Mostrando postagens com marcador hipótese. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador hipótese. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de março de 2018

E se...não existisse esgoto ? - Nathan Fernandes


Seríamos criaturas sujas e pestilentas, vivendo menos, trabalhando menos... E até com uma internet menos rápida.

O mundo cheiraria a Londres do século 19, já que a principal cidade do planeta na época não tinha rede de coleta de esgoto. Os londrinos jogavam seus dejetos nas valas das ruas que serviam para escoar água da chuva. Tudo ia parar no rio Tâmisa, que, no verão de 1858, ganhou o apelido "Big Stink" ("grande fedor", em inglês). A situação ficou impraticável, até que o engenheiro urbano Joseph Bazalgette entrou em cena. Ele desenvolveu uma rede pensando no futuro. Em vez de canos finos sob regiões pouco povoadas e grossos em áreas densas, Bazalgette pensou no crescimento da cidade e concebeu uma rede com canos largos em todo o subterrâneo londrino. Enquanto isso, no Brasil, escravos jogavam tonéis com dejetos pelas ruas sem a menor preocupação. E até hoje a situação é triste. Segundo o IBGE, só 54,9% dos domicílios brasileiros têm sistema de coleta de esgoto, o que pode ser fatal. De acordo com a OMS, 88% das mortes por diarreia no mundo são causadas por sistema impróprio. Ou seja, em um mundo sem esgoto, diarreia, hepatite A, febre amarela e malária reinariam. E quem fica doente não trabalha. Um estudo do Instituto Trata Brasil com a Fundação Getúlio Vargas revelou que, em 2009, 217 mil brasileiros se afastaram do trabalho devido a problemas gastrointestinais ligados à falta de saneamento. Isso significa toda uma Divinópolis (MG) de molho em casa com dor de barriga.

Na teoria, mesmo onde há saneamento não deveria existir o esgoto fedorento que polui. O que acontece é que ligações clandestinas se conectam ao sistema de coleta de água de chuva e, assim, canos que deveriam levar só o aguaceiro de temporal aos rios acabam carregando esgoto não tratado. Assim temos o Tietê de hoje, igual ao Tâmisa do século 19.

O sistema de esgoto londrino inspira até hoje. Em 2011, o então secretário de cultura da cidade inglesa, Jeremy Hunt, disse que o país só teria uma internet super rápida se seguisse o exemplo de sua rede de esgoto. Bazalgette pensou no futuro e previu o aumento de fluxo de dejetos. O fluxo de dados online também só vai crescer, mas, para isso, a internet precisa de uma rede que dê conta do recado. É pensando nesse futuro que gigantes da internet estão investindo mais em data centers, e usando o sistema de esgoto a seu favor. Desde 2012, a meta do centro de dados do Google na Geórgia, Estados Unidos, é que 100% da água de resfriamento de suas máquinas seja de reuso. Ou seja, o sistema de esgoto resfria os data centers. Facebook e Microsoft também estão tomando medidas parecidas. E o esgoto, quem diria, está ajudando a fazer uma internet melhor. Na falta dele, poluiríamos mais ao ver online um filme das Tartarugas Ninjas - que, aliás, sem esgoto não teriam nem casa para pedir aquela pizza.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 320 - julho de 2013)

domingo, 10 de setembro de 2017

E se todo mundo virasse vegano? - Tiago Cordeiro


Volta o verde

Sem precisar desmatar para dar espaço ao gado ou para cultivar alimentos para ele, poderíamos usar boa parte da área restante para recuperar florestas. Seria necessário fazer um alto investimento, porque o solo usado para pasto é bastante degradado, mas valeria a pena para melhorar a qualidade do ar e a variedade dos ecossistemas do planeta.

Abre a porteira!

Teríamos que lidar com quase 25 bilhões de animais sem função, porque, subitamente, não teriam mais valor econômico. São 1,4 bilhão de cabeças de gado, 1,9 bilhão de ovelhas e cabras, 980 milhões de porcos e 19,6 bilhões de galinhas. Devolvê-los para a natureza provocaria a morte da maioria. A melhor solução seria colocá-los em reservas onde seriam mantidos vivos. Mas como essas reservas iriam se sustentar financeiramente?

Pobres com fome

A carne é uma fonte barata de proteínas importantes para manter um organismo humano em pé. Dietas mais saudáveis são mais caras: seria preciso estimular a agricultura local dos países em desenvolvimento para melhorar a distribuição de legumes e frutas, que muitas vezes são mais difíceis de preservar sem estragar. Nos países mais pobres, que mais dependem da carne, esse é um cenário difícil de colocar em prática.

Choque cultural

Muitas regiões têm a carne como parte essencial de sua cultura. Elas seriam descaracterizadas - imagine o Brasil sem churrascarias, os EUA sem hambúrgueres, o Japão sem sushis. Além disso, povos nômades carregam o gado consigo, porque eles servem para transportar peso e também como fonte de comida. Eles se veriam forçados a migrar para as cidades, aumentando o inchaço populacional e a pobreza.

Ar limpo

A poluição cairia muito, porque a pecuária emite uma quantidade colossal de poluentes - desde o gás metano, muito liberado por esses animais, até a fumaça gerada pelo transporte da carne. Atualmente, cerca de 25% de todas as emissões de gases poluentes do planeta são provocadas pela agropecuária - comer 100 g de carne todos os dias significa emitir 99 kg de CO2 em um ano. Com o fim do consumo de produtos de origem animal, essa parceria cairia cerca de 70%.

Adeus, computadores

Diversos produtos contêm algum tipo de substância extraída de animais. A lista inclui desde itens mais óbvios, como roupas, até sacolas plásticas de mercado, perfume, xampu, açúcar, cigarro, desodorante, pasta de dente, batom, pneu de carro, giz de cera, camisinhas, filmes fotográficos e até mesmo computadores. Num mundo vegano, anda disso poderia mais existir, a menos que a ciência achasse substitutos viáveis.

Mais terra

Teríamos mais espaço para plantar, sem precisar desmatar florestas, um terço de toda a área cultivada do planeta não produz alimentos para nós, humanos, mas sim para os animais que consumimos. Com o fim da pecuária, liberaríamos uma porção de terra equivalente à África inteira. Também economizaríamos água: gastamos 15 mil litros para produzir 1 kg de bife e só 300 litros para 1 kg de vegetais.

Todo mundo na rua

Caso, subitamente, todo mundo parasse de comer carne de qualquer tipo, além de derivados de leite de vaca e de ovinos em geral, o impacto para a economia seria descomunal. O 1,5 bilhão de pessoas (20% da população mundial) que hoje trabalham na pecuária, na avicultura e na pesca ficariam desempregadas. Realocar tanta gente seria bem difícil, especialmente em países como o Brasil, onde o setor gera R$ 400 bilhões todos os anos, ou a Indonésia, onde os peixes são essenciais para a economia.

Vida saudável

No caso de os problemas socioeconômicos serem resolvidos e todos os habitantes do planeta terem acesso a uma alimentação sem carne, seriam evitadas 7 milhões de mortes por ano daqui até 2050. Isso porque a alimentação excessivamente dependente de proteína e gordura animal provoca doenças cardíacas, diabetes, derrames e alguns tipos de câncer. A redução nos gastos com saúde pública seria da ordem de 3% do PIB mundial.


(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 199 - setembro de 2017)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

7 soluções quase utópicas para São Paulo - Tiago Cordeiro


Aristóteles dizia que a cidade é o ambiente natural do ser humano, o lugar onde a vida pode ser a melhor possível. Isso porque ele viveu há 2300 anos e nunca encarou a Marginal do Tietê, em São Paulo, na tarde uma sexta-feira. Nas últimas décadas, as metrópoles viraram uma complicação. Para diminuir o caos, elas precisam de grandes obras, frutos de urbanistas com ideias radicais. A SUPER conversou com alguns desses sonhadores e reuniu 7 soluções utópicas para nossa maior cidade. Algumas já foram implantadas com sucesso em outro lugar, outras são inéditas. São casos em que vale a máxima do escritor Monteiro Lobato: "Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum."

1) Proibir carros

A ideia: Proporcionalmente ao número de passageiros, um único automóvel ocupa 8 vezes mais espaço do que um ônibus. Mesmo assim, mais da metade dos deslocamentos de São Paulo é feita de carro. O sociólogo americano J. H. Crawford lidera um movimento radical: o Carfree, que defende a extinção dos carros em troca de qualidade de vida. Uma das saídas é investir no transporte público integrado, com ônibus, metrôs, trens e ciclovias. É o que faz com que os 35 milhões de moradores de Tóquio dependam menos de carros e não demorem longas horas para voltar do trabalho para casa. "Sozinho, o ônibus não funciona em uma cidade de 100 quilômetros de extensão lateral", diz Geraldo Serra, professor de urbanismo da USP. Para tirar os carros das ruas, portanto, é preciso investir em trens e metrôs.

E como essa utopia poderia ser aplicada em São Paulo? O arquiteto Nazareno Affonso, diretor da Associação Nacional dos Transportes Públicos, propõe restringir os carros no Centro de São Paulo, nos arredores do Teatro Municipal. A ideia poderia se estender para ruas secundárias no centro expandido de São Paulo, dando mais espaço para ciclistas e pedestres. Isso poderia ser feito com taxas para quem rodar pelo Centro, os chamados pedágios urbanos. Ou, como ele propõe, trocando os veículos por carros elétricos de dois lugares, com velocidade máxima de 60 km/h e funcionando sobre trilhos. Seria uma versão menor e moderna dos antigos bondes. O motorista seria obrigado a deixar o carro em um bolsão de estacionamento distante e dali alugar um carro menor, que usaria apenas uma faixa da rua. As outras duas caberiam aos ônibus e às bicicletas.

Onde já deu certo: Proibir carros funciona bem em cidades pequenas e médias. Com 280 mil habitantes, Veneza, na Itália, só permite o tráfego de veículos motorizados em poucas ruas. A ilha Lamma, a 3ª maior de Hong Kong, tem uma frota de automóveis pequenos, com capacidade para dois motoristas, e só para situações de emergência. Cidades maiores não conseguem acabar com os carros, mas limitam as áreas onde podem circular. Montreal, no Canadá, tem 32 quilômetros de passagens subterrâneas, que ligam 60 prédios comerciais e residenciais. Bogotá, que tem 300 quilômetros de ciclovias, 10 vezes mais do que São Paulo, pretende proibir carros na região central até 2015. Em Seul, o governo cobra pedágio de carros com menos de dois passageiros. O número de veículos caiu 34%.

2) Plantar árvores no minhocão

A ideia: Construído no Centro de São Paulo em 1970, o elevado Presidente Arthur da Costa e Silva, o Minhocão, é um bom exemplo de como grandes obras urbanísticas podem degradar um bairro. Em maio de 2006, um projeto da arquiteta Juliana Corradini venceu um concurso da Secretaria Municipal de Planejamento para eleger a melhor solução para aquele trambolho. Juliana teve a ideia de transformar a pista num túnel e, em cima dele, fazer um parque público suspenso de 3,4 quilômetros de extensão. Ela sugere erguer estruturas metálicas para sustentar a construção de galerias com cafés e bancas nas laterais. Para chegar ao parque, seria preciso subir por escadas ou elevadores. O projeto está orçado em R$ 86 milhões. Com o parque, a cidade ganharia mais um local de encontro, e os moradores, mais tranquilidade. Seria um passo importante na proposta de revitalizar a região.

Para reforçar as mudanças ao redor do Minhocão, os arquitetos Eduardo Novaes e Ciro Araújo preveem uma diminuição do número de pistas para carros, a ampliação das calçadas e a construção de uma praça arborizada e com um anfiteatro, ali perto, na rua das Palmeiras.

Onde já deu certo: Nos anos 60 e 70, a cidade de Boston, nos EUA, construiu vários elevados para diminuir os congestionamentos. Duas décadas depois, demoliu alguns deles e os trocou por túneis, por meio de uma obra monumental que durou 15 anos e custou a bagatela de R$ 30 bilhões (o preço de 16 novas linhas do metrô em São Paulo). Mas o exemplo mais bem-sucedido de jardim elevado, da forma como Juliana propõe, é o Promenade Plantée, em Paris. Tem 4,5 quilômetros de extensão e liga a Opéra Bastille ao Bois de Vincennes. O parque foi construído sobre um viaduto feito no século 19 e abandonado em 1969. A Filadélfia e Manhattan também têm planos para construir os próprios jardins suspensos em linhas de trem desativadas.

3) Proibir grandes shoppings

A ideia: Grandes shoppings trazem grandes problemas de trânsito para a região onde são instalados, além de reduzir o comércio de rua. Uma forma de lidar com o problema é diminuir o tamanho dos centros de consumo e espalhar as lojas pelos bairros. Em São Paulo, o projeto vencedor do concurso Bairro Novo, que propõe uma forma de ocupação de uma área de 1 milhão de m² no bairro da Barra Funda, prevê que a região, hoje praticamente deserta, seja ocupada por casas que convivam em harmonia com pequenas lojas, em ruas sem postes, com fios elétricos enterrados, calçadas largas e que teriam saída para as grandes avenidas.

Onde já deu certo: Há 10 anos, quando os shoppings e as redes de hipermercados começavam a tomar conta dos subúrbios de Londres, o governo britânico resolveu limitar o tamanho dos centros comerciais nesses bairros mais afastados. "As grandes redes se adaptaram. Em vez de construções gigantescas dominando toda a periferia, surgiram muitas lojas menores. As redes ainda estão em maioria, mas agora concorrem em condições de igualdade com pequenos comerciantes locais", afirma o urbanista inglês Richard Burdett, professor da London School of Economics e curador da Bienal de Arquitetura de Veneza.

4) Construir túneis aquáticos para evitar enchentes

A ideia: Cidades surgem em torno dos rios porque precisam de água potável. Mas, quando o crescimento urbano toma o espaço das águas e as enchentes são inevitáveis, deixar o leito do rio mais fundo nem sempre é suficiente. Quando o solo sob o rio é duro demais e pouco poroso, escavar o leito funciona apenas como um paliativo. É por isso que o geólogo Luiz Vaz, professor visitante do Instituto de Geociências da Unicamp, propõe a construção de um túnel ao lado do rio Tietê, desde o Cebolão até as proximidades de Barueri. Nas contas do geólogo, parte da água do rio poderia ser desviada para um túnel de 37 quilômetros de comprimento, que correria sob o rio e desaguaria depois do final dese trecho de grandes enchentes. A obra levaria dois anos e custaria nada menos que R$ 800 milhões, metade do preço da nova linha do metrô de São Paulo.

Onde já deu certo: O governo chinês está construindo dois túneis de escoamento sob o rio Amarelo, na cidade de Zhengzhou. Somados, eles terão 19 quilômetros de extensão e vão custar R$ 380 milhões. Além de evitar enchentes, os túneis vão despejar o excedente de água no norte do país, onde o solo árido dificulta a plantação de arroz. Quem não tem tanto dinheiro prefere resolver o problema das enchentes com áreas verdes ou piscinões. Em São Paulo, o arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre sugere que a prefeitura transforme as regiões em torno das avenidas do Estado, Roberto Marinho e Aricanduva em grandes avenidas-parques ao lado de conjuntos residenciais. Outra ideia, que já funcionou em Paris e em bairros de São Paulo, como o Pacaembu, é reter a água em piscinões para soltá-la devagar, logo depois que as chuvas param.

5) Construir um Central Park paulistano

A ideia: Em Nova York, o Central Park divide Manhattan em duas partes e tem uma área maior que países como Mônaco ou o Vaticano. Os arquitetos Rogério Batagliesi e Antonio Malicia propõem um parque semelhante em São Paulo, ligando o Campo de Marte ao Horto Florestal. O Anhembi e o Sambódromo ficariam envolvidos por verde, e haveria um lago formado pelas águas do Tietê. Para isso, o trecho de 6 quilômetros da Marginal entre as pontes do Limão e das Bandeiras seria subterrâneo. O parque abrigaria também museus, bares e pequenas lojas. Na avenida Prestes Maia, na zona norte, haveria um prédio de alta tecnologia ecologicamente correto, que geraria parte de sua energia elétrica usando turbinas eólicas e painéis solares.

Já o arquiteto Mario Biselli pensa numa ideia igualmente radical: transformar o Aeroporto de Congonhas, o mais movimentado do Brasil, num parque. "Aquela região é residencial e não comporta mais nenhum tipo de aeroporto, muito menos o mais movimentado do país. Aquela área daria um belo parque", diz.

Onde já deu certo: Instalado no meio de Manhattan, o Central Park original tem 3,4 km² e recebe 25 milhões de visitantes por ano. Quando foi construído, em 1873, não tinha lagos - eles são todos artificiais. Há espaço para a prática de esportes, para as crianças brincarem. O lugar também se tornou um santuário de aves. O projeto foi inspirado no Bois de Boulogne, em paris, e no Hyde Park, de Londres, mas com uma inovação: pedestres, veículos de passeio e cavalos tinham pistas próprias. O parque é também um centro cultural: todos os anos, no verão, a Filarmônica de Nova York apresenta dois concertos ao ar livre. Simon e Garfunkel, Diana Ross e Dave Matthews Band já se apresentaram lá.

6) Valorizar as favelas

A ideia: Cidades não se resolvem só com parques, pontes e viadutos - as pessoas e a auto-estima que elas sentem por morar ali são questão de segurança pública. Gostar do bairro e da vizinhança diminui os índices de violência. Quando os moradores são apegados à região onde moram, eles reagem às ações criminosas, por menores que sejam. "Para ter moradores satisfeitos, a cidade precisa transmitir a sensação de segurança entre estranhos. Quem não se sente ameaçado na região onde vive luta com mais disposição para continuar onde está", diz o filósofo colombiano Hernando Gómez Buendía, diretor do Informe Nacional de Desenvolvimento Humano.

Onde já deu certo: Na década de 1970, o bairro nova-iorquino do South Bronx foi resgatado pelo design. "Os moradores ganharam casas mais bonitas, que aumentaram de preço no mercado. Com isso, passaram a valorizar mais sua região, a respeitar as autoridades e a delatar os criminosos", diz o designer urbano Philipp Rode, da Inglateerra. Outra coisa que ajudou, no caso, foi a instalação de um tribunal de pequenas causas dentro do bairro, que começou a julgar com rapidez casos menos graves de vandalismo. Na favela do Petare, em Caracas, na Venezuela, os ginásios esportivos foram restaurados e passaram a ser usados pelos moradores nos fins de semana. Mas o caso mais bem-sucedido vem de Bogotá. A capital da Colômbia reformou e coloriu as favelas e criou gincanas com direito a prêmios. Os bairros competem entre si pelo título de área com menor índice de violência. Uma vez por ano, a prefeitura promove dias em que só os homens podem sair de casa, e em outros só as mulheres: ganha a turma que tiver menos ocorrências policiais. Resultado: em 10 anos, Bogotá derrubou o número de mortes violentas pela metade.

7) Construir uma nova cidade

A ideia: A região entre Osasco e Sorocaba, a oeste de São Paulo, está crescendo rapidamente - e sem ordem. O arquiteto Bruno Padovano sugere que o poder público se antecipe e construa uma nova cidade inteira, que teria 6 milhões de habitantes. O nome seria Ecópole Oeste, e ele englobaria cidades como São Roque e Mairinque, a 70 quilômetros da capital, aliviando a densidade populacional paulistana. "Seria uma rede, com grandes núcleos habitacionais de 50 000 habitantees", ele prevê. "Cada núcleo desses seria completo, com arranha-céus residenciais e uma boa estrutura comercial e de serviços. E aproveitaríamos a estrada de ferro para construir uma linha de metrô de superfície, com estações a cada quilômetro. O professor Geraldo Serra concorda: "São Paulo precisa recuperar a Estrada de Ferro Sorocabana. É um grande eixo de transportes que está pronto, e a cidade não pode deixá-lo abandonado".

Onde já deu certo: Antecipar problemas futuros é uma escolha sensata. Na década de 1970, quando a crise das plantações de café do norte do Paraná começou a despejar desempregados em Curitiba, a prefeitura correu para ocupar o leito dos rios antes que virassem favelas. Foi quando a cidade ganhou a maioria de seus parques. "As pessoas não vão esperar a prefeitura. A região de Osasco a Sorocaba vai crescer sozinha e depois a única alternativa vai ser, de novo, correr contra o prejuízo com medidas paliativas", diz Bruno Padovano.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 240 - junho de 2007)

sábado, 24 de dezembro de 2016

E se... os velhos fossem a maioria? - Manuela Aquino


Ao lado de matemática, física e português, envelhecimento seria uma das nossas disciplinas escolares. E essa não é nem a diferença mais radical num mundo em que a maior parte das pessoas têm mais de 60 anos. "Tudo terá de ser transformado à medida que a sociedade envelhecer", escreveu o jornalista alemão Frank Schirrmacher em A Revolução dos Idosos, que busca nos alertar para o inevitável processo de envelhecimento mundial. Segundo a ONU, os idosos vão passar de 606 milhões para 1,97 bilhão em 2050. E, para Schirrmacher, o choque provocado por essa mudança será comparável ao de uma guerra mundial.

O mercado de trabalho, por exemplo, deve sofrer transformações drásticas. "A noção de aposentadoria compulsória a uma determinada idade ficaria obsoleta numa sociedade muito envelhecida", diz o médico brasileiro Alexandre Kalache, que coordena o Programa de Envelhecimento da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. Afinal, não há economia que resista a 51% da população economicamente inativa. A solução seria mudar as cargas de trabalho e horário.

E apesar de a velhice trazer dificuldades físicas inevitáveis (perda de sentidos e de massa muscular e óssea), um mundo com a maioria de velhos não quer dizer um mundo doente. Um estudo de 2001 da Duke University, nos EUA, chegou à conclusão de que o risco de algumas doenças (entre elas, câncer, hipertensão e arteriosclerose) diminui com o tempo. "O metabolismo do idoso fica mais lento, as células passam a trabalhar e a se reproduzir menos e isso dificulta o progresso de enfermidades crônicas", diz Svetlana V. Ukraintseva, coordenadora da pesquisa. Conheça ao lado outras mudanças que veríamos se os velhos se tornassem maioria.

Classificados

Empregos

Procura-se engenheiro com mais de 40 anos de experiência.

"Hoje, ser velho é a experiência de uma minoria", escreveu Frank Schirrmacher. E, como sempre, as qualidades da maioria é que são valorizadas. Criatividade e flexibilidade são moedas da juventude e, por isso, tornaram-se pré-requisitos no mercado de trabalho. Se envelhecermos, isso tende a mudar.

Vende-se carro. Retrovisores com lentes de aumento.

Produtos especiais para velhos seriam comuns. "Já temos tecnologia para isso. O que falta é investidores", diz Joseph Couhlin, diretor do AgeLab, um laboratório do MIT que pesquisa produtos para idosos. Como falta de investidores costuma estar ligada à falta de demanda, a situação tenderia a mudar se os velhos fossem maioria.

Vaga para consultor financeiro. Carga de 20 horas semanais.

"As pessoas irão, progressivamente, trabalhar menos e em tarefas fisicamente menos exigentes", diz Alexandre Kalache, da OMS. Aos jovens - e às máquinas - restaria o trabalho braçal.

Vendo computador G-23, com comando de voz.

Os jovens de hoje adoram aparelhos eletrônicos e não se assustam diante das novidades. Schirrmacher acredita que, em 2050, quando envelhecerem, eles estarão acostumados a se adaptar às novas tecnologias - e não a ser ultrapassados por elas, como acontece com nossos pais e avós.

Fazemos sua festa de 100 anos.

A expectativa de vida em 1900 era de 50 anos. 100 anos depois, pulou para 79. E a tendência é que ela aumente cada vez mais. As projeções da OMS dizem que, em 2050, o número de pessoas com mais de 100 anos de idade será 16 vezes maior do que é hoje.

Viaje nas férias. Grupos especiais para homens e mulheres da quinta e sexta idades.

Hoje, velhos são vistos como um grupo homogêneo: qualquer pessoa com mais de 60 anos entra na categoria terceira idade. Se esse grupo se tornar maioria, será preciso estabelecer divisões dentro dele. "Peritos em marketing já fazem diferença entre idosos de primeira, segunda, terceira e quarta idades", escreveu Schirrmacher.

Produtos

Está se sentindo sozinho? Vendemos e alugamos netos virtuais.

"Para manter os níveis populacionais é preciso uma taxa de fecundidade de 2,2 filhos por mulher. Hoje o número é de 1,4", escreveu Schirrmacher. A consequência será uma sociedade de vovôs, mas sem netos. "Um dos cenários prováveis é a substituição da família pela internet."

Serviços

Escola velhice ativa. Aceitamos alunos a partir dos 5 anos.

"Começaríamos a nos preocupar com a velhice desde muito cedo", diz o médico Alexandre Kalache. "Tomaremos precauções para manter nossa força muscular, capacidade respiratória e funções cardiovasculares. Quanto maior for o capital de saúde que pudermos armazenar, melhor."

Concursos

Miss 80, inscreva-se já!

Nossa sociedade exalta imagens da juventude porque o envelhecimento é um tabu. "Pessoas mais velhas só aparecem na televisão como pacientes de hospitais ou tomando remédios", diz Schirrmacher. Essa aversão à figura dos velhos tende a desaparecer se eles se tornarem maioria.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 217 - setembro de 2005)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

E se... as ruas não fossem públicas? - Nathan Fernandes


As vias estariam em melhores condições. Mas teríamos bem menos liberdade para circular por aí.

Se essa rua fosse minha, eu faria uma cidade nova. É que há uma lei que diz que só pode ser fechada a rua com certas características, como ser de vila. Os grandes condomínios onde moradores fazem quase tudo apontam como seria. Se uma metrópole fosse formada apenas por bairros assim, a vida seria diferente. Teríamos uma cidade totalmente planejada. E as vias que ligassem esses bairros seriam administradas por empresas em esquema de concessão, como as estradas. E, com as empresas focadas em blocos pequenos, a administração ia ser mais efetiva. Praças abandonadas, ruas sem luz? Raridade. Além disso, haveria mais segurança, grande mantra dos moradores de condomínio. Outra vantagem são os congestionamentos, que diminuiriam, pois, para o negócio ser viável, a cidade teria pedágio urbano. É o que diz Creso Peixoto, engenheiro do Centro Universitário da FEI, em São Bernardo do Campo (SP). Para ele, pedágio urbano bom é o que dói no bolso e desestimula a sair de carro. Santiago, no Chile, virou referência mundial ao instalar um sistema de vias privatizadas com cobrança automática: passou pelo radar, caiu na conta. E o motorista paga proporcionalmente, de acordo com o quanto roda.

Mas haveria um problema nisso tudo: fechar ruas bate de frente com a natureza humana de ir e vir. É o que acontece nas praias particulares. Por lei, praia particular é proibido. Por isso, condomínios fechados na praia devem ter um acesso à população. E, muitas vezes, esses acessos são entradas apertadas e escondidas, limitando e desencorajando as pessoas. Possivelmente, ruas fechadas trariam problemas assim. Ficaríamos na mão das administradoras. E viveríamos presos em um enorme condomínio.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 317 - abril de 2013)

terça-feira, 5 de julho de 2016

E se...trocássemos a Amazônia pela dívida pública? - Walmir Storti e Rodrigo Vergara

A dívida pública brasileira é o novo inimigo nacional. Considerada a responsável pela fuga de dólares e pelo descrédito do país, a dívida - que é a soma das dívidas dos governos federal, estadual e municipal e das empresas estatais - estimada em 232 bilhões de dólares - parece uma ameaça à viabilidade econômica do país. Diante dessa visão, quem já não pensou em uma saída radical, como trocá-la por um patrimônio nacional? E se a trocássemos pela Amazônia?

A resposta é que sairíamos perdendo. Se o motivo para a troca fosse só financeiro, já seria um mau negócio. De acordo com Ademar Ribeiro Romeiro, professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas e chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélites, a maioria das riquezas amazônicas continua desconhecida. Mas mesmo os recursos já descobertos - madeira, minérios, turismo, medicamentos e cosméticos - já são mais valiosos que a nossa dívida. Só as jazidas minerais valem 7 trilhões de dólares. Detalhe: sem contar o petróleo. No entanto, o potencial da região é ainda maior. Estima-seque, se forem bem explorados seus variados recursos, a Amazônia poderá render ao Brasil, por ano, cerca de 1,3 trilhão de dólares.

Mas será que sobrará alguma floresta até lá? No atual ritmo de destruição, em 50 anos a mata terá desaparecido. Só nos últimos 20 anos, perderam-se 60 milhões de hectares, mais que a área de Minas Gerais. E o ritmo de destruição ainda é alto: cerca de 15 000 quilômetros quadrados de florestas são devastados todo ano. Ou seja, se alienar a Amazônia é desvantajoso, pior seria mantê-lo brasileira para transformá-la em carvão.

Mas pouca gente acredita que isso vá acontecer. O ritmo da devastação está diminuindo. E a área desmatada poderia ser aproveitada. "Na Amazônia existem 10 milhões de hectares de solo de primeira. Para comparar, toda a produção agrícola brasileira vem de 50 milhões de hectares desse tipo", diz Romeiro.

Há outros aspectos a serem considerados, além do econômico. "A Amazônia tem importância ambiental e estratégica", diz Paulo Barreto, diretor da Imazon, uma ONG que pesquisa a região amazônica. De fato, a região concentra, entre outras riquezas, quase 20% do estoque mundial de água potável, uma mercadoria valiosa e estratégica para qualquer população.

Mas os benefícios da quitação não suplantariam eventuais prejuízos decorrentes da perda da região? Afinal, o governo federal pagará, este ano, mais de 90 bilhões de reais só em juros da dívida (incluída a correção monetária). Se a pendenga fosse quitada, o governo poderia investir essa dinheirama em infra-estrutura, por exemplo. Ou poderia diminuir a carga de impostos, que hoje é a maior do mundo - 34% do que se produz no país vira imposto.

Para Odair Abate, economista-chefe da Lloyds Bank TSB, a duração dessas vantagens dependeria muito de futuros governos. "Se um presidente começasse a gastar mais do que arrecada, voltaríamos a acumular dívida e, dessa vez, seríamos um país menos rico, porque não teríamos a Amazônia."

Além disso, para não acumularmos uma nova dívida seria preciso sanear algumas contas do país. Hoje, remetemos mais dólares ao exterior (para pagar importações e remunerar o lucro de multinacionais instaladas no Brasil) do que recebemos por nossas exportações, sem contar o pagamento de juros. Se essa conta não for revertida, o governo teria que continuar a oferecer juros para atrair dólares. E uma nova dívida nasceria.

Não bastasse isso, se alienássemos a Amazônia, teríamos um aumento nas importações. Cerca de 85% da madeira amazônica é consumida no Brasil. Outro exemplo: a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, é uma das principais fontes de energia para o Nordeste. Além do mais, o território brasileiro encolheria 60%. Seria melhor aumentar nossa exportação de produtos, não de terras.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 180 - setembro de 2002)

sábado, 11 de junho de 2016

E se... as abelhas sumirem? - Emiliano Urbim

Sem sua polinização, um terço dos vegetais desaparece, empobrecendo gôndolas e paisagens. O sumiço leva à criação de um santuário, onde as últimas abelhas zunem em paz. Que tal uma visita guiada?

Bom dia! Bom dia a todos. Vieram bem no barco? É normal ter um pouco de enjoo, não se preocupem. Vocês conseguem me ouvir aí atrás? Sejam muito bem-vindos à Primeira Reserva Apiária do Atlântico Sul, mais conhecida como Ilha das Abelhas, menos conhecida como Abilha - é, o apelido não pegou.

Assim como é uma honra para nós recebê-los, é um privilégio para vocês estar aqui, não é mesmo? Vocês fazem parte de um clube seleto: são pouquíssimos os candidatos que recebem o visto para conhecer este santuário da natureza, um dos lugares mais vigiados do mundo. Não sei o que vocês fizeram para estar aqui, nem me interessa. Só me resta lhes dar os parabéns.

Bem, nunca é demais lembrar que vocês acabam de desembarcar no último local do planeta Terra onde ainda é possível encontrar abelhas que produzem mel. Sim, senhora, vai haver degustação de mel e você pode comprar o quanto quiser na lojinha. Mas vamos aproveitar o passeio, não é mesmo? Me acompanhem até o vestiário, por favor.

Pendurados nos cabides, com os nomes de vocês, estão seus uniformes de apicuristas. Sim, é um antigo uniforme de apicultor, mas acharam que chamar de apiculturista agregaria valor. Peço que todos vocês se besuntem abundantemente de repelente e só depois comecem a vestir as roupas, absolutamente imprescindíveis para a realização do passeio. Ela existe para proteger vocês das abelhas, mas principalmente para proteger as abelhas de vocês. 

Como vocês sabem, ou deveriam saber, as abelhas começaram a desaparecer em 2006. Nunca se soube com certeza a causa do Distúrbio do Colapso de Colônias. Muitos falaram em um tipo específico de pesticida. Alguns apostaram em ácaros nas colmeias. Pode ter sido fungos, vírus, destruição do habitat natural. Provavelmente uma soma de todos esses fatores. O fato é que nunca se chegou a uma solução. E as abelhas desapareceram do mundo inteiro, a não ser por esta pequena ilha. Desculpem o tom melancólico, somos obrigados por lei a passar esse conteúdo.

Quem tiver dificuldade é só chamar que eu ajudo a fechar o zíper. Primeiro aviso: os kits foram montados com base em medidas que vocês me passaram. Se vocês engordaram, emagreceram ou mentiram, sinto muito. Segundo: essa é a última oportunidade que vocês têm para ir ao banheiro sem serem incomodados pelas nossas anfitriãs. Aproveitem.

Todo mundo pronto? Por favor, me sigam por este longo corredor. Vejo que hoje temos gente de todo o mundo. Bem: não interessa de onde vocês vieram, com certeza é uma paisagem muito diferente do que vocês vão ver aqui. As paisagens que vocês estão acostumados a ver são, por assim dizer, meio monótonas, certo? Que plantas vocês conhecem? Soja. Milho. Isso mesmo, arroz. Tudo bege. Aqui, se preparem: vocês vão encontrar um arco-íris. Um mosaico. Um caleidoscópio. Sua metáfora favorita não será suficiente.

De tirar o fôlego, não é ? Toda essa diversidade - para ser correto, essa biodiversidade - só é possível graças à polinização que as abelhas fazem, levando o pólen de planta em planta. Tenho impressão de que vocês estão com dificuldade em identificar algumas espécies, me permitam ajudar. Aquilo ali é café. Ali, uma laranjeira, cheia de laranjas. Aquilo ali tem a cor parecida, mas é uma cenoura. Temos também abóboras, melões, chuchus, pepinos, quiabos, cebolas. Essa se chama melancia. É vermelha por dentro, uma delícia. Sim, está tudo à venda na lojinha. Melancia também, mas atenção ao excesso de bagagem, senhora.

Gente, gente. Aqui, por favor. Chegou o grande momento. Tudo muito exuberante, muito deslumbrante, mas está faltando alguma coisa, não é mesmo? Faltam as estrelas da festa! Para chamar as abelhas, vou usar este spray especial. Vou poupá-los dos detalhes sórdidos, mas ele atiça os hormônios sexuais dos insetos. Peço que vocês não realizem movimentos bruscos e permaneçam em seus lugares para não atrair picadas. Assim que eu espalhar o líquido no ar, elas devem ser atraídas. Em três, dois...zum.

Calma. Esse barulho vem delas mesmo, é o zumbido do enxame. É natural que elas cerquem vocês, cheguem perto. Estão curiosas, não estão acostumadas a humanos de fora. Reparem nos tons de preto, de amarelo. Reparem nos olhos. Sempre reparo nos olhos.

E pronto. Passeio encerrado, deem adeus a essa maravilha. Sim, senhora, agora é a degustação de mel. Tem na lojinha. Mais barato que no freeshopping.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 327 - dezembro de 2013)



sexta-feira, 10 de junho de 2016

E se... o 11 de setembro não tivesse ocorrido? - Sérgio Gwercman

A primeira dúvida é quem seria o presidente dos EUA hoje. Antes do 11/9, George W. Bush era um governante apagado, rejeitado por quase 40% do eleitorado. Depois dos atentados, foi promovido a estadista com aprovação de até 90%. Não é à toa que para muitos analistas Bush jamais se reelegeria sem ter a bandeira da luta contra o terror. E, nesse caso, o atual presidente tampouco seria John Kerry, derrotado por Bush em 2004 - veterano do Vietnã, ele só foi para a disputa porque o clima bélico do país exigia candidatos com experiência militar.

Se os EUA não estivessem em guerra, os democratas teriam outro candidato. E Al Gore seria o favorito. Afinal de contas, ele havia recebido mais votos que Bush nas eleições de 2000 e só não levara a Presidência por causa do complicado sistema eleitoral americano.

Como seria a gestão Gore? Ambientalista das antigas, seu governo poderia ser marcado pela entrada dos EUA no Protocolo de Kyoto. Seria uma mudança significativa para o planeta - os americanos emitem 25% dos gases que provocam o efeito estufa. "Gore provocaria um efeito em cadeia. Teríamos mais empresas ecológicas, mais políticos preocupados com o verde", diz o jornalista Sérgio Abranches, especialista em questões ambientais. Para Abranches, até o Brasil sofreria consequências. "Seríamos pressionados a zerar as queimadas na Amazônia, que representam 80% das nossas emissões", diz.

Mas é bobeira acreditar que Bush entregaria a Presidência de bandeja. Sem o  terrorismo, ele buscaria outras questões capazes de mobilizar a opinião pública. Em especial, os eleitores do interior, conservadores e religiosos, que sempre o apoiaram. "A Presidência focaria toda a atenção em eleitores famintos por ações firmes contra o aborto, a pesquisa com células-tronco e os direitos gays", escreveu o analista político Frank Rich na edição da revista New York dedicada a discutir como seria o mundo hoje sem os atentados de 2001. Se você se assustou com a onda conservadora que varreu a América sob Bush, pense que sem 11/9 talvez ela fosse mais forte ainda. Pior: com um presidente eleito especialmente para cuidar que as coisas ficassem assim.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 230 - setembro de 2006)

E se... todo mundo andasse pelado? - Otávio Comen

Se a espécie humana tivesse sobrevivido aos últimos 30 mil anos sem se vestir (ou se, em dado momento, uma revolução cultural tivesse abolido esse hábito), ela ocuparia uma faixa bem menor do planeta. A população ficaria concentrada nas áreas urbanas de cidades de clima ameno, como São Paulo. Circular ao ar livre em lugares muito frios seria impossível. Se a temperatura do corpo ficar abaixo de 32ºC, algumas enzimas essenciais param de funcionar - e os órgãos que dependem delas também. Até o seu raciocínio fica mais lento. Se a temperatura sobe demais, ocorre o mesmo. "Não aguentamos variações acima de 5ºC na temperatura interna do corpo, que fica perto de 36,5ºC", diz o biólogo José Eduardo Wilken.

No verão, livrar-se das roupas será um alívio, mas exigirá cuidado com a radiação solar, já que elas funcionam como um bloqueador eficaz (o fator de proteção solar varia segundo o tecido, a trama e a cor. Uma camiseta clara de algodão tem FPS perto de 15. Roupas com tratamento especial têm FPS 50 ou mais). Entre os brasileiros, o câncer de pele é o mais comum - sem roupa, dá-lhe protetor e ruas vazias entre 10h e 16h, quando a radiação é mais forte (recomendação manjada, aliás, e muito ignorada).

As cidades estariam preparadas para uma multidão de pelados (e descalços). O chão de espaços públicos seria revestido com pisos confortáveis. Dividir assento com desconhecidos não seria problema: os bancos teriam proteção descartáveis ou você traria seu próprio tapetinho para evitar a proliferação de doenças, especialmente as transmissíveis pelo contato indireto dos genitais, como sífilis e HPV.

Sem roupas, não haverá o constrangimento da nudez, e o conceito de privacidade associada ao corpo seria diferente. Para o psicólogo Oswaldo Rodrigues, nossa tendência seria resistir menos aos impulsos sexuais. Isso não significa fazer mais sexo e, sim, tratar com naturalidade padrões diferentes de comportamento que envolvem intimidade, como transar em público. Outros códigos de conduta não mudariam tanto. "As roupas reúnem as pessoas em grupos", diz o sociólogo Alexandre Bergamo. Elas traduzem tipos de trabalho, status etc. E são referências inerentes à vida em sociedade. Ou seja: você aposentou o terno, mas teve de tatuar ou usar no pulso algo parecido.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 303 - abril de 2012)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

E se... a Terra parasse de girar?


Paralisar o nosso planeta seria uma verdadeira revolução cósmica, de consequências nada agradáveis. Dois dos mais belos fenômenos da natureza - a alvorada e o crepúsculo - só ocorreriam uma vez a cada seis meses. Ou seja, o dia terreno passaria a ter a duração de um ano, metade dele com luz solar e a outra metade nas trevas.

Tudo isso, porém, ainda seria fichinha perto de efeitos colaterais bem mais graves, que tornariam a vida na Terra se não impossível, extremamente difícil. Dois cenários alternativos - e radicalmente antagônicos - desenhariam para a humanidade um futuro duro de encarar: usar toda a ciência e a tecnologia possíveis para sobreviver num ambiente inóspito: ou gelado como Júpiter (temperatura média de -130º C), ou tórrido como Vênus (460º C).

"Se, durante a longa noite de um dos lados do planeta, houvesse acumulação de neve ou congelamento do oceano, a Terra se transformaria num mundo gélido", afirma o meteorologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). "Tudo dependeria do transporte de água do lado quente (dia) para o lado frio (noite). Como a metade noturna teria sempre temperatura abaixo de zero, qualquer vapor d'água que para lá fosse levado cairia como neve e viraria gelo na superfície."

As correntes oceânicas também desempenhariam um papel fundamental nessa troca, transportando calor dos mares quentes, do hemisfério diurno, para os mares frios, da outra face do planeta. Se essas correntes não dessem conta do recado, surgiria, boiando sobre o oceano, uma camada de gelo tão espessa que não derreteria - nem quando voltasse a amanhecer no lado noite. "Como o gelo é branco, reflete muita radiação solar: 50% a 60%, em média. Assim, a pouca luz absorvida seria insuficiente para provocar o derretimento dessa camada. Esse, aliás, é o mesmo mecanismo que faz com que, uma vez estabelecidas, as eras glaciais durem milhares de anos. E se a massa de gelo não derretesse totalmente durante o primeiro dia de seis meses, entraríamos numa eterna era glacial", diz Carlos.

A outra alternativa seria o exato oposto: um calor infernal. Como haveria uma evaporação intensa de água dos oceanos do lado dia, boa parte desse gás permaneceria na atmosfera. "O vapor d'água é um forte gerador de efeito estufa: quanto mais vapor, mais alta ficaria a temperatura próxima à superfície; e, quanto mais alta essa temperatura, ainda mais vapor seria produzido", afirma o meteorologista. O aumento brutal desse efeito estufa poderia chegar ao ponto extremo de fazer evaporar toda a água dos oceanos. Nesse caso, a temperatura terrestre atingiria centenas de graus Celsius - completamente imprópria para a vida.

Mesmo que não acabássemos torrados durante o dia, provavelmente morreríamos por inanição à noite. "Sem luz durante seis meses, os vegetais - que transformam a energia solar em alimento para si e para os animais - se extinguiriam. Assim, desapareceriam também os herbívoros e, logo em seguida, os carnívoros", diz o biólogo Wellinton Delitti, do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, num mundo gélido de um lado e causticante do outro, os únicos organismos com chance de sobrevivência são aqueles que vivem no fundo do mar, próximos às fendas que expelem calor e enxofre vindos das profundezas da Terra. "Essa comunidade de organismos tem sua vida baseada na quimiossíntese e não na fotossíntese: são seres que independem da luz solar", afirma Wellinton. Mas, se essa forma de vida chegaria ou não a evoluir a ponto de, um dia, colonizar todo o planeta, só bilhões de anos poderiam dizer.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

E se... a Terra tivesse a gravidade de Marte? - Evanildo da Silveira


Para começar, aquela famosa maçã inglesa teria caído na cabeça de Newton com sua força reduzida em duas vezes e meia. Será que assim ele teria dado menos importância ao fato, atrasando a descoberta da Lei da Gravidade? Bem, nem perca tempo pensando nisso: não há nenhuma comprovação histórica de que o episódio da maçã tenha realmente ocorrido. O certo é que se, de uma hora para outra, o nosso planeta passasse a ter uma força gravitacional igual à de Marte - 3,7 m/s² contra os atuais 9,8 m/s² -, toda a vida terrestre caminharia para a extinção.

Pouco a pouco, iríamos literalmente ficando sem ar. "Os gases da alta atmosfera escapariam da gravidade da Terra e se espalhariam pelo Universo", diz o  físico Odylio Aguiar, especialista em detecção de ondas gravitacionais da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe. Outro fenômeno apocalíptico ocorreria nos oceanos. "Com uma atmosfera mais rarefeita, a água entraria em ebulição a uma temperatura inferior a 100ºC", afirma Aguiar. "Bastaria um clima ameno de 25ºC para o mar ferver."

Como se não bastasse, nosso satélite natural, a Lua, se desgarraria da Terra. O mais provável é que acabasse capturada pela órbita do Sol, aproximadamente à mesma distância que nos encontramos dele. "A Lua eventualmente poderia ser recapturada pela órbita terrestre, várias voltas (anos) depois, ou até se chocar com nosso planeta. Tudo dependeria da direção em que ela estivesse se deslocando no exato momento dessa repentina alteração em nossa gravidade, e também da influência gravitacional dos outros planetas", diz o físico.

Outros fatores essenciais para a vida seriam afetados de maneira igualmente assombrosa. "A gravidade determina a pressão, a densidade e a temperatura - nada menos que as condições que dão forma aos elementos químicos. É a principal força, em escala macroscópica, que vai modelar física e geometricamente os seres vivos", afirma o astrônomo Othon Winter, da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista, UNESP, de Guaratinguetá.

Por causa disso, a Terra poderia abrigar bichos e plantas bem maiores que os atuais. "Se tivessem a mesma estrutura físico-química, eles poderiam ser realmente imensos", afirma o físico Roberto de Andrade Martins, do Departamento de Raios Cósmicos do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. "Se levarmos em conta apenas o fator de resistência física, um elefante deste mundo hipotético poderia ter um tamanho 2,5 vezes maior do que o elefante que conhecemos, mantendo as mesmas proporções!"

Martins lembra, no entanto, que não é apenas a gravidade que determina as dimensões dos seres vivos. "Podem existir fatores biológicos, e não físicos, que limitam o tamanho dos animais e dos vegetais", diz ele. Afinal de contas, existem na Terra desde camundongos minúsculos até grandes ratazanas, com estruturas físicas semelhantes; existiam no Brasil tatus e preguiças gigantes, que se extinguiram por motivos biológicos. Numa frase: o tamanho de um animal não é determinado apenas pela possibilidade física de que ele sustente o seu próprio peso.

Para completar, o próprio homem se tornaria um gigante - pelo menos em força. "Uma pessoa que consegue segurar ou erguer um objeto de 40 kg na gravidade normal, poderia com igual esforço, fazer o mesmo com um objeto de 100 kg", afirma Martins. "Um jogador de futebol num mundo desses, desde que com condições de respirar normalmente, daria um chute que forneceria exatamente a mesma velocidade à bola. A diferença é que ela poderia ir 60% mais longe." Ou seja: uma patada de fazer inveja a qualquer Netinho ou Éder Aleixo.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 11 - ano 14 - novembro de 2000)

sábado, 2 de abril de 2016

A imaginação a serviço da ciência: E se... a corte portuguesa não tivesse vindo ao Brasil? - Rodrigo Cavalcante


Cansado da poluição e do trânsito, um morador de São Paulo decide arrumar as malas, comprar um abadá e partir para o carnaval da Bahia. No aeroporto, enquanto imagina a Ivete Sangalo cantando, descobre que esqueceu o passaporte e não pode embarcar. Passaporte? Para a Bahia? Isso mesmo: se a corte portuguesa não tivesse vindo para o Brasil em 1808,a Bahia provavelmente seria uma nação e o resto que você conhece hoje como Brasil seria um amontoado de países. "Sem a transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, seria impossível preservar a unidade do que é o Brasil", diz o historiador Luiz Carlos Villalta, autor do livro "O Império Luso-Brasileiro e os Brasis. "Ocorreria com a América portuguesa o que ocorreu com a América espanhola, dividida em vários países que, hoje, formam conosco a América Latina."

Mas, antes de agradecer a D. João VI por não precisar de passaporte para pular o carnaval em Salvador, agradeça a Napoleão. Ao tomar o poder na França, em 1799, ele deu início a uma série de invasões na Europa que obrigariam a fuga da corte portuguesa para o Brasil. No final de 1807, as tropas napoleônicas estavam na Espanha e marchavam em direção a Lisboa. Confrontadas com a robustez das armas francesas, as frágeis tropas portuguesas não teriam como defender o país. Entre 25 e 27 de novembro de 1807, de 10 000 a 15 000 pessoas embarcaram em navios portugueses rumo ao Brasil - ministros, juízes, funcionários do Tesouro, militares, membros do clero. Trouxeram consigo também o tesouro real, os arquivos do governo, uma máquina impressora e várias bibliotecas.

No dia 28 de janeiro de 1808, na primeira escala na Bahia antes de chegar ao Rio de Janeiro, D. João VI decretou a abertura dos portos do Brasil às nações amigas - leia-se Inglaterra, que havia declarado guerra à França em 1803 e foi responsável pela proteção dos navios portugueses até o Brasil. Mas, se os mesmos ingleses conseguissem enviar tropas diretamente para Portugal, evitariam a invasão dos franceses e a necessidade da transferência da corte.

"Sem a vinda da Coroa portuguesa para cá, mais cedo ou mais tarde algumas províncias do Brasil iriam conquistar sua independência", diz Lúcia Bastos, professora de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que está pesquisando a influência da figura de Napoleão no império luso-brasileiro. "Naquele tempo, os deputados brasileiros da corte de Lisboa não falavam em nome do Brasil, mas em nome de Pernambuco, da Bahia, do Rio de Janeiro."

A historiadora diz que o Rio Grande do Sul, alvo de disputas entre Espanha e Portugal, provavelmente formaria um país independente anexado ao que é hoje o Uruguai. "É possível que essa região se tornasse uma espécie de República do Prata", diz Lúcia Bastos. E as divisões não terminariam por aí. Surgiria um novo país em Pernambuco - possivelmente anexando alguns Estados vizinhos -, outro formado pelo Pará e Amazonas, uma nação no Maranhão... enfim, o mapa da América do Sul seria outro.

E o mais surpreendente: é provável até que cariocas, paulistas, mineiros e paranaenses vivessem num mesmo país com sede no Rio de Janeiro. "Mesmo assim, a cidade do Rio seria provavelmente bem diferente do que é hoje", diz Luiz Celso Villalta. "Como não teria sido sede da corte portuguesa, a fisionomia do centro urbano seria semelhante à de uma cidade como Olinda, sem construções reais do século XIX."

A desigualdade econômica entre as regiões seria menor. "O Sudeste continuaria sendo um centro econômico importante, mas alguns países do Nordeste, livres do poder do Rio de Janeiro, poderiam ter enriquecido mais", diz Lúcia Bastos. "A abolição dos escravos também teria acontecido muito antes nesses Estados, já que a demora na tomada dessa decisão teve o apoio da elite cafeeira do Sudeste." No Estado do Ceará, por exemplo, a escravidão já havia sido praticamente abolida desde 1870.

Outro cenário seria a corte portuguesa não vir para o Brasil e cair nas mãos de Napoleão. "Foi isso o que aconteceu com a Espanha, que foi tomada pela França em 1808", diz Villalta. "Provavelmente ocorreria no Brasil o mesmo que nas colônias espanholas, que se  tornaram independentes. "Não tendo de ser fiéis a um rei empossado por Napoleão, as províncias rapidamente alcançariam a independência. "De uma forma ou de outra, a fragmentação do território que hoje é o Brasil seria quase certa", diz o historiador.

Até mesmo o sotaque dos cariocas não existiria se a corte portuguesa não chegasse ao Brasil no século XIX. "É claro que o desembarque de 15 000 pessoas no Rio de Janeiro mudou o jeito de falar da maioria da população", diz Ataliba de Castilho, professor de Filologia e Língua Portuguesa na USP. "Como dava mais prestígio falar como os fidalgos portugueses, a população do Rio de Janeiro foi assimilando todos os chiados que hoje distinguem o típico falar dos cariocas. "Ele diz que, sem a vinda da corte, provavelmente não haveria muitas diferenças entre o falar de um surfista carioca de um cantor de dupla sertaneja do interior de São Paulo.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 173 - fevereiro de 2002)