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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Um dia de Paulista - Matthew Shirts


A Avenida Paulista demora mais do que eu imaginava para acordar por inteiro. Subo para lá, da Estação Trianon-Masp do Metrô, às 7h45 de uma quinta-feira, e encontro a calçada ainda meio vazia, as lojas fechadas. O dia está lindo, sem sol, mas limpinho, tudo: o ar, as pistas de bicicletas, até mesmo o asfalto. Chovera forte na noite anterior. O cheiro de café é notável. Esse aroma provoca sempre em mim sensações gostosas. Traz recordações da primeira vez em que morei em São Paulo, ali perto, na esquina da Brigadeiro Luís Antônio, no Edifício Nações Unidas, gringo de tudo, em, em 1980.

Lembro-me com vergonha, ainda hoje, de ter levantado a voz e sair brigado de um boteco na Paulista por terem se recusado a me servir feijoada numa terça. Chegara havia pouco dos Estados Unidos. Falava já português razoavelmente. Mas era a minha primeira vez sozinho no país, independente e solto. Naquele tempo o cardápio dos botecos seguia um calendário rigoroso. Não sabia disso. Era virado à paulista na segunda, bife á rolê na terça, feijoada na quarta, macarrão com frango na quinta, peixe na sexta e feijoada de novo no sábado, que ninguém é de ferro. Aprenderia, com o passar do tempo, a sentir vontade do prato certo no dia certo da semana. Mas demorou um pouco. No comecinho daquela minha estadia resolvi, numa terça, que iria comer feijoada, e achei inexplicável a recusa. O balconista me olhou com dó. Um caso de internação, talvez tenha pensado. Imagino-o contando a história à mulher, à noite.

Basta o cheiro do café na rua para provocar essa memória. Estou na Paulista para assistir a uma palestra sobre a Olimpíada na Faculdade Cásper Líbero, que fica no prédio da Gazeta. Cheguei cedo, para variar. Resolvo buscar um expresso do outro lado da rua, no prédio da praia paulista na Alameda Joaquim Eugênio de Lima. Trabalhara ali em frente, numa escola de inglês, em 1980. Hoje é um restaurante da cadeira Hooters, percebo, com um pouco de espanto.

Na palestra, uma acadêmica espanhola, Beatriz Garcia, defende os Jogos de 2016 como uma oportunidade cultural sem igual, e não só para a cidade-sede, mas também para o país que hospeda o evento. Soa como música para os meus ouvidos essa ideia. Ela dá exemplos de exposições e acontecimentos promovidos fora de Londres, na Inglaterra, em 2012. O maior legado do evento é cultural, de memória, frisa Beatriz. O mundo (todo) está olhando neste momento, curioso, para seu país, explica. É bom pensar em como quer ser lembrado.

Ocorrem-me ideias para São Paulo. Sou fã dos megaeventos, confesso. Penso num festival olímpico de grafite, com artistas do planeta inteiro na nossa cidade. Talvez esteja sendo planejado. Não sei se é possível. Espero que sim. Não seria demais?

Dê volta à Paulista, já na hora do almoço, saio em direção à Consolação. A calçada está lotada, bombando, como se diz. Passa um jovem amarrado a um novo tipo de veículo, mistura de skate com uniciclo, também conhecido como monociclo, segundo a internet. Isso vai dar trabalho, penso. Talvez devesse andar nas pistas dos ciclistas. O agito da rua alegra meu coração. Vou em busca de um espaguete com frango. Ainda existe isso? É quinta, afinal.


(texto publicado na revista Veja São Paulo)

domingo, 14 de agosto de 2016

A geografia do centro - Matthew Shirts


A data de nascimento no meu CPF está errada, descubro ao tentar fazer uma cópia do documento através do site da Receita Federal. Não sei como não percebi isso antes. Tirei-o na década de 80, quando me mudei para São Paulo. Lá se vão trinta anos, meu Deus. Vai ver que não fazia muita diferença, a data de nascimento, antes da época da internet. Sei que agora, sem acertar a data, a máquina se recusa a emitir o documento... Nada. São muito literais os computadores.

Resolvo enfrentar o desafio pessoalmente. Pego a Linha 4 - Amarela e vou a té o posto da Receita Federal na Rua Augusta, próximo da Avenida Paulista. Lá recebo um papelzinho com o endereço do lugar certo, outro posto do órgão, este no Shopping Light, na Rua Xavier de Toledo, perto da Estação Anhangabaú do metrô, na Linha 3 - Vermelha. Você vai rir de mim, talvez, mas não havia visitado o lugar desde que deixou de abrigar os arquivos da Eletropaulo, na década de 90. É uma falha cultural imensa minha, percebo, logo ao entrar no edifício erguido pelo arquiteto Ramos de Azevedo, do outro lado da rua do Teatro Municipal. A tensão entre as lojas contemporâneas e populares, de um lado, e a arquitetura imponente dos anos 20, do outro, gera um clima sem igual na cidade. Meus impulsos populistas são incendiados pelo ambiente ao subir pela escadaria antiga até o posto da Receita no 2º andar.

Há, logo na entrada, uma fila para pegar senha. Ao lado dos janelões antigos, um pouco mais à frente, estão sentadas quarenta pessoas, em poltronas acolchoadas, como se fosse uma sala de embarque de aeroporto. Olham todos para a frente, em direção à parede, onde um placar eletrônico vai chamando as senhas. A impressão é que toda a história da humanidade foi parar ali. Os estrangeiros fazem nesse local o primeiro CPF. Esquecera-me disso. Há africanos jovens, com camiseta colorida, sentados ao lado de senhores asiáticos, nisseis, me parecem, junto com mulheres de origem andina, peruanas, talvez, e dois ou três gringos, descendentes de europeus do norte, como eu, imagino. A verdade é que não sei de onde vem o povo todo. Gostaria de perguntar, mas não tenho coragem. A cena, de qualquer forma, pede uma foto. Há ali uma diversidade étnica longe de ser banal.

Minha senha é CPF 150. O placar faz um "pling" e exibe a CPF 139. Um senhor de origem andina se levanta e chama dois garotões, filhos seus, só podem ser. Estes vestem a linguagem, hoje universal, da adolescência. Cada um usa uma camiseta com a palavra Hollister, referência a uma cidade costeira na minha Califórnia que nada tem de muito especial. Mas que se tornou uma palavra de ordem, vaga referência a uma vontade global de pertencimento. Os pequenos fones de ouvido estão pendurados na orelha. Os tênis, da Adidas, são novinhos.

Saio do shopping com uma cópia nova do CPF, a data de nascimento regularizada, não se preocupe, e o carinho pela cidade dos imigrantes renovado. Resolvo pegar a Linha Amarela na República, rumo à Estação Pinheiros. Paro um pouco antes da Avenida Ipiranga para ouvir um conjunto equatoriano, com trajes típicos, tocar o som da sua região. Dou 10 reais à manager da banda e ganho, junto com o CD dos San Juanitos, um simpático "valeu, obrigado, alemão".


(texto publicado na Veja São Paulo nº 48 - ano 48)