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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
domingo, 14 de fevereiro de 2016
A Última Ceia (L'Ultima Cena) - 1494 - 1498 - Milenna Casseb Saraiva
domingo, 27 de setembro de 2015
Michelangelo total - Antonio Gonçalves Filho
O biógrafo inglês Martin Gayford fala de seu livro monumental sobre o artista
O escultor e pintor renascentista Michelangelo Buonarrotti (1475-1564) não era das pessoas mais agradáveis de Florença. Seus contemporâneos, como o prior da igreja de San Lorenzo, Giovan Battista Figiovanni, amigo e protetor, dizia que nem mesmo a paciência de Jó seria suficiente para aguentar o homem. Contudo, um acadêmico inglês, o professor Martin Gayford, de 63 anos, não contente com as toneladas de papel já gastas para explicar a difícil personalidade do criador do David - a mais conhecida escultura da Renascença italiana - resolveu, como diz, "aumentar os Alpes Apuanos dos estudos já existentes sobre Michelangelo", fazendo da mulher Josephine sua primeira leitora e do filho Tom o compilador da bibliografia monumental (754 páginas) que acompanha a biografia Michelangelo - Uma Vida Épica, lançada pela editora Cosac Naify.
Gayford está de férias, mas concedeu uma entrevista, por telefone, ao Caderno 2, de Dubrovnik, a agradável cidade costeira da Croácia, para falar do desagradável Michelangelo, o mais celebrado de todos os artistas que pisaram sobre o planeta - e, no seu caso, também sobre as cabeças de papas e outros gênios como ele. Leonardo da Vinci, por exemplo. A rusga entre os dois ganha um capítulo (9) inteiro na biografia de Gayford.
Da Vinci era um rival mais sociável, simpático e bonito que Michelangelo, ainda que 23 anos mais velho. Cosmopolita e vocacionado cortesão, sempre andava com sua entourage caçoando de espíritos solitários como Michelangelo, que, fascinado por sua pintura, até ensaiou uma versão da Madona e o Menino com Sant'Ana, de Da Vinci, num bloco de desenho, aos 26 anos, justamente a idade em que começou a esculpir seu David, em 1501.
O biógrafo conta que Da Vinci passava um dia pela Piazza Santa Trinita quando reconheceu alguns amigos discutindo uma passagem de Dante, para a qual pediram sua opinião. Coincidentemente, Michelangelo passava pelo local, sendo interpelado por Da Vinci para elucidar o trecho dantesco. Furioso, por ser alvo de um cruel bullying intelectual, o escultor respondeu: "Explica-o tu,que fizeste o desenho de um cavalo para ser moldado em bronze mas foste incapaz de moldá-lo". A amizade entre os dois jamais voltaria a ser a mesma, se é que um dia foi sincera.
Da Vinci deu o troco quando o David de Michelangelo ficou pronto. Sugeriu que cobrissem sua nudez, que poderia ser "chocante para exibição pública". Seu conselho foi seguido pelos poderosos. Suas partes íntimas foram cobertas por uma guirlanda de flores douradas e assim permaneceu o gigantesco David por séculos, até que o bom senso prevalecesse. São passagens como essa que tornam a leitura da biografia escrita por Gayford recomendável para quem quiser saber como era a vida em Florença nos tempos de Maquiavel.
O acadêmico faz do tripé sexo-política-religião o sustentáculo de uma análise acurada e nada impressionista. Sua fonte principal, além da biografia de Condivi, contemporãneo de Michelangelo, foram os cinco volumes de cartas que o artista trocou com papas, amigos, poetas (Aretino, entre eles) e políticos poderosos, inclusive as mais íntimas, em que descreve, por exemplo, sua paixão por um adolescente aristocrata, o romano Tommaso de' Cavalieri, que deveria ter entre 12 e 20 anos quando conheceu o escultor (a essa altura já na casa dos 50).
O biógrafo não trata da questão de forma escandalosa, justificando essa atração como neoplatônica. Na corte de Lourenço, o Magnífico, amor à beleza era uma experiência do bem, o que, em termos cristãos, equivale a dizer, do divino. Michelangelo dizia nas cartas que contemplar o rosto de Tommaso era como fazer sua alma ascender a Deus.
Outros críticos e historiadores discordam dele. O falecido Leo Steinbeg (1920-2011), por exemplo, tentou explicar a mais enigmática das pinturas de Michelangelo, o Tondo Doni, como uma afirmação carnal de sua homossexualidade diante da Igreja. Isso numa época em que gays iam parar na fogueira do dominicano Savonarola. Em tempo: O Tondo Doni (cerca de 1507), uma pintura redonda como indica o título, mostra a Sagrada Família separada de cinco gays se agarrando ao fundo, intermediados pela figura de S. João Batista, talvez na esperança de que o batismo os redima.
"Florença era liberal com relação a homossexuais até a ascensão de Savonarola, mas sabe-se pouco da vida íntima de Michelangelo, embora algumas cartas de amigos o aconselhem contra as patrulhas da noite que perseguiam os gays." Em todo caso, a profusão de homens nus nos desenhos e na pintura da Capela Sistina - que levou um papa a compará-la a um bordel masculino - é justificada pelo biógrafo como uma obsessão de Michelangelo pelo corpo masculino como signo da perfeição. "Foi essa beleza, mais que o sexo, que o levou a interpretações eróticas como os desenhos do mito de Ganimedes."
Seja como for, os conflitos amorosos e as fantasias sexuais dos artistas sempre aparecem como elementos indutores da criação artística nas biografias de Gayford - e ele escreveu sobre a conflituosa relação entre Van Gogh e Gauguin e a paixão de Constable por sua musa Maria Bicknell. "Não diria que Michelangelo criou todas aquelas esculturas e pinturas repletas de corpos masculinos nus para provocar a igreja, mas por acreditar na beleza como elemento transcendental. Tanto assim, lembra o professor, que, na velhice, Michelangelo chamava aqueles homens de "bonecos", seres destituídos de alma.
Entrando no último período de sua vida, de fato, Michelangelo recomeça a pintar - ele gostava mais de esculpir. Em 1542, sua visão do gênero humano, segundo Gayford, se transforma. No afresco Conversão de São Paulo, na capela Paulina, ele "projeta Cristo como um míssil espiritual do alto para baixo, como um raio de luz dourada na estrada de Damasco" (e evoque-se, o rosto de São Paulo é quase um autorretrato de Michelangelo).
"Van Gogh foi crucificado na crença, mas Michelangelo não", observa o biógrafo. Exemplo disso pode ser sua escultura Cristo Ressurecto, objeto de uma reclamação de Metello Vari, que encomendou a obra para a igreja de Santa Maria sopra Minerva. Vari não gostou do Cristo nu. Muito menos de sua expressão de indiferença diante da ressurreição. "No fim, entendi sua personalidade, a de um homem de uma ambição sem limites que só pensava na arte e um artista a serviço do poder."
(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo - Caderno 2 - C3 - 12 de setembro de 2015)
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
segunda-feira, 22 de junho de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Barcaccia danneggiata da tifosi Feyenoord, dall'Olanda raccolta fondi sul web per il restauro (Corriere della Sera)
L'iniziativa si chiama #ScusaRoma. "Siamo scioccati ma non siamo barbari". E il governo di Amsterdam cerca sponsor privati per il restauro
Roma - Part via Internet una raccolta fondi dall'Olanda per reperire risorse per restaurare la Barcaccia, gioiello del Bernini danneggiato dalla furia degli ultrà del Feyenoord giovedì 19 febbraio. E intanto anche il governo di Amsterdam - secondo quanto emerso - sta sondando la disponibilità di alcune grandi aziende del Paese, pubbliche e private, a finanziare i lavori sulla fontana di piazza di Spagna, sulla quale i tecnici hanno riscontrato 110 scalfiture con danni permanenti causati dal lancio di bottiglie, petardi e altri atti vandalici.
La colletta su web
L'appello è stato pubblicato sulla pagina www.gofundme.com/ScusaRoma dall'editore del sito Dolcevia.com, "che promuove professionalmente nei Paesi bassi". L'iniziativa, scrive il promotore "si chiama #ScusaRoma". E, ancora, aggiune in un italiano comprensibile ma con qualche piccole errore, "stiamo lavorando duramente e l'obiettivo è raccogliere 100 mila euro. Spero possiate capire che vi sono molto cittadini olandesi che sono ben educati ed hanno un grande cuore e amore per Roma e per l'Italia. Oltre 2 milioni di olandesi vengono in Italia ogni anno per le loro vacanze. Desidero che ciò rimanga tale. Desidero che il numero cresca e che gli olandesi siano sempre i benvenuti in Italia".
"Non siamo barbari"
"Al momento - continua il promotore dell'iniziativa - stiamo dividendo i nostri paesi con rabbia e clamore causati da opinioni ed azioni perpetrate da una piccolissima percentuale di persone. La maggior parte degli olandesi si vergogna di ciò che è accaduto a Roma. Comunque ci sentiamo anche feriti dalle cose dette su di noi nella stampa italiana, "I Barbari Olandesi". So bene che veniamo dai Paesi Bassi, ma non siamo di certo bassi nella cultura, educazione e compassione. Siamo anche la nazione di Spinoza, Rembrandt, Van Gogh e Mondrian, e chiaramente abbiamo anche rispetto per le opere del Bernini ed i monumenti di Roma". Finora sono stati raccolti 1.100 euro.
La ricerca di sponsor
Il governo olandese al lavoro. Intanto anche l'esecutivo di Amsterdam si sta attivando per trovare fondi attraverso donazioni e sponsorizzazioni di grandi aziende soprattutto nel settore bancario e finanziario. Di questo avrebbe parlato il premier Mark Rutte nella telefonata a Matteo Renzi di sabato pomeriggio.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
O artista se inventa - Martha San Juan França
Michelangelo é o símbolo da mudança no Renascimento, pela qual o antigo artesão da Idade Média se torna artista, com controle total sobre a obra
Você certamente já viu algumas imagens que fazem parte do teto da Capela Sistina. O dedo de Deus apontado para o dedo de Adão é uma das figuras mais reproduzidas, homenageadas e parodiadas da humanidade (lembra do poster do filme E.T.?). AS cenas do Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, o Dilúvio Universal e tantas outras, saíram da parede para os livros, como ilustração do Velho Testamento. Ver esses afrescos é um privilégio que, infelizmente, acontece sempre em meio a uma turba de turistas, com o pescoço esticado - e a ameaça de um torcicolo. Para quem não pode ir a Itália, a mostra Esplendores do Vaticano, que vai até dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, apresenta uma reprodução da Capela Sistina.
Este ano, o mundo comemora os 500 anos da inauguração dos afrescos, em 1º de novembro de 1512. Dia de Todos os Santos, pelo papa Júlio 2º, após 4 anos de trabalho. "Nenhuma outra obra se compara a essa em excelência, nem hoje nem nunca", comentou o biógrafo Giorgio Vasari, contemporâneo de Michelangelo (1475-1564). "O teto é um farol para a nossa arte, de benefício inestimável para todos os pintores. Ele restabelece a luz num mundo que durante séculos esteve mergulhado em trevas."
Vasari foi o primeiro a chamar sua época de Renascença. E o que renascia eram a arte e o pensamento da Antiguidade. Quando Michelangelo terminou a pintura do teto da capela, já fazia pelo menos um século que esse resgate havia se iniciado na Itália, ou melhor, nas cidades-estado do norte e centro da península.
Os precursores da Renascença foram poetas e prosadores como Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375), pintores como Giotto (1266-1336) e Masaccio (1401-1428). Entre os contemporâneos, Leonardo da Vinci (1452-1619) e Rafael (1483-1520). A chave para entender esse movimento está nas profundas transformações econômicas conduzidas naqueles séculos por uma nova classe social urbana em ascensão - a burguesia mercantil. A Itália tinha a imensa vantagem de estar situada no coração da maior área de comércio do mundo, a bacia mediterrânea. Cidades costeiras como Gênova e Veneza tiveram a oportunidade de enriquecer de maneira fantástica devido ao comércio com o Oriente.
Graças a esse contato e à valorização de suas atividades, seus mercadores e banqueiros adquiriram uma nova visão do mundo, baseada na valorização da realidade material, em contraste com a religiosidade profunda da Idade Média. As artes reproduziam essa mudança de pensamento. Nas pinturas típicas do século 13, por exemplo, as figuras humanas eram planas e irreais. O tamanho de uma figura não refletia a perspectiva,mas sua importância no quadro. Dois séculos depois, os artistas faziam desenhos ultrarrealistas, criando a ilusão de profundidade num quadro plano. Tão realistas que, para aprender a configuração correta de músculos e veias, era comum que artistas dissecassem cadáveres, aprendendo anatomia. A riqueza permitiu que a burguesia em ascensão investisse pesadamente nas artes. Como resultado, já no século 14, surgia uma nova e numerosa classe de assalariados, que trabalhavam juntos nas primeiras oficinas, ou separados, cada qual em sua casa, recebendo os patrões matérias-primas e ferramentas e entregando-lhes o produto acabado mediante pagamento. Era uma mudança e tanto na vida europeia, com a lenta decadência das fechadas e hierarquizadas corporações de artesãos, as guildas, que monopolizavam a produção na Idade Média.
Mas, no começo, a mudança era limitada. O artista ainda não tinha completa autonomia e a melhor arte produzida no Renascimento era realizada sob encomenda dos mecenas, pertencentes às famílias ricas que exigiam sua execução conforme especificações e determinavam como deveria ser usada. Muitos eram mal pagos e, como qualquer outro provedor de serviços, deviam obedecer às instruções e entregar a mercadoria encomendada. Essa situação só veio a mudar no século 16, quando profissionais, como o próprio Michelangelo e Rafael, passaram a fazer parte de um grupo de elite, com liberdade para recusar encomendas e estipular as condições de trabalho.
Durante boa parte de sua vida, porém, Michelangelo enfrentou as mesmas vissicitudes dos outros artistas. Disso surgiram as famosas desavenças com o papa Júlio 2º, retratadas no filme Agonia e Èxtase (1965), que trata do projeto de pintura da Capela Sistina e leva o espectador ao mundo das cidades italianas do Renascimento. O enredo, baseado no livro do mesmo nome de Irving Stone, recorre a uma vasta pesquisa, usando as cartas de Michelangelo e a biografia do artista, escrita por Vasari em 1550 e ampliada em 1568, para ilustrar o embate entre dois temperamentos difíceis. De um lado, um artista atormentado, que se acreditava dotado de inspiração divina, e de outro um papa guerreiro e irascível. A biografia e as cartas mostram também o relacionamento difícil de Michelangelo com o pai, Ludovico, um magistrado apagado e de pouco tino para negócios, que tentou dissuadir o filho da ideia de tornar-se escultor, aos 13 anos.
Nascido em Caprese, na zona rural, em 6 de março de 1475, Michelangelo teve a sorte de ter se mudado com a família para Florença, a mais rica das cidades-estado italianas, dominada desde 1469 por Lorenzo de Medici, o Magnífico. Em 1489, Lorenzo descobriu o jovem aprendiz, cujo talento como escultor já começava a aparecer, e o convenceu a morar no palácio, onde havia fundado uma oficina para artistas. Pouco mais que um garoto, Michelangelo teve então a oportunidade de conviver com os filhos do poderoso Medici, estudando com os melhores professores particulares da Itália.
Foi no período de aprendizado no palácio que o artista realizou as duas primeiras obras que sobreviveram até os nossos dias. São os baixos-relevos Madona da Escada e Batalha dos Centauros. Nelas já se pode encontrar pistas do que Michelangelo posteriormente faria na Capela Sistina. Primeiro a preocupação com cada detalhe do corpo: veias, músculos, ossos, que sobressaem na variedade de posições.
As formas traduzem sensações como medo, preocupação, desespero e sofrimento, refletidas também nas imagens de santos e pecadores. "Michelangelo sai da imitação seletiva dos modelos antigos e cria uma nova interpretação da vida", diz Luciano Migliaccio, professor de História da Arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Essa ideia é muito repisada por Vasari, e segundo Migliaccio, instruída pelo próprio biografado. "Michelangelo queria construir a imagem de um gênio, sabia que disso dependia o seu status como artista", explica. "Ele quer deixar registrado que, mais do que seguir as regras antigas, possui uma marca própria, individual, uma espécie de liberdade que estaria na raiz da superação dos artistas anteriores."
Apesar disso, nesses primeiros tempos, o escultor não conseguia sobreviver de sua arte. Após a morte de Lorenzo, passou necessidade sem o protetor e com o caos que se seguiu em Florença. E para se manter ocupado e ganhar algum dinheiro, participou de um embuste. Fez uma estátua simulando uma antiguidade romana envelhecida artificialmente e enviou para Roma, onde, de mão em mão, acabou na posse de um cardeal. Grande colecionador, o religioso não engoliu a alegada antiguidade da obra, mas pagou o preço pedido em troca do nome do autor. Assim, Michelangelo foi convocado a Roma pela primeira vez.
Ali começou a trabalhar em um tema 100% cristão - a Pietà, que está na Basílica de São Pedro, no Vaticano, atrás de sólidos vidros que a protegem de atentados como o que quase a destruiu em 1972. A obra ainda hoje é considerada pelos especialistas a escultura de mármore mais refinada desde a queda de Roma, mil anos antes. Mostra uma Maria jovem demais para ser a mãe de um filho morto, aos 33 anos, como um sinal de beleza eterna da Virgem. Foi a consagração do autor.
Michelangelo voltou para Florença, convocado para realizar a obra que simbolizaria a cidade. O tema escolhido foi o personagem bíblico Davi, retratado no exato momento em que decide combater Golias, em uma estátua com mais de 4 m de altura. Exposta ao ar livre para que todos pudessem admirá-la, hoje encontra-se na Galleria dell'Accademia, enquanto a praça em frente exibe uma réplica do mesmo tamanho.
A fama recém-conquistada chegou aos ouvidos do novo papa, Júlio 2º, apelidado de Terrível. Michelangelo foi convocado em 1508 para se estabelecer em Roma. O pontífice tinha a intenção de recuperar para a cidade a glória da antiga capital do Império Romano e isso incluía ser enterrado em um mausoléu que ofuscasse o de todos os papas anteriores. Para isso, queria a participação do maior escultor do mundo, e Michelangelo começou a trabalhar dali a alguns meses. Duas esculturas do túmulo, Moisés e Os Escravos, só foram concluídas em 1513, após a morte do papa. Conta Vasari que, depois de terminar Moisés, Michelangelo teria batido no joelho da escultura e exclamado: parla! ("Fala!").
No meio do trabalho do mausoléu, veio a contraordem: o papa decidiu que ele deveria pintar o teto da sua capela privada e sede do conclave, onde até hoje o Colégio de Cardeais reúne-se para eleger o papa. Durante toda a sua vida, Michelangelo definiu-se como um escultor, considerando a pintura uma arte menor. Mas não havia como dizer não ao papa. Assim, de 1508 a 1512, entregou-se à pintura. Durante toda a obra, Michelangelo dispensou a ajuda de assistentes, trabalhando de pé, com a cabeça virada para cima. Comia enquanto pintava. À noite desenhava os cartões com as figuras que seriam transferidas para o teto na manhã seguinte. Colocou tapumes que escondiam todo o trabalho, que nem mesmo o papa poderia acompanhar.
Em sua biografia, Vasari relata que, quando Júlio 2º, impaciente, o interrogava para saber quando a obra ficaria pronta, respondia: "Quando eu acabar!" Numa das vezes, o papa furioso bateu-lhe com o cajado nas costas e ameaçou jogá-lo dos andaimes. Em várias ocasiões, atrasou o pagamento. Mas valeu a pena. Na abóbada de cerca de 1 000 m2, a 20 m de altura, há aproximadamente 300 figuras, representando 3 episódios do Gênesis, além de profetas, sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e cenas da história do povo de Israel.
No total, Júlio 2º pagou 3 mil ducados pelo trabalho. Feitas as contas, segundo o livro A Arte Secreta de Michelangelo, dos pesquisadores Gilson Barreto e Marcelo de Oliveira, em valores atuais corresponderia a cerca de 620 mil dólares. Significava que Michelangelo, a partir dali, era um homem rico. Mesmo assim, continuou a trabalhar até morrer, aos 89 anos, deixando obras fantásticas que marcaram para sempre a história da arte, entre elas O Juízo Final, encomenda do papa Clemente 7º, na parede frontal da Capela Sistina. Para ele, o mais importante era ser reconhecido pelo seu gênio artístico autônomo, ideia que viria a se firmar nos séculos posteriores.
(texto publicado na revista Aventuras na História nº 112 - novembro de 2012)
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