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quinta-feira, 31 de março de 2016

Ser bom por quê? - Jairo Bouer


Generosidade talvez seja um dos principais norteadores que nos fizeram chegar até aqui, vivendo em sociedades e grupos cada vez maiores e mais complexos. Mas, além de ela não ser uma prerrogativa exclusivamente nossa, humana, parece que anda rareando cada vez mais entre nossos pares nos dias que encerram o ano de 2015.

Como explicar um ataque bárbaro de fundamentalistas a uma das principais cidades do mundo. Paris? Como entender o mar de lama que arrasou rios, vilarejos e provocou uma das piores catástrofes ambientais da história do Brasil? Como tolerar a persistente violência contra mulheres, que atravessa os séculos em nossa terra? Como justificar o desejo de se manter a todo custo no poder, que faz com que muitos dos nossos partidos e políticos envergonhem diariamente a população?

Ser generoso é ter um olhar mais amplo, que enxerga mais longe e supera eventuais diferenças e dificuldades. É conseguir ter empatia, se colocar no lugar do outro, entendendo seu sofrimento e suas necessidades. É poder, sem abrir mão de crenças e princípios, ajudar quem precisa. É conseguir romper as amarras egoístas e narcisistas que nos fazem focar apenas em nossas próprias questões. É estar aberto para mudar o tempo todo, se reinventar, à medida que o mundo assim exigir. É poder ajudar e permitir que sejamos ajudados.

Durante muito tempo, se imaginou que altruísmo, bondade e generosidade eram atributos quase exclusivamente humanos. O tempo, as pesquisas e as imagens nos mostram que muitos animais também agem para ajudar outros da mesma espécie e, muitas vezes, até de espécies distintas. Mas, sem dúvida alguma, somos os que mais se valeram dessa possibilidade para construir arranjos comunitários cada vez mais intricados e sofisticados.

Infelizmente, apesar de amplo uso que fizemos da generosidade em nossa evolução, estamos devendo muito nesse quesito, tanto para o mundo como para nós mesmos! Sendo a espécie que controla e impacta com mais força à Terra, precisamos ter mais cuidado com o habitat que nos cerca, nem que isso signifique abrir mão, em alguma extensão, de prerrogativas e de confortos. Sem isso, podemos estar inviabilizando a vida das próximas gerações, humanas ou não. 

Sem reavaliar a relação que temos com o poder e o mau hábito de tentar limitar o que os outros são e podem fazer, impondo um sistema de crenças que imobilize os demais, vamos tornando a coexistência cada vez mais difícil por aqui. Criamos hostilidades, disputas, ódio e guerras! Abrimos mão da capacidade de cuidar do outro, de abrir espaços, de criar redes de colaboração e de solidariedade. Vamos perdendo nossa humanidade e nos tornando mais monstruosos!

Ser bom por quê? Ser generoso para quê? Porque, se cada um de nós não mudar e não conseguir fazer sua parte, o tecido social que vai se constituindo fica cada vez mais frágil, mais fácil de ser rompido. E, quando isso acontece, talvez tudo o que foi feito pelos nossos antepassados para que a gente chegasse até aqui vai perdendo a razão e o sentido. A humanidade, o mundo e as pessoas vão deixando de ser. É uma perda para todos!



(texto publicado na Revista da Cultura edição 101 - dezembro de 2015)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Fotojornalista Sebastião Salgado propõe fundo para recuperação do Rio Doce - Elemara Duarte (Hoje em Dia)


O fotojornalista Sebastião Salgado antecipou a vinda ao Brasil para se inteirar da tragédia ambiental em Mariana cuja lama atinge a bacia do Rio Doce. Nesta sexta-feira (13), Salgado encontrou-se com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, para discutir propostas para recuperar a área, incluindo a criação de um “fundo” subsidiado pelas empresas responsáveis pelo desastre para recuperação das áreas.

A região é onde está sediado a organização não-governamental (ONG) Instituto Terra, criado por ele e a mulher Lélia Wanick Salgado, para recuperação de área vegetal e, principalmente, nascentes degradadas. O Instituto fica no município mineiro de Aimorés, onde Salgado nasceu.

Durante a semana, no perfil do Instituto Terra, no Facebook, vários internautas cobraram um posicionamento do fotojornalista sobre a tragédia. Hoje, Salgado está radicado na França. “Instituto Terra. Nenhum comentário sobre o desastre no rio Doce? Vamos ter mais um livro sobre as misérias?! Ou nem isso? Vocês são um instituto de preservação, são patrocinados por uma mineradora (!!) que é no mínimo responsável por 50% de tudo que está acontecendo. E não vão falar NADA????????”, questionou um dos internautas.

Outro internauta disse que o pronunciamento de Sebastião Salgado, “sobre algo que se confunde com a própria biografia dele, teria uma repercussão significativa nesse momento”. Para uma internauta, era “estranho o silêncio do Instituto Terra, sobre a destruição, provavelmente total, do Rio Doce”, mesmo quase dez dias após o acidente.

Sebastião Salgado deve permanecer no Brasil até a próxima semana. Está prevista a ida do fotojornalista até Aimorés. No final da tarde desta sexta-feira, a assessoria de comunicação do Instituto publicou nota no perfil da rede social e no site da ONG.

Acompanhe a íntegra do texto:

“COMUNICADO SOBRE O RIO DOCE

Autor: Comunicação - 13/11/2015

Solidário a todos os atingidos pelo rompimento das barragens de rejeitos no município de Mariana, em Minas Gerais, em especial aos familiares das vítimas, o Instituto Terra entende que o momento exige ações urgentes dos poderes constituídos, no sentido de minimizar o sofrimento da população envolvida e dos impactos causados ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que deve atuar na responsabilização das empresas envolvidas, de acordo com a legislação brasileira, no sentido de efetivar a integral compensação pelos danos causados.

Durante toda a sua existência, o Instituto Terra pautou-se pelo verdadeiro sentido da palavra sustentabilidade, buscando ser interlocutor, mediador dos conflitos locais, mas também apresentando soluções técnicas efetivas para promover o equilíbrio entre desenvolvimento e meio ambiente.

Diante do acontecido, o Instituto Terra imediatamente mobilizou todo o seu corpo técnico na elaboração de um projeto para recuperação do Rio Doce. A proposta prevê a criação de um Fundo com recursos financeiros subsidiados pelas empresas responsáveis pelo desastre, que possibilite, além da recuperação de nascentes, absorver todos os investimentos e ações destinados à reconstrução das condições ecológicas, bem como gerar recursos contínuos para projetos sociais, econômicos e de geração de emprego e renda em toda a região que constitui essa bacia hidrográfica.

O fundo deve permitir a criação de um patrimônio perpétuo para promover uma grande transformação no Vale do Rio Doce, saindo de um quadro de intensa devastação para um ambiente equilibrado, desenvolvido e produtivo.

O projeto já foi discutido com os Governadores de Minas Gerais e do Espírito Santo, bem como com o Governo federal. Cofundador e Vice-Presidente do Instituto Terra, Sebastião Salgado tratou do tema diretamente com a presidente Dilma Rousseff, na manhã desta sexta-feira (13 de novembro), em Brasília, que se mostrou empenhada e favorável à iniciativa, e assumiu o compromisso de criar um comitê para negociar com as empresas responsáveis pelas barragens de Mariana.

Além do Governo federal e dos Governos Estaduais, o plano para recuperação do Rio Doce deve envolver os governos municipais, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada, para pleno direcionamento dos recursos e tecnologias a serem empregados na região.

Já sabíamos que restabelecer a vida do Rio Doce seria um processo difícil e de longo prazo. Agora, exigirá mais empenho e urgência nas ações, bem como uma aprendizagem ambiental compartilhada com a sociedade.

Mais do que nunca, o resgate do Rio Doce, destruído ecologicamente pelo desastre, passará por medidas de recuperação de todas as nascentes da bacia, para garantir uma maior produção de água, bem como a reconstituição das matas ciliares e das reservas legais, para evitar a sobreposição e acúmulo de mais resíduos, assim como o fortalecimento de um modelo agroecológico de produção rural. Somadas a outras ações socioambientais e de monitoramento, de toda a cadeia produtiva, em especial a industrial, acreditamos que será possível alcançar o pleno restabelecimento da região.

O Instituto Terra reafirma seu compromisso com a missão de replantar a Mata Atlântica e trazer de volta a vida, a água, ao Vale do Rio Doce, com projetos conectados e voltados diretamente para a promoção do desenvolvimento pleno de um Vale que há anos sofre com os efeitos da degradação ambiental”. 

sábado, 12 de setembro de 2015

O que são tsunamis ou "marés da morte"?


Grandes marés de terremoto: este é o significado da palavra tsunamis em japonês. "São ondas enormes, com mais de 30 metros de altura, causadas por perturbações nas profundezas do mar, como abalos sísmicos (maremotos), erupções vulcânicas ou até mesmo deslizamentos no fundo oceânico", afirma o físico Edmo José Dias Campos, do Instituto Oceanográfico da USP. Os tremores provocados por fenômenos geológicos como esses fazem com que uma série de ondulações se propague por grandes distâncias na superfície do oceano. Essas ondas são inicialmente bastante longas e baixas, não mais que 0,3 a 0,6 metro. A tripulação de um barco que passar sobre elas é capaz de nem percebê-las - e sua energia pode diminuir até desaparecer, ao percorrerem milhares de quilômetros. O problema ocorre quando elas se aproximam da costa, onde a profundidade diminui e surge atrito com o fundo do oceano. O resultado é que passam a ser comprimidas por um espaço cada vez menor, o que as obriga a subir. Aí então, as tsunamis formam uma coluna, sugando o mar da costa a ponto de deixar parte do chão do oceano descoberto. Esse é o último aviso. Minutos depois, elas aparecem. Para se ter uma ideia, uma das piores marés do gênero, ocorrida em 1703, na ilha japonesa de Awa, matou mais de 100 000 pessoas.




(texto publicado na revista Super Interessante Especial -  Mundo Estranho - agosto de 2001)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Japão no divã - Luiza Dalmazo


Atrasos na reconstrução do país um ano depois dos desastres naturais fazem os japoneses duvidar de sua capacidade de reencontrar a vitalidade de antigamente

Três dias após o terremoto de 9 graus na escala Richter que destruiu a costa nordeste do Japão, no dia 11 de março de 2011, uma longa fila de sobreviventes estava numa loja à espera de uma chance para comprar comida e água. De uma hora para outra, o gerador pareceu engasgar e as luzes se apagaram. Sabendo que a caixa registradora não funcionaria, todos os clientes recolocaram seus produtos nas prateleiras e esperaram o gerador voltar a dar sinal de vida. Era mais uma aula de disciplina, harmonia social e civilidade dos japoneses. A tarefa de reconstrução era de proporções quase bíblicas - ao todo, mais de 16 000 pessoas morreram, 129 000 casas foram destruídas e os vazamentos na usina de Fukushima, além de espalhar radiação e pavor, colocaram em xeque o modelo de geração baseado na energia nuclear. Mesmo diante de t odos esses desafios, o mundo - e a maior parte dos japoneses - não duvidava da capacidade do país de se reerguer rapidamente. Tinha sido esse o caso repetidas vezes no passado.

O mais célebre exemplo de superação aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, quando 5 milhões de japoneses morreram e 30 milhões - metade da população na época - perderam suas casas. A coesão e a disciplina de políticos, empresários e povo serviram de base da reconstrução vista nas décadas seguintes. Mais recentemente, após o terremoto de Kobe, em 1995, o mundo viu, admirado, mais um caso do poder de transformação dos japoneses. Embora menos mortífero que o tremor de 2011, o de Kobe destruiu o porto mais movimentado do país e a rede de estradas e ferrovias economicamente mais importante. Em três meses, o trem-bala que ligava Kobe ao resto do país foi reaberto.

Nos últimos 12 meses, porém, o processo de recuperação tem deixado os japoneses desapontados. Cidadãos de outros países provavelmente estariam satisfeitos com o que já foi feito até agora, como a construção das mais de 50 000 casas temporárias. Para os padrões japoneses, no entanto, a impressão é de lentidão. Na maior parte das áreas atingidas, a situação é desoladora. Mais de 160 000 pessoas ainda estão desalojadas. "Nos últimos meses, tem ficado claro que falta coesão dos políticos sobre o plano de reconstrução", diz Bill Emmott, ex-diretor da revista The Economist e autor de oito livros sobre o Japão. "A sociedade japonesa está dividida em grupos que competem ferozmente entre si. "Logo após o terremoto e o tsunami, os membros do Partido Democrata Liberal, o principal da oposição, negaram-se a marcar  reuniões com Naoto Kan, na época o primeiro-ministro, do Partido Democrata do Japão. Em agosto, brigas internas entre os próprios democratas forçaram a saída de Kan - substituído por Yoshihiko Noda. Num ambiente assim, não chega a surpreender o fato de a confiança dos japoneses nas instituições ter caído de 51% para 34% em um ano.

Yasuchika Hasegawa, presidente da Takeda, uma das maiores empresas farmacêuticas do Japão, resumiu as expectativas de parte do empresariado num artigo escrito no primeiro semestre do ano passado para um estudo da consultoria McKinsey. Hasegawa argumentava que o bom histórico do país nos processos de reconstrução após catástrofes naturais contrastava com a falta de ação para resolver questões de longo prazo. A esperança de Hasegawa era que a força transformadora contagiasse positivamente o país. Pelo que se viu nos últimos 12 meses, o mito da coesão pós-desastre desapareceu, e os problemas estruturais continuaram intactos. Problemas, é bom esclarecer, da terceira maior economia mundial, um país com uma renda per capita de quase 43 000 dólares, referência em segmentos de alta tecnologia e no setor automobilístico. Mesmo com a economia semiparalisada há décadas, os japoneses têm um padrão de vida superior ao de 92% da população mundial. O Japão é um caso exemplar de nação que soube enriquecer antes de envelhecer - um modelo a ser seguido. (O Brasil, por exemplo, encontra-se em pleno processo de envelhecimento e corre o risco de não aproveitar o momento para ficar rico.) Demonstrações continuam a acontecer, como a inauguração, em março, da Tokyo Sky Tree, a mais alta torre de TV do mundo. Mas elas parecem insuficientes para levantar o astral nipônico.

A lista de prioridades

Até o final da década de 80, o Japão era o que a China é hoje. As previsões diziam que o século 21 seria o do Japão. As discordâncias eram sobre o ano em que a economia japonesa ultrapassaria a americana, uma discussão que perdeu o sentido após o estouro da bolha imobiliária e financeira japonesa na década seguinte. Nos últimos 16 anos, o PIB do país cresceu, em média, 0,77% ao ano. As empresas loais de eletrônicos e automóveis passaram a enfrentar uma competição feroz de coreanos e chineses. Mesmo antes do desastre em Fukushima, o preço da energia já era 40% mais alto do que nos Estados Unidos. "Produzir no Japão está difícil. O país tem uma moeda forte e salários altos", diz Naoki Kamiyama, diretor de pesquisa do Deutsche Bank.

À medida que enriquecem, países veem o setor industrial encolher - isso aconteceu nos Estados Unidos, na Alemanha e no Japão, para ficar em três exemplos. No caso japonês, no entanto, esse processo parece ser mais doloroso. A participação da indústria no PIB hoje é de 27%, mas membros do governo continuam presos ao passado do Japão industrial, obcecados pela ideia de monozukuri, o conceito quase mítico de "fazer as coisas". O setor de serviços, por sua vez, não chega a entusiasmar. Apesar de contar com uma população altamente educada, o país não conseguiu até hoje criar uma cultura empreendedora que chegue aos pés da americana. Em resumo, o modelo econômico que permitiu a ascensão do Japão nos pós-guerra parece exaurido e nenhum novo modelo emergiu para tomar o seu lugar.

O desânimo fica claro nos jovens. Na década passada, um problema social conhecido como hikikomori - adolescentes que ficam meses trancados em seus quartos - virou fenômeno de grandes proporções. Estima-se que existam hoje entre 100 000 e 320 000 jovens nessa condição. Em qualquer país, isso já seria grave. No caso japonês, é alarmante. A população começou a declinar em 2008 e calcula-se que, em três décadas, o número de centenários igualará 0 de nascimentos. "É curioso que o país não tenha uma política clara de imigração", diz o americano Michael Smitka, autor de Demografia Histórica e Mercado de Trabalho.

São problemas conhecidos há anos. O que está mudando é a percepção que se tem deles. Até recentemente, o fato de o Japão ser a nação mais endividada do mundo não era considerado um grande problema - a demanda pelos títulos era grande, e os juros, baixos. Nos últimos meses, porém, o custo para os investidores se protegerem contra um eventual calote do Japão subiu muito. "A crise na Grécia e o déficit na balança comercial do Japão, o primeiro em décadas, fizeram os investidores prestarem mais atenção", diz Jim O'Neill, presidente da gestora do banco Goldman Sachs. O atraso na reconstrução das cidades devastadas em 2011 é, como se pode ver, apenas parte dos problemas de um país ainda exemplar.




(texto publicado na revista Exame edição 1013 - ano 46 - nº 6 - 4/4/2012)








domingo, 23 de novembro de 2014

Cenário preocupante - Mauricio Xavier, com a colaboração de Jussara Soares


O resultado das medidas de emergência e as obras para enfrentar uma das maiores estiagens da história e evitar o racionamento na capital

Na semana passada, o nível de água do Sistema Cantareira, que abastece um terço dos habitantes da região metropolitana de São Paulo, atingiu 3% mesmo com o uso do chamado volume morto. Mantendo-se o ritmo atual de queda, os 30 bilhões de litros restantes secariam até o mês que vem. Com o tanque quase vazio, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) realizou obras nos reservatórios para acessar uma segunda cota do líquido que repousa no fundo das represas, abaixo do túnel que leva água à capital. O formato do resgate ainda está sendo discutido com a Agência Nacional das Águas (ANA), que quer dividi-lo em parcelas. Mesmo que a autorização seja concedida nos termos propostos pela companhia estadual, representaria no máximo 105 bilhões de litros, o suficiente para elevar o nível a apenas 10% da capacidade total, mas sem conseguir mudar o cenário crítico.

Apesar do agravamento da crise, do crescimento de queixas da população e do aumento do volume de críticas (uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o assunto foi instaurada recentemente na Câmara dos Vereadores), o governador Geraldo Alckmin continua repetindo o discurso da campanha de sua reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. Segundo ele, não há torneira seca em nenhum dos 364 municípios atendidos pela Sabesp (incluindo a capital e a região metropolitana). E as medidas adotadas em sua gestão, combinadas às obras em curso, vão garantir o fornecimento nos próximos meses, até a situação ser aliviada de vez pela volta do período de chuvas. É certo que o problema chegou a esse ponto devido a uma excepcionalidade. A atual seca é a maior registrada nos últimos 84 anos. Mas os especialistas e estudiosos do assunto são quase unânimes em afirmar que a inoperância do poder público na área durante as últimas décadas, sobretudo nas questões de planejamento e de investimentos em infraestrutura, deixou o estado despreparado demais para enfrentar um evento extremo. "As ações só foram aceleradas quando chegou a crise", entende a arquiteta Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental.

A seguir, um balanço das políticas de emergência adotadas nos últimos meses, o detalhamento das medidas em curso e o que está planejado para o futuro para tentar resolver de vez essa questão.

A política de emergência

Em fevereiro, a Sabesp anunciou um bônus de 30% no valor da conta para o cliente da capital que conseguisse reduzir o consumo mensal de água em 20%. Cerca de 80% dos moradores da região metropolitana diminuíram o gasto e metade deles atingiu a meta. Em abril, o programa foi expandido para os 31 municípios da região metropolitana. A política resultou em gastos extras de mais de 100 milhões de reais até a metade do ano. A conta deve aumentar ainda mais. Na semana passada, foram anunciadas novas faixas de premiação, entre 10% e 20% de economia, com bônus equivalentes. Apesar do crescimento de queixas da população com relação a cortes de fornecimento, o governo diz que não há racionamento por aqui. De acordo com Dilma Pena, presidente da Sabeps, existe um "contingenciamento do recurso". Desde o começo do ano, a empresa reduz a pressão nos canos no período noturno na região metropolitana. O objetivo seria diminuir o desperdício com vazamentos. Na média, a pressão caiu de 40 metros de coluna d'água para 10 metros. "Com isso, melhoramos a gestão do sistema, o que resultou em uma economia de 2 400 litros por segundo nos últimos meses", contabiliza o superintendente da Sabesp, Marco Antonio Lopez Barros. A título de comparação, o Sistema Cantareira está entregando 19000 litros por segundo (antes da crise, o volume era de 33000).

Como a água passou a chegar com menos força a pontos altos (acima de 10 metros de altura da caixa d'água do bairro, por exemplo), pode haver parada momentânea no abastecimento, segundo a Sabesp. Viria daí o aumento das queixas, que se tornaram rotineiras nos últimos meses. "Recebemos cerca de 1000 reclamações por dia, mas essa já era a média antes do início da crise. "Não houve mudança", garante Barros. Segundo a companhia, a pressão foi reduzida de forma igualitária pelas regiões, apenas evitando a proximidade de serviços públicos como hospitais e delegacias. A diminuição da dependência do Cantareira foi outra ação crucial. O principal sistema do estado era responsável pelo abastecimento de mais da metade da região metropolitana. Em seis meses, sua participação por aqui caiu de 47% para 33% e, até o fim do ano, esse índice vai baixar mais 2,5%. Para isso, outros sistemas, como o Guarapiranga, cujo reservatório está com nível de 42%, passaram a assumir a entrega em áreas do Cantareira.

Obras em curso

[...]

Para aumentar a oferta do líquido na rede operada pela Sabesp, obras emergenciais estão sendo inauguradas para estancar o problema. Há um mês, terminou o trabalho de ampliação na estação de tratamento do Rio Grande, ao custo de 27 milhões de reais. Isso proporcionou um acréscimo de 500 litros por segundo ao total de 60 000 captados atualmente pela Sabesp nos sete sistemas - Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga, Alto e Baixo Cotia, Rio Grande e Rio Claro. E, a partir desta semana, após aporte de 50 milhões de reais, a Guarapiranga vai entregar mais 1 000 litros por segundo. Ambas as medidas seriam adotadas em 2016, mas foram antecipadas para ajudar no esforço da crise. Outras duas intervenções nestes mesmos dois sistemas ocorrerão ao longo do ano que vem. Com a instalação de equipamentos de filtragem de maior eficiência, será possível retirar mais 2 000 litros por segundo de Guarapiranga e Rio Grande , metade em cada uma. Essa última ainda passará por uma repaginação até o fim de 2016, com uma nova estação de captação e outras melhorias que a farão ser capaz de disponibilizar mais 1 200 litros por segundo.

Investimentos futuros

A principal obra no horizonte será inaugurada em outubro de 2017. Com um custo de 2 bilhões de reais, o São Lourenço se tornará o oitavo sistema de abastecimento da região metropolitana. A previsão é captar 4 700 litros de água por segundo no reservatório Cachoeira do França, em Ibiúna, a 70 quilômetros da capital, tratá-los em uma estação em Vargem Grande Paulista e trazê-los a São Paulo por meio de 83 quilômetros de adutoras. No entanto, terá capacidade para produzir até 6 000 litros por segundo, o que representa um terço do que é entregue hoje pelo Cantareira. O empreendimento, uma parceria público-privada, está sendo tocado pelas construtoras Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. No plano do governo ainda está prevista a integração da Represa de Atibainha, do Cantareira, com a Represa de Jaguari, do Rio Paraíba do Sul. Isso seria executado somente em 2020, mas o projeto deve sair mais cedo da gaveta pela gravidade do momento. Se no próximo verão a chuva ficar dentro da média histórica, a Sabesp prevê que o Cantareira voltará a 50% de seu volume útil em abril. Ainda que isso não ocorra, a captação de uma terceira cota do volume morto ou mesmo a adoção de racionamento, por enquanto, estão fora de questão. "Estamos controlando o nível e, se preciso, usaremos as mesmas estratégias já adotadas, mas com mais intensidade", diz Barros. Para especialistas, é temerário confiar na recuperação dos reservatórios apostando em São Pedro. "É preciso esperar novembro para ver como a estação chuvosa se estabelece", alerta o professor de climatologia e meteorologia Tércio Ambrizzi, da USP. "Em 2013, as chuvas de outubro estavam acima da média, e ninguém conseguiu prever a atuaql seca. "Segundo alguns técnicos, mesmo se o plano da Sabesp tiver sucesso a curto prazo, falta ainda a implantação de um projeto que não se resuma ao aumento de oferta de água. A Califórnia, nos Estados Unidos, é um exemplo bastante citado. O estado enfrenta o quarto ano seguido de seca e pôs em prática um amplo conjunto de medidas que inclui distribuição gratuita de medidores individuais de água para condomínios, tratamento de esgoto para abastecimento de lençóis freáticos e multa por desperdício do recurso. "As ações da Sabesp não serão suficientes a médio prazo, com o provável aumento do consumo em 15% nos próximos dez anos", diz o especialista de água da ONG The Nature Conservacy, Samuel Barrêto. "O modelo inteiro precisa ser revisto."



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 29 de outubro de 2014)








sábado, 22 de novembro de 2014

A arte do protesto


Documentário mostra a calamidade ambiental provocada pela construção da usina elétrica de Balbina (AM) e como a artista plástica Bia Doria denuncia desastres ecológicos transformando-os em obra artísticas

O cenário é desolador. Troncos esparsos despontam do que parece ser um enorme lago de natureza morta. Não há vegetação e a vida parece esquecida na região do município de Presidente Figueiredo no Amazonas, a 130 quilômetros de Manaus, onde está localizada a usina elétrica de Balbina. Inaugurada em 1989 durante o governo de José Sarney, ficou conhecida por gerar uma quantidade muito baixa de energia após alagar o local, configurando-se em um verdadeiro desastre ecológico. Daquele lugar inóspito, brotou uma arte de protesto, como revela o documentário "Raízes do Brasil" que retrata o trabalho da artista plástica Bia Doria. Dirigido por Waldemar Tamagno, o filme mostra Bia em viagem pela regrião e sua interferência na paisagem, ao pintar uma das árvores de vermelho, denunciando a catástrofe ambiental.

A artista visitou a localidade pela primeira vez em março de 2013, quando procurava um novo cenário para trabalhar. Ela voltaria ao local em outubro, dessa vez com a equipe de filmagem. Tamagno, também corroteirista do projeto, explica que foi chamado para fazer um filme sobre a artista, e conversando com ela foi desenvolvendo o rumo a tomar. "A ideia inicial era fazer uma espécie de videobook, mas percebi que podia captar seu processo de criação, e com o tempo fui descobrindo uma maneira de contar sua história", diz.

O curta-metragem é composto de cenas da viagem a Balbina e de depoimentos de amigos e conhecidos, como Romero Britto e o americano Gary Nader, que expôs algumas das obras de Bia em sua galeria em Miami. "Procurei ser o mais natural possível, não houve uma intenção estética. O filme foi acontecendo aos poucos. No final eu tinha um material bruto  de mais de duas horas", explica Tamagno, que estreia como diretor. O filme de 20 minutos será exibido no canal Arte1 às 20h30 do sábado 4 e, em seguida, ficará disponível no site oficial da artista. Um DVD será lançado em conjunto com um livro, também intitulado "Raízes do Brasil", que reproduz imagens e depoimentos do curta, a ser lançado em 17 de novembro pela Editora PitCult.

Filha de fazendeiros do interior de Santa Catarina, Bia explica que o fascínio por temas ecológicos vem da infância, quando vivia em contato direto com a natureza. Seu interesse por artes plásticas só surgiria muitos anos depois, por volta de 2002. Sua maior referência é o polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, a quem ela chama de "grande mestre". Enquanto criava suas primeiras obras, Bia ouvia de amigos que elas lembravam o trabalho de Krajcberg, e por conta disso resolveu entrar em contato com o artista, de quem se tornou próxima. "Ele me ensinou técnicas de como olhar a floresta, escolher o material e observar as formas", diz ela, que tem planos de fazer algum projeto relacionado ao deserto de Atacama, no Chile.

Bia terá uma exposição individual na Pinacoteca de Santos a partir de 15 de outubro, e participa da Art Basel, feira de arte em Miami que é considerada uma das maiores do mundo, entre os dias 2 e 7 de dezembro. Uma mostra individual em São Paulo está em negociação e deve acontecer no início do próximo ano.



(texto publicado na revista IstoÉ nº 2341 - 8 de outubro de 2014)


Documentário "Raízes do Brasil" 







quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"As cidades tratam a água da chuva como lixo" - Marcelo Moura


O arquiteto da ONG Make it Right, dedicada a projetos ambientais, diz que as cidades têm de consumir água de chuva e não depender de represas

São Paulo enfrentou transtornos contraditórios na semana passada. Cidades como Itu sofreram, ao mesmo tempo, alagamento por causa das chuvas fortes e seca nas torneiras devido ao baixo nível nas represas que abastecem o Estado. No modelo atual das cidades, drenamos para longe a água da chuva, que chega a todas as casas, grátis e com razoável qualidade. E trazemos de longe, a alto custo, água de reservatórios, filtrada e bombeada por dezenas de quilômetros. "O consumo de água nas grandes cidades segue um padrão de 100 anos atrás, insustentável nas próximas décadas", afirma Tim Duggan, arquiteto da ONG Make it Right. Fundada pelo ator Brad Pitt, ela desenvolve técnicas e ergue estruturas mais amigas do meio ambiente. Esse conhecimento já foi usado na reconstrução de Nova Orleans, devastada em 2005 pelos furacões Rita e Katrina, que deixaram 80% da cidade debaixo d'água. Nove anos após a tragédia, Nova Orleans tornou-se exemplo de área urbana sustentável. Além de erguer casas eficientes, a Make it Right reconstruiu ruas e calçadas com concreto poroso, capaz de absorver chuva. Além de evitar enchentes, o piso filtra a água, para aproveitamento em jardins e reservatórios. No Brasil, a onda de construção de edifícios dos últimos anos foi, em grande parte, desperdiçada - poucos deles captam e reusam água. Duggan veio ao Brasil a convite do ciclo de palestras Arq. Futuro e contou como incentivas a construção de edifícios e casas mais modernos.

Época - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três Estados mais ricos e desenvolvidos do Brasil, enfrentam risco de ficar sem água. A crise de abastecimento é um problema local? 

Tim Duggan - A falta d'água nos grandes centros urbanos é um problema mundial. Veio para ficar. Em Phoenix, no Arizona, ou em Los Angeles, Califórnia, enfrentamos situação parecida. As duas cidades têm mais habitantes do que recursos hídricos. Bombeamos água de toda a região sudoeste dos Estados Unidos para essas áreas. Cidades que excederam a capacidade do ecossistema representam um problema. São insustentáveis.

Época - O que há de errado no sistema de abastecimento d'água dos grandes centros urbanos?

Duggan - As cidades exploram recursos hídricos da mesma maneira há mais de 100 anos. Nesse período, a população urbana foi multiplicada por 20, de 160 milhões de habitantes para mais de 3 bilhões. Os centros urbanos são meros consumidores de água, com participação mínima na captação. A água das chuvas escorre pelo ralo, descartada como se fosse lixo. Água é como petróleo: um recurso natural hoje valioso, mas por muito  tempo desprezado. Se não mudarmos nossos hábitos e a infraestrutura das cidades, veremos conflitos globais pela posse da água, não mais por petróleo, no próximo século.

Época - O que os governantes podem fazer para afastar o risco de falta d'água?

Duggan - As cidades precisam capturar a água para o consumo de suas comunidades. Em vez de investir em sistemas caros de captação, tratamento e bombeamento até as torneiras, nossa ONG encara cada gota d'água como um recurso, e a capturamos quando ela cai. Para isso, temos "jardins fluviais", biorreservatórios e cisternas. Usamos cada gota d'água de acordo com as possibilidades previstas em cada projeto. Precisamos estudar como reaproveitar a mesma gota d'água várias vezes, como se faz hoje com a reciclagem de plásticos.

Época - Formas de captar e reaproveitar água tornam as cidades e seus edifícios necessariamente mais caros?

Duggan - A resposta a essa pergunta é relativa. Se você não começar a pensar proativamente, em captar e reaproveitar água nas cidades, terá custos mais altos para bombear e tratar a água, cada vez mais poluída, de fontes mais distantes. Temos de buscar métricas para avaliar os custos de curto e de longo prazo. Só assim você terá uma métrica adequada. Olhar apenas para o investimento inicial é uma forma imprecisa de avaliar uma iniciativa sustentável. Temos de ponderar o custo do investimento e os impactos sociais, ambientais e econômicos.

Época - Grande parte da população sabe da escassez de água. Mesmo assim, nem sempre se sente responsável pela solução. Como mobilizar os consumidores?

Duggan - A falta de engajamento é, infelizmente, um problema em muitos lugares no mundo. É importante começar uma campanha agressiva de conscientização popular. Os líderes políticos têm papel fundamental para informar suas comunidades sobre a gravidade do problema e defender investimentos em reformas.

Época - A maioria dos edifícios no Brasil tem apenas um hidrômetro. Como pedir consumo responsável a moradores que nem sabem quanto gastam?

Duggan - Isso é um problema. Esforços individuais passam despercebidos numa conta unificada. Poder acompanhar o consumo individual é o primeiro passo no esforço pelo consumo consciente. A escassez de água deixa de ser um problema difuso, sem dono, quando se  torna possível enxergá-lo nas questões cotidianas.

Época - Adotar medidores individuais demanda uma reforma dos apartamentos cuja despesa, para o morador, raramente é compensada pela economia trazida pela redução no consumo. O principal ganho é coletivo. Como o Estado poderá incentivar o investimento em casas mais eficientes?

Duggan - Vários governos investem em diferentes formas de estimular o desenvolvimento e a adoção de soluções para reduzir o consumo de água. Os Estados Unidos incentivam o setor imobiliário com redução de impostos e privilégios na concessão de licenças de construção. Estimulado, o mercado apresenta resultados concretos e já começa a andar por conta própria.

Época - Qual o papel de uma ONG, como a Make it Right, no desenvolvimento de casas de menor impacto ambiental?

Duggan - Os objetivos de nossa organização não são os mesmos de uma construtora comum. Nossa missão é aplicar os princípios do desenvolvimento sustentável e mudar as comunidades, em vez de auferir lucro. Procuramos erguer casas "verdes" e economicamente viáveis no longo prazo, mesmo que não no curto. As primeiras casas que construímos em Nova Orleans não foram baratas. Custou caro chegar a um produto barato. Com fins lucrativos, certas inovações são impossíveis. Tivemos de encontrar formas de baixar o custo a cada nova construção. Finalmente, hoje temos partes principais das casas padronizadas em kits, de forma a fazer habitações com desenho sofisticado, capazes de atingir altos níveis de sustentabilidade, sem estourar o orçamento. Desenvolvemos diferentes projetos em diferentes lugares da América, todos com o objetivo de custar menos e respeitar mais o meio ambiente.

Época - A construção civil não pareceu evoluir, nas últimas décadas, no mesmo ritmo de setores da manufatura, como fábricas de componentes eletrônicos ou automóveis. Por quê?

Duggan - Não precisa ser assim. Cada edifício é único, mas seus princípios podem ser reproduzidos. Uma equipe pode adaptar técnicas padronizadas de construção à realidade local. A melhor forma de multiplicar inovação é formar uma equipe de designers, arquitetos, planejadores e engenheiros que entendem de projeto sustentável e sabem como aplicá-los ao terreno, qualquer que ele seja.

Época - A transformação de Nova Orleans numa cidade verde foi facilitada pela tragédia do furação Katrina, que desabrigou cerca de 80% da população. A necessidade de modernizar as casas tornou-se indiscutível e urgente, uma vez que já estavam destruídas. O governo federal investiu na reconstrução. Gente inovadora e influente do mundo inteiro dedicou-se a ajudar. Sem a tragédia, a ONG Make it Right nem existiria. Como transformar cidades sem depender de uma circunstância tão extrema?

Duggan - Muitas comunidades enfrentam desastres econômicos, não apenas desastres naturais como o Furacão Katrina. Podem, da mesma forma, transformar a crise em oportunidade. Em Nova Orleans, concluímos que a mudança não viria no primeiro dia. Teríamos de formar uma equipe persistente em torno de uma grande ideia, capaz de resistir até haver massa crítica e mobilização. Começamos com um projeto pequeno, até que as comunidades se engajaram. Não apenas um setor da sociedade é dono desse movimento. Os moradores de Nova Orleans pressionaram as autoridades a apoiar uma política diferente.

Época - Como é trabalhar com Brad Pitt?

Duggan - Ele é um líder feroz, que nos encorajou a inovar em cada passo do projeto. É maravilhoso fazer parte de uma equipe que realmente quer fazer o bem e mudar o mundo, em termos de urbanismo.



(texto publicado na revista Época nº 858 - 10 de novembro de 2014)












sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Veneza vai virar mar? - Ricardo Arnt


A mais bela cidade do mundo está sucumbindo às marés, altas como nunca. Há alguns anos, estudam-se diversas maneiras de barrar o avanço do mar. Na prática, porém, nada foi feito até hoje. Falta de dinheiro. Veneza corre risco de vida. Cada vez com menos moradores. Cada vez com mais turistas, mais poluição e mais água.

Todo o incalculável patrimônio histórico e cultural de Veneza, na Itália, está afundando. A cidade-sonho da costa do Adriático, insulada no interior de uma laguna de 55 quilômetros de extensão por 13 quilômetros de largura, está morrendo. Cinquenta anos de transformações industriais alteraram catorze séculos de equilíbrio delicado entre a cidade e a laguna. Marés cada vez mais altas afogam Veneza e seus famosos "palazzi".

Soluções tecnológicas sofisticadas podem deter o mar. Mas há trinta anos discutem-se causas, estratégias e custos.

O preço é alto e a vontade politica, pouca. E, pior, enquanto o tempo passa, desaparece a matéria-prima de qualquer recuperação - os venezianos. Em 1954, eles eram 175 000 em 1974, 108 000; hoje, não passam de 78 000.

A Veneza de Goethe, Mozart, Nietzsche e Thomas Mann virou uma cidade-fantasma. Tem cada vez menos padarias, mercearias e cinemas. É cada vez mais turistas, milhões deles, sempre de passagem. Salvar Veneza vai sair caro: só para sanear os problemas da laguna e controlar a marés, a Itália precisaria investir quatro bilhões de dólares.

Desde 1900, a cidade afundou 23 centímetros

Veneza convive com a maré alta, acqua alta em italiano, desde a sua fundação, no século VI. Mas, com o passar do tempo, o subsolo cedeu e o piso da cidade baixou 23 centímetros em relação ao nível médio do mar em 1900. Para resolver a questão, desde o século XVI duas teorias se confrontam. A primeira defende o fechamento das  três entradas da laguna, por onde a mare alta passa: elas seriam trancadas. A outra teoria prega a preservação máxima da laguna, atribuindo o aumento do impacto das marés aos detritos industriais e urbanos que se acumulam no fundo da laguna.

A pior fase começou com o desenvolvimento industrial. Em 1920, surgiram aterros nas margens da laguna, do lado do continente, onde ergueram-se as cidades de Mestre e de Marghera, um porto. Na década de 50, período de grande crescimento econômico no pós-guerra, a cidade de Marghera foi muito ampliada com novos aterramentos para a construção de um vasto complexo petroquímico.

Na laguna, cuja profundidade média não ultrapassa 2 metros, escavaram-se canais para a navegação de grande calado, com 5 quilômetros de extensão e 15 metros de profundidade. Por eles, passaram a entrar enormes volumes de água. Finalmente, em 1973, veio um novo aterramento, para a construção do aeroporto Marco Polo.

Há treze anos, formou-se o Consorzio Venezia Nuova para recuperar a bacia lagunar, integrado por várias empresas, como a Fiat, Iri-Italstat, Mazzi, Girolla, Lodigiani e Sacaim. Em 1988, criaram-se mais quatro consórcios semelhantes. Até agora, porém, foram feitos apenas testes e estudos. A crise econômica restringe a disponibilidade de recursos.

Famílias fazem as malas, com medo da água

Às 17 horas do fatídico dia 4 de novembro de 1966, a maré alta atingiu o recorde histórico de 1,94 metro. As ondas impelidas pelo vento scirocco passaram por cima das muralhas na costa, entraram pelas bocas do porto e foram açoitar o Palácio dos Doges. No centro histórico e nas ilhas do estuário, 16 000 famílias e comerciantes perderam quase tudo. Todos os 432 transformadores elétricos da cidade explodiram, deixando os venezianos em pânico, no escuro, durante três dias.

Quando a água começou a recuar, lixo, móveis e mercadorias amontoavam-se em todos os cantos. Manchas de óleo e gasolina tingiam ruas e prédios. Barcos e gôndolas jaziam, quebrados, nas ruas. Milhares de ratos encurralados nas pontes e nos andares superiores das casas ameaçavam os moradores. Gatos, pombos e ratos mortos boiavam nos canais.

Um cenário inesquecível: calçadas afundadas, encanamentos entupidos, ralos abertos e milhares de toneladas de sujeira. Praças, jardins e plantações devastados. Os danos ao patrimônio cultural foram gravíssimos. A cidade parecia abatida pela peste, como no romance do escritor alemão Thomas Mann, Morte em Veneza.

Para os venezianos, as marés viraram uma ameaça constante. A família de Massimo Cannaregio, 32 anos, é uma das que desistiram e mudaram-se para Mestre: "Vivi a primeira infância em Veneza", diz ele. "Nossa residência ficava no segundo andar de um prédio restaurado do século XVIII. Quando tinha quatro anos, minha família foi embora, porque a casa estava sempre úmida. A enchente de 66 fez um estrago danado e custaria muito dinheiro para reformar o prédio. Vendemos o imóvel por uma ninharia."

Constrangida pela fragilidade ambiental, "a cidade mais bonita do mundo" transferiu moradores de seu centro histórico para aquela que os italianos chamam de "a cidade mais feia do mundo" - Mestre, Veneza esvaziou, enquanto Mestre inchou, sem nenhum planejamento urbanístico. Passou de 37 000 habitantes, em 1921, para 57 000, em 1951, 161 000, em 1961 e 205 000, em 1971.

Os jovens são os primeiros a sair, em busca de emprego, qualidade de vida, automóvel, lazer e outros consumos de que Veneza não pode proporcionar. Ali resiste a população mais velha da Itália: média de 46 anos, contra 40 anos da média nacional. Há poucos espaços para crianças. E cada vez menos infra-estrutura urbana.

Veneza não tem condições de virar uma espécie de Disneylândia, eternamente lotada de turistas. Nem os venezianos gostariam disso. Eles querem a mesma cidade, com canais em vez de ruas asfaltadas. Gaivotas em vez de vira-latas. E barcos (os vaporettos) em vez de ônibus.

A cidade é frágil e vive por um fio, sempre torcendo para que outra maré alta catastrófica, como a de 1966, não se repita. Mas para sobreviver terá de sair de seu imobilismo. Terá aprender a controlar as marés.

Um espetáculo com final repugnante

Em 10 de julho de 1989, Veneza sofreu outro trauma. Duzentas mil pessoas se espremeram na Praça São Marcos para assistir ao concerto da banda inglesa Pink Floyd. Foi uma tentativa de fazer a cidade recuperar a fama de palco de grandes eventos culturais. A tragédia foi que os produtores do evento - musicalmente esplêndido - esqueceram que a cidade tinha poucos banheiros. No dia seguinte, ruas, vielas e canais amanheceram inundados. Não propriamente de água do mar.

Gente em todo canto

Ao mesmo tempo em que muitos venezianos desistem, aqueles decididos a ficar enfrentam hordas de turistas cada vez maiores: 1,6 milhão em 1951 e 8,5 milhões no ano passado. A previsão para o ano 2000 é de 15 milhões. O turismo é responsável por 63% da receita da cidade. O "congestionamento" de gente é tão comum que em alguns lugares usam-se semáforos para organizar a multidão. Entra-se no Palácio dos Doges em fila, sobem-se pelos quadros de Bosch e Tintoretto em fila.A singela Ponte dos Suspiros, onde os condenados à morte passavam, olhavam o canal e suspiravam - o maior dos sedutores, Giacomo Casanova, fugiu dali pelo teto - é atravessada por centenas de pessoas a cada hora. Suspira-se, atualmente, para a travessia acabar logo.

Memória pode ir por água abaixo

Em Veneza, pode-se admirar cerca de 450 palácios e residências de valor artístico inegável - neles, há quase sempre o toque de um mestre da arquitetura medieval, renascentista e barroca. A cidade, durante séculos, teve fama de ser ponto de encontro de artistas. Compositores como Rossini, Giuseppe Verdi e, mais recentemente, Igor Stravinsky fizeram a sua primeira apresentação em Veneza, no Teatro la Fenice. O Museu Accademia reúne obras de alguns dos mais famosos pintores italianos, todos com passagens pela capital do Vêneto.



(texto publicado na revista Super Interessante - de janeiro de 1995)