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sábado, 3 de setembro de 2016

Quase Harry Potter - Gabriel Bentley


Peça de Antonio Calmon usa o universo da magia para tratar de questões comuns na fase da adolescência, como o bullying

O primeiro texto para o teatro de Antonio Calmon, autor de novelas, como Vamp e Top Model, guarda semelhanças óbvias com o universo de Harry Potter, entre elas os elementos de bruxaria e a caracterização das personagens (o protagonista usa óculos de aros redondos, por exemplo). Inspirada pelo poema homônimo de Goethe, datado de 1797, a peça O Aprendiz de Feiticeiro conta a história de Arthur (Guilherme Lobo).  O aluno nota 10 sofre bullying por ter uma imaginação bastante fértil. O menino é salvo de uma agressão por Jane (a atriz global Klara Castanho), de quem ganha um celular. Ao bisbilhotar os aplicativos do aparelho, ele é transportado para tempos medievais. Nessa terra fantástica, encontra o feiticeiro Ambrósio (Mauricio Machado), com quem começa a treinar magia. O garoto descobre, então, que a princesa Jane procura um pretendente e se candidata para um desafio de força e inteligência. No espetáculo, chama atenção o uso do teatro de sombras e o revezamento dos sete atores, entre eles Victor Garbossa e Julio Oliveira, para interpretar onze personagens. Na plateia, os mais novinhos se encantam com os truques de mágica, enquanto os jovens curtem as cenas de ação e o clima de romance entre Arthur e Jane. Direção de Eduardo Figueiredo (75 min). Rec. a partir de 5 anos.



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 3 de agosto de 2016)

domingo, 6 de março de 2016

Paulistanos Nota Dez: Jessyca Araujo, Fagner Silva e Juliana Niel - Alessandra Freitas


Nomes: Jessyca Araujo, Fagner Silva e Juliana Niel
Profissão: estudantes
Atitude transformadora: fazem apresentações teatrais em orfanatos da capital

Em 2004, aos 11 anos, a estudante Jessyca Araujo assistiu em seu colégio a uma exibição do filme Harry Potter e a Câmara Secreta, o segundo episódio da famosa franquia e apaixonou-se pelo universo criado pela escritora inglesa J. K. Rowling. Nos anos seguintes, acompanhou o lançamento dos demais capítulos no cinema, comprou todos os livros da série e participou de diversas convenções de fãs. Hoje, com 21 anos, acumulou tanto conhecimento a respeito do tema que poderia ministrar palestras sobre magia. Sua relação com a saga mudaria em 2012, ao conhecer o projeto Potter em Orfanatos, criado no Rio de Janeiro pela escritora Renata Ventura. Como o nome já explicita, o objetivo é encenar passagens da história do bruxinho em casas de acolhimento infantil. Com a ajuda de outros voluntários que arrebanhou nas redes sociais. Jessyca passou a ser a principal organizadora da iniciativa na capital paulista. Os ensaios começaram em 1º de setembro de 2013 (a escolha foi proposital: trata-se da data de início das aulas no castelo de Hogwarts). Oito meses depois, o grupo passou a fazer as primeiras apresentações.

A inspiração para o tipo de estabelecimento escolhido como foco da ação vem do próprio protagonista, que perdeu os pais na infância. "Todo órfão tem um pouco de Harry Potter", diz o slogan do projeto, que conta com cerca de 700 membros inscritos em São Paulo e é mantido apenas com doações dos próprios participantes. Sucesso entre os pequenos, o truque aqui não tem mistério: basta colocar a fantasia, empunhar a varinha mágica e representar alguns capítulos da série para enfeitiçar o público. Outros objetos presentes na trama, como o chapéu seletor e os sapos de chocolate, também são usados. As apresentações costumam ocorrer aos domingos e duram três horas: no final, livros arrecadados com fãs são doados aos orfanatos. "É gratificante incentivar o hábito da leitura por meio das histórias de Harry Potter", diz Jessyca, aluna do curso de comunicação visual da Escola Técnica Estadual (Etec) de Carapicuiba. "Essas crianças não são dignas de pena, só precisam de atenção", completa.

Outro protagonista do movimento é o estudante Fagner Silva, de 22 anos, órfão de mãe desde os 11. Afastado do pai há alguns anos, atualmente mora com a irmã, o cunhado e o sobrinho. "Os livros foram meus amigos durante muito tempo, então passar isso adiante é muito bom", afirma. Membro ativo, e uma das integrantes mais novas, Juliana Niel, de 15 anos, organiza encontros sobre o bruxo em convenções geek, como a Anime Friends, e participa das apresentações desde o início do projeto. O grupo já promoveu vinte visitas a dois lugares: o Instituto Curumim, no Mandaqui, e a Casa de Amparo Tia Marly, em Santana. Somados, abrigam 41 internos, entrw 1 e 17 anos. A iniciativa impactou uma menina desse segundo espaço, ainda analfabeta aos 9 anos. Após as visitas, ela se encantou com o tema, passou a folhear os livros e conseguiu juntar sílabas. "Seu sonho é aprender a ler para contar a história a alguém", afirma Marly Correa do Nascimento, responsável pela instituição em Santana. "Tudo o que envolve arte e literatura é importante para eles", completa. Nem todos pensam assim: embora a popularidade de Harry Potter seja quase universal, alguns orfanatos rejeitaram os shows. "Era para evitar a exposição das crianças a temas como bruxaria", diz Jessyca, meio incrédula.

Como em Hogwarts

Alguns dos objetos usados pelos voluntários do projeto durante os encontros

Chapéu seletor: ajuda a simular a cena em que os alunos são distribuídos pelas casas - Grifinória, Lufa-Lufa, Sonserina e Corvinal.

Feijõezinhos de todos os sabores: reproduzem o famoso doce recorrente na saga, adorado pelos bruxinhos

Gravata: cada criança recebe uma, que representa a casa para o qual foi "selecionada" pelo chapéu

Livros: recolhidos durante encontros e convenções com fãs da série, são doados aos orfanatos para incentivar o hábito da leitura

Sapos de chocolate: os doces vêm acompanhados de imagens dos bruxos mais famosos da história

Varinha mágica: réplica das utilizadas nos filmes, é usada para encenar passagens do livro Harry Potter e a Pedra Filosofal



(texto publicado na revista Veja São Paulo de 21 de janeiro de 2016)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Dois anos de vida - Chris Flores


Quando J. K. Howling criou Harry Potter viu sua vida mudar: contando a saga do aprendiz de feiticeiro, tornou-se uma das mulheres mais poderosas do mundo e a primeira escritora bilionária da história. O que ela não imaginava é que seu personagem tocaria com sua magia a vida de uma brasileira e mudaria seu destino. O bruxinho é o ídolo de Pedro Henrique, 2 anos, e de sua mãe, Angélica. Essa mulher recebeu o diagnóstico de que não veria seu bebê crescer porque lhe restavam apenas dois anos de vida.

A história de Angélica Vasconcelos Melo, ou Angel, para os amigos, começa em 17 de março de 1989, mas tem seu curso interrompido 23 anos depois. Em 2012, ela havia realizado dois sonhos: formar-se em publicidade e propaganda e ter Pedro Henrique. Quando o bebê completou 3 meses, ela começou a tirar o leite da sua mama para armazenar e voltar ao trabalho. Foi nesse ato corriqueiro para tantas mães que sentiu um caroço no seio e procurou sua ginecologista. A partir daí, a vida de Angélica virou de ponta-cabeça. Depois de alguns exames, o diagnóstico soou, em suas palavras, como "uma frase maldita": "Você tem câncer".

Um buraco se abriu, a tristeza e a dor tomaram conta dela. Foram várias sessões de quimioterapia, enjoos fortes, o cabelo que foi embora, levando sua autoestima, e uma cirurgia para a retirada completa da mama. "Travo uma luta diária com minha mente tentando ocupar um espaço vazio dentro da roupa", conta. Não bastasse tudo isso, a separação do marido acontecia ao mesmo tempo. Dias bem difíceis faziam parte de sua rotina - só Pedro Henrique lhe dava motivos para sorrir.

Angélica finalmente se livrou do câncer de mama, mas poucos meses depois veio nova bomba: metástase no cérebro. Células cancerígenas saíram do local de origem e instalaram-se onde a quimioterapia não havia chegado. O mais cruel ainda estava por vir. Com o diagnóstico, a sentença sobre seu tempo de vida: aproximadamente dois anos lhe restavam.

Angélica não pensava mais em si, apenas no filho. O que fazer com uma criança que tinha apenas 2 anos? Ela reuniu forças e decidiu que seu pequeno precisava recordar dela e do amor que sentia por ele. Seu maior medo era morrer e seu menino não ter idade suficiente para guardar a mãe na memória. Ela não poderia partir sem deixar doces e importantes lembranças em sua vida. Só alguém poderia fazer isso por ela: Harry Potter. Uma legião de mães se mobilizou e, em contagem regressiva, iniciou uma vaquinha virtual que arrecadou, em apenas um mês, o dinheiro necessário para patrocinar a viagem de Angélica e Pedro Henrique para Orlando, nos Estados Unidos, onde poderiam conhecer o bruxinho no parque que leva seu nome. Passaportes, vistos, passagens e autorização médica em mãos, mãe e filho partiram para conhecer aquele que mudaria o futuro dos dois.

A viagem aconteceu bem no Dia das Mães, e a mágica se fez. Eles viveram o hoje com ose não houvesse o amanhã. Inesquecível para ambos. Angélica diz que seu futuro é hoje, mas o de Pedro Henrique é amanhã. Nos seus sonhos, ele torna-se médico e ela assiste à sua formatura. Recentemente, Angel passou por uma radiocirurgia no crânio. O resultado esperado para seis meses já foi alcançado em três. "Creio que estou curada", afirma. Quem discorda dessa que é anjo até no nome? Magia, fé, amor ou medicina. Só Pedro Henrique tem a resposta. Ele nem sabe, mas aqui vai nosso segredo: Pedro Henrique tem mais poderes que Harry.




(texto publicado na revista Claudia Filhos 633-B)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Fase de crescimento - Marcelo Marthe, da Cidade do México


Com o romântico Será que?, Daniel Radcliffe - que ganhou fama como o bruxo Harry Potter - avança na sua bem-sucedida transição para a carreira adulta

Em uma tarde de sol forte, crianças e adolescentes - quase 100% do sexo feminino - se aglomeraram na entrada de um shopping center no Paseo de la Reforma, avenida elegante da Cidade do México. Em pouco tempo, a horda dribla os seguranças e começa a se concentrar perto das escadas rolantes que dão acesso a um cinema. Tamanha excitação é motivada pela expectativa de que um inglês franzino de 1,65 metro em breve estará no local. Daniel Radcliffe é um velho conhecido da multidão: dos 11 aos 21 anos, o mundo o viu crescer diante das câmeras como protagonista dos filmes da série Harry Potter. Aos 25 anos, Radcliffe está dando mais um passo na sua transformação em estrela adulta. Em Será que? (What If, Irlanda/Canadá, 2013), que estreia no Brasil em 25 de setembro, ele assume o papel de galã de comédia romântica. Para as 5 000 fãs que o aguardam, porém, o bruxo dos filmes infantis e o jovem tristonho que vive uma paixão com a amiga Chantry (a loirinha Zoe Kazan) se confundem. A fusão das duas personas faz a coisa ferver. Temendo um tumulto, as autoridades ameaçaram cancelar a première. Só depois de três horas é que Radcliffe deu as caras. Todo comportado, fez questão de ler uma mensagem de agradecimento em espanhol. "Achei importante dar uma satisfação às pessoas que se esforçaram tanto para me ver", disse a VEJA na manhã seguinte. Mas o momento mágico ainda estava por acontecer: o cinema vem abaixo na cena em que o ator branquelo aparece pelado, de costas, para um banho noturno no mar.

Embora compense as doses de glacê com a delicada melancolia do par romântico, Será que? representa sem dúvida uma piscadela para a geração que brincava de boneca nos tempos de Harry Potter e agora sonha com um rapaz bonitinho para chamar de seu. Mas o novo filme não altera o rumo de sua transição profissional bem-sucedida: na carreira de Radcliffe, a ordem é diversificar. No fim da década passada, quando ainda encarnava o personagem infantil, ele embarcou em um trabalho que muitos viram como tentativa artificial de adicionar conteúdo à imagem: na peça teatral Equus, Radcliffe mostrou pela primeira vez que não tinha pudor em atuar pelado. Os projetos seguintes, no entanto, serviram como um cala-boca aos céticos. Ele fez sucesso com um musical na Broadway. Há dois anos, mandou bem como o jovem viúvo de A Mulher de Preto, filme de terror com a marca do estúdio inglês Hammer. No ano passado, interpretou o poeta beat, Allen Ginsberg (1926-1997) em Versos de um Crime. No meio-tempo, contracenou com o calejado Jon Hamm, de Mad Men, em uma série da HBO baseada na obra do escritor russo Mikhail Bulgakov (1891-1940). Em a Young Doctor's Notebook, os dois atores representam um médico de província em duas fases da vida. Hamm surge com um fantasma que comenta os fatos da vida do homem que se tornaria.

Radcliffe se revelou, enfim, um esforçado. Ele poderia ter seguido na zona de conforto dos arrasa-quarteirões juvenis de Hollywood. Mas fez um cálculo inteligente: para construir uma carreira consistente, é preciso dar a cara a bater. Nascido em uma família de classe alta de Londres, o ator leva uma vida prosaica em Nova York, onde às vezes é visto com sua namorada, a atriz Erin Darke. Simpático, falante e chamando atenção pelo tamanho ínfimo das mãos, só não gosta quando tocam em um assunto: seus problemas com o álcool durante as filmagens dos últimos episódios de Harry Potter. Quando o tema é abordado, um assessor que parecia hibernar numa cadeira dá um pulo. Mas Radcliffe o tranquiliza. "Deixa que eu respondo: essa é uma questão de quatro anos atrás sobre a qual já falei tudo o que tinha a declarar", disse ele, sem deixar de sorrir. Com essa segurança mágica, o rapaz vai longe.

"É preciso encarar riscos"

O inglês Daniel Radcliffe foi ao México semanas atrás para divulgar o filme Será Que?. Depois de levar as fãs à loucura na première da comédia romântica, ele falou a VEJA sobre sua vida pós-Harry Potter

Depois de Harry Potter, seus trabalhos incluíram um filme de terror, uma série da HBO baseada na literatura russa e, agora, uma comédia romântica. A transição de estrela infantil a ator adulto se completou?

Eu não iria tão longe. Ainda falta um bocado para chegar lá. Mas considero que as coisas estão indo bem. Não desejo, de modo algum, que as pessoas se esqueçam de mim como Harry Potter. Eu adoro o personagem e sou grato por tudo o que ele trouxe de bom para minha vida. Devo à experiência como Harry Potter a descoberta da minha paixão pela profissão de ator. Mas julgo positivo que já comece a ser visto não só como o rapaz que fez um personagem conhecido, mas também como um ator com luz própria. Com sorte, espero ter a oportunidade de continuar nesse rumo. Fazer trabalhos tão diversificados é essencial, pois as pessoas vão se acostumando a me ver com outros olhos. Quando estreei A Mulher de Preto, a reação de muita gente foi de choque. Falavam de mim como se fosse absurdo que Harry Potter tivesse se transportado para um filme de terror. Já faz alguns anos que eu fiz o último filme da série e as pessoas continuam a me confundir com o personagem. Sei que será assim por muito tempo, mas vejo essas reações com naturalidade.

Seu desempenho como ator melhorou muito desde Harry Potter. Como isso ocorreu?

Você acha que melhorei mesmo? Obrigado por ser tão generoso. Na verdade, creio que minha evolução teve tudo a ver com a idade. Quando você faz um filme muito jovem, simplesmente não tem ideia da dimensão da tarefa em que está envolvido. Nos primeiros filmes da série, eu não tinha noção do que estava fazendo ali. Depois de virar adolescente, lá pelos 14 anos, passei a ter mais consciência. Só que minha atenção estava toda voltada para as questões típicas daquela fase da vida, como a busca da identidade, os problemas com a aparência e a necessidade de estar entre os amigos. Era difícil me concentrar na interpretação. Fui me tornando um ator mais seguro à medida que fiquei mais velho. Mas também devo muito a outro fator: a experiência de fazer musicais em Londres e na Broadway. Foi no palco que aprendi a lidar melhor com meu corpo e minha voz, além de ficar mais solto.

Muitas estrelas infantis não foram capazes de sustentar a carreira depois de crescidas. Que tipo de risco é preciso evitar?

Não sei generalizar, sinceramente. No meu caso, creio que um dos fatores que me mantiveram à tona foi que tive um bom começo, como protagonista de uma série de sucesso capaz de alimentar a expectativa positiva. Mas acho que também foi fundamental não ficar parado. Ao investir no teatro e em filmes menos óbvios, creio que transmiti às pessoas a mensagem de que não estava conformado em fazer sempre a mesma coisa. Tão logo o público percebe que você quer se desafiar, você passa a ser encarado de outro jeito. Assumir riscos provoca excitação e curiosidade nas pessoas. Se você der sorte de encontrar dois ou três diretores que ponham fé em seu talento e souber agarrar essas oportunidades com as duas mãos, estará em uma ótima trilha. Evitar riscos, portanto, é uma opção equivocada. É preciso encarar riscos sem medo.

Harry Potter foi um símbolo para uma geração que tinha a sua idade nos tempos da série. Como é a experiência de crescer ao mesmo tempo que os fãs?

É uma coisa adorável. Ainda hoje, as pessoas se emocionam e dizem palavras incríveis quando me encontram. "Obrigado por ter feito parte de minha infância de forma tão especial" é o que mais ouço. Fico muito tocado quando pais dizem que ajudei a manter a família unida. Quando fiz os filmes, confesso que não tinha a mínima ideia de quanto meu trabalho estava afetando a vida de tanta gente. Eu mesmo, por ironia, não consigo assistir aos dois primeiros filmes da série hoje em dia. É embaraçoso ver como eu era ruim.


Em que momento veio a consciência do peso de interpretar Harry Potter?

Nunca foi um peso. Mas, com o tempo, fui me dando conta de que o contato com os fãs dos filmes e dos livros tinha um significado diferente para mim e para eles. Não vou me lembrar de muitas pessoas com quem cruzei ao longo daqueles anos, nem as verei nunca mais. Mas com certeza elas continuarão a se sentir íntimas de mim. Assim, percebi que não posso decepcioná-las, ser rude ou impaciente com ninguém, mesmo em um dia em que meu humor não esteja legal. Quando notei isso, captei o exato tamanho da minha responsabilidade: não tenho o direito de quebrar o encanto dos outros.

Como é lidar com a fama desde tão cedo?

A fama deve ser ignorada tanto quanto você puder. Minha passagem pelo México foi uma loucura. Havia fãs gritando no aeroporto e durante a première de meu novo filme. Nessas horas, se a sua reação for qualquer outra que não seja se esbaldar de rir ao entrar no carro para fugir da bagunça, você provavelmente não nasceu para ser famoso. Se a fama o perturba ou vira um fardo, uma hora você vai desabar. Deve pensar seriamente em trocar de profissão. Mas o contrário pode ser ainda mais perigoso: se você acha que merece a fama, por se julgar alguém iluminado ou muito especial, aí é que estará lascado de fato. Para muita gente, o sucesso se torna uma droga que causa dependência psicológica. Isso é desastroso, pois não um bem mais efêmero que a fama. Eu sou conhecido hoje por causa de meu trabalho, mas é possível que chegue o dia em que não despertarei o mínimo interesse nas ruas. Com ou sem fama, será preciso tocar a vida adiante. Se a pessoa ignora que a fama não decorre dela, mas sim de sua posição, fica complicado lidar com isso de modo saudável.

Como viver as coisas típicas dos 20 e poucos anos - como namorar e ir para a balada - sob os holofotes?

Levo uma vida relativamente normal. Tenho de me manter um pouco escondido, claro. Mas, felizmente, nunca tive de recorrer a disfarces. A verdade é que há vários lugares no mundo em que é possível levar uma vida anônima. Londres é assim. E não há cidade mais perfeita para um famoso passar despercebido do que Nova York, onde vivo. Quer dizer, talvez não seja tão simples escapar do assédio na área central da cidade. Mas, na minha vizinhança tranquila e respeitosa, isso tem sido possível até agora. Lá não é tão desafiador ser o ex-Harry Potter.




(texto publicado na revista Veja edição 2391 - ano 47 - nº 38 - 17 de setembro de 2014)






















sábado, 12 de julho de 2014

O lado bom das coisas ruins - Maurício Horta


Depressão, timidez, pessimismo... Tudo isso tem mais do que um lado bom: podem ser peças fundamentais para uma vida melhor e mais feliz.

A mulher mais rica do Reino Unido ganhou sua fortuna escrevendo um livro juvenil durante uma crise de depressão, enquanto sustentava sua filha com ajuda do governo. Tinha acabado de perder o emprego e de se divorciar. O maior filósofo do século 20 não passou no vestibulinho do colegial e sofreu bullying na escola por escrever errado, ter péssima memória e não fazer amizades - não se interessava em conviver com pessoas. Humanos também não eram os seres prediletos do mais conhecido intérprete de J. S. Bach, que não tocava para plateias nem deixava que pessoas encostassem nele. E o inventor da lâmpada era tão avoado que foi expulso da escola aos 8 anos e precisou estudar em casa.

J. K. Rowling, Ludwig Wittgenstein, Glenn Gould e Thomas Edison. Essas pessoas atingiram o sucesso não apesar de suas falhas, mas por causa delas. Certos padrões de personalidade e de ânimo considerados até mesmo transtornos mentais foram selecionados ao longo da evolução. Talvez essas adaptações não sejam tão vantajosas hoje quanto na época em que vivíamos fugindo de predadores, lutando com rivais e caçando presas. Mas tais peculiaridades preenchem os buracos criados pela normalidade da maioria das pessoas.

Desatentos conseguem captar ao mesmo tempo vários estímulos do ambiente e, com isso, fazer associações inesperadas, criativas. Outras pessoas não conseguem se interessar pelo que há à sua volta, mas exatamente por isso concentram-se dias a fio num só raciocínio e chegam a conclusões geniais. A ansiedade nos protege de pagar para ver uma ameaça, e a tristeza e o pessimismo nos fazem desistir de ilusões.

Portanto, se você tem amigos esquisitos, sinta-se sortudo. Você se acha meio diferente? Saiba nas próximas páginas por que isso pode ser bom.

Depressão

Do ponto de vista clínico, não há nada de bom na depressão. Ela aprisiona no sofrimento pessoas que, paralisadas, não conseguem tomar atitudes que melhorariam sua vida. Isolam-se socialmente e tendem a remoer um problema. Às vezes, até a morte. Mas não. Até ela tem seu lado positivo. Para começar a entender qual é esse lado, temos que responder a uma pergunta: por quê, afinal, a depressão existe? Uma hipótese é a de que, conforme a civilização se desenvolveu, o homem alterou seu ambiente numa velocidade maior do que sua capacidade de adaptar-se a ele. Evoluímos para viver em grupos de 50 a 70 membros seguindo o ciclo do Sol, com a preocupação de obter alimento e procriar. Agora as coisas mudaram um pouco: temos de nos preocupar com contas, imagem, carreira... E muitos planos acabam frustrados - talvez mais do que a cabeça foi feita para aguentar. Pior: temos hábitos sedentários e, graças à luz artificial, fazemos nosso corpo funcionar no tempo do relógio, e não no do Sol. Tudo isso explicaria por que a prevalência da depressão tem aumentado. "É o mesmo que ocorre com nosso sistema cardiovascular, que não evoluiu para dar conta de alimentos gordurosos e pouco exercício", afirma Paul Gilbert, da Universidade de Derby, no Reino Unido.

Mas não é só isso. Outra corrente defende que a depressão existe porque foi talhada pela seleção natural, ou seja: porque oferece vantagens a seus portadores. Segundo o médico Randolph Nesse, da Universidade de Michigan, ela teria a mesma função da dor: garantir nossa sobrevivência diante de um risco. Quando um tecido está prestes a ser lesionado durante alguma atividade física, nossos neurônios transmitem um estímulo que nos impede de seguir além de nossos limites. A depressão funciona da mesma forma - mas, em vez de impedir fisicamente que você assuma um risco, ela atua no ânimo. A euforia e a depressão serviriam para regular nossas ações na busca por um objetivo. Isso motiva a pessoa a continuar a se esforçar e assumir riscos cada vez maiores. Quando esses esforços começam a falhar, uma piora no ânimo a faz voltar atrás, preservar suas reservas e reconsiderar opções. Essa piora, essa depressão leve, abre espaço para a introspecção e o autoexame necessários para tomar decisões difíceis, como desistir de objetivos inalcançáveis e buscar novas metas. Foi justamente o que observaram pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Por 19 meses, eles acompanharam 97 adolescentes, analisando sua capacidade de deixar de lado objetivos muito difíceis (ou inalcançaveis), como virar um músico famoso, e abraçar outras metas, como dar duro para entrar numa boa faculdade. Enquanto isso, os pesquisadores também observaram sintomas de depressão nos voluntários. Conclusão: as pessoas com sintomas de depressão leve conseguiam abrir mão com mais facilidade de objetivos irrealistas. Elas davam menos murro em ponta de faca. E tendiam a sair da adolescência menos machucados, mais felizes, do que os esmurradores de lâminas.

Ansiedade

Você está perdido no meio do nada. E ouve um ruído longínquo de animal. O bicho pode ser um tatu ou uma onça. Se você ficar apavorado e sair correndo até um lugar seguro antes que uma possível onça se aproxime, vai ter gasto 200 calorias em 10 minutos. Se não correr e depois for surpreendido por um leão, perderá seu corpinho inteiro - isto é, 200 mil calorias. Por esse raciocínio frio e puramente matemático, valeria a pena ter um ataque de pânico se a probabilidade de o ruído ser de um leão for maior que 1 em 1000, conclui Randolph Nesse em sua empreitada em busca das causas evolutivas de transtornos mentais. Isso justifica por que é bom sentir medo mesmo quando a ameaça é pequena. E ansiedade é isto: medo de algo que não é necessariamente real. Mais: tal como o amor, ela é uma emoção. E uma emoção é um padrão de resposta diante de situações que podem trazer riscos ou oportunidades. A paixão ajuda a cortejar um parceiro, a raiva nos afasta de alguém quando desconfiamos que fomos traídos, e a ansiedade nos faz fugir ou lutar quando sentimos ameaçados. E isso acontece sem que pensemos. Quando bate a ansiedade, o fígado começa a liberar glicose, a frequência cardíaca aumenta, menos sangue circula pela pele e mais vai para os músculos. Assim, o corpo fica preparado para reagir - a animais, à altura, a trovões, à escuridão ou ao escrutínio público. E também a coisas mais sutis, como um trabalho insuportável ou um relacionamento falido. Ou seja: a ansiedade também pode funcionar como um alarme para que você mude de vida quando necessário. Um alarme que não temos como fingir não escutar.

Pessimismo

Para começar, precisamos de pessimistas por perto. Como diz o psicólogo americano Martin Seligman: "Os visionários, os planejadores, os desenvolvedores, todos eles precisam sonhar com coisas que ainda não existem., explorar fronteiras. Mas, se todas as pessoas forem otimistas, será um desastre", afirma. Qualquer empresa precisa de figuras que joguem a dura realidade sobre os otimistas: tesoureiros, vice-presidentes financeiros, engenheiros de segurança...

Esse realismo é coisa pequena se comparado com o pessimismo do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Para ele, o otimismo é a causa de  todo sofrimento existencial. Somos movidos pela vontade - um sentimento que nos leva a agir, assumir riscos e conquistar objetivos. Mas essa vontade é apenas uma parte de um ciclo inescapável de desilusões: dela vamos ao sucesso, então à frustração - e a uma nova vontade.

Mas qual é o remédio, então? Se livrar das vontades e passar o resto da vida na cama sem produzir mais nada? Claro que não. A filosofia do alemão não foi produzida para ser levada ao pé da letra. Mas essa visão seca joga luz no outro lado da moeda do pessimismo: o excesso de otimismo - propagandeado nas últimas décadas por toneladas de livros de autoajuda. O segredo por trás do otimismo exacerbado, do pensamento positivo desvairado, não tem nada de glorioso: ele é uma fonte de ansiedade. É o que concluíram os psicólogos John Lee e Joane Wood, da Universidade de Waterloo, no Canadá. Um estudo deles mostrou que pacientes com autoestima baixa tendem a piorar mais ainda quando são obrigados a pensar positivamente.

Na prática: é como se, ao repetir para si mesmo que você vai conseguir uma promoção no trabalho, por exemplo, isso só servisse para lembrar o quanto você está distante disso. A conclusão dos pesquisadores é que o melhor caminho é entender as razões do seu pessimismo e aí sim tomar providências. E que o pior é enterrar os pensamentos negativos sob uma camada de otimismo artificial. O fisósofo britânico Roger Scruton vai além disso. Para ele, há algo pior do que o otimismo puro e simples: o "otimismo inescrupuloso". Aquelas utopias que levam populações inteiras a aceitar falácias e resistir à razão. O maior exemplo disso foi a ascensão do nazismo - um regime terrível, mas essencialmente otimista, tanto que deu origem à Segunda Guerra com a certeza inabalável da vitória. E qual a resposta de Scruton para esse otimismo inescrupuloso? O pessimismo, que, segundo ele, cria leis preparadas para os piores cenários. O melhor jeito de evitar o pior, enfim, é antever o pior.

Timidez

Escolas valorizam trabalho em grupo. Processos seletivos jogam candidatos em dinâmicas para identificar líderes natos. Empresas colocam seus funcionários em amplos escritórios sem divisórias e colhem ideias em brainstorms com uma dezena de pessoas - vale tudo, menos ter vergonha de falar besteira. Vivemos no mundo dos extrovertidos. Mas há pesquisadores que veem essa valorização do trabalho coletivo e da extroversão como um tiro no pé. "O mundo está desperdiçando o talento das pessoas tímidas", defende Susan Cain em seu livro Quiet (O poder dos Quietos), que compila estudos sobre o assunto.

Mas como a timidez pode ser positiva, afinal? Para responder a isso, precisamos esclarecer uma coisa - ser introvertido não significa ser fechado ao exterior. Muito pelo contrário. É ser sensível demais a ele. É o que tem demonstrado desde a década de 1960 o psicólogo Jerome Kagan. Em seus estudo mais importante, ele juntou 500 bebês de 4 meses em seu laboratório em Harvard para observar como reagiam quando estimulados com sons, imagens coloridas em movimento e cheiros. Então separou o grupo dos que reagiam muito - 20% deles - e o dos que reagiam pouco - 40%. Suas pesquisas anteriores lhe permitiram predizer o contrário do que a intuição sugere: os muitos reativos se tornariam os futuros introvertidos. Aos 2, 4, 7 e 11 anos de idade, essas crianças voltaram ao laboratório de Kagan. As que haviam sido classificadas como muito reativas desenvolveram personalidades sérias, cuidadosas, enquanto as pouco reativas se tornaram mais relaxadas e autoconfiantes - a futura turma do fundão. Isso porque a amídala (estrutura do sistema límbico, responsável por reações instintivas, como apetite, libido e medo) é mais facilmente estimulada em crianças muito reativas. Ou seja, são mais alertas, mais sensíveis a estímulos novos. Suas pupilas se dilatam mais, suas cordas vocais ficam mais tensas, sua saliva tem mais cortisol - um hormônio do estresse - e seu batimento cardíaco se acelera mais. Um pouco de novidade já implica em vontade de se proteger. O lado negativo é que são mais vulneráveis à depressão e à ansiedade. Mas, ao mesmo tempo, podem ser mais empáticas, cuidadosas e cooperativas, desde que se sintam em sua zona de conforto. "Crianças muito reativas pode ter maior probabilidade para se tornar artistas, escritores, cientistas e pensadores, pois sua aversão a estímulos novos as faz passar mais tempo no ambiente familiar - e intelectualmente fértil - de sua própria cabeça", diz Cain. Um introvertido concentra a mente numa só atividade, em vez de dissipar energia em assuntos não relacionados do trabalho - estudos do programador americano Tom DeMarco com 600 colegas mostram que o que define a produtividade no setor de TI não é o salário nem a experiência, mas o quão isolado é o ambiente de trabalho. A solidão também permite focar-se nas próprias falhas e treinar até chegar à perfeição. E esse tipo de prática que cria grandes atletas e virtuoses musicais.

Autismo

Ludwig Wittgeinstein, gênio da filosofia, começou a falar só aos 4 anos. Estudou com tutores particulares em sua casa, em Viena, até os 14 anos. Sem conseguir passar no vestibulinho do colegial, foi parar em 1903 na escola técnica de Linz (a mesma de Adolf Hitler, de quem não foi colega, pois o futuro ditador estava dois anos atrasado nos estudos). Mas ele simplesmente não se interessava pelos colegas. A solidão e a dislexia fizeram dele um perfeito alvo de bullying. "Nunca consegui expressar metade do que queria. Na verdade, não mais que um décimo", contou em suas memórias.

Assim foi o jovem Wittgenstein. Mas sua excentricidade e o fato de ter revolucionado a filosofia no século 20 não são uma contradição, segundo o professor Michael Fitzgerald, do Trinity College, em Dublin. O psiquiatra vê em sua biografia sintomas que caracterizam a síndrome de Asperger - um tipo de autismo que, aliado a um intelecto avantajado, pode ser a base da genialidade.

Todo autista se foca obsessivamente em interesses muito específicos, tem comportamentos repetitivos e não se interessa em interagir com outras pessoas. Mas, enquanto a imagem mais comum é a da criança ensimesmada balançando para a frente e para trás, o espectro do autismo vai desde o atraso mental até o desenvolvimento linguístico e cognitivo completo - caso da síndrome de Asperger. Quem tem essa síndrome não se interessa em dividir experiências e emoções, tem padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento e de interesses e não abre mão de sua rotina. Isso torna o convívio difícil - mas pode ter um efeito colateral inesperado.

"Muitas características da síndrome de Asperger aumentam a criatividade", escreve Fitzgerald em Autism and Creativity (Autismo e Criatividade). "Pessoas assim têm uma capacidade extraordinária para focar-se em um tópico por um longo período - dias, sem interrupção nem mesmo para as refeições. Não desistem diante de obstáculos. " E não é apenas a concentração. A forma como entendem o mundo é diferente. Quando veem uma coisa, apreendem o detalhe para então sistematizar como funciona o geral - enquanto a maioria das pessoas apreende o geral para depois de afunilar em detalhes. Isso é um enorme ponto positivo para engenheiros, físicos, matemáticos, músicos.

Não que não haja um lado negativo. Portadores da síndrome de Asperger também têm dificuldade em aceitar e adotar regras sociais. Por isso, muitas vezes parecem ter personalidade infantil. Quando entrou para a faculdade de engenharia, Wittgenstein se fascinou pela obra Os Princípios da Matemática, de Bertrand Russell. Em 1911, mudou-se para a Universidade de Cambridge para estudar com Russell. Nos primeiros dias, chegava à sala do mestre à noite e seguia até a manhãzinha desdobrando suas ideias como que em um monólogo. Em 1926, quando terminou a defesa oral de sua tese de doutorado, deu um tapinha nos ombros dos examinadores. "Não se preocupem. Eu sei que vocês nunca conseguirão entender", disse. Wittgenstein começou então a dar aulas. Em seus seminários, era como se não houvesse uma audiência. Lutava com seus pensamentos e volta e meia caía em silêncios que nenhum estudante ousava interromper. Qualquer comentário que considerasse estúpido era retrucado brutalmente.

Para escrever Investigações Filosóficas, sua maior obra, ficou isolado numa cabana na Irlanda. Certa vez, o caseiro, que o havia visto conversando, perguntou-lhe se tivera uma boa companhia. A resposta foi: "Sim, falei muito com um ótimo amigo - eu mesmo". "Estar sozinho me faz um bem infinito, e não acho que agora poderia suportar a vida entre pessoas". O único grande prazer social do filósofo era discutir seus interesses - lógica, linguística e música. O mundo real pouco lhe importava.


Déficit de atenção

De 3 a 5% das crianças em idade escolar são daquelas distraídas e agitadas, que perdem tudo, não conseguem fazer a lição, não esperam sua vez e agem sem pensar. Têm o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Quando crescem, os sintomas diminuem, mas os problemas, não. Podem até piorar - afinal, as responsabilidades são outras. O que se esquece não é mais a lição de casa, mas prazos e reuniões. Trabalhos são abandonados pela metade, ordens são ignoradas. A impulsividade pode custar o emprego ou o relacionamento. Por que isso é tão comum? A resposta é semelhante à da ansiedade e da depressão - essa característica já foi uma vantagem adaptativa, até que a cultura e o ambiente mudaram. Em sociedades nômades, quem tem foco de atenção disperso é capaz de cuidar melhor de seu gado, explorar áreas desconhecidas e ficar alerta para ameaças. Dan Eisenberg, da Northwestern University, EUA, observou em tribos africanas nômades e sedentárias. Entre os nômades, os que tinham o alelo 7R (ligado ao TDAH) eram mais bem nutridos do que os sem. já nas sedentárias, acontecia o contrário. Em outras palavras, conforme o homem se estabeleceu num só lugar e começou a viver de atividade que exigem mais foco, a atenção dispersa virou desvantagem. Mas não tanto. Os mesmos genes que hoje estão associados ao risco são responsáveis por revoluções nas artes, ciência e exploração, acredita o psiquiatra Michael Fitzgerald, do Trinity College. Michael, que já tinha procurado traços de autismo na biografia de personalidades, não demorou para fazer o mesmo com o TDAH. Segundo ele, sintomas de déficit de atenção estão presentes em Thomas Edison, Oscar Wilde, Kurt Cobain (que foi diagnosticado quando criança) e até em Che Guevara. Quem tem a cabeça na Lua pode encontrar lá em cima coisas que pessoas com o pé no chão não veem.

Fracasso

Quando destruímos um relacionamento, somos demitidos ou vivemos qualquer outra grande frustração nessa linha, não tem muito jeito: sentimos não só que um plano deu errado, mas que falhamos como pessoa.

Nossa mente, porém, evoluiu com uma defesa contra isso: ela ignora o que não quer saber. Uma área do cérebro chamada córtex cingulado anterior é ativada quando percebemos que alguma coisa deu errado. É como se fosse o mecanismo do "putz!". Com ele, excitamos mais uma região - o córtex pré-frontal dorso-lateral. Ele é o "censor" da mente, responsável por apagar determinado pensamento.

Esse mecanismo duplo - primeiro o "putz e depois o "esquece" - permite editar nossa consciência conforme nossa vontade. Assim, conseguimos deixar para trás nossos fracassos.

Isso também acontece com cientistas. No início da década de 1990, Kevin Dunbar começou a observar os laboratórios de bioquímica da Universidade de Stanford.  Descobriu que a metade dos dados obtidos nas pesquisas não batia com o que suas respectivas teorias previam. Os resultados às vezes simplesmente não faziam sentido. A reação então era típica: primeiro, os pesquisadores procuravam um bode expiatório - alguma enzima ou máquina devia não ter funcionado direito. Então repetia-se o experimento.

Quando o resultado inesperado acontecia de novo, o experimento inteiro era considerado um fracasso e acabava arquivado. O que os pesquisadores não percebiam é que o mecanismo "putz, esquece" de sua mente os cegava. Dunbar então observou grupos de estudo com pesquisadores de diferentes áreas - biólogos, químicos e médicos. O fato de ter pessoas com um olhar de fora fez com que os bioquímicos, em vez de jogar fora o experimento, abrissem os olhos e repensassem suas teorias. Assim puderam reavaliar suas convicções e muitas vezes encontrar o caminho que funcionava. Moral da história: entender o porquê de um fracasso pode ser o melhor atalho para o sucesso.

É mais ou menos o que aconteceu com a britânica Joanne Rowling. Quando era adolescente, tudo o que seus pais esperavam dela era que não fosse pobre como eles. E tudo o que ela queria era ser escritora. Para arranjar um meio-termo entre seu desejo e o dos pais, fez faculdade de letras. Terminados os estudos, sua vida virou uma sucessão de fracassos. Tentou agradar os pais trabalhando num escritório, mas não suportava a chatice do dia a dia. Quando a mãe morreu, mudou-se para Portugal para dar aula de inglês. Em 3 anos, casou-se, teve uma filha e se divorciou. Desempregada e descasada, mudou-se para a Escócia, onde, deprimida, foi viver da ajuda financeira do Estado. Quando Joanne estava no ponto mais fundo de seu fracasso, começou a escrever um livro. Levou um "não" de 8 editoras - até conseguir uma que publicasse seu Harry Potter e a Pedra Filosofal. Adotou o nome artístico de J. K. Rowling e, em 3 anos, se tornaria a mulher mais rica do Reino Unido. E, para ela, o ingrediente de seu sucesso foi o fracasso. "O fracasso significa eliminar tudo o que não for essencial. Parei de fazer de conta para mim mesma que era uma pessoa diferente e comecei a direcionar toda minha energia em terminar o único trabalho que importava para mim", disse a uma plateia de graduandos de Harvard durante uma conferência do TED (Instituição que organiza conferências sobre novas ideias). E arrematou: "Me senti liberta, porque meu maior medo já tinha acontecido. E ainda assim eu continuava viva".




(texto publicado na revista Super Interessante nº 302 - março de 2012)












terça-feira, 15 de outubro de 2013

Recensione: Harry Potter e La Pietra Filosofale



La recensione e il paragone tra la prima stampa del libro e l'ultima uscita nel 2011. Qui giù troverete le differenze tra il film e il romanzo. 


1) Harry presenta differenze nell'aspetto: nei film ha i capelli lisci mentre in tutti i libri viene descritto con i capelli lisci ma arruffati e gli occhi di Harry sono verdi, mentre nei film sono azzurri.


2) Nel primo film sono stati omessi la signora Figg, un'anziana proprietaria di tanti gatti (che, in Harry Potter e l'Ordine della Fenice, rivela di essere una Maganò), Piers Polkiss, il migliore amico di Dudley, e il Poltergeist Pix (che non comparirà neppure nei film successivi).

3) Nel film, Harry incontra per la prima volta Draco Malfoy ad Hogwarts, prima di entrare nella sala Grande per lo smistamento nelle Case; nel libro invece, lo incontra prima di arrivare al castello ben due volte: a Diagon Alley in un negozio per divise scolastiche (dove i due non si presentano), e sul treno durante il viaggio, dove Malfoy è ormai consapevole chi sia il ragazzo incontrato precedentemente.

4) Nel film viene eliminato il duello nella sala dei trofei sul quale Harry e Draco si erano accordati.

5) Nel film viene omessa la presenza di Neville Paciock quando Harry, Ron e Hermione si imbattono per la prima volta in Fuffi.

6) Durante la cerimonia dello Smistamento, la professoressa Minerva McGranitt chiama Susan Ossas, che nelle ultime traduzioni dei libri viene invece chiamata Susan Bones.

7) Nel film viene inoltre eliminata la seconda partita di Quidditch (la quale viene arbitrata da Piton per impedire a Raptor di tentare nuovamente di far del male a Harry). Inoltre il dialogo che avviene subito dopo nella Foresta Proibita tra Piton e Raptor, nel film avviene di notte in un corridoio vicino alla biblioteca subito dopo che Harry si è recato nella sezione proibita; Harry, che nel libro vi assiste nascosto sul ramo di un albero (sul quale atterra con la sua scopa), nel film vi assiste nascosto sotto il mantello dell'invisibilità.

8) Nel film, Hermione chiama Voldemort per nome, mentre nei libri lo farà solo dal quinto.

9) Licenza dello sceneggiatore è rappresentare Seamus Finnigan come mago latente alle esplosioni coi propri incantesimi: tale aspetto, poi saltuariamente recuperato anche nei film successivi (e che avrà una notevole importanza in Harry Potter e i Doni della Morte - Parte 2), è del tutto assente nei libri.

10) Nel film il drago di Hagrid viene spedito da Silente in Romania, mentre nel libro sono Harry ed Hermione a portarlo agli amici di Charlie Weasley.

11) Nel film ad andare nella foresta proibita, come punizione, sono Harry, Ron, Hermione e Draco. Nel libro invece nella foresta vanno Harry, Hermione, Draco e Neville in quanto Ron è in infermeria a seguito di un morso infettato di Norberto.

12) Nel film lo scontro con Raptor viene vinto da Harry toccando il volto del professore, mentre nel libro è Silente a salvare Harry (cosa che gli viene rivelata dallo stesso Silente nell'infermeria).

13) Durante la prova degli scacchi giganti, Ron decide di sacrificarsi, ma la scena nel libro è meno drammatica: nel libro, infatti, le pedine "mangiate" non vengono distrutte, ma solo tramortite.

14) Alla fine del film Harry, Ron e Hermione trovano un'arpa che suona da sola, mentre nel libro Harry e Hermione suonano un flauto (regalato a Harry da Hagrid) per far addormentare Fuffi.

15) Nelle scene dove Harry, Ron e Hermione cercano di superare il corridoio per prendere la pietra filosofale, sono stati omessi due incantesimi dei professori che sono stati poi reinseriti nelle varie versioni del videogioco: il corridoio del Troll e la stanza del fuoco magico con le pozioni per attraversarlo in mezzo ad altre con i veleni.

16) Nel film la casa dei "Corvonero" sostituisce quella di "Pecoranera". In realtà pare che il nome di "Pecoranera" sia presente solo nelle prime edizioni del romanzo, mentre nelle ristampe risulta corretto in "Corvonero", traduzione più fedele all'originale, nonché alla rappresentazione grafica dello stemma di Hogwarts, che raffigura un grifone, un serpente, un tasso ed un rapace.

17) Nel film è stata fatta la scelta di rendere le scale magiche, con movimenti autonomi ('Hermione: "Alle scale piace cambiare"'). Nel libro si dice soltanto che a volte alcune scalinate portano in luoghi diversi.


5 cose senza senso della saga Harry Potter


Alcune scene tagliate dei film di Harry Potter

HP e la pietra filosofale


HP e la camera dei segreti


HP e il prigioniero di Azkaban



HP e i doni della morte








sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Intervista shock a Harry Potter - L'umorismo di Piton


Tutto il cast di Harry Potter


Tributo ai caduti della saga di Harry Potter


I provini di Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson


Tutte le scene tagliate da Harry Potter e i Doni della Morte








Audiolibro - Harry Potter e il prigioniero di Azkaban