Mostrando postagens com marcador fezes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fezes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Um Everest de cocô - Rafael Gonzaga


A montanha mais alta do mundo está com um problema (de saneamento) básico. Mais de 4 mil alpinistas já a escalaram desde 1953 - são 700 a cada temporada, entre abril e maio - e não há nenhum banheiro por lá. O resultado são toneladas de xixi e cocô enterrados na neve. Autoridades nepalesas agora alertaram que tanto cocô está começando a causar doenças. Segundo o montanhista Victor Carvalho, do Clube Alpino Paulista, durante a escalada é comum que se recolha o lixo não-orgânico, e se enterrem (ou cubram com pedras) os dejetos orgânicos. Para o primeiro tipo de lixo, o governo agora impôs a regra de que cada escalador retorne com 8 kg de resíduos, a média gerada por escalada. Para o cocô, no entanto, a melhor solução ainda são sacos higiênicos descartáveis, que precisam ser carregados de volta. Nada muito agradável.



(texto publicado na revista Super Interessante nº 349 - julho de 2015)




domingo, 21 de setembro de 2014

A ciência do cocô - Ana Carolina Prado


Estudar as fezes não é coisa de maluco. Pode servir para entender melhor a nossa saúde, a nossa mente e até mesmo o passado de toda a humanidade. Leve a revista para o banheiro e seja bem-vindo ao mundo da coprologia, a ciência que estuda o conteúdo da sua privada.

O que é isso na minha privada?

Cerca de 3/4 das fezes é água pura. Mas a proporção pode variar de acordo com a consistência. Quanto menos água tiver, mais duras elas serão. O resto é sobra de alimento, bactérias mortas e um pouco de muco do intestino grosso para facilitar a passagem.

Pequeno manual do cocô

Uma peça saudável é marrom graças à estercobilina, um pigmento escuro formado na digestão da bile - aquele fluido produzido pelo fígado que digere as gorduras. Alterações na cor podem vir da ingestão de certos alimentos ou corantes, mas também podem indicar doenças. As principais "cores erradas" são:

Branco ou cinza

Sem a estercobilina, o cocô fica com cara de argila. Isso pode acontecer por algum problema no fígado, pâncreas ou vesícula biliar que esteja bloqueando a passagem da bile. Pode ser uma simples pedra na vesícula ou um tenebroso câncer de pâncreas.

Vermelho

Alguns alimentos, como a beterraba, dão essa cor. Mas se ela persistir pode ser sinal de que você está sangrando em algum lugar do tubo digestivo. Se for vermelho vivo, o problema é na parte final - falando reto: um sangramento anal, as famosas hemorroidas.

Preto

Cocô preto indica sangramento na parte inicial da digestão - talvez na garganta ou estômago. Nesse caso, o sangue é digerido junto e chega preto à privada. O cheiro é importante: dizem que a coisa é tão feia que quem conhece não esquece.

Amarelo

Pode indicar gordura, o que não é bom, já que o corpo deveria absorvê-la. Assim, pode haver algo errado com o seu sistema digestivo (ou a sua dieta). E a cor é a parte menos nojenta: o cocô "gordo" cheia muito pior do que o normal e flutua (o normal é afundar).

Verde

Uma dieta com muito ferro (ou suplementos) pode deixar seu cocô com essa cor. Mas pode ser também uma infecção, como a doença de Crohn (doença em que as células imunológicas atacam os tecidos digestivos e provocam dor, diarreia e muco nas fezes. Écati).

Formato cilíndrico

Esse é o formato ideal. Com uma ponta para facilitar a saída. Mas não é regra: cada pessoa tem um padrão de cor, forma e frequência. Nesse item, a variação é enorme: segundo o livro O que Seu Cocô Está Dizendo a Você, de Anish Sheth, pessoa do sul da Ásia evacuam até três vezes mais do que ocidentais. Isso acontece por causa das fibras da dieta indiana. Ou seja, cuidado com o curry.

1) Tipo cabrito

Típico de quem sofre de prisão de ventre (até 15% das pessoas), a forma indica que o cocô demorou para chegar ao reto e está sem água. Pode sinalizar pouca fibra na comida ou o costume de "segurar". Sim, segurar resseca - e pode machucar na saída.

2) Tipo poça

O cocô na forma líquida (como na diarreia) pode ser causado por bactérias. Mas também pode ser uma irritação do intestino por causa de alimentos exóticos, a que o corpo não está acostumado. Isso agride a mucosa intestinal, e impede a absorção da água.

3) Tipo tripinha

Fezes finas são provavelmente apenas um sinal de que você está forçando demais e contraindo o esfíncter (a válvula que controla o abre e fecha do ânus). Mas, se isso persistir, pode ser indício de que algo está obstruindo o caminho. Vale dar uma olhada.

Arqueologia fecal

O cocô não revela informações apenas sobre quem somos hoje. Coprólitos, fezes fossilizadas, dizem muito sobre a vida dos homens do passado - de hábitos alimentares a doenças. E, por causa disso, são considerados um tesouro para arqueólogos. Os fósseis só se formam em duas condições: debaixo d'água, se a matéria orgânica do cocô for substituída por minerais, ou quando o material resseca em ambientes áridos. "Por isso, fezes de ancestrais são muito raras", explica Eske Willerslev, biólogo evolucionista da Universidade de Copenhague. Foi graças à análise de coprólitos humanos encontrados no Oregon, nos EUA, que Willerslev fez uma descoberta importante: o homem chegou à América mil anos antes do que se imaginava. Até pouco tempo, a teoria mais aceita era a de que uma leva de migrantes saiu da Ásia, cruzou o Estreito de Bering e chegou ao Alasca há cerca de 13 mil anos. A partir daí, eles teriam se espalhado pelo continente. Mas a análise dos coprólitos comprovou que o material tem mais de 14 mil anos de idade - mil a mais do que as pontas de lanças mais antigas encontradas. O estudo do DNA mitocondrial das fezes fossilizadas também revelou que eles pertencem a pessoas de um genoma vindo de outra parte da Ásia, que poderiam ser os antecessores da população indígena americana atual.

Terapia de privada

A crença de que o intestino preso pode interferir na personalidade vem da Idade Média (e se propagou depois). É só pensar em alguém "enfezado" = cheio de fezes). Mas a ciência comprovou agora que existe, sim, uma relação direta entre o nosso estado psicológico e o funcionamento intestinal. Um estudo feito na University College Cork, na Irlanda, mostrou que bactérias intestinais benéficas - os famosos lactobacilos vivos - podem influenciar o nível de estresse em ratos. Para o experimento, 16 ratos saudáveis foram alimentados com o Lactobacillus rhamnosus, encontrado em iogurtes. Outros 20 receberam um caldo sem bactérias. Resultado: o primeiro grupo ficou mais aventureiro e explorou duas vezes mais seus labirintos, sugerindo menos ansiedade. Além disso, quando foram forçados a nadar, eles também lutaram mais para não afogar. E houve diferenças na química cerebral: depois do mergulho, os ratos alimentados com as bactérias tinham metade do corticosterona (hormônio relacionado ao estresse) no sangue do que os outros. Agora só falta saber se isso também funciona com humanos. Outros trabalhos já mostraram que probióticos podem melhorar a saúde mental de pessoas com síndrome da fadiga crônica - além de melhorar a memória em humanos saudáveis.

4 cocoriosidades

Troca-troca

O transplante de cocô existe. E pode salvar vidas em caso de infecções de superbactérias, como a Clostridium difficile. Os antibióticos usados contra ela, além de serem ineficientes, matam toda a flora intestinal. Aí a estratégia é repovoar o intestino com as bactérias naturais e fazer com que elas lutem contra a Clostridium. Para isso, é só pegar 30 g de cocô de um doador, misturar com água salgada e inserir por um tubo que entra pelo nariz (ugh) e vai até o estômago do paciente.

Que sensação

É possível chegar a um estado de euforia e êxtase quando se vai ao banheiro - semelhante ao orgasmo. "A passagem das fezes no reto ativa o nervo vago, que sai do crânio e leva impulsos nervosos ao estômago e intestino delgado. Isso pode provocar a diminuição dos batimentos cardíacos e do fluxo de sangue para o cérebro", explica Anish Sheth em O que Seu Cocô está Dizendo a Você. A sensação é de relaxamento, arrepios, tontura - e até de perda de consciência.

Pum nosso

Só 10% dos gases vêm da fermentação do alimento. A maior parte vem da boca, quando engolimos ar sem querer ou em bebidas com gás. Os gazes produzidos pelas bactérias do intestino não têm cheiro. Os alimentos é que têm. Feijão, ervilha e repolho, por exemplo, contêm rafinose, um açúcar que não digerimos e que produz muitos gases. Mas as maiores responsáveis pelo futum são as proteínas, cuja fermentação gera enxofre (!). Comer carne, meu amigo, é garantia de cheiro ruim.

Vai encarar?

O cientista Mitsuyuki Ikeda, do Centro de Avaliação Ambiental de Okayama, no Japão, resolveu melhorar a vida de quem não come carne e se preocupa com o ambiente. Ele criou uma carne feita de excremento humano. Sim, cocô. E vindo do esgoto. Funciona assim: ele coleta lodo do esgoto, rico em fezes humanas, retira proteínas e lipídios, e os aquece para matar as bactérias. Depois, adiciona um pouco de proteína de soja e molho de carne de verdade para dar gosto.



(texto publicado na revista Super Interessante nº 310 - outubro de 2012)























terça-feira, 1 de julho de 2014

O que seu cocô tem a dizer sobre sua saúde? (Uol Notícias Saúde)


O cocô pode ser considerado um assunto engraçado, desagradável ou tabu, mas na verdade ele deveria ser levado mais a sério. O aspecto das fezes - sua cor, forma e consistência - pode refletir a qualidade da alimentação, indicar falta de vitaminas e proteínas e até mesmo alertar para a presença de alguma doença. Por isso, prestar atenção nas fezes pode ser tão útil quanto checar a temperatura corporal ou a pressão sanguínea.

"Considerando que saúde não é apenas a ausência de doenças, mas sim a contínua sensação de bem-estar, podemos afirmar que saúde intestinal é fundamental para a saúde de todos os outros órgãos", aponta Fernando Gomes Romeiro, professor de Gastroenterologia do Departamento de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). Isso fica evidente quando há algum problema no intestino: pessoas com o intestino doente geralmente apresentam mudanças, inclusive de humor e de personalidade. Isso acontece porque é no intestino que temos a maior concentração de neurônios fora do sistema nervoso central - o que explica a dificuldade em manter qualquer sensação de bem-estar sem a saúde intestinal.

Por ser um assunto que a maioria das pessoas não se sente muito à vontade para discutir, não é raro que o problema cresça até ficar mais grave. "Se não conversamos sobre isso com quem gostamos, fica mais difícil falar com quem não conhecemos, então é comum que as pessoas sofram sozinhas com o problema", diz o gastroenterologista Fernando Romeiro. O preconceito ou a vergonha acabam se somando ao desconhecimento da extensão de consequências que um intestino afetado pode causar. "Problemas intestinais podem afetar pele, cabelos, unhas, sangue, fígado, estômago e praticamente qualquer outro órgão", diz Romeiro. "Por isso o diálogo sobre esse assunto sempre deve ser estimulado."

PROCESSO IMPORTANTE

As fezes nada mais são do que resíduos de alimentos não digeridos, bactérias da flora intestinal e produtos da descamação do nosso intestino que se renova diariamente. O processo começa quando o alimento entra na boca: a mastigação, a saliva, a contração dos músculos gastrointestinais, as bactérias, o ácido clorídrico, as enzimas digestivas, a bile e outras secreções agem em conjunto num complexo processo que transforma a comida em uma massa chamada quimo. Os nutrientes são absorvidos ao longo do tubo digestivo, enquanto as partes não aproveitadas seguem em frente até o intestino grosso, onde se misturam com água e formam o bolo fecal, ou seja, o cocô.

Se o processo seguir tranquilamente até o final, é uma visita saudável ao banheiro. "Um intestino saudável, com bom funcionamento, é reflexo de bom funcionamento do aparelho digestivo como um todo, com a eliminação adequada dos resíduos sem problemas de acúmulo", explica Bruno Zilberstein, professor de cirurgia do aparelho digestivo do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). "É o que chamamos de equilíbrio orgânico adequado".

SÓ EM CASA

O contrário, infelizmente,  também é verdade. Ficar um bom tempo sem ir ao banheiro causa uma série de problemas bem desagradáveis, como dor abdominal, sensação de inchaço, irritabilidade, indisposição e alterações no apetite e no humor. Quem tem intestino preso ou prisão de ventre sabe bem como é. A constipação (ou obstipação) intestinal - nome médico para o problema - acontece quando a pessoa evacua menos de duas vezes por semana ou quando o esforço para evacuar é grande demais e pouco produtivo.

As causas mais comuns costumam ser uma dieta pobre em fibras, pequena ingestão de líquidos, sedentarismo e consumo excessivo de proteína animal e de alimentos industrializados. O fator comportamental também entra na conta. Muitas pessoas não conseguem usar o banheiro em locais públicos - muitas vezes porque se sentem desconfortáveis e constrangidas para fazer isso fora do ambiente acolhedor do lar. Os médicos avisam que é um péssimo hábito. Em primeiro lugar, quanto mais tempo os resíduos alimentares permanecem no intestino, mais secos e duros eles ficam - o que os tornam mais difíceis de expelir. Segundo: com o tempo, o intestino acaba se acostumando e diminuindo a frequência de "visitas" ao banheiro. Portanto, aquela história de "eu não consigo ir ao banheiro fora de casa" pode acabar criando um problema bem complicado.

Outros fatores emocionais, como estresse, depressão e ansiedade também são capazes de interferir nos hábitos intestinais.

QUANTO MAIS, MELHOR?

Não ir ao banheiro é ruim, mas ir ao banheiro muitas vezes pode ser ainda pior. A diarreia é sinal de que os alimentos e seus nutrientes estão se movimentando muito rápido pelo corpo e não estão passando tempo suficiente no intestino - o que causa aumento do número de evacuações e a perda de consistência das fezes, que se tornam aguadas.

A causa mais comum da diarreia é a gastroenterite viral ou o vírus intestinal. Consumir água ou alimentos contaminados pode causar evacuações frequentes. Contudo, a diarreia pode ser sintoma de várias doenças, como úlcera gastrointestinal e alguns tipos de câncer, por isso é importante procurar assistência médica - especialmente se a diarreia não melhorar em um ou dois dias e se houver presença de sangue nas fezes.

COR É TUDO

Além da frequência de visitas ao banheiro, a cor, o formato e a textura das fezes também são importantes indicativos da saúde do intestino - e de todo o corpo.

As fezes normais devem ter coloração acastanhada e textura moldada e macia. Apesar de haver uma grande variação de tons conforme a dieta de cada pessoa, alterações muito grandes nesse padrão podem sinalizar problemas.

Pequenas bolinhas isoladas podem indicar falta de fibras na alimentação. A presença de sangue, muco e pus pode ser sinal de um intestino está inflamado. Fezes compridas e finas são causadas por esforço excessivo e se o problema persistir por semanas, pode indicar a presença de um câncer no reto, pois o tumor vai se expandindo e estreitando a cavidade do cólon. "Em todas as situações que saem do padrão normal, é preciso procurar ajuda médica", alerta Fernando Gomes Romeiro, do Departamento de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Unesp.

A cor também pode ser indicativa de que algo não está funcionando bem. "Na maioria das vezes, a coloração está relacionada com o tipo de alimento, mas às vezes pode ser consequência de sangramento gástrico ou intestinal, doenças do fígado", aponta Bruno Zilberstein, da Faculdade de Medicina da USP. "A perda de gordura nas fezes indica quadros de falta de absorção intestinal e infecções."

A cor das fezes pode variar pontualmente, de acordo com a dieta. É o caso da ingestão da beterraba, que torna as fezes mais avermelhadas ou com um tom castanho mais escuro, por exemplo. Atenção, porém, para colorações que devem ser sinais de alerta. Se as fezes estiverem "pálidas", por exemplo, pode ser sinal de que a vesícula não está funcionando adequadamente ou de que há presença de cálculo biliares. Se a cor for castanho-avermelhada, pode ser consequência de sangramento no trato digestivo inferior, um sintoma associado a câncer de intestino. Já fezes negras podem indicar sangramento no estômago ou no intestino delgado, provavelmente causado por uma úlcera.

CUIDANDO DO INTESTINO

Ter hábitos saudáveis se reflete diretamente na saúde do intestino. Manter o órgão funcionando adequadamente todos os dias, além de ser um "alívio", também ajuda na imunidade, absorção dos nutrientes, produção de vitaminas e manutenção da saúde de todo o corpo.

Para manter a saúde do intestino, é preciso primeiramente ter uma alimentação balanceada, com ingestão de muitas fibras e pouca gordura. As fibras absorvem líquido e ajudam a formar o bolo fecal, que distende a parede do intestino e força a evacuação. Já as gorduras são mais difíceis de serem digeridas, exigindo muito do tubo digestivo.

A água também é essencial no processo. "Como o intestino grosso é responsável pela absorção de água, evitando que tenhamos grandes perdas de líquido pelas fezes, se a pessoa toma pouca água o intestino tem que tirar o máximo possível das fezes e elas podem ficar duras, levando a outros problemas", explica o gastroenterologista Fernando Romeiro.

Existem hábitos que fazem toda a diferença, como não fumar (o cigarro é associado a várias doenças inflamatórias intestinais), comer devagar (a digestão começa na boca e quanto mais tempo o alimento ficar na boca, mais é digerido e melhor a absorção de nutrientes no intestino) e também praticar exercícios físicos.

Os exercícios físicos aumentam os movimentos peristálticos, por liberar hormônios que ativam o processo e ajudam na movimentação do bolo alimentar pelo sistema digestivo. "A atividade física, mesmo que de pouca intensidade, auxilia a propagação das fezes dentro do intestino. Do contrário, se ficarmos muito tempo parados, o intestino pode ter mais dificuldade para fazer todo o trabalho sozinho", diz Romeiro.

Tomando esses cuidados, é possível garantir o bom funcionamento do intestino e evitar muitos problemas de saúde. O seu organismo agradece.