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domingo, 31 de dezembro de 2017

Vênus e Cupido (Afrodite e Eros)


Esses dois deuses romanos, mãe e filho, chamados de Afrodite e Eros pelos gregos, promoveram a devastação desde o começo. Para simplificar, nos referiremos a eles como Vênus e Cupido, mesmo apesar de muitas das histórias que os envolvem terem originado na Grécia, antes de serem adotados pela mitologia romana. Em ambas as culturas, as flechas do Cupido poderiam atingir qualquer criatura e despertar nele ou nela a reação que chamamos de amor. Com apenas um tiro, Plutão, o rei do submundo, se apaixonou. Cupido até fez com que Apolo, o deus da razão, se apaixonasse.

Vênus é a deusa do prazer sexual, rejeitada como sendo inerentemente pecadora, em especial após os textos de Agostinho, no século IV. Mas vamos aqui considerar Vênus e Cupido como as personificações dos aspectos positivos de pessoas comuns.

O amor não é algo que possamos definir. Como posso compreender o significado da palavra se eu declaro amar minha esposa, meus filhos, meu cachorro e meu carro? As únicas coisas que eles têm em comum são que todos  custam dinheiro e precisam ser lavados, mas isso não pode ser usado como analogia aceitável para o amor.

Não podemos separar o amor romântico de Vênus e sua personificação de desejo sexual. Mas, para preservar a ignorância das crianças, costumamos representar o amor como um pequeno e fofo querubim, o Cupido, e o celebramos no Dia dos Namorados, sempre tomando muito cuidado para não mencionar sua mãe.

Imaginar o Cupido como um deus gordinho, brincalhão e infantilizado é uma alusão à sua personificação romana. Por outro lado, para os gregos, ele era um homem voluptuoso e detentor de uma intimidante força primordial - o mais belo de todos os deuses. Só a  visão dele poderia fazer os humanos perderem o chão, e além do mais tinha o poder de controlar nossa mente. Eros (o Cupido) era uma força primitiva e incontrolável que muitas vezes fazia com que pessoas que não tinham nada a ver umas com as outras se apaixonassem - um exemplo do poder do amor sobre a racionalidade. Esse tema foi recorrente ao longo da história e atingiu seu auge cômico em Sonho de uma noite de verão, a famosa peça de Shakespeare. Um tratamento moderno desse cenário é encontrado no conto de Isaac Asimov, The Up-to-Date Sorcerer. Nessa história, pessoas sob a influência de uma poção do amor se apaixonam perdidamente somente para serem curadas pela realidade do casamento.

Também Cupido se apaixonou. Nesse mito, Vênus sentiu-se ameaçada pela beleza de uma mortal, Psique, e enviou Cupido para fazer com que a donzela se apaixonasse por um monstro. Mas, quando Cupido viu Psique, ficou extasiado e a desposou. Como vingança, Vênus matou Psique, mas Cupido ressuscitou sua noiva, que se tornou uma deusa, bem como o filho deles. Mais uma história de morte, ressurreição e elevação ao status de divindade. O amor faz dessas coisas.

O poder de Cupido é fonte de ansiedade para aqueles que desejam uma vida organizada e harmoniosa. Uma pessoa pode estar vivendo uma existência despreocupada quando o romance floresce e de repente se vê escravo do amor.

Enquanto as setas de Cupido estiverem voando, qualquer um pode ser atingido sem aviso, às vezes repetidamente. A natureza aleatória desses eventos faz com que a vida seja imprevisível. Entretanto, a passagem do tempo pode reduzir nossa volúpia e controlar o Cupido. Como um filósofo muito sabiamente observou, a idade pode cortar suas asas, esfriar nossas paixões e permitir que nosso intelecto finalmente funcione sem barreiras. Mas justamente quando achamos que estamos seguros, eis que surge o Viagra.


(texto publicado no livro As pessoas mais importante do mundo que nunca viveram de Allan Lazar, Dan Karnan, Jeremy Salter)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Entrevista com Leandro Karnal: A ambiguidade do "eu" e das virtudes - Gustavo Ranieri


Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco é o título de uma das palestras mais assistidas do historiador Leandro Karnal. Quando a proferiu em abril deste ano, poucas dezenas de pessoas tiveram a oportunidade de a acompanhar presencialmente. Bastou, no entanto, ser postada no YouTube - além da exibição na TV -, para que diferentes edições da palestra somassem mais de 500.000 visualizações. Número que aumenta exponencialmente se incluirmos os views de outros tantos vídeos disponíveis na plataforma do Google com este doutor em História Social pela USP, professor da Unicamp na área de História da América, especialista em história das religiões e autor do livro Pecar & Perdoar - Deus e homens na história.

Irônico certamente é pensar que, na palestra mencionada na abertura deste texto, Karnal salienta que vivemos em uma época na qual, como não temos amigos de fato, congregamos com 3.000 deles no Facebook; e como não temos nada muito interessante a mostrar, preferimos fotografar tudo. Para ele, é sinal do nosso tempo a triste ideia de que "o registro visual seja mais importante do que a ideia".

Também por isso, respirava com alívio o anonimato durante as semanas que passou em novembro último entre Myanmar e Tailândia, no sul asiático, fazendo estudo do meio sobre Budismo Theravada e Animismo e ministrando palestra sobre religiões comparadas. Foi ao fim de um dia dessa viagem a trabalho que, por Skype, Karnal concedeu esta entrevista. "O bom daqui, de estar na Tailândia do Norte, na província de Chiang Mai, é que ninguém me conhece. Absolutamente ninguém. Sou julgado apenas pelas ideias, não sou julgado pelo pré-conceito positivo ou negativo. Para mim, é quase uma experiência de virgindade, e é uma experiência que recupera esse viço, esse frescor que talvez a exposição tenha feito perder."

Uma exposição midiática tamanha, aliás, que ascendeu o historiador a um fenômeno que ele chama de "guru midiático". "É um momento em que as pessoas querem me dar vozes que eu não tenho. Querem que eu incorpore a agenda delas, no sentido de agenda política, ideológica, sexual ou religiosa. Querem me dar pautas, no sentido de que tenho que me pronunciar sobre o acontecimento X ou Y", salienta o pensador, que dá conta de uma agenda lotada com total foco nos compromissos, ajudado pelas poucas horas de sono diárias - apenas quatro. "Na maior parte das vezes, aprendo muito com as pessoas que encontro em palestras, mas é um pouco estranho que elas me assistam por uma hora e passem quase duas batendo foto."

Na entrevista a seguir, parte dela focada no tema que rege esta edição, a generosidade, Leandro Karnal fala sobre essa virtude, mas também sobre utopia, a dificuldade de elaborar identidade sem exclusão, extremismo religioso e necessidade de compreensão de que a diferença jamais enfraquece, mas fortalece.

O que é, de fato, generosidade, essa virtude tão desejada é tão confundida em seu conceito?

Para os valores atuais, uma questão de solidariedade social, pensamento sustentável e combate ao preconceito. São valores deste momento que nem sempre existiram. São nossos desejos de um mundo melhor dentro da visão deste mundo melhor. Miro em um mundo sem preconceito, mas todas as sociedades humanas, sem exceção, das indígenas às urbanas do século 21, foram preconceituosas. Todas foram, de alguma forma, etnocêntricas e centradas. Desejo uma sociedade sem preconceitos e luto por isto, mas estamos muito distantes deste ideal.

Mas quais são as maiores dificuldades de fazer dessa virtude algo concreto?

Preconceito confere identidade. Como diz Sartre, quem inventou o judeu foi o antissemita. Quem inventou o Terceiro Mundo foram os intelectuais do Primeiro. A primeira dificuldade é elaborar identidade sem exclusão. A segunda é uma educação virtuosa, contrária ao preconceito. A terceira é a punição do preconceito nas formas da lei. Coerção e consenso de mãos dadas para superar racismo, misoginia, homofobia, demofobia etc. Mas é uma estrada e estamos só no começo.

Sua resposta me remeteu ao fim da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano derrotado foi partilhado, sem critérios muito estabelecidos, entre França e Inglaterra. Não houve por parte de ambos os países uma atenção com quem habitava esse imenso território, assim como em compreender e resguardar suas identidades e diferenças. Mas, se olhamos o hoje, vemos um mundo ainda muito fragmentado, com Estados querendo independência, como a Catalunha, por exemplo. Assim, de que maneira você enxerga a elaboração dessa identidade, como elaborá-la sem excluir alguém?

Os exemplos que você citou dizem respeito a um forte elemento da identidade, que é o nacionalismo. O nacionalismo é uma invenção, mas tem seu momento mais chave no século 19. E, no século 20, através da Primeira Guerra e da Segunda, o nacionalismo volta à tona também. Como você lembrou, a divisão do legado do Império Otomano, um dos quatro impérios eliminados pela Grande Guerra de 1914 a 1918, a guerra que mais eliminou impérios na história, são elementos que foram artificialmente tratados, porque os interesses ingleses e franceses não levavam em conta identidades locais, interesses que, no Oriente Médio - não só tanto quanto ao nacionalismo, mas quanto à identidade religiosa ou tradição histórica, por meio de um xeique ou de um califa e assim por diante. Aquelas fronteiras que [o então primeiro-ministro do Reino Unido Winston] Churchill dizia como a Transjordânia, parte da Jordânia, que foram traçadas numa tarde de sol em Londres, essas fronteiras como os belgas fizeram entre Ruanda e Burundi, montando etnias problemáticas como tútsis e hutus; essas fronteiras, elas são artificiais, mas na verdade as fronteiras e as identidades de países europeus - como você citou, a Catalunha - também são artificiais.

De que forma isso?

A França é uma junção de povos que não se amavam muito, nem tinham a mesma língua, até há pouco tempo. A Suíça tem quatro línguas. A Espanha tem, pelo menos, cinco focos de identidade muito forte, como bascos, como catalãs, como andaluzes etc., e que não têm uma proximidade nem cultural nem uma identidade linguística. Na verdade, pode ser um países muito pequeno e artificial como a Bélgica, que pensa em se separar. E pode ser um país gigantesco e também recente como o Canadá, que pensa em se separar. Em todos esses casos, nacionalismos e regionalismo desagregam uniões, porque essas identidades locais europeias, ou de outros lugares, artificiais ou não, são elementos com que as comunidades se identificam e a estes elementos de nacionalismo se somam elementos mais graves ainda de religião ou de acusações de que uma parte está explorando a outra. Ou seja, estamos sempre transferindo para os outros os nossos problemas. Estamos sempre constituindo identidades excludentes. E aí tem um desafio a que nós nunca conseguimos responder: como é que eu posso ser islâmico se eu não tiver ao meu redor católicos e judeus, como é que posso ser heterossexual sem homossexuais, como posso ser brasileiro sem argentinos? Ou seja, como posso estabelecer um elemento unificador em um universo em que toda ação de dizer quem sou significa dizer quem eu não sou, aquilo que eu gosto implica aquilo que não gosto. Não somos uma espécie acostumada a viver em grandes grupos. Estabelecemos identidades muito locais, muito provinciais, muito de aldeia. E, às vezes, elas são projetadas para a nação.

E se nunca conseguimos responder corretamente a este desafio, você acredita em alguma proposta, em algo que nos tire desse lugar?

Acredito na educação, uma educação cosmopolita. Acredito na proposta de Gandhi de abrir as janelas para o mundo, mas que a sua casa continue indiana, que é a ideia do Gandhi: "Minha casa é indiana, mas eu abro as janelas para o mundo inteiro". Acredito na valorização da minha identidade local, mas sem sufocar e sem xenofobia com a identidade dos outros. Mas isso é um exercício muito complexo. A maior parte das pessoas se sente atacada se ela for religiosa e encontrar um ateu, e a maior parte dos ateus se sente catequista, porque decide que, sendo ateu, tem que passar adiante essa ideia e abrir os olhos dos religiosos. Este é um ouroboros, é uma serpente que come a própria cauda. Nós temos uma dificuldade enorme de lidar com a diferença. E uma facilidade enorme de excluir, estabelecer preconceito, estabelecer muros e guetos. Essa é uma tradição histórica muito forte entre nós.

Por conseguinte, imagino que seja demais utópico pensar e almejar generosidade frente ao atual momento que o mundo atravessa.

Generosidade é um conceito histórico. Quer dizer que, em cada momento e em cada lugar, foi interpretada de um jeito. Era generoso para a elite inglesa aprisionar trabalhadores em workhouses no século 19, uma espécie de fábricas-prisão.  Os ingleses vitorianos achavam que assim ensinariam um ofício aos trabalhadores. Os nazistas consideravam útil e racional eliminar os portadores de deficiências mentais, as primeiras vítimas do extermínio nazista. A Inquisição tinha por lema "Misericórdia e Justiça'. Hoje, temos valores que falam de ação social, valorização da natureza, combate ao preconceito etc. Esses valores até podem ser utópicos, mas a utopia, desde que foi inventada por Thomas Morus (1478-1535), serve para melhorar o presente. Utopia permite avançar rumo ao horizonte; não, exatamente, construir um mundo utópico. A utopia estabelece uma espécie de meta a partir da qual eu reformo a realidade. Quando Thomas Morus inventou essa palavra, no século 16, o neologismo grego do "não lugar" [utopus], ele queria criticar a Inglaterra em que vivia. Quando [Michel de] Montaigne, nos seus escritos, fala sobre os canibais brasileiros - no capítulo 31, do Livro I de Os ensaios -, ele sua os canibais utópicos para criticar a sociedade francesa do seu momento. Então, "utopia" é sempre uma maneira de eu estabelecer um futuro perfeito contra o presente imperfeito. Como a realidade dá menos do que desejo e como o horizonte se alarga à medida que a gente deseja mais, utopia tem essa função didático-pedagógico-política, por isso a importância dela.

Historicamente, é errado pensar que quando o ser humano era nômade, caçador-coletor, ele era mais generoso do que se comparado ao período posterior como sedentário, praticando a agricultura e formando então as primeiras aldeias, vilas e cidades?

Como disse, generosidade é um valor histórico. De algumas formas, vivemos um mundo menos violento do que há 60 anos ou há 5 mil. Há mortes, mas elas causam mais impacto e protestos. Todos os crimes de rua no Brasil não chegam a ser um dia normal na Batalha de Stalingrado, entre 1942 e 1943. As cidades domesticaram parte dos instintos, e isto pode produzir cultura formal e formas mais elaboradas de violência.

Mas, em sua opinião histórica, já fomos predominantemente generosos ou sempre estivemos longe disso?

Se usarmos o exemplo da generosidade como a entendemos hoje, estamos num período melhor do que no século 15, por exemplo. Sofisticamos nossos meios materiais para sermos genocidas. Mas veja, os nazistas tornaram a morte uma indústria sistemática. Porém, quando os soviéticos avançaram, os alemães destruíram parte dos campos de morte. Eles sabiam que aquilo era um crime de guerra e queriam destruir provas. Os assírios mataram muitos e sem nenhuma tentativa de esconder. A violência era exemplar, pública e tinha função no império assírio. Matamos mais hoje por recursos materiais mais elaborados, mas temos uma consciência maior de alguns valores. Turcos, hoje, negam a morte de armênios na Primeira Guerra. No século 15, turcos e cristãos empalavam-se mutuamente nos Bálcãs, publicamente, e nenhum dos dois lados, islâmico ou cristão, tinha escrúpulo de exibir sua violência. Pelo contrário, orgulhavam-se dela. Hoje, somos obrigados a uma virtude pública, estados, instituições e pessoas. A bomba atômica mata muito rapidamente muita gente. Imagine a bomba atômica nas mãos de Nero ou Calígula, de Átila ou de Carlos Magno.

Como você observa o marketing pessoal e empresarial tentando se camuflar com exemplos dessa virtude?

Hoje, a virtude traz lucro. Ser ecologicamente responsável e socialmente engajado aumenta o valor das ações. Assim, virtude e interesse estão presentes. Hoje, virtude agrega valor à marca.

Mas é possível a formação de um ser generoso em meio a uma sociedade tão massificada pelo consumo?

Para muita gente, o consumo é um valor virtuoso, pois gera emprego e faz circular riquezas. A virtude relacionada ou não ao consumo é um conceito interessante. O principal benefício que pessoas mais pobres querem não é igualdade social ou combate ao racismo, mas o poder de também consumir. O desejo de consumir é uma meta forte para quase todas as pessoas. Sociedades que consumiam pouco, como as socialistas, não foram mais virtuosas. Sociedades que consomem muito, como a norte-americana, não são mais virtuosas. Porém, passamos a separar consumo e virtude por uma influência provável de certo platonismo e de certo moralismo ou cristão ou socialista.

Podemos dizer que maior igualdade sociocultural facilitaria a existência de atitudes generosas?

Sem dúvida, o cidadão inserido em uma sociedade com pouca diferenciação econômica, inserido em uma sociedade onde haja muito pouco a invejar do outro e a diferença seja pouco relevante, ele tem menos capacidade de destruição de um grande centro onde desconhecidos têm diferenças enormes. Pessoas que estão inseridas em um meio onde você possa conhecer as pessoas, deveriam, a rigor, estabelecer um ponto mais próximo ou um ponto de maior diálogo e assim por diante. Isto é verdade e, ao mesmo tempo, nós temos exceções notáveis de sociedades equilibradas, com pouca desigualdade, dentro das quais, de repente, aparece um louco, um ser violento. É importante lembrar que a violência era maior no passado do que é hoje.

Mas o que mudou?

Foi muito mais o meio de exercer essa violência. A chance do assassinato era maior há 50 anos ou 70 anos do que ela é hoje. A morte de crianças, a convivência com os horrores; tudo isso, de alguma forma - em alguns setores, não todos - melhorou. Nós estamos em uma sociedade que tende a cobrar mais tolerância, menos preconceito e ser mais dura com as expressões da violência. É que eu acho que como toda a espécie humana, e ao longo da sua história, nós somos violentos. Violências de comunidades indígenas contra comunidades indígenas, violência de homens brancos contra comunidades indígenas, violência de religiões entre si, violências dentro da própria religião, violências entre grupos antagônicos sociais, violências ligadas à desigualdade aprofundada pelo capitalismo, violências dentro de sociedades socialistas e assim por diante. Quer dizer, a igualdade do socialismo, por exemplo, ou a desigualdade do capitalismo não gerou sociedades mais harmônicas ou mais felizes. Agora, a concepção da bondade tem a ver com a construção de uma ideia tanto religiosa quanto moral, como o pacto social, que é muito complicado. É muito complicado eu transformar as pessoas em mutuamente capazes de conviver. E tem dado errado na maior parte das vezes.

Você disse que a bondade tem a ver com a construção de uma ideia religiosa e moral. Assim sendo, estendo essa pergunta à generosidade e demais virtudes. São elas também um "produto" da religião?

A virtude foi estabelecida junto com as religiões,  mas não apenas por elas. Aristóteles definiu ética sem apelo aos deuses. Considerando as práticas religiosas na história, a pergunta correta seria se é possível ser religioso e virtuoso ao mesmo tempo. Mas, sem dúvida, a ideia de um código moral e um Deus que pune ou premia é uma ideia forte e tem funcionado como base de um mundo no qual sempre foi difícil regular as especificidades do indivíduo em relação a si e ao todo social.

Então, faço aqui a pergunta que você acha a mais correta: é possível ser religioso e virtuoso ao mesmo tempo?

É possível, porque a religião é um signo aberto. Sempre dou o exemplo em sala de aula, na Unicamp, que o movimento pela reforma agrária, o MST, nasceu em sacristias de igreja e na obra de Dom Tomás Balduíno, da Pastoral da Terra. O movimento da TFP [Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade], inimigo mortal da reforma agrária, nasceu também na sacristia de igrejas. É possível que a religião faça pessoas lutarem pela justiça social e é possível que a religião seja um poderoso elemento de justificação das injustiças sociais. Religião é um signo aberto. Algumas pessoas são equilibradas porque são religiosas e outras são desequilibradas porque são religiosas. A religião não é nada em si. E não tem nada a ver com caráter. A associação entre caráter e religião é um esforço dos religiosos. Há pessoas religiosas de excelente caráter e há pessoas religiosas que são completos filhos da puta em qualquer aspecto da expressão. Isto não produz algo. Agora, acho que a moral mais fácil de ensinar é a moral religiosa. Do ponto de vista behaviorista da psicologia comportamental, a religião é o elemento mais fácil de ser ensinado como moral, especialmente em um primeiro estágio. Agora, o mundo religioso é um mundo violento, e o mundo ateu é um mundo violento. 

É impossível destacarmos esse princípio violento do ser humano sem falarmos aqui dos recentes ataques em Paris perpetrados por extremistas ligados ao Estado Islâmico. Você enxerga qualquer possibilidade de alterarmos para melhor a configuração mundial de direitos e respeitos universais humanos sem um diálogo com tais extremistas?

Acho que há um grau de preconceito de radicalismo, que talvez seja comum a alguns fundamentalistas do Estado Islâmico, comum a alguns nazistas, comum a algumas personagens deste naipe, que não são possíveis para estabelecer um diálogo, porque todo o ser deles obtém toda a energia vital e toda a sua identidade do ódio. Não creio que sejam pessoas capacitadas para um diálogo. Não creio que um fundamentalista, líder do Estado Islâmico, ou um clássico nazista, ou qualquer outra personagem assim seja capacitada para um diálogo. Há um grupo, que talvez até pertença ao Estado Islâmico, que é mais aberto, talvez, ao diálogo. Mas o líder fundamentalista, este não existe sem o ódio, sem a morte, sem a violência. Ele não tem outra maneira de existir. Então, acredito na combinação de duas coisas: coerção contra os agressores, contra bárbaros que não aceitam a existência de outros, sejam esses quais forem, e consenso, que é dado pela educação, pelo estímulo ao debate, ao senso crítico, pela igualdade social maior, pelo fim da miséria e da fome e assim por diante. Mas acho, de novo, que deve ser a minoria que faz um barulho enorme; mas é a minoria. O indivíduo violento nas suas convicções é uma minoria. Existe uma grande massa que não é violenta nas suas convicções e esta, sim, pode ser trabalhada pela educação, pode ser trabalhada pelo debate, pode ser trabalhada por estímulos ao contraditório para poder conviver com a diferença de uma tolerância ativa, o que significa que eu rejeito a intolerância, mas rejeito também a tolerância passiva, aquela que diz: "não tenho nada contra X e Y, desde que não sentem ao meu lado". Isso é tolerância passiva. A tolerância ativa, que é o meu desejo e que é a minha utopia, é o dia que eu entender que a diferença não me enfraquece, mas me fortalece. E eu não ser o padrão do mundo, além de ser uma alegria para o mundo e uma felicidade, faz com que eu possa ver as questões sob pontos de vista distintos.

Para encerrar, Leandro, seja pela visão do historiador, seja de um indivíduo comum apenas, você acredita que teremos um mundo mais generoso?

Um dos axiomas, um dos princípios mais fundamentais da história, é que ela é feita por homens, ela não é feita por forças extra-humanas. Isso significa que tudo o que nós temos hoje pode ser transformado para melhor ou para pior. Mas, se nós lembrarmos que há 20 anos ninguém usava cinto de segurança, é que a junção de dois elementos, coerção e consenso, transformou por completo a relação do brasileiro com o cinto de segurança - multas mais educação no trânsito -; se nós lembrarmos que há 50 anos nenhum de nós pensava na questão da água e que hoje quase todas as crianças, nas escolas, têm uma consciência hídrica muito maior do que havia na minha infância, significa que as pessoas podem ser transformadas para melhor ou para pior. Então, estabeleço como princípio possível, afirmativa categórica, que sim: é possível transformar o mundo para um mundo melhor, menos injusto, menos preconceituoso, que se livre de todas as suas mazelas, como o racismo, a misoginia, a homofobia, a demofobia ou quaisquer outros problemas. Nós podemos lutar por um mundo melhor. Isso é possível e é exequível. Porém, se isso vai acontecer, vai depender de uma resposta muito relevante dada por mim, por você, por quem está lendo esta entrevista ou por quaisquer outras pessoas que possam agir a esse respeito. Mas não há forças externas aos homens. A sociedade do futuro será o que nós fizermos, e isto é possível melhorar.



(texto publicado na Revista da Cultura edição 101 - dezembro de 2015)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

$er ou não $er - Marcelo Marthe


Ao expor Shakespeare como um negociante frio, um estudo inglês ajuda a demolir um mito: os grandes artistas podem, sim, ter ambição pelo lucro

Na tragédia Coriolano, o inglês William Shakespeare narra a história de um general romano que atiça a revolta da plebe ao proibir a distribuição de cereais aos pobres. A medida cruel é estimulada por mercadores e nobres, com o objetivo de inflacionar o preço dos alimentos numa época de fome na Roma antiga. Eis a tradução livre de uma das falas incendiárias: "Sofreremos até ficar famintos, enquanto os celeiros deles estão cheios de grãos". Um novo estudo acadêmico expõe a ironia embutida aí: Shakespeare, quem diria, teve seu dia de Coriolano. Ao longo da vida, o dramaturgo amealhou uma bela fortuna - graças não apenas ao teatro. Com interesses em ramos comerciais diversos, ele foi o que se costuma chamar de argentário: um sujeito com faro e gana para ganhar dinheiro. Nem que isso significasse, por vezes, ir contra certos ditames morais da Inglaterra elisabetana. Proprietário de terras, Shakespeare fazia empréstimos a amigos cobrando juros de 10% ao ano - o que não constituía uma ilegalidade, mas então era reprovável do ponto de vista religioso. Consta que também foi processado por sonegação de impostos. Num lance mais chocante ainda, teria incorrido no mesmo pecado do personagem de sua peça: no momento em que a quebra da safra e incêndios desastrosos provocaram fome em Stratford-upon-Avon, sua região de origem, ele foi acusado de especular com estoques de malte. "Há registros de que sua família chegou a ser ameaçada por camponeses revoltosos", disse a VEJA um dos autores do estudo, o especialista em literatura Richard Marggraf Turley, da Universidade de Aberystwyth.

As manchetes dos jornais ingleses sugeriam que tais informações seriam novidades bombásticas. Não são. Os biógrafos já conheciam detalhes sobre a atuação do poeta como artista-empresário. A intenção dos autores vai além de recuperar o anedotário. "Buscamos uma reinterpretação da obra de Shakespeare à luz de sua experiência como homem de negócios", afirma Turley. Coriolano ganha uma conotação política (e econômica) mais aguda quando se confrontam as entrelinhas do texto com a realidade à volta do dramaturgo. O mesmo se dá com outra de suas peças célebres, Rei Lear. Mesmo num país em que os cidadãos são versados em suas obras desde criancinhas, porém, a simples lembrança de que ele foi um negociante duro na queda causou um auê. "Há quem nos acuse de manchar a imagem de um herói nacional", diz Turley. Reações assim são tolas, mas compreensíveis. O senso comum - em uma noção ingênua embalada por edulcorações românticas - diz que os grandes artistas são sempre criaturas idealistas e desapegadas de bens materiais. Pura bobagem, é evidente o sucesso ou fracasso comercial não determina a qualidade de um artista. A atração de Shakespeare pelo lucro é a melhor - mas não a única - prova disso.

Os maiores mártires da arte despossuída são, decerto, o escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) e o pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890). Poe era um bêbado de alma torturada que se virava em subempregos como crítico de literatura enquanto produzia, sem retorno monetário decente, sua sensacional obra gótica. Quanto a Van Gogh, sabe-se hoje ser um mito que ele tenha vendido um único quadro em vida. Irmão de um marchand, o pintor só conseguiu comercializar, por bagatelas, coisa de uma dúzia das cerca de 1300 telas que pintou - uma das quais, Retrato do Dr. Gachet, atingiu perto de 145 milhões de dólares, em valores corrigidos, num leilão em 1990. O fato de o artista insistir num estilo francamente anticomercial para sua época, com as cores berrantes e pinceladas sem sutileza, hoje é celebrado como um rasgo visionário. Para o próprio artista, porém, foi uma sina triste. A falta de fé no próprio taco - fatal para qualquer empreendedor - também desgraçou, no século XVII, o inglês John Milton: o poeta vendeu a um editor sua obra-prima, Paraíso Perdido, por módicas 10 libras.

Num batalhão intermediário figuram os artistas com ambição de enriquecer, mas ineptos na condução das finanças. O pintor holandês Rembrandt (1606-1669) e o romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850) sabiam impor o preço justo a seus trabalhos, mas davam um passo maior que a perna. Rembrandt investia com compulsão em arte e raridades, além de ter se endividado para comprar um casarão. Acabou quebrado: teve de vender tudo e mudar-se para uma residência modesta. Balzac torrava o que ganhava em luxos e investimentos furados. Mais triste, na categoria em questão, só o caso de Mozart. O compositor austríaco era um virtuose festejado nos salões vienenses do século XVIII. Nunca conseguiu impor, contudo, o devido valor a seu passe.

Mozart incorreu num erro que seu sucessor no panteão da música clássica - o alemão Ludwig van Beethoven, catorze anos mais jovem - não repetiria. Beethoven cuidava obsessivamente da compilação de suas partituras, produzindo variações de peças para diferentes instrumentos antes que algum aventureiro lucrasse em cima de seu suor sagrado. O compositor defendia seu dindim com tamanha eloquência que um biógrafo dise ser mais fácil arrancar um pernil da boca de uma hiena do que uma concessão dele. Foi precursor, assim, da transição para uma era em que a fronteira entre arte e comércio se nublaria. Tendência, aliás, que se consumou na figura do espanhol Pablo Picasso. Argentário sem medo de ser feliz, o pintor foi um craque em farejar os rumos das vanguardas no começo do século XX - criou o cubismo quando se ansiava por choque, fez Guernica quando se clamava por arte política. Na busca por um bom negócio, jogava seu charme viril para cima de colecionadores de ambos os sexos.

Shakespeare, ao que parece, não precisou de tanto. Na verdade, qualificá-lo de mercenário seria demais: e se o criador de Hamlet só desejasse, especula o novo estudo, fechar suas contas para se aposentar do teatro e se devotar apenas à atividade agrícola? "O desejo de mudar de área seria uma explicação fascinante para um mistério que sempre intrigou os estudiosos: a razão de ele ter parado de escrever na faixa dos 40 anos", diz Turley. O especialista arrisca um palpite: "Se vivesse hoje, ele talvez se dividiria entre a atividade de produtor de cinema e TV e o agronegócio". Alguns raros artistas, ao contrário de Shakespeare, puderam se dar ao luxo de nem se preocupar com detalhes como aposentadoria. Com dotes geniais que iam da pintura à engenharia, o renascentista italiano Leonardo da Vinci sempre teve o apoio de mecenas poderosos, ainda que possuísse defeitos capazes de minar a credibilidade de qualquer fornecedor de serviços: demorava anos para concluir uma obra e nem sempre entregava o que prometia. A excelência compensava o risco.

Risco é algo que os escritores nacionais aprenderam a driblar com jeitinho bem brasileiro. Para poetas americanos como T.S. Elliot (1888-1965) e Wallace Stevens (1879-1955), desdobrar-se entre a literatura e empregos mundanos suscitava questões existenciais. Eliot odiava trabalhar num banco. Contou até com a ajuda de vaquinhas dos amigos para se livrar do batente. Stevens não deixava, por nada, que as coisas se misturassem: para todos os efeitos, o esquisitão preferia ser reconhecido como executivo de uma companhia de seguros. Já seus pares das letras brasileiras nunca tiveram pudor em misturar tudo. Bom mesmo era um emprego no funcionalismo público no qual o autor tivesse tranquilidade para tocar a carreira paralela. O poeta Augusto dos Anjos (1884-1914) vagou por colocações em grupos escolares. Machado de Assis (1839-1908) foi um barnabé bem colocado, e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) exibia um orgulho cabotino por ter trabalhado em repartições ao longo de quase quarenta anos. Entre ter e não ter, melhor uma boquinha dessas do que um buraco na conta bancária.

Perdas e ganhos

Dos afortunados aos falidos, como os grandes artistas se viraram - ou se lascaram - nas finanças

Estes foram argentários

Ludwig van Beethoven (1770-1827)

O compositor alemão tinha fama de ser uma raposa nos negócios. Primeiro grande artista a se pautar por uma conduta profissional em seu ramo, foi pioneiro na cobrança de direitos autorais. Irascível, impunha preços altos aos contratantes - e aí de quem tentasse pechinchar.

Pablo Picasso (1881-1973)

Mestre da autopromoção, o pintor espanhol farejava os humores do mercado como nenhum outro vanguardista e se valia da mística pessoal - inclusive da imagem viril - para faturar. Milionário com apenas 33 anos, terminou a vida como o artista plástico mais rico da história.

Estes tentaram, em vão, enriquecer

Rembrandt van Rijn (1606-1669)

O pintor holandês sabia valorizar seu passe. Só a obra-prima Ronda Noturna lhe rendeu polpudos 1 600 florins, arrecadados numa vaquinha dos arcabuzeiros que aparecem no quadro. Mas, como administrava mal suas despesas, faliu e teve de se mudar para uma casa modesta.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

O compositor austríaco foi um caso de artista de talento que não reverteu a fama e o prestígio em remuneração digna. Desatento até em relação à publicação de suas obras, ele sempre lutou - em vão - contra os baixos cachês. A pindaíba era agravada pelo estilo de vida perdulário.

Estes foram uma negação nos negócios

Honoré de Balzac (1799-1850)

Apetite por dinheiro não faltava ao francês Balzac. No início da carreira, o autor de Ilusões Perdidas fez novelas baratas para sobreviver. Quando alcançou o sucesso financeiro, acabou dissipando-o em luxos e investimentos ruinosos, como a compra de madeira na Ucrânia para vender em seu país.

John MIlton (1608-1674)

O poeta inglês nasceu num berço remediado e foi um aluno-prodígio. Mas certas paixões - mulheres e os embates políticos - minaram seu patrimônio. Cego e empobrecido, ele ditou aos parentes os versos de sua obra-prima, Paraíso Perdido. Sem enxergar também o valor de seu trabalho, vendeu o poema a um editor por uma ninharia: 10 libras.

Edgar Allan Poe (1809-1849)

Filho adotivo de um mercador de tabaco, o americano Poe abriu mão da fortuna em prol da vida errática como escritor e crítico. Viciado em jogo e bebida, vagou por empregos de fome. Ao trocar os direitos de Histórias Extraordinárias - volume de contos que viraria um marco do terror - por meras 25 cópias do livro, tornou-se símbolo da luta pela valorização dos escritores.

Vincent van Gogh (1853-1890)

O pintor holandês foi o cúmulo de uma categoria fadada à danação financeira: a dos empreendedores que não botam fé em seu produto. Além de configurarem suicídio comercial, as pinceladas grossas de suas obras não satisfaziam nem a ele próprio. Do ponto de vista mercadológico, o balanço da carreira é desastroso: de 1 300 telas produzidas, vendeu em vida menos de uma dúzia.



(texto publicado na revista Veja edição nº 2318 - ano 46 - nº 17 - 24 de abril de 2013)
























domingo, 1 de setembro de 2013

A Itália de Shakespeare - Cristina Azevedo


Há diversas formas de viajar. O poeta inglês William Shakespeare (1564 - 1616) escolheu o mais original: o teatro. Apesar de nunca ter saído da Inglaterra, muitas de suas peças se passam em outros países, em especial nos estados que mais tarde formariam a Itália. Roma, Veneza, Verona, Florença, Milão e Pádua são alguns dos lugares que a sua imaginação visitou para escrever peças como Romeu e Julieta e Otelo. Como ele nunca esteve de fato nesses locais, algumas obras contêm erros, enquanto outras são tão verossímeis que é até possível encontrar o balcão de Julieta em Verona.

"Não eram erros de Shakespeare, mas erros da época", explica a jornalista e tradutora Bárbara Heliodora. "Havia pouca informação sobre a Itália, um país que despertava muita curiosidade, já que as novelle italianas eram traduzidas para o inglês. Por isso, Otelo, que era mouro, assumiu a aparência de negro, pois a maioria dos ingleses jamais vira um mouro", conta.

E assim a história do casal de Verona, da mulher geniosa de Pádua e do mouro de Veneza correram o mundo, mostrando não a Itália real, mas a Itália de Shakespeare.

Já na época em que O Mercador de Veneza e Otelo foram escritas, o Rialto era o coração da República Sereníssima de Veneza, onde comerciantes de todo o mundo chegavam para vender mercadorias ou a fim de obter notícias. Os antigos mercadores foram substituídos pelos lojistas e até por camelôs, e os navegantes cederam espaço aos turistas em busca dos tradicionais cristais de Murano (ilha a vinte minutos de viagem), joias, roupas e máscaras de carnaval.

É no Rialto que está a mais antiga ponte da cidade, construída em 1588, com uma vista impressionante: o Grande Canal - a avenida principal - com os traghetti (correspondem aos ônibus), os vaporetti (os táxis) e as gôndolas. Na beira estão prédios antigos, com o reboco minado pela umidade. Por trás deles, se acham as ruas estreitas. De repente, uma dessas ruas desemboca numa grande praça. É a Piazza San Marco, onde a basílica - construída entre 1063 e 1073 em estilo bizantino - domina todo o ambiente. No seu interior, tapetes protegem os mosaicos coloridos em mármore. No altar principal, diz-se estar enterrado São Marcos.

Ao lado fica o Palácio dos Doges, onde moravam os antigos governantes. A arquitetura mostra que a presença moura não se limitou à história de Otelo. Na lateral do palácio está a Ponte dos Suspiros, que o ligava às prisões. O nome não é uma referência aos apaixonados, e sim aos prisioneiros que por ali passavam para serem interrogados.

Há uma forma mais romântica de conhecer Veneza: de gôndola. Não é um passeio barato, mas os casais não abrem mão. Algumas carregam um cantor com acordeão, enquanto outros navegam em grupos, com os gondoleiros cantando. Os personagens de Shakespeare jamais as usaram, já que elas somente se tornaram populares um pouco depois.

Não muito distante de Veneza está Verona - a primeira cidade italiana a ser usada por Shakespeare em suas peças. Ela apareceu pela primeira vez em Os Dois Fidalgos de Verona, mas foi Romeu e Julieta que a transformou na cidade dos amantes infelizes. A história do casal se incorporou ao dia a dia da cidade. Hoje, não há quem não queira ver alguns dos locais mencionados, como o balcão de Julieta ou a capela onde os amantes de Verona se casaram.

Na tentativa de atender ao turismo sempre crescente que se formou em torno dos personagens, a cidade começou a relacionar lugares reais com os citados pelo autor inglês. Até mesmo um túmulo foi criado para abrigar os corpos do casal que se suicidou devido à intolerância das famílias Capuleto e Montecchio. Realidade e ficção se misturam a tal ponto que são enviadas cartas para Julieta. Em geral, vêm de apaixonados que sofrem com um amor não correspondido ou que, a exemplo da jovem Capuleto, enfrentam a resistência da família. O mais incrível é que todas são respondidas por um funcionário que conta com a ajuda de estudantes da Universidade de Verona.

No entanto, Verona não vive apenas da curiosidade que Shakespeare, involuntariamente, desencadeou. A cidade do nordeste da Itália conta com um anfiteatro romano que data do século I a. C., onde ainda hoje são realizados espetáculos. Verona tem ainda cinquenta igrejas, entre elas uma catedral gótica do século XV.

Além de Verona, a peça Os Dois Fidalgos... se passa também em Mântua e Milão. E é para o Ducato de Milano que Valentino, um dos protagonistas, viaja. Já naquela época, este era um dos principais centros do Velho Mundo. Sua catedral, que começou a ser construída em 1386, foi idealizada para ser a maior do planeta: levou quatro séculos para ser concluída e ainda hoje é um das três maiores da Europa. Atualmente, a capital da Lombardia é a segunda maior cidade da Itália e um sofisticado centro financeiro. É também a capital da moda, ditando tendências para o mundo inteiro.

As compras em Milão têm um charme especial. A Galeria Vittorio Emanuele - um dos maiores shoppings do país - parece um palácio, com teto de vidro e um belo mosaico no piso. Ela foi construída em 1878 pelo arquiteto Giuseppe Mengoni, que não viu a inauguração: caiu do teto de vidro dias antes.

Não é de se estranhar que Catarina, a mulher geniosa, tenha enfim encontrado quem a amasse. Afinal, a cidade onde vivia tem como padroeiro Santo Antonio, que segundo contam, morreu em Pádua.

Ofuscada pela vizinha, a cidade muitas vezes é incluída apressadamente nos roteiros turísticos apenas pela proximidade de Veneza. Uma situação injusta, porque vale a pena descobrir Pádua.

Ainda em A Megera Domada, o personagem Lucêncio diz: "Para Pádua vim de Pisa como alguém que deixasse uma lagoa não muito funda, para projetar-se no mar..." Isso reflete a fama da cidade por volta do século XVI. Pádua reuniu alguns dos mais importantes nomes de todos os tempos, que frequentavam o Café Pedrocchi, como Garibaldi e Stendhal.

Ao longo dos anos, a cidade foi não só perdendo suas áreas verdes, mas também tendo as suas ruas e prédios modificados. Entretanto, recentemente vem lutando para recuperar sua personalidade, e o esforço tem dado certo. Já se pode passear pelo centro histórico livre dos automóveis, e ver os tesouros, entre eles a Basílica de Santo Antonio, onde se destaca o crucifixo de Donatello, e a Cappella degli Scrovegni, com afrescos de Giotto.

A Roma antiga foi o cenário de duas tragédias de Shakespeare: Júlio César e Antônio e Cleópatra. A escolha não poderia ser melhor. A cidade pode ser considerada um museu aberto, devido às antigas construções e numerosas ruínas espalhadas por seus vários pontos.

Fundada por volta de 753 a. C. , a cidade tem como principais testemunhas de sua história o Foro Romano (que era o centro da cidade e que contém construções de diversas épocas), o Coliseu (70 d.C.) e o Arco de Constantino (315 d.C.).

Cleópatra não precisou enfrentar o trânsito romano (considerado um dos piores do mundo), mas também perdeu a chance de conhecer as inúmeras praças. A Piazza Navona é uma das mais encantadoras, concentrando um grande número de restaurantes além de atrair artesãos e artistas.

Num dia de sol, o endereço certo para os jovens é a Piazza di Spagna, onde aproveitam para tomar sol na escadaria da Igreja Trinità de' Monti. Ali ficam as ruas de comércio sofistiscado. Não muito distante está a Fontana di Trevi, também conhecida como a fonte dos desejos. Contam que quem jogar uma moeda ou beber da água (o que não é aconselhável) voltará a Roma.

Uma visita que vale a pena para fieis de todas as religiões é o Vaticano. Depois da restauração, a Capela Sistina revelou cores quentes e luminosas, capazes de deixar surpreso o mais incrédulo diante do gênio de Michelangelo.

A cidade considerada o berço do Renascimento não foi esquecida por Shakespeare. Localizada na Toscana, às margens do rio Arno, Florença foi construída por volta de 59 a.C. e ganhou importância durante a Idade Média. Nela viveram Michelangelo, Dante Alighieri e Leonardo da Vinci, por exemplo. E nela se destaca a catedral dedicada a Santa Maria Del Fiore, que começou a ser construída no século XIII, somente sendo concluída mais de cem anos depois. Misturando estilos, ela revela na parte externa uma profusão de detalhes, cores e formas geométricas em mármore - o que contrasta com a sóbria estrutura interna.

Para quem quer descobrir porque a cidade é chamada de o berço do Renascimento, o mais indicado é visitar a fantástica Galleria degli Uffizi, que reúne obras importantes como O Nascimento de Vênus, de Botticelli, e A Sagrada Família, de Michelangelo.

Para as compras, a direção é a Ponte Vecchio, onde pequenas lojas vendem os mais diversos artigos sofisticados.

A cidade de Florença mostra que a Itália verdadeira é bem mais bela do que aquela imaginada por Shakespeare séculos atrás.



(texto publicado na revista Geográfica Universal nº 235 - agosto 1994)



sábado, 21 de abril de 2012

Cartas para Julieta - filme dublado

Fiz uma postagem ontem a respeito da importância de Romeu e Julieta para a cidade de Verona.

Eis um filme muito romântico e solar que foi rodado nessa cidade: Cartas para Julieta.



Suvenires românticos de Verona - Anne Palmers

Romeu e Julieta são personagens míticos que atravessaram os tempos modernos impulsionados pelo talento de William Shakespeare. Mas, para Verona, a cidade italiana que cultiva uma esquiva participação na trama, eles são a razão da visita de um milhão de turistas por ano.

Muitos conhecem a tragédia romântica ambientada na Verona medieval, cujas linhas gerais são essas: Romeu, filho da família Montecchio, se apaixona por Julieta, filha dos inimigos Capuletos. Os jovens convencem um frei a casá-los em segredo. Os pais da moça descobrem os planos de fuga do casal e, desconhecendo que já eram esposos, obrigam a filha a casar com um parente do príncipe de Verona. Julieta evita a união fingindo-se de morta, com a ajuda de uma droga que a deixa sem pulsação. Romeu, desavisado, reencontra Julieta aparentemente sem vida e se suicida tomando um veneno. Julieta volta à consciência e vê seu amor morto. Desesperada, enfia no próprio peito o punhal que Romeu tinha consigo. Tragédia total.

A sacada da casa da família Capuleto é um dos elementos mágicos do drama. Nos palcos, funciona como uma moldura para o encontro dos apaixonados. Mas os atuais guias turísticos de Verona explicam, um tanto apreensivos, que o balcão visto na Via Cappello, no centro histórico da cidade, "não é real". Na verdade, há alguns anos um comerciante veronês teve a idéia de construir uma sacada em uma altura oportuna e pendurar no muro da casa uma placa dizendo Casa di Giulietta. Dentro da residência que teria pertencido à família Dal Cappello - que seria uma corruptela de Capuleto - , Julieta teria nascido, entre os séculos 13 e 14.


O balcão de Julieta

No pátio da casa encontra-se uma estátua de bronze da heroína, hoje convertida em objeto de peregrinação: tocar seu seio direito traz felicidade ao casamento, diz-se. As paredes da entrada abrigam milhares de mensagens e cartas de amor (coladas com chiclete). Para crédulos e céticos uma loja de suvenires oferece toalhas gêmeas, alianças, lençóis, xícaras, livros, CDs, camisetas, bótons e broches.

Indústria cultural

As receitas culturais têm sido benéficas para Verona, cidade que chegou aos tempos modernos com uma integridade admirável. A maioria das construções romanas continua em pé. O anfiteatro para 30 mil pessoas da Arena de Verona é um verdadeiro monumento.

Arena de Verona


No período entre as duas guerras mundiais, a Itália sofreu uma terrível decadência econômica com a grande depressão econômica mundial. Os jovens emigraram. Os que permaneceram precisavam de engenhosidade para sobreviver. Foi nesse contexto que o sucesso mundial do filme Romeo and Juliet, de George Cukor, em 1936, veio dar um formidável impulso para o abalado ethos da cidade.

Trailer do filme Romeo and Juliet dirigido por George Cukor em 1936


De frente para o pátio da Casa de Julieta está o Hotel II Sogno di Giulietta, instalado em um casarão do século 16, com reservas permanentemente esgotadas. "De noite, os portões do pátio são fechados, e os hóspedes têm o luxo de aproveitar esse que é o espaço mais romântico do mundo, tomando um champanhe debaixo da sacada, ao lado da estátua de Julieta", explica Sebastiano Leder, diretor de marketing. "Tenho orgulho de ser um dos criadores do conceito deste hotel único." Sua equipe organiza noivados, festas de casamento e jantares românticos.

Shakespeare projetou o drama do amor inviável no palco após ler o poema do inglês Arthur Brooke, A trágica história de Romeu e Julieta, publicado em 1562. Brooke ambientara a sua tragédia em Verona, baseando-se na versão adaptada em 1559, pelo francês Pierre Boaistuau, de uma tragédia similiar escrita pelo italiano Matteo Bandello, em 1554. Bandello, por sua vez, tomara como fonte o romance de 1530 de Luigi Da Porto, baseado na versão de Masuccio Salermitano, escrita em 1476 e ambientada em Siena - a suposta primeira versão do mito.

Como se vê, há varios Romeus e Julietas. Da Porto contribuiu para a versão moderna, transportando-a de Siena para Verona, inventando os nomes Montecchio e Capuleto e afirmando que a história era verídica. Mas há enredos semelhantes muito antes de todas essas releituras. O amor impossível já motivava audiências em Os contos efésios, de Xenofonte Efésio, ou na história de Píramo e Tisbe, nas Metamorfoses do poeta romano Ovídio, ambos nascidos antes de Cristo.

Cenas do filme Romeu e Julieta dirigido por Franco Zefirelli em 1968

Na era renascentista, os contos sobre amores desafortunados emocionavam o público. As tramas refletiam o sacrifício recorrente de jovens inocentes por convicções religiosas e disputas políticas, motivos que levaram os europeus a conflitos sangrentos. Para garantir direitos sociais e políticos, os nobres e os clãs negociavam a união dos filhos para conservar ou aumentar os privilégios e a honra da família. Um casamento era um tratado político entre dinastias e o amor, uma arma letal.


Romeu e Julieta na versão de 1996 com Leonardo Dicaprio

Shakespeare morreu com 52 anos. Sua produção mostra uma impressionante criatividade e conhecimento da sociedade e da política da sua época. Fez fama rapidamente, em poucas décadas. Escreveu 40 dramas sobre temas históricos e costumes sociais, entre os quais destacam-se Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo, Macbeth, Rei Lear e O Mercador de Veneza, que oferecem um perfil intenso e psicológico sobre a vida e suas paixões, o amor, o ódio, o poder e a difamação, os sonhos e os mitos.



(transcrição de trechos da reportagem publicada na revista Planeta)















sábado, 3 de março de 2012

Shakespeare in italiano


"Romeo e Giulietta" con Leonardo Decaprio


"Romeo e Giulietta" nella versione di Franco Zeffirelli


"La bisbetica domata" con Elizabeth Taylor e Richard Burton


"Molto rumore per nulla" con Emma Thompson e Kenneth Branagh






domingo, 16 de outubro de 2011

Uma versão divertida de "A megera domada"



 "Atomic Shakespeare", um episódio especial da série dos anos '80 "A gata e o rato" com Cybill Shepherd e Bruce Willis

domingo, 9 de outubro de 2011

Il balcone di Giulietta (Verona)


Questo è il balcone più famoso d'Italia e si trova, naturalmente, a Verona, la città in cui Shakespeare ambientò la tragedia Giulietta e Romeo. Da questo balcone, come racconta il poeta, Giulietta si affacciò per dichiarare il suo amore a Romeo.

Molti anni dopo, nel 1937, una ragazza innamorata scrisse una lettera a Giulietta. Molte altre persone seguirono questo esempio. Da qui, l'idea del concorso internazionale di lettere d'amore che si tiene ogni anno.