. Somente um livro como Dona Benta tem aquelas receitas antigas, misturadas, de estrogonofe a manjar. Há alguns anos, o presidente de um grande banco vinha jantar em casa pela primeira vez. É um homem que frequenta presidentes, ministros, vai para Nova York como eu vou para a esquina. Deu aquele desespero. O que servir? Então pensei na história de vida dele. Na ascensão profissional árdua, vindo do interior de São Paulo. Não tive dúvidas. Fiz um prato tradicional, camarão na moranga. E, de sobremesa, manjar branco com vinho tinto. Uma receita da minha avó e de minha mãe. Em vez de usar ameixas na calda, vinho tinto com canela. Quando viu o manjar, os olhos dele arregalaram.

– Eu só comi esse manjar quando era criança.

– Sirva-se – disse eu vitorioso.

Foi um pedaço. Depois dois. Quando chegou ao quarto, propus:

– Você não quer levar para casa?

– Oh, não, não. Bem...

Chamei minha funcionária.

– Traz um Tupperware!

Pronto. Lá se foi o manjar, embalado nessas vasilhinhas práticas. O jantar, que deveria ser algo formal, terminou nessa confraternização caseira e deliciosa. Gostou? Leva para casa!

A culinária afetiva simplesmente emociona. A loucura por regimes e por manter um corpinho definido desvincula as pessoas dessa culinária em que amor se mescla com sabor. Tenho vários amigos que só comem frango, querem ter barriguinha de tanque. Eu seria muito infeliz se vivesse à base de frango! Mas também me sentiria solitário. O feijão da mamãe faz falta para todos nós, em algum momento da vida. Ou a sopa quando se fica gripado.

De alguns anos para cá, pessoas criativas perceberam esse nicho de mercado. Surgiram as cadeias que vendem bolos comuns, tipo os da vovó, a preços acessíveis. Há quem faça pudins. A venda de brigadeiros explodiu. Existe doce que mais remeta à infância que brigadeiro? Como boa parte das mães hoje em dia trabalha fora, elas encontraram, nos doces de seu passado, algo para oferecer aos filhos. Mais tarde eles se lembrarão do “ bolo da mamãe”. Embora tenha sido comprado. O que vale é a intenção.

A comida afetiva é sempre uma certeza de sucesso ao receber alguém. Há algum tempo fiz um jantar para um diretor de cinema espanhol. Outra vez, o terror. O que servir? Tomei a decisão:

– Canjica com amendoim.

Acharam doidice. Uma coisa tão simples? Para alguém que conhece a alta culinária de Madri e Paris?

Botei na mesa. Quando experimentou a primeira colherada, os olhos da mesa se cravaram nele. Fez uma expressão de surpresa. A mistura de sabores da canjica com amendoim lhe pareceu absolutamente exótica. Foram três pratos. E não mandou ver o quarto porque ficou constrangido, achou que podia parecer guloso. Eu só expliquei.

– Quis fazer um prato que comia quando criança.

Muitas vezes, com tantas falsas sofisticações, botamos num pedestal qualquer picareta estrangeiro (existem bons chefs vindos do exterior vivendo aqui. Só critico a tendência a endeusar qualquer um que tenha sobrenome estrangeiro). Ou um modismo culinário. Mas não respeitamos aquilo que está em nossa memória. A comida de nossas mães e avós. Já estou decidido. A próxima pessoa importante que for jantar em casa receberá um prato de arroz com dois ovos fritos. Gema molinha. É capaz de o convidado chorar de emoção. Quem não gosta de ovo frito?



(texto publicado na revista Época edição nº 960 - 7 de novembro de 2016)

domingo, 18 de dezembro de 2016

Má vontade com a saúde? - Walcyr Carrasco


Se há eficiência no Imposto de Renda e no passaporte, como explicar a morosidade das consultas no SUS?

Faz pouco, tive de renovar meu passaporte. Fiquei encantado com a eficiência da Polícia Federal. Agendei minha ida pela internet, ao aeroporto de Viracopos. Fui atendido por moças simpáticas, 15 minutos antes do horário previsto. O prazo de entrega era de sete dias. No dia marcado, rapidamente recebi meu novo passaporte. Alguém pode imaginar que tudo caminhou tão bem porque sou um escritor conhecido. Coisa nenhuma. Todas as pessoas foram atendidas de forma igual. Lembrei com um arrepio na espinha quando tirei meu primeiro passaporte. Eu tinha 20 anos (faz tempo!). Tive de recorrer a um despachante, fiquei horas de pé numa fila. Atualmente, a eficiência da Polícia Federal eliminou até o despachante, um intermediário suspeito, para agilizar. Quando tirei nova carteira de identidade, o Poupatempo facilitou tudo. Sem filas imensas, fui atendido rapidamente, e o documento saiu no prazo. Ah, nem preciso comentar a eficiência do Imposto de Renda. Se meu dentista tentar ocultar o que lhe paguei, um sistema de cruzamentos eletrônicos descobrirá. Hoje há até nota fiscal eletrônica, que facilita tudo!

Se em tantos sistemas existe eficiência, por que não acontece o mesmo com a saúde? Suponha o caso de uma mulher, na periferia, que descobre um nódulo no peito. Em São Paulo, ela tem de ir até a AMA, espécie de posto de saúde, mais próxima. Marca consulta com um clínico geral, pessoalmente ou, com sorte, por telefone. Demora 20 dias, um mês. Mostra o nódulo e é encaminhada a um ginecologista. Mais um mês, por aí. O ginecologista pede exames, que demoram mais dois, três meses. Então ela marca nova consulta, com novo prazo. Se o ginecologista perceber uma alteração, a encaminhará a um oncologista, num hospital. Certas especialidades demoram mais, uns dois meses. O novo médico pede novos exames. Costumam ser realizados com maior rapidez, uns 15 dias. A paciente marca nova consulta. Ai, meu Deus, mais um mês... Só então ela descobre: é câncer.

Uma lei recente determina que, nesses casos, a operação não demore mais de 60 dias. Mas some todos os prazos. Dá cerca de um ano. Se for um câncer, não terá se espalhado pelo corpo? O câncer é uma doença que, em algumas pessoas, se desenvolve rapidamente, em outras não. Existem, não nego, oásis dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Os portadores de HIV são atendidos por uma rede paralela, recebem remédios. Iniciativa do ex-ministro da Saúde José Serra, no governo de Fernando Henrique Cardoso, que transformou o país em parâmetro mundial no tratamento da aids. Mas não é a regra.

Conheci uma jovem que sentiu dores na perna. Foi de médico em médico, até constatar um câncer. Mesmo sendo atendida num excelente hospital público, em São Paulo, ia com o marido, um sushiman de vida modesta, às 4 da manhã para a fila. Já havia uma multidão. Aí, recebiam uma pré-senha. Sim, uma senha para entrar na recepção do hospital, quando houvesse lugar! Lá, recebiam outra senha, de atendimento. Quando conseguiu o tratamento, teve de amputar a perna. Mas ela voltou a sentir dores. Teve de reviver tudo: marcar consultas, exames etc. Novamente, tarde demais. Morreu aos 28 anos, deixou filho e marido.

Muitas vezes, quando entro no Facebook, vejo a foto de uma linda moça, postada pelo viúvo em noites de saudade. Sempre diz que “há mais uma estrela no céu”. Ele cria, sozinho, o menino de 7 anos, com muito amor. Mas a mãe faz falta, como não faria?

Jamais saberemos, mas é justo suspeitar que o tempo que ela perdeu entre cada consulta, cada exame, pode ter sido um fator decisivo para disseminar o câncer, causar a metástase. Como ela, há inúmeros casos, em várias enfermidades. Reconheço que os grandes hospitais oferecem bons tratamentos. Mas, para chegar lá, é preciso atravessar uma estrutura cruel, chamada SUS. Suponho que, se alguém tiver doença grave, o mais fácil é se atirar em frente a um carro nas proximidades do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Irá para o pronto-socorro e, já internado, conseguirá o tratamento muito mais rapidamente que por meio do sistema demorado do SUS.

Humor negro? Pode ser. Fica a pergunta: se criaram uma estrutura de funcionamento tão hábil para o Imposto de Renda, entre outras atividades, o que impede de fazer o mesmo com a saúde? É só grana ou questão de vontade?



(texto publicado na revista Época nº 849 - 8 de setembro de 2014)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eu conduzi a tocha - Walcyr Carrasco



Pensei em bater com a tocha no presidente do Bradesco. Ele ficaria com o trecho plano. Eu, com a subida

Quando recebi o convite para conduzir a tocha olímpica, há meses, levei um susto. Eu, exemplo de atleta? A esteira, que comprei num momento de atitude saudável, serve de cabide. Mas fui convidado para conduzir a tocha em Marília, interior de São Paulo, cidade para onde me mudei aos 3 anos, com minha família. Saí aos 15. Ainda tenho amigos, dos tempos de criança e adolescência. A minha professora de ciências, dona Thelma, tão querida, que me ensinou a pensar, ainda está lá, velhinha. Aceitei, meio sem pensar.

Depois, fiquei apavorado. Em meio à novela Eta mundo bom!, como arrumar tempo para a viagem? Havia uma facilidade. Os filhos de Marília, convidados pelo Bradesco (que também começou na cidade), iriam de jatinho. Bem cedo. Às 7 da manhã, exatamente. Para quem vai dormir às 5, um belíssimo horário, não? Céus. Estaria exausto! Medo. E se derrubasse a tocha? Vergonha mundial!

Na noite anterior, tomei remédio para dormir e mudar meu ciclo de sono. Deitei às 10. Às 4h30 pulei da cama, lépido. Botei meus tênis de corrida (que também comprei em um momento de esperança de ter vida mais saudável). Fui para o aeroporto. Voamos de São Paulo para Marília. Fomos levados ao Instituto de Educação Monsenhor Bicudo, para receber os uniformes e as tochas. Foi lá que estudei. Nessa escola, ganhei meu primeiro prêmio, de redação. Também escrevi meus primeiros contos, incentivado pela professora de português, dona Nilce. E, justamente no local onde recebi o uniforme, fiz minha primeira peça, aos 12 anos. O rapto das cebolinhas, de Maria Clara Machado (eu era o vilão Camaleão Alface). A emoção cresceu.

Botei o uniforme, fizemos fotos. A coordenadora explicou como seria. Tudo incrivelmente organizado. Aprendi a “abrir” a tocha, para liberar o gás. A dar o “beijo da tocha”, quando uma pessoa passa o fogo para outra. Um ônibus me levaria ao ponto em que deveria esperar. Descobri que as tochas mudam a cada condutor. Mas o fogo tem a mesma chama que veio da Grécia, com as bênçãos de Apolo. Gosto muito de Apolo, deus que conduz o sol, na mitologia grega. Pedi uma forcinha.

– Todos vocês, sorriam. Aproveitem! É um momento especial! – avisou a coordenadora.

Em uma ocasião rara, o uniforme não estava deslizando na minha barriga. Salve! Se fico mais barrigudo, shorts deslizam. Se não seguro, fico de cuecas. Segurar como, com a tocha na mão? E aí ela explicou o trecho de cada um.

Horrorizado, descobri que ganhara 200 metros de subida íngreme! Perguntei ao Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, por que justamente aquele trecho era o meu! Somos amigos desde meninos. Ele explicou que era para eu entregar a tocha para ele, em nome da amizade. Ele correria no plano, encerrando o grupo. Depois, seriam os convidados da Coca-Cola. Ameacei quebrar a tocha na cabeça dele. Inútil. O percurso já estava decidido.

De tocha na mão, entramos no ônibus. As ruas estavam cheias, com gente dos dois lados. Fui deixado no meu lugar. Uma jovem, guardiã da chama olímpica, já estava a postos, para me dar apoio. Policiais também. Olhei a subida. Imensa. De repente, a guardiã avisou.

– Vamos atravessar a rua.

José Vicente, da Universidade Zumbi dos Palmares, corria na minha direção. Também é de Marília, começou como engraxate. E criou esse projeto incrível de educação para negros. Estendeu a tocha. Abri a minha. A chama se ergueu! De tocha na mão, escoltado, comecei a me mover. À frente, um carro com música. De súbito, baixou um sentimento inesperado. Corri na subida! Mais ainda, dancei. Não sei o que houve, nunca danço! Só pode ser a chama de Apolo. Quando percebi, já estava diante de Trabuco. Estendi a tocha e passei a chama adiante. E descobri que estava cansado. Mais tarde, ele também confessou:

– Na hora eu não sei o que houve, mas corri e me entreguei. Levei a tocha!

Depois, foi me trocar e voltar. Recebi mensagens mal-humoradas e agressivas pelas redes sociais. Diziam que eu devia ter vergonha de conduzir a tocha, que a Olimpíada nada acrescenta ao país. Penso que a vida deve ser encarada com bom humor. Politizar tudo é perder a paixão. Pouco mais de 1.800 pessoas conduzirão a tocha no país. Fui uma delas. Gostei. Subi 200 metros voando. E descobri o que é o tal espírito olímpico. A gente dá tudo de si, simplesmente.

Ganhei minha tocha. Será um troféu. Já posso me exibir. De barriga ou não, sinto-me na categoria de atleta olímpico.



(texto publicado na revista Época de 11 de julho de 2016)

Resiliência, a palavra da moda - Walcyr Carrasco


Se ela ainda não entrou em sua vida, vai entrar. Tem a ver com superação – outra palavra na moda

De tempos em tempos uma palavra ou expressão entra em moda. Todo mundo fala sem saber exatamente o que é. Quando eu tinha meus 20 anos e estudava História na Universidade de São Paulo, a expressão de ordem era “má consciência”. Significava genericamente a consciência pesada do burguês diante de seus lucros, por explorar o proletariado. Estendia-se a todos que, de alguma maneira, não se alinhassem com a crítica esquerdista a qualquer coisa neste mundo. Demorei um pouco para perceber que os ricos não tinham má consciência, a não ser alguns herdeiros desajustados. A maior parte prefere desfrutar os lucros em iates, casas de praia luxuosas, restaurantes, roupas, carros a refletir sobre a exploração do proletariado. A expressão deixou de ser usada. Nas últimas décadas, termos psicológicos entraram para o cotidiano. As pessoas usam a psicologia sem a menor noção do que estão falando. Você certamente já ouviu alguém dizer:

– Ele fez isso por ser traumatizado com o pai.

Pobre Freud, deve se retorcer na cova! Peça para explicar o que é traumatizado. Gagueira total. Mas a palavra trauma entrou para o vocabulário como quem fala de alface, abóbora, cenoura. Há menos tempo, a palavra foi psicótico. Leigos não sabem bem o que é psicopatia. Mas ouviram falar que, em cada dez, um ser humano é psicopata. Seu vizinho, talvez. Mais: ouviram também que nem todos os psicopatas são assassinos, mas têm uma lacuna na emoção. São capazes de usar sua generosidade para se aproveitar de você. Tornou-se comum dizer:

– Acho que ele é meio psicopata.

Meio?

A palavra da moda é resiliência. Primeiro pensei que era xingamento. Depois, que talvez fosse algo bom. Enfim, fui ao Google. Na Wikipédia, resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, sem entrar em surtos psicológicos (no sentido primário, é a capacidade de um material se deformar sob pressão e depois voltar à forma original, em vez de ficar deformado, quebrar-se ou romper-se). Ou seja, é algo bom. Descobri que sou o próprio exemplo da resiliência. Em situações de estresse, desligo a reação emocional. Fico calmo, calmíssimo. Certa vez, um amigo desmaiou no corredor de um hotel na Turquia, tarde da noite. Tranquilo, fui pegar a chave do meu quarto, aberto, para poder voltar. Depois achei a chave dele em seu bolso. Abri a porta de seu quarto. Consegui, não sei ainda como (resiliência muscular?), levá-lo até a cama. Havia se cortado no supercílio. Lavei seu rosto. Ao acordá-lo, conversei. Faltava um dia para voltar. Seria melhor um hospital turco ou esperar a volta ao Brasil? Ele explicou: era uma doença não diagnosticada. Ele desmaia, de repente. Esperamos a volta. A doença não foi diagnosticada até hoje, mas ele está bem. Em nenhum momento senti a menor tensão. Isso é resiliência! Ainda bem, porque antes me achava psicopata. Uma palavra pode aliviar a vida de alguém!

A origem da palavra é latina. Vem do verbo resilire, que significa ricochetear, pular de volta. Em inglês, acrescenta-se o significado de “capacidade de recuperação após um golpe”. Tornou-se o diamante das novas técnicas motivacionais e psicológicas (o diamante é duro, e não resiliente, porque não se deforma, ou seja, não “aprende” com o golpe). Tornar alguém mais resiliente é fazê-lo mais apto às dificuldades da vida. Os conceitos já faziam parte do cotidiano da terapia. A palavra resiliência foi traduzida apressadamente. Antes bombou nos países de língua inglesa. Lá, era um termo comum. Aqui, tornou-se novidade.

E a última é agregar algo. Um amigo psicólogo disse:

– Não quero trabalhar só a resiliência. Ao superar a situação, a pessoa avança. Aquilo que poderia ser uma experiência desagradável torna-se um fator positivo de crescimento.

Seria uma espécie de resiliência plus?

Escrevi este texto porque queria saber o que é resiliência. Descobri que é uma espécie de guarda-chuva para vários conceitos. Resiliência pessoal, empresarial... tornou-se uma panaceia no campo da superação (outra palavra na moda).

Talvez a palavra “resiliência” ainda não tenha chegado ao seu cotidiano. Chegará. Moda é moda. Mas não faça questão de tornar-se um expert. As pessoas gostam de usar palavras inteligentes, mesmo sem saber bem o que é. Tranquilo. Palavras e expressões supostamente sábias são como cor de esmalte. Saem de moda. Depois vem outra.



(texto publicado na revista Época de 21 de novembro de 2016)

Ganhei o Emmy! - Walcyr Carrasco



Lembrei da primeira máquina de escrever que meus pais me deram, quando eu tinha 13 anos

Quando minha novela Verdades secretas se tornou uma das finalistas do Emmy, maior prêmio da televisão no mundo, já comemorei. Ser finalista já é muito. Tenho expectativas sobre meu trabalho, mas sou muito ligado às minhas origens de garoto de classe média baixa de São Paulo. Acho importante homenagear as próprias raízes. Não venho de uma família letrada, mas meus pais acreditaram em meu desejo de ser escritor. Para o garoto do interior de São Paulo, apenas ser indicado para o Emmy já estava mais que bom!

Parti, com um grupo da Rede Globo, para Nova York. A decisão do Emmy passa por etapas. Tanto no Oscar como no Emmy, seu equivalente na TV, a decisão é revelada na hora. Os candidatos roem até as cutículas.

No primeiro dia tivemos a cerimônia de entrega de medalhas aos finalistas. Recebi a minha, já orgulhoso. Nos dois seguintes, painéis.

Painéis? Cada uma das categorias participa de um debate, com um mediador, em que fala de seu processo de criação e produção. Assim, de repente vi-me sentado do lado de uma produtora filipina. Passaram o trailer da novela filipina e era ótima! Em dois segundos dava o panorama da história inteira! O canadense nem se fala: um menino de classe média encontra o avô, que se tornou sem-teto. Demais. Botei minha emoção para fora.

– Escrevi Verdades secretas com meu coração. Foi uma entrega total não só minha, mas também do diretor Mauro Mendonça Filho e sua equipe, de todo elenco. Eu sentia que era importante contar essa história.

Isso foi no domingo. A festa, só na segunda-feira. Tentei levantar informações de bastidores. Não consegui. Ninguém tem acesso ao nome dos vencedores. Honestidade absoluta.

Depois desse processo de acúmulo de tensão, chegou a hora da festa. Black tie. Minha camisa não fechava. A empresária Marcia Marbá, que acompanhava a atriz Grazi Massafera, estava no apartamento ao lado. No instante de sair, corri para pedir socorro. Como salvar meu colarinho? Ela prendeu com linha no lugar do botão e pronto! Depois, botou a borboleta. Perfeito. Meu problema era como sair da camisa depois. Melhor pensar após a premiação. Na festa, entramos numa fila. Os nomes eram chamados um a um e percorríamos o tapete vermelho. Fiz algumas fotos. Francamente, a maior parte dos repórteres internacionais não se interessou por minha pessoa. Entramos, houve um longo coquetel. Depois, o jantar, que eu achei mais demorado ainda. Já estava certo de ter perdido. Melhor acabar logo com tudo.

Os prêmios foram sendo anunciados sucessivamente. A certeza de que eu não ganharia cresceu. Sinceramente, não acertava um! Telenovela foi um dos últimos. Passaram os trailers mais uma vez, e novamente achei todas ótimas. Aí, falaram:

– Hidden truths.

Que é o nome de Verdades secretas em inglês. Levantei pasmado, com um misto de sensações. “Eu ganhei? Eu ganhei?”, pensava, sem acreditar. É estranho. Até então eu estava controlado, até blasé. De repente, havia ganhado o maior prêmio de TV do mundo. O EMMY! Fui para o palco. Minha sorte foi que os diretores Felipe Binder, Alan Fiterman e Natália Grimber me acompanharam. E as atrizes Grazi Massafera, Camila Queiroz, Agatha Moreira e Guilhermina Guinle. Todas lindas. O teatro só aplaudia. É uma sensação incrível receber um troféu desses nas mãos! Pedi ao Lipe para agradecer em meu nome. E, depois, só consegui dizer:

– I am very happy. Thank you! Thank you.

Saímos pela parte de trás do palco. Descemos uma escadinha e estávamos... numa enorme cozinha industrial. Fizemos fotos, pulamos. Atravessei a cozinha e havia um pequeno teatro, onde fui anunciado. Nunca vi tanto fotógrafo na minha vida, tantas televisões do mundo inteiro. Era uma loucura! Essa parte durou muito tempo. Depois, ainda teve uma festa do Emmy. Só quando cheguei a meu apartamento no hotel pude parar. E caiu a ficha. Eu havia, sim, ganhado o Emmy! Olhava para o troféu sem parar.

Sempre tive muitos sonhos na vida, mas não tão grandes. Sabem, sinceramente, no que pensei? Ah, a memória! Na primeira máquina de escrever que meus pais me deram, quando eu tinha 13 anos. E no desejo que ainda estivessem neste planeta para compartilhar o prêmio. Desde os 13 anos nunca mais parei de escrever. É o que amo fazer na vida. Eu queria poder falar:

– É graças a vocês!

Mas, de algum forma que nenhum de nós consegue entender exatamente, talvez eles saibam disso, onde estiverem. Pai, mãe. Gratidão! A vocês, eu devo este Emmy.



(texto publicado na revista Época - 7 de novembro de 2016)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Festa fetiche - Walcyr Carrasco


Sim, elas existem. Acontecem em mansões, e os endereços e horários são mantidos em segredo. Convite depende de conhecer alguém. Não falo de baladas abertas ou de bares onde há uma proposta mais ousada. Mas de festas onde tudo - ou nada - pode acontecer. Um amigo recentemente foi a uma. Íntima. Foi avisado de que só poderia assistir. Dois casais mascarados o receberam. Ele vestiu uma máscara também. O objetivo da máscara não ficou muito claro, já que todos se encontravam até no supermercado. Mas fazia parte do clima, portanto ele se despiu e se sentou enquanto as duplas acendiam a chama olímpica. Às vezes alguém ia até ele, fazia carinhos. O sangue ferveu, mas ele permaneceu sentado educadamente, já que mesmo no sexo há regras de cortesia. Adorou. Eu, que tenho pressão alta, não resistiria. Teria saído de lá para uma UTI. Pelado e mascarado na UTI? Ia pegar mal. Mas quem trabalha em hospital é obrigado a conviver com realidades inimagináveis para simples mortais.

Ingressos para as tais festas chegam a custar R$ 500. Rolam bebida e salgadinhos. É um programa basicamente heterossexual. Casais bem casados comparecem. Alguns espertinhos levam uma profissional e dizem que é a namorada. Há quem vá sozinho, só para olhar. Existe até quem acredite que pode encontrar o grande amor de sua vida. Já que nem toda Cinderela quer exatamente um Príncipe Encantado, mas um sapo mais selvagem. A ideia não é nova. O filme De olhos bem fechados (Eyes wide shut), com Tom Cruise, de 1999, mostra uma festa do tipo. Com máscaras e tudo mais. Por sua vez, essa última obra de Stanley Kubrick é inspirada em um conto de Arthur Schnitzler, contemporâneo de Freud. Ou seja, festas fetiches não são novidade. Novo é elas estarem na moda, secretamente, entre várias classes sociais. Numa delas há todo tipo de gente. Pode-se conhecer uma milionária, um executivo, uma doméstica ou um encanador. Depende da lista de convidados. Detalhe: não é a estética que predomina nas listas. Mas gente com interesse em desfrutar o lance. Surpresa! Um amigo pianista queria organizar uma festa fetiche em minha casa.

- Entre todas as loucuras que eu tenho, dessa estou livre - expliquei. - Não sou voyeur, para só olhar. Pelo contrário, prefiro encontros românticos, a dois.

- Mas eu sou um excelente concertista - ele explicou. - E sei que você tem um piano de cauda.

- Ah sim, desculpe. Não tinha entendido. Você quer dar um concerto para meus convidados?

- Claro.

- Que bom! - respirei aliviado, já pensando em uma noite agradável ao som de Brahms.

- Só que eu toco pelado.

Fiquei sem fala. Ele explicou. Começaria tocando vestido e tiraria peça por peça ao longo da música. Achei que não combinava bem com música clássica.

- Assim o pessoal vai esquentando - ele explicou.

Imaginei um casal em cima do meu piano, de pernas para o ar. Só com as máscaras e mais nada.

- Tenho de preservar meu piano - respondi.

- Não tem curiosidade?

- Entre salvar meu piano e a curiosidade, fico com o piano.

Conheço outras pessoas que vão a festas fetiches. Casais bem casados, como já disse, com gordurinhas extras. Às vezes, é melhor ver certas pessoas vestidas.

Continuei:

- Só me responda uma coisa. Você quer que as pessoas ouçam a música ou rolem no chão?

- Os dois.

Céus! E meus tapetes? Qual será o estado deles depois de uma festa dessas?

- Não tem problema - respondeu uma amiga que já foi. - Há festas em mansões elegantes e todo mundo sabe se comportar. Você devia ir.

Em seguida descreveu. Mulheres de lingerie andando pela sala. Homens de sunga ou sem camisa. Casais vestidos. Máscaras ou não.

- Também há as baladas - ela explicou. - Eu e meu marido vamos sempre. Renovou nosso casamento.

Bem... é um jeito e tanto de renovar o casamento! Se têm vocação para voyeurs, quem sou eu para criticar? Mas minhas cabeça anda a mil. As pessoas com quem conversei fazem parte de nosso cotidiano. Pianista, secretária... A cada lugar que eu vou, a imaginação dispara. Vejo a recepcionista do dentista e a imagino de máscara e botinhas. Encontro um casal de amigos e penso se ele eleva umas chicotadas, já que sadomasoquismo é um ingrediente de festas fetiches. Descobri que não tenho a menor ideia da intimidade de cada um. De perto, ninguém é normal.



(texto publicado na revista Época nº 948 - 15 de agosto de 2016)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Quem vai dizer o que é normal na velhice? - Walcyr Carrasco


As filhas, evangélicas, não suportam a ideia de a mãe se apaixonar após os 70 anos. E por um viciado

Não há fragilidade maior que a velhice. O idoso torna-se uma vítima em potencial até de quem tem boas intenções. Filhos e parentes mais próximos, no caso. Quando há uma questão médica evidente, como demência ou Alzheimer, é necessário que alguém se torne responsável pela pessoa. O que inclui cuidar do dinheiro, encontrar enfermeiros, contratar uma clínica. Enfim... cuidar. Mas há muitos casos, até frequentes, em que a análise da interdição passa por códigos morais. E os filhos, unidos, podem interditar um pai ou uma mãe que simplesmente resolveu aproveitar a vida. Vou contar uma história.

Ela foi a vida toda enfermeira numa cidade do interior de São Paulo. Bonita, alegre, casou-se. Mas tinha o diabo no corpo. Era, como diziam na época, falada. Saía com outros, sem muito critério de escolha. O marido descobria e a devolvia para a casa da mãe. Mas tinham quatro filhas (duas de filiação suspeita). As meninas clamavam:

– Cadê a mãe?

– Eu quero minha mãe.

O pai, de coração mole, voltava a buscar a mulher. Dali a pouco, outro escândalo. Chegou a encontrá-la nua e bêbada num canavial. Levou-a para casa, deu um banho quente. Sempre digo, quem perdoa uma vez, perdoa sempre. O problema é só a primeira. A vida conjugal continuou entre traições, brigas e perdões. Então, na meia-idade, aconteceu o inesperado: ela se separou dele.

Tornou-se evangélica.

Esse tipo de comportamento é comum entre mulheres belas e desejáveis. Inclusive atrizes ou modelos famosas. Caem os peitos e sobe o espírito. Ao sentirem que a beleza está passando, dedicam-se aos afazeres da alma, renegam o passado. Convertem-se, arrependidas. Tornam-se as mais ferozes na defesa de regras de moral. Aconteceu com ela. Com as filhas já crescidas e netinhos, tornou-se uma avó comportada, fiel esposa do segundo marido. Envelheceu. Enviuvou. Aposentou-se. Com a pensão do marido, mais a renda própria, vivia confortavelmente, dentro de seus padrões. Mas aí...

Começou a pedir dinheiro emprestado. Às filhas. Aos genros. Aos netos! Vez ou outra, até sumia com um objeto da casa de um parente. As filhas, bem casadas, donas de casa evangélicas, foram investigar. A mãe, aos 70 anos, tinha se apaixonado novamente. Por um homem de 40. Viciado em crack.

Escândalo. A mãe, feliz, apaixonada. As filhas, apavoradas. Inclusive porque nenhuma mulher jovem acredita que um homem tão mais novo se apaixone por uma velha. Acontece sim. Era amor real. Mas tinha o crack na história.

– A mãe está doida! – gritou uma das filhas.

Cortaram empréstimos, vigiaram as visitas maternas. O namorado foi preso, nunca se soube exatamente por quê. Agora, aos 74 anos, ela o visita regularmente na cadeia. Leva comida, cuida. Ama. As filhas se reuniram.

– Mamãe realmente enlouqueceu.

– O jeito é interditar.

Analisando a biografia da mãe, não há nada contraditório. Foi assim, anticonvencional, a vida toda. Só teve uma fase mais comportada no segundo casamento. Mas as filhas resolveram interditá-la afirmando que estava sem noção de seus atos. Uma interdição significaria que o recebimento de suas pensões fosse feito por uma das filhas. Ela perderia seu cantinho, sua liberdade, e talvez acabasse internada. As filhas, evangélicas, não podiam suportar a ideia da mãe se apaixonar depois dos 70. O namorado era um traste? Era. Mas, para quem ficava nua no canavial, até que combina.

Contrataram advogado, médico. Todos, dentro da moral convencional, concordaram:
– Ela está fora de si.

Fizeram o documento. Mas, de acordo com o despacho do juiz, todas as filhas tinham de assinar. A quarta teve um momento de lucidez.

– Desde jovem, a mãe é assim. Só voltou a ser como sempre foi. Não vou assinar.

Briga horrível em família. Três irmãs não falam mais com a quarta. Ou melhor, só voltarão a falar se vier a assinatura. Ela se recusa, há dois anos. Rompimento absoluto. Enquanto isso, a mãe continua indo regularmente à cadeia visitar o amado. É loucura? Como, se a faz feliz?

Seu destino está nas mãos dessa única filha, que compreende seu lado mais íntimo.

– A mãe é assim – teima.

Muitos idosos são interditados. Perdem suas casas. São internados. Boa parte simplesmente porque não tem uma filha igual. Família, médicos, advogados analisam o comportamento sob um código moral. Mas e se na velhice alguém quiser ser apenas diferente?



(texto publicado na revista Época nº 953 - 19 de setembro de 2016)

Comida tranqueira: descubra a sua - Walcyr Carrasco



O restaurante francês serve dois fiapos de peixe. Ganha atenções, é elogiado. Mas deixa a gente com fome

Adoro sanduíche de mortadela. Desde criança. Aliás, nem entendo por que a mortadela não merece um lugar especial junto aos grandes tops da culinária. Nunca vi alguém servir carpaccio de mortadela, por exemplo. Mas já me entucharam carpaccio de berinjela por preço de caviar. Tem graça berinjela crua? Em São Paulo, no Mercadão, há um sanduíche de mortadela que até o chef e crítico de culinária americano Anthony Bourdain, em passagem pelo Brasil, elogiou. O segredo: pão francês com muuuuuita mortadela. A rede de padarias Dona Deôla incorporou: faz o sanduíche igual. Outro dia conversava com um recém-conhecido com quem pretendo fazer um trabalho. No momento em que ele confessou que havia almoçado um sanduíche de mortadela de pé, tornamo-nos íntimos. Já fui à casa do Faustão, que oferece uma pizza aos amigos de quando em quando. Nas entradas, mortadela italiana. Dá vontade de levar para casa!

Há certo preconceito contra a comida tranqueira. Qualquer restaurante francês inaugurado ganha atenções, avaliações, é elogiado. Mesmo que sirva um menu-degustação com dois fiapos de peixe grelhado, depois uma nesga de carne com um pingo de molho. Deixa a gente com fome. Mas come-se com cara de chique. Garanto: feijoada de bar costuma ser ótima. Sim, daquele barzinho da esquina. Na cozinha, há alguém que faz a mesma feijoada todos os sábados há uns 15 anos. Não vai fazer bem? Pastel de feira também. Tem coisa melhor que pastel frito e gorduroso? Justamente em cima desse exemplo estabeleci uma tese: colesterol, gordura trans e carboidratos é que dão sabor! Um grande amigo ama pastel de ovo frito, que só existe no mercadão de Marília, interior de São Paulo. Como fui criado lá e ele nasceu na mesma cidade, até hoje, quando vamos, devoramos essa bomba calórica. É só comer e fugir da balança por uns três dias. Ou meses.

Já publiquei várias fotos no meu Instagram comendo coxinha de beira de estrada. Sou maluco por coxinhas. Também gosto daquelas feitas por donas de casa de bairro, especializadas em festas de criança. Menorzinhas, uma delícia. Assim como empadinhas. Prefiro as de palmito. Podem estar frias e a massa pode se espalhar sobre meu suéter. Só perdem para os sanduíches tradicionais. Calabresa, cheese-salada, bauru, americano. Outro dia, perguntei em um posto no trajeto Rio-São Paulo: qual é o mais vendido?

– Americano – respondeu o chapeiro.

Faz sentido: tem ovo, queijo, presunto. E alface, para aliviar a consciência. Adoro um americano. Mas o de calabresa na chapa é imbatível.

O bom dessas maravilhas é que não é preciso ir a um restaurante caríssimo. Estão aí, em qualquer canto. Há bares e lanchonetes melhores e piores. É só descobrir o seu. Um sanduíche equivale a uma refeição. Ainda mais seguido de uma coxinha bem frita. Digo o mesmo sobre o cachorro-quente de rua. Sim, os simples, com salsicha e mostarda. Já encontrei lugares onde se recheava o cachorro-quente com purê de batata. Ficava difícil de caber na boca. Mas um cachorro-quente na hora da fome é melhor que um prato elegante. Com a vantagem de que posso chupar os dedos para aproveitar os últimos restinhos de mostarda.

Bem... eu sei que vivo reclamando da minha barriga. E que o regime é algo constante na minha vida. Gula e dieta formam minha dualidade, que fazer? Certa vez, um amigo médico me indicou um especialista em regimes. Sentei-me diante do sábio, à espera de um milagre. O médico, seco como um bacalhau, como devem ser os doutores que emagrecem, explicou:

– Não dou importância à comida. Para mim, um peixe no micro-ondas por alguns minutos já está bom.

Fugi horrorizado. Se o homem era capaz de sobreviver com um peixe no micro, jamais me compreenderia! Seu cardápio certamente me levaria a uma profunda depressão. Comi uma feijoada na primeira esquina e ainda mordi os torresmos. Tem coisa melhor que torresmo?

Há em São Paulo uma lanchonete famosa pelo sanduíche de pernil, o Bar Estadão. Fica aberta a noite toda e o pernil é fresquinho. Baratinho. Pelo país afora, há pratos que despertam o mesmo prazer e idêntico peso de consciência. O acarajé fritinho na hora da Bahia. O tacacá em Belém, no Pará, com jambu, tucupi e camarão seco.

Talvez seja essa a maravilhosa culinária brasileira, tão pouco respeitada. Alguns chefs como Alex Atala se interessam por ela. Mas ainda é na rua, baratinha, que se encontra a boa comida tranqueira. Engorda? Depois eu dou um jeito. Pode crer. Comida tranqueira é gourmet.


(texto publicado na revista Época nº 951 - 5 de setembro de 2016)