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sexta-feira, 10 de março de 2017

Cinco coisas que você precisa saber antes de ir morar fora do Brasil - Marjorie Rodrigues (Pragmatismo)


Jornalista que vive há dois anos na Holanda aponta cinco situações que precisam ser consideradas e/ou desmistificadas antes de ir morar no exterior

Outro dia compartilhei um texto no Facebook no qual um cara afirmava que “nunca antes na história deste país” houve tanta gente ingênua dizendo que quer se mandar para o exterior. Se isso procede, não sei - e houve uma boa discussão na minha timeline sobre a questão, com muitos dizendo que o cara provavelmente não viveu a ditadura e a inflação desgovernada. Mas fato é que há mesmo muita gente que fantasia sobre a vida de imigrante.

Estou há quase dois anos e meio na Holanda. Antes disso, morei um ano e meio na Hungria. Primeiro como estudante de mestrado, depois trabalhando. Então tenho um tiquinho de experiência para falar sobre imigração, né?

Não acho que ter o desejo de morar fora seja necessariamente um reflexo do complexo de vira-lata, como sugeriu o moço do texto que compartilhei. Tem gente que simplesmente tem fome de alhures. Que não se identifica com um só pedaço de chão, que quer mais é ver e sentir o que há por esse mundo. Foi o meu caso.

Defendo a todo mundo que queira e possa morar fora que o faça, nem que seja por alguns meses. O contato mais prolongado com outras culturas e modos de vida é uma excelente forma de aprendizado. Infelizmente, este é um aprendizado que não obtemos apenas fazendo turismo. É preciso tempo. É preciso não estar apenas passeando. Viver o dia a dia, alugar apartamento, pagar contas, fazer supermercado, ir ao médico, construir uma rede de amigos, lidar com colegas de trabalho. Só assim é que vamos lentamente desvendando as miudezas que fazem de um americano um americano, um chinês um chinês e um espanhol um espanhol. Mas, em outro país, desvendamos sobretudo a nós mesmos. Quando as pessoas ao nosso redor não são exatamente como nós, acabamos por refletir sobre o que faz a gente ser como é.

Recomendo a imigração porque esta é uma experiência maravilhosa e, ao mesmo tempo, dolorida. Portanto, se você tem o sonho de morar fora porque acha que sua vida vai ser muito mais fácil em um país de primeiro mundo onde o ônibus vem na hora certa e as pessoas não têm cerca elétrica em casa, reveja seus conceitos. Pegar o ônibus será mais fácil, mas em compensação haverá uma série de novas buchas. O grande barato da imigração é justamente não ser fácil. É como um quebra-cabeça com três mil peças. É aterrorizante, desafiador, chato, divertido, frustrante, cansativo. Tudo ao mesmo tempo.

Antes de considerar partir, eis cinco coisas que você deve saber/desmistificar. Depois não diga que não avisei!

1. País rico não é sinônimo de gente rica

Tem gente que acredita que os habitantes dos Estados Unidos e Europa nadam em dinheiro. Toda uma população de Narcisas Tamborideguy. Quando digo onde moro, há quem reaja dizendo: “que chique!”. Como assim chique? Já imagino as vacas holandesas com sinos de cristais Svarovski no pescoço e os pastos sendo adubados por Veuve Clicquot. É apenas um lugar, gente. Onde as pessoas estão nascendo, crescendo, se reproduzindo e morrendo. Ralando. Igualzinho à gente. Todo mundo faz cocô.

Muitos já escreveram sobre isso melhor do que eu, mas não custa repetir: se você faz parte da classe média no Brasil, muito provavelmente tem bem mais mordomias do que uma pessoa de classe média na Europa. Afinal, como a disparidade de renda não é absurdamente alta como no Brasil, não existe uma série de serviços a custo de banana, prestados p0r pessoas que tiveram pouco ou nenhum acesso à educação. Não tem empregada para lavar sua privada, cozinhar e passar sua roupa, tudo incluído no mesmo pacote. Não tem quem empacote sua compra no supermercado e depois leve até seu porta-malas. Não tem manicure para fazer suas unhas toda semana. Não tem quem monte seus móveis quando você se muda. Não tem porteiro, não tem elevador de serviço. E por aí vai. Pelo menos não sem que isso cause um rombo no seu orçamento. As pessoas se viram sozinhas, afinal de contas a mão delas não vai cair se empacotarem as próprias compras.

(E, como disse o Ducs, existe uma relação direta entre ter que limpar a própria privada e poder sair com seu MacBook na rua, sem medo. A violência no Brasil nunca vai melhorar enquanto a renda e as oportunidades não forem melhor distribuídas. Mas parabéns para vocês que acham que basta diminuir a maioridade penal e descer o cacete na favela. Viver entrincheirado em carros blindados e condomínios fechados é o preço que você paga pela privada que não lava)

País rico/desenvolvido significa país onde toda ou a grande maioria da população tem acesso a condições dignas de sobrevivência. Um teto sobre sua cabeça, comida, roupas. Não é democracia de carro Mercedes e bolsa Chanel. A maioria dos europeus está vivendo de uma maneira bem mais simples que você. Fazendo festas infinitamente menores para seus filhos. Comprando muito menos pares de sapato. Não têm chão de porcelanato e não estão nem aí para o formato da cuba do banheiro. Afinal, só precisa ostentar quem precisa se diferenciar a todo custo dos pobres para ser bem tratado. Viver bem é uma coisa, luxo é outra.

Se você curte uma vida de luxos, mordomias e tratamento de dotô, nascer classe média em um país tão desigual é o melhor que poderia ter te acontecido. Afinal, por aqui até o ministro vai trabalhar de bicicleta e metrô.

2. Nem tudo funciona perfeitamente sempre

Vivo reclamando do sistema de saúde holandês, focado quase que exclusivamente em cura. Eles não têm uma mentalidade voltada para a prevenção. Este é o país europeu onde mais se morre de câncer, por exemplo, porque as pessoas o descobrem tarde demais. Sempre acham que não carece ir ao médico por algo “pequeno”. Quando vão, mesmo o médico pode achar que a reclamação é muito “pequena” e não a investigam. Faça um dramalhão mexicano ou voltará para casa apenas com um paracetamol. Conseguir autorização para fazer um reles exame de sangue me dá o mesmo sentimento de passar uma fase difícil num vídeo game. Um dia desabafei sobre isso no Facebook e recebi o seguinte comentário: “nossa, mas eu achava que aí era perfeito!”.

Mas como poderia ser perfeito? Sistemas e instituições são geridos por pessoas. Logo, são suscetíveis a falhas. Aqui também coisas atrasam ou são feitas nas coxas. Humanos. O país pode ter mais recursos e, por isso, as coisas tenderem a ser mais bem geridas. Mas depende da coisa em questão. Diversas variáveis além de dinheiro podem influenciar a qualidade dos serviços — como neste exemplo, em que a praticidade holandesa acaba gerando uma mentalidade “deixa de frescura” que impacta o sistema de saúde. Perfeição não existe.

3. Saudade será o menor dos seus problemas

Se medo de sentir muita saudade é o que te prende ao Brasil, não tema. É claro que isso depende de quão apegado você é às pessoas. Mas, se já considera a possibilidade de ir morar em um país distante, assumo que você já seja mais desprendido (caso contrário, por que causaria tamanho sofrimento a si mesmo?).

A grande verdade é que você vai se acostumar com a ausência física de familiares e amigos. O que não significa que eles ficarão de fora da sua vida. Skype quebra demais o galho – e, acredite, sua relação com seus pais ficará até mais próxima. Converso muito mais com minha mãe hoje, em nossos encontros no Skype, do que quando morávamos juntas.

Você vai aprender que amizades são circunstanciais. A maioria delas só perdura enquanto vocês partilham um determinado espaço ou situação. Tanto é que perdemos contato com a maioria dos amigos de escola, faculdade, antigos empregos. Poucas são as pessoas que ficam depois de muitas temporadas. Você vai fazer novos amigos em seu novo país e, mais consciente de que as pessoas vêm e vão, vai se tornar menos apegado. Vai aprender a ficar sozinho, se ainda não sabe.

A maioria dos amigos que vai fazer serão outros imigrantes. Normal, afinal é a circunstância que vos une. Boi preto reconhece boi preto. Como não haverá família por perto para ajudar na hora do aperto, essas amizades podem se tornar bem intensas. Mas expatriados estão sempre indo embora. Seja porque o mestrado acabou, porque surgiu uma oportunidade de emprego melhor em outro canto ou simplesmente porque deu na telha. Aí, se for se apegar a todo mundo, ai de você. Brinco que a vida de imigrante é uma cópia mais acelerada da vida comum. Todo mundo vai embora, eventualmente. Conosco, o ciclo só acontece mais rápido.

Saudade de coisas e comidas também é facílimo de lidar. A comida do Brasil é ótima? É, mas os outros povos também têm suas gostosuras. Ninguém morre sem mandioca e a gente acaba se acostumando com os novos hábitos alimentares. Dependendo de onde você for morar, sempre haverá a lojinha de produtos brasileiros para quebrar um galho.

Resumindo: a saudade só vai te matar se você não estiver aberto às novas experiências. Mas, se for este o caso, sair do Brasil pra quê mesmo?

4. Ser diferente o tempo todo será o maior problema

Vamos supor que você fale inglês fluente, aprendeu desde pequeno, e vá para um país onde este seja o idioma oficial. Tire o cavalinho da chuva que você não vai se passar por um local. Não por muito tempo. Pode ter o melhor sotaque do mundo, em algum momento algo vai te denunciar. Alguém vai se referir a uma musiquinha infantil que você não cantou. Ou a uma celebridade da qual nunca ouviu falar. Uma gíria que você não conhece. Você pode ter o domínio da língua, mas não domina todas as referências. Simplesmente porque não nasceu ali.

Se você for louco como eu e for para um país cuja língua você não fala, pior ainda. Na Hungria, eu vivia numa bolha de estudantes estrangeiros, já que não planejava ficar lá por muito tempo e, como escreveu Chico Buarque, o húngaro é a única língua que o diabo respeita. Toda vez que saía da bolha e precisava resolver um pepino com um atendente que mal falava inglês, me sentia uma pateta.

Depois, tive que aprender holandês do zero, enquanto todo o resto do mundo falava holandês à minha volta. Ok, aqui todo mundo tem um bom nível de inglês, então jamais fiquei incomunicável (pré-condição para que eu cogitasse ficar aqui no longo prazo). Mas não é essa a língua das ruas. Não é essa a língua da televisão, dos jornais. Se quisesse participar da sociedade, tinha que aprender holandês. Porém, mesmo que você seja o melhor aluno do mundo, não se domina um idioma da noite para o dia. Será um longo processo, durante o qual você se sentirá um pateta incontáveis vezes. Hoje, tenho um bom nível do idioma. Entendo uns 80% do que falam e consigo me expressar razoavelmente, contanto que não seja um assunto demasiado complexo. Sou capaz de resolver pepino no banco e declarar o imposto de renda. Mas não sem cometer alguns erros gramaticais. Ou falar frases gramaticalmente corretas, mas que soam um pouco estranhas. E é sempre um pequeno parto. Ainda não me sinto 100% à vontade com a língua.

Não conseguir se expressar a contento é das coisas mais frustrantes que já senti. Querer dizer algo mas não saber a palavra. Ter a palavra desejada vindo em 479 línguas na sua cabeça, menos na que você precisa. Ter que fazer sua frase dar mil voltas para expressar algo que seria simples – e no fim não ter muita certeza se o outro entendeu o que você queria dizer. Saber responder ao que lhe perguntaram, mas demorar mais que um segundo para as palavras saírem da sua boca e aí a pessoa trocar para o inglês julgando que você não sabe nada. Tudo isso me acontece diariamente e sem dúvida afeta as minhas relações. Não sou um deles. Mesmo quando me tornar fluente, jamais serei.

A diferença não está apenas estampada na forma como falo, mas no meu rosto (apesar da Holanda ser um dos países mais multiculturais da Europa, a maioria continua sendo alta, loira dos olhos azuis). Está na cara – literalmente – que não sou daqui. Está também evidente na forma como penso, sinto e reajo a diversas coisinhas, desde o jeito como lavo a louça (holandeses enchem a pia inteira de água e lavam seus pratos ali dentro) até a forma como falo com meu chefe (ele me deu uma nota negativa em minha avaliação anual, dizendo que eu deveria ser mais assertiva ao… Criticá-lo!).

Embora desvendar esse novo mundo e seus códigos seja interessante e divertido – foi para montar esse quebra-cabeça que vim, afinal – , tem hora que cansa. Tem hora que você só gostaria de estar num lugar onde todo mundo te entendesse e você entendesse todo mundo. Não precisar fazer esforço algum. É disso que você sentirá mais saudade.

Houve uma época em que sofri um bullying danado na escola. Mas, por pior que fosse, não ficava na escola o dia inteiro. Havia outros lugares onde eu não me sentia a única diferente. Hoje, não tem folga. Sou a diferente o tempo todo.

5. Você vai sofrer preconceito

Se você é uma pessoa branca, heterossexual, de classe média e com curso superior como eu, não está acostumado a sofrer preconceito. Ok, sou mulher e existe o machismo – mas, tirando isso, no Brasil as demais portas estão abertas para mim. As pessoas me tratam bem automaticamente. Nem preciso dizer que não é sempre o caso quando se é imigrante, certo? Para começar, aqui eu não sou considerada branca. E, muito provavelmente, você também não será.

Não há um só dia em que eu não abra o jornal e não veja pelo menos uma coluna dizendo que o país já está “cheio”, que é preciso apertar ainda mais as leis de imigração, que são os imigrantes a aumentar os níveis de criminalidade. Apesar dos privilégios acima mencionados também me quebrarem um bom galho aqui (definitivamente, é melhor ser um imigrante altamente qualificado do que o contrário), há pessoas que não vão hesitar em demonstrar que não sou exatamente bem-vinda por eles. É preciso criar uma casca grossa para lidar com isso.

Alguns holandeses parecem querer que os imigrantes se livrem de todo e qualquer traço cultural de seu lugar de origem, comportando-se como ventríloquos ou tietes da cultura holandesa. Temos que puxar o saco deles para demonstrar agradecimento por estar neste pedaço de chão. Mas, como disse acima, jamais seremos um deles. O máximo que conseguiremos é ser uma cópia mal feita. E eles, mais do que ninguém, sabem disso. Xenófobos jamais admitirão que os forasteiros sejam iguais. Mas eles querem que a gente tente mesmo assim. Felizmente, o bullying da época da escola me mostrou que isso não compensa. Viver querendo agradar “a turminha popular”, viver para ganhar uma estrelinha de aprovação na testa, não é vida.

Então é preciso diariamente empinar o nariz e jogar um beijinho no ombro – o que nem sempre é fácil. Tem hora que o azedume dos outros acaba te afetando. Vira e mexe tenho de repetir a mim mesma que estou aprendendo holandês porque EU quero, porque me interessa, porque enriquece a minha experiência por aqui, porque me conecta melhor com meu namorado e sua família. E não porque uma pessoa aleatória na rua foi grossa comigo ao perceber que eu não dominava o idioma. O país não é propriedade dela, não devo satisfações a ela, não é a ela que eu devo ser agradecida. Se eu não faço questão de agradar todos os brasileiros, por que me imporia a obrigação de agradar todos os holandeses? Não gostou, pega eu.

Basicamente, você troca um país onde tem problemas por um país onde você é o problema. Esta queda, esta perda de privilégios te faz criar consciência sobre as pessoas que nem precisam sair de seu país para serem tratadas assim. Lembra na época das eleições, quando circulou o tweet de uma pessoa dizendo: “malditos nordestinos que elegeram a Dilma, vou me mudar pra França“? A primeira coisa que pensei foi: “vá mesmo! Aí você vai ser tratado pelos franceses da mesma forma como trata os nordestinos“.

Lidar com eventuais babacas é, no entanto, a parte mais fácil. A pior faceta do preconceito é a burocracia. Se você não tem cidadania europeia, prepare-se para ser inundado por ela, afinal os babacas elegem políticos que lutam para deixar as leis de imigração cada vez mais Kafkianas. Tem um post enorme em meu blog sobre como consegui meu primeiro visto de trabalho. Engraçado ver como estava aliviada quando o escrevi, como se meus problemas tivessem acabado. Mal sabia eu que, no ano seguinte, enfrentaria mais burocracia para renovar o visto. Todo ano tem novas regrinhas, todo ano tem mais encheção de saco. Você tem que ficar o tempo todo se justificando e suplicando para continuar dentro de uma linha imaginária que traçaram sobre um pedaço de terra.

Você está preparado para passar por tudo isso? Bom, na verdade, ninguém está. É daquelas coisas que a gente só aprende fazendo, dançando conforme a música. Tem que se jogar. Mas é preciso que você se jogue de forma realista. Se você sonha em sair do Brasil para fugir de problemas, pense novamente. Mas, se você gosta de um bom quebra-cabeças, divirta-se. Vale a pena. Eu faria tudo de novo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Basta: a culpa nunca é da vítima - Tayonara Géa


O estupro é crime independente da roupa ou do comportamento da mulher

Dados de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública causam arrepios, calafrios, repúdio, revolta - entre outros adjetivos que possam demonstrar o descalabro de uma sociedade que ainda defende o machismo - diante da quantidade de brasileiros que julga e condena a mulher pelo estupro que sofreu - uma em cada três pessoas, ou seja, 30%.

Diante desse dado lamentável, questiona-se como um ser humano consegue apontar o dedo para uma vítima que acabou de ser violentada - em muitos casos por pessoa conhecidas, seja um familiar, colega de trabalho e até mesmo pelo namorado ou marido?

É preciso dar um basta a essa cultura do machismo. Já passou da hora. A mulher tem o direito de vestir a roupa que desejar, de frequentar os lugares que quiser, de se comportar da maneira que lhe achar conveniente e, acima de tudo, de ser respeitada. Ou até quando veremos as estatísticas desse tipo de crime aumentar no país?

Leia e entenda

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública explicita que a violência contra a mulher, definida pela ONU (Organização das Nações Unidas), é qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em dano físico, sexual, psicológico ou sofrimento para as mulheres.

E o estupro é sim um ato de violência, humilhação e controle sobre o corpo da mulher que se expressa pelos meios sexuais. As consequências desse ato estúpido são depressão, ansiedade, fobias, uso de drogas ilícitas, entre outros.

Não cultue o machismo

Ao citar que o comportamento da mulher ou a roupa que ela veste pode ser o motivo para ocorrer o estupro, a pessoa está, simplesmente, cultuando o machismo.

Para a pesquisadora do Fórum, Roberta Astolfi, "muitas pessoas são contra o machismo, contra o estupro, mas a partir do momento que julgam as mulheres pela vestimenta ou comportamento, estão inseridas nessa cultura de que o corpo da mulher e a sua vida podem ser controladas por outras pessoas. É preciso que ocorra a mudança desse paradigma".

Elas contra elas?

Cerca de 85% do sexo feminino tem medo de ser vítima de agressão. Um dado contraditório quando se observa que 32% das mulheres concorda que "aquelas que se dão ao respeito não são estupradas" e 30% afirma que "a mulher que usa roupas provocativas não podem reclamar se for estuprada".

Para Roberta Astolfi, a porcentagem das mulheres que concordam ser a mulher culpada pela violência que sofre, é muito chocante. "Trata-se de uma questão cultural que permeia toda a sociedade. As pessoas não percebem que por meio dessa cultura subjacente, elas podem ser as próximas vítimas. As mulheres dizem que têm medo, mas culpam aquelas que já foram vítimas e isso ocorre porque é muito mais fácil distorcer a ação do outro", diz.

A favor delas

Uma vítima de estupro precisa de atenção e acolhimento. Mas pelo que relata a pesquisa não é isso que recebem. Primeiro pela culpa que recebe da sociedade e depois por se tornar novamente vítima do descaso da polícia, quando se apresenta para fazer o registro da violência - 50% das pessoas não acredita que a polícia militar esteja bem preparada para atender mulheres vítimas de violência sexual.

"Em 2014 foram mais de 47 mil denúncias de estupro no Brasil. Isso mostra que a mulher quer contar com a ajuda da polícia nesse momento. É por isso que deve haver uma mudança nessa instituição para melhor atender essa vítima", comenta Roberta.

O que mudar?

Abolir a cultura do machismo é apenas um passo para diminuir o número de estupros no Brasil. Mas outras maneiras devem ser adotadas, segundo Roberta Astolfi. "Recentemente tivemos a opção de incluir a questão de gêneros no currículo das escolas, mas em muitas cidades foi barrado. Se você perguntar se essas pessoas são contra o estupro, elas dirão que sim. Porém, elas não estão dispostas a mexer nessas questões culturais. É preciso trabalhar esse assunto nas unidades de ensino. Existe uma vontade de mudança, mas se não mudar a cultura e o aprendizado de fundo, não vai adiantar muito", explica a pesquisadora.




(texto publicado na revista Folha do Ônibus nº 742 - ano XXI - 23 a 29 de setembro de 2016)

As bruxas do 21


A intolerância é a mãe de todas as outras violências. O que causa um estupro ou um assédio sexual de qualquer natureza? A intolerância - algumas vezes até velada - de alguns homens em relação às suas vítimas.

O machismo que existe em todo o mundo, não só no Brasil, é fruto da intolerância, sim. Essa intolerância que faz com que os homens - e também muitas mulheres - acreditem que elas são inferiores e que merecem ser subjugadas a qualquer preço.

Sejam as proibições de uma religião, sejam os "manuais de conduta da mulher recatada", sejam os comentários numa festa ou mesmo na rua.

A mulher sofre.

E não interessa que o mundo está em pleno século 21. Em alguns momentos, é como se ainda vivêssemos na Idade Média, quando as mulheres que ousavam sair um pouco da curva eram queimadas como bruxas.

Hoje, as "bruxas" não têm direito de reclamar ao serem estupradas, se não estiverem usando a roupa "adequada". Pelo menos é o que pensam 30% dos entrevistados de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Detalhe: fatiando os pesquisados entre gênero, descobre-se que 30% das mulheres também consideram que não pode reclamar do estupro a mulher que não se veste adequadamente.

As próprias mulheres não toleram as diferenças entre si. Existe um padrão que precisa ser o limitador de todas as moças "direitas", "boas para casar". Se a colega sai pela borda, começa o julgamento. "Perdida", "piriguete", entre tantos outros adjetivos são usados para classificar essas "erradas".

O julgamento é um costume tão forte, que é bom lembrar aqui de uma moça que foi apedrejada há mais de 2 mil anos. Uma "tal" de Maria Madalena. Eis que Jesus Cristo deu um sermão no povo, e disse que não devemos julgar. Porque é preciso tolerar.

Desde aquele tempo, o que a humanidade aprendeu?

Mudaram as pedras, mas elas continuam na mão de quem acha que uma mulher não pode reclamar se for estuprada - só pela roupa que ela estava usando na ocasião.

Todos os seres humanos merecem respeito. Absolutamente todos. Em qualquer situação. Nunca se justifica uma agressão. Nenhuma agressão.

Se você pensa serem elásticas essas definições, você precisa rever seus conceitos. Prestar atenção nas suas crenças mais íntimas e ver onde brota a sua indiferença. Esse é o primeiro passo para efetuar a mudança que você precisa fazer.

Porque em algum momento você vai ter de escolher se vai semear e espalhar o respeito ou o contrário. Depende só de você.




(texto publicado na Folha do Ônibus nº 742 - ano XXI - 23 a 29 de setembro de 2016)

terça-feira, 1 de março de 2016

Le parole delle donne - Cecilia Robustelli


Usare la declinazione al femminile per riconoscere pienamente alle donne il loro ruolo nella società e nel lavoro

La nostra cara lingua italiana conosce alcuni usi poco rispettosi nei confronti delle donne: per esempio certe espressioni un po' vecchiotte ma che risuonano spesso ancora oggi, specialmente in bocca maschile, come donna al volante, pericolo vagante e chi dice donna dice danno, ma anche il toscanissimo invito a non fare la dottora.

Attenzione, non si tratta di modi di dire innocenti, anche se vengono di solito pronunciati con un sorriso, ma di veri e propri "stereotipi", ciòe espressioni fisse, generalizzate, riflesso di luoghi comuni, che sviliscono la figura femminile perché ne danno un'immagine negativa e subalterna rispetto all'uomo. E poi (anzi, soprattutto!) l'uso del genere grammaticale maschile invece che femminile per i termini che indicano ruoli istituzionali o titoli professionali prestigiosi riferiti a donne. Alle forme femminili architetta, chirurga, direttrice, ingegnera, ispettrice, notaia, procuratirce, rettrice e assessora, cancelliera, consigliera, deputata, funzionaria, ministra, sindaca che sono grammaticalmente corrette e, se relative a ruoli istituzionali, hanno pieno valore giuridico, si preferiscono quelle maschili.

Così sebenne nessuno si azzardi a definire Federica Pellegrini o Antonella Clerici nuotatore o conduttore ma scelga, correttamente, nuotatrice e conduttrice, si continua a preferire il ministro Maria Elena Boschi o il direttore del Cern Fabiola Gianotti e la ministra Maria Elena Boschi e la direttrice del Cern Fabiola Gianotti.

Evidentemente ci sono forti resistenze di tipo culturale, e non linguistico, che frenano l'uso di alcune forme femminili.

Qualcuno sostiene addirittura che siano "brutte", ma questo è un giudizio molto soggettivo e giustificabile solo quando si parla di linguaggio letterario, non quotidiano: forse parole come professora o infermiera sono "belle"?

Altri ritengono che usare la forma maschile aggiunga prestigio al ruolo o alla professione, ma è mai possibile che una donna debba "travestirsi" linguisticamente da uomo per aver successo.

E che tutto il cammino compiuto da donne e uomini verso la parità di diritti e il pieno riconoscimento del loro valore, nel rispetto delle differenze, debba essere nascosto sotto una terminologia al maschile?

Quando si usa il genere grammaticale maschile, infatti, si evoca solo l'immagine di un uomo: i termini notaio, deputato o rettore fanno pensare che ci si riferisca a un uomo, non a una donna.

Il maschile non è neutro! Se lo si usa per una donna si "cancella" la presenza femminile in determinati ruoli e professioni, e si compie quindi una vera e propria discriminazione perché non si riconosce il cammino fatto dalle donne sul piano lavorativo, sociale e personale.

E inoltre si può rincorrere in equivoci a svantaggio della chiarezza comunicativa: un rischio, questo, molto grave specialmente quando sono le istituzioni a commetterlo, ma anche quando ci cascano (talvolta ad arte!) i media.

Qualche anno fa un giornale pubblicò un articolo intitolato Il sindaco di Cosenza: aspetto un figlio. Il segretario DS: il padre sono io che suscitò non poche perplessità nei lettori finché non fu chiaro che "il sindaco"... era in realtà "una sindaca"!

Che fare allora? Convincersi che è indispensabile riconoscere pienamente alle donne il loro ruolo perché possano così far parte a pieno titolo del mondo lavorativo e partecipare ai processi decisionali del paese, e che il linguaggio è uno strumento indispensabile per attuare questo processo.








segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A sustentabilidade também vai à mesa


Para alcançarmos uma alimentação saudável, podemos utilizar partes de alimentos que normalmente são desprezadas pela população. Tal atitude é chamada de "aproveitamento integral dos alimentos".

A alimentação é a base da vida e dela depende o estado de saúde do ser humano. Já diziam nossos avós: "saco vazio não para em pé". Além de garantir o sustento, a alimentação deve promover saúde e para isso, deve ser variada e rica em nutrientes (substâncias que regulam o organismo, fornecem energia para as atividades do dia a dia e auxiliam na formação do corpo), permitindo assim, o equilíbrio do organismo. Atualmente no país em que vivemos, milhões de pessoas vivem na situação de "saco vazio" enquanto nosso saco de lixo permanece se enchendo...

Isso porque desperdiçamos boa parte dos alimentos que poderiam ser aproveitados para o preparo de muitas outras refeições. Este é um hábito tradicional da população brasileira que, normalmente, não utiliza partes não convencionais dos alimentos (assim preconceituosamente classificadas, afinal de contas são inerentes ao alimento), que podem ser aproveitadas para preparar pratos deliciosos, além de reduzir o lixo e o problema da fome no Brasil.

A solução para este sério problema pode começar a partir da modificação de atitudes e costumes que cultivamos em nosso lar.

Exemplos de partes não convencionais dos alimentos:

- folhas de: cenoura, beterraba, batata doce, nabo, couve-flor, abóbora, mostarda, hortelã e rabanete;

- cascas de: batata inglesa, banana, tangerina, laranja, mamão, pepino, maçã, abacaxi, berinjela, beterraba, melão, maracujá, goiaba, manga e abóbora;

- talos de: couve-flor, brócolis e beterraba/

- entrecascas de: melancia e maracujá;

- sementes de: abóbora, melão e jaca;

- nata;

- pés e pescoço de galinha;

- tutano de boi.

Você já pensou em utilizar alguma destas partes dos alimentos acima? Se sua resposta for não, saiba que você está deixando de levar em conta o rico valor nutricional destes alimentos, ou seja, a quantidade de vitaminas, sais minerais e proteínas que estão concentradas nas cascas, folhas e, em alguns casos, até em quantidade maior que na parte costumeiramente utilizada.

Além disso, o aproveitamento integral dos alimentos significa economia e possibilita também experimentar novas opções de receitas, ressaltando assim, outro fator importante: a variação do cardápio. Isso porque um único alimento rende até cinco preparações diferentes - repletas de nutrientes e coloridas - quando utilizamos sua casca, folha, talos, sementes e a própria polpa!

Uma boa cozinha é aquela na qual nada é desperdiçado. Às vezes não percebemos, mas na nossa cozinha há muita coisa indo para o lixo sem necessidade. O Brasil é um dos campeões em acúmulo de lixo orgânico e este, quando não tratado adequadamente, pode agredir a natureza, por promover a formação de chorume, um líquido escuro e malcheiroso, que pode tornar nossos solos inférteis para produção. Outro malefício está relacionado ao problema sanitário: o acúmulo de lixo orgânico pode atrair vetores como ratos, baratas e moscas, que podem causar sérios riscos para a saúde humana.

Portanto, procure aproveitar os alimentos como um todo para desfrutar de uma vida mais saudável e sustentável. Seu corpo, seu bolso e a natureza agradecem!

Sugestões para combater o desperdício de alimentos. Do momento da compra até a sua mesa

Comprar bem: planeje suas compras: Evite excessos! Prefira os alimentos da época, pois possuem melhor qualidade (maior durabilidade, maior teor nutricional e menor quantidade de agrotóxicos) além de apresentarem preços mais acessíveis.

10 dicas para aproveitar melhor os alimentos

1) Os talos de couve, agrião, beterraba, brócolis e salsa, entre outros, contêm fibras e devem ser aproveitados como recheios de tortas, patês ou em escondidinhos.

2) Não jogue fora os talos do agrião, pois eles contêm muita vitamina C, importante para aumentar a imunidade do organismo e, portanto, prevenir infecções. Refogue com tempero e ovos batidos, faça sucos ou adicione ao molho pesto de manjericão.

3) As folhas da cenoura são ricas em vitamina A (importante para a saúde dos olhos, pele, cabelos e para o crescimento). Podemos aproveitá-las para fazer bolinhos ou para substituir o uso de salsinha. Elas são extremamente parecidas em aspecto e sabor.

4) A água do cozimento das batatas acaba concentrando todas as vitaminas hidrossolúveis (que se dissolvem em água). Aproveite-a, juntando leite em pó e manteiga para fazer purê, ou para  agregar valor nutricional ao arroz, macarrão, cappelletis, etc.

5) A água do cozimento da beterraba pode ser utilizada para o preparo de gelatinas vermelhas. Assim você as torna mais nutritivas.

6) As cascas da batata, mandioquinha, nabo, cenoura ou beterraba, podem ser assadas ou fritas em óleo quente e servidas como aperitivo.

7) A casca da laranja pode ser caramelizada, para ser servida com café, ou utilizada em compotas ou mesmo para biscoitos.

8) A parte branca da melancia pode ser usada para fazer cocada. Já a parte branca do maracujá pode render uma deliciosa compota, que se prepara como o doce de mamão verde.

9) Com as cascas das frutas (ex: goiaba, abacaxi, etc.), pode-se preparar sucos batendo-as no liquidificador. Este suco pode ser aproveitado para substituir ingredientes líquidos no preparo de bolos.

10) Quando for ralar a casca do limão ou laranja, nunca chegue à parte branca, pois ela é amarga e pode prejudicar o sabor doce da preparação.



(texto publicado na revista Shop News Vertical ed. 27 - ano 3)

sábado, 29 de agosto de 2015

Bruxas as mulheres em chamas - Cadu Ladeira e Beth Leite


Durante mais de 300 anos, a mesma Europa que viu nascer a Idade Moderna e presenciou feitos como a conquista do Novo Mundo, a ascensão da burguesia comercial e o fim do domínio feudal, fez das fogueiras um instrumento de repressão e morte para milhares de mulheres condenadas por bruxaria

As pilhas de lenhas e gravetos já estavam acesas e a multidão, inquieta, aguardava o início do ritual que conhecia tão bem. Afinal, execuções eram espetáculos imperdíveis, que atraíam a atenção de pessoas vindas de vários cantos. Em meio ao ruído abafado dos comentários sobre os horrores que havia cometido, surgiu enfim a condenada. A turba, que já estava agitada, aproveitou para liberar a tensão reprimida: objetos, palavras de ódio, risos e piadas partiam de todas as direções contra a terrível criatura. Não houve muitas delongas. A sentença foi lida rapidamente, o carrasco, num gesto piedoso, estrangulou a condenada para que não enfrentasse as chamas viva e, em poucos minutos, seu corpo ardia, diante da aclamação selvagem da assistência. Durante mais de 300 anos, cenas como essa se tornaram corriqueiras nas praças públicas de boa parte da Europa e o caminho da fogueira se transformou no destino de milhares de mulheres. Nuas, montadas em vassouras, aterrorizando cidades, aldeias e castelos, no imaginário popular e religioso da época as bruxas estavam por toda parte, semeando o pavor. A perversidade feminina campeava solta, a serviço dos mandos do demônio, e precisava ser contida a qualquer custo.

De 1450 a 1750, poucas pessoas ousariam contradizer essa doutrina, repetida em tom de ameaça nos púlpitos dos pregadores católicos, assim como nos sermões protestantes depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero, no século XVI. Bruxaria era uma calamidade tão real quanto tempestades ou pestes, e intimamente ligada à natureza feminina. Com exceção de Portugal e Espanha, onde os principais perseguidos eram cristãos-novos e judeus, em quase toda a Europa a porcentagem de mulheres excedeu 75% dos casos. Em algumas localidades, como o condado de Namur (atual Bélgica), elas responderam por 90% das acusações. Estima-se que 100 000 processos foram instalados pelo continente afora e pelo menos 60 000 vidas se perderam em meio às chamas.

Foi em plena Idade Moderna - a mesma que presenciou a descoberta de um novo mundo com as grandes navegações, a ascensão da burguesia comercial, o fim do domínio feudal e a formação dos primeiros Estados nacionais europeus - que o temor às forças do mal deixou o campo da crendice popular para se tornar alvo de uma perseguição sistemática de tribunais leigos, religiosos e da Inquisição - sob controle papal.

Não que as fogueiras tenham sido estranhas à sociedade medieval. A Idade Média também presenciou exibições do poder purificador das chamas, a mais notável delas, sem dúvida, aquela que consumiu a vida da jovem Joana D'Arc em 30 de maio de 1431, na cidade de Rouen, então sob domínio inglês. Heroína nacional, Joana ficou famosa depois que conduziu o exército francês à vitória sobre os ingleses em Orléans e deu início à revanche de seu país na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), até aquele momento vencida fragorosamente pelos britânicos. Em 1430, quando caiu prisioneira nas mãos do duque de Borgonha, aliado do rei inglês Henrique V, seus inimigos aproveitaram a fama das visões que ela costumava ter desde pequena para levá-la à fogueira, mesmo sabendo de sua extrema devoção religiosa. Nesse caso, porém, o cunho político da condenação era tão óbvio, que antes do final daquele século, ela seria reabilitada e em 1920 finalmente transformada em santa.

Calamidades podiam detonar uma caça

Para bruxas menos famosas, no entanto, a chegada da Idade Moderna trouxe uma mudança radical na atitude da Igreja e dos tribunais em relação ao universo da superstição, do paganismo e do mito com o qual, havia mais de 1 500 anos, a Europa convivia. Na mitologia romana, Diana, deusa dos bosques e dos animais, já costumavam guiar amazonas noturnas em cavalgadas celestes. Entre as crenças imemoriais germânicas, acreditava-se que figuras ameaçadoras, conhecidas como streghe, se reuniam na floresta em torno de caldeirões para realizar seus rituais. Depois se volatilizavam e invadiam as  casas para chupar a vitalidade das crianças. Mas em meio à insegurança da aurora da modernidade, um tempo marcado por mudanças e desgraças contantes como fomes, pestes, guerras e conflitos religiosos, boa parte dessa tradição fantasiosa do passado acabou associada à certeza de que o demônio e suas seguidoras estavam determinados a dominar o mundo. Feitiços e mulheres voadoras tornaram-se, da noite para o dia, parte de uma grande conspiração demoníaca. Encantos e unguentos - chamados na época de maleficia - que antes serviam para ajudar as pessoas se transformavam em passaporte certo para a morte.

Não era preciso muito para provar que a ação infernal estava em andamento. Além das tradicionais acusações de possessões diabólicas, crises políticas e sociais, calamidades naturais ou qualquer outro acontecimento anormal eram capazes de detonar a mortandade. Em Trier, na França, uma feroz epidemia de processos contra as bruxas ocorreu entre 1580 e 1599, quando duas grandes colheitas foram dizimadas por alterações climáticas. No principado alemão de Ellwagen, em 1611, em Genebra em 1530, 1545, 1571 e 1615 e em Milão em 1630, para citar uns poucos exemplos, centenas foram condenadas à morte após um surto de peste. No século XVII, em Cambrai, também na França, a instalação de novas indústrias no campo gerou uma onda de ansiedade entre os camponeses que logo desembocou numa grande caça.

Algumas alegações contra a bruxaria eram tão descabidas, que só mesmo o clima de paranoia coletiva explicava a relação: em 1590, depois que uma tormenta no Mar do Norte destruiu um dos navios da comitiva de Jaime VI da Escócia e de sua noiva, Ana da Dinamarca, os dois países iniciaram uma cruel perseguição a feiticeiras. As grandes caçadas vinham assim: como tempestades de verão, chegavam avassaladoras e de surpresa, mas tinham curta duração. Quase sempre, após um período de frenética perseguição, as comunidades se aquietavam durante os anos seguintes.Era como se tivessem se livrado de um cancro.

Escritos da época registram o quase inacreditável. Na diocese italiana de Como, 1 000 execuções em um ano. Em Toulouse, na França, 400 cremações são contadas em um único dia. No arcebispado francês de Trier, em 1585, 306 bruxas delataram cerca de 1 500 cúmplices. Embora a maior parte das acusadas tenha escapado à morte, isso não impediu que duas aldeias da região ficassem à beira do extermínio: sobraram apenas duas mulheres em cada uma delas.

O mais impressionante é que a maior parte dessas mulheres, e mesmo dos homens, condenadas chegaram às fogueiras por confissão própria, graças à tortura. Durante esses quase três séculos de morte, conseguir uma confissão era apenas questão de tempo. Quando acontecia de o acusado resistir muito durante uma sessão de maus tratos, isso só aumentava a convicção de culpa dos interrogadores: afinal, tamanha resistência só podia ter por trás o auxílio de forças que não eram apenas naturais. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado desse instrumento macabro se confunde com o próprio mapeamento da caça às bruxas pela Europa.

Inquisição era um tribunal comedido

O predomínio do temido Tribunal de Inquisição, por exemplo, serviu para atenuar os casos de condenação à morte de bruxas nos países da Península Ibérica e na Itália. Embora tenha ficado famoso na Idade Média pela prática da tortura, na época em que começou a grande repressão europeia, a partir do século XV, os inquisidores já haviam elaborado uma extensa reforma jurídica que garantia não só assistência legal aos acusados como restringia a ação dos torturados a casos muito especiais. Na Inglaterra, onde suspeitos de bruxaria só podiam ser submetidos à tortura com autorização dos conselhos superiores de Justiça, a caça às bruxas também teve pouca expressão. Já na Alemanha, dividida em dezenas de ducados e principados independentes política e judicialmente, a caça às bruxas ganhou proporções assustadoras. Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte.

Às vezes, a descoberta de uma fraude conseguiu evitar que a perseguição chegasse a um final dramático. Em 1633, o jovem inglês Edmund Robinson denunciou uma mulher que o teria levado a um sabá de bruxas, onde estavam reunidas cerca de sessenta feiticeiras. O menino deu o nome de dezessete delas ,todas imediatamente presas e condenadas. Algumas dúvidas sobre o depoimento, no entanto, levaram o bispo de Chester a interrogar Edmund e ele acabou admitindo ter forjado a história por sugestão do pai, que havia indicado todos os nomes "por inveja, vingança e desejo de tirar vantagem", descobriram os juízes. Na Escócia, o ensaio de uma grande repressão nacional em 1661 entrou em colapso quando os eméritos caçadores de bruxas John Kincaid e John Dick foram flagrados dando picadas em mulheres acusadas de bruxaria: nos tribunais, essas pequenas marcas eram a prova de que elas haviam feito pacto com o diabo.

Foram poucas, porém, as caças detidas por evidência de fraudes. Normalmente, quando uma perseguição se instalava, nada conseguia detê-la e o pânico tomava conta da população. A princípio, todos estavam sob suspeita e a melhor defesa era o ataque. Uma vez iniciada a caça, delações não paravam mais. Assustadas com a perseguição, muitas pessoas logo se punham a entregar as vizinhas na tentativa de livrar a própria pele de potenciais acusações. Cada possível bruxa levada a julgamento por sua vez, não tardava a incriminar mais uma lista de acusadas, num efeito dominó que levava grandes levas de pessoas diante dos juízes.

Furor uterino e cobiça carnal

Cenas e relatos como esses não só foram realidade como contavam com uma robusta fundamentação teórica de uma obra sinistra. Publicado em 1486, o livro Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo. Até o final do século XV, o manual já era um best seller, recordista absoluto entre qualquer livro anterior ou posterior sobre demonologia, com mais de uma dúzia de edições.

Na detalhada obra, que explicava desde os feitiços mais comumente praticados até como localizar a presença das malignas criaturas no seio da sociedade, Kramer e Sprenger não pouparam esforços para mostrar que a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente. O velho temor católico de monges e padres celibatários estava mais forte do que nunca. "A perfídia é mais encontrada nas pessoas do sexo frágil do que nos homens", garantiam os dois. Bruxas eram o mal total: renunciavam ao batismo, dedicavam seus corpos e almas ao demônio e, suprema lascívia, costumavam manter relações sexuais com ele. Principalmente durante os sabás, reuniões em que as forças do mal se reuniam para banquetear-se com criancinhas não batizadas e que sempre terminavam em fabulosas orgias. Testemunhos da época davam notícia de sabás reunindo até 1 000 bruxas.

Para provar a propensão natural da mulher à maldade não faltavam argumentos aos autores do Malleus. A começar por "uma falha na formação da primeira mulher, por ser ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela no peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. A própria etimologia da palavra feminina confirmava essa fraqueza original: segundo eles, femina, em latim, reunia em sua formação as palavras fide e minus, o que quer dizer menos fé.

Defender ideias assim não era exclusividade dos dois inquisidores alemães. A aversão á mulher como ser mais fraco e, portanto, mais propenso a sucumbir à tentação diabólica era moeda corrente em todas as regiões da Europa - dos pequenos vilarejos camponeses aos grandes centros urbanos. Nos sermões de padres por toda a Europa, proliferava a concepção de que a bruxaria estava ligada à cobiça carnal insaciável do "sexo frágil", que não conhece limites para satisfazer seus prazeres. Com seu "furor uterino", para o homem a mulher era uma armadilha fatal, que podia levá-lo à destruição, impedindo-o de seguir sua vida tranquilamente e de estar em paz com sua espiritualidade.

O clima de desconfiança em relação às mulheres teve também predileções profissionais. Quando não era o caso de grandes perseguições orquestradas para expurgar males como a peste, certos ofícios tipicamente femininos tinham precedência na lista de denúncias. Curandeiras, vitais para uma sociedade onde a medicina ainda era uma ciência incipiente, tornavam-se hereges e apóstatas da noite para o dia. Cozinheiras também viviam sob constante desconfiança, assim como as parteiras.

Parteiras eram alvos visados

Acusadas frequentemente de batizar os recém-nascidos em nome do diabo ou de matá-los para usar seus corpos em rituais, elas foram vítimas de anos em suspeita acumulada, numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Em 1587, a parteira alemã Walpurga Hausmannin, foi processada por ter causado a morte de quarenta crianças, algumas com até 12 anos. Entre os métodos que ela empregava, estavam o estrangulamento, esmagamento de cérebro da criança no parto e aplicação de "um unguento do diabo sobre a placenta", de modo que a mãe e a criança morressem juntas. Seu destino foi a fogueira. O mesmo de uma parteira húngara, que em 1728 conseguiu uma marca duvidosa, mas perfeitamente factível para seus contemporâneos: ela morreu queimada por ter batizado nada menos do que 2 000 crianças em nome do demônio.

Para quem se acostumou a relacionar a figura das bruxas a personagens pitorescas de contos da carochinha - como a madrasta de Branca de Neve ou a fada malvada de Cinderela -, às vezes fica difícil acreditar em histórias assim. Mas elas existiram e deixaram em seu rastro uma cruel realidade da morte de milhares de mulheres inocentes em fogueiras piamente acesas para limpar o mundo.




(texto publicado na revista Super Interessante nº 2 - ano 7 - fevereiro de 1993)













terça-feira, 12 de maio de 2015

Esta mãe chamou o filho de "boiola". O que o avô dele fez é exemplar (Não Acredito)


Um adolescente dos Estados Unidos finalmente cria coragem para contar à sua mãe um segredo que escondeu a vida inteira. Algo muito importante sobre sua vida, mas que por ser objeto de preconceito de grande parte da sociedade ele havia escondido todo esse tempo: que ele é gay. Mas, apesar de esperar preconceito de todos, ele não imaginava que sua própria mãe também tomaria uma atitude radical: renegá-lo como filho e expulsá-lo de casa, para o olho da rua. Eu mal consigo imaginar como essa situação deve ser difícil para um adolescente.

Mas, por sorte, havia um outro personagem nessa história: o avô do garoto. Que não apenas acolheu o neto com todo amor e carinho, como ainda escreveu uma carta para a mãe dele, ou seja, sua própria filha, expressando sua opinião sobre a atitude dela. A carta se espalhou como um vírus pela Internet. E ao lê-la não é difícil de entender porque.

"Cara Cristina:

Eu estou desapontado com você. Você está certa quando diz que temos uma "vergonha na família", mas errada sobre o que é essa vergonha.

Expulsando o Chad de casa simplesmente porque ele te disse que é gay é a verdadeira "abominação" aqui. Uma mãe renegando seu filho é o que vai "contra a natureza".

A única coisa inteligente que eu ouvi você dizendo nessa história foi que "você não criou seu filho para ser gay". Claro que não. Ele nasceu assim e não escolheu isso, do mesmo jeito que ele não escolheu ser canhoto. Você, entretanto, fez a escolha de ser uma pessoa detestável, de mente fechada e retrógrada. Então, enquanto estamos no assunto de renegar nossos filhos, vou aproveitar esse momento para te dizer adeus. Eu agora tenho um neto fabuloso (como diriam os gays) para cuidar e eu não tenho tempo ou paciência para uma vaca de uma filha.

Se você reencontrar seu coração ligue para a gente.

Papai"

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Iain Lee and Justin Dealey experience homophobic abuse


É preciso atitude contra a aids - Natalia Cuminale


Pesquisa revela como os brasileiros encaram a doença. A imensa maioria sabe como se prevenir, mas muita gente ainda dispensa o uso de camisinha e não tem o hábito de fazer o exame de HIV

Aos 25 anos, o ator e bailarino Rafael Bolacha viu sua vida mudar radicalmente. Sem alterar os hábitos alimentares nem a rotina de atividade física, em apenas três semanas ele perdeu 5 quilos. Preocupado, procurou um médico. Entres os exames pedidos, o de HIV. Alguns dias depois, veio o resultado positivo para o vírus causador da aids. Foi um baque. "Raramente fazia sexo sem proteção", lembra. As poucas vezes em que Bolacha diz ter se exposto ao perigo foram por confiar no parceiro ou por estar sob o efeito do álcool. Hoje, aos 30 anos, o bailarino se dedica a conscientizar outros jovens sobre os riscos do HIV. Em breve, adaptará um livro de sua autoria, Uma Vida Positiva, para os palcos, em São Paulo. "Os jovens de hoje acham que estão imunes à contaminação", diz. "E, se contraírem o vírus, acreditam que é só tomar os remédios que poderão levar uma vida normal." Não é assim. Para manter o HIV sob controle, Bolacha toma seis comprimidos por dia. Não é fácil. O bailarino convive com crises diárias e severas de diarreia.

Bolacha não é exceção. A imensa maioria dos brasileiros sabe como o vírus é transmitido e como se proteger, mas muita gente ainda dispensa o uso do preservativo e não tem o costume de fazer o teste de HIV. Esse é o resultado de um levantamento conduzido pelo Departamento de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Editora Abril, que edita VEJA. Parte integrante do projeto Atitude Abril - Aids, campanha institucional do Grupo Abril para a conscientização sobre a doença, o trabalho ouviu, via internet, em todo o Brasil, 15 002 homens e mulheres acima de 16 anos - 20% deles se declararam virgens e 5%, portadores do HIV. Dois sexualmente ativos, 11% têm relações desprotegidas e, deles, 33% não procuram investigar se carregam ou não o vírus. Outros levantamentos nacionais indicam números ainda maiores de displicência. Pelo menos metade dos brasileiros nunca ou raramente se protege durante o sexo. Deles, um em cada dois nunca fez o teste. Diz o infectologista Artur Timerman, uma da maiores autoridades brasileiras em aids: "Ter informação sobre determinada doença é diferente de ter consciência sobre ela. As pessoas sabem que é importante usar camisinha, mas ainda não introjetaram essa informação".

Atualmente 720 000 brasileiros estão infectados pelo HIV. Desses, um em cada cinco não sabe que está contaminado. Da pesquisa Atitude Abril - Aids emergiram três perfis de risco - os jovens de 16 a 24 anos; os homens acima de 50 anos; e as mulheres com mais de 30 anos. A seguir, VEJA esmiúça o comportamento de cada um desses grupos.

Os jovens não têm medo

Jovens de classe média contaminados pelo vírus da aids em baladas regadas a muito álcool e drogas têm se tornado figuras frequentes nos consultórios dos infectologistas. A probabilidade de um jovem praticar sexo inseguro é cinco vezes maior se ele tiver bebido demais. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, as infecções pelo HIV entre rapazes e moças de 15 a 24 anos cresceu cerca de 25% entre 2003 e 2012. Na pesquisa Atitude Abril - Aids, 8% dos jovens até 24 anos declararam não usar camisinha. Outros levantamentos, no entanto, revelam dados mais assustadores. Segundo pesquisas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgada no início do ano, um terço dos rapazes e moças de 15 a 24 anos dispensa a proteção. Os especialistas são unânimes em afirmar que, na realidade, esse número deve ser ainda maior.

O projeto Atitude Abril - Aids traz um dado revelador dessa realidade. Apenas um em cada quatro jovens associa a palavra medo à doença. A juventude do século XXI não testemunhou o horror dos primórdios da epidemia de aids. No início dos anos 80, quando não havia os remédios antirretrovirais, a infecção pelo HIV representava uma sentença de morte. Entre o diagnóstico e a fase terminal, transcorriam, em média, cinco meses. No fim da década de 90, com a criação do coquetel antiaids, foi possível prolongar, com qualidade, a vida dos portadores por tempo indeterminado.

É comum também o jovem dispensar a camisinha à noite e, no dia seguinte, recorrer ao uso profilático do coquetel. Administrados até 72 horas depois da exposição ao vírus, os medicamentos podem conter a proliferação do HIV.  A maioria não leva em conta, no entanto, a extensa e dolorosa lista das reações adversas dos antirretrovirais - depressão, diarreia, anemia e gastrite, entre outras. No levantamento Atitude Abril - Aids, 36% dos entrevistados não acreditam nos graves efeitos colaterais dos medicamentos antiaids ou os desconhecem.

A displicência da maturidade

Entre 2003 e 2012, as contaminações por HIV no Brasil cresceram assustadoramente entre as pessoas acima de 45 anos. Nesse universo, os homens com mais de 50 anos despertam a preocupação dos especialistas. De cada 100 entrevistados na enquete Atitude Abril - Aids, 47 têm relações sem camisinha. Outros trabalhos apontam um cenário ainda mais sombrio, em que esse índice chega a 63%. Apesar do comportamento de risco, 31% na pesquisa da Abril nunca se submeteram ao exame de HIV. Mas por quê? A maioria tem certeza de que não tem o vírus. Igualmente estarrecedor é o dado de que 11% não fazem o teste porque têm medo de descobrir que estão infectados. É um comportamento de altíssimo risco.

O aumento da incidência de aids nesse grupo está diretamente associado aos avanços no tratamento da disfunção erétil. Os comprimidos anti-impotência lançados no fim da década de 90 afastaram o fantasma da impotência, e muitos homens recuperaram o vigor sexual. Eles, no entanto, não estavam habituados à camisinha. Um em cada três entrevistados para o Atitude Abril - Aids reconhece ter dificuldade para usar o preservativo. E o motivo? Para a maioria, porque atrapalha a ereção.

A exagerada confiança feminina

A paraense Gygy Maciel descobriu ser portadora do HIV aos 34 anos. Ela estava recém-separada. Fragilizada por causa do divórcio, Gygy começou a namorar seu ortopedista. Confiava plenamente nele, tanto que nunca cogitara o uso da camisinha. O relacionamento durou cerca de um ano. Pouco depois, por sugestão de uma amiga em comum, Gygy fez o exame. Positivo para o HIV. Das participantes do grupo Atitude Abril - Aids com 34 anos, em média, 14% dizem fazer sexo sem proteção porque, em sua maioria, confiam no marido ou namorado. Fora do universo das entrevistadas, o número de brasileiras nessa faixa etária que têm o mesmo comportamento está por volta de 52%.



(texto publicado na revista Veja edição 2399 - ano 47 - nº 46 - 12 de novembro de 2014)








quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Preconceito faz mal à saúde - Marilia Marasciulo


Maioria de pesquisas para medicamentos e tratamentos é feita com pacientes brancos

Quando ainda fazia residência em Harvard, em 1997, o bioengenheiro Esteban Burchard viu um adolescente negro morrer de asma a poucas quadras do hospital, com o inalador na mão. No mesmo ano, ele identificou um gene que aumenta o risco de desenvolver uma variante mais forte da asma - e ele era 40% mais comum em pessoas negras. Pois que agora, quase 20 anos depois, um outro estudo feito por Burchard revelou que a maioria das pesquisas feitas nos Estados Unidos é focada em pessoas brancas e descendentes de europeus. O resultado é que muitos remédios no mercado não são os mais eficazes para pessoas de outras etnias. Diabetes e problemas no coração, por exemplo, são mais comuns em latinos e hispânicos.

O problema, segundo Burchard, é que as pequisas científicas tendem a buscar populações geneticamente homogêneas. É mais fácil realizar um estudo em indivíduos semelhantes do que realizar o mesmo projeto em populações diferentes. Os próprios médicos acabam preferindo estudar pacientes parecidos com eles. "Até as mulheres entrarem na medicina, não existiam pesquisas que incluíam mulheres", diz Burchard. Para completar, a principal agência que financia projetos médicos nos EUA também não costuma aceitar propostas que envolvam pesquisas com outras etnias. Um estudo de 2011 publicado na revista Science revelou que cientistas asiáticos e negros têm, respectivamente, 4% e 13% menos chance que brancos de receber financiamento. O argumento é que essas populações apresentam grande variação genética, o que as tornaria mais difíceis de analisar.



(texto publicado na revista Galileu nº 281 - dezembro de 2014)







sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

As nossas crianças especiais - Darlene Paiva


Pais contam como aprenderam a lidar com a situação de terem filhos com necessidades especiais

Rafael completava seis meses. Era o segundo menino da casa - que alegria! Mas a observação mais apurada da mãe dizia que havia algo errado com o caçula. A mão direita do bebê permanecia cerrada o tempo todo, enquanto a esquerda agitava-se aberta, sem qualquer impedimento. Uma ultrassonografia de crânio diagnosticou uma lesão no lado esquerdo do cérebro, o que ocasionou uma hemiparesia direita, ou seja, dificuldade motora do lado direito do corpo.

"Ficamos muito assustados, na verdade desesperados. A única coisa em que pensávamos era dar ao Rafael todo o  tratamento que existe no mundo para ele conseguir se desenvolver bem. Ao mesmo tempo em que estávamos aflitos, angustiados, sem respostas concretas sobre o futuro, o que nascia dentro de nós era uma força muito grande. Fizemo-nos guerreiros de uma batalha que, certamente, venceremos", relembra a jornalista Debora Souza, 38 anos.

Desde o diagnóstico, passaram-se seis meses. Rafael está com um ano e dois meses e, atualmente, faz fisioterapia todos os dias e terapia ocupacional duas vezes por semana. Mas Debora diz ter adaptado sua vida à nova realidade, de forma natural. "Achamos que não temos tempo para nada, mas sempre há um espaço para novas responsabilidades. Minha vida mudou muito pouco. Claro que, agora, temos que ir à fisioterapia todos os dias, adotamos um cachorro - que é ótimo para o desenvolvimento das crianças - e precisamos pedalar ainda mais a bicicletinha para fazer dinheiro. Mas a vida tornou-se ainda mais relevante".

Diagnóstico

O diagnóstico de Rafael veio logo, o que é positivo. Os especialistas diziam que, quanto mais rapidamente se identifica a condição da criança, melhor será o seu desenvolvimento. A professora de História Ana Dirce Fonseca Santos tem 52 anos e há 21 anos deu à luz Luiza. Demorou cinco anos para que os médicos conseguissem diagnosticar o autismo da filha. "Ela era hiperativa, não falava, tinha mania de agrupar brinquedos, não suportava barulho e não gostava que chegássemos perto dela ou a beijássemos. No entanto, pediatras, psicólogos e outros especialistas não identificavam o que era". Foi um neuropediatra quem diagnosticou autismo pela simples observação dos atos de Luiza.

Luiza nasceu em uma época na qual pouco se conhecia sobre o autismo. E as escolas particulares que Ana Dirce procurou não aceitaram a menina, sob a alegação de que não tinham profissionais preparados para receber a aluna. Ela passou por alguns colégios especializados, mas a mãe percebeu que Luiza não avançava nos estudos. "Resolvi ensinar minha filha a ler e a escrever. Reduzi minha carga horária de trabalho e, das 09h00 às 12h00, todos os dias, eu alfabetizava minha filha. Eram as horas de Luiza. Aos domingos, me encontrava com as mães de outras crianças autistas e discutíamos formas de ensinar os nossos filhos".

Convívio sem preconceitos

Liliane Lucarini, psicopedagoga especialista em educação especial com ênfase em surdez da Universidade Mackenzie, diz que, nas últimas duas décadas, os avanços foram visíveis. E que cada vez mais se abole a ideia de que essas crianças devam frequentar colégios diferenciados. O convívio com outras crianças a estimula e integra aos grupos sem preconceitos. A especialista explica que, quanto mais cedo a família diagnosticar a diferença do filho, melhor será para tratá-lo. "Seja qual for o diagnóstico, a família deve passar por uma assistência especializada de uma equipe multidisciplinar. É importante que essa família viva o luto da forma mais humanizada possível. A mãe e o pai têm o direito de sofrer o luto e ninguém pode recriminar essa passagem".

Ao assimilar a condição do filho e aceitá-lo do jeito que ele é, a mãe deixa de procurar um milagre para a cura e consegue ajudar mais no desenvolvimento da criança. E a escola tem um papel central neste processo. Cada vez mais as instituições de ensino se adaptam para receber alunos com necessidades especiais.

A professora Ana Dirce teve que vencer sozinha essa batalha e Luiza aprendeu a ler e a escrever, a tomar banho e a se vestir sozinha (ela também ajuda a mãe a arrumar a casa). Como é Luiza, hoje? "Ela não tem trejeitos, vamos ao teatro, ao cinema e ninguém percebe que ela é autista. Ela não sofre. Eu que sofro, muitas vezes, pelo preconceito das pessoas", diz Ana Dirce.

A realidade vivida por Ana Dirce, aos poucos, foi mudando, com o decorrer dos anos, muito pela legislação (cada vez mais inclusiva). As instituições de ensino, especialmente as públicas, estão mais adaptadas para receber o aluno especial. "É importante a mãe saber que ela não é a única responsável pela condição de seu filho. O trabalho tem de ser conjunto entre escola e família. A escola e os pais não são adversários, e sim, parceiros, e se ajudam no desenvolvimento da criança", alerta a psicopedagoga Liliane.

Auto-estima

Os especialistas arriscam dizer que o preconceito está na cabeça dos adultos, não na das crianças, que veem o colega como diferente, mas sem que essa condição se reflita em suas relações. Segundo Liliane, trabalhar a auto-estima dessas crianças é essencial para que se tornem adultos mais seguros. Na escola, os colegas costumam acolher esses alunos, sem qualquer preconceito.

"Meg sabe que é diferente e enfrenta isso de cabeça erguida. Eu nunca a vi chorando ou reclamando da vida. Às vezes, percebo que ela está um pouco acomodada com a situação de ser uma criança especial e mostro a ela que é preciso ter força para vencer as barreiras que a vida lhe impôs, ao invés de não falar: 'eu não consigo fazer e ponto final'. Na escola, já a ouvi dizer: 'cada um é de um jeito, tenho esse problema e o meu amigo tem outro - cada um tem um problema'", relata a jornalista Wendy Baskerville, mãe de Meg Baskerville Aragão, hoje, com 12 anos.

Wendy é mais um exemplo de superação. Soube que filha possuía uma lesão no cérebro quando a menina tinha seis meses. Até hoje, Meg não conseguiu ser alfabetizada, mas ela acompanha a mesma turma, ano a ano. "Para a criança especial, é importante o convívio com as crianças da mesma idade. Mesmo não acompanhando o aprendizado como os outros de seu grupo, ela passa de ano", diz Liliane. Ela salienta a importância da rotina, do convívio e da integração, que fazem com que o aluno desenvolva outras habilidades.

Meg é uma pré-adolescente como qualquer outra, com as mesmas vontades próprias dessa idade. "Ela entende que é diferente e que não consegue fazer tudo o que as amigas fazem. Mas ela faz do jeito dela e sempre com muita felicidade", diz Wendy.

Aprendizado

 Para Meg, alguns pequenos atos rotineiros, que nos parecem tão banais e automáticos, não são simples. Amarrar um tênis, fazer um rabo-de-cavalo ou caminhar longas distâncias são complicadores para a sua condição. A rotina de Meg é bem diferente de suas amigas de classe. Meg faz terapia ocupacional, fonoaudiologia, atendimento psicológico, aulas de pedagogia e equoterapia.

"Em casa, acho que superprotegemos demais a Meg, mas, aos poucos, estamos dando asas para que ela comece a se virar sozinha. A relação com a irmã (dois anos mais nova) é complicada, porque a irmã sente muito ciúmes da atenção especial que damos à Meg", diz a jornalista.

Wendy sabe, hoje, que ter uma criança especial em casa é um aprendizado a cada dia. "Quando ela era bebê, não sabíamos se Meg iria andar, falar ou sentar. Fomos passando por momentos aflitivos e superando as necessidades a cada dia. Acho que sempre enfrentei tudo com pensamentos positivos e com muita força para incentivar minha filha a vencer os obstáculos que a vida lhe impôs. Acredito que tudo acontece por um motivo e que cada um tem uma missão na terra. A minha é sempre estar ao lado da minha filha, para ajudar nos dias bons e ruins. E a dela é vencer barreiras todos os dias.

Dicas para os pais

- Ao receber um diagnóstico, a mãe deve viver o luto e assimilar as condições de seu filho

- Após entender as capacidades de seu filho, a mãe entenderá - com apoio de especialistas - que a criança deve estimular todas as suas outras habilidades

- Quanto mais esclarecida estiver a família, mais será possível colaborar para o desenvolvimento da criança

- Quanto mais cedo a criança for para a escola, mais rápido será o seu desenvolvimento

- O ideal é matricular a criança em escolas que sejam inclusivas. As escolas públicas, muitas vezes, estão mais preparadas para receber crianças especiais do que os colégios particulares

- Orientadores devem fazer visitas regulares à escola para verificar o desenvolvimento da criança

- Os professores devem ter capacitação para lidar com essas crianças

- Cursos de especialização são importantes, mas o mais relevante a se notar é se a escola oferece equipe de apoio para orientar os profissionais que trabalham com a criança no dia a dia

- Deve-se inserir a criança em atividades que ela possa realizar e nas quais se sinta protagonista, não apenas coadjuvante

- A mãe não deve ficar com toda a responsabilidade, que deve ser dividida no núcleo familiar e com a escola

- As crianças especiais precisam estabelecer vínculos e ter ritos de passagem, como qualquer criança

- A mãe é parceira da escola e vice-versa. A ideia de que a família e a escola são antagonistas é equivocada

- As crianças especiais não precisam de escolas especiais. O convívio com o grupo escolar a estimulará

- A escola deve ter uma equipe multidisciplinar para acompanhar as crianças especiais

- A auto-estima da criança deve ser estimulada. Os pais devem dizer o quanto a criança é linda, maravilhosa e capaz de grandes realizações




(texto publicado na revista Bem Mulher nº 2- ano 1)