Mostrando postagens com marcador medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador medicina. Mostrar todas as postagens
domingo, 16 de outubro de 2016
domingo, 21 de agosto de 2016
Medicina expressa - Aretha Yarak
Inaugurada na capital no mês passado, a clínica Dr. Agora oferece consultas a 89 reais sem necessidade de agendamento
Um novo conceito de atendimento médico acaba de ser lançado na capital. Com a primeira unidade inaugurada em maio na Vila Olímpia, a rede Dr. Agora oferece consultas rápidas com clínico-geral, e sem necessidade de agendamento prévio, por um custo fixo de 89 reais. A intenção é atuar em situações de baixo risco como uma alternativa ao pronto-socorro. Só serão recebidas por ali pessoas com mais de 12 anos que apresentem quadros específicos. No caso, sinusite, amigdalite, conjuntivite, gripe, diarreia aguda, resfriado, rinite, otite externa ou infecção urinária. Pacientes em qualquer outra condição, como dor de cabeça, serão encaminhados a um centro de saúde tradicional. "Os problemas listados são simples e identificáveis sem grandes investigações", diz o diretor clínico Eduardo Correa. Todos os casos terão diagnóstico sem a realização de exames, como testes de sangue ou raio X. A proposta é que cada atendimento dure, em média, quinze minutos.
A ideia da rede é inspirada na Minute Clinic, inaugurada em 2000 nos Estados Unidos. Hoje existem por lá mais de 800 estabelecimentos, instalados em farmácias e supermercados. Nessa versão, as consultas podem ser realizadas até por enfermeiros, algo proibido pela legislação do Brasil. Idealizador do projeto no exterior, o americano Rick Krieger é um dos responsáveis por trazer a iniciativa para São Paulo. Ele está ao lado de outros cinco investidores, como o empresário Omilton Visconde, fundador da farmacêutica Segmenta, vendida em 2010 ao grupo Eurofarma. O grupo planeja gastar 7,5 milhões de reais no negócio nos próximos cinco anos. Até o fim de 2015 serão abertas mais cinco unidades na cidade (duas no centro, duas na Zona Leste e uma na Zona Norte). Elas ficarão em espaços com cerca de 30 metros quadrados e terão até dois médicos por turno. Além de fazer os atendimentos a equipe trabalhará com um catálogo de vacinas. Na unidade da Vila Olímpia está disponível desde a última quarta (17) a opção contra a gripe, por 89 reais. Para o segundo semestre, entrarão na lista imunizações contra HPV, meningite, hepatites, sarampo, caxumba, rubéola, catapora, tétano e pneumonia.
Nos primeiros trinta dias de funcionamento, ainda em esquema de soft opening, foram atendidas cerca de cinquenta pessoas com algum tipo de problema leve. Uma delas foi a auxiliar administrativa Rosangela Viotti Sardi, de 39 anos. “Eu estava com infecção urinária, sentindo muita dor, mas não queria ir ao hospital e resolvi experimentar a novidade”, conta. “Fui bem recebida e saí de lá muito melhor”, completa. Como está localizada em um bairro de alta concentração empresarial, a unidade da Vila Olímpia vem fechando parcerias com escritórios da região, como o Fleury e Coimbra Advogados. “É bastante conveniente e prático ter uma clínica tão perto”, comenta o sócio Eduardo Fleury, que comprou crédito para vinte consultas ou vacinações para seus funcionários.
Apesar de inovadora, a iniciativa provoca controvérsias, pelo risco advindo da ausência de exames. “Nenhum diagnóstico clínico tem 100% de precisão”, afirma o presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, Bráulio Luna Filho. “Depender só do médico exige uma equipe muito qualificada para evitar erros”, diz Oswaldo Yoshimi Tanaka, professor de saúde pública da USP.
A empresa argumenta que todos os casos são analisados de acordo com protocolos válidos no país e que pratica um minucioso processo de seleção para a contratação de seus profissionais. “Só vamos chamar quem tiver experiência comprovada em clínica geral”, diz Correa. “Para isso, podemos realizar simulações de atendimento com os candidatos.”
As unidades do Dr. Agora integram uma nova gama de empreendimentos que surge em meio às deficiências dos sistemas de saúde da capital. Criado em 2011 pelo administrador Thomaz Srougi, o grupo Dr. Consulta também tem baixo custo, mas oferece especialistas e exames laboratoriais e de imagem. Lá, uma sessão sai por até 120 reais, e o paciente também passa por cuidados preventivos. Atualmente são oito unidades,a maioria na periferia, e mais de 250 000 pacientes atendidos em quatro anos.
(texto publicado na revista Veja São Paulo de 24 de junho de 2015)
sábado, 7 de novembro de 2015
Receita de carinho - Luciana Alvarez
Os avanços da medicina aumentaram - e muito! - as chances de cura, mas às vezes perde-se o foco nas pessoas. Um atendimento de saúde humanizado enxerga as histórias e sentimentos que estão além da ficha médica
Certo dia, aquela dorzinha que incomodava vez ou outra se transforma. O corpo adoece e você se vê envolvido numa rotina de consultas, exames e intervenções. Nesse caminho entre o momento saudável e o leito de um hospital, muitas vezes parece que o senso de humanidade vai se esvaindo à medida que adentramos na rotina apressada e tensa dos ambientes médicos. No esforço de entender as forças que agem sobre os mecanismos fisiológicos das doenças e deter seu avanço, a medicina moderna foi fechando o foco, aprofundando-se mais e mais no conhecimento especializado. As descobertas das últimas décadas aumentaram as chances de cura e elevaram a expectativa de vida da população, mas também trouxeram uma espécie de vazio para o paciente. Porque, mesmo com novos exames, remédios e tratamentos, a necessidade de proximidade e contato humano permanece.
Ao perceberem o abandono dos pacientes, mesmo daqueles que estão dentro dos hospitais, muitas pessoas sentem que precisam agir e se dedicam não apenas a buscar a cura, mas a levar alegria, oferecer conforto e inspirar confiança. Talvez o exemplo mais conhecido de humanização da saúde no Brasil seja o da organização Doutores da Alegria, cujos palhaços entraram nos hospitais infantis para permitir que as crianças, mesmo enfermas, possam ser crianças. Uma visita de um Doutor da Alegria (um palhaço fantasiado de médico) permite que elas brinquem, deem risadas, divirtam-se e, nem que seja por apenas alguns instantes, se esqueçam da doença e foquem na vida.
Para além das crianças, enfermos de todas as idades - assim como suas famílias - precisam de apoio. Nas próximas páginas, apresentamos seis iniciativas que atuam de maneira bastante distintas, cuidando das pessoas de forma humanizada desde o nascimento até o momento de dizer adeus. Apesar das diferenças, todas têm sempre como grande objetivo fazer o paciente sentir-se melhor e mais pleno. São ações inspiradoras - e quem quiser pode colaborar também!
Solução 1
Disseminar a informação
Havia um problema claro na unidade de saúde em que a médica Andressa Gulin dava aulas, em Curitiba (PR): o número de exames ginecológicos preventivos não chegavam à meta - algo muito grave, pois o câncer de colo de útero é a quarta causa de morte entre as mulheres. Juntas, ela e a professora de enfermagem Tatiane Trigueiro pensaram em uma forma de resolver a questão. Ao mapearem o bairro, perceberam uma grande quantidade de salões de beleza. "Ao conversarmos com as depiladoras, percebemos que elas não sabiam o que fazer ao ver alguma lesão nas clientes", diz Andressa. Então, convidou-as a passar por uma formação no posto de saúde. "A ideia não é que elas identifiquem o tipo de lesão, mas que encaminhem as mulheres ao posto e saibam a importância dos exames." O projeto Depiladora Amiga fez o número de exames aumentar 60% e está sendo levado a outras unidades de saúde.
Solução 2
Alegrar o espaço físico
Bem de saúde, a artista plástica Vera Ferro costumava passar longe de hospitais. Até que um dia recebeu um convite de uma amiga, médica do Hospital Boldrini, em Campinas: comandar um esforço para pintar de forma lúdica as paredes de uma nova ala do centro infantil. Com ampla experiência com arte-educação, Vera aceitou o desafio para alegrar os 400 metros de parede. Em vez de uma pintura-padrão em tons pastel, o local foi decorado com uma obra de arte coletiva, feita por todos que estavam lá, desde as crianças até médicos. "Convidamos as pessoas e dizíamos apenas "traga sua criança interior", lembra-se. Isso foi em 1998, e, desde então, Vera já fez 21 edições do projeto, que chamou "Pintando as paredes do mundo", em diversos hospitais e casas de atendimento para crianças. "As pessoas passaram a me chamar, e fui aceitando. No momento da execução, a gente fica em estado de graça", diz.
Solução 3
Usar animais no tratamento
Quem tem bichos de estimação já sabe: passar um tempo com animais é uma verdadeira terapia. Mas, além de fazer companhia, bichos podem auxiliar em tratamentos de saúde. Em Brasília, a ONG Cavalo Solidário atende gratuitamente quase 200 crianças com situações diversas: há autistas, deficientes físicos, crianças com paralisia cerebral e com transtorno de déficit de atenção. Para todas, a convivência com o cavalo traz impactos positivos. "Montar trabalha a afetividade, a autoestima e a autoconfiança; afinal, a pessoa domina um ser muito maior que ela", explica Mônica Lima, coordenadora da ONG. Para quem tem problemas motores, a equoterapia é uma oportunidade ainda mais especial. "O cavalo ajuda no desenvolvimento motor porque faz movimentos tridimensionais", diz. Sobre o animal, a criança também é estimulada a aguçar os sentidos, sentir o cheiro, o toque e o vento.
Solução 4
Levar música ao hospital
Ao ver os bons resultados que a música estava promovendo em um hospital particular onde atuava, o psiquiatra Kleber Lincoln Gomes, diretor da faculdade de medicina de Itajubá, decidiu levá-la também ao hospital universitário, que atende pelo SUS. "O hospital já tinha um grupo de humanização para divertir as crianças, e eu mesmo havia trazido a disciplina de cuidados paliativos para a grade curricular", conta. A iniciativa começou há dois anos, quando os artistas fizeram uma formação específica e foram contratados. Hoje, há música pelos corredores, em todas as alas, de segunda a sexta-feira - só a UTI fica de fora por questões de segurança. "É um trabalho extraordinário, que emociona e envolve a todos do hospital. Desde que começamos com o projeto, diminuímos o tempo médio de internação de cinco dias e meio para quatro dias e meio", comemora Kleber.
Solução 5
Ajudar na hora da despedida
Depois de esgotados os mais avançados tratamentos, o paciente se torna um caso sem solução do ponto de vista estritamente médico. Porém, ele continua precisando de atendimento e conforto até o fim da vida. "Esse é sempre um momento difícil, mas ele pode ser envolto em respeito e carinho", afirma Avany Maia, oncologista especializada em cuidados paliativos domiciliares da Liga Bahiana contra o Câncer. Pacientes terminais do Hospital Aristides Maltez, onde a Liga atua, podem passar seus últimos dias em casa graças a um programa que ensina a família a trazer os atendimentos paliativos. Os cuidadores participam de reuniões com a família para aprender sobre a doença, conhecer questões práticas e receber apoio emocional. "Em casa, o paciente ganha mais autonomia do que no hospital, pode escolher a hora de tomar banho, de comer, com quem conversar...".
Solução 6
Apoiar na hora do nascimento
Bióloga por formação, há dois anos Gabriela Müller largou a carreira na indústria farmacêutica para se dedicar à profissão de doula. Cada vez mais casais grávidos procuram profissionais desse ramo para ter um acompanhamento físico e emocional durante a gestação, parto e pós-parto. Mas Gabriela pensava nas mulheres que não podem pagar pelo serviço. Foi então que ela e outras cinco doulas se uniram para prestar o serviço de forma voluntária no Hospital Santo Antônio, em Blumenau (SC). As seis mulheres se revezam para atender às futuras mães. Apesar de ser um acompanhamento apenas no momento do trabalho de parto, elas conseguem dar conforto físico e emocional às gestantes numa hora tão importante. "Para o físico, fazemos ações de analgesia, como massagens, uso da bola de pilates e escalda-pés. Mas também damos apoio psicológico. A mulher sente que não está sozinha", diz Gabriela.
(texto publicado na revista Sorria para ser feliz agora nº 46 - nov/dez de 2015)
sábado, 17 de outubro de 2015
Um médico sem fronteiras - Natalia Cuminale
O paulistano Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo faz 750 cirurgias por ano, marca imbatível no Brasil. Por zelar por seu corpo como zela pelo de seus pacientes, ele desenvolveu uma dieta e um programa de atividades física que o mantêm forte - e com mãos seguríssimas - em longas jornadas nas salas de operação
"Opera como um Deus", dizem dele os melhores médicos do Brasil. Acusam-no de operar demais, em casos desnecessários, mas é puro despeito, dito quase em tom de brincadeira, para tentar explicar os recordes do cirurgião paulistano Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, de 65 anos, do Hospital Albert Einstein. São 750 cirurgias por ano, portanto sessenta mensais, duas por dia. Ele calcula já ter realizado pelo menos 20 000 operações. São números quase inacreditáveis, que o próprio Macedo, avesso a qualquer celebração pública, homem discreto e calado, compara a feitos dos esportes. Diz ele: "O cirurgião não é um atleta, mas é solicitado como se fosse". Para, pensa e busca no ar uma metáfora ainda mais esclarecedora de sua rotina: "A cirurgia exige esforço semelhante ao de uma maratona". Macedo se comporta como um campeão olímpico para fazer jus à sua fama de craque dos bisturis, especializado em aparelho digestivo. Para Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião de fígado e pâncreas lotado na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, outro que não descansa, Macedo "tem uma força de trabalho tão espetacular que é difícil para qualquer jovem acompanhá-lo".
Por considerar sua atividade como a de um esportista, Macedo faz do cotidiano uma travessia espartana. Um único toque de alarme do despertador, às 6h30, de segunda a segunda, o tira da cama. Uma xícara grande de café puro e amargo é a primeira refeição. A caminho do hospital, ouve no carro alguma peça para piano de Mozart ("calma", descreve) ou preferencialmente Nessun Dorma, ária de Puccini, na voz de Luciano Pavarotti, porque dali em diante nada de dormir. Mentalmente desenha o que fará durante o dia. A depender da técnica utilizada na cirurgia, ele terá de ficar sentado, praticamente imóvel, ao longo de seis horas. É assim no caso dos procedimentos robóticos, quando manipula um equipamento com 3 metros de altura e quatro braços compridos de metal que farão as vezes das mãos humanas sobre o corpo do paciente, o que é comum na extração de tumores no pâncreas, nos rins e nos intestinos. Em operações convencionais, não é raro ele permanecer por nove horas em pé, manipulando o doente.
Meticuloso, preciso, cuidadoso. Macedo trata de seu corpo como se fosse o de seus pacientes. Ao se aproximar dos 60 anos, sentiu uma natural queda no vigor. Sofria com gripes constantes, que chegavam a incomodar durante vinte dias. O pequeno sinal de debilidade dificilmente afetaria a qualidade do trabalho. Mas foi o suficiente para que o médico mudasse o estilo de vida de maneira drástica. Passou a devorar artigos científicos sobre alimentação, atividade física e taxas sanguíneas. Estudioso compulsivo, leu 25 pesquisas científicas. O objetivo era criar um programa de saúde personalizado que lhe permitisse recuperar a disposição para as longas e duras jornadas de trabalho. Como não havia um Macedo que tratasse dele, fez tudo solitariamente.
Um dos maiores desafios era permanecer por horas a fio em jejum sem ficar com fome nem se sentir fraco. A questão foi resolvida da seguinte forma: passou a seguir a ferro e fogo o jejum, sem concessão nem mesmo à badalada barrinha de cereal. A medida teve como base o princípio fisiológico de que em longos períodos de privação alimentar perde-se a fome. Há uma lógica - o hábito do jejum faz com que o organismo fabrique um produto químico chamado corpo cetônico. Esse composto, feito de gordura corporal, tem duas funções primordiais. Uma delas é dar energia ao coração e ao cérebro ante a carência alimentar. A outra é inibir a ação do hipotálamo, região cerebral administradora da fome. Macedo ainda queria evitar mais uma condição resultante do consumo de alimentos durante a cirurgia. Comer estimula a liberação de serotonina no cérebro, substância do relaxamento, atalho para a perigosa desatenção.
A alimentação do cirurgião é regradíssima. Macedo adotou um programa inspirado na chamada "dieta paleolítica". Criado em 1975 pelo gastroenterologista americano Walter L. Voegtlin, o regime prega um retorno à alimentação dos homens pré-históricos. Dez anos depois, os médicos americanos Melvin Konner e Boyd Eaton consolidaram o modelo em artigo na revista The New England Journal of Medicine: só se devem ingerir os alimentos que nossos ancestrais consumiam. Incluem-se carnes magras, frutas, raízes e vegetais. Excluem-se os produtos industrializados. Macedo faz raras exceções. Vez ou outra come quatro quadradinhos de chocolate amargo e degusta taças de vinho. Evita ao máximo o sabor dos alimentos feitos com farinha branca, os chamados carboidratos simples. Os compostos aumentam subitamente a taxa de insulina, o hormônio que carrega a glicose para dentro das células. O pico da substância no organismo estimula a fome.
O médico ainda precisava ganhar músculos na medida certa para um cirurgião. Sem exageros, portanto. Braços pesados demais podem atrapalhar o manejo dos instrumentos. Para isso, Macedo passou a seguir um programa específico de exercícios. Praticada em uma academia montada no porão de casa, a musculação não vai além de meia hora. Períodos mais longos estimulam no organismo a produção de hormônios que prejudicam a formação do tecido muscular. A ginástica é feita sempre à noite. O esforço pela manhã causa pequenos tremores temporários nas mãos, algo inimaginável para um cirurgião.
Macedo está habituado aos desafios, e às tentativas de superá-los, desde os tempos de menino. Aos 12 anos, ao cair de um cavalo, sofreu uma paralisia do lado direito do rosto. Logo depois do acidente, seus pais acharam que o "sorriso de lado" era uma imitação de John Wayne, o ator predileto do filho. Descobriu-se mais tarde ser uma lesão incontornável, diagnosticada por um médico amigo da família. O acidente fez Macedo seguir a medicina, para entender como funciona o organismo humano e que há poesia entre sangue e músculos. A correção associada à timidez faz de sua agenda um livro fechado - e, ao contrário de um mau hábito disseminado, ele se recusa a citar o nome de famosos que passaram por suas mãos (Silvio Santos, Fausto Silva, Dercy Gonçalves e Ana Maria Braga, entre tantos outros). Ele apenas aceitou aparecer em fotografia ao lado de Hebe Camargo, em 2012, as quem operara para a extração de um tumor cancerígeno na região abdominal, porque a força de persuasão da apresentadora era lendária - e só ela mesmo poderia quebrar o gelo de um homem incapaz de brilharecos, mas sinônimo de certeza e segurança. Nas palavras do prêmio Nobel de Literatura Saul Bellow (1915-2005), mestre em entender os desvios do ser humano: "Com um romancista, como com um cirurgião, você tem de ter a sensação de ter caído em boas mãos - alguém de quem você pode aceitar o anestésico com confiança".
(texto publicado na revista Veja edição 2443 - ano 48 - nº 37 - 16 de setembro de 2015)
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
"Quer dizer que médico pode chorar?" - Cristiane Segatto (Revista Época)
Como um professor da Faculdade de Medicina da Unicamp ajuda os alunos a trocar o cinismo pela capacidade de se colocar no lugar do paciente
O carioca Marco Antonio de Carvalho-Filho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas, é uma daquelas figuras boas de conversa que cativam os alunos sem fazer força. Aos 40 anos, ele entende e fala a língua dos jovens. Nos últimos anos, Carvalho-Filho trabalha para reverter um fenômeno cruel detectado na Unicamp.
Os calouros de medicina escolhem a profissão movidos por sentimentos nobres (como entender o ser humano e aliviar o sofrimento), mas são deformados ao longo da experiência universitária. Para enfrentar o problema, o professor criou uma série de atividades baseadas em recursos das artes e da psicologia. O objetivo é desenvolver nos futuros médicos a chamada empatia – a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias.
No primeiro ano, Carvalho-Filho usa obras de arte e textos literários nas aulas. O quadroUdslidt (algo como “desgastado”, em dinamarquês), do pintor Hans Andersen Brendekilde (1857-1942) retrata uma mulher que chora a morte do pai num campo recém-arado por ele. É o pretexto para falar sobre a morte e os sentimentos relacionados a ela. “Discutimos a impotência e as fantasias de poder que o médico pode ter como mecanismo de defesa”, diz Carvalho-Filho. “Isso pode levá-lo a indicar tratamentos fúteis que apenas prejudicam os pacientes”.
Durante uma pesquisa acadêmica orientada por ele e realizada pelo médico Marcelo Schweller, alunos do quarto e do sexto anos foram convidados a atender pacientes fictícios, representados por atores profissionais de forma bastante realista. Os níveis de empatia antes e depois das atividades foram avaliados por meio de uma escala internacional de empatia médica. O desempenho dos alunos do quarto ano aumentou de 115 pontos para 121. Entre os do sexto ano, o crescimento foi de 117 pontos para 123. O trabalho, publicado na revistaAcademic Medicine, tem sido apresentado em vários congressos médicos internacionais. A seguir, Carvalho-Filho explica como exemplos negativos recebidos durante a faculdade moldam o caráter dos futuros médicos.
ÉPOCA - O ensino de medicina provoca nos alunos uma espécie de antipatia em relação ao pacientes?
Marco Antonio de Carvalho-Filho - Não é exatamente antipatia. Entrevistei os calouros durante três anos consecutivos. Queria saber por que eles haviam escolhido a profissão. Mais de 70% diziam que a principal motivação era ajudar o próximo. A segunda era conhecer o ser humano. Citavam exatamente as virtudes que esperamos que um médico tenha. Infelizmente, a tendência ao longo do curso é que eles percam aquelas motivações iniciais e se distanciem dos pacientes.
ÉPOCA - Por que isso acontece?
Carvalho - Filho - Pense na realidade desses alunos. Para entrar numa universidade como a Unicamp, eles precisam ser alunos de alto rendimento. Vivem em famílias pequenas, têm pais graduados, nunca trabalharam na vida e são solteiros. São garotos privilegiados.
ÉPOCA - De que forma essa condição privilegiada dificulta a adaptação deles à nova realidade?
Carvalho-Filho - Os alunos chegam superprotegidos, com pouca experiência de fracasso ou perda. A maioria nunca perdeu ninguém – nem um tio, uma avó. A sociedade produziu uma geração que cresce confinada em casa, sem a vivência da rua. Isso leva à perda de capacidade de comunicação. Quando esses garotos entram na faculdade de medicina, são expostos à pobreza e à doença. Os pacientes sofrem, perdem funções, morrem. Quando o aluno está diante do sofrimento e não tem instrumentos para lidar com ele, cai na armadilha de usar o cinismo. É natural que isso aconteça. O cinismo – ou distanciamento afetivo – é um mecanismo de defesa.
ÉPOCA - Os estudantes não têm oportunidade de refletir sobre esses sentimentos?
Carvalho-Filho - Falta esse espaço nas escolas médicas, tanto no Brasil como no Exterior. A medicina se desenvolveu de forma tão tecnológica a ponto de suplantar o conhecimento dos últimos 5 mil anos. Nesse processo de especialização, ela se aproximou da doença e se afastou do doente. O aluno tem que estudar tanto que se esquece da dimensão humana do paciente. Quando percebemos isso na Unicamp, decidimos criar um núcleo para lidar com essa questão.
ÉPOCA - Que tipo de intervenção vocês fizeram durante a pesquisa?
Carvalho-Filho - Criamos pacientes fictícios com a ajuda de uma companhia de atores formados na Unicamp. Construímos pacientes extremamente densos afetivamente. Uma mulher que recebeu o diagnóstico de câncer de mama e não quer se submeter à cirurgia. Um rapaz que imagina ter uma doença cardíaca e, na verdade, enfrenta um tremendo sofrimento porque perdeu o emprego e é arrimo de família. Vários outros casos. Os atores usam uma técnica de realismo. Todos sabem que são atores, mas 96% dos alunos dizem que se sentem diante de pacientes reais. Os alunos atendem esses “pacientes” e depois fazemos um debate. Discutimos os sentimentos e as habilidades de comunicação que cada um demonstrou.
ÉPOCA - Eles se emocionam?
Carvalho-Filho - É espetacular. É a redescoberta da pureza. Olham para mim e perguntam: “Quer dizer que médico pode chorar? Não preciso virar um robô?”. Claro que médico pode chorar. Às vezes, uma lágrima expressa mais que qualquer palavra. Os alunos adoram a atividade. Fazemos das 14 horas às 18 horas. Tem dia que ficamos até às dez horas da noite. Não querem ir embora. Preciso dizer que tenho filho me esperando em casa.
ÉPOCA - É possível treinar a empatia?
Carvalho-Filho - Empatia é a capacidade de se colocar no outro, de entender o outro e ajudá-lo. Alguns estudos sugerem que há um componente cognitivo nessa história -- algo que pode ser ensinado e praticado. Mas acredito que o lado afetivo também pode ser treinado. Ensinamos relação médico-paciente com recursos das artes, da poesia, da música, do teatro. Na Unicamp, esse curso faz parte do currículo obrigatório do primeiro ano. Na maioria das faculdades, há uma disciplina de habilidades de comunicação. Ensinam que o médico deve dizer “bom dia” e olhar nos olhos do paciente.
ÉPOCA - Isso basta?
Carvalho-Filho - De jeito nenhum. O aluno precisa perceber que o médico é um especialista na espécie humana. Tanto no lado afetivo como biológico. Falamos sobre técnicas de comunicação. Como eles devem começar uma conversa, como deixar o paciente à vontade. O que determina a boa consulta não é o tempo. É a capacidade de ouvir. Quando era estudante, passa visita no hospital, ia para um bar e só ficava falando sobre os pacientes com os meus amigos. Falava o tempo todo. É uma forma de elaborar as sensações. Queremos ajudar nossos alunos a aprender a amar esse amor. Se não aprende isso, faz uma medicina ruim. Não é fugir do sentimento. É aprender a sentir esse sentimento.
Carvalho-Filho - Se eu chegar à minha casa e perguntar quem teve uma experiência positiva com algum médico no último ano, vai ser aquele silêncio. Médicos que demonstram empatia são raros. Acho que sempre foram. A medicina deveria ser uma bandalheira quando o grupo de Hipócrates achou, lá na Grécia Antiga, que era necessário formalizar certas virtudes em forma de juramento. Hoje, falar em virtude virou tabu na nossa sociedade. O médico bem-sucedido é o médico valorizado pelo mercado.
ÉPOCA - Por tudo isso, a sociedade perdeu a confiança na classe médica?
Carvalho-Filho - Perdeu. Isso é ruim para a classe médica e para a sociedade. O paciente sofre duplamente: pela doença e pela falta de confiança. A situação de trabalho da maioria dos médicos está muito difícil. Baixa remuneração, falta de estrutura, acúmulo de empregos. Com tudo isso, o médico fica reativo. Surge uma série de conflitos nos serviços de saúde. Eles acabam explodindo no colo do paciente. Acho que se tivermos médicos mais preparados afetivamente, do ponto de vista humano, vamos conseguir proteger mais o paciente.
ÉPOCA - O que você chama de currículo oculto na medicina?
Carvalho-Filho - São algumas experiências informais que o aluno acumula na faculdade e que ajudam a moldar o caráter do médico. Boa parte do aprendizado de valores acontece nas festas, no bar, dentro do centro cirúrgico. Um exemplo é o trote. Estou feliz com toda a discussão sobre o trote. Esse debate precisa crescer. O trote é uma forma de perpetuar o poder que não tem nada a ver com o bom exercício da medicina.
ÉPOCA - Isso significa que o aluno chega bem intencionado à faculdade e vai sendo deformado ao longo do curso?
Carvalho-Filho - Na medicina, reproduzimos modelos. Que futuro médico nós teremos se ele vê o melhor cirurgião destratar a enfermeira corriqueiramente? As demonstrações de poder exercido de forma unilateral são modelos negativos. É a educação pela humilhação. Um professor que gosta de um aluno e, mesmo assim, o humilha ensina a esse aluno que a humilhação é uma forma normal de se comunicar. Esse futuro médico vai humilhar a secretária e o paciente.
sábado, 17 de janeiro de 2015
domingo, 30 de novembro de 2014
Sangue, suor e lágrimas: The Knick, seriado com Clive Owen - Marcelo Martins
Na série The Knick, retrato cru da medicina no início do século XX, a transpiração dos cirurgiões de pouco serve para salvar os pacientes, que morriam feito moscas
Em um bordel de Nova York, no ano de 1900, o médico John Thackery (Clive Owen) olha fixamente para as pontas de seus sapatos brancos. Uma prostituta se aproxima para comunicar que é hora de ele ir para o trabalho. Com cara de resssaca, Thackery sobe em uma carruagem, asca uma seringa e procura alguma veia ainda não arruinada por picadas. Acaba injetando uma dose de cocaína em um dos pés, debaixo de seus solenes sapatos brancos. Ele já é outro homem, aceso e resoluto, quando adentra um anfiteatro lotado para estrelar seu show peculiar: a realização da cesariana em uma mulher que enfrenta certa complicação na gravidez. O que se vê a seguir da série americana The Knick - no ar desde a última sexta-feira, dia 15, no canal Max - é o frenesi angustiante de uma operação feita com frieza metódica, mas recursos precários. Uma geringonça movida a manivela recolhe o sangue que jorra da barriga da mulher e o derrama em vidros de aparência vintage. Para bombear ar para os pulmões do recém-nascido, a enfermeira pressiona um pedal que lembra o de uma velha máquina de costura. É a 12ª vez que a equipe faz esse procedimento, sempre com o mesmo resultado: a mãe e o bebê morrem. O exaurido cirurgião-chefe - de quem Thackery é braço-direito - justifica-se para a plateia: "Espero que o trabalho ao menos tenha sido instrutivo". The Knick é uma aula fascinante sobre a medicina. Com crueza naturalista, a série produzida e dirigida por Steven Soderbergh mostra quanto a atividade evoluiu em um século. Ao mesmo tempo, revela-se que não mudou nada sob vários aspectos.
Horas depois da desastrada cesariana, o cirurgião-chefe se suicida. Novo comandante do pedaço, Thackery engata um discurso otimista no velório do colega. "Vivemos um tempo de possibilidades infinitas", diz ele. Nos cinco anos anteriores, a medicina tinha evoluído mais que nos últimos cinco séculos. Desenvolveram-se técnicas de anestesia. Os cuidados com a assepsia viraram rotina. Mas, como demonstra o tratamento dado aos tuberculosos e a um paciente com septicemia, era dura a vida sem antibióticos (que só seriam descobertos no fim dos anos 20 e difundidos a partir da II Guerra). Submeter-se então a uma cirurgia - qualquer cirurgia - era entrar em uma loteria difícil de ganhar. E perder, claro, significava ir para o caixão.
Ao ver como funcionavam as coisas nos tempos de sua bisavó, o leitor se julgará sortudo por ter nascido muitas décadas depois. Mas, embora técnicas e equipamentos tenham evoluído, cirurgias são ainda procedimentos em que há sangue, certa dose de brutalidade e considerável risco. Com o título inspirado em uma instituição real de Nova York, The Knick ilustra ainda um problema que se desenrola não nas alas cirúrgicas, mas nos setores administrativos: os hospitais de ontem. como os de hoje, já lutavam contra o fantasma do colapso financeiro, em razão dos altos custos. A série mostra, por fim, como vem de longe o problema do vício entre os médicos. Algo como um Dr. House do neolítico da medicina. Thackery é um sujeito irascível, capaz de arroubos racistas contra o cirurgião negro que vem se juntar à sua equipe. Mas é, no fundo, um homem melancólico, emparedado entre a impotência diante da morte dos pacientes e a dependência de cocaína, então usada com anestésico, e de morfina - na qual médicos se viciam até hoje. A mão que cura é a mão que se fere.
(texto publicado na revista Veja edição 2387 - ano 47 - nº 34 - 20 de agosto de 2014)
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Diagnóstico antecipado para o Alzheimer - Cilene Pereira
Cientistas ingleses e americanos anunciam a criação de um exame de sangue e outro que analisa a retina capazes de prever com grande antecedência o surgimento da doença
Prever o desenvolvimento da doença de Alzheimer é um dos mais importantes desafios da medicina. Caracterizada pela perda gradual da memória e pela demência - decorrência da morte progressiva dos neurônios -, a enfermidade só dá sinais quando já está instalada, tornando seu controle difícil. Na semana passada, pesquisadores ingleses e americanos anunciaram avanços na criação de métodos indicativos de risco mais eficazes.
Na Inglaterra, cientistas de quatro instituições inglesas afirmaram que estão próximos de criar um teste de sangue capaz de apontar, com um ano de antecedência, quais indivíduos com leve prejuízo cognitivo terão a doença.
Os cientistas chegaram ao exame a partir da análise das informações obtidas em três estudos internacionais. Eles reuniram amostras de sangue coletadas de 1.148 indivíduos (476 eram portadores da doença, 220 apresentavam leve limitação cognitiva e o restante não tinha qualquer problema). Parte dessas pessoas também foi submetida a exames de imagem (ressonância magnética) para que fossem detectadas eventuais modificações nas estruturas cerebrais. O objetivo era descobrir de que maneira 26 proteínas que haviam sido previamente associadas à enfermidade estavam de fato a ela ligadas.
A investigação resultou no isolamento de 16 substâncias com forte vínculo à enfermidade. Após novas análises, conclui-se que apenas dez proteínas manifestavam papel preponderante no indicativo de risco. Ao final, os pesquisadores constataram que elas são capazes de prever com 87% de eficácia a chance de uma pessoa com pequenas limitações cognitivas ter Alzheimer após um ano. "Problemas de memória são muito comuns. O difícil é identificar quem, entre aqueles que apresentam lapsos, manifestará demência", afirmou Abdul Hye, coordenador do trabalho, do Instituto de Psiquiatria do King's College London. "Agora conhecemos dez proteínas que podem nos dar essa resposta com alto nível de eficácia." Os cientistas estão conversando com possíveis parceiros comerciais que poderão transformar a descoberta em um exame de sangue acessível a todos.
Nos Estados Unidos, os pesquisadores divulgaram os resultados do uso de um exame na retina que detecta mudanças registradas de 15 a 20 anos antes do diagnóstico. "A retina é parte do sistema nervoso central e divide algumas características do cérebro. Havíamos descoberto que um dos processos associados ao Alzheimer ocorre também nessa estrutura e conseguimos identificá-lo, dentro do olho, antes mesmo de ele ser iniciado no cérebro", explicou Keith Black, do Cedar-Sinai's, e responsável pelo experimento, que deverá ser aprofundado.
(texto publicado na revista IstoÈ nº 2329 - ano 38 - 16 de julho de 2014)
Melhor não tratar?! - Fernando Maluf, oncologista
O oncologista Fernando Maluf, chefe do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, em São Paulo, afirma que nem todos os tumores de próstata carecem de tratamento imediato. Nesta entrevista, ele explica o motivo
Cada vez mais se discute que certos casos da doença não precisam ser combatidos. Por quê?
Nós temos que levar em conta que esse é um dos tumores mais heterogêneos que existem. Há, na verdade, vários tipos de câncer de próstata. Em alguns, a doença é tão indolente, tão biologicamente favorável, que uma das opções é só acompanhá-la por meio de exames. Para alguns pacientes, essa alternativa é extremamente segura. Não é possível adotá-la em todos os cenários, mas, em uma parcela deles, ela é, sim, viável.
Como os médicos estão vendo a possibilidade de fazer apenas o monitoramento?
Essa discussão ganhou força nos últimos anos ao redor do mundo. Nós percebemos que vários pacientes estavam sendo super tratados. Ou seja, o efeito colateral das abordagens terapêuticas era mais significativo que qualquer melhora na doença.
Mas a quem cabe a decisão de tratar ou não: médico ou paciente?
É importante que a escolha seja compartilhada entre os dois. Até porque, muitas vezes, o sujeito não se sente psicologicamente confortável em saber que tem um tumor, mesmo que o problema seja pequeno e nunca ameace a sua saúde. Desse modo, ele pode preferir passar por radioterapia ou cirurgia.
E como funciona esse acompanhamento?
São feitos testes periódicos de PSA, de imagem e biópsias para conferir se o câncer sofreu mudanças. Caso o tumor que era bonzinho esteja ficando do mal, por assim dizer, temos que tomar uma atitude.
Qual a importância de fazer o teste de PSA e o exame de toque na rotina? Um exclui o outro?
Não. Em 80% dos casos, dosar o PSA no sangue já acusa as alterações. Porém, existe um risco de 20% de o teste não notar certas mudanças, mas o toque sinalizar um problema. Por isso é essencial realizar ambos.
O toque ainda é visto com preconceito. Como derrubá-lo?
O toque faz parte da avaliação física comum. Ele é tão trivial como auscultar os pulmões, o coração ou sentir o pulso. Eu sempre falo que homem que é homem se preza, preza sua família, seus filhos, e não vai ter sua masculinidade afetada por um exame desses.
A partir de que idade os testes devem começar a ser feitos?
Quem tem o histórico familiar de câncer de próstata - pai, avô ou irmão - deve começar aos 40, 45 anos. Indivíduos negros também, já que a incidência de tumores desse tipo neles é maior, além de a doença ser mais agressiva. Se não há fator de risco, o ideal é fazer a partir dos 50, todos os anos.
Por que os homens fora dos grupos de risco só precisam iniciar o rastreamento aso 50?
É raro um paciente de 40 anos ter câncer de próstata sem nenhum fator associado. Pode acontecer, claro, mas seria necessário rastrear milhares e milhares para ajudar poucos, que, ainda assim, seriam beneficiados da mesma forma se o tumor fosse diagnosticado três ou quatro anos mais tarde.
(texto publicado na revista Saúde é vital nº 382 - outubro de 2014)
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
A polêmica dieta do hormônio da gravidez - Mônica Tarantino
Torna-se moda no Brasil regime que usa hormônio produzido na gestação com promessa de emagrecimento rápido, mas especialistas não reconhecem sua eficácia
A lista dos regimes da moda ganhou mais um nome: a dieta do hCG. A dieta que conquista adeptos no País prescreve doses do hormônio gonadotrofina coriônica humana (a sigla em inglês é hCG) por cerca de 40 dias consecutivos. A substância é fabricada nos primeiros dias de gravidez e pode ser indicada em tratamento de infertilidade e alterações no desenvolvimento de ovários e testículos.
A perda de peso acelerada foi o que atraiu a empresária Graciete Affini, de São Paulo. "Fiz exames antes de usar o hCG e conversei com o médico. Em 15 dias, perdi dez quilos e não tive efeito colateral." Ao contrário de Graciete, a produtora Mõnica Cosas, de Recife, não permaneceu na dieta. Ela queria se livrar de cinco quilos, mas interrompeu as injeções de hCG dez dias deopis de começar a tomá-las. "Sentia fraqueza, tontura e tive problemas gastrointestinais", conta. Ela também descobriu que tivera uma crise de hipotensão postural - queda na pressão arterial ao ficar em pé. "O médico disse que a doença se manifestou porque eu estava desidratada e tive infecção intestinal. Não se pode afirmar que algum desses problemas esteja ou não relacionado à dieta. Não há estudos e os sintomas coincidiram", diz.
O regime teve seu primeiro momento de fama nos anos 1970. Agora, voltou com força. Para conter sua expansão, a agência reguladora americana FDA decidiu que a publicidade de produtos contendo o hormônio deve informar que ele não demonstrou ser uma terapia eficaz no tratamento da obesidade. Depois dos EUA, a dieta se popularizou em países como Argentina e Equador e agora se espalha pelo Brasil na base do boca a boca.
Mônica foi informada por seu médico que o hormônio a protegeria da perda de músculos que ocorre na dieta de baixas calorias a que se submeteria. Já Graciete ouviu que o hCG facilitaria a queima de gordura acumulada. Outro especialista disse que o hormônio simula uma gravidez e leva o corpo a consumir mais gordura para complementar o aporte de calorias necessário para se nutrir e nutrir o feto. Fica evidente o desencontro nas informações sobre a ação do hormônio. A pessoa emagrece, mas não sabe por quais mecanismos. Um é óbvio: a restrição calórica imposta pelo regime.
Dois médicos que indicam a dieta procurados por ISTOÉ não quiseram dar entrevista. Um terceiro disse que daria as informaç~eos, mas não iria se expor porque o hormônio é usado de modo off-label (a indicação não consta da bula). No entanto, remédios aprovados para diabetes, como o liraglutide (Victoza) e exenatide (Byetta), são abertamente ministrados de modo off-label contra a obesidade. A diferença é que há estudos comprovando sua eficácia no emagrecimento. Já sobre a ação do hCG, não há pesquisas que documente sua eficiência ou possíveis efeitos colaterais.
Para o endocrinologista Walmir Coutinho, presidente da Federação Mundial de Obesidade, não há relatos de graves danos colaterais a longo prazo por causa da dieta, mas o hCG não ajudaria em nada o emagrecimento. "O que leva à perda de peso nessa dieta é a grande restrição calórica", diz. "Mas a chance de recuperar os quilos perdidos é alta quando a pessoa retoma a alimentação normal", diz.
Uso distinto
A gonadotrofina coriônica humana (hCG) é um hormônio reprodutivo produzido no início da gestação por células que formarão a placenta.
Como é a dieta do hCG
Homens e mulheres tomam injeções diárias do hormônio (doses entre 125 UI e 500 UI) por 40 dias
A pessoa só pode ingerir de 500 a 600 calorias por dia
Carboidratos, frutas doces, gorduras e alimentos processados não são permitidos
Como o hormônio atua
Na gestação
Ajuda a manter a produção, pelos ovários, do hormônio progesterona e a garantir que a mucosa do útero esteja pronta para acolher o embrião
Na dieta
O hormônio evitaria a perda de massa magra (músculos) em uma dieta de baixíssimas calorias
Induziria o corpo a queimar gordura para complementar o aporte de calorias necessário durante uma suposta gestação
Por que emagreceria
Segundo especialistas, pela restrição calórica
Efeitos
Não há pesquisas que comprovem sua ação emagrecedora
Também não há evidências de quem níveis elevados causem prejuízos ao corpo a long prazo. No entanto, pode provocar efeitos colaterais, como dor de cabeça, tonturas e náuseas. Há um único caso relatado de trombose venosa profunda registrado na literatura científica. A dieta é contraindicada para pessoas com problemas cardiovasculares e com doenças preexistentes.
(texto publicado na revista IstoÉ nº 2341 - ano 38 - 8 de outubro de 2014)
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Medicina High Tech - Cristina Nabuco
Dignos de ficção científica, olhos biônicos, implantes tecnológicos e a impressão de tecidos humanos em 3D podem revolucionar a vida. O melhor: em muitos casos, esse futuro já chegou
Sabe aquele ditado: "A união faz a força"? O trabalho conjunto de engenheiros, matemáticos, físicos, enfermeiros, biomédicos e médicos de diversas especialidades (de cirurgiões plásticos a neurocirurgiões) tem produzido resultados fantásticos. Não só nos laboratórios de países com grande tradição em descobertas científicas mas aqui mesmo, no Brasil. Além disso, a participação dos nossos pesquisadores em estudos coordenados no exterior está facilitando o acesso a conhecimentos e tecnologia de ponta. Os frutos dessa cooperação - alguns já disponíveis, outros em fase adiantada de maturação - aumentam a esperança no tratamento de doenças e problemas que comprometem a saúde e que, até pouco tempo atrás, eram considerados insolúveis. Veja algumas das novidades.
Corpo em 3D
Peças de titânio customizadas estão sendo confeccionadas para recompor os ossos da cabeça. A técnica foi criada em Campinas, interior de São Paulo, pelo Instituto Nacional de Biofabricação (Biofabris), ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "Até o final deste ano, dez pacientes receberão as peças em operações realizadas no Hospital das Clínicas da Unicamp", conta o engenheiro químico Rubens Maciel Filho, coordenador do instituto, que reúne pesquisadores de várias disciplinas para produzir substitutos de tecidos humanos, utilizando conceitos de engenharia e biomateriais. "Conseguimos obter próteses com simetria perfeita", conta o cirurgião plástico Paulo Kharmandayan, chefe do Setor de Cirurgia Plástica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisador do Biofabris. "Para isso, utilizamos tomografia computadorizada, software de última geração que projeta uma escultura digital na tela e uma impressora 3D, que constrói, camada por camada, o modelo tridimensional da cabeça e a prótese, reconstituindo, assim, a parte perdida."
Os maiores beneficiados são as vítimas de acidentes de trânsito. De cada dez, quase seis apresentam traumas faciais e um tem lesões no crânio. Motociclistas, especialmente: em 2012, as internações nos hospitais públicos brasileiros chegaram a 80,8 mil. A cada mês, a média continua perto de 7 mil - número que ultrapassa o registrado no pior atentado terrorista dos Estados Unidos, o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, que deixou mais de 6 mil feridos, além de 3 mil mortos.
A peça de titânio customizada vai resolver um improviso e cairá como uma luva em situações como a descrita por Kharmandayan: "A pessoa bate a cabeça, afunda os ossos e surge um inchaço. Como o espaço é limitado pelo crânio, o cérebro pode ficar comprimido, a pressão local sobe, havendo risco de morte". Para evitar isso, o cirurgião retira uma parte do crânio, controla a hemorragia e deixa o paciente sob observação. Depois, ele devolve a parte removida, a menos que o osso esteja danificado. Daí, além do problema estético (o local fia abaulado), surge outro mais grave, já que o cérebro perde a proteção contra novos impactos. A saída é preencher a falha com uma prótese. Até aqui, ela tem sido modelada à mão durante a cirurgia, com resultados nem sempre satisfatórios. A prótese feita em 3D vem para substituir o osso com maior eficiência e precisão.
O mesmo software de modelagem tridimensional e o processo de impressão já são usados no planejamento de cirurgias mais complexas. "Fazemos uma espécie de maquete de partes do corpo - como coluna, bacia, quadris, joelhos, pés, tornozelos - mostrando pontos onde existem fraturas, deformidades ou tumores que exigem correção cirúrgica", afirma o ortopedista e pesquisador José Carlos Barbi, do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, também em Campinas, e parceiro do Biofabris. "Com esses moldes em tamanho real, estudamos cada detalhe da intervenção, o melhor modo de acesso e as possíveis complicações. Isso abrevia o tempo de cirurgia e a torna mais segura, além de ajudar o paciente a entender o procedimento." Segundo Barbi, um modelo de quadril demora 15 dias para ficar pronto.
Hoje
Os interessados na reconstituição do crânio por meio de impressão 3D já podem entrar em contato com o instituto. Para fazer maquetes do corpo, é necessário que o médico aponte a demanda e forneça a tomografia computadorizada da área comprometida.
Amanhã
Em breve, serão iniciados estudos para refazer outros ossos da face, como a mandíbula. Os cientistas também estudam materiais para começar a produção de próteses de pés e pernas amputados. Logo será possível construir similares de joelho e quadril para substituir os originais - em caso de doenças degenerativas que destroem suas articulações. Peças personalizadas facilitam a adaptação. As atuais, de tamanho definidos, não atendem a necessidades específicas e custam caro. A meta é disponibilizá-las pelo SUS. Pretende-se ainda "imprimir" tecidos para transplante utilizando gel com células-tronco, o que é testado na Universidade Heriot-Watt (Edimburgo) e na Escola de Medicina de Hannover (Alemanha).
Implante contra o Parkinson
Uma espécie de marcapasso ajuda pacientes com Parkinson na coordenação dos movimentos, habilidade que fica comprometida com a doença. O dispositivo promove ou inibe pulsos elétricos em regiões específicas do cérebro - a chamada estimulação cerebral profunda, também conhecida por deep brain stimulation ou apenas DBS. O neurocirurgião, guiado por métodos de computação gráfica e neuroimagem, faz uma pequena abertura no crânio e insere o microeletrodo na área onde estão as células nervosas doentes. Conectado a uma bateria que fica na altura do peito, embaixo da pele, o implante gera corrente elétrica. "O profissional regula o estímulo conforme a necessidade", explica o médico Nilton Alves Lara, da equipe de neurocirurgia funcional da Santa Casa de São Paulo. Feita com extremo rigor, a cirurgia oferece riscos baixos (por exemplo, 0,05% de sangramento).
Em pacientes com essa doença degenerativa, que aflige pelo menos 200 mil brasileiros, a DBS se destina a restabelecer o circuito cerebral danificado pela falta de dopamina, que ocasiona tremores, rigidez muscular e dificuldade de locomoção. A estimulação pode ser indicada quando o doente não responde bem ao tratamento-padrão, à base de medicamento levedopa, que corrige o déficit desse neurotransmissor.
Hoje
A equipe da Santa Casa já aplica o implante em pacientes do SUS e os planos de saúde cobrem o procedimento que, em hospitais particulares, pode custar 150 mil reais. Há pessoas com o dispositivo há dez anos. A DBS tem sido adotada também para tratar casos específicos de epilepsia e dores crônicas, além de outros distúrbios motores que podem ser até mais incapacitantes que o Parkinson - como o tremor essencial e a distonia, marcada por movimentos involuntários.
Amanhã
Está em estudos o uso para depressão (Universidade de Toronto, Canadá, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo), dependência de drogas (Instituto Nacional de Abuso de Drogas em Maryland, Estados Unidos), stress pós-traumático (Universidade da Califórnia, Estados Unidos), obesidade (Universidade de West Virginia, Estados Unidos, com o Centro de Neurociência do Hospital do Coração, em São Paulo) e doença de Alzheimer e anorexia nervosa (Universidade de Toronto).
Olho eletrônico
Mais de 60 pessoas no mundo recuperaram parcialmente a visão graças a um microchip. Depois da implantação dele sobre a retina, o paciente passa a usar óculos com uma minicâmera de vídeo que capta as imagens e as envia a um computador, mantido numa pequena bolsa a tiracolo. As imagens são convertidas em sinais elétricos e transmitidas ao microchip, que as direciona ao cérebro. O invento é do engenheiro biomédico Mark Humayun, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, com a colaboração de cientistas brasileiros, do departamento de oftalmologia da Unifesp, e de pesquisadores da Inglaterra, Suíça, França e do México.
Esse dispositivo foi um dos destaques dos Congressos Brasileiro e Pan-Americano de Oftalmologia, realizados em agosto, no Rio de Janeiro. Em fevereiro, recebeu nos Estados Unidos a aprovação do órgão regulador, o FDA. Antes, havia obtido o sinal verde na União Europeia e Arábia Saudita para uso em tratamento de retinose pigmentar, doença genética que atinge uma em cada 4 mil pessoas e causa cegueira. "E tem potencial para corrigir outros problemas responsáveis pela degeneração das camadas externas da retina", diz o professor Maurício Maia, da Unifesp, ligado à pesquisa. No Brasil, deve ser submetido à Anvisa ainda este semestre. A cirurgia para colocação dura até três horas - depois é preciso fazer revisões periódicas. Quem sofreu lesões no nervo óptico ou não tem células viáveis na retina não pode passar pelo procedimento. O maior inconveniente é o custo: 100 mil dólares.
Hoje
O implante permite enxergar, em preto e branco, imagens rudimentares e maiores. Por exemplo, letras grandes de manchetes de jornal, contorno de corpos e faixa de pedestres - o que ajuda a pessoa com deficiência na autonomia para caminhar pela cidade.
Amanhã
Novos microchips devem melhorar a resolução da visão. O modelo atual tem 64 eletrodos. Uma equipe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) testa uma versão com 400 eletrodos. Implantes de retina também estão em estudos na Universidade Monash (Austrália) e na Universidade de Tübingen (Alemanha). Com o surgimento desses modelos, espera-se uma queda nos custos. E o grupo criador do primeiro olho biônico investiga o uso de células-tronco da retina para a recuperação da visão.
(texto publicado na revista Claudia nº 10 - ano 52 - outubro de 2013)
sábado, 15 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
domingo, 9 de novembro de 2014
Remédios para emagrecer: a briga continua - Josie Jeronimo
Pressionados pela indústria farmacêutica, parlamentares liberam a venda de medicamentos à base de anfetaminas. Mas a Anvisa reage e exige dos fabricantes estudos que comprovem a eficácia e segurança desses produtos
A batalha entre os defensores dos remédios derivados de anfetaminas para emagrecer e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que os proibiu em 2011, está longe de acabar. Na terça-feira 2, o Senado aprovou o projeto de decreto legislativo que invalida a decisão da agência, o que, em tese, permitiria a volta dos medicamentos às farmácias. O projeto é do deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), vice na chapa da candidata à Presidência Marina Silva.
A liberação pelo Senado, porém, não significa que a questão esteja resolvida. Os registros dos remédios - Anfepramona, Femproporex e Mazindol - estavam cancelados. Para que sejam vendidos novamente é preciso que seus fabricantes obtenham nova licença. O documento só é concedido após um processo que envolve a apresentação de comprovações de segurança, eficácia e qualidade, além dos certificados e autorizações do fabricante. E o pedido pode ser negado pela agência.
A Anvisa irá propor ainda que os produtos não sejam vendidos em farmácias de manipulação, hoje seu principal canal de venda. Em relação à sibutramina, medicação que teve sua venda restrita, a agência informou que manterá a exigência das apresentações de receituário retido na farmácia e de um termo de responsabilidade assinado por médico e paciente. "E se eventualmente algum dos derivados de anfetamina tiverem sua eficácia e segurança comprovadas, irei sugerir que sua comercialização obedeça aos mesmos critérios de controle hoje aplicados para a sibutramina", afirmou Dirceu Barbano, diretor-presidente da Anvisa.
As drogas foram proibidas pela agência sob os argumentos de que faltam estudos para ratificar sua eficácia e segurança e de que elas oferecem mais riscos do que benefícios. Entre os efeitos colaterais apontados, estão o risco de hipertensão pulmonar e alterações psiquiátricas e cardiovasculares. Boa parte dos médicos, no entanto, defende o emprego das medicações nos casos em que consideram necessário.
É por essa razão que a decisão do Senado empolgou esses especialistas. "A Anvisa não deu ouvidos aos argumentos dos médicos que tratam a obesidade sobre a necessidade de oferecer esses remédios a doentes que precisam deles", afirma o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo. "Eles não podiam ter sido tirados do mercado", disse. Os médicos ressalvam que o uso dos medicamentos deve ser feito sob estrito acompanhamento.
Chamou atenção, no entanto, a forma como o projeto foi aprovado. O painel do Senado indicava que 61 senadores registraram presença na noite da terça-feira 2, quando o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), alterou a pauta do dia para colocá-lo em votação. Apesar do quórum, a imagem do plenário era bem diferente. Menos de 20 senadores se espalhavam pelas cadeiras quando os parlamentares, por votação simbólica, aprovaram a proposta. Diferentemente da maioria das proposições que lotam os arquivos do Congresso, o projeto precisou de apenas um ano e cinco dias para tramitar na Câmara e no Senado antes de ir à promulgação. No Senado, quem assumiu a missão de encaminhar a proposta à pauta do esforço concentrado foi o senador Gim Argello (PTB-DF). Antes do início da sessão da terça-feira, ele percorreu gabinetes de pelo menos 15 colegas do PMDB, DEM, PSDB e PCdoB pedindo apoio à votação.
O senador Humberto Costa (PT-PE) foi voz solitária e vencida. O parlamentar pediu verificação de quórum, para questionar a votação simbólica feita com o plenário vazio, mas o senador Jayme Campos (DEM-MT), que presidia a sessão, ignorou a manifestação. Campos foi estrategicamente indicado à presidência para conduzir a votação da proposição por Renan Calheiros. Após pautar o projeto, sob protestos de Humberto Costa, Renan deixou a cadeira da presidência para não associar sua imagem ao motim da base governista que permitiu a aprovação da matéria.
Os parlamentares sofreram forte pressão da indústria farmacêutica para votar a proposta antes das eleições. O setor é um do principais financiadores de campanha. Somente a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), relatora da proposição na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), recebeu R$ 160 mil da indústria farmacêutica em 2010. Em 2012, a Hypermarcas, maior empresa do segmento no País, doou R$ 4 milhões para campanhas. Como se trata de decreto legislativo, o governo não pode vetar o projeto. Mas o Planalto estuda acionar a Advocacia-Geral da União (AGU) para questionar juridicamente a derrubada da resolução.
(texto publicado na revista IstoÉ nº 2337 - ano 38 - 10 de setembro de 2014)
Assinar:
Postagens (Atom)