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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Por que pessoas bilíngues misturam as línguas que falam - Juliana Domingos de Lima


Ao contrário do que se pensava, a alternância linguística não é uma prática de quem não é fluente no idioma e exige grande capacidade

Em uma conversa de pessoas que falam mais de uma língua, elas tendem a falar ora em um idioma, ora em outro. O fenômeno tem um nome - alternância linguística ou “code-switching”, em inglês - e é descrito por vários pesquisadores de linguística como natural e próprio de quem é bilíngue.

Para muitos, essa alternância acontece porque não há domínio de uma das línguas, sendo preciso recorrer a termos e estruturas da segunda língua falada. Até a década de 1970, estudiosos de línguas e de seu aprendizado também pensavam assim.

Mas o que sociolinguistas, psicólogos sociais, antropólogos e outros pesquisadores descobriram é que o “code-switching” não é um erro, um sinal de que o desempenho na língua não é fluente. Na verdade, ele acontece com pessoas fluentes e é uma estratégia cognitiva que depende do contexto social em que a conversa acontece e tem finalidades específicas.

As novas explicações

Segundo um artigo de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora, essa mudança pode ser usada para trasmitir significados sutis, “como identificação étnica e cultural, papéis/hierarquia dos participantes da interação, valores sociais e situacionais”, para dar ênfase ao que se diz, complementar o vocabulário ou tornar a mensagem mais “dura”.

A mudança de uma língua para outra não tem a ver com não saber o termo equivalente, segundo o site especializado em educação bilíngue “Spanglish Baby”. No livro “Bilingual: Life and Reality”, o especialista em bilinguismo François Grosjean explica que a troca tem a ver com o fato de que aspectos diferentes da vida, como trabalho, família, escola e lazer de pessoas bilíngues requerem palavras em mais de uma língua. Grosjean chama isso de “princípio complementar”. As pessoas “naturalmente” migram para a outra língua se ela tiver uma expressão ou palavra mais exata ou enfática para comunicar o que se quer dizer, ou para marcar.

“Sempre que um falante bilíngue entrar em contato com um ouvinte que detenha suas mesmas línguas demonstrará uma habilidade especial: a de escolher variantes linguísticas ou fazer opções estilísticas conforme a situação social, o interlocutor ou o meio oral ou escrito em um dos idiomas que domina”, escreve Isabella Mozzillo, pesquisadora de bilinguismo e professora da Universidade Federal de Pelotas, no artigo“O Code-switching: Fenômeno Inerente ao Falante Bilíngue”.

Para Mozzillo isso faz com que o bilíngue tenha um comportamento linguístico específico ao interagir com um interlocutor que domine o mesmo par de línguas que ele.
Não é só para bilíngues

Apesar de o campo de estudos acadêmicos sobre “code-switching” tratar da alternância entre línguas, falantes de apenas um idioma usam corriqueiramente uma estratégia parecida.

A forma como as pessoas transitam entre vocabulários e formas de expressão diferentes em contextos distintos também pode ser chamada de “code-switch”. A mudança tem a ver com as múltiplas identidades que se tem, com o contexto da interação e as normais sociais: normalmente, não se fala da mesma forma com amigos, familiares, examinadores de uma banca, um juiz ou seu chefe.

Nos EUA, esse tipo de “code-switch” tem também forte conotação racial. Um sketch da dupla de comediantes “Key & Peele” mostra dois homens negros fazendo um pedido em um restaurante. Eles começam falando de uma maneira e carregam cada vez mais na variante de sua origem racial para marcar sua identidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A alfabetização no contexto bilíngue - Marina Freitas


Um dos marcos mais importantes na vida escolar é a aprendizagem da leitura e da escrita. Atualmente há diversas abordagens metodológicas que fundamentam as ações nas diferentes escolas. A alfabetização tem tal importância, pois fornece as ferramentas necessárias para que os demais aprendizados ocorram.

Anteriormente quando a cultura era passada de uma geração para outra apenas através da tradição oral, boa parte do aprendizado dependia de um interlocutor que podia compartilhar saberes.

A partir do momento em que a leitura e a escrita aparecem como um recurso acessível para todos, os indivíduos tornaram-se mais autônomos no processo de aprendizagem, podendo buscar o conhecimento em livros e outros registros escritos. Com o advento da internet a informação ficou ainda mais acessível para todos.

Nesse cenário bastante favorável ao aprendizado e ao acesso às informações, fica ainda mais evidente a importância da alfabetização como forma de ingresso no mundo do conhecimento. Após alfabetizada a criança que tem o apoio, direcionamento e orientação de bons educadores, pode tornar-se protagonista de sua jornada de aprendizagem.

Recentemente, a educação bilíngue tem sido uma ótima opção, considerada por diversas famílias. Nesse contexto, a alfabetização pode ocorrer de diversas formas, introduzindo antes a língua materna ou ambas simultaneamente. Mas será que este cenário é de fato favorável para as crianças?

Para que possamos fazer uma análise mais precisa, é necessário que nos aprofundemos um pouco no processo de aquisição linguística.

Para de fato dominar um idioma é necessário que as quatro habilidades linguísticas sejam asseguradas, e são elas: a compreensão auditiva, a fala, a escrita e a leitura. Quando uma língua é aprendida num contexto social, e não apenas como aprendizagem de língua estrangeira, a compreensão e fala costumam acontecer antes da leitura ou da escrita.

Para aprender a falar qualquer língua a criança parte de uma base comum, que é oferecida pelo aparelho fonador. Ela explora no balbucio todos os sons que somos capazes de produzir. A partir do que ouve na língua que é falada ao seu redor, a criança vai restringindo os sons que produz àqueles que pertencem à sua língua materna. E em paralelo vai atribuindo significado ao que ouve e ao que fala.

Para aprender a ler e escrever em qualquer idioma também é necessária uma base comum, que por sua vez é oferecida pelo corpo que integra diversos aspectos e habilidades. Como por exemplo: A linguagem já aprendida, que permite que a criança entenda a função e uso da mesma; os gestos de coordenação motora fina, que permitem o traçado das letras; e a coordenação viso-motora, que é necessária principalmente para a escrita e para o reconhecimento de símbolos associados a determinados sons, são algumas das habilidades necessárias.

Esse conjunto de habilidades precisa ser preparado antes que o processo de alfabetização se inicie, pois se a criança ainda não tem todo o repertório necessário, o processo não irá acontecer da forma desejada, podendo acarretar numa série de déficits, dificuldades ou distúrbios de aprendizagem.

Sendo assim, ser alfabetizada em mais de um idioma ao mesmo tempo deve ser visto como um processo natural e viável. Para isso a escola deve proporcionar experiências que preparem a criança para a alfabetização, independentemente da língua em que o processo irá ocorrer, ou se será em uma ou mais línguas.

O traçado firme e uma letra adequada são resultados de boa coordenação motora. O trabalho de aprimoramento da mesma se inicia na exploração da coordenação motora grossa, que vai a partir do seu refinamento possibilitar os movimentos de escrita precisos das mãos, braços e coluna. Brincadeiras como pular corda, correr e escalar brinquedos e atividades como amarrar os próprios sapatos, alimentar-se sozinho e modelar massinha contribuem para isso.

Para uma boa organização espacial da escrita e leitura são necessárias noções de lateralidade. Ler e escrever da esquerda para a direita e iniciar a escrita no canto superior esquerdo do papel são conceitos que só são bem incorporados quando a criança consegue organizar o próprio corpo e movimento no espaço. Atividades como pular amarelinha, jogos como boliche e outras brincadeiras que usam o espaço ajudam a criança a formar esses conceitos.

Se a criança se prepara de forma plena, ela se mostra pronta para aprender a ler e escrever em uma ou mais línguas. Quando vive esse processo em dois idiomas de forma paralela, a criança cria diversas hipóteses a respeito da construção de palavras em cada língua, tendo um conhecimento mais rico e profundo de cada uma delas. Isso se intensifica à medida em que testa e descarta hipóteses que funcionam em um dos idiomas e não no outro, ou quando testa hipóteses que funcionam em ambos.

Aprender desta forma é mais instigante, e permite que crianças em contextos bilíngues assumam, ainda antes de finalizado o processo de alfabetização, o protagonismo de seus processos de aprendizagem. Esse tipo de empoderamento, em ambientes escolares nos quais há acompanhamento de educadores preparados, costuma produzir crianças interessadas em aprender e buscar o conhecimento, fazendo com que o contexto bilíngue seja muito favorável para o processo de alfabetização e construção de saberes.


(texto publicado na revista Leve & Leia nº 136 - ano 9 - março de 2016)