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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
Nazistas contra o papa - Rita Loiola
Invadir o Vaticano, sequestrar o papa Pio 12 e levá-lo para o norte. Foi por muito pouco que os nazistas não cumpriram essa missão.
O telefone acordou Karl Wolff bem cedo na manhã de 13 de setembro de 1943. Do outro lado da linha, o aviso de que Adolf Hitler queria vê-lo imediatamente. O general vestiu o uniforme com pressa e tomou o caminho que separava seu quarto do bunker do führer. Enquanto percorria os extensos corredores, imaginava o que estava por vir. Três dias antes, as tropas alemãs haviam entrado em Roma. Hitler tinha sede de vingança contra os italianos desde junho, quando eles depuseram seu aliado Benito Mussolini. Quando Wolff chegou ao bunker, o ditador foi direto:
"Tenho uma missão especial para você, Wolff", teria dito Hitler, conforme o depoimento de Karl Wolff anos depois. "Suas tropas devem ocupar o Vaticano o mais rápido possível, proteger seus bens e levar o papa e a cúria para o norte. Não quero o pontífice nas mãos dos Aliados. O Vaticano já é um ninho de espiões e um centro de propaganda anti-nazista. Arranje os detalhes mais importantes e dê notícias a cada duas semanas."
Comandante da SS na Itália, Karl Wolff saiu da sala decidido não a executar o plano de que Hitler lhe havia incumbido, mas a sabotá-lo. Essa é a tese do jornalista americano Dan Kurzman, especializado na 2ª Guerra Mundial e autor do livro Conspiração contra o Papa, recém-lançado no Brasil. Kurzman foi o primeiro jornalista a entrevistar o general Wolff logo depois de ele sair da prisão, em 1969. Baseado nessa e em outras entrevistas com embaixadores e generais nazistas, Kurzman tentou reconstituir os meses em que o führer quase invadiu o Vaticano. "O papa sempre soube que Hitler queria acabar com o cristianismo", diz Kurzman. "Mas o perigo se tornou real apenas no fim de 1943, quando o ditador italiano Benito Mussolini foi deposto. "Para Hitler, era preciso acabar com a dupla ameaça que o papa representava. Ele temia, por um lado, uma declaração pública de Pio 12 contra o massacra dos judeus, que poderia levar quase metade dos soldados, alemães católicos, a se voltarem contra o führer. Por outro, o ditador sabia que o papa era um forte líder espiritual - que poderia influenciar as almas.
Para o general Karl Wolff, porém, raptar o papa era loucura. A invasão do Vaticano poderia causar um levante da Itália e de todos os católicos do mundo contra a Alemanha. Incumbir-se dessa missão era ainda pior. Ocupando um cargo no alto escalão da SS, organização por trás do Holocausto, Wolff temia ter seu nome associado ao rapto e, possivelmente, ao assassinato de Pio 12. A única maneira de esse plano insano ser útil era sabotá-lo. Se a Alemanha perdesse a guerra, a bênção de sua Santidade poderia salvar a vida dele, que já tinha seu nome ligado à deportação e morte de milhões de judeus. Por isso, naquela manhã em que Hitler lhe passou a ordem, Wolff sabia exatamente com quem deveria falar.
Os sabotadores
A primeira atitude do general foi pedir ajuda aos colegas "anti-Hitler" de Roma. O primeiro a saber do projeto que deveria continuar em segredo foi Rudolf Rahn, o embaixador alemão na Itália. Os dois logo entraram em contato com Ernst von Weizsäcker, o embaixador alemão para o Vaticano. Todos concordavam que a invasão deveria ser cancelada. Mas, para isso, o próprio papa precisaria ajudar.
Em setembro de 1943, o Vaticano estava nas mãos dos nazistas. As saídas da sede da Igreja estavam frechadas pelo Exército alemão. No início do mês seguinte, Hitler ordenou a prisão dos judeus romanos. Os nazistas que tentavam salvar a vida de Pio 12 achavam que, se se prisões ocorressem, o papa não teria alternativa senão falar publicamente contra o massacre, provocando o próprio rapto. Por isso, para salvá-lo, era preciso mantê-lo quietinho.
A melhor forma de fazer isso era metendo medo no pontífice. Segundo Kurzman, o primeiro artifício que os nazistas da Itália usaram foi uma notícia sem muitos detalhes em uma rádio pirata fascista avisando sobre um suposto sequestro do papa. A mensagem pipocou em alguns jornais e chegou até Pio 12. No dia seguinte, o secretário dele chamou o embaixador Weizsäcker para uma audiência. Sua Santidade havia mordido a isca.
Anos depois, o diplomata escreveria que, assim que entrou no escritório do líder católico, a primeira coisa que notou foi seu olhar sereno. Quando tocou no assunto do sequestro, sua expressão não se alterou. "Ouvi rumores", teria dito Pio 12. "Mas permanecerei em Roma a qualquer custo." Weizsäcker, segundo instruções recebidas de Berlim, perguntou se ele faria um elogio público à boa conduta alemã. O papa teria garantido que sim, se os nazistas prometessem não tomar nenhuma atitude hostil contra o Vaticano. Em outras palavras, se o sequestro fosse cancelado, o papa confirmaria o "bom tratamento" alemão.
O embaixador deixou o Vaticano com a promessa de que entraria em contato com Berlim sobre a troca de favores. E o pontífice entendeu que a ameaça alemã era real e próxima - mas não passaria disso se ele honrasse seu voto de silêncio. Mas mandou esconder todos os arquivos pessoais e documentos do Vaticano sob pisos falsos. Membros da cúria prepararam as malas para acompanhar seu líder em caso de uma fuga de emergência. Ele precisaria dessas garantias para os próximos dias. O chefão da SS, Heinrich Himmler, já havia ordenado que os cerca de 8 mil judeus de Roma fossem presos em 16 de outubro de 1943.
O dilema
O bairro judeu de Roma ainda dormia quando a SS tomou as ruas naquele 16 de outubro de 1943. A chuva desabava enquanto 365 soldados da polícia alemã abriram portas aos chutes, gritando o nome dos procurados. Antes das 6 horas, homens, mulheres e crianças estavam enfileirados e jogados em caminhões, sob a chuva sem trégua. Ao fim, 1.256 dos 8 mil judeus de Roma foram presos e 1.002 foram deportados naquele dia. Uma semana depois, morreram em Auschwitz. Pio 12, como nunca se pronunciou publicamente sobre a prisão dos judeus, entraria para a história como "o papa de Hitler". Entre outros temores que o levaram a silenciar o massacre, estavam seu sequestro e a aniquilação do Vaticano. "Além dos mais, ninguém podia ter certeza de que o pronunciamento teria ajudado a salvar algum judeu", diz Antônio Marchionni, professor de teologia da PUC-SP. "O mais provável é que não somente ninguém fosse salvo como também as instituições católicas que abrigavam milhares de judeus fossem retaliadas."
Na época, esse também era o raciocínio da embaixada alemã no Vaticano. Em 1963, o embaixador alemão Albrecht von Kessel escreveu: "Estávamos convencidos de que um protesto do papa contra a perseguição dos judeus não terai salvado ninguém. Hitler reagiria com violência a qualquer ameaça que fosse enviada diretamente a ele". Existe ainda a possibilidade de que mais judeus fossem mortos se o papa se pronunciasse. Sabe-se hoje que, dos cerca de 8 mil judeus que restavam em Roma, entre 4 mil e 7 mil foram abrigados em 180 edifícios católicos, entre igrejas, monastérios, instituições de assistência e também no próprio Vaticano.
No entanto, o dever moral de lutar contra o assassinato de milhares colocava o líder da Igreja em um dilema. "Pelo lado prático, o papa Pio 12 sabia que seu pronunciamento não apenas não barraria o assassínio dos judeus mas somaria ao Holocausto o ataque aos católicos e o provável fim da instituição que defendia", afirma o jornalista Dan Kurzman. "Na verdade, Pio 12 não tinha escolha. Olhando pelo lado moral, porém, ele tinha a obrigação de se colocar contra o massacre."
De um lado, atemorizado pelas próprias inseguranças, de outro, pela chantagem alemã, Pio 12 permaneceu mudo. Duas semanas depois daquele sangrento 16 de outubro, o papa cumpriu sua promessa ao embaixador alemão. Publicou no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, um comunicado expressando sua gratidão às tropas alemãs por terem respeitado a Igreja. O artifício do embaixador Weinsäcker havia funcionado. Mas o papa ainda teria que passar por cima de seus interesses mais uma vez até o fim da guerra para garantir sua segurança.
O encontro final
Em março de 1944, o Exército russo chegou a Roma. Uma bomba dos comunistas atingiu o exército alemão que marchava pela Via Rasella, em Roma. Os estilhaços mataram 32 soldados alemães. As ordens do führer foram expressas: para cada morto, 10 italianos deveriam ser sumariamente executados. Weizsäcker e Wolff haviam conseguido silenciar o papa durante a prisão dos judeus. Mas ele permaneceria calado frente a um massacre italiano? O plano do rapto, que estava dormente, voltou a assombrar a embaixada alemã.
Wolff havia chegado à cidade na noite do massacre com ordens expressas para levar a cabo a deportação dos romanos. E, diante desses fatos, tinha certeza, o papa não continuaria impassível. O único modo de evitar uma tragédia no Vaticano - e salvar o futuro de Wolff - era conversar pessoalmente com o pontífice.Como apenas o embaixador Weinzsäcker estava autorizad a entrar no Estado da Igreja, a reunião teve que ser secreta. O encontro clandestino entre o líder da Igreja e o comandante da SS na Itália aconteceu no dia 10 de maio de 1944.
O general Karl Wolff reservou ao papa a mesma deferência que tinha para Adolf Hitler. Recebeu seus protestos em silêncio e garantiu que faria o possível para impedir prisões e deportações, acalmando os ânimos do führer. No entanto, ainda temendo seu sequestro, o pontífice deixou claro que não sairia do Vaticano de jeito nenhum, nem deixaria de lutar pelos princípios cristãos de sua Igreja. Wolff assegurou com veemência que tentaria cancelar qualquer projeto de sequestro ou sabotagem de Roma. Acreditando no compromisso do general, o líder da Igreja Católica deu sua bênção ao amigo íntimo de Heinrich Himmler, e um dos executores do Holocausto. Wolff se despediu juntando os joelhos e erguendo o braço - o cumprimento nazista. Pouco mais de um mês depois do encontro, as tropas americanas entraram em Roma, expulsando os nazistas. A missão secreta de Karl Wolff nunca chegou a ser cumprida. Pio 12 deixou o Vaticano apenas em 1958, quando morreu.
Karl Wolff
Depois de evitar o sequestro do papa Pio 12, Wolff foi um dos principais negociadores da Operação Sunrise, que articulou a rendição completa dos nazistas que ocupavam a Itália. Preso pelos aliados em 1945, foi condenado a 5 anos de prisão em 1947 acusado de ser membro da SS. Em 1962, foi condenado mais uma vez, por ter contribuído para mandar 300 mil judeus para o campo de Treblinka. Em 1969, foi posto em liberdade por causa de problemas de saúde. Morreu em 1984.
Ernst von Weizsäcker
Preso em 1947, foi condenado a 5 anos de prisão, morrendo em 1951. Sua condenação ocorreu sob protestos - alguns políticos, entre eles Winston Churchill, eram contrários à prisão de Weizsäcker porque ele teria trabalhado contra a vontade de Hitler. Seu filho Richard von Weizsäcker foi chanceler da Alemanha entre 1984 e 1994.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 225 - agosto de 2008)
sábado, 11 de julho de 2015
Para refletir: Papa fala sobre 15 "doenças" que afetam a Igreja em encontro com a Cúria Romana
O Papa Francisco apontou quinze "doenças" que "enfraquecem" o serviço pastoral da Igreja. Em seu discurso, o Santo Padre convidou todos a pedirem perdão a Deus que "nasce na pobreza da gruta de Belém para nos ensinar a potência da humildade". Ao apontar as quinze "doenças" ou "tentações", Papa Francisco esclareceu que não dizem respeito apenas à Cúria Romana, mas são um perigo para qualquer cristão, diocese, comunidade, congregação, paróquia ou movimento eclesial. O Pontífice observou ainda que "seria belo pensar na Cúria Romana como um pequeno modelo de Igreja, ou seja, como um corpo que tenta seriamente e cotidianamente ser mais vivo, mais harmonioso e mais unido em si próprio e com Cristo" e acrescentou que a Igreja não pode viver sem ter uma relação vital e autêntica com Cristo. Em seguida apresentou as quinze "doenças".
1. Sentir-se imortal ou indispensável: "Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se atualiza, é um corpo enfermo" e criticou o "complexo dos eleitos, do narcisismo".
2. Martalismo: O Papa lembrou a passagem bíblica onde Marta, ao receber Jesus, mostra-se mais preocupada com os afazeres da casa do que ouvir a mensagem de Jesus. "É a doença do excesso de trabalho" e "dos que trabalham sem usufruírem do melhor. A falta de repouso leva ao estresse e à agitação", pontuou Francisco.
3. Dura mentalidade: Quando alguém "perde a serenidade interior, a vivacidade e a audácia e nos escondemos atrás de papéis, deixando de ser "homens de Deus".
4. Excessiva planificação: Francisco alertou aos que têm a "tentação de querer pilotar o Espírito Santo". É "quando o Apóstolo planifica tudo minuciosamente e pensa que assim as coisas progridem. Torna-se um contabilista", assinalou.
5. Má coordenação: O Pontífice criticou a perda da comunhão promovida pela má coordenação que faz com que o "corpo" perca "a sua harmoniosa funcionalidade".
6. Alzheimer espiritual: Francisco referiu-se, ainda, a esta "doença" que conduz a "uma diminuição progressiva das faculdades espirituais que, num largo ou curto espaço de tempo, provoca muitas desvantagens à pessoa tornando-a incapaz de desenvolver uma atividade autonomamente, vivendo num estado de absoluta dependência dos seus pontos de vista, muitas vezes imaginários".
7. Rivalidade e vanglória: Outra doença citada pelo Santo Padre diz respeito ao excessivo valor pela "aparência", onde o primeiro objetivo são as "honorificiências", que "leva-nos a ser falsos e a viver um falso misticismo", enfatizou.
8. Esquizofrenia existencial: Os que sofrem com essa "doença" vivem "uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre" e vivenciam um "progressivo vazio espiritual" ao buscar em "títulos" o sentido de suas vidas. Essa esquizofrenia, segundo o Papa, "atinge muitas vezes aqueles que, abandonando o serviço pastoral, se limitam às coisas burocráticas, perdendo assim o contato com a realidade, com as pessoas concretas".
9. Terrorismo das fofocas: "Nunca é demais falar desta doença", indicou o Santo Padre ao destacar o mal das fofocas. "É a doença dos covardes que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. Defendamo-nos do terrorismo das fofocas", assinalou.
10. Divinizar os chefes: O Santo Padre indicou essa "doença" como mal daqueles que sofrem de"carreirismo e oportunismo". "Vivem o serviço pensando unicamente naquilo que devem obter e não ao que devem dar", frisou.
11. A indiferença: Francisco sinalizou o mal que a indiferença pode causar à vida comunitária pela perda da "sinceridade e calor das relações humanas" e de "quando por ciúme sente-se alegria em ver a queda dos outros em vez de o ajudar a levantar", destacou.
12. Cara de enterro: Segundo o Papa, essa "doença" se manifesta na "severidade teatral" e no "pessimismo estéril", e apresenta-se muitas vezes em sintomas de medo e insegurança. "O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa cortês, serena, entusiasta e alegre e que transmite alegria...". "Como faz bem uma boa dose de são humorismo", indicou Francisco.
13. Acumular bens materiais: Francisco criticou aqueles que buscam acumular riquezas na tentativa de "preencher um vazio existencial no seu coração", e motivado "não por necessidade, mas só para sentir-se seguro".
14. Círculos fechados: O Papa alertou também a respeito daqueles que procuram "viver em grupinhos", e mesmo o fazendo com boas intenções correm o risco de "cair em escândalos".
15. O lucro mundano e o exibicionismo: O desejo pelo poder para benefício próprio foi a penúltima "doença" ilustrada pelo Pontífice: "Quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter lucros mundanos ou mais poder", sublinhou.
(texto publicado no jornal Francisco Informa edição 15 - ano 2 - julho de 2015)
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Beato Luís Caburlotto - Cardeal Odilo Pedro Scherer
A famosa praça de São Marcos, em Veneza, estava tomada de povo. Não eram os turistas de todos os dias, que visitam a cidade aos milhares e se extasiam ao contemplar os mosaicos da basílica de São Marcos, a torre alta de tijolos e os edifícios harmônicos que compõem um dos cenários urbanos mais bonitos e conhecidos do mundo: no dia 16 de maio passado, foram paroquianos de Veneza e peregrinos de diversos países que encheram a praça, em composta assembleia litúrgica, para acompanhar a beatificação do Padre Luís Caburlotto.
Nascido em Veneza em 07.06.1817, filho de gondoleiro, o mais veneziano dos trabalhadores, o menino recebeu sólida educação humana e cristã. Depois dos estudos no seminário de Veneza, foi ordenado sacerdote na basílica de São Marcos, em 24 de setembro de 1842. Em meados do século 19, os tempos eram difíceis em toda Itália: depois da era napoleônica, e em plena revolução industrial, havia crise econômica, migrações, êxodo rural, falta de infraestrutura nas cidades, desemprego, pobreza difusa, violência... Além das tensões ideológicas entre "liberais" e "integristas", a crise moral e a desestruturação familiar eram marcantes. Será forçado ver aí semelhanças com a situação atual do Brasil, bem 150 anos depois?!
Padre Caburlotto foi encarregado de uma paróquia da periferia pobre de Veneza, com muita violência, abandono da infância, falta de escola, desintegração da família e degradação dos costumes. Além da pobreza, os paroquianos haviam também perdido as referências morais. Sem demora, arregaçou as mangas para ajudar o povo da paróquia San Giacomo dell'Orio; sua primeira preocupação foi dar escola e educação às crianças, com atenção especial para as meninas pobres, vítimas de frequentes abusos.
O padre olhava longe e queria prepará-las para o futuro: um dia, elas se casariam, seriam mães e poderiam educar bem os filhos e cuidar de suas famílias. Bem depressa, apareceu a ajuda voluntária e providencial de uma jovem senhora, que compreendeu o ideal e a preocupação do pároco e se dispôs a ajudá-lo. Foi o início da Congregação das Filhas de São José, uma congregação religiosa com o carisma da educação. As religiosas, orientadas pelo Padre Caburlotto, ocuparam-se com escolas, casas para menins órfãs ou com famílias desestruturadas e em dificuldades.
Ele compreendeu o quanto a educação era importante para o futuro das crianças e jovens; por isso, passou a dedicar-se também à escola para meninos e rapazes e aceitou a direção de importantes instituições públicas de educação em Veneza. Não permitiu que a educação fosse aprisionada nas lutas ideológicas entre liberais anticlericais e conservadores fechados, mas defendeu, acima de tudo, o direito das pessoas à boa educação, como condição para formar cidadãos livres e pessoas de bem. Por outro lado, teve a preocupação de promover a educação com valores morais, em todas as suas escolhas, sempre honrou os valores cristãos na educação.
Padre Caburlotto, educador visionário, faleceu em 07.07.1897, depois de ver bem consolidado o seu trabalho e também a Congregação das Filhas de São José. Elas estão presentes em vários países; em São Paulo, elas têm um colégio na Vila Matilde e outro em Santo André; mas também estão presentes em outros Estados do Brasil. A educação é motivo de constante preocupação também entre nós e a beatificação desse sacerdote educador, sem dúvida, é um sinal da Providência para que demos renovada atenção e importância à presença educadora da Igreja junto às crianças e jovens. Esse é um aspecto importante da missão da Igreja, que não pode ser abandonado.
Santos fazem santos. O menino Luís Caburlotto frequentou a escola dos Bens-aventurados irmãos Cavanis, fundadores de uma Congregação voltada para a educação, também eles; deles recebeu ótima formação cristã. Depois, como sacerdote, teve como bispo e Patriarca de Veneza aquele que se tornaria, mais tarde, o Papa São Pio 10º, que também o assistiu na hora do falecimento. A santidade é contagiante.
Na conclusão da beatificação, debaixo de um sol forte de primavera, o atual Patriarca de Veneza, Francesco Moraglia, aplicou ao beato Luís Caburlotto os pensamentos do Papa Francisco: esse sacerdote foi um verdadeiro missionário, que saiu ao encontro das pessoas nas periferias e se fez próximo delas; foi um verdadeiro bom pastor, com "o cheiro das ovelhas", que se dedicou a elas com todas as suas energias...
(texto publicado no jornal O São Paulo edição 3052 - ano 60 - 20 a 26 de maio de 2015)
domingo, 30 de novembro de 2014
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Como e quando surgiu o primeiro papa?
A Igreja Católica considera São Pedro - Simão Pedro, um dos 12 apóstolos de Jesus - o primeiro papa da história. Ele teria assumido a função de líder do cristianismo logo após a morte de Jesus, ainda no século 1. "Certamente naquele tempo não havia articulação entre todas as comunidades cristãs. Mas em um número expressivo delas surgia a liderança de Pedro como chefe dos 12 apóstolos. A Igreja Católica reconhece nessa proeminência inicial algo desejado por Jesus. Assim como os apóstolos tiveram sucessores, Pedro os teve. Por isso o papa é considerado o sucessor dele", afirma o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mas a questão não é tão simples assim. "Quando se pergunta pela origem do papa, é preciso refletir: está se pensando numa autoridade política, além de religiosa? Se assim for, teríamos de localizá-la no século 5, onde se destaca a figura de Leão Magno, que teve papel fundamental no contexto da queda do Império Romano", diz Pedro Lima. Também é importante lembrar que a palavra "papa" - que vem do grego pappas, "pai" - foi durante vários séculos usada para designar todos os bispos do Ocidente. Apenas no ano 1073, por ordem do papa Gregório VII, ela se tornou de uso exclusivo para o bispo de Roma, autoridade máxima da Igreja Católica. A única exceção é o patriarca de Alexandria, autoridade da Igreja Ortodoxa Grega, que também mantém o título até hoje.
(texto publicado na revista Mundo Estranho de abril de 2003)
Curiosidades sobre o pontífice - Kelli Franco
Detalhes interessantes da vida de Bergoglio
1) Antes de se formar em Filosofia e Teologia, Jorge Mario Bergoglio fez graduação e mestrado em química.
2) Enquanto bispo de Buenos Aires, o Papa Francisco tinha o costume de andar de ônibus e metrô pela cidade.
3) Apesar de ser conservador em temas como aborto e união entre pessoas do mesmo sexo, ele já falou em tolerar o uso de contraceptivos como método para evitar doenças.
4) Ele já teve uma namorada na adolescência e dizia que queria se casar com ela.
5) O Papa Francisco é fã de futebol. Ele é torcedor do San Lorenzo e afirmou não ter perdido nenhum jogo do campeonato argentino de 1946, quando o time foi campeão. Na época, o Papa tinha apenas 10 anos.
6) O pai do Papa Francisco se interessava por outro esporte: o basquete.
7) No último dia 19 de maio, a TV2000 da Conferência Episcopal Italiana afirmou que o Papa Francisco havia feito um exorcismo, em plena Praça de São Pedro. Nas imagens é possível ver o Papa se aproximando do jovem, colocando a mão sobre a cabeça do menino e rezando. O porta-voz do Vaticano negou o exorcismo, disse que o Papa apenas rezou por uma pessoa doente que foi apresentada a ele. A TV se desculpou.
8) Apesar das desavenças, o primeiro encontro com líderes de Estado realizado pelo Papa Francisco foi com a presidente argentina Cristina Kirchner. Eles almoçaram juntos e o Papa disse que considerava o encontro "informal" e um gesto de "cortesia e afeto".
9) O Papa Francisco considera o bispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes, um grande amigo. Ele disse que o brasileiro o "confortava" durante o conclave. Quando foi eleito, dom Cláudio Hummes foi o primeiro a abraçá-lo e teria dito "não se esqueça dos pobres". A frase do bispo emérito foi uma das inspirações para a escolha do nome do Papa.
10) O Papa Francisco tem apenas um pulmão. O outro foi removido após uma infecção ainda na juventude.
11) O Papa já criticou padres que se recusaram a batizar bebês de mães solteiras.
12) Em 2001, foi até um hospital e lavou os pés de pacientes portadores do vírus da aids.
13) O Papa Francisco tem diversos livros publicados. Entre eles: "Diálogos entre João Paulo II e Fidel Castro", "Corrupção e Pecado" e "Desafios para Educadores Cristãos".
14) O Papa Francisco não teve um papel protagonista de combate à ditadura argentina - uma das mais sangrentas da América Latina - como tiveram outros religiosos. Um jornalista chegou a acusá-lo de ter colaborado com militares em um episódio. Os defensores do Papa garantem que a atuação dele na defesa dos direitos humanos e civis durante a ditadura se deu nos bastidores. Foi negada qualquer relação do Papa com os militares.
15) Quando nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II, o Papa Francisco teria pedido aos fiéis argentinos que não fossem até o Vaticano para a cerimônia. Ele teria dito que o dinheiro da viagem deveria ser dado aos pobres.
16) Logo após ser eleito Papa, Francisco recusou um veículo oficial destinado ao bispo de Roma e preferiu andar de ônibus lado a lado com outros cardeais.
(texto publicado na revista Saiba Mais nº 1 - ano 1 - Papa Francisco no Brasil)
São Francisco de Assis - Kelli Franco
Tudo sobre o santo que inspirou o novo Papa
Para alguns São Francisco de Assis é a maior figura dentro do catolicismo desde o próprio Jesus Cristo, e o santo que renovou e inspirou o catolicismo no seu tempo voltou a inspirar a Igreja. A escolha do bispo Jorge Mario Bergoglio de se tornar o Papa Francisco - quando eleito substituto de Bento XVI - teve grande significado e repercussão.
Os franciscanos
São Francisco de Assis criou a ordem dos franciscanos que tinha em sua época e preserva até os dias de hoje a pregação itinerante. Os frades franciscanos também tem como características a preocupação com os pobres e vivem eles mesmos com o mínimo necessário para a sobrevivência.
Estigmas e visões
Durante a vida, foram várias as vezes que São Francisco de Assis teve visões místicas e inexplicáveis, principalmente quando se retirava para meditar sozinho em meio à natureza. Em uma dessas meditações, ele viu um homem com seis asas pregado em uma cruz. Enquanto olhava para a imagem, as feridas semelhantes aos estigmas de Cristo começaram a se abrir em seu corpo. São Francisco de Assis se tornou então o primeiro homem a ser estigmatizado. As feridas lhe causaram grande sofrimento durante a vida.
Patrono do meio ambiente
Outro aspecto presente na biografia de São Francisco de Assis é o amor pelos animais e pelo meio ambiente - características que o tornam atual diante dos debates crescentes relacionados a questões ambientais. Nos últimos anos de vida - segundo seus biógrafos - ele costumava se refugiar na natureza onde tinha muitas de suas visões. Hoje é considerado patrono dos animais e do meio ambiente.
A escolha do papa
O próprio conclave que elegeu o Papa Francisco aconteceu em um momento delicado para a Igreja Católica. Além da perda de fiéis, as denúncias contra bispos e padres e a crise dentro da própria Cúria Romana, o Papa Bento XVI renunciou ao Papado. Era imperativo que a Igreja tivesse uma renovação. Nesse contexto, Jorge Bergoglio é escolhido Papa, o primeiro da América Latina, um jesuíta. Homem de carisma e simplicidade já começa a ganhar o coração dos fiéis.
A inspiração de um brasileiro
Segundo o próprio Papa Francisco, a escolha do nome está relacionada a palavras ditas por um brasileiro no momento que Bergoglio foi eleito Papa. Dom Cláudio Hummes, bispo emérito de São Paulo, teria dito "não se esqueça dos pobres" no momento que abraçava o Papa recém-eleito. Os dois haviam permanecido lado a lado durante todo o conclave. Na mesma hora, o Papa se lembrou de São Francisco de Assis e estava feita a escolha do nome.
(texto publicado na revista Saiba Tudo nº 1 - ano 1 - 2013 - Papa Francisco no Brasil)
domingo, 23 de novembro de 2014
Por que Bento XVI espionou Padre Marcelo
Alertado sobre a existência de missas-espetáculo, culto ao personalismo e vulgarização da liturgia, o Vaticano investigou durante anos o sacerdote mais famoso da América Latina, por temer um cisma da Igreja Católica do País
Com batina e de microfone em punho, agitando o próprio corpo e o de uma multidão de fiéis, embalados por música dançante e coreografias animadas, Padre Marcelo Rossi, da arquidiocese de Santo Amaro, em São Paulo, imprimiu ritmo às modorrentas missas católicas, a partir do final dos anos 1990 e assim galgou o pedestal da fama. Em nome da evangelização do povo, o sacerdote cantor se tornou onipresente em programas de auditório e se transformou no artista cristão mais bem-sucedido da América Latina - amparado pela venda de milhões de exemplares de CDs, DVDs e livros. Padre Marcelo, porém, nunca gozou de prestígio entre a alta cúpula da Igreja Católica, em Roma. No ano em que comemora o 20º aniversário de sua ordenação, ganhou de presente a indigesta notícia de que fora alvo, durante quase uma década, de uma espionagem do Vaticano, mais precisamente da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão responsável por vigiar a retidão da doutrina cristã pelo mundo. O responsável pela investigação teria sido o papa Bento XVI - na época ainda cardeal Joseph Ratzinger, o prefeito dessa poderosa instituição, espécie de ministério da Santa Sé. Caso fosse mal avaliado por seus observadores romanos, o sacerdote brasileiro poderia ser impedido de rezar missas e celebrar a comunhão, além de ser obrigado a aposentar sua porção popstar e tudo o que advinha dela - produtos comerciais e a exposição acentuada em meios de comunicação.
Vale lembrar que, em meados dos anos 90, a manifestação de uma espiritualidade mais efusiva, como a presenciada na Renovação Carismática Cristã, da qual padre Marcelo é simpatizante, causava arrepios nas autoridades da Igreja. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) chegou a publicar um documento para disciplinar a atividade. Assim, após Rossi ser acusado por um de seus pares brasileiros, cuja identidade foi mantida em sigilo, de vulgarizar a liturgia, dar ares de espetáculo às missas e fazer culto ao personalismo, o Vaticano acionou a sua Congregação para investigar se a sua ovelha estaria atravessando a cerca, justamente num dos solos mais férteis do catolicismo mundial. "O padre Marcelo se tornou o personagem principal na diocese de Santo Amaro, que fora uma subdivisão da antiga Arquidiocese de São Paulo, e servia de escada para o bispo dele (dom Fernando Figueiredo). É assim até hoje. E isso causava, no mínimo, um estranhamento", afirma José Reginaldo Prandi, uma das maiores autoridades do País em sociologia da religião e professor sênior da Universidade de São Paulo (USP).
Para André Ricardo de Souza, autor de "Igreja in Concert: Padres Cantores, Mídia e Marketing" e professor do departamento de sociologia da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), a investigação teve como alvo não só o padre Marcelo, mas também dom Fernando, uma vez que o bispo deu o aval para a conotação midiática e a exploração comercial da fé em sua diocese. "Se ele permitia esse ritual, era suspeito também para o Vaticano", diz. O receio da Santa Sé, na opinião de Souza, era que um cisma surgisse no seio do catolicismo brasileiro. "Desde a Reforma Protestante, quando um clérigo ganha muita projeção, a Igreja se preocupa com a possibilidade de ele desencadear uma dissidência", afirma. "Então, preocupava, sim, que em Santo Amaro pudesse surgir uma vertente da Igreja Católica." Procuradas, a Nunciatura Apostólica, espécie de embaixada do Vaticano no Brasil, e a CNBB não quiseram se pronunciar sobre o assunto.
Grande mentor da Teologia da Libertação, movimento que interpreta o Evangelho à luz das questões sociais, o teólogo Leonardo Boff foi observado e punido pelo mesmo Joseph Ratzinger e sua Congregação para a Doutrina da Fé. Forçado a um silêncio obsequioso que culminou com a sua saída da ordem franciscana, em 1992, Boff não quis tecer comentários sobre alguém que, como ele, fora alvo de investigações do órgão católico. Apenas afirmou: "A inveja dos clérigos é a pior que existe. Roma não admite ninguém que lhe faça alguma sombra." Para o teólogo Jorge Claudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, o que mais choca é o silêncio que envolve este episódio. "Ninguém sabe, ninguém comenta, não se sabe quem denunciou... Não gosto do estilo do padre Marcelo, mas ele não foi e nem está sendo tratado condignamente.
Chanceler da Mitra de Santo Amaro, o padre Gilson dos Santos afirma desconhecer qualquer investigação feita pelo Vaticano contra um religioso da diocese. Em defesa do padre Marcelo, ele diz que, apesar da peculiaridade, ele nunca se desviou da doutrina católica. "Se fôssemos alvos de investigação, a congregação enviaria um observador aqui para conversar com o dom Fernando, acompanharia a nossa rotina e as missas do padre Marcelo. Ela jamais deixaria de nos dar direito à defesa", diz. Em 2009, não conseguindo provar as acusações, o Vaticano encerrou as investigações contra o sacerdote brasileiro. No ano seguinte, padre Marcelo, que não pôde se encontrar com Bento XVI em 2007, quando este esteve em visita ao País, recebeu, em Roma, das mãos do papa, o prêmio de Evangelizador Moderno. Estava dado o aval para seguir cantando e pulando em paz.
(texto publicado na revista Veja nº 2341 - ano 38 - 8 de outubro de 2014)
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Uma voz de coragem na Igreja - Patrícia Zaidan
Irmã Cecília Berno, a catarinense que ficou famosa na despedida de Bento XVI, retoma as críticas à Igreja defende a participação da mulher na hierarquia e nas grandes decisões do mundo católico e diz o que espera do novo papa, Francisco
Na Praça São Pedro, em Roma, no meio de uma multidão de 150 mil pessoas, uma mulher aparentemente comum chamou a atenção da imprensa internacional. Empunhando a bandeira do Brasil, ela assistia à despedida de Bento XVI, depois de sua renúncia motivada por falta de força física e de energia para combater escândalos sexuais e corrupção na Igreja Católica. No dia seguinte, a religiosa catarinense Cecília Berno, 66 anos, da Congregação das Irmãs de São José de Chambery, estava em vários jornais com suas corajosas análises. A favor de avanços - todos preteridos pelo pontífice -, ela defendia a ordenação de mulheres e a participação delas na hierarquia católica, o celibato como opção e a abertura da Igreja para as necessidades contemporâneas da humanidade. Na praça, ainda particularizou nosso país: "O papa foi muito duro com o Brasil ao silenciar vozes da Teologia da Libertação (a corrente que enxerga a aproximação dos pobres e a justiça social como compromissos cristãos)". Dias depois, explicou a CLAUDIA: "No tempo da sangrenta ditadura militar, calar os teólogos que estavam junto do povo sofrido foi como calar os profetas". Irmã Cecília reconheceu, porém, "o ato humilde" de Joseph Ratzinger e "a coerência evangélica" ao entender que o poder deve estar a serviço do bem comum. "No momento em que se viu sem condições de levar adiante a sua missão, ele deixou espaço para quem pudesse fazê-lo. É uma lição não só para a Igreja, mas para todos que exercem a liderança e o poder." No dia 13 de março, lá estava ela, de novo, na Praça São Pedro, esperando a fumaça branca que confirmaria a eleição do sucessor. Cecília observava a movimentação com sua bandeira do Brasil. "Tenho três e sempre participei com elas de atos importantes da vida democrática do meu país. Agora trago um pouco dele para a escolha do papa."
Como professora, "de salário curto", ela frequentou assembleias da categoria e manifestações políticas nos últimos 40 anos. "Cecília foi a primeira freira a assumir um cargo numa prefeitura gaúcha", lembra a deputada estadual Marisa Formolo (PT) - que, quando foi prefeita de Caxias do Sul (RS), contou com a irmã na elaboração do orçamento participativo, que inclui os moradores na decisão de onde colocar o dinheiro público. "Ela fez suas superioras entenderem que uma religiosa pode contribuir com a vida pública. Cecília é ótima articuladora. Negociava com a oposição e era admirada por todos", afirma a deputada. Foi com esse espírito que a irmã recebeu a inesperada eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio. "Fico feliz por ser um homem da América Latina. Ele sabe dos problemas dos países onde há desigualdade", ressalta Cecília. E avisa: "Vou apostar nele".
Embora de perfil conservador, inimigo do casamento gay e das políticas que flexibilizam o aborto, o arcebispo de Buenos Aires é filho de imigrantes italianos humildes e pautou sua missão evangelizadora nas favelas portenhas. Seu ato mais conhecido foi lavar e beijar os pés de doentes com aids, em 2001. Ao colégio de freiras onde aprendeu a ler, ele sempre voltava para rezar com as irmãs. Uma delas conta que Bergoglio as orientava a andar pelas ruas, convicto de que, se a Igreja não sair de si, perecerá. Ele gosta de tango e futebol e é amigo de dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo. No dia da eleição, ouviu um apelo de Hummes: "Não se esqueça dos pobres". E o tomou como inspiração para adotar o nome de São Francisco de Assis. Uma nódoa atribuída à biografia do papa - a cumplicidade com a ditadura militar em seu país - parece ter sido clareada pelo compatriota Adolfo Pérez Esquivel, ativista de direitos humanos e Prêmio Nobel da Paz em 1980. "Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois padres da prisão, sendo ele o superior dos jesuítas. Sei que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e não eram atendidos", declarou Esquivel. "Pode ter faltado coragem para acompanhar a luta pelos direitos humanos naquele momento difícil."
Coragem é o que todos esperam agora do novo pastor. Inclusive Cecília, que vive há 11 meses em Roma atuando na administração da sua congregação. Ela tem rezado pelo papa Francisco. "Da minha parte, farei tudo para ajudá-lo. Creio que ele sentiu o peso da Igreja, percebeu a sua responsabilidade quando viu a praça lotada, a repercussão da sua escolha. O mundo estava voltado para Roma. E começou bem: convidou o povo para fazer o caminho com ele, rumo ao reencontro do Evangelho." Cecília pondera que, para enfrentar os desafios que o esperam, é preciso ser como Cristo. "Jesus combateu a hipocrisia, o legalismo que usava a religião para explorar. Foi revolucionário, e a Igreja tem de ser revolucionária, responder aos anseios mais profundos do ser humano." Um deles diz respeito a avanços femininos. "É preciso abrir as janelas: a mulher poderia exercer o sacerdócio", defende a religiosa. E faz sua análise: "O projeto salvador de Deus, que é pai e mãe, é para todos e todas. Jesus resgatou a dignidade das mulheres, mas levou em conta a realidade do seu povo e, na época, elas eram totalmente excluídas, não participavam das instâncias da religião e da sociedade. Hoje os tempos são outros, temos no Brasil uma presidenta. Na Igreja, a mulher está na base, na evangelização, nos serviços, mas poderia atuar em todas as esferas. Com sua sensibilidade e dimensão maternal, traria novos ares". Esses temas, lembra, constam das conclusões do Concílio Vaticano II, que não foram retomadas. "A Igreja já tem uma reflexão feita. É só dar continuidade".
Sobre a proibição de um sacerdote constituir família, Cecília aponta para a liberdade de escolha. "Há os que desejam ser celibatários. Outros querem exercer o sacerdócio e casar", justifica. "Isso supriria a falta de padres e resolveria parte dos escândalos ligados à sexualidade." Ela é progressista também em relação ao casamento de divorciados, o que a Igreja não admite. "Penso que, nas relações humanas, o que vale é o amor. A lei e o ato religioso às vezes não correspondem à realidade. Ouvi de um padre que a maioria dos matrimônios não é legítima diante de Deus porque se baseia em outros interesses, distantes do amor e do afeto. Temos que buscar o diálogo para entender cada caso."
Em uma sociedade conturbada, em que valores essenciais são descartáveis, como crê Cecília, o papa Francisco vai se deparar, ainda, com a discriminação e a intolerância religiosa. Esses assuntos já estão no radar do argentino. A declaração, antes do conclave, de que a Igreja deveria se arriscar mais e não temer o contato com o mundo de fora, foi entendida por estudiosos como uma aproximação de outras religiões. É algo que ele fazia em Buenos Aires, ao manter laços fraternos com a comunidade judaica. Por tudo isso, Cecília reitera sua expectativa de bons tempos: "Vou ficar na confiança".
(texto publicado na revista Claudia - abril de 2013)
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Francisco pede perdão - Natalia Cuminale e Raquel Beer
O papa diz compreender o "efeito tóxico na fé" que os crimes de pedofilia cometidos por sacerdotes causam em suas vítimas
O papa Francisco proferiu, na semana passada, as palavras mais duras e diretas contra a pedofilia saídas da boca de um pontífice. "Estou profundamente machucado pelos pecados gravíssimos de abusos sexuais cometidos por membros do clero e, humildemente, peço perdão", disse, em missa de homilia conduzida na última segunda-feira. Pouco depois, o papa se encontrou com um grupo de três homens e três mulheres - irlandeses, ingleses e alemães - que sofreram abusos sexuais cometidos por membros da Igreja. A eles, Francisco pediu desculpas pela "omissão por parte de líderes católicos que não responderam a denúncias" e declarou compreender que os crimes produzem "um efeito tóxico na fé e na esperança".
As palavras de Francisco reforçam os sinais de que a Igreja Católica está decidida a conduzir uma limpeza interna que mira, além dos padres pedófilos, também os membros do sacerdócio envolvidos em casos de desvio e lavagem de dinheiro. Essa postura, que visa a aproximar a igreja de seus fiéis, inclui a abordagem de temas controversos e antes evitados, como a homossexualidade e o diálogo com outras religiões, como o islamismo e o judaísmo.
Após a missa, cada vítima de abuso conversou com o papa por meia hora. A alemã Marie Kane, de 43 anos, relatou que foi ouvida atentamente: "Até que pessoas como Sean Brady (cardeal irlandês acusado de acobertar casos de pedofilia) sejam punidas, não acreditarei em mudança". A falta de punição é queixa compartilhada pelas vítimas. Diz o americano Ken Smolka, de 70 anos, que afirma ter sido atacado por um padre em 1958, e que não estava no grupo recebido: "Os pedófilos devem passar o resto da vida rezando pelas vítimas".
Denúncias contra padre pedófilos começaram a vir à tona nos Estados Unidos no papado de João Paulo II, em 2002. Até 2010, a postura da Igreja foi mitigar o escândalo. Bento XVI endureceu as regras e incluiu o abuso sexual na categoria de crimes mais brutais entre os delitos canônicos. Dentro da Igreja, a pena chega a expulsão do sacerdócio. No âmbito criminal, a punição corre de acordo com a Justiça do país em que o delito ocorreu.
Nos últimos três anos, ao menos 400 sacerdotes foram expulsos por acusações de pedofilia. No mês passado, o arcebispo polonês Jozef Wesolowski foi condenado pelo abuso de menores, entre 2008 e 2013, na República Dominicana. Trata-se do mais alto sacerdote a ser punido. As vítimas acham puco. De 3420 denúncias tidas como verossímeis pelo Vaticano na última década, menos de um terço resultou em penalidades.
(texto publicado na revista Veja edição 2382 - ano 47 - nº 29 - 16 de julho de 2014)
segunda-feira, 2 de junho de 2014
sábado, 24 de maio de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
terça-feira, 5 de novembro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
domingo, 18 de agosto de 2013
Temos papa, temos pai - Lya Luft
Pode parecer supérfluo escrever sobre o assunto que domina a imprensa com análises acuradas, frases entusiasmadas, comentários escrachados, enfim, toda a humana coisa. Porque nós somos assim. Eu, que não sou muito praticante, mas acho religião, religiosidade, alguma espiritualidade fundamentais, estou encantada com esse Francisco.
Primeiro, pela modéstia e pobreza. "Ah, como quero uma Igreja pobre, como quero uma Igreja para os pobres" foi uma de suas exclamações, nesse tom de vovozinho - mas que ninguém se iluda, ali existe uma alma terna e férrea, como precisamos todos nós na figura de um pai, e ele é o pai. Recusou as vestes douradas e luxuosas, achou que seu apartamento acomodaria 300 pessoas, assombra os responsáveis por sua segurança e os encarregados de medievais formalidades, usa sapatos pretos simples, crucifixo de ferro no peito e se porta como uma pessoa: abraça pessoas, pede que rezem por ele, dá boa-noite às multidões ou lhes deseja bom almoço, e a legião de filhos se vê olhada, se sente grande.
Não sei comentar assuntos teológicos nem, na minha tranquila existência, imagino a loucura que seja administrar a Cúria, o Vaticano, onde seriedade e delírio, luxo, pompa e austeridade devem andar misturados, às vezes mal misturados, há séculos. Mas sei o que uma pessoa deseja de um pai. Primeiro, exemplo. Não adianta delegar a educação dos filhos à escola, à psicóloga, aos amigos. A base de tudo, da personalidade, do futuro, esse chão sobre o qual andaremos pelo resto da vida (tropeçando mais se for esburacado, ou com mais chance de não quebrarmos tanto a cara e a alma se for mais sólido), é a família, a casa paterna, são mãe e pai; o exemplo. "Ser exemplo, ah, eu não quero isso, é muito chato", me diz um pai ainda moço. "Então não posso fazer tudo o que quero, gora que sou adulto?" Sinto muito: é chato, é inquietante, é limitador, mas se você tem filho, sobretudo pequeno ou adolescente, você é responsável. Se quer ser sempre um gatão (uma gatinha), não tenha filho; bem melhor para todos, para o mundo. Pois é a você, ao pai, que eles vão tomar como modelo, ainda que você não queira. Pai mulherengo, pai festeiro demais, pai que não se interessa, que não olha para o tema (não é para fazer o tema pelo filho), que não repreende quando é preciso, que não estimula bastante, não abraça, não brinca, não joga bola, nõ procura saber dos amigos, não beija antes de pegar no sono, pai que ignora ou, quando comenta, ironiza, paralisa, pai autoritário demais, ou violento, pai que diz que não tem tempo... é o chato frágil que nos vai fazer cair mais, escolher pior, respeitar menos quem somos. Não falo só de filho homem. Esse meu "filho" é o agenérico, inclui as meninas, assim como esse "pai" inclui a mãe.
O grande pai que é o chefe dessa Igreja de incontáveis milhões de filhos, crentes ou meio desgarrados, é, antes de tudo, um exemplo. Com sua vida, suas convicções, seu jeito de ser: bondoso, simples, sim, mas não se iludam: vai ser, já começa a ser um reformador, um orientador, e para isso vai precisar estar alerta, e presente, e firme, e sábio, e humilde, todos os dias de seu papado - que desejo longo. Porque estamos precisados de acreditar que o mundo não é, sobretudo, caça ao prazer, ao poder, e irresponsabilidade infantil, mas algo bem melhor que isso.
Francisco, Francesco, com o gostoso som italiano, escolheu como inspiração aquele de Assis. Foi eleito para ser pai de um rebanho incontável e olha para além disso, dirigindo uma bênção aos não crentes, coisa rara até onde sei, uma bênção legítima quase nunca usada. Ele vai deslumbrar o mundo, vai assustar, vai castigar, vai fazer pisar em ovos, mudar de pouso ou de postura, adquirir compostura, sair correndo, indignar-se, aplaudir, ter esperança. Só não vai ser morno. E assim, eu aqui, a quem ele não conhece, cuja existência nem imagina, lhe desejo força, sucesso, paciência (mas não muita), paz interior, iluminação. Ele bem que vai precisar. E nós precisamos muito dele.
(texto publicado na revista Veja - 27 de março de 2013)
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