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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Mais reflorestamento, menos desmatamento


Quer ajudar o planeta a ter mais árvores? Confira algumas ideias para pôr em prática em sua vida

Não compre madeira ilegal

Ao adquirir produtos de madeira ou papel, procure pelo selo FSC. Ele garante que o item foi fabricado de forma ecologicamente adequada, causando o menor impacto possível. Além disso, assegura que a propriedade de onde os recursos foram extraídos é uma área legalizada, que paga todos os tributos e respeita os direitos dos trabalhadores.

Papel: reduzir e reciclar

Em média, cada brasileiro consome, na forma de papel, uma árvore a cada dois anos. Isso significa que, no decorrer da vida de cada um de nós, em média, 38 árvores são colocadas abaixo para sustentar o consumo pessoal. Ter esses dados em mente é importante para nos estimular a não desperdiçar papel e a encaminhar esse material à reciclagem. Usar essa matéria-prima com consciência ajuda a natureza.

Coma menos carne vermelha

40% da Terra é destinada à pecuária, e essa área só cresce. Para atender à demanda, muitos recorrem ao desmatamento. Na Amazônia, 70% das áreas desmatadas viram pastos. Cerca de 232 milhões de árvores são abatidas por ano para abrir espaço para rebanhos. Segundo o Greenpeace, nenhum supermercado hoje garante que a carne comercializada é isenta de crimes ambientais.

Plante árvores

Precisa de uma muda? Consulte a prefeitura da sua cidade. Os municípios costumam ter viveiros públicos que distribuem gratuitamente espécies nativas. O plantio em áreas particulares é livre. Se você quiser cultivar em uma área pública, como um parque ou canteiro na calçada, precisa de autorização da prefeitura. A administração municipal pode ajudar indicando quais variedades são mais indicadas para cada espaço.

Contribua com projetos do bem

Uma série de entidades luta pela conservação do meio ambiente. Você pode colaborar com doações ou trabalhando como voluntário. O Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org), por exemplo, esteá presente em São Paulo, Mato Grosso e Distrito Federal. O Instituto Terra (www.institutoterra.org) atua em Minas Gerais. O Greeepeace (www.greenpeace.org/brasil/pt) tem projetos de alcance nacional.



(texto publicado na revista Todos - A vida é feita de história. Qual é a sua? - dez2016/jan2017)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A reciclagem na Suécia é tão revolucionária que eles estão ficando sem lixo (Hype Science)


A Suécia está na liderança na gestão de resíduos sólidos urbanos, e dá exemplo ao resto do mundo. O país nórdico recicla 1,5 bilhão de garrafas e latas anualmente, uma quantidade impressionante para uma população de 9,3 milhões de pessoas. Os suecos produzem apenas 461 kg de lixo por ano (a média europeia é de 525 kg), e menos de 1% dessa quantidade acaba em aterros sanitários.

Essa ênfase na sustentabilidade, porém, tem trazido um problema para a produção de eletricidade do país. O lixo queimado em 32 instalações de incineração de resíduos produz energia elétrica e aquece casas no país. Se as usinas têm menos combustível, o país tem menos energia.

Este programa se chama resíduo-para-energia, e funciona da seguinte forma: fornalhas são carregadas com lixo, que é queimado a temperaturas entre 850 a 1000 °C, produzindo vapor. Este gás é usado para mover turbinas geradoras de eletricidade, que é transferida para a rede de energia elétrica.

Com este método, o país consegue reduzir toxinas que em aterros sanitários contaminariam o solo. “Quando o lixo fica em aterros, ele produz gás metano e outros gases do efeito estufa, e isso obviamente não é bom para o meio ambiente”, explica a diretora de comunicação da Administração de Resíduos da Suécia, Anna-Carin Gripwell.

Participação da população

Antes de ser incinerado, o lixo é separado pelos donos das casas e dos estabelecimentos comerciais das cidades. Resíduos que podem ser reciclados são separados e levados pelos cidadãos aos centros de coleta, que não ficam a mais de 300m das residências. Tudo o que pode ser consertado ou reaproveitado é levado para centros de reciclagem nos bairros distantes do centro das cidades.

A coleta de lixo no país é uma das mais rigorosas do mundo. Se o lixo orgânico não estiver de acordo com as especificações fornecidas pelo governo, ele não é recolhido. O contribuinte paga taxa de recolhimento do lixo proporcional à quantidade gerada, por isso os cidadãos controlam sua própria geração de lixo.

Assim, a quantidade levada às usinas, cerca de 50% do lixo produzido pelos suecos, é insuficiente para o pleno funcionamento das instalações, obrigando o país a importar 700 mil toneladas de lixo de locais como Reino Unido, Noruega, Irlanda e até Itália para garantir que a energia elétrica continue sendo gerada.

Lixo vira energia e cinzas

As cinzas restantes da incineração têm apenas 15% do peso que tinham antes do lixo ser queimado. Até as cinzas são recicladas. Os metais são retirados e reciclados, e o restante, como porcelana e azulejo, que não queimam, é peneirado para ser utilizado na pavimentação de estradas. Apenas 1% das cinzas não tem destino útil e é descartada em depósitos de lixo.

A fumaça da incineração consiste de 99,9% de água e dióxido de carbono não-tóxico, que é filtrada com água e filtros secos. Os filtros secos são colocados em depósitos de lixo, e a água suja é usada para encher minas abandonadas.

Não jogue fora, conserte

O país incentiva que seus cidadãos tentem consertar objetos ao invés de substitui-los. “Os consumidores estão mostrando que querem fazer a diferença e o que estamos fazendo como governo é ajudá-los a agir, tornando mais fácil viver de forma sustentável”, diz Per Bolund, Ministro do Consumo e Finanças do país.

Objetos que normalmente acabariam no lixo, como roupas, sapatos e bicicletas, são consertados. Isso cria empregos nessas áreas. Há espaço no mercado de trabalho para pessoas que consertam coisas. Essas são atividades que podem ser intelectualmente estimulantes mas que não exigem um nível muito alto de educação, permitindo que as pessoas comecem a trabalhar em alguns meses ao invés de anos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reciclar é preciso


O lixo é um dos maiores problemas gerados pela população humana hoje em todo o mundo. Em pesquisa recente realizada pela associação empresarial CEMPRE (Compromisso Empresarial para Reciclagem), ficou demonstrado que até este ano apenas 1055 (18%) dos municípios brasileiros possuíam sistema de coleta seletiva implementado. Ainda bem que em nosso município, e em nosso bairro, muitas iniciativas têm ajudado a solucionar, pelo menos, parte desse enorme problema.

Na Vila Leopoldina, trabalhadores que se conheceram na antiga Usina de Compostagem do bairro, se uniram e deram origem à cooperativa CooperAção, que funciona na rua Froben desde 2010. Neilton Cesar Polido, que hoje está no cargo de presidente, a secretária Jacy Cardoso, a 1ª vogal Maria Ivete de Lara Lima Joviano, a tesoureira Helia Terezinha Pereira de Oliveira e a 2ª vogal Regiane Rodrigues Faria são alguns deles. Muitos moradores da região, entretanto, desconhecem a grande importância do trabalho da cooperativa, e são até contra a sua existência no local. "Não temos catadores aqui. Temos sim caminhões que realizam a coleta e maquinários específicos que compramos com o dinheiro vindo da venda dos materiais. Podíamos nos unir aos moradores e realizar muitas parcerias, mas enfrentamos certa hostilidade por parte de alguns deles", comenta Neilton.

O trabalho da CooperAção resumidamente é receber o material, vindo de empresas, condomínios e também de pessoas físicas, separar por tipos e vender para indústrias que necessitam da matéria-prima para a produção de novos itens. "Como somos cooperados, tiramos o nosso sustento da venda desses materiais", enfatiza Maria Ivete.

A maior dificuldade dos trabalhadores da cooperativa é lidar com resíduos misturados. "As pessoas ainda não sabem muito bem separar o lixo comum do material reciclado. Alguém precisa fazer esse trabalho... e esse "alguém", somos nós", declara Jacy.

A CooperAção recebe vidro, papel, papelão, plástico, sucata ferrosa, além de eletroeletrônicos, móveis e até roupas e sapatos em bom estado. O que não é vendido para a indústria, é colocado em bazares e, em geral, comprado pelos próprios cooperados (55 pessoas atualmente).

Funciona de segunda a sexta, das 8 às 17h, e aos sábados até 16h.




(texto publicado na revista Guia Daqui nº 229 - ano 20 - outubro de 2016)

sábado, 29 de outubro de 2016

Projeto educacional mostra às crianças a importância da abelha para a vida humana - Graciela Zabotto


Na Cidade das Abelhas, em Embu das Artes, as crianças aprendem de forma divertida, que a principal função desse inseto não é produzir o mel, mas sim ser a principal polinizadora de várias espécies de vegetais.

No início desse mês, o Fish and Wildlife Service (FWS), órgão norte-americano com funções semelhantes ás do Ibama aqui no Brasil, anunciou que, pela primeira vez, as abelhas entraram para a lista de espécies em extinção nos EUA. E não é só o mel que faltaria com a ausência desse simpático inseto listrado em preto e amarelo. As abelhas são essenciais para a vida humana, pois são responsáveis pela polinização das plantas. Quando buscam seu alimento nas flores, elas levam junto ao corpo o pólen para outras plantas, possibilitando assim a reprodução. Sem sua principal polinizadora muitas espécies vegetais deixariam de existir.

Como toda essa infeliz realidade em torno de um inseto pequeno no tamanho - cerca de 2 centímetros - mas de extrema importância para a humanidade, quem poderia imaginar que, há pouco mais de 27 km de Osasco, existe um local com, aproximadamente, 80 colmeias com cerca de 60 mil abelhas cada uma? Criada em 1980, em Embu das Artes, a Cidade das Abelhas tem 100 mil metros quadrados de muito verde com reserva florestal da Mata Atlântica e milhares de plantas melíferas, que produzem pólen e néctar em abundância em vários meses do ano. Mentora e realizadora das principais atrações que existem hoje no local, foi Vera Ferraz Donnini quem fundou a Cidade das Abelhas, hoje considerada um Parque Ecológico, Cultura e de Lazer. Conhecida também como professora "Veruska", o objetivo era conscientizar a população, principalmente as crianças, sobre a importância das abelhas para a vida no planeta.

"Ela queria mostrar que sem as abelhas e a polinização cruzada nas flores, nós, seres humanos, não teríamos alimentos. Esta é a principal função das abelhas e de todos os insetos polinizadores", disse Wilson Donnini, diretor da Cidade das Abelhas, ao lado da também diretora, Idely Lopes Donnini. Pensado para ser uma sala de aula ao ar livre para as crianças, na Cidade das Abelhas todos os ambientes são temáticos. As cores preto e amarelo predominam e em cada canto há boneco ou desenho desse inseto que trabalha em prol da vida.

Com palestras e teatro interativo com o biólogo e 'abelha rainha', as crianças aprendem a importância das abelhas no transporte de pólen de uma flor para a outra, a chamada polinização, processo onde as flores são fecundadas, iniciando o desenvolvimento de frutos e sementes. Por ser mais rápida, a abelha é o animal que melhor faz a polinização, isso porque ela consegue voar em ziguezague e, após um tempo com a colônia instalada em certo local, consegue saber qual o melhor horário para coletar pólen. Para envolver as crianças no mundo das abelhas, o Parque conta com várias atividades que falam a mesma língua dos pequenos. No Abelhão - um boneco com 3 metros de altura e 18 de comprimento - a criançada aprende sobre a anatomia do inseto. Com paredes de vidro, no Apiário Modelo elas podem ver as abelhas produzindo. No Museu de Apicultura e Mel, os visitantes mirins aprendem sobre a história desse delicioso doce natural e batem um papo com os técnicos apicultores. Já na Casa do Mel, eles podem degustar os méis das floradas da Cidade e ainda conferir pratos, meleiras, canecas e outras pelas exclusivas com abelhinhas.

As crianças também podem brincar no 'LaBEErinto'; se aventurar no 'Arbelhismo' - arvorismo não radical com desafios com vários graus de dificuldade - e nos tobogãs fechados no alto da 'Abelha Gigante'. A diversão continua no 'pula-pula da abelhinha', na cama elástica e na "Colmeia Gigante', que reproduz o som original das abelhas.

As crianças ainda têm contato mais próximo com a natureza durante o passeio pelas trilhas do parque ecológico e conhecem as minas d'água. "A Cidade das Abelhas tem três nascentes que desaguam no rio Embu Mirim e seguem para a Bacia Hidrográfica do Guarapiranga", lembrou Donnini. Tudo isso para mostrar aos pequenos cidadãos a importância das abelhas para a vida humana.

Donnini afirma que a maioria das crianças chega ao Parque com medo das abelhas, mas, segundo ele, a situação muda até o final do passeio. "Quando elas saem, após as palestras e a aproximação com as abelhas, as crianças geralmente perdem o medo e se tornam defensoras das abelhas". Já são 36 anos de vida. Segundo Donnini, por ano, cerca de 15 mil crianças e adultos visitam o Parque Ecológico, Cultura e de Lazer Cidade das Abelhas, certificado oficialmente pelo Projeto Oásis de conservação de mananciais e reconhecida pelos órgãos estaduais e entidade internacionais. Seu Museu de Apicultura e Mel, com biblioteca e a história do mel, das abelhas e dos apicultores no mundo, foi oficializado e faz parte do Cadastro Nacional de Museus do IBRAN-Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura/Governo Federal.

Mel in natura

Donnini explica que todo mel 'in natura' provem de plantas, onde as abelhas recolhem o néctar, transformam em seu pré estômago e depois regurgitam pela boca. Assim o mel é um produto do organismo da abelha. Todo mel, conforme a florada original, deverá cristalizar (açúcarar na linguagem popular). Alguns demoram muito e outros mais rapidamente, conforme a época do ano e principalmente no inverno. "Todo mel tem um odor da florada que o originou, um perfume característico. Ele deve ser comercializado em potes ou vidros de boca larga, para ser retirado mais fácil quando começa o processo de cristalização". Donnini ainda faz um alerta. "Para o mel voltar ao estado natural, nunca deve-se utilizar o microondas, mas derretê-lo em banho-maria leve". Ele ainda avisa que na embalagem do mel deve constar o Serviço de Inspeção Federal (SIF) - responsável por assegurar a qualidade de produtos de origem animal comestíveis e não comestíveis destinados ao mercado interno e externo - ou o Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Estado de São Paulo (SISP).



(texto publicado na revista Viver nº 39 - outubro/novembro de 2016)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A sustentabilidade também vai à mesa


Para alcançarmos uma alimentação saudável, podemos utilizar partes de alimentos que normalmente são desprezadas pela população. Tal atitude é chamada de "aproveitamento integral dos alimentos".

A alimentação é a base da vida e dela depende o estado de saúde do ser humano. Já diziam nossos avós: "saco vazio não para em pé". Além de garantir o sustento, a alimentação deve promover saúde e para isso, deve ser variada e rica em nutrientes (substâncias que regulam o organismo, fornecem energia para as atividades do dia a dia e auxiliam na formação do corpo), permitindo assim, o equilíbrio do organismo. Atualmente no país em que vivemos, milhões de pessoas vivem na situação de "saco vazio" enquanto nosso saco de lixo permanece se enchendo...

Isso porque desperdiçamos boa parte dos alimentos que poderiam ser aproveitados para o preparo de muitas outras refeições. Este é um hábito tradicional da população brasileira que, normalmente, não utiliza partes não convencionais dos alimentos (assim preconceituosamente classificadas, afinal de contas são inerentes ao alimento), que podem ser aproveitadas para preparar pratos deliciosos, além de reduzir o lixo e o problema da fome no Brasil.

A solução para este sério problema pode começar a partir da modificação de atitudes e costumes que cultivamos em nosso lar.

Exemplos de partes não convencionais dos alimentos:

- folhas de: cenoura, beterraba, batata doce, nabo, couve-flor, abóbora, mostarda, hortelã e rabanete;

- cascas de: batata inglesa, banana, tangerina, laranja, mamão, pepino, maçã, abacaxi, berinjela, beterraba, melão, maracujá, goiaba, manga e abóbora;

- talos de: couve-flor, brócolis e beterraba/

- entrecascas de: melancia e maracujá;

- sementes de: abóbora, melão e jaca;

- nata;

- pés e pescoço de galinha;

- tutano de boi.

Você já pensou em utilizar alguma destas partes dos alimentos acima? Se sua resposta for não, saiba que você está deixando de levar em conta o rico valor nutricional destes alimentos, ou seja, a quantidade de vitaminas, sais minerais e proteínas que estão concentradas nas cascas, folhas e, em alguns casos, até em quantidade maior que na parte costumeiramente utilizada.

Além disso, o aproveitamento integral dos alimentos significa economia e possibilita também experimentar novas opções de receitas, ressaltando assim, outro fator importante: a variação do cardápio. Isso porque um único alimento rende até cinco preparações diferentes - repletas de nutrientes e coloridas - quando utilizamos sua casca, folha, talos, sementes e a própria polpa!

Uma boa cozinha é aquela na qual nada é desperdiçado. Às vezes não percebemos, mas na nossa cozinha há muita coisa indo para o lixo sem necessidade. O Brasil é um dos campeões em acúmulo de lixo orgânico e este, quando não tratado adequadamente, pode agredir a natureza, por promover a formação de chorume, um líquido escuro e malcheiroso, que pode tornar nossos solos inférteis para produção. Outro malefício está relacionado ao problema sanitário: o acúmulo de lixo orgânico pode atrair vetores como ratos, baratas e moscas, que podem causar sérios riscos para a saúde humana.

Portanto, procure aproveitar os alimentos como um todo para desfrutar de uma vida mais saudável e sustentável. Seu corpo, seu bolso e a natureza agradecem!

Sugestões para combater o desperdício de alimentos. Do momento da compra até a sua mesa

Comprar bem: planeje suas compras: Evite excessos! Prefira os alimentos da época, pois possuem melhor qualidade (maior durabilidade, maior teor nutricional e menor quantidade de agrotóxicos) além de apresentarem preços mais acessíveis.

10 dicas para aproveitar melhor os alimentos

1) Os talos de couve, agrião, beterraba, brócolis e salsa, entre outros, contêm fibras e devem ser aproveitados como recheios de tortas, patês ou em escondidinhos.

2) Não jogue fora os talos do agrião, pois eles contêm muita vitamina C, importante para aumentar a imunidade do organismo e, portanto, prevenir infecções. Refogue com tempero e ovos batidos, faça sucos ou adicione ao molho pesto de manjericão.

3) As folhas da cenoura são ricas em vitamina A (importante para a saúde dos olhos, pele, cabelos e para o crescimento). Podemos aproveitá-las para fazer bolinhos ou para substituir o uso de salsinha. Elas são extremamente parecidas em aspecto e sabor.

4) A água do cozimento das batatas acaba concentrando todas as vitaminas hidrossolúveis (que se dissolvem em água). Aproveite-a, juntando leite em pó e manteiga para fazer purê, ou para  agregar valor nutricional ao arroz, macarrão, cappelletis, etc.

5) A água do cozimento da beterraba pode ser utilizada para o preparo de gelatinas vermelhas. Assim você as torna mais nutritivas.

6) As cascas da batata, mandioquinha, nabo, cenoura ou beterraba, podem ser assadas ou fritas em óleo quente e servidas como aperitivo.

7) A casca da laranja pode ser caramelizada, para ser servida com café, ou utilizada em compotas ou mesmo para biscoitos.

8) A parte branca da melancia pode ser usada para fazer cocada. Já a parte branca do maracujá pode render uma deliciosa compota, que se prepara como o doce de mamão verde.

9) Com as cascas das frutas (ex: goiaba, abacaxi, etc.), pode-se preparar sucos batendo-as no liquidificador. Este suco pode ser aproveitado para substituir ingredientes líquidos no preparo de bolos.

10) Quando for ralar a casca do limão ou laranja, nunca chegue à parte branca, pois ela é amarga e pode prejudicar o sabor doce da preparação.



(texto publicado na revista Shop News Vertical ed. 27 - ano 3)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Diário de vida: tal dono, tal lixo


Uma das características do povo japonês que mais incorporei foi a de não fazer "sujeira" na rua, ou seja, prefiro carregar um papel de bala ou de chocolate dentro da bolsa do que jogar por aí. Moro em uma casa de esquina e volta e meia acabo recolhendo lixo e fezes de cães que os tutores não se dão ao trabalho de recolher porque, apesar de não ser obrigação minha fazer isso, sempre achei que o território do portão da minha casa para fora é patrimônio de todos. E a saúde também. 




Atualmente há muita reclamação com a redução da velocidade e consequente aumento no número de multas e ao ler o seguinte artigo achei interessante se os "porquinhos" de plantão também tivessem que pagar a cada lixo que jogassem pelo chão.

Como seu lixo vai identificar você

1 - O software consegue recriar com mais de 90% de precisão traços faciais, cor da pele e olhos, sexo e se a pessoa tem sardas ou não.

2 - Como o programa não consegue determinar a idade, o tipo de lixo encontrado ajuda a traçar um perfil provável.

3 - Já que o laboratório não prevê corte de cabelo ou acessórios, os rostos são apenas aproximações. A ideia é que isso baste para constranger os moradores.

Cuspido e escarrado

Todos os dias, os habitantes de Hong Kong descartam 16 mil toneladas de lixo. Assim, a ONG ambientalista HK Clean-UP resolveu levar a sério a luta contra a sujeira nas ruas por lá. Começou a recolher dejetos nas vias públicas - bitucas, chicletes, camisinhas - e mandá-los para um laboratório. Com os resquícios de DNA encontrados neles, recriou os rostos das pessoas que jogaram lixo no chão. E espalhou suas caras pela cidade.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 349 - julho de 2015)


domingo, 18 de janeiro de 2015

Dê um bom destino ao óleo de cozinha usado


O projeto conscientiza a população de Osasco sobre a importância das ações que contribuem com o meio ambiente

Implantado desde 2008, o objetivo principal do Projeto Biodiesel Osasco é a conscientização da população sobre a importância da mudança de hábito através de ações que contribuam com a recuperação e preservação do meio ambiente. O projeto visa à despoluição ambiental através da reciclagem do óleo de cozinha usado e a sua transformação em biodiesel.

Com a adesão gradual de escolas, empresas privadas, ONGs, igrejas, restaurantes, entre outros setores que colaboram com a destinação correta deste resíduo é possível coletar milhares de litros de óleo que são transformados em biocombustível. Hoje o projeto possui diversos pontos de coleta na cidade de Osasco. O apoio à produção de biocombustível faz parte do programa de governo da prefeitura, que busca a formação de parceria com as cidades de Carapicuíba, Barueri, Jandira e Itapevi para a instalação de uma usina de produção de biocombustível regional.

Para incentivar a adesão da população, o projeto realiza a troca do óleo usado por materiais de limpeza, ou até mesmo óleo novo. Esse mecanismo estimula a população a descartar de forma correta o óleo e compreender a importância de ações pontuais que, somadas, impactam globalmente na preservação dos recursos naturais. O trabalho de conscientização e divulgação do projeto é realizado através de palestras, gincanas, mostras de filmes e mutirões de coleta de óleo.

Para participar do projeto através de doação do óleo de cozinha usado ou abrir novos pontos de coleta, basta entrar em contato através dos telefones 3652-9041 ou 3652-9324.



(texto publicado no jornal Meu Imóvel edição 2282 - ano 6 - novembro de 2014)








quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A era dos mosquitos transgênicos - Sara Magalona


Depois das plantas geneticamente modificadas, a ciência dá o passo seguinte - e cria um animal transgênico. Seus inventores querem liberá-lo no Brasil. Será que isso é uma boa ideia?

Você nasce, cresce, chega à idade adulta. Em dado momento, sai por aí em busca da sua cara-metade - ou, colocando a questão menos romanticamente, atrás de alguém para satisfazer o impulso de fazer sexo (ah, os hormônios...). O problema, por assim dizer, é que você carrega um segredo dentro de si. Um segredo terrível, que vai destruir a sua própria espécie. Parece um conto bíblico, mas é real: é a história do OX513, um mosquito geneticamente modificado que foi criado pelo homem com a missão de extinguir o Aedes aegypti e acabar com a epidemia de dengue. Depois de criar versões transgênicas de plantas como o milho e a soja, agora a humanidade modifica o DNA de um bicho e se prepara para liberá-lo na natureza. Aqui mesmo no Brasil - onde fica a primeira fábrica de mosquitos transgênicos do mundo.

Peste alada

Mosquitos são criaturas terríveis. Estima-se que eles tenham sido responsáveis por metade de todas as mortes de seres humanos ao longo da história. Ou seja, mataram mais gente do que qualquer outra coisa. Isso acontece porque, como se multiplicam rápido e em enormes quantidades, são excelentes transmissores de doenças - como a dengue, que é causada por um vírus chamado DENV. O mosquito pica uma pessoa infectada, adquire o vírus, e o espalha para outras pessoas ao picá-las também. A dengue é uma doença séria, que pode matar, e um grande problema no Brasil: em 2013, o Ministério da Saúde registrou 1,4 milhão de casos, mais que o dobro do ano anterior. Tudo culpa do Aedes aegypti. Ele é um mosquito de origem africana, que chegou ao Brasil via navios negreiros, na época do comércio de escravos. E hoje, impulsionado pela globalização, levou a dengue a mais de cem países (na década de 1970, apenas nove tinham epidemias da doença). Os números mostram que, mesmo com todos os esforços de combate e campanhas de educação e prevenção, o mosquito está ganhando a guerra.

Entra em cena o OX513A, que foi criado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ele é idêntico ao Aedes aegypti - exceto por dois genes modificados, colocados pelo homem. Um deles faz as larvas do mosquito brilharem sob uma luz especial (para que elas possam ser identificadas pelos cientistas). O outro é uma espécie de bomba-relógio, que mata os filhotes do mosquito. A ideia é que ele seja solto na natureza, se reproduza com as fêmeas de Aedes e tenha filhotes defeituosos - que morre muito rápido, antes de chegar à idade adulta, e por isso não conseguem se reproduzir. Com o tempo, esse processo vai reduzindo a população da espécie, até extingui-la. Recentemente, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovou o mosquito. E o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a permitir a produção em grande escala do OX513A - que agora só depende de uma última liberação da Anvisa. A Oxitec, empresa criada pela Universidade de Oxford para explorar a tecnologia, acredita que isso vai ocorrer. Tanto que acaba de inaugurar uma fábrica de Campinas para produzir o mosquito.

O OX513A já foi utilizado em testes na Malásia, nas Ilhas Cayman (no Caribe) e em duas cidades brasileiras: Jacobina e Juazeiro, ambas na Bahia. Deu certo. Em Juazeiro, a população do Aedes aegypti caiu 94% após alguns meses de 'tratamento' com os mosquitos transgênicos. Em Jacobina, 92%. As outras formas de combate, como mutirões de limpeza, campanhas educativas e visitas de agentes de saúde, continuaram sendo realizadas. "Nós não paramos nenhuma ação de controle. Adicionamos mais uma técnica", diz a bióloga Margareth Capurro, da USP, coordenadora técnica das experiências. Há indícios de que o mosquito transgênico funciona. Mas ele também tem seu lado polêmico.

Vida artificial

Há quatro anos, quando os mosquitos da Oxitec chegaram à Malásia para uma das primeiras rodadas de teste, surgiu uma preocupação. Quando um organismo geneticamente modificado é introduzido na natureza, seja ele uma planta ou um animal, é complicado prever tudo o que pode acontecer - e muito difícil contê-lo se alguma coisa der errado. Em tese, os mosquitos transgênicos não têm como se espalhar. Três a quatro dias depois de serem soltos, e de fazer sexo com uma fêmea, eles simplesmente morrem. Seus filhotes não conseguem crescer, e também morrem. E a história acaba aí. Mas, e se o mosquito OX513A sofresse uma mutação, e se tornasse imune ao gene letal? Afinal, é assim que a evolução funciona. Mutações são inevitáveis. "Todas as espécies agem para burlar os fatores que tentam exterminá-las", afirma o biólogo Carlos Andrade, da Unicamp. Se o inseto transgênico conseguisse vencer o gene letal, ele poderia se reproduzir livremente - e se tornaria incontrolável. Foi essa a preocupação do grupo ambientalista inglês EcoNexus, que enviou uma carta às autoridades da Malásia. "os [insetos] transgênicos podem não ser completamente erradicados do ecossistema, com consequências perigosas." A Oxitec diz que não há risco. Ela estima que até 5% dos filhotes transgênicos poderão sobreviver ao gene letal, e chegar à idade adulta. Mas eles serão menores e mais fracos do que os mosquitos "selvagens", e por isso não conseguirão se reproduzir. Mesmo se conseguirem, em tese não terão nenhuma característica que os torne mais perigosos que o Aedes comum. Além disso, como eles são criados em laboratório, seu DNA pode ser monitorado. "Os dois genes [que foram] inseridos são muito estáveis. A linhagem OX6513A foi criada em 2002, e até agora teve mais de cem gerações em laboratório, sem nenhuma mudança nos genes inseridos", afirmou a empresa em nota enviada à SUPER.

Guerra dos sexos

Os mosquitos machos se alimentam de frutas, e por isso não picam. Quem pica é a fêmea, que precisa de sangue humano para nutrir seus ovinhos. É ela quem transmite a dengue. Por isso, as fêmeas de OX513A são separadas no próprio laboratório. Algumas são mantidas em cativeiro, para reproduzir a espécie, e as demais são mortas. Apenas os machos, que não picam, são liberados na natureza.

O processo de separação não é perfeito. Até 0,2% dos mosquitos liberados são fêmeas, que podem picar seres humanos. Não é uma quantidade insignificante. A fábrica da Oxitec em Campinas tem capacidade para produzir 500 mil mosquitos machos por semana, podendo ser ampliada para 2 milhões. Isso significa que, devido à margem de erro, mil a 4 mil fêmeas seriam liberadas a cada semana. E elas poderiam transmitir dengue. A Oxitec questiona essa possibilidade. "Para transmitir dengue, a fêmea primeiro tem de pegar dengue", diz Sofia Pinto, supervisora de produção dos mosquitos. O ciclo da dengue, em que o mosquito pega o vírus de uma pessoa e o transmite para outra, leva cerca de dez dias. Um estudo revelou que em condições ideais, de laboratório, as fêmeas de OX513A podem alcançar 16 dias de vida. Mas, segundo a Oxitec, isso não ocorre na natureza - onde os insetos transgênicos não sobrevivem mais de quatro dias. Ou seja: em tese, as fêmeas liberadas acidentalmente não teriam tempo de espalhar a doença.

O impacto ambiental é outra questão relevante. Uma eventual extinção do Aedes aegypti não poderia acabar criando um desequilíbrio ecológico? "Não acredito que vamos ter efeitos negativos, porque esse mosquito é uma espécie invasora", diz Glen Slade, diretor da Oxitec. O mosquito da dengue já chegou a ser erradicado no Brasil, na década de 1950, e só voltou nos anos 80 (vindo da Ásia). "Não existe animal que viva nos criadouros desse mosquito, como caixas d´água e vasos de plantas. E animais como lagartixa, sapo, pássaro comem qualquer inseto que voe, não só esse mosquito", explica Margareth Capurro, da USP. "Ele é uma praga. Não faz parte do ecossistema. É um mosquito que vive somente nas áreas urbanas, completamente associado ao homem", completa. Ou seja, os predadores naturais do Aedes não vão passar fome. Mas existe, sim, uma possibilidade de desequilíbrio ambiental: o nicho ecológico do Aedes aegypti ser ocupado por outra espécie. Um possível candidato é o Aedes albopictus, que também transmite dengue. Tanto que a Comissão nacional d Biossegurança condicionou a aprovação do mosquito transgênico a uma exigência: a Oxitec deverá monitorar a população de Aedes albopictus, para detectar com antecedência uma eventual proliferação dessa outra espécie.

Apesar de todos os poréns científicos, a crítica mais forte ao inseto transgênico está relacionada a algo trivial: a quantidade de mosquitos necessária. O OX513A é fisicamente mais fraco do que o mosquito natural, e por isso tem que ganhar em número. Para que a técnica dê certo, e o transgênico consiga acasalar com as fêmeas (para gerar descendentes inférteis e acabar com a espécie) é preciso liberar uma quantidade enorme dele: dez mosquitos transgênicos para cada mosquito selvagem. Na prática isso significa que, para tratar uma área bem pequena, com apenas 10 mil habitantes, seria preciso liberar 2 milhões de mosquitos por semana durante a fase inicial de tratamento, que dura de quatro a seis meses. Isso é alvo de críticas de alguns especialistas. "Liberar milhões de mosquitos numa área de alguns quarteirões urbanos é insano. É forçar para dar certo", diz o biólogo Carlos Fernando Andrade, da Unicamp. "Para tratar '1 milhão de pessoas, 10 milhões de pessoas, precisaríamos criar muitas fábricas", admite Glen Slade, da Oxitec. Ou seja: a quantidade necessária de mosquitos OX513A para erradicar a dengue, num país do tamanho do Brasil pode acabar sendo inviavelmente grande. "Criar mosquito para depois matar mosquito não é nada inteligente. E, no caso de se usar transgênicos, é caro", afirma Andrade. A Oxitec estima que, para tratar uma cidade pequena, de 50 mil pessoas, o custo fique entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões no primeiro ano (em seguida, R$ 1 milhão anual para manutenção). "Com boas práticas domésticas e do poder público, evitando água parada, não se cria o vetor [Aedes aegypti]", diz Andrade.

O OX513A pode acabar se mostrando uma solução sofisticada demais para um problema que pode ser atacado com medidas mais simples. Talvez a vacina contra o vírus da dengue acaba funcionando e torne desnecessário o uso de mosquitos transgênicos. Ou, quem sabe, o inseto geneticamente modificado venha a ser liberado em grande volume - e de fato consiga exterminar o Aedes aegypti. E a humanidade terá conseguido extinguir uma espécie usando outra espécie - que ela mesma criou.

E a vacina?

Seria muito mais fácil controlar a dengue com uma vacina. E ela pode estar perto de virar realidade. Num estudo feito na Ásia, 10 mil crianças receberam uma vacina experimental, fabricada pelo laboratório francês Sanofi Pasteur. Entre elas, houve 56,5% menos casos de dengue. Ou seja: a vacina não é perfeita, mas parece fazer efeito. O problema é que só imuniza contra três dos quatro subtipos de vírus da dengue - e os cientistas ainda não sabem o porquê. Há outro estudo em curso, com 20 mil voluntários espalhados por Brasil, Colômbia, Honduras, México e Porto Rico.





(texto publicado na revista Super Interessante nº 337 - setembro de 2014)













Morrer de véspera - Diana Corso


A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo

Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infãncia, na sua trajetória canina é o fim da via. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e 30% da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só pode ter piorado. Na ocasião lhe receitaram remédios, ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum buldogue francês amadurece, eles só ficam mais lentos. Os tratamentos o tornaram magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe dávamos uma pastilha. Por isso decidimos deixá-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente, teria uns 80 anos.

Se fosse humano talvez já estivesse morto, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde, é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas décadas nos restam. Aliás, o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.

Convivi com amigos que, em vez de morrer de véspera, fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV era um prenúncio de morte. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça de morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Pressionados, efetivaram-se no emprego da existência. A medicação, que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: "benigno". Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão.



(texto publicado na revista Vida Simples nº 114 - janeiro de 2012)






A revolução dos baldinhos - Tadeu Meyer


Como um projeto de coleta de lixo orgânico salvou vidas, tirou jovens do caminho da violência e elevou a autoestima de toda uma comunidade

Passa das 10 da manhã e é sexta-feira, dia de coleta do lixo orgânico no bairro Monte Cristo, região continental de Florianópolis (SC). A caminhonete cedida pela prefeitura para recolher o material duas vezes por semana está meia hora atrasada. Rose Helena Oliveira Rodrigues, a Lene, 38 anos e pioneira do projeto, espera no galpão que fica na comunidade Chico Mendes, uma das nove que compõem o bairro de quase 13 mil moradores. O lugar é o abrigo da Revolução dos Baldinhos, projeto que recolhe e faz a compostagem de 15 toneladas de resíduos orgânicos por mês. Começou com 500 quilos, coletando material descartado por uma escola, uma creche e cinco famílias que aceitaram separar o lixo. Hoje faz parte da rotina do Monte Cristo, alterou o rumo da vida de alguns moradores e multiplicou o número de famílias participantes por 50 - atualmente são cerca de 250 famílias.

Enquanto a caminhonete não chega. Lene volta três anos no tempo para relembrar como tudo começou. Em outubro de 2008, duas crianças morreram por causa de uma epidemia de ratos. Convocadas pelo médico do posto de saúde, lideranças das escolas, creches e associações de moradores se juntaram para achar uma saída. Nessa época, Lene trabalhava em um programa chamado Frente Temporária de Trabalho (FTT), limpando as ruas da Chico Mendes. Nos meses do programa, ela e uma colega, Eunice Brasil, se interessaram por um jeito diferente de descartar o lixo orgânico, a compostagem. A técnica era ensinada pelo agrônomo Marcos de Abreu, o Marquito, do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), ONG que incentiva a agricultura urbana e que também foi chamada para discutir uma solução para a epidemia de ratos.

Na reunião, ficou claro que desratizar não resolveria o problema. Se tivessem o que comer nas ruas, depois de um  tempo os bichos voltariam. Era preciso combater a epidemia pela raiz, impedir que os ratos tivessem alimento à disposição, acabar com o lixo acumulado nas ruas. Depois de alguns encontros, encontraram uma solução: destinar os resíduos orgânicos para compostagem. O primeiro desafio foi convencer as pessoas a separar o lixo. Entre outubro de 2008 e fevereiro de 2009, Lene e Eunice, que depois saiu do projeto, trabalharam apenas com a educação ambiental das famílias, mostrando como o resíduo orgânico jogado fora misturado com o inorgânico podia ser reaproveitado, se fosse adequadamente separado. Das casas, o material coletado ia para um espaço em uma escola, onde foram feitas as primeiras composteiras. Depois, virava adubo, distribuído para os participantes que, sob orientação de Leni e Eunice, plantavam hortas sem uso de agrotóxicos nos pequenos lugares que sobravam nos quintais. Para famílias de baixa renda, significava também ter na mesa um tipo de alimento a que raramente teriam acesso.

Alternativa à violência

São 10h30 e nada de a caminhonete aparecer. Maicon Willian de Jesus e Ana Carolina Conceição, a Carol, chegam ao galpão e se juntam a Lene na espera. A conversa entre os três se alterna em dois assuntos. Reclamam dos habituais atrasos do pessoal da prefeitura e comentam o brutal assassinato de um jovem de 20 anos na noite anterior, na rua ao lado das quadras de esportes da comunidade. Jonatas apanhou, levou facadas e mais de 20 tiros. "Fazia tempo que isso não acontecia. A última vez foi há uns três meses", lamenta Lene. Os três tiveram relação direta ou têm familiares envolvidos no que Lene chama, apropriadamente, de "mundo de violência". O marido de Carol está preso, o filho mais velho de Lene também e Maicon passou dois anos e 11 meses cumprindo pena por tentativa de latrocínio.

Maicon reconhece que, se não tivesse entrado para a Revolução dos Baldinhos, talvez pudesse estar no lugar de Jonatas. "Eu conhecia bem ele, puxou cadeia comigo." Maicon tem 22 anos e uma filha de um ano e nove meses. Foi preso aos 17 e, na cadeia, aprendeu o rap e virou o MC Komay Maf - seu nome estilizado e com as sílabas invertidas, mais a sigla de "Mente Aberta Floripa". Solto, chegou a traficar por um tempo, mas foi convidado por lene para fazer o "Rap dos Baldinhos". Em seguida, começou a trabalhar como voluntário. Hoje é bolsista, como a esposa, Jéssica Waltrick, de 18 anos. "O projeto me resgatou do crime. Depois que comecei a trabalhar aqui, eu larguei t udo de mão. Hoje eu sou um agente comunitário, levo a paz pela comunidade." O reconhecimento dentro e fora da Chico Mendes faz Maicon sonhar, sempre pensando em mexer com a vida cultural do bairro. Promove eventos em que canta rap, adaptou um pequeno estúdio dentro da própria casa para gravar músicas de quem não pode pagar por um profissional, faz sessões de cinema para crianças e vai fundar um coral.

Às 11h15, com quase duas horas de atraso, chega a caminhonete. Ela sai para a coleta cheia de bombonas vazias, que vão se trocadas pelas cheias nos 43 Pontos de Entrega Voluntária (PEV), Lene vai junto fazer o recolhimento, Maicon, Carol, Fábio da Silva, também bolsista do projeto, e Eduardo Farias, o Palhoça, agrônomo do Cepagro, vão a pé até o terreno onde a compostagem é feita atualmente. Com o aumento do volume de resíduos orgânicos, não havia mais espaço na escola para mais composteiras. O novo espaço foi cedido pela Cohab de Santa Catarina. Fica a cerca de 2 quilômetros do galpão, fora da comunidade e próximo à Via Expressa, acesso à ponte que liga a região continental de Florianópolis à ilha.

No caminho até as composteiras, Carol reclama da Comcap. O atraso tirou duas preciosas horas que ela esperava usar para ir até uma lan house fazer pesquisas para três trabalhos de sociologia. "Acho que eu vou rodar. Hoje era o último dia para entregar." Carol tem 30 anos e está no terceiro ano do Ensino Médio. Voltou a estudar depois que entrou para a Revolução dos Baldinhos. Sonha estudar agronomia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O estímulo vem da valorização que ganhou com o projeto. Os moradores reconhecem o trabalho dos realizadores e, como comunidade, também têm sua autoestima aumentada ao perceber que os olhares que se voltam para a Chico Mendes não veem mais apenas crimes e violência, mas uma experiência positiva. "Estranhei quando vieram pedir para separar o lixo. A gente desconfiava, mas decidimos investir. E deu certo", diz Terezinha da Conceição, de 60 anos. Ela mora na rua Nicarágua, a mais atingida pela epidemia de ratos, e vive há 25 anos na Chico Mendes. "Hoje não queremos que acabe. Se a Revolução parar, os ratos voltam", diz.

O projeto apareceu em canais de tevê locais, foi assunto de reportagens em jornais e os realizadores são constantemente convidados para falar sobre compostagem e para contar a história da Revolução dos Baldinhos - até para Itália foram, participar de um evento da organização Slow Food. Carol conta que grupos rivais que controlam o tráfico nas comunidades do bairro Monte Cristo estiveram presentes em eventos de conscientização ecológica e não houve sinal de briga - algo quase impossível de ocorrer antes. A identidade dos realizadores com o que acontece em volta é determinante. Todo o movimento nasceu e aconteceu nas ruas do bairro, planejado e executado por pessoas que vivem há décadas no lugar. Conhecem a todos e ouvem pedidos e reclamações diretamente. "É bom quando reclamam que a bombona não está no ponto de entrega. Significa que faz falta, a gente sente que faz diferença", conta Carol.

A primeira leva de bombonas foi descarregada na composteira. É quase 1 da tarde quando Marquito chega. O agrônomo do Cepagro traz uma novidade e tanto. Uma parceria com supermercados pode multiplicar o tamanho do projeto. "Agora vocês têm que decidir se querem. Vai entrar dinheiro e vocês vão gerenciar", anuncia. Se der certo, muitos bolsistas terão que ser contratados - atualmente são cinco, que recebem 500 reais por mês. A Revolução dos Baldinhos pode crescer e se consolidar como uma alternativa ao crime dentro do bairro Monte Cristo. Marquito tem 31 anos, formou-se em agronomia na UFSC há cinco, trabalhou em vários projetos de agricultura urbana, mas admite que a Revolução, que ajudou a criar e crescer, é diferente. "É uma utopia se concretizando. Ver cinco jovens, que eram envolvidos com outros movimentos, com outras perspectivas, agora trabalhando com aquilo. Parece uma grande utopia e é a realidade. Como profissional e como pessoa, é uma realização profunda."



(texto publicado na revista Vida Simples nº 114 - janeiro de 2012)






A era dos extremos - Jennifer Ann Thomas e Raquel Beer, com reportagem de Gabriela Neri


As mudanças climáticas criam um descompasso no planeta. Enquanto em alguns lugares ocorre seca recorde, em outros nunca choveu tanto

Há uma constatação incontornável: o planeta passa por drásticas mudanças climáticas que fazem proliferar cenários extremos, de áreas com secas persistentes a outras com tempestades intensas. Desde o início dos registros históricos, em 1880, a temperatura na Terra subiu 0,85 grau e aumentou a uma taxa de 0,05 grau ao ano na última década. Parece pouco, mas é o suficiente para criar um trágico descompasso no clima global. No Ártico, onde o aquecimento ocorre em ritmo duas vezes maior, o volume de mar congelado diminuiu 80% desde 1979, pondo em risco espécies endêmicas, a exemplo do urso-polar. Condições climáticas improváveis se espalham. No mês passado, enquanto Índia e Paquistão eram alagados por chuvas torrenciais, deixando mais de 400 mortos, a Inglaterra teve o setembro mais seco de sua história, com precipitação equivalente a 20% do total esperado. No Brasil, com suas dimensões continentais, os extremos são sentidos à exaustão. Em São Paulo, o índice de chuvas até agosto ficou 42% mais baixo que o esperado, na maior seca da história do estado. Já o Sul, o Nordeste e o Norte registram recordes de chuvas. Mas, se as anormalidades são inevitáveis, são também inescapáveis suas consequências, a exemplo da falta de água em regiões secas, como São Paulo, e inundações onde chove demais?

O impacto das mudanças climáticas é evidente. No Brasil, é fácil associar o aquecimento global à massa de ar quente e seco que permaneceu por três meses estacionada sobre as regiões Sudeste e Centro-Oeste, dificultando a formação de chuvas. O resultado é o esvaziamento de reservas e o racionamento de água em quase setenta municípios paulistas e mineiros, no que ficou conhecido como o "cinturão da seca". O extremo climático era inevitável, só que previsível. Climatologistas, por meio de projeções matemáticas, já haviam estimado que a região passaria por um intenso período de estiagem nos anos 2010. Diz Susana Kahn, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas: "Sabemos que as alterações no clima global aumentaram a incidência e a intensidade de eventos extremos, o que terá consequências socioeconômicas, como o racionamento de água e o aumento do preço de alimentos, por problemas na agricultura". Se temos ciência, podemos nos preparar.

Mesmo assim, continuou o desperdício na captação de água, e não se investiu para aprimorar a estrutura precária de distribuição. No Brasil, a cada 10 litros de água limpa retirados de represas para consumo, 4 vazam em encanamentos deteriorados e desvios ilegais ou durante o transporte. Em São Paulo e Minas Gerais, o desperdício é de 3 em 10 - o caso brasileiro mais preocupante é o do Amapá, com mais de 7 litros jogados fora a cada 10 captados. Apenas em 2012, 1 trilhão de litros de água foram perdidos em ligações clandestinas, os "gatos", que afetam a infraestrutura da Sabesp, a companhia de saneamento de São Paulo. Para efeito de comparação, a taxa de desperdício de água limpa é de 15% na Europa, 3% no Japão e se aproxima de zero em países acostumados à estiagem, a exemplo de Israel.

Vêm de fora os bons exemplos de como lidar com secas agudas, e todos envolvem um planejamento adequado da administração pública. A Califórnia, nos Estados Unidos, adaptou-se para enfrentar secas recorrentes - a atual já dura quatro anos. Por efeito das mudanças climáticas e do uso excessivo de sua água pelo homem, o Rio Colorado, o sétimo mais longo do país, que abastece cidades americanas e mexicanas, e que deságua no golfo californiano, teve seu nível reduzido em 40 metros desde 1920 e deve perder mais 10% de seu volume atual nas próximas quatro décadas. Para lidar com a situação trágica, o estado californiano importa água de outras regiões, recicla o que usa e passou a investir na dessalinização de água do oceano. "Só temos água para nossa população porque começamos a nos planejar há vinte anos", pontuou o americano David Sedlak, professor de engenharia mineral da Universidade da Califórnia em Berkeley. Países acostumados às secas se preparam. Singapura, por exemplo, importa 40% de sua água da Malásia, vizinho com recursos hídricos abundantes. Quase 40% do abastecimento potável de israel, que tem 60% de seu território tomado por desertos, é feito por água dessalinizada dentro do país. Em porcentagem deve chegar a 70% até 2050, com mais investimentos em infraestrutura de dessalinização.

Em uma extrapolação, a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), casa de astronautas de várias nacionalidades posicionada a 300 quilômetros de altitude, é exemplo máximo de como se pode adaptar um ambiente para situações radicais. Ela conta com um aparelho capaz de condensar a umidade do ar e transformá-la em água - incluindo o suor de seus residentes. Desde 2010, a ISS possui uma máquina de 250 milhões de dólares, desenvolvida pela Nasa, a agência espacial americana, para reciclar toda sorte de líquido, da água usada para lavar as mãos a moléculas de combustível. Quase a totalidade dos líquidos que circulam pela IS é reutilizada. Sem esse sistema, seria necessário gastar 564 000 dólares ao ano para enviar mais suprimentos à equipe de astronautas. Na estação, a água de torneiras e duchas ainda sai com a metade de pressão comum na Terra. Enquanto no planeta desperdiçamos 100 litros de água em um banho de dez minutos, lá são usados somente 4.

O caso da ISS pode parecer distante, mas é exemplo máximo de como o homem precisa se adaptar a ambientes criados por ele mesmo. Segundo o mais recente relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, é de 95% a probabilidade de o homem ter sido o principal responsável por intensificar as mudanças climáticas que afetam o planeta. Fizemos isso ao emitir, principalmente pela queima de combustíveis fósseis, mais de 375 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial, no século XVIII, aumentando em 40% o que o planeta estava naturalmente acostumado a receber. Isso criou uma redoma de calor ao redor da Terra. A situação piora pela falta de cuidado do homem com um de seus recursos mais valiosos. Por exemplo: um levantamento recente da ONU aponta que 70% do lixo industrial de países subdesenvolvidos é descartado em lagos, rios e oceanos. Utilizamos água limpa sem cuidado, pelo costume de ter acesso em abundância, principalmente no Brasil, que concentra 12% de todos os recursos hídricos do mundo. A situação no planeta só se agravará daqui para a frente. O IPCC estima que a temperatura global deve subir ao menos 1,3 grau até 2100. Em efeito contínuo, tempestades e inundações seriam mais frequentes em áreas que já sofrem com isso, e regiões áridas ou que começaram recentemente a sofrer com secas anormais, a exemplo de São Paulo, teriam os períodos de estiagem intensificados. Resta-nos aprender a lidar com as consequências de nossas atitudes desmedidas.

O paradoxo da Antártica

Uma área do planeta parece imune ao fenômeno do aquecimento global: a Antártica. Nos últimos trinta anos, 95% dos modelos climáticos publicados previam uma drástica diminuição do mar congelado e o aumento de temperaturas na região. O que ocorreu foi surpreendente. No mês passado, o mar congelado da Antártica registrou a maior extensão de sua história, batendo o recorde pelo terceiro ano consecutivo. São mais de 20 milhões de quilômetros quadrados de gelo, ou 6,6% acima da média para o continente. O polo é ponto fora da curva também no quesito temperatura. Lá foi registrada, no ano passado, a temperatura mais baixa já captada pelo homem na Terra, de 94,7 graus negativos.

O comportamento do Polo Sul ainda não é completamente compreendido. A teoria mais aceita para explicar a anomalia diz que o responsável por resfriar a região é, ironicamente, o buraco na camada de ozônio. As emissões de gases estufa no último século destruíram 21,2 milhões de quilômetros quadrados da camada acima da Antártica. Esperava-se que o efeito seria a elevação da temperatura e o derretimento das geleiras. Ocorreu o contrário. O buraco possibilitou que a Antártica refletisse para o espaço o calor irradiado. A falta de ozônio na atmosfera ainda teria aumentado em até 20% os ventos que levam o ar frio do centro do continente para o Mar de Ross, a oeste, onde ocorreu 80% da expansão de área congelada. O El Niño, fenômeno climático que deve se estabelecer até o fim do ano, pode intensificar esses ventos e colaborar ainda mais para o aumento da superfície gelada. Conclui a climatologista Julienne Stroeve, do University College of London: "O Polo Sul está sendo afetado, mas de forma diferente do previsto".




(texto publicado na revista Veja edição 2397 - ano 47 - nº 44 - 29 de outubro de 2014)






Tudo é água - Raquel Beer e Jennifer Ann Thomas, com reportagem de Gabriel Neri


Com os reservatórios em seus patamares historicamente mais baixos, o Brasil começa a conviver com a assustadora sombra da escassez do líquido insubstituível, sem o qual não há vida e a economia para

O Brasil tem a maior reserva de água doce do planeta. Concentram-se aqui 12% de todos os recursos hídricos globais. O que explica, então, a crise de abastecimento pela qual passa o Estado de São Paulo, o mais populoso e rico do país? A seca histórica que atinge o Sudeste há dois anos, a maior dos últimos 84 anos, efeito contínuo de uma massa de ar quente que estacionou na região, justifica parte do problema. Mas não é prudente atribuir o baixo nível de água apenas às mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, e que fazem proliferar climas extremos. O Brasil é exemplo de descaso na administração de seus recursos hídricos. Em todo o país, desperdiçam-se 40% da água captada, que vaza por encanamentos precários, de manutenção quase inexistente. Em São Paulo, a perda é de 31,2%. É falha que poderia ser corrigida com melhorias anunciadas desde 2004, quando o estado passou por crise similar. Muito pouco foi feito. Sem o desperdício, haveria água de sobra. O descaso, porém, não é exclusividade brasileira. Países como China e Índia descuidam de suas reservas, usando-as sem critério. Com isso, o planeta vê dezenas de trilhões de litros indo pelo ralo. É assustador observar como tratamos o elemento essencial à vida, limitado e insubstituível. Se gastarmos todo o petróleo que existe, teremos outras fontes energéticas, como a solar e a eólica. Vivemos dezenas de milhares de anos sem combustíveis fósseis. Sobrevivemos, e sobreviveríamos sem eles. Mas, se dermos cabo dos estoques de água, não haverá alternativa. Água é tudo.

Estima-se o valor do atual mercado global de água doce em 425 bilhões de dólares. Se o estoque um dia acabar, o que é muito improvável, ou for seriamente comprometido, o que é possível, entrará em risco a sobrevivência da humanidade. Tomem-se os atuais exemplos de São Paulo e Minas Gerais para entender que danos, ainda plenamente administráveis, a falta d'água pode provocar.

Na capital paulista, pesquisa Datafolha divulgada na semana passada revelou que 60% dos moradores ficaram sem água nos últimos trinta dias. No interior, o cenário se agrava. Alguns municípios, a exemplo de Cristais Paulista, multam quem desperdiça água. Em Itu, há protestos de rua, e cminhões-pipa precisam de escolta para não ser atacados. Ao prejudicar a economia e o abastecimento, a seca dá início a perigosos conflitos.

Desde 1990, a disputa por água foi motivo de 2 200 conflitos diplomáticos, econômicos ou militares pelo planeta. A tensão deve se intensificar. A ONU calcula que faltará água limpa para 47% da população global até 2030. Diz o urbanista americano Michael Klare, autor do livro The Race for What's Left (em inglês, A Corrida pelo que Sobrou), sobre disputas por recursos naturais: "A água virou o novo petróleo, causa de batalhas ferrenhas. Guerras que aumentarão em número e dimensão, já que a demanda cresce, enquanto a oferta diminui".

A resposta para crise hídrica parece simples: temos de consumir menos e diminuir drasticamente o desperdício. Mas são atitudes difíceis de ser implantadas, já que dependem de uma mudança radical de costumes. A demanda de água per capita nos Estados Unidos ultrapassa os 500 litros, dez vezes o recomendado pela ONU. Enquanto isso, áreas pobres quase não têm acesso ao recurso. Moçambique é dono de um dos piores cenários, onde há apenas 4 litros de água limpa por morador.

Para controlar o gasto, todo cidadão precisa rever seus hábitos cotidianos, como deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes ou tomar longos banhos. Mas soa injusto cobrar exclusivamente uma nova postura individual. São essenciais também políticas públicas que repreendam o desperdício. A Califórnia é exemplo mundial nesse aspecto. São Paulo vê secar seu principal reservatório, o da Cantareira, cujo nível está em 3%. Seu primeiro estoque de volume morto, cota que repousa no fundo das represas, abaixo do túnel que costuma drenar a água, e, por isso, mais suja que o usual, deve desaparecer no próximo mês. A segunda parcela segurará o abastecimento por poucos meses. Enquanto isso, o governo promete entregar obras que aumentarão a captação de água, e já se cogitou importar recursos hídricos de outros estados. São apenas paliativos, que em nada ajudarão a longo prazo se o desperdício não for controlado. Para o Brasil e para o mundo, a crise de água serve como alerta. Se não cuidarmos dos escassos recursos que temos, desenharemos um futuro cada vez mais árido.



(texto publicado na revista Veja edição 2397 - ano 47 - nº 44 - 29 de outubro de 2014)






quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A crise da água - Felício Pontes Jr, procurador da República no Pará


O ano de 2014 vai ficar marcado não apenas pela derrota da seleção brasileira em nossa Copa do Mundo, mas também pela mais grave crise de água que já tivemos. A nascente do Rio São Francisco secou; a maior cidade do Brasil entrou em racionamento de água; o desmatamento da Amazônia aumentou, e, para completar o pacote, foi o ano mais quente do planeta desde o início das medições em 1880.

Parece que só agora percebemos que a água é um recurso finito e que o seu uso deve ser, no mínimo, cuidadoso. Vários documentos internacionais já advertiam para o fato de que há regiões no planeta sofrendo com sua escassez, que pessoas morrem de sede e que uma das consequências do aquecimento global é a diminuição do volume de água dos rios amazônicos. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu os anos de 2005 a 2015 como a Década da Água.

O governo brasileiro fez o mesmo, instituindo em 2005 o início da Década Brasileira da Água, com objetivos de promover e intensificar políticas, programas e projetos para o gerenciamento e uso sustentável da água, assegurando a participação das comunidades. Ficou mais no papel.

Falta de seriedade

Na Amazônia, hoje comprovadamente uma região fundamental para abastecer de chuvas as demais regiões do País, não houve nem projetos para o gerenciamento da água, nem tampouco participação popular na gestão da mesma. É que a Lei das Águas, de 1997, determina que cada bacia hidrográfica tenha seu comitê formado por representantes do Poder Público, dos usuários e da sociedade civil local, para elaborar o plano de recursos hídricos da bacia. Nada foi feito.

O governo ainda tentou uma maquiagem. Elaborou o pomposo Plano Estratégico de Recursos Hídricos dos Afluentes da Margem Direita do Rio Amazonas. Colocou Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira num só pacote - o que é impossível de gerenciar - e não criou o comitê gestor. Portanto, a crise da água é também ocasionada pela falta de seriedade no tratamento do principal recurso natural para a nossa existência.

Nesta época em que brotam tantas "profecias", como olhos-d'água, é preciso agir agora para que não se torne uma delas o que disse o vice-presidente do Banco Mundial em 1995, Ismail Serageldin: "Se as guerras deste século foram disputadas por petróleo, as guerras do próximo século serão travadas por água".




(texto publicado na revista Família Cristã nº 948 - ano 81 - dezembro de 2014)