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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Qual é a diferença entre adrenalina e endorfina? - André Bernardo


Uma é da caça; a outra, do caçador.

ADRENALINA

O que é?

Hormônio produzido nas glândulas suprarrenais.

Quando age?

Em situações de estresse, como ameaça de demissão ou salto de paraquedas, e de alerta, como ser pego por um assaltante ou ter sua maratona olímpica interrompida por um padre irlandês.


Qual seu efeito?

Aumento da frequência cardíaca, tonificação muscular (para lutar ou fugir) e dilatação das pupilas (para avaliar o tamanho da roubada).

Vicia?

Não. Os "viciados" em adrenalina são, na verdade, dependentes psicológicos da sensação de perigo. E o corpo colabora: as descargas de adrenalina tendem a aumentar com a frequência.

Faz mal?

A longo prazo, pode causar até diabetes e hipertensão em quem tem predisposição a essas doenças.

ENDORFINA

O que é?

Neurotransmissor, produzido na glândula hipófise, na base do cérebro.

Quando age?

Em situações que despertam relaxamento ou bem-estar, como fazer sexo, devorar um pote de sorvete, praticar exercícios ou realizar tarefas árduas, como furar a segurança da Olimpíada e abalroar um maratonista brasileiro.


Qual seu efeito?

Euforia e prazer. Quando não são atacados por fanáticos religiosos irlandeses, corredores costumam experimentar o runner's high ("barato da corrida").

Vicia?

É possível que sim. Segundo especialistas, a irritabilidade comum aos atletas após muito tempo sem exercícios é sintoma da abstinência de endorfina.

Faz mal?

O que pode causar danos à saúde é a tentativa de liberar mais endorfina e exagerar nos exercícios.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 280 - julho de 2010)








terça-feira, 24 de maio de 2016

Como funciona a acupuntura? - Carolina Almirón


A acupuntura tem como objetivo equilibrar a energia vital, conhecida como qi (lê-se "chi"), que flui pelo corpo em 14 meridianos e é formada pelo yin e yang. Se essas duas forças opostas não estão em harmonia, surgem distúrbios físicos e psicológicos. Embora tenha sido reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina em 1995, sua eficácia não é 100% comprovada. "Pesquisas já provaram que a estimulação de pontos no pé tem reflexos no córtex cerebral", defende Ruy Yukimatsu Tanigawa, diretor da Associação Médica Brasileira de Acupuntura. Algumas possíveis justificativas para os resultados são a elevação do nível de triglicérides, anticorpos e neurotransmissores, e a liberação de endorfina e vasodilatadores. A teoria mais popular, conhecida como gate control, diz que a percepção da dor é controlada por um "portão" no sistema nervoso. As fibras nervosas que carregam o impulso da dor são pequenas e os portões que o recebem seriam os primeiros a se fechar durante a acupuntura.

Técnica milenar

Os vários tratamentos e seus princípios de funcionamento

Auriculoterapia

Segundo a acupuntura, os abundantes nervos da orelha têm conexão com todas as partes do corpo. A correta estimulação dos pontos auriculares tem reflexos na saúde e no equilíbrio de um órgão enfermo ou dolorido. As agulhas devem permanecer na orelha por 5 dias, com um esparadrapo.

Tradicional

As agulhas, descartáveis, são inseridas numa profundidade de meio a 5 centímetros, em ângulos de 15 a 90 graus em relação à pele, e retiradas depois de um período que pode variar de poucos segundos a 1 hora, dependendo dos resultados pretendidos.

Reflexologia

Pontos na sola dos pé e nas juntas da região do tornozelo têm correspondência com órgãos internos. A estimulação desses pontos ajudaria no tratamento de problemas nas outras partes do corpo.

Moxabustão

O calor liberado pela queima de uma pequena quantidade da planta medicinal artemísia (que depois de trabalhada recebe o nome de lã de moxa) estimula o ponto da acupuntura diretamente sobre a pele do paciente.

Ventosas

Nesta prática - conhecida também como cupping -, o ponto da acupuntura é estimulado pelo acúmulo de sangue na área. Frascos de borda lisa com uma abertura estreita são aquecidos e usados para "sugar" a pele.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 221 - 16 de dezembro de 2005)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Faça para os outros, faça para você - Denise Mirás


Mais do que uma qualidade, a generosidade estimula no ser humano a produção de oxitocina, hormônio que protege o coração e o sistema vascular, atuando também na manutenção do equilíbrio da saúde física e mental do indivíduo

Você está no metrô e observa aquele moço que se levanta para alguém mais cansado se sentar. O sorriso denuncia: ele ficou feliz com a própria atitude e também com o agradecimento reconhecido do outro. Poderia ter cedido o assento por educação, mas o mais provável é que tenha agido por empatia, por perceber a situação mais precária do outro e querer ajudar. A generosidade rendeu felicidade para o rapaz - e esse prazer, pontos preciosos para a manutenção do equilíbrio de sua saúde.

Ser bondoso gera um efeito cascata surpreendente no organismo. Reações químicas são desencadeadas e, no caso, para o "lado bom" da história. A generosidade segue com neurotransmissores e hormônios, que entram em ação e são "bem recebidos" pelos órgãos do corpo, para avançar com suas tarefas de proteção a sistemas como o cardiovascular, por exemplo.

Professora de Psiconeuroimunologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas, Maria Cristina dos Santos explica que estudos sobre a influência das emoções no organismo datam ainda do fim da década de 1930, comandados pelo endocrinologista austro-húngaro Hans Selye. "Hoje, temos muitos trabalhos sobre esse tema, de emoções agindo no sistema nervoso central e sobre a integração e a comunicação desse sistema com o endocrinológico e o imunológico", diz. Mas a maioria desses estudos é sobre o "lado mau" da influência das emoções negativas, porque aí se buscam os medicamentos para combater as patologias.

A ideia de prevenção, ou ao menos de usar as emoções positivas proporcionadas por atitudes generosas e felizes para manter a saúde, ainda é bem recente. Estudos sobre os resultados que essas emoções desencadeiam no organismo começaram lá pelos anos 2000, como diz Maria Cristina. "Mas sabemos que essas sensações de prazer favorecem respostas hormonais benéficas."

A professora diz que o estresse crônico, por exemplo, faz com que a liberação do hormônio cortisol não tenha "freios", o que é muito prejudicial ao organismo. Daí a importância de procurar evitar situações ruins, ou de fazer o contrário: ir atrás de coisas que nos são prazerosas para a liberação de neurotransmissores e hormônios que atuem favoravelmente no sistema imunológico, ajudando na manutenção da saúde.

A questão é química

Químico com especialização em Bioquímica e Ph. D. em Química Orgânica, David R. Hamilton é autor de Why Kindness is Good for You (ou Por que ser bondoso é bom para você), um dos livros que tratam do tema generosidade e sua relação com a saúde. O especialista conta que trabalhou por quatro anos na indústria farmacêutica, mas seu interesse em pesquisar mais sobre o efeito placebo (quando pessoas se recuperam de doenças ao receber um remédio que, na verdade, é apenas placebo - não tem efeito nenhum) fez com que saísse do trabalho convencional para se dedicar ao estudo de como mente e corpo interagem, escrever livros e dar palestras.

"Em primeiro lugar, ser generoso nos faz mais felizes. E essa ligação funciona como um gatilho para o cérebro produzir endorfinas, o que leva a um estado de euforia parecido ao efeito produzido pela morfina, mas de forma mais atenuada", explica. "Acredita-se que esse estado, conhecido como 'Helper's High', seja causado pelo aumento no nível de serotonina e de dopamina no cérebro."

Conexões espelhadas

Há outro processo a ser citado, segundo David Hamilton. Quando fazemos uma conexão com alguém e nessas ocasiões nos mostramos generosos, produzimos oxitocina, que protege o coração e o sistema vascular. Se a oxitocina é "cardioprotetora", como se diz, a bondade também é, porque ativa a produção desse hormônio, reduzindo a pressão arterial e limpando os radicais livres das artérias, para que não causem problemas ao coração. O estudioso alerta que, se existem processos químicos em nosso corpo associados a nos sentir energizados e felizes, também existem aqueles associados a nos sentir deprimidos. "Quando uma pessoa se sente energizada, positiva, pode-se dizer que seus sistemas imunológico e cardiovascular estão funcionando melhor. Da mesma forma, podemos  dizer que estão piores quando a pessoa está 'para baixo'. Nosso biológico é, em geral, um espelho de como estamos nos sentindo."

Também por isso é preciso tomar cuidado com efeitos contrários da empatia. "Ver uma pessoa sofrendo emocionalmente pode produzir a mesma dor na gente. Isso acontece pelo que chamamos de contaminação emocional. Pelo MNS [sigla em inglês para, literalmente, Sistema do Neurônio-Espelho], o neurônio-espelho 'reage' da mesma forma se a ação for nossa ou se estivermos vendo outra pessoa nessa ação. Isso faz com que nos sintamos felizes ao lado de uma pessoa que está feliz, ou triste e estressada na presença de alguém que esteja se mostrando assim."

Sabendo da relação generosidade-felicidade-saúde, os interessados podem aceitar um "desafio de bondade" proposto pelo professor: tem de se comprometer a fazer algo de bom a cada dia, por uma semana, ou três. "Esse desafio ajuda as pessoas a criar um hábito e, assim, esse tipo de comportamento mais generoso se torna mais natural para elas."

Cara a cara é melhor

Professor de Medicina Preventiva e Bioética na Stony Brook University, membro da Academia de Medicina de Nova York e da Real Sociedade de Medicina de Londres, Stephen G. Post é o autor do livro Why Good Things Happen to Good People: How to Live a Longer, Healthier, Happier Life by the Simple Act of Giving (Por que coisas boas acontecem para pessoas boas: como ter uma vida mais longa, mais feliz, mais saudável se doando, simplesmente). "Sabemos que pensar no outro e em suas necessidades diminui o nosso nível de estresse e de ansiedade, além de ativar uma parte do cérebro que libera dopamina, um dos quatro 'produtos químicos' da felicidade - os outros são endorfina, serotonina e a oxitocina."

Mas o médico norte-americano destaca uma peculiaridade: há aumento da oxitocina, o hormônio da confiança e da tranquilidade, ligado à compaixão, à empatia, quando a ajuda a outras pessoas é feita "cara a cara", presencialmente. "No geral, a participação em atividades de apoio a outros indivíduos ou a dedicação a um trabalho voluntário por algumas horas na semana estão associadas a um incrível aumento de felicidade (o que é relatado por 96% de voluntários de um estudo), melhora na saúde física (relatado por 68%), baixa de ansiedade e estresse (em torno de 76%), assim como melhora de sono."

Para Stephen Post, o assunto se resume basicamente a uma "desprogramação" da mente do indivíduo que está voltado para si mesmo, para os próprios problemas, desligando emoções destrutivas, como hostilidade e amargura, então associadas ao estresse crônico. "Ser bondoso e se comportar adequadamente são grandes fontes de felicidade, que quase literalmente ligam um circuito emocional de alegria."

Bom para a cabeça

Alessandra Dutra é psicóloga do esporte e participou da conquista do título mundial pela Seleção Brasileira Feminina de Handebol, em 2013. O trabalho é diário para as garotas não se deixarem levar pela pressão, pela ansiedade - o que também pode favorecer lesões. E trabalho em equipe tem muito desse aprendizado da convivência com o outro, de ações generosas em favor do grupo - e não individualistas.

A representação social da generosidade,  como Alessandra diz, "está altamente relacionada hoje com saúde e é de extrema relevância". Também para ela, "a generosidade não é apenas uma virtude, mas um hábito, um exercício para enfrentar exigências do cotidiano como regulação de energia e administração do estresse, um caminho para o contágio positivo do amor, uma forma de combater a indiferença a qualquer coisa, de não nos afastarmos do coletivo, que tanto nos ensina."


(texto publicado na Revista da Cultura edição 101 - dezembro de 2015)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Contentamento espanta gripes e viroses - Sonia Hirsch


Chega junto com o outono, em dias lindos e limpos,o medo da pneumonia. Os jornais abrem manchetes sobre os casos fatais. Mais de dez laboratórios já estão pesquisando remédios e vacinas. Cada um de nós acompanha atentamente a evolução dos fatos, e também dos boatos, que não são confiáveis, mas dão muito assunto. Fica assim combinada a vida: a qualquer momento podemos sofrer a invasão de um poderoso inimigo.

Será? Melhor não. Mas como não?

Escrevo para uma amiga, médica infectologista, que responde: "A melhor recomendação é evitar conglomerados, fazer uma boa hidratação e cultivar o contentamento - virtude que aumenta as defesas do organismo."

Grande sabedoria! O ar que circula num ambiente cheio de gente não é mesmo lá grande coisa e poe sim estar cheio de agentes irritantes para as mucosas do pulmão, além de micróbios de todo tipo. Boa hidratação significa água em quantidade, água que limpa, lava, refresca, ajuda a renovar as células e é essencial para a vitalidade de todos os tecidos, inclusive respiratórios. É o contentamento, bem... O contentamento é simplesmente uma das chaves da vida.

Para começar, se há contentamento não há medo. E, se não há medo, qual é o problema? Um vírus, por pior que seja, jamais vai se significativo para a pessoa que está bem. Como disse minha amiga, tudo pode ser apenas uma questão de estar com as defesas em ordem. Em se tratando do ser humano, defesa quer dizer zilhões de pequenas células espalhadas por todo o corpo, prontas a neutralizar a ação de qualquer micróbio. Mas quer dizer também pensamentos e sentimentos positivos, que reconhecem as qualidades do corpo e não criam ansiedade por qualquer coisa.

Em psicologia é sabido que certas pessoas têm "o perfil da vítima". Saem à rua tão convencidas de que podem ser assaltadas que atraem o assaltante. Se forem visitar alguém que está com gripe, saem espirrando. "Ué", alguém vai dizer, "mas isso é comum. Gripe pega!"

Pega quem? Quem está predisposto a ser pego, ora essa. E também não pega assim de uma vez. Vai encostando, dá uma indisposição, uma vontade de se enfiar na cama, um friozinho, talvez uma leve dor de garganta - e aí é que se vê quem manda no barco. "É na tempestade que se conhece o timoneiro", diz o ditado. Se o corpo está dando todos os sinais de que precisa descansar, e a gente não descansa, está querendo gripe. Aí quem manda é o pobre do vírus, que em si é uma coisinha ridícula, nem organismo próprio ele tem. Se, ao contrário, a gente respeita o que está sentindo e descansa, toma um caldinho quente, se agasalha, corta os excessos e fica contente por poder fazer isso, em pouco tempo tudo vai bem de novo. Foi dada ao organismo a oportunidade de se autoregular, e ele agradece.

Alimentação pobre em nutrientes e rica em gorduras, laticínios, açúcar, produtos químicos, álcool e toxinas. Estresse, falta de sono, falta de atividade física, falta de afeto e outras emoções não nutritivas. E exagero nos temperos artificiais, como o ar condicionado gelado. Tudo isso nos desregula. Ainda mais no outono, cujo ar mais seco favorece gripes, tosses, resfriados. Um vento fresco sopra de repente e pede sempre um casaquinho ou uma écharpe para não entrar pelos ombros e afetar o interior do corpo. É hora de colocar mais uma colcha na cama e meias de algodão para dormir com os pés quentinhos.

Na medicina tradicional chinesa, o outono é a estação dos pulmões, quedão ritmo e ordem à vida - ou trazem depressão e melancolia se estiverem fracos e sem energia. Reina a energia de metal, que tem a ver com tesouros e colheitas. Cada um vai colher o que plantou.

É um tempo de maturidade. A capacidade de realização do ser humano se apresenta como tranquilidade, paz, serena confiança nos processos de renovação da natureza. A gente olha para dentro e reconhece quem é. Faz o que tem que fazer e fica contente. Pronto.



(texto publicado na revista Bons Fluídos nº 49 - junho de 2003)