quinta-feira, 13 de novembro de 2014

$er ou não $er - Marcelo Marthe


Ao expor Shakespeare como um negociante frio, um estudo inglês ajuda a demolir um mito: os grandes artistas podem, sim, ter ambição pelo lucro

Na tragédia Coriolano, o inglês William Shakespeare narra a história de um general romano que atiça a revolta da plebe ao proibir a distribuição de cereais aos pobres. A medida cruel é estimulada por mercadores e nobres, com o objetivo de inflacionar o preço dos alimentos numa época de fome na Roma antiga. Eis a tradução livre de uma das falas incendiárias: "Sofreremos até ficar famintos, enquanto os celeiros deles estão cheios de grãos". Um novo estudo acadêmico expõe a ironia embutida aí: Shakespeare, quem diria, teve seu dia de Coriolano. Ao longo da vida, o dramaturgo amealhou uma bela fortuna - graças não apenas ao teatro. Com interesses em ramos comerciais diversos, ele foi o que se costuma chamar de argentário: um sujeito com faro e gana para ganhar dinheiro. Nem que isso significasse, por vezes, ir contra certos ditames morais da Inglaterra elisabetana. Proprietário de terras, Shakespeare fazia empréstimos a amigos cobrando juros de 10% ao ano - o que não constituía uma ilegalidade, mas então era reprovável do ponto de vista religioso. Consta que também foi processado por sonegação de impostos. Num lance mais chocante ainda, teria incorrido no mesmo pecado do personagem de sua peça: no momento em que a quebra da safra e incêndios desastrosos provocaram fome em Stratford-upon-Avon, sua região de origem, ele foi acusado de especular com estoques de malte. "Há registros de que sua família chegou a ser ameaçada por camponeses revoltosos", disse a VEJA um dos autores do estudo, o especialista em literatura Richard Marggraf Turley, da Universidade de Aberystwyth.

As manchetes dos jornais ingleses sugeriam que tais informações seriam novidades bombásticas. Não são. Os biógrafos já conheciam detalhes sobre a atuação do poeta como artista-empresário. A intenção dos autores vai além de recuperar o anedotário. "Buscamos uma reinterpretação da obra de Shakespeare à luz de sua experiência como homem de negócios", afirma Turley. Coriolano ganha uma conotação política (e econômica) mais aguda quando se confrontam as entrelinhas do texto com a realidade à volta do dramaturgo. O mesmo se dá com outra de suas peças célebres, Rei Lear. Mesmo num país em que os cidadãos são versados em suas obras desde criancinhas, porém, a simples lembrança de que ele foi um negociante duro na queda causou um auê. "Há quem nos acuse de manchar a imagem de um herói nacional", diz Turley. Reações assim são tolas, mas compreensíveis. O senso comum - em uma noção ingênua embalada por edulcorações românticas - diz que os grandes artistas são sempre criaturas idealistas e desapegadas de bens materiais. Pura bobagem, é evidente o sucesso ou fracasso comercial não determina a qualidade de um artista. A atração de Shakespeare pelo lucro é a melhor - mas não a única - prova disso.

Os maiores mártires da arte despossuída são, decerto, o escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) e o pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890). Poe era um bêbado de alma torturada que se virava em subempregos como crítico de literatura enquanto produzia, sem retorno monetário decente, sua sensacional obra gótica. Quanto a Van Gogh, sabe-se hoje ser um mito que ele tenha vendido um único quadro em vida. Irmão de um marchand, o pintor só conseguiu comercializar, por bagatelas, coisa de uma dúzia das cerca de 1300 telas que pintou - uma das quais, Retrato do Dr. Gachet, atingiu perto de 145 milhões de dólares, em valores corrigidos, num leilão em 1990. O fato de o artista insistir num estilo francamente anticomercial para sua época, com as cores berrantes e pinceladas sem sutileza, hoje é celebrado como um rasgo visionário. Para o próprio artista, porém, foi uma sina triste. A falta de fé no próprio taco - fatal para qualquer empreendedor - também desgraçou, no século XVII, o inglês John Milton: o poeta vendeu a um editor sua obra-prima, Paraíso Perdido, por módicas 10 libras.

Num batalhão intermediário figuram os artistas com ambição de enriquecer, mas ineptos na condução das finanças. O pintor holandês Rembrandt (1606-1669) e o romancista francês Honoré de Balzac (1799-1850) sabiam impor o preço justo a seus trabalhos, mas davam um passo maior que a perna. Rembrandt investia com compulsão em arte e raridades, além de ter se endividado para comprar um casarão. Acabou quebrado: teve de vender tudo e mudar-se para uma residência modesta. Balzac torrava o que ganhava em luxos e investimentos furados. Mais triste, na categoria em questão, só o caso de Mozart. O compositor austríaco era um virtuose festejado nos salões vienenses do século XVIII. Nunca conseguiu impor, contudo, o devido valor a seu passe.

Mozart incorreu num erro que seu sucessor no panteão da música clássica - o alemão Ludwig van Beethoven, catorze anos mais jovem - não repetiria. Beethoven cuidava obsessivamente da compilação de suas partituras, produzindo variações de peças para diferentes instrumentos antes que algum aventureiro lucrasse em cima de seu suor sagrado. O compositor defendia seu dindim com tamanha eloquência que um biógrafo dise ser mais fácil arrancar um pernil da boca de uma hiena do que uma concessão dele. Foi precursor, assim, da transição para uma era em que a fronteira entre arte e comércio se nublaria. Tendência, aliás, que se consumou na figura do espanhol Pablo Picasso. Argentário sem medo de ser feliz, o pintor foi um craque em farejar os rumos das vanguardas no começo do século XX - criou o cubismo quando se ansiava por choque, fez Guernica quando se clamava por arte política. Na busca por um bom negócio, jogava seu charme viril para cima de colecionadores de ambos os sexos.

Shakespeare, ao que parece, não precisou de tanto. Na verdade, qualificá-lo de mercenário seria demais: e se o criador de Hamlet só desejasse, especula o novo estudo, fechar suas contas para se aposentar do teatro e se devotar apenas à atividade agrícola? "O desejo de mudar de área seria uma explicação fascinante para um mistério que sempre intrigou os estudiosos: a razão de ele ter parado de escrever na faixa dos 40 anos", diz Turley. O especialista arrisca um palpite: "Se vivesse hoje, ele talvez se dividiria entre a atividade de produtor de cinema e TV e o agronegócio". Alguns raros artistas, ao contrário de Shakespeare, puderam se dar ao luxo de nem se preocupar com detalhes como aposentadoria. Com dotes geniais que iam da pintura à engenharia, o renascentista italiano Leonardo da Vinci sempre teve o apoio de mecenas poderosos, ainda que possuísse defeitos capazes de minar a credibilidade de qualquer fornecedor de serviços: demorava anos para concluir uma obra e nem sempre entregava o que prometia. A excelência compensava o risco.

Risco é algo que os escritores nacionais aprenderam a driblar com jeitinho bem brasileiro. Para poetas americanos como T.S. Elliot (1888-1965) e Wallace Stevens (1879-1955), desdobrar-se entre a literatura e empregos mundanos suscitava questões existenciais. Eliot odiava trabalhar num banco. Contou até com a ajuda de vaquinhas dos amigos para se livrar do batente. Stevens não deixava, por nada, que as coisas se misturassem: para todos os efeitos, o esquisitão preferia ser reconhecido como executivo de uma companhia de seguros. Já seus pares das letras brasileiras nunca tiveram pudor em misturar tudo. Bom mesmo era um emprego no funcionalismo público no qual o autor tivesse tranquilidade para tocar a carreira paralela. O poeta Augusto dos Anjos (1884-1914) vagou por colocações em grupos escolares. Machado de Assis (1839-1908) foi um barnabé bem colocado, e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) exibia um orgulho cabotino por ter trabalhado em repartições ao longo de quase quarenta anos. Entre ter e não ter, melhor uma boquinha dessas do que um buraco na conta bancária.

Perdas e ganhos

Dos afortunados aos falidos, como os grandes artistas se viraram - ou se lascaram - nas finanças

Estes foram argentários

Ludwig van Beethoven (1770-1827)

O compositor alemão tinha fama de ser uma raposa nos negócios. Primeiro grande artista a se pautar por uma conduta profissional em seu ramo, foi pioneiro na cobrança de direitos autorais. Irascível, impunha preços altos aos contratantes - e aí de quem tentasse pechinchar.

Pablo Picasso (1881-1973)

Mestre da autopromoção, o pintor espanhol farejava os humores do mercado como nenhum outro vanguardista e se valia da mística pessoal - inclusive da imagem viril - para faturar. Milionário com apenas 33 anos, terminou a vida como o artista plástico mais rico da história.

Estes tentaram, em vão, enriquecer

Rembrandt van Rijn (1606-1669)

O pintor holandês sabia valorizar seu passe. Só a obra-prima Ronda Noturna lhe rendeu polpudos 1 600 florins, arrecadados numa vaquinha dos arcabuzeiros que aparecem no quadro. Mas, como administrava mal suas despesas, faliu e teve de se mudar para uma casa modesta.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

O compositor austríaco foi um caso de artista de talento que não reverteu a fama e o prestígio em remuneração digna. Desatento até em relação à publicação de suas obras, ele sempre lutou - em vão - contra os baixos cachês. A pindaíba era agravada pelo estilo de vida perdulário.

Estes foram uma negação nos negócios

Honoré de Balzac (1799-1850)

Apetite por dinheiro não faltava ao francês Balzac. No início da carreira, o autor de Ilusões Perdidas fez novelas baratas para sobreviver. Quando alcançou o sucesso financeiro, acabou dissipando-o em luxos e investimentos ruinosos, como a compra de madeira na Ucrânia para vender em seu país.

John MIlton (1608-1674)

O poeta inglês nasceu num berço remediado e foi um aluno-prodígio. Mas certas paixões - mulheres e os embates políticos - minaram seu patrimônio. Cego e empobrecido, ele ditou aos parentes os versos de sua obra-prima, Paraíso Perdido. Sem enxergar também o valor de seu trabalho, vendeu o poema a um editor por uma ninharia: 10 libras.

Edgar Allan Poe (1809-1849)

Filho adotivo de um mercador de tabaco, o americano Poe abriu mão da fortuna em prol da vida errática como escritor e crítico. Viciado em jogo e bebida, vagou por empregos de fome. Ao trocar os direitos de Histórias Extraordinárias - volume de contos que viraria um marco do terror - por meras 25 cópias do livro, tornou-se símbolo da luta pela valorização dos escritores.

Vincent van Gogh (1853-1890)

O pintor holandês foi o cúmulo de uma categoria fadada à danação financeira: a dos empreendedores que não botam fé em seu produto. Além de configurarem suicídio comercial, as pinceladas grossas de suas obras não satisfaziam nem a ele próprio. Do ponto de vista mercadológico, o balanço da carreira é desastroso: de 1 300 telas produzidas, vendeu em vida menos de uma dúzia.



(texto publicado na revista Veja edição nº 2318 - ano 46 - nº 17 - 24 de abril de 2013)
























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