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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Diário de vida - demissão, pandemia e outras reflexões

O ano de 2020 foi um ano sui generis em muitos aspectos e o principal acontecimento foi a pandemia causada pelo coronavírus.  Coincidentemente, como se costuma dizer, o signo do horóscopo chinês do ano passado foi o rato, o agente transmissor da peste negra ou bubônica responsável pela grande epidemia na metade do século XIV. E após as trevas tivemos no século seguinte o Renascimento de Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Botticelli, Raffaello e tantos outros artistas e é o meu período artístico predileto. 

O distanciamento social obrigou as pessoas a se voltarem para dentro de si mesmas e ressignificarem valores, conceitos e padrões de comportamento.  No meu caso além da pandemia tive que encarar a demissão (a primeira e única) depois de 25 anos. Apesar de não ter sido uma surpresa na hora que acontece não é nada fácil. Mas graças a Deus consegui viver o luto para superar essa dor. 

Vou transcrever uma reportagem sobre a demissão do jornalista Fernando Rocha, apresentador do programa Bem Estar que conseguiu superar e se reinventar.

SER DEMITIDO FOI UM CHOQUE

O jornalista Fernando Rocha, de 53 anos, fala sobre sua jornada de reinvenção depois da saída da Globo.

Era uma terça-feira, quando fui chamado para uma reunião na Globo, em 2019. Na época, eu apresentava o programa Bem Estar. Fui comunicado a seco:  "Você não faz mais parte dos planos da casa". Ser demitido em três minutos depois de trinta anos no canal foi um choque. A sensação era como se eu estivesse caindo no fosso do elevador, e o chão não chegava nunca. Enquanto caía, pensava: qual é meu plano B ? Mas eu não tinha um.

Tenho muita consideração pela Globo e pela trajetória que tive lá. Foi onde aprendi a exercer o jornalismo. Admissões e demissões são parte do jogo. Mas assumo que não esperava a minha. Sabia que mudanças estavam chegando. Havia sinais e eu não os percebia. Era prepotente, achava que nunca seria comigo. Logo se espalhou a notícia de que eu tinha sido demitido por causa de uma piada infeliz que fiz ao vivo, durante uma participação do médico Roberto Kalil Filho. Era uma bobagem sobre a despedida do ovo e da clara, sendo que a última diz para o primeiro: "Não fica triste, a gente se vê dentro do bolo". Quem procurar isso no Google com meu nome vai encontrar mais de 1 milhão de referências sobre esse dia. Virei meme. Temos o hábito de compartilhar essas piadas nas redes - só que, quando eu me tornei a piada, não foi tão engraçado.

Sou mineiro, gosto de contar histórias, de rir, mas não sou o tio do pavê. Tinha lido essa piada na internet e achei que seria uma boa contá-la no ar, mas não foi. O doutor Kalil, que é meu amigo, havia tido uma noite difícil no hospital - e também não é uma pessoa muito bem-humorada. Então, ele não reagiu bem à brincadeira. Mais tarde, nós dois rimos desse episódio juntos. E hoje sei que não foi isso que causou minha demissão. O programa acabou: não tinha mais musculatura para seguir. E eu estava no pacote.

Essa ruptura fez com que eu me reinventasse. Passei por um longo processo de autoconhecimento para descobrir quais talentos eu tinha e como poderia usá-los. Recentemente vimos muitas notícias de pessoas demitidas da Globo, e digo a elas o que eu ouvia lá dentro: "Há vida inteligente fora da Rede Globo". Descobri na prática que essa frase é a mais pura verdade. Existe, sim, vida após a Globo. Percebi que meu talento é contar histórias. E posso continuar fazendo isso fora da emissora. Logo surgiram oportunidades para dar palestras, escrever livros e produzir podcasts.

Quando estava com a agenda a todo vapor, outro golpe: a pandemia. Tenho dito que, em 2019, quando fui demitido, eu parecia um cachorro perdido, que caiu de um grande caminhão de mudança. Em 2020, o mundo também caiu desse caminhão. Este ano forçou todo mundo a encarar um processo de reinvenção. Eu tinha muitos planos e negociações em andamento, mas sou obediente aos médicos, então cumpri bem minha quarentena, fiquei em casa. O plano, então, era só organizar meus livros e ler alguns clássicos. No fim, não fiz isso - consegui, porém, terminar meu segundo livro, Como Ser Leve em um Mundo Pesado (Rocco). Nele, eu abri o jogo sobre esse sentimento de como é ser dispensado de uma grande corporação. Quem passa por isso acha que perdeu tudo: amigos, referências, autoestima. Mas, na verdade, você só perdeu o emprego. Sua essência está intacta. Nesse processo, entendi mais sobre resiliência e sobre ter bom humor para rir de si mesmo. O que também me ajudou foi olhar mais para o outro, ouvir histórias de pessoas inspiradoras, as quais estão neste livro.

Acredito numa frase que diz que as ideias estão no chão e, para encontrar a solução, muitas vezes você precisa tropeçar e cair. É lá, no chão, que vamos enxergar novos caminhos. É uma dica de sobrevivência que foi útil para mim, e espero que possa ajudar outras pessoas.


(Depoimento dado a Raquel Carneiro - texto publicado na revista Veja edição 2712 de 11/11/2020)







sexta-feira, 10 de julho de 2020

Diario di vita: Il mio omaggio a Ennio Morricone


Sono rimasta molto triste quando ho saputo che Ennio Morricone non c'è più. Non volendo fare dei paragoni scherzo sempre dicendo che Morricone è il John Williams italiano.

La prima volta che ho visto un film la cui colonna sonora è stata creata e orchestrata da Morricone è stato Nuovo Cinema Paradiso diretto da Giuseppe Tornatore. 

L'ho visto per la prima volta nel 1989 a scuola quando abitavo in Italia più precisamente a Reggio Calabria. Ci facevo un corso per insegnanti d'italiano all'estero.

Siccome la storia si svolgeva in Sicilia tutti gli alunni si sono sentiti dentro il film una volta che per andare da Reggio Calabria a Messina ci vuole soltanto mezz'ora in traghetto. 

La colonna sonora creata da Morricone è meravigliosa e tutte le volte che rivedo il film piango. 


Ennio Morricone dirige l'orchestra



Morricone riceve l'Oscar onorario



Ennio Morricone riceve il premio Oscar per la colonna sonora di "Hateful Eight"



Un servizio su Ennio Morricone in portoghese






segunda-feira, 25 de maio de 2020

Serendipity soundtrack (trilha sonora do filme Escrito nas estrelas)




Fiz download deste filme dublado em italiano há alguns anos e o tenho assistido repetidamente. É um filme romântico, leve, otimista e com uma trilha sonora linda que enriquece as cenas.





sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Diário de vida: Uma breve história da mortadela - Marcos Nogueira (Bolonha)


Uma das coisas que me acontecem com muita frequência, para não dizer todos os dias, é que por onde eu vá atraio sempre algo que se refere ao italiano, idioma que ensino há 32 anos. Hoje encontrei uma revista no consultório do dentista e me deparei com uma reportagem sobre a mortadela e o artigo começa fazendo referência ao filme de 1971 estrelado por Sophia Loren que se chama simplesmente MORTADELLA. Assisti ao filme no cinema com os meus pais quando nem me passava pela cabeça estudar esse idioma tão lindo. 


Repudiada e tripudiada nas Américas, a mortadela é motivo de reverência na Itália - onde ela sustentou fidalgos medievais e financiou a primeira universidade da Europa.

MORTADELA, O FILME, é uma comédia de costumes de 1971 em que a protagonista italiana - interpretada por Sophia Loren - desembarca em Nova York com um item proibido na bagagem. Uma mortadela, obviamente.

Após o previsível flagrante dos agentes aeroportuários, a heroína da trama vira notícia de costa a costa nos Estados Unidos. Ela se recusa a se separar de seu embutido, gerando um incidente diplomático escandaloso.

As razões para a apreensão da mortadela de Sophia eram sanitárias - todo país é chato na fronteira com alimentos de origem animal -, mas revelam um abismo cultural e gastronômico que separa Itália e Estados Unidos.




Para os americanos, mortadela é sinônimo da carne processada da pior qualidade possível, chamada de bologna ou baloney. O sanduíche da tal bologna aparece nas mais fuleiras cantinas escolares e bibocas afins.

Não é muito diferente no Brasil. Aqui, mortadela tem péssima reputação. Lendas urbanas dão conta de que ela é feita com cavalos velhos demais para puxar carroça. Como a salsicha, a mortadela é aquela carne-mistério que nem procuramos saber do que é feita.

Melhor não saber, mesmo. A mortadela da padaria leva o rebotalho da indústria frigorífica - carnes que não servem nem para serem vendidas frescas, nem para rechear linguiça. E mais um punhado de temperos e outros aditivos para tornar o produto final minimamente palatável.

O resultado é gastronomicamente pífio e muito questionável no que diz respeito à nutrição, mas imbatível no preço. Barata, a mortadela virou uma favorita das classes menos abonadas.

Na Itália, a situação se inverte. Principalmente na cidade de Bolonha, onde nasceu o embutido. Lá, a mortadela é reverenciada por sua história. Ela representa a riqueza de mercadorias medievais e dos intelectuais que  fizeram de Bolonha uma espécie de oásis pensante na idade das trevas.

A mortadela de Bolonha tem o mesmo jeitão da nossa, mas a semelhança é só visual. O sabor é suave, sem a agressividade de especiarias do embutido brasileiro. A cor é rosada, mais viva e mais clara do que o nosso magenta acinzentado.

Os ingredientes são escolhidos a dedo - não se usa a sobra da desossa de animais. Mas o que realmente importa é aquele toque secreto do reclame de Sazón: o amor. Os bolonheses são apaixonados por mortadela, com toda a carga de pieguice que uma paixão italiana possa ter.

SABOR MEDIEVAL

Hoje, a Rua Pescherie Vecchie - viela no centro medieval de Bolonha onde, em outros tempos, concentravam-se os peixeiros - é um playground para glutões. Há quitandas, açougues, pastifícios, mercadinhos e até uma unidade da Eataly, loja de departamentos gastronômica que a Itália exportou para o mundo (e que faz sucesso no Brasil).

Foi lá que encontrei Davide Simoni, em uma manhã escaldante de sábado. A poucos passos de seu empório, na esquina com a Via Drappiere, fica a loja de seus pais, uma instituição bolonhesa. Na Salumeria Simoni, uma multidão majoritariamente italiana se acotovela com senha em mãos, à espera de delícias regionais: tortellini, tagliatelle, presunto cru, queijo parmesão, conservas, molhos, vinagres envelhecidos e, claro, mortadela.

Davide me mostra um quadro pendurado na parede: é um fac-símile de um decreto de 24 de outubro de 1661, assinado pelo cardeal Girolamo Farnese, representante do papa Alexandre 7º. O documento normatiza a produção e a venda de mortadela. É a segunda regulamentação de alimentos mais antiga no Ocidente - mais velha, só a reinheitsgebot, lei bávara da pureza da cerveja, de 1516.

O ato do cardeal Farnese impunha  penas draconianas a quem fraudasse a mortadela: multa de 200 escudos de ouro e um certo tratto di corda. Esse é o nome italiano de uma modalidade de tortura que pendura a vítima numa corda amarrada aos pulsos com os braços virados para trás. Quem tem ombros consegue imaginar a dor.

Além disso, o infrator perdia a licença para fabricar e/ou vender embutidos. Era, provavelmente, a mais dura das punições: naquela época, cerca de 1/3 dos 30 mil habitantes de Bolonha trabalhava direta ou indiretamente com mortadela e salame.

A importância da mortadela para os bolonheses vem dos tempos do Império romano, pelo menos. No Museu Cívico Arqueológico de Bolonha, há duas lápides antigas, uma de cada lado da porta principal. Com cerca de 2 mil anos de idade estimada, as pedras mostram cenas do cotidiano de então. A da esquerda mostra um homem tocando uma vara de porcos; à direita, um indivíduo amassando alguma coisa com um pilão enorme.

Os pesquisadores do museu supõem que as lápides pertenciam ao túmulo de um produtor de mortadela. O pilão servia para triturar os temperos e as carnes. Já a tigela de pedra em que se pilam os temperos, em italiano, chama-se mortaio - essa é a hipótese mais aceita para a origem do nome do alimento.

O processo de produção mudou muito e a bula do cardeal caducou, mas a mortadela segue no radar das leis europeias. O produto rotulado como mortadella di Bologna tem a chancela de um selo IGP - sigla de Indicação Geográfica Protegia -, que estipula a procedência, a composição e os procedimentos na fabricação do embutido.

Para receber o selo IGP de mortadela "oficial", a mortadella bologna não precisa ter sido produzida, necessariamente, na região, mas só pode conter carne suína proveniente de porcos italianos. Não é permitido usar carne de outros animais nem porcos de outros países.

Un prodotto può essere denominato a Indicazione Geografica Protetta quando presenta qualità, reputazione e caratteristiche determinate dalla loro produzione, trasformazione o elaborazione in un’area geografica delimitata.

L’attribuzione del marchio I.G.P. può avvenire solo se almeno una delle fasi di produzione, trasformazione o elaborazione di un alimento avvengono in una specifica area geografica delimitata.
Davide Simoni aprendeu a fazer mortadela com Ennio Pasquini, já morto, a maior autoridade no embutido de Bolonha - e, consequentemente, do mundo. Ele não faz segredo com a sua receita. As carnes são resfriadas a zero grau para otimizar a moagem; depois misturam-se cubos de gordura e as especiarias; a mistura é ensacada numa pele de bexiga suína ou bovina, a depender do tamanho da mortadela. A bexiga é amarrada com barbante e cozinha por vapor a 75º C por 20 horas. Eccola! Mangia la mortadella!

Os ingredientes são poucos. Carne do ombro e tripas do porco. Gordura da papada, que só derrete em temperaturas altas. Alho, pimenta branca e semente de coentro. Por último, mas não menos importante, sal. É com o sal que a história da mortadela começa.


SAL, PORCOS E RIQUEZA

É difícil para uma pessoa do século 21 conceber o valor que o sal - uma das mercadorias mais baratas da cesta básica atual - tinha no mundo antigo.

Humanos e animais precisam de cloreto de sódio para sobreviver. E, sem sal, somos incapazes de estocar alimentos decentemente - nas eras pré-geladeira, ele era o principal agente conservante de carnes, laticínios e legumes.

Embora tenha sempre sido abundante, o sal foi por muito tempo um item de disponibilidade limitadíssima. Longe da faixa costeira, alguns assentamentos humanos tinham a sorte de estar perto de jazidas terrestres de sal-gema. Os outros precisavam importar o sal. Sal era riqueza e poder.

Na Roma Antiga, o sal tinha valor de dinheiro - daí a palavra "salário". Uma das principais estradas do império, a vida Salária (hoje a rodovia SS4), ligava a capital às produtivas salinas do Mar Adriático, no outro lado da Península Itálica.

Até hoje, o sal usado nas boas mortadelas vem de Cervia, na Costa Adriática, a pouco mais de 100 quilômetros de Bolonha. É uma orla propícia para a atividade salineira porque o Rio Pó - o maior da Itália - deposita sedimentos que diminuem a profundidade do mar. Em águas rasas, a evaporação natural eleva a concentração salina.

O Pó também é responsável pela erosão que resultou na maior e mais fértil área agrícola italiana. Na planície padana, ficam algumas das cidades mais importantes do país: Turim, Milão, Parma, Módena, Veneza. E Bolonha.

Por sua localização e topografia, O Vale do Pó sempre foi uma rota quase mandatória para as caravanas na Europa meridional. O comércio de sal trouxe riqueza à Emília-Romanha (região que engloba Bolonha e Parma) - mas muito mais dinheiro entrou com os alimentos salgados.

Os empreendedores locais, ainda na Idade Média, perceberam o altíssimo valor agregado do queijo parmesão, do presunto cru, do salame, da mortadela. Em Bolonha, os salaroli - produtores de carne salgadas- ostentavam poder com uma guilda de mais de 300 associados.

Todo esse dinheiro fez da cidade um polo de artes e cultura, uma exceção no obscurantismo medieval. Foi em Bolonha que surgiu a primeira universidade da Europa, no ano de 1088 - um pioneirismo que seria impossível sem a mortadela.

VAPOR BARATO

Os métodos de produção de mortadela permaneceram quase inalterados até meados do século 19, quando a máquina a vapor chegou a Bolonha e foi adquirida pelos irmãos Zappoli, donos de um frigorífico.

"Os Zappoli foram visionários", diz Davide Simoni. "A mortadela que conhecemos é invenção deles." Ele confessa que ninguém sabe muito bem como era de verdade o aspecto da mortadela pré-industrial. Na prática, os irmãos Federico e Enrico criaram a indústria do embutido.

Para promover a mortadela dentro da Itália, eles contrataram o artista circense americano Buffalo Bill, num espetáculo cheio de caubóis, cavalos e índios cheyennes.

Graças ao Zappoli, a mortadela se tornou um alimento popular em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil.




Longe de casa, a mortadela degringolou e perdeu qualidade. Vejamos a composição de uma marca campeã de vendas no Brasil, considerando que o ingredientes em maior proporção vêm antes na lista: carne mecanicamente separada de aves, água, carne suína, toucinho, carne bovina, sal, açúcar, temperos e especiarias.

Carne mecanicamente separada, a infame CMS, são restos de músculos e tendões que ficam presos aos ossos depois que todas as partes comestíveis já foram removidas. Então as carcaças vão para uma máquina que extrai a raspa do tacho na marra.

Quanto mais baixa a qualidade da mortadela, mais coisa é misturada nela. A lei brasileira divide a mortadela em quatro tipos. As de maior qualidade, com regras mais rígidas de composição, são a "Mortadela italiana" e "Mortadela Bologna". Apesar do nome, elas têm regras bem diferentes do embutido original. Vale misturar carnes de diferentes tipos de animais, e é muito difícil encontrar mortadela no supermercado que não tenha carne bovina nos ingredientes.

Os outros dois tipos têm regulamentação ainda mais... flexível. Se a embalagem disser apenas "mortadela" ela pode ter até 60% de CMS, além de 10% de miúdos, tendões e pele. O resto é principalmente gordura e açúcar, principalmente na forma de amido adicionado.

A última categoria é a "mortadela tipo bologna" - uma categoria criada basicamente para confundir o consumidor. A inclusão da palavra "tipo' muda tudo. Ela é quase tão ruim quanto as piores mortadelas, mas com um limite máximo de 20% de carne mecanicamente separada. É versão da charcutaria do golpe do vinho "reservado" - um vinho ruim, com um nome que lembra o de um produto de melhor qualidade, o vinho de reserva.

As mudanças de receita, claro, são refletidas diretamente no preço - e foram elas que forjaram a tão manchada reputação do embutido no continente. Um quilo de "mortandela" nacional de terceira não chega a R$ 20. A mesma quantidade de mortadella com selo IGP custa R$ 200.

Aqui, enfim, a mortadela é feita de sobras. Como diz a sabedoria popular, é o que temos para hoje. Em Bolonha, ela sempre será a protagonista, a estrela principal, como Sophia Loren nas produções da Cinecittà. A mortadela é a Sophia Loren dos frios.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 406 - agosto de 2019)









sábado, 5 de maio de 2018

Diário de vida: Rossini e a região Marche


Há quase 3 anos faço reciclagem. Tudo começou quando passei a ajudar um carroceiro levando a ele papelão que pegava no restaurante no qual costumo almoçar. Um dia vi um rapaz recolhendo papelão e ele me mostrou a carteirinha da Eletropaulo onde tudo que ele levava se convertia em crédito que depois era abatido na conta de luz. Era só levar o comprovante onde há o número do consumidor e começar a recolher material. 

Fazer reciclagem acabou virando um "vício" porque toda vez que saio de casa volto com papel, papelão, latinhas e garrafas de plástico e de vidro. 

Hoje de manhã assim que sai havia 2 revistas jogadas na calçada na esquina de casa. Uma delas é um exemplar de março de 1998 do guia de programação do Multi Canal. Antes de reciclar sempre dou uma olhada nas revistas e achei uma reportagem interessante sobre Gioacchino Rossini, il cigno di Pesaro (o cisne de Pesaro), que nasceu na região que considero a minha segunda casa, Marche,  da qual Pesaro é uma das 4 províncias. 

A reportagem publicada há 20 anos comemorava os 130 de morte do compositor de óperas clássicas como O barbeiro de Sevilha e A Cinderela. Vou transcrever abaixo o texto. 

por J. Jota de Moraes de São Paulo

Preguiça. Foi exatamente a ela que se entregou Rossini nas últimas décadas de sua vida. Mas, antes de se dedicar langorosamente aos chamados prazeres da mesa e da conversação espirituosa, ele havia feito carreira meteórica e brilhante: tornara-se mundialmente famoso como o mais espetacular compositor de ópera italiana. Nos seus primeiros 38 anos de vida, compusera nada mais  nada menos que 39 espetáculos para a cena lírica (incluindo aí as várias versões e revisões de partituras originais). Na verdade, todo o panorama artístico peninsular anterior ao aparecimento de Verdi foi dominado por ele. Hoje, passados 130 anos de sua morte - e isso aconteceu em Passy, junto a Paris, no dia 13 de novembro de 1868 -, sua glória continua viva. [...]

Gioacchino Antonio Rossi nasceu em Pesaro, na Itália, em 29 de fevereiro de 1792 - alguns meses depois do desaparecimento de Mozart, portanto. Herdou do mestre de Salzburgo a facilidade para escrever óperas de maneira cintilante. Contemporâneo do Casmurro Beethoven, recebeu dele o conselho de não escrever música séria demais, algo que nem sempre levou em conta, felizmente. Rossini se transformou no mais popular compositor do início do século passado, inclusive porque soube adequar a linguagem clássica às novas necessidades expressivas do Romantismo nascente. Na sua música, tudo soa soberbamene claro e, ao mesmo tempo, emotivo.

Pecados - Ele foi o rei das melodias envolventes e com frequência acrobáticas entregues aos cantores. Foi mestre ao tratar a orquestra como um organismo vivo, capaz de soar rindo e chorando. E que conquistava o público com suas animadas explosões sonoras, requintados jogos de timbres e de "aumentados" e "diminuendos" carregados de eletricidade.

Todas as óperas de Gioacchino Rossi foram escritas entre 1812 e 1829. Para citar algumas delas: La Scala di Seta, L'Italiana in Algeri, Otelo, A Cinderela, Semiramide e Guilherme Tell. A mais famosa continua sendo Almaviva, Ossia L'inutile Precauzione, posteriormente conhecida como O Barbeiro de Sevilha. 

Retirando-se do mundo da ópera bastante rico, Rossini continuou a compor, só que privadamente. Datam desses anos de retiro várias obras sacras e uma infinidade de miniaturas para piano e de cançonetas que ele batizou de Pecados de Velhice - tudo rigorosamente delicioso de ser ouvido.



(texto publicado na revista Guia de Programação Multi Canal - nº 49 - ano V - março/1998)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Diario di vita: in giro per San Paolo il martedì grasso


Oggi ho deciso di andare al Masp. Ci sarei dovuta andare con il professor Vilhena e i miei compagni di classe del corso "Decifrando imagens" ma ero talmente stanca che ci ho rinunciato l'anno scorso. Siccome molte strade erano bloccate sono dovuta scendere dall'autobus alla fermata della Consolação con la Paulista e sono andata a piedi fino al museo. Ma prima ho fatto un salto al Starbucks per prendermi un cappuccino. Ne ho bevuto un po' e sono uscita dal locale con il bicchiere e ho finito di berlo nella fila del Masp. Sono andata direttamente al primo piano dove c'è l'esposizione "Histórias da Sexualidade" e poi sono andata al secondo piano dove c'è l'acervo permanente. All'entrata distribuiscono ai visitanti una tessera e il ragazzo mi ha parlato in inglese pensando che io fossi giapponese. Abbiamo cominciato a chiacchierare e lui mi ha detto che era in Brasile da un anno circa venuto dal Marocco. Ho colto l'occasione per praticare il francese e lui mi ha detto che avevo un bell'accento. Gli ho chiesto di fare una foto insieme per illustrare questo post e lui mi contatterà perché io gli possa passare il link del blog. 

Mi è dispiaciuto non aver fatto la visita con il professor Vilhena, ma ho seguito il suo consiglio di guardare il quadro e cercare di sapere chi l'aveva dipinto. Ne ho azzeccati pochissimi: Giovanni Bellini, Monet, Van Gogh e Tintoretto. 


Con Youssef che lavora al Masp


Giovanni Bellini

Maestro di San Martino alla Palma


Monet


Raffaello Sanzio







domingo, 26 de novembro de 2017

Uma velhice arrebatadora - Walcyr Carrasco


Envelhecer é um fato e o sinal dos tempos em nosso corpo nos faz ver isso. Mas e a alma? Envelhece também ? Cheguei à conclusão que não. Depende de quanto queremos ainda viver, de quantos sonhos ainda temos, enfim, de quanto nos amamos e nos damos valor. 

Como nada em nossa vida acontece por acaso, enquanto esperava a sessão de quiropraxia, comecei a ler uma edição da Época. O primeiro texto que procuro toda vez que abro um exemplar dessa revista é a coluna do Walcyr Carrasco. E foi com prazer que o tema era justamente a velhice, mas uma muito bem vivida pela consagrada atriz Fernanda Montenegro.

Uma velhice arrebatadora

Fernanda Montenegro tem uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos

Já admirava Fernanda Montenegro havia muitos anos. Era jovem quando assisti a sua magnífica interpretação em As lágrimas amargas de Petra Von Kant. Saí impactado. Fernanda pertence a uma geração de atores formada nos palcos. Nunca fez questão de ser a mais bonita, a exuberante. Ao lado do marido, Fernando Torres, já falecido, investiu sempre na carreira teatral. Surgiram a televisão, o cinema. Foi finalista do Oscar por Central do Brasil. Feio fez a Academia, ao não lhe dar o prêmio. Há pouco tempo, ganhou o Emmy por uma série da TV Globo.

Ainda vive em mim algo do menino de interior de São Paulo que fui um dia. Fico tímido diante de quem admiro. Em um evento da Globo, há dois anos, ela me abordou. Para minha surpresa, disse que gostaria de trabalhar comigo. Quase me ajoelhei. Explicou que já tinha mais de 80. Seria bom não demorar muito tempo, avisou. Óbvio, criei um papel para ela na minha novela atual, O outro lado do paraíso. Um personagem especial, inspirado em uma vidente que conheci no interior do Tocantins. Dia desses, fui visitar as gravações. No camarim, Fernanda, orgulhosa, se contemplou no espelho.

– Estou sem maquiagem.

Aviso. Ouvir isso de uma atriz, ainda mais de uma estrela como é Fernanda, é raríssimo. Não só de atrizes. Eu mesmo gostaria, quando dou entrevistas, de passar pelas mãos mágicas de um maquiador. Uma boa maquiagem elimina sinais de idade. Diante da iluminação, torna os rostos muito mais atraentes. Para uma atriz, abrir mão da maquiagem é o mesmo que expor todos os sinais do tempo, as marcas da vida. Fernanda, como a vidente Mercedes, não usa nenhum artifício. Também a observei nas entrevistas. Lúcida, com um raciocínio exato e conciso, ao fazer declarações sobre os recentes ataques a exposições de arte. Surpresa! Justamente no dia da minha visita, era seu aniversário. Haveria um bolo em sua homenagem. Coisa simples, apenas com o pessoal que estava no cenário, não mais de seis ou sete pessoas.

Cantamos “Parabéns”. Cortamos o bolo. Oferecemos um buquê de flores. Alguém comentou sobre o fato de estar trabalhando justo no dia do aniversário. Ela disse:

– Só tenho a agradecer por estar com 88 anos, aqui, gravando. Ser atriz é o que quis fazer toda a vida. Possuir condições físicas para trabalhar é uma dádiva. A oportunidade de ter um papel, de viver meu personagem, é a melhor comemoração que posso ter. Existe felicidade maior?

Cortou o bolo, ofereceu. Depois se retirou emocionada e majestosa. Porque uma grande atriz, mesmo nas roupas simples da vidente Mercedes, continua a possuir uma aura. Uma beleza especial que transcende a velhice, a passagem dos anos.

Sempre fui pessimista em relação à velhice. Meu olhar sempre se voltou para os problemas, as doenças. No entanto, diante de Fernanda Montenegro, descobri que a velhice pode ser uma fase intensa, cheia de vida, de emoções. No dia da estreia da novela, chovia. Também teve tiroteio no Rio de Janeiro, o que se tornou, lamento, habitual. Houve uma festa, perto dos Estúdios Globo, para atores e equipe assistirem ao primeiro capítulo juntos. Eu demorei uma hora e meia para chegar. Fui avisado. Fernanda não viria. Havia gravado o dia inteiro e voltado para casa. Precisava descansar.

Sentei-me, à espera da novela. Quase no momento de começar, veio novo aviso. Fernanda chegara. Fui até sua mesa. Peguei sua mão. Tremia. Emocionada, como uma principiante. As lágrimas caíam. Explicou. Estava em casa, havia trânsito e tiroteio no caminho. Mas não conseguiu ficar solitária no apartamento. Era uma estreia! Seu coração falou mais alto. Apesar de tantos trabalhos, prêmios, sua emoção era idêntica a minha, do diretor Maurinho, de todos os atores. A mesma emoção que senti quando meu primeiro livro foi editado, peguei impresso nas mãos. Cada estreia de uma peça, de uma novela, quase tenho um enfarte de tão rápido que bate o coração. É o sentimento de todo artista. Do pintor na última pincelada. Do escritor no ponto final. Talvez sejam essas emoções tão intensas que dão forças para um artista enfrentar o mundo. Arte proporciona um contato com algo que está além de mim, de nós. É uma conexão com o impossível.

Fernanda me tocou, me toca. Onde estarei aos 88 anos, pensei. Então entendi. Ela nunca terá os 80 cronológicos. Continua intensa a cada papel. É seu segredo para uma vida luminosa. Tornar a velhice tão arrebatadora e criativa como a juventude.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Diário de vida: Ela é de câncer (será que eu sou assim?) - Bárbara Morais


Ih, meu amigo. Ela de câncer. Pode se preparar, que essa daí vai dar trabalho.

Ela é muito mais complicada do que qualquer outra coisa que você já ousou tocar.

Ela é de câncer. Ela é complexa, extensa, e não vem com manual de instrução. Ela é variável, imprevisível, inquieta.

Ela é de se entregar, de corpo e alma. Não gosta de pular de coração em coração, mas vai fazer isso até achar um para se acomodar.

Ela gosta do seu carinho, e vai implorar por ele até ganhar. Ela quer demais, mas nem sempre consegue o que quer. E quando isso acontece… Ah, que explosão!

Ela é sensível, como os seus arrepios quando você a toca. Qualquer frase bonita a faz chorar, e qualquer problema já a deixa desesperada. Mas ela nunca desiste. Por mais complicado a situação está, ela vai até o fim. Ela é determinada, exigente, perfeccionista. Essas não são as qualidades ainda.

Não é porque ela muda de assunto de uma hora pra outra, que quer dizer que ela não ouviu o que você estava falando. Ela estava, porém você a fez pensar em outra coisa.

Mas se ela deixar de falar, corre o risco de seus pensamentos correrem. Se ela não responde ou fica te encarando, ela não está te intimando. Ela só quer te olhar, e lembrar do seu rosto daquele jeito, naquele lugar.

Ela gosta de saber que é amada, que é especial e que nunca será a única no seu coração. Ela é insegura, coitada.

Ela é pura poesia. Sentimento, amor. Ódio também. Vingativa até sua última gota de sangue. Cheia de mistérios, mas ela está disposta a deixar você descobrir, mas só se você merecer.

Não é qualquer um que entra nas profundezas de uma canceriana. Não é escorpiano, não é pisciano. É amor. Amor é a chave para seu coração. Mas tome cuidado. A gente nunca sabe o que encontrar lá dentro.

Vish, ela é de câncer. Ela é de fases. Ora está feliz, ora está quieta em um canto ouvindo uma música triste. Muito provável que esteja chorando baixinho. O motivo? Ah, até ela te explicar… Às vezes ela soluça de tanto chorar. Às vezes ela rola no chão de tanto rir. Ela vive apenas para ser feliz, mas nem sabe o que é felicidade ainda.

Os sentimentos dela, são montanha-russas eternas, que não tem hora para parar. Ela gosta desse clichê que é a vida, mas também gosta de coisas originais. Gosta de cantar na rua, correr para abraçar suas amigas, não tem lá muita vergonha. Timidez? Passa longe.

Mas a menina é possessiva, viu? Ciumenta até. Não suporta ver outros ouvindo suas bandas favoritas, e os filmes que ela gosta, só ela pode ver. Se você um dia disse que era dela, você será dela pra sempre. Até ela perceber que ninguém é de ninguém, e só ela pode ser dela mesma. Ela vai cuidar de você, como se fosse um bichinho de pelúcia. Um peixinho no aquário. Ela vai te deixar livre, só não invada a liberdade dela.

Ela até gosta do passado. Gosta das memórias, das lembranças, das histórias que a fizeram rir um dia, até daquelas que a fizeram chorar. Mas ela prefere sonhar com o futuro. Com todas as coisas que ele ainda guarda, e ela quer ir lá, à pé, para descobrir. Tão sonhadora, que mal consegue se manter no chão.

Ela é de câncer. Fácil de conquistar, difícil de manter. Ah, mas eu te falo, que vale a pena. Não jogue o amor dela fora, não. Hoje em dia, tudo o que ela tem para te dar é ouro. Não deixa ela ir embora, pois ela pode nunca mais voltar. Se voltou uma, você tem sorte.

Filha do mundo. Não quer ser dona dele. Ela quer apenas viver, sentir e aprender.

Sim, ela é de câncer. Mas sente mais que todos os signos do horóscopo juntos.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Diário de vida: Decifrando imagens: artes visuais e estratégias para o olhar



Conheci o João Vilhena em 2008 quando se inscreveu na minha turma no curso de italiano. Ele é professor de história e é apaixonado pela Itália, principalmente por Florença e o período histórico da Renascença, algo que nos aproximou desde o começo. Depois de um intervalo de 4 anos, ele retomou o estudo da língua italiana em 2012 e em seguida começou a ter aulas particulares comigo. Entre idas e vindas por causa do trabalho, já se passaram 9 anos. É o meu único aluno a "longo prazo". 


Em agosto deste ano a situação se inverteu: passei a ser uma sua aluna no curso "decifrando imagens". Como sempre repetia que não era muito visual, o João um dia me convidou para ir assistir a uma aula em um espaço em Pinheiros justamente no dia em que iria falar sobre Florença e a família Medici. 

O que dizer a respeito desse curso que acabou hoje ? Simplesmente maravilhoso!!! 

O que pode parecer a princípio um curso de descrição de imagens, à medida que ele se desenvolve se transforma em um mergulho dentro de nossa alma: o que pensamos, o que sentimos, como interagimos com o próximo, as nossas crenças e tantas outras coisas. 

O curso é altamente recomendado!!!!! 

Ele agora será oferecido de novo no espaço Casa Tombada 





Decifrando imagens: artes visuais e estratégias para o olhar

Afinal, o que é uma imagem? Como articulamos nosso repertório pessoal aos dados do mundo externo para dar sentido ao que vemos? O que artistas de todas as épocas têm a nos dizer sobre nosso próprio olhar e sobre ser humano? Essas e outras questões estão no centro deste curso, no qual os participantes são convidados a refletir sobre a dimensão cultural dos fenômenos visuais, a partir do contato com pinturas, esculturas, desenhos, peças de propaganda, excertos de filmes e de textos, todos episódios marcantes da história das artes humanas. Por meio de um método de descrição e interpretação de imagens, praticado coletivamente, investigaremos a visão como linguagem, e as narrativas visuais como suporte para a construção do atributo que nos faz humanos, de fato – a imaginação.

Neste curso, os participantes irão perceber, conhecer e construir estratégias para ampliar seu próprio repertório visual, enriquecendo a capacidade de observação e o estabelecimento de relações entre por meio de imagens. A visualidade encontra-se aqui tratada como um fenômeno individual e social, para além do sentido da visão, englobando outras esferas, como memória, afetividade, lógica, percepção, espiritualidade e os demais sentidos, fruto da busca humana por atribuir significado ao que nos cerca.


Passaremos por pinturas, esculturas, filmes, peças de propaganda, quadrinhos, desenhos, construções, entre outros, exploraremos neste curso algumas das principais narrativas humanas, símbolos, mitos antigos e contemporâneos, gêneros artísticos, biografias de criadores, aspectos psicológicos e condições históricas. Tal exploração ocorrerá – tendo como ponto de partida os temas destacados no programa – por meio do desenvolvimento de um método coletivo de observação e descrição de imagens que, progressivamente, trará instrumentos para que cada um dos participantes reconheça e desenvolva seu próprio olhar, condição importante para o enriquecimento da percepção dos fenômenos culturais que fazem parte do vasto e ricoacervo produzido pela humanidade.

Quando: De 17/10 a 21/11 terças-feiras das 19h30 às 22h30
Investimento: R$420,00 ( pagamento em até 3x)
Desconto de 10% para alunos e ex-alunos das pós-graduações da Casa Tombada


Programação:
1. Apresentação – Os que olhos não vêem, o cérebro vê!
As interações fascinantes de natureza, cultura, linguagem e memória na construção da experiência visual.
2. Palavras, símbolos, códigos visuais – Mitologias e sua dimensão visual na Arte.
O que é uma narrativa visual? Como ela nos aproxima de histórias consagradas?
3. Retratos e espelhos – O desejo de ver e ser visto.
O rico e estranho parentesco entre decalques de mãos em cavernas e os selfies contemporâneos.
4. Um dilema visual – Uma imagem não vale mais do que mil palavras…
O exame de séries de imagens como antídoto para interpretações apressadas.
5. Inspiração e transpiração – Afinal, existem obras-primas?
Esboços, rabiscos, rascunhos e a difícil tarefa de transpor a barreira da imaginação.
6. Originais e cópias – O espectador-artista.
Afinal, o que somos diante de uma obra?

João Eduardo de Vilhena é historiador e professor de História, com mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo, defendendo, em 2007, a dissertação "Metrópole na ponta do lápis: charges e urbanização em São Paulo - 1900-1914". Tem trabalhado com grupos de alunos de todas as idades nos últimos quinze anos, com ênfase na História da Cultura, destacando-se as áreas de História da Arte e História da Tecnologia. Atualmente, desenvolve projeto de doutorado sobre as relações entre a economia e produção artística no Renascimento italiano.



domingo, 10 de setembro de 2017

Diário de vida: A arte de ouvir - Reinaldo Passadori


Hoje o  padre Adão disse na missa que nascemos com dois ouvidos e uma boca por uma razão: termos a disponibilidade para ouvir mais e falar menos. Ele falou também sobre o excesso de informações e a necessidade (eu diria vício) de fazer mil coisas ao mesmo tempo. As pessoas perderam o foco e a dispersão tem tomado conta do mundo. A maioria das pessoas quer ver, falar e estão perdendo a capacidade de ouvir, de sentir o outro. 

Vou transcrever um texto que vem bem a calhar.

Perceber, reconhecer, entender, compreender, valorizar, dar atenção, respeitar... São vários nomes diferentes para um processo tão simples, mas ao mesmo tempo tão difícil de ser praticado: ouvir, de fato, o outro.

Ouvir não significa simplesmente escutar os sons da voz ou acompanhar o raciocínio do interlocutor. Significa, antes de tudo, ter paciência e tolerância para aceitar a outra pessoa como ela é, com suas qualidades e seus defeitos, crenças e emoções, com sua aparência, quer nos seja agradável ou desagradável, sem pré-julgamentos. Concordo com quem disse que esse não é um processo fácil, embora pareça tão elementar.

Vamos analisar um pouco as causas dessas dificuldades. É muito comum compararmos o mundo ao nosso próprio referencial de vida, de como percebemos o mundo, que passa a ser o "nosso mundo". Incluem-se aí os nossos valores, conceitos e preconceitos.

Além disso, as pessoas aproximam-se pelas semelhanças e não pelas diferenças, desmistificando a crença popular de que os opostos se atraem. Se observarmos bem, antes da diferença há muita convergência, situações comuns, similaridades que atuam como facilitadoras de um processo de entendimento e consideração e a partir daí eventuais diferenças de caráter, atitudes ou comportamentos passam a configurar uma relação afetiva.

Se observarmos bem, quando admiramos uma pessoa dizemos: "Que pessoa extraordinária! Que pessoa agradável! Que pessoa simpática!" Enquanto isso, lá no fundo, um outro comentário quase imperceptível complementa... tão parecida comigo!" Também fica fácil entender tal atitude por outra simples razão: só percebemos qualidades e defeitos nos outros quando nos chamam a atenção porque em potencial essas características existem em nós mesmos.

Se precisamos falar com o outro de verdade, primeiro é necessário querer e esse querer precisa ser um desejo, uma vontade inquebrantável que não nos fará desistir diante da primeira adversidade. Depois, devemos ter e exercitar a flexibilidade, colocando-nos no lugar do outro, empaticamente.

Aliás, empatia é isso mesmo: ajustar-se ao estilo, momento psicológico, crenças e valores do mesmo interlocutor e nessa projeção conseguir melhor entendimento. Algumas sugestões importantes para quem, de fato, deseja ouvir de verdade outra pessoa e, a partir daí, abrir uma porta de entrada para o relacionamento: amizade, vendas, negociações, lideranças, amor, etc...

Olhe nos olhos da outra pessoa e perceba-a nos seus detalhes, esteja com a atenção focada e envolvida com ela.

Procure manter a calma, evite deixar-se dominar por algum preconceito ou algo de outra pessoa que desagrada.

Tenha paciência, saiba aceitar o silêncio da outra pessoa.

Evite contradizer o outro, evitando as palavras "mas", "todavia", "entretanto", "contudo". Procure, antes de qualquer discordância, algum ponto com o qual vocês concordem.

Valorize e respeite as opiniões de seu interlocutor.

Demonstre respeito pelo outro como o outro é, e não como gostaria que fosse.

Crie condições favoráveis para o outro expressar livremente suas ideias e opiniões, saiba ter tato para lidar com a discordância.

Concentre as diferenças no campo das ideias e não permita que sejam levadas para o lado pessoal.

Certifique-se de que você compreendeu de fato o que o outro queria transmitir; repita, questione, pergunte, evite ao máximo interpretações infundadas.

Por último, faça bom uso do grande amor que você tem em seu coração para aceitar incondicionalmente as outras pessoas como são: cheias de defeitos, limites, preconceitos e, também, repleta de virtudes, sonhos, conhecimentos, de sentimento. Assim como você. 

Ouvir e escutar são duas ações diferentes. Ao longo do dia ouvimos muitas coisas, mas escutamos muito pouco. Quando ouvimos, não prestamos atenção profundamente, simplesmente captamos a sucessão de sons que são produzidos ao nosso redor. Enquanto que, quando escutamos, nossa atenção está dirigida a algum som ou mensagem específica, ou seja, existe uma intenção; nesse momento, todos os nossos sentidos se encontram focados no que estamos recebendo. Assim, as pessoas que sabem escutar os demais os acompanham em sua viagem pela vida.

Aprendendo a escutar

Um provérbio oriental diz: "Ninguém coloca mais em evidência sua má criação, do que aquele que começa a falar antes que seu interlocutor tenha terminado".

O que acontece é que, às vezes, quando estamos falando com outra pessoa, ambos temos a dificuldade de escutar, passando, em muitas ocasiões, a apenas ouvir enquanto elaboramos o que vamos dizer assim que o outro terminar, ao invés de prestar atenção ao que estão nos dizendo. Dessa forma, o diálogo fica bloqueado por pausas verbais, já que, se todos querem falar ao mesmo tempo e as razões de ambos não são escutadas, não há diálogo; há apenas monólogos se sobrepondo.

Saber escutar é uma atitude difícil, já que exige o domínio de si mesmo e implica atenção, compreensão e esforço para captar a mensagem do outro. Significa dirigir nossa atenção ao outro, entrando em seu âmbito de interesse e seu ponto de referência.

O diálogo exige uma atitude silenciosa, na qual se escuta atentamente. O escritor e orador J. Krishnamurti afirmava que "Escutar é um ato de silêncio". Enquanto não calarmos nosso diálogo interno e prestarmos atenção ao nosso interlocutor, não aprenderemos a escutar. Somente a atitude de escutar atentamente faz com que a resposta que daremos ao nosso interlocutor crie força. Se não abrirmos nossos ouvidos para escutar completamente, será difícil poder dizer ao outro algo que seja válido.

Se realmente escutarmos, a pessoa que fala sentirá que estão dando a ela a importância que ela merece, ficando agradecida e criando em si, dessa maneira, um clima de respeito, estima e confiança.

"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: 'Se eu fosse você... ' A gente ama não é a pessoa que fala bonito. E a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção. Todos reunidos alegremente no restaurante: pai, mãe, filhos, falatório alegre. Na cabeceira, a avó, com sua cabeça branca. Silenciosa. Como se não existisse. Não é por não ter o que dizer que não falava. Não falava por não ter quem quisesse ouvir. O silêncio dos velhos. No tempo de Freud as pessoas procuravam os terapeutas para se curarem da dor das repressões sexuais. Aprendi que hoje as pessoas procuram os terapeutas por causa da dor de não haver quem as escute. Não pedem para ser curadas de alguma doença. Pedem para ser escutadas. Querem a cura para a dor da solidão." (...)

(Rubem Alves, em "Se eu fosse você" (do livro "O Amor Que Ascende a Lua")


(texto publicado na revista Leve & Leia nº 147 - ano 11 - edição agosto/setembro de 2017)

Diário de vida: São Francisco de Assis


Esse ano completo 30 anos de carreira como professora de italiano. E não me canso de repetir que a cultura italiana iria entrar na minha vida de qualquer jeito. No primeiro ano do ensino fundamental estudei em uma escola que foi fundada para atender aos paulistanos da comunidade italiana. E comecei a trabalhar com 17 anos em uma empresa italiana. Mas o mais incrível é como São Francisco de Assis sempre fez parte de minha vida. 

Moro há muitos anos em um bairro chamado Vila São Francisco. Quando estava no colégio a professora de filosofia nos deu como lição de casa irmos ao cinema assistir ao filme "Irmão sol, irmã lua" de Franco Zeffirelli. E tomarmos nota do que achássemos relevante durante a projeção. Devo ressaltar que o áudio era em inglês com legendas em português como é costume no Brasil.

Anos mais tarde quando morava em Reggio Calabria, a professora de cultura nos fez assistir ao filme "Fratello sole, sorella luna" dublado em italiano, como é costume nesse país. O filme era o mesmo, mas a edição não, o que mudou o ritmo da narrativa. 

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a interpretação da canção-título. Em inglês é interpretada por Donovan, em italiano, por Claudio Baglioni.

E hoje na missa durante a comunhão tocaram a canção "Doce é sentir" que é a versão em português. 

Realmente hoje a missa foi muito especial, porque o Pe. Adão tem uma voz bem marcante e durante a homilia tratou do tema "viver, sobreviver e conviver" e ilustrou a exposição com exemplos de sua vida pessoal o que me prendeu a atenção e nem senti o tempo passar. 

Brother sun, sister moon - Donovan



Fratello sole, sorella luna - Claudio Baglioni



Doce é sentir - Elizabete Lacerda




domingo, 28 de maio de 2017

Diário de vida: A história de Elsa (Born Free - 1966)


O primeiro  filme do qual me lembro se chama Born Free (A história de Elsa) que conta a história verídica de uma leoa chamada Elsa que é adotada por um casal, mas quando ela cresce percebem que deve viver em liberdade e a levam a uma reserva no Quênia.

A música-tema que dá nome ao filme, Born Free, foi composta por John Barry, autor de várias trilhas sonoras, como por exemplo, do filme Em algum do passado (Somewhere in time) estrelado por Christopher Reeve e Jane Seymour. 


Diário de vida: Renkon


Ontem fui à Liberdade porque queria comprar algumas revistas sobre lírica e como estava na hora do almoço fui ao Nandemoya. Hoje posso dizer que comi bem, quer dizer com um pouco mais de apetite. Um peixe grelhado delicioso, mas principalmente o renkon. Faz tempo que não o comia e estava muito gostoso. Não me lembrava mais do nome e tive que perguntar para uma funcionária do restaurante. Eis uma receita feita com ele.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Diário de vida: reflexões sobre a língua e a música italianas


No final do ano passado logo após o Natal dei um pulo no centro da cidade e por acaso perguntei ao vendedor em uma loja de discos se ele tinha algo do trio Il Volo. Encontrei o CD + DVD Notte Magica que acabei comprando. Cheguei em casa e assisti ao vídeo. Em um primeiro momento achei que se tratava de três cantores de música lírica, mas a minha intuição (sempre ela) me disse para pesquisar. Comecei a assistir a vários vídeos: de música, de entrevistas, os de funny moments e fiquei apaixonada pelos rapazes. 

Na verdade eu tinha começado pelo final porque o concerto feito em Florença em 2016 em plena Piazza Santa Croce e regido pelo maestro Placido Domingo foi o último trabalho feito por Gianluca, Ignazio e Piero. 

Em janeiro fiz um curso intensivo do Il Volo e achei um e-book que adquiri para colocar em ordem cronológica o imenso material à disposição na net. E a minha colega Denise me trouxe da Itália o livro autobiográfico Il Volo Un'avventura straordinaria - La nostra storia. 

E à medida que ia conhecendo os rapazes foi crescendo também a vontade de assistir a um show deles. E fiquei pensando no motivo pelo qual me tornei fã deles. Eu admiro vários cantores, mas só fui a alguns shows de música japonesa com minha mãe e a um único  do Roupa Nova. 

Acho que antes de mais nada é porque são italianos e não é à  toa que me tornei professora de italiano de tanto que amo esse idioma. Mas não era só isso porque admiro muitos cantores italianos como Lucio Dalla, Raf, Gianni Morandi, Jovanotti, Bocelli, Ramazzotti e tantos outros, mas nunca pensei seriamente em assistir ao show de um deles. 

Não vou falar do talento deles como cantores porque isso é mais do que evidente, mas o que me chamou a atenção é que são simpáticos, espontâneos, divertidos e principalmente humildes. Sinto que a presença deles está me ajudando a recarregar as baterias depois de trinta anos de carreira. 

Eu me identifico com eles de maneira diversa. Gosto de Frank Sinatra, Dean Martin e Elvis Presley como Gianluca. Com Piero tenho em comum o gosto pelo jogo de palavras (le battute) e sou fã de Pino Daniele como Ignazio. 

Do ponto de vista profissional estou conseguindo atualizar a língua porque faz tempo que não viajo para a Itália. 

Gostaria de agradecer muito aos rapazes pela ajuda que estão me dando.

Vi voglio tanto bene!!!






segunda-feira, 8 de maio de 2017

Piadina romagnola


Sabato ho mangiato una piadina romagnola con tè al limone (promozione del giorno). Ne ho ordinata una con pomodoro e formaggio e ho potuto ricordare di quando sono stata in Emilia Romagna nel primo viaggio fatto in Italia. Ecco la ricetta. 



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Diário de vida: Homenagem a Ayrton Senna


Hoje faz exatamente 23 anos que Ayrton Senna da Silva nos deixou. Quando vi a batida violenta de seu carro contra o muro na curva Tamburello não pensei no pior. Do autódromo de Imola ele chegou a ser levado ao hospital de Bolonha, mas acredito que já estivesse morto. Não quero entrar em polêmica porque isso não o traria de volta. Creio que de todos os grandes brasileiros que tivemos até hoje, ele seja o mais lembrado até pelos que nem tinham nascido na época. 

Já fui visitar o seu túmulo no cemitério do Morumbi e sempre por conta de estrangeiros: a primeira vez foi um rapaz italiano que tinha vindo ao Brasil para tentar entrar no mercado vendendo os famosos cristais de Murano (Veneza). Após termos visitado várias empresas ele me perguntou se o cemitério onde o Ayrton estava sepultado era muito longe de onde estávamos (no Brás). Foi fácil localizar o túmulo porque fica bem no meio do cemitério. Além disso havia tantas flores, bilhetinhos e homenagens. Da segunda vez levei o meu primo que veio ao Brasil com a esposa em viagem de lua de mel. Da terceira vez um outro italiano. 

Eu me lembro que eu tinha uma turma na segunda de manhã, mas não foi possível trabalhar direito porque alguns alunos choravam copiosamente. 


Tributo a Ayrton Senna - Quando le parole non contano



Ayrton Senna - o mito