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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Para entender as emoções - Naíma Saleh


Saber lidar com os próprios sentimentos é uma lição quedeveser ensinada às crianças assim como ler e escrever: de forma raciocinada e lógica - mas, claro, com muito carinho e paciência. Aprenda a fazer isso na prática com a alfabetização emocional

"Não foi nada." "Está tudo bem." "Não precisa chorar." Quantas vezes você já tentou conter um ataque de raiva ou fazer cessarem as lágrimas do seu filho com frases assim ? Embora a intenção seja legítima - afinal, quem gosta de ver uma criança sofrer? -, essa postura desperdiça a oportunidade de ensinar seu filho a lidar com as próprias emoções e, consequentemente, de aprender um bocado sobre si mesmo. Reconhecer os sentimentos que nos afligem e encontrar formas saudáveis de expressá-los são a base da alfabetização emocional, um conceito formulado na década de 1990, época em que surgiram as primeiras pesquisas neurocientíficas para entender como o cérebro humano processa as emoções e os pensamentos. Essa ideia vem ganhando força recentemente, como você vai conferir nesta reportagem.

A alfabetização emocional parte do princípio que, assim como é possível aprender a reconhecer as letras por sua grafia e associá-las a um fonema, os sentimentos também podem ser identificados e atrelados a determinados comportamentos. Basta saber interpretar as reações que as emoções provocam em nós: lágrimas de tristeza, sorriso largo de alegria, mãos inquietas de ansiedade, a voz que se eleva na hora da raiva. Nossas expressões faciais, gestos, tom de voz e as palavras que usamos refletem o que sentimos. Mas a alfabetização emocional não se limita a decifrar esses sinais. "O conceito inclui saber comunicar os próprios sentimentos de forma adequada e produtiva, perceber que as emoções influenciam as nossas decisões diárias e refletir constantemente sobre como nos sentimos em diferentes situações", explica a psicoterapeuta Fernanda Furia, fundadora da consultoria em Psicologia e Educação Playground da Inovação e mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes pela University College London (Inglaterra).

Ganhos para a vida toda

Ao adquirir esse controle sobre as emoções, podemos tomar decisões mais saudáveis e conscientes, sem agir por impulso. "Toda vez que uma circunstância desperta sua raiva e você responde a esse sentimento agressivo com outra agressão, perde o controle das suas emoções. Com a alfabetização emocional, que leva à educação dos sentimentos, a criança aprende a relevar, começa a pensar que a pessoa que lhe ofendeu talvez não esteja em um bom momento e adquire o controle de suas reações", diz o educador Celso Antunes, autor de diversos livros sobre educação, com tradução para vários idiomas, como Educar em um Mundo Interconectado - Um Livro para Pais e Professores (Editora Vozes).

Em longo prazo, a alfabetização emocional pode trazer ao seu filho o que se chama de inteligência emocional, que nada mais é do que a habilidade de lidar com seus próprios sentimentos e com os de outras pessoas. Essa capacidade tem sido cada vez mais valorizada tanto no mercado de trabalho como na própria vida escolar. Uma pesquisa feita pelas Universidades Penn State e Duke (EUA), e publicada no periódico American Journal of Public Health, encontrou uma conexão entre as habilidades socioemocionais durante a infância e o sucesso na vida adulta. Os pesquisadores acompanharam 800 indivíduos, primeiro durante a educação infantil, depois aos 25 anos. A avaliação mostrou que aqueles que, quando criança, já demonstravam mais disposição para ajudar e compartilhar, na vida adulta tinham mais chances de ter se formado e conquistado um emprego em período integral. Em compensação, aqueles que, quando pequenos, apresentavam dificuldades na resolução de conflitos, em dividir e em ouvir outras crianças tinham na vida adulta menor probabilidade de ter concluído a faculdade ou o colégio, maior propensão ao abuso de substâncias ilícitas e a ter problemas com a Justiça. Ese e vários outros estudos comprovam o que professores e empregadores já percebem na prática: não basta ter conhecimento técnico, bom raciocínio e uma formação sólida. No mundo de hoje é imprescindível saber se relacionar com as pessoas.

Talvez o maior ganho que a alfabetização emocional pode proporcionar seja o crescimento do seu filho enquanto ser humano. "A criança que entende melhor sobre o próprio mundo emocional tem uma chance maior de ser ela mesma. E isso tem várias implicações positivas", afirma Fernanda. Crianças que dominam seus sentimentos tendem a reagir menos intensamente às frustrações, desenvolvem uma autoestima maior, entendem melhor os comportamentos das outras crianças, se comunicam com mais clareza, estabelecem relações mais amorosas e colaboram mais com as pessoas à sua volta. Em última instância, a alfabetização emocional também atua na promoção da saúde mental, um termo usado para descrever o estado de bem-estar no qual um indivíduo consegue se desenvolver de maneira plena utilizando suas próprias capacidades. "A educação das emoções serve indiretamente como ferramenta para evitar comportamentos autodestrutivos, porque torna o indivíduo mais forte e equilibrado para fazer boas escolhas", diz Tânia Paris, presidente da Associação pela Saúde Emocional das Crianças (Asec), de São Paulo.

Tá doendo, sim!

Muitas vezes, para proteger a criança do sofrimento, os pais tentam minimizar aquilo que ela está sentindo. Mas isso não funciona. A criança só entende que está sendo compreendida se percebe que tem espaço para encarar o que sente. "Uma coisa é identificar o que gerou o sentimento, outra é o sentimento em si. Se ela quebrou um brinquedo, pode ficar profundamente triste. Um adulto pode olhar e pensar: 'É só um brinquedo', mas para a criança, isso significa muito. Por isso, os pais precisam fazer um exercício de separar a causa do sentimento em si", diz Tânia.

Em vez de dizer: "Não precisa ficar bravo. É só um carrinho", fale: "Que pena, você gostava desse brinquedo, né?", abrindo espaço para que seu filho se manifeste. "O pai e a mãe devem ajudar a criança a colocar um nome para o que sente. Fazendo isso com naturalidade, ensinamos que os sentimentos são genuínos", completa Tânia. E esse processo pode começar muito antes que a criança tenha pronunciado as primeiras palavras. Tânia que já é avó, cita o exemplo de seu neto: "Quando ele era muito pequeno, minha filha colocou na geladeira um monte de carinhas. Ele mal sabia falar, mas, quando ficava com raiva, dizia do jeitinho dele: 'Eu vou para a geladeira'. Chegando lá, apontava a cara que mais tinha a ver com o que sentia. É simples, mas eficaz", conta. Vale lembrar que é fundamental manter o contato visual com as crianças desde que são bebês, porque é assim que aprendem a ler as expressões.

Outro ponto importante, segundo Fernanda, é ajudar a criança a fazer a ligação entre o que ela sente e o que faz. "Me dei conta de que, quando você está feliz e animada, gosta de pular." "Estou vendo que você grita muito quando está com raiva." "Criando um contexto favorável, o bebê e a criança pequena terão espaço para demonstrar as suas emoções, mais livremente e sem julgamentos", diz a psicoterapeuta. É claro que isso não quer dizer permitir que seu filho jogue coisas no chão ou agrida alguém. Mas tudo bem admitir que dá vontade de fazer isso vez ou outra. "As crianças, principalmente as menores, não têm muito vocabulário para falar de emoções. Suas reações são mais motoras, físicas. Por isso, empurram o colega que as aborreceu ou se jogam no chão quando estão frustradas", diz a orientadora educacional Dulce Silveira, da Escola Nossa Senhora da Misericórdia (RJ). Com isso em mente, em vez de recriminar seu filho pela reação que ele teve, mostre que você o entende. Use frases como "o papai também tem vontade de se esconder quando está com medo". Se colocar nessas situações ajuda a criança a se acalmar e a entender que as outras pessoas passam pelo mesmo que ela. E que não há nada de errado com isso.

Lembre-se de que todo sentimento oferece ao seu filho a chance de aprender algo, mesmo que nem sempre pareça positivo à primeira vista (e que você fique com o coração apertado). A própria neurociência não coloca mais emoções como raiva e medo sob o rótulo de "destrutivas". Elas são chamadas agora de "emoções defensivas", por serem desencadeadas como um mecanismo de autopreservação frente a uma situação adversa. Mesmo provocando certo mal-estar, elas podem ensinar muito ao seu filho. Coragem sem medo vira imprudência. Assim como tranquilidade sem uma pitada de raiva pode se transformar em passividade.

Sensações transitórias

A grande chave é mostrar à criança que, além de ser normal ser tomado de vez em quando por sentimentos que não provocam sensações agradáveis, eles são transitórios. Aquela impressão ruim não vai durar para sempre. Relembre um episódio que aconteceu com ele ressaltando como tudo se resolveu depois. Mas saiba que não adianta dizer ao seu filho para não ter medo quando estiver assustado e tremendo. Nem ensiná-lo a lidar com a frustração quando ele acaba de tirar uma nota baixa. É preciso manter sempre um espaço aberto para que todos na família falem sobre suas emoções. Pergunte ao seu filho quais são os acontecimentos que o deixaram feliz no dia e os que não foram tão bacanas assim, e conte sobre você.

Sim, você! Aprender a lidar com os próprios sentimentos não é uma lição exclusiva para os pequenos: precisa também fazer parte do processo de amadurecimento dos pais. "Da mesma maneira que não é recomendado minimizar os sentimentos das crianças, não dá para negar os nossos. É fundamental que o pai e a mãe se sintam seres humanos e não super-heróis", alerta Tânia. Isso quer dizer que esse movimento de reconhecimento das emoções deve acontecer nos dois sentidos: dos pais para a criança, mas também dela para os pais. "Alfabetização emocional é também aplicar esse conhecimento sobre os sentimentos para melhorar a relação com o próximo", completa Fernanda. É assim que seu filho vai começar a desenvolver a empatia. Demonstre que você tem dias ruins, perde a paciência, tem vontade de gritar, mas que é possível se acalmar e assumir o controle das emoções, em vez de ser controlado por elas. Esse embate entre cabeça e coração, razão e emoção, é uma questão que seu filho terá que aprender a balancear pelo resto da vida. Mas com a sua ajuda, ele pode estar bem mais preparado e confiante. Afinal, não há como controlar os sentimentos, mas é possível encontrar uma forma mais leve de lidar com eles.


(texto publicado na revista Crescer nº 204 - julho de 2017)

sábado, 30 de setembro de 2017

As mães medeias - Analdino Rodrigues Paulino


Apesar da Lei da Guarda Compartilhada, de 2014, na maioria dos casos a Justiça dá às mulheres a responsabilidade sobre os filhos - e muitas usam isso para afastá-los do convívio com os pais

Na tragédia grega Medeia, de Eurípedes, escrita em 431 a. C., uma mulher carregada a um só tempo de ódio e de amor decidiu vingar-se do marido, Jasão, que a abandonara por outra. Para afastar os filhos definitivamente do pai, ela matou as duas crianças do casal.

Medeia foi o primeiro registro do que hoje se conhece como alienação parental. O adjetivo refere-se à palavra parente, pois geralmente é um familiar que dificulta o acesso de um dos genitores - o pai ou a mãe - aos filhos. Pela experiência que temos dentro da Associação de Pais e Mães Separados (Apase), contudo, são os homens, assim como Jasão, os que mais se queixam da alienação parental. Muitos foram separados de seus filhos pela ex-mulher e precisam mendigar e lutar incansavelmente para conseguir uma razoável convivência com suas crianças e seus adolescentes. Eles são vítimas das "Medeias" brasileiras.

O fato de os pais separados sofrerem mais com essa privação não é uma decorrência de que as mães sejam piores do que  eles. Essa disparidade ocorre por uma questão estatística. Na maior parte das separações, são elas que ficam com a guarda unilateral dos filhos. É algo que já não deveria acontecer. Desde 2014, a lei estabelece que , quando não há acordo entre a mãe e o pai, deve-se optar pela guarda compartilhada. Com esse expediente, ambos os genitores devem dividir entre si as responsabilidades, o tempo e a atenção com as crianças.

A despeito da legislação, nosso Judiciário é conservador e tem dificuldades em aplicá-la. Embora homens e mulheres sejam iguais perante a lei, isso geralmente não é levado em conta após a separação. Em muitos casos, os juízes usam apenas o livre-arbítrio para tomar suas decisões. Em 2015, um ano depois de a lei ser aprovada, o IBGE concluiu que 86% das guardas eram unilaterais e dadas às mães. As compartilhadas representavam apenas 13%. O que restava disso tudo - ou seja, apenas 1% - eram os casos em que a guarda ficava com o pai, com os avós, com os tios ou com outras pessoas. Os pais, portanto, raramente ganhavam a guarda unilateral. Em todo o território nacional, Brasília era a cidade com a maior proporção de guarda compartilhada: 25%. São Paulo, onde o Judiciário é mais conservador, tinha um dos menores índices: 9,5%.

Favorecidas por nossos juízes, as mulheres, então, têm mais chance de usar o poder que recebem de uma forma despótica. Além de tentarem barrar o acesso do ex-marido aos filhos e apagar sua figura, elas também podem querer dominar a relação com as crianças ou com os adolescentes. Não é raro que um pacto de lealdade seja estabelecido entre a mãe e os filhos. Mesmo que aproveite os momentos que tem com o pai, a criança pode querer esconder essa satisfação da mãe. Pode até mesmo dizer a ela que foram negativos os passeios e os dias passados com ele. Com o tempo, também pode acontecer de os filhos começarem a contribuir com a mãe nos atos de alienação parental, o que costuma destruir os vínculos com o pai de tal maneira que eles dificilmente poderão ser recompostos no futuro. À medida que a alienação parental evolui, cresce também a violência contra os pequenos. No limite, essa realidade pode assumir sua forma mais perversa, quando a mãe faz uma falsa acusação de abuso sexual contra o pai.

A acusação de abuso sexual é, sem dúvida, a mais grave que alguém pode receber. Seja qual for o caso, é imperativo que ele seja investigado e que a justiça seja feita. Na nossa avaliação, porém, um número desproporcional dessas denúncias é falso, já que o objetivo é apenas isolar o pai. Segundo um levantamento feito em 2012 pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, as falsas denúncias de abuso sexual chegavam a 80% dos registros nas varas de família da capital do estado. Mesmo nos casos em que a acusação contra o pai é falsa, os prejuízos são enormes. Essas investigações tomam tempo. Quando o pai é finalmente inocentado, sua relação com o filho acaba comprometida pela perda dos vínculos, sobretudo o afeto e a confiança. As feridas ficam para sempre.

Entre os problemas perceptíveis em crianças e adolescentes que passam pela alienação parental estão a apatia, a introversão, a diminuição do interesse na escola e a dificuldade de relacionamento com amigos e colegas. Nos casos mais graves, as crianças podem fugir de casa, fazer sexo precocemente, envolver-se com drogas ou entrar na prostituição. Também há relatos de autoflagelação e tentativas de suicídio. Não bastasse tudo isso, ao chegar à idade adulta, a maioria das pessoas que suportaram a alienação parental na infância ou na adolescência acaba por envolver os próprios filhos em comportamentos similares, promovendo um triste círculo vicioso.

No Brasil, um terço dos casais se separa e novas famílias são formadas. Cerca de 35% de todos os divórcios são litigiosos e danosos aos filhos. São 80 000 mães atirando-se contra 80 000 pais, e vice-versa, por ano. Ainda que uma lei de 2010 tenha sido criada para evitar a alienação parental, a norma não tem conseguido estancar a sangria e promover o bem-estar e o equilíbrio entre muitas crianças e adolescentes. Pais e mães separados precisam entender que não devem envolver os filhos nas rixas de casal. Eles não podem ser usados como moeda de troca em infindáveis lutas judiciais em que só há perdedores. Os filhos continuarão sendo dos dois, que manterão a responsabilidade e o dever de criá-los a quatro mãos.


(texto publicado na revista Veja edição 2545 ano 50 nº 35 - 30 de agosto de 2017)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Psicólogos de Harvard revelam: pais que criam "boas" crianças fazem estas 5 coisas - Luiza Fletcher



Nesta era de tecnologia, descobrimos que a educação dos filhos é um pouco diferente dos tempos antes do iPod, iPhone, computadores, Internet, e todos as outras modernidades incríveis que nos consomem. As crianças brincavam nas ruas. Jogavam bola nos campos. Brincavam do lado de fora até que as luzes de rua se acendiam e elas sabiam que tinham que ir para dentro de casa. Nós estamos criando crianças muito diferentes agora do que há vinte ou trinta anos atrás. Mas, talvez seja hora de voltar ao básico.

Este é um mundo novo. As crianças nascidas nessa era automaticamente recebem aparelhos para entretê-las. Mas, onde estamos errando? Psicólogos da Universidade de Harvard vêm estudando o que torna uma criança bem criada nestes tempos de mudanças. Eles concluíram que existem vários elementos que ainda são essenciais.

Aqui estão 5 segredos para criar uma “boa” criança, de acordo com psicólogos de Harvard:

1.Passe tempo com seus filhos

Passar o tempo com seus filhos significa deixar tudo de lado por um tempo, ler um livro, chutar uma bola, caminhar com ele, ou apenas jogar um jogo à moda antiga. Em termos mais simples, isso significa que você interage com sua criança. Estas são as coisas das quais elas vão se lembrar. Elas vão se esquecer do que você comprou. Só querem passar mais tempo com seus pais.

2.Fale com eles em voz alta

De acordo com os pesquisadores de Harvard, “Mesmo que a maioria dos pais diga que o cuidado com seus filhos é uma prioridade de tempo, muitas vezes as crianças não estão ouvindo a mensagem.”

Passe tempo com eles para descobrir o que está acontecendo em sua vida. Verifique com professores, treinadores. Descubra se há uma mudança em seu comportamento. Permita que seu filho se sinta confortável para conversar com você. Seu filho precisa saber que é a prioridade em sua vida. As crianças necessitam de confirmação através de palavras. As palavras são importantes. Converse com elas e compartilhe suas histórias sobre a escola, trabalhos de casa, amigos, e assim por diante.

3.Mostre ao seu filho como resolver problemas sem estressar sobre o resultado

Um dos maiores presentes que você pode dar ao seu filho é a capacidade de analisar e resolver problemas. Deixe seu filho decidir por si mesmo o que ele quer. Você não pode resolver seus problemas o tempo todo. É saudável lhe permitir experimentar a vida através de suas próprias lentes. Conquistas são importantes e, ao lhe permitir determinar o que quer, você o está presenteando com a consciência.

Você quer criar um adulto produtivo. Permita que ele venha até você e compartilhe seus problemas e o oriente a fazer as melhores escolhas possíveis. É difícil dar um passo atrás quando vir filho cometer um erro. Mas faz parte da aprendizagem e da evolução da nossa humanidade.

Rick Weissbourd, que conduziu o estudo, diz: “Estamos muito focados na felicidade de nossos filhos. Estamos fazendo-os se concentrarem apenas em casos de sucesso?” A pressão para a realização pode ter muitos resultados negativos”, diz Weissbourd, que é codiretor do projeto.

4.Mostre a sua gratidão a seu filho regularmente

Os pesquisadores dizem que “os estudos mostram que pessoas que praticam o hábito de expressar gratidão são mais propensas a serem úteis, generosas, compassivas, felizes, saudáveis e perdoarem com mais facilidade.” Os pais devem dar tarefas aos seus filhos e, em seguida, expressarem gratidão por suas realizações. É importante que as crianças vejam que a gratidão é um dom notável. Sempre que fizerem algo, honre-as e as reconheça pelo seu desempenho.

Como pais, é nosso devem ensinar nossos filhos a serem compreensivos e compassivos para com os outros. As crianças aprendem pelo exemplo. Leve-as a um abrigo. Permita-lhes testemunharem como têm sorte de terem uma casa. Ajudar seus filhos é não apenas dar-lhes uma chance de serem adultos surpreendentes, mas também remover o preconceito da intolerância e diferença. Tudo começa em casa.

5.Ensine seus filhos a expandirem a sua visão

Isso remonta à mostrar-lhes gratidão. Deixe seu filho experimentar o mundo através de sua compaixão. Os pesquisadores dizem que “quase todas as crianças empatizam e se preocupam com seu pequeno círculo de familiares e amigos.”

Ensine seu filho a ser um bom ouvinte, a interagir sem o uso de tecnologia, ser compreensivo com outras pessoas fora de sua família, e não julgar qualquer pessoa com base em sua religião ou nacionalidade. Estamos em tempos cruciais da evolução humana, e esta nova geração tem a capacidade de mudar o nosso mundo. Expor seu filho a diferentes culturas ajuda a desenvolver uma pessoa amorosa, gentil e feliz.

Você é responsável por criar almas amorosas. Ajude-as a navegarem neste mundo através da compaixão, amor e bondade.

“Criar uma criança respeitosa, carinhosa e ética sempre pode parecer um trabalho árduo. Mas é algo que todos nós podemos fazer. E nenhum trabalho é mais importante ou mais gratificante.”

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A tática do mascarado - Melaine Martins


Roberto é motoboy. Após passar por um trauma, decidiu que o mundo precisava de uma lição. Desde então, toda madrugada, com o rosto coberto, arremessa objetos nas casas da periferia de São Paulo

Todos os dias, Roberto Barros atravessa labirintos de carros, asfalto e fumaça para fazer o seu trabalho. Sobre duas rodas, percorre uma média de 150 quilômetros diários entregando jornais e revistas. Ele é um dos mais de 200 mil motoboys da cidade de São Paulo. Há mais de duas décadas, seu cotidiano é marcado pelos olhares de reprovação dos motoristas, pelo estresse dos engarrafamentos e pelo risco constante de colisões - atualmente, 65% dos acidentes de trânsito ocorridos no Brasil envolvem motocicletas.

Essa rotina ficou ainda mais pesada em 2002. Naquele ano, Roberto sofreu dois duros golpes que o levaram à depressão: a morte da mãe e o término de um namoro de longa data. Desolado, fez terapia e entrou para um grupo de voluntários da igreja. Dois anos depois, tomou a atitude que transformaria sua vida, marcando a superação do trauma e o enchendo de motivação para levantar da cama diariamente. Nascia, assim, o Motoboy Abandonado. O que você acha que Roberto começou a fazer?

Às vésperas do Dia das Crianças, em 2004, Roberto teve uma ideia: entregar brinquedos aos pequenos moradores da região onde vive. Começou pedindo a parentes, amigos e vizinhos que doassem itens usados. Não deu certo: recebeu brinquedos velhos e quebrados. "Doados mais para esvaziar o armário que para fazer o bem", lamenta. Mesmo diante do descaso, não desistiu. Pelo contrário, percebeu que faltava conscientizar os adultos sobre a importância de cada um fazer a sua parte. Com dinheiro do próprio bolso, comprou bonecas, bichos de pelúcia, carrinhos, raquetes e aviões de plástico para arremessar no quintal das casas junto a uma cartinha dizendo "Entregue este brinquedo para uma criança que precisa de você".

A iniciativa lhe fez tão bem que virou rotina. Desde então, todos os dias, antes de começar o expediente, quando o sol ainda nem nasceu, Roberto já está nas ruas distribuindo embrulhos. Ele arremessa os pacotes em pelo menos dez casas na Vila Ema, onde mora, na Zona Leste de São Paulo, ou em bairros vizinhos, como Vila Matilde, Vila Formosa e São Mateus. Tudo anonimamente, o que gerou desconfiança entre os moradores. "Muitos acreditavam ser um político atrás de votos... Isso nunca passou pela minha cabeça! Mas se eu não era um político, era o quê?", questionou-se. E foi assim que Roberto, que na juventude sonhava seguir a carreira de ator, criou o seu personagem: o Motoboy Abandonado. Um super-herói cujos poderes são levar carinho para as crianças e, por meio do seu exemplo, transformar os adultos. "Muitas vezes, os moradores que recebem os presentes se sentem estimulados a comprar um brinquedo e levar para uma criança que precisa, formando um exército de pessoas trabalhando pelo próximo", conta.

Em 12 anos, Roberto calcula ter arremessado mais de 40 mil brinquedos. Em datas especiais, como Dia das Crianças e Natal, ele distribui 500 pacotes. O projeto já lhe rendeu, em 2014, o troféu do prêmio Paulistano Nota 10, que reconhece trabalhos voluntários das mais diversas áreas. Porém, mesmo aparecendo em programas de TV, ele não conseguiu nenhum apoio. Os brinquedos, que custam em média R$ 1 cada, comprometem mais da metade do seu salário. Ainda assim, o motoboy ampliou suas ações. Há alguns anos, manda envelopes pelos Correios para casas do seu bairro com uma moeda de R$ 1 e a seguinte mensagem: "Compre um brinquedo e entregue para uma criança". "Quando você ajuda alguém, pode esperar que outra pessoa vai te ajudar também".

Na calada da noite, o Motoboy Abandonado segue sua missão. E, mesmo que você more longe do raio de ação desse herói mascarado, já pode se considerar impactado por seus superpoderes. Afinal, a maior lição que Roberto ensina é universal: apesar dos obstáculos do dia a dia e das rasteiras da vida, sempre é possível fazer o bem para os outros, e esse é um caminho seguro para a felicidade.


(texto publicado na revista Todos - A vida é feita de histórias. Qual é a sua? - dez2016/jan 2017)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

What is bullying? - Lucas Mendes


Achou estranho um título em inglês na Revista Canção Nova? Sim, mas para descrever este fenômeno, hoje tão presente na nossa sociedade, nós precisamos estender o seu significado em inglês.

Bullying é uma palavra que deriva do termo "bully" que significa "valentão", mas está longe de ser algo relacionado à valentia. São atitudes verbais ou físicas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação, podendo chegar até mesmo a agressões.

Saindo do campo teórico e indo para o campo prático, faço uma pergunta: o termo "valentão" lhe traz um sentimento positivo ou negativo? Para mim traz a representação de um sentimento negativo. Você deve imaginar. "Ah, então ele deve ter sofrido muito bullying". E eu posso dizer que sim. Eu passei por isso. Mas, acabei escolhendo o caminho errado, eu me tornei um "valentão".

Durante minha infância sempre fui gordinho. Isso nunca me impediu de fazer coisas que eu gostasse, como por exemplo, jogar futebol. Porém, as piadinhas e os apelidos sempre me incomodaram. Com certeza, ninguém gosta de ser chamado de baleia, gordão, elefante ou de outros apelidos.

Então, um dia percebi que tinha duas opções: conversar com meus pais e professores ou usar do meu tamanho para intimidar e ser respeitado pelos meus colegas. Olhando assim, a segunda opção pareceu-me bem mais atrativa. E eu decidi por ela, mesmo sabendo que não seria a melhor escolha.

Assim passei de vítima a praticante. Comecei a agredir de forma verbal e física, colocando medo oas que zombavam de mim. mas, se engana quem acha que eu vejo isso com admiração nos dias de hoje. Aprendi que não podemos nos orgulhar em ser alguém que intimida o outro ou que transforma o outro em motivo de risada.

Quero aproveitar para dizer que o bullying não é algo apenas entre "emissor e receptor", mas existe também o espectador, e essa plateia quem dá continuidade às humilhações, ele não ajuda quem sofre, não apóia quem faz, apenas assiste, e não existe show sem plateia, concorda?

Outra observação transformo aqui em alerta: o bullying acontece na escola, em família e até mesmo no trabalho. Porém, o local onde este fenômeno tem ocorrido com muita frequência é na WEB. Tornando-se aí o famoso "cyberbullying", praticado através da INTERNET.

O cyberbullying é a prática do bullying dentro da internet. Isso permite ao praticante o anonimato, as pessoas não estão cara a cara, proporcionando uma maior crueldade dos comentários e ameaças, causando efeitos tão graves ou até maiores.

Abro um breve espaço para me dirigir aos pais e professores. Você professor, fique atento ao que ocorre na sua sala de aula. Procure saber se acontecem brincadeiras constantes, humilhações e apelidos pejorativos entre os seus alunos. É de sua responsabilidade conter este tipo de situação.

Pais, vocês devem ficar atentos ao comportamento dos seus filhos! Caso eles mostrem desânimo para com a escola, estejam chateados e abatidos. É preciso buscar o diálogo, pois as vítimas nem sempre procuram ajuda para solucionar o problema. E quando não o fazem, é por vergonha ou medo.

Quero finalizar esta comunicação com uma dica para você que é estudante, professor, pai, mãe, trabalhador, seja lá qual a sua condição na sociedade: não se submeta a ser uma vítima do bullying. Não tolere o Bullying. Não deixe de procurar ajuda. Bullying não é brincadeira. É coisa séria. Saiba: não fomos criados para a humilhação. Fomos sim criados por Deus para amarmos o próximo como a nós mesmos.



(texto publicado na revista Canção Nova nº 190 - ano XIII - outubro de 2016)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

13 razões para ter um animal de estimação


1) A interação com bichos estimula os bebês: eles aprimoram a percepção dos cinco sentidos e a coordenação motora. Assim, podem se desenvolver mais rápido, aproveitando os estímulos para aprender a engatinhar e a caminhar, segundo os passos do animal.

2) O compromisso de levar o pet para passear inclui atividade física na sua rotina. Num estudo feito nos Estados Unidos, cães foram emprestados a sedentários durante 11 meses. No fim do período, as caminhadas resultaram numa perda média de 6 quilos por participante.

3) Segundo outro estudo estadunidense, ter nosso bichinho por perto em momentos de estresse pode evitar picos de pressão arterial. Além disso, a companhia dos animais de estimação está relacionada a níveis mais saudáveis de colesterol e triglicérides no sangue.

4) O convívio com animais de estimação na infância fortalece a imunidade. A conclusão é a de um estudo finlandês, que chancela a sabedoria popular: as crianças precisam ser moderadamente expostas a micro-organismos para amadurecer o sistema imunológico.

5) Para quem espirra só de ver um gato, pode parecer mentira, mas, segundo a Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, conviver com bichinhos durante a infância diminui em cerca de 33% o risco de desenvolver alergias.

6) Uma pesquisa feita nos Estados Unidos durante 20 anos concluiu que donos de gato correm 40% menos risco de sofrer ataque cardíaco. Outro estudo, do mesmo país, indica que qualquer espécie de animal de estimação ajuda a tornar nosso coração mais resistente.

7) Outra pesquisa estadunidense descobriu que acariciar um cachorro pode diminuir em até 28% a necessidade de analgésicos por pacientes internados após cirurgias nas articulações. Trata-se da Terapia Assistida por Animais, internacionalmente reconhecida.

8) Os bichos também contribuem para a nossa saúde psíquica. Pesquisas indicam que, na companhia de um animal, pacientes com transtornos mentais, como Alzheimer, realizam com maior facilidade atividades fundamentais, como se alimentar e conversar.

9) Um estudo da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, mostrou que os níveis dos hormônios do bem-estar, como a serotonina, aumentam quando estamos acompanhados de nossos animaizinhos, afastando distúrbios como a depressão.

10) Para os tímidos, os bichos são aliados na socialização. No caso do cachorro, o empurrãozinho é mais direto. Já que a interação é constante nos passeios. Mas qualquer espécie rende histórias que servem como pretexto para um começo de conversa.

11) Cuidar de animais de estimação é uma tarefa que ajuda as crianças a desenvolver o senso de responsabilidade. E não é só isso: o convívio com os pets estimula outras habilidades sociais fundamentais, como a empatia e a compreensão das diferenças.

12) Segundo um estudo da rede britânica Pets at Home, bichinhos, de fato, deixam as crianças mais felizes. E uma pesquisa publicada na revista estadunidense Psychology Today estende esse benefício: em qualquer idade, bichos trazem autoestima e felicidade.

13) Mesmo quando se vão, os bichinhos dão lições importantes às crianças. A dolorida experiência do luto ajuda a amadurecer, mostrando que algumas situações tristes são inevitáveis, fogem ao nosso controle, mas precisam ser superadas.



(texto publicado na revista Sorria para ser feliz nº 49 - mai/jun de 2016)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Volte a ser criança - Wayne Dyer


As pessoas me dizem sempre: "Você não cresce nunca! Continua o mesmo menininho? Por que é que você não age de acordo com a sua idade?"

Enquanto me disserem que sou infantil, tudo bem. Gosto de ser criança. Para mim, as crianças são como água fresquinha de moringa. Mais ainda, as pessoas que tenho ajudado a tornarem-se mais acriançadas parecem sentir-se melhor com elas mesmas e com suas vidas.

Você é capaz de estar comentando para os seus botões: "Claro que eu também gostaria de ser criança outra vez, sem nada para me preocupar, mas tenho responsabilidades familiares, preocupações financeiras e outros problemas a considerar. Como é que a gente pode voltar a ser criança e continuar um adulto responsável?"

Um retorno voluntário à infância significa que você tenha de desistir de ser adulto. Significa só que deve relaxar um pouco, tirar sua máscara de adulto, recordar a forma espontânea como você costumava apreciar o mundo, tudo e todos, com aquele olhar maravilhado.

Segundo certa mitologia que conheço bem, existe, algures na Terra, uma fonte mágica cujas águas têm a propriedade de restaurar a juventude perdida. Eis cinco caminhos que vão dar a essa fonte:

Riso. A criança que existe dentro de você adora rir. Às vezes os pequenos riem "por nada", por pura alegria. Se você estiver rindo pouco, tente levar-se menos a sério. Recorde experiências da sua infância que na altura lhe pareceram tristes mas que agora merecem uma boa risada... e excomungue-as rindo.

Quando voltar a acontecer qualquer coisa que o ponha mal-humorado, pergunte a si mesmo. "Será que vou poder rir disto mais tarde?" Se assim for, por que não rir agora mesmo? Um amigo contou-me esta história: "Quando eu andava na escola pública, fui suspenso por uns dias por ter feito uma guerra de ervilhas no refeitório. Eu tinha queimado as pestanas para ganhar uma bolsa de estudos num colégio particular; por isso, fui para casa completamente destroçado. 'Bom", pensei, 'acabou-se. Nunca me darão a bolsa.' Aí, uma vozinha falou dentro de mim: 'Você só tem 13 anos, e pensa que levar uma suspensão é o fim do mundo? Ainda por cima por tão pouco? Nesse momento, parei de chorar por dentro e comecei a rir."

Fantasia. As crianças adoram sonhar, usar a imaginação - e o mesmo aconteceria consigo se você deixasse. Lembra-se de como, quando você era novo, sozinho em seu quarto à noite, um galho se transformava numa varinha de condão, e um pau de vassoura num cavalo? Aquele mundo da infância, rico em fantasia, não era apenas divertido, era também um dos aspectos mais saudáveis da sua vida. Provavelmente, quanto mais você se entregou a ele e quanto mais essas tendências foram encorajadas, tanto mais criativo você é hoje.

Como adultos, nós podemos permitir-nos o luxo de fantasiar com a mesma alegria e benefícios para nossa saúde mental. Faça uma lista de 20 coisas que há muito sonha fazer - seja participar numa maratona, aparecer na televisão ou visitar a Bulgária. Agora, risque as fantasias cuja realização imediata parece impossível. Deve ficar pelo menos um sonho que você possa realizar hoje mesmo. Faça-o, depois comece a planejar o segundo mais viável da lista. Gradualmente, você irá transformando em realidade muitas das suas fantasias "infantis" e a maioria acabará por constituir proezas bem sólidas.

Espontaneidade. A criança que existe em você morre por ser impulsiva e aventureira. A espontaneidade é, porém, uma das coisas que os adultos mais facilmente reprimem neles próprios... e em seus filhos, incutindo-lhes o medo do desconhecido e retirando-lhes sua natural curiosidade pelo viver.

Se você tiver uma vida completamente planificada, com todos os objetivos predeterminados, se estiver obcecado pela organização e ordem em tudo o que faz, você já esqueceu o que é ser criança.

Na próxima vez que um amigo sugerir qualquer coisa em cima da hora, e você começar a dizer "Ah, não posso", pare. Pergunte a você mesmo se vale a pena continuar a dizer sempre "Não posso". Dê ouvidos a essa criança há tanto tempo extraviada dentro de você.

Aceitação. Quando o bebê entra no mundo, não pode saber se tudo aquilo podia ou devia ser diferente do que é. Ao crescer, a criança vai aprendendo a controlar certas coisas: a beber por um copo, usar talheres, fazer amigos - e é aqui que costumam surgir os problemas. O jovem adulto, se é inflexível quanto ao "modo como as coisas deviam ser", costuma ficar bravo com o mundo por ele não corresponder às suas expectativas e exigências.

Confiança. Quando tiver oportunidade, observe duas crianças se encontrando pela primeira vez. Começam timidamente, até se interessarem uma pela outra: mas, se esse interesse for suficientemente forte, não tardarão a ser amigas. Por quê? Porque confiam uma na outra.

Se você costuma reagir "friamente" quando conhece alguém, isso talvez signifique que seus instintos infantis, naturalmente confiantes, foram corroídos pela desconfiança, o que pode ter origem numa falta de confiança em si próprio, dolorosa fonte de conflito interno. Para aprender a apreciar todas as pessoas que lhe são apresentadas, você vai ter de se deixar levar por você criança.

Esta semana,  faça o possível e o impossível por conhecer pelo menos uma pessoa que seja muito diferente de você. Se for professor, apresente-se a um operário, ou pare para bater um papo com o jornaleiro da esquina. Confie em que você e ele hão de tirar o melhor proveito da situação. Não se esqueça de que também haverá uma criança se debatendo em seu interlocutor, e que essa criança não deixará certamente de pressentir sua sinceridade - desde que você se sinta à vontade consigo mesmo.

Estes cinco caminhos ajudá-lo-ão a reencontrar a criança que se perdeu em você - essa criança que sabe como lidar de maneira mais eficiente e feliz com tudo e todos que encontra, liberta de atitudes preestabelecidas. Permitindo-se recapturar essa essência da infância, você vai conseguir ficar em paz consigo mesmo e manter o seu coração eternamente jovem.



(texto publicado na revista Seleções nº 136 - tomo XXIII - setembro de 1982)

sábado, 29 de outubro de 2016

Projeto educacional mostra às crianças a importância da abelha para a vida humana - Graciela Zabotto


Na Cidade das Abelhas, em Embu das Artes, as crianças aprendem de forma divertida, que a principal função desse inseto não é produzir o mel, mas sim ser a principal polinizadora de várias espécies de vegetais.

No início desse mês, o Fish and Wildlife Service (FWS), órgão norte-americano com funções semelhantes ás do Ibama aqui no Brasil, anunciou que, pela primeira vez, as abelhas entraram para a lista de espécies em extinção nos EUA. E não é só o mel que faltaria com a ausência desse simpático inseto listrado em preto e amarelo. As abelhas são essenciais para a vida humana, pois são responsáveis pela polinização das plantas. Quando buscam seu alimento nas flores, elas levam junto ao corpo o pólen para outras plantas, possibilitando assim a reprodução. Sem sua principal polinizadora muitas espécies vegetais deixariam de existir.

Como toda essa infeliz realidade em torno de um inseto pequeno no tamanho - cerca de 2 centímetros - mas de extrema importância para a humanidade, quem poderia imaginar que, há pouco mais de 27 km de Osasco, existe um local com, aproximadamente, 80 colmeias com cerca de 60 mil abelhas cada uma? Criada em 1980, em Embu das Artes, a Cidade das Abelhas tem 100 mil metros quadrados de muito verde com reserva florestal da Mata Atlântica e milhares de plantas melíferas, que produzem pólen e néctar em abundância em vários meses do ano. Mentora e realizadora das principais atrações que existem hoje no local, foi Vera Ferraz Donnini quem fundou a Cidade das Abelhas, hoje considerada um Parque Ecológico, Cultura e de Lazer. Conhecida também como professora "Veruska", o objetivo era conscientizar a população, principalmente as crianças, sobre a importância das abelhas para a vida no planeta.

"Ela queria mostrar que sem as abelhas e a polinização cruzada nas flores, nós, seres humanos, não teríamos alimentos. Esta é a principal função das abelhas e de todos os insetos polinizadores", disse Wilson Donnini, diretor da Cidade das Abelhas, ao lado da também diretora, Idely Lopes Donnini. Pensado para ser uma sala de aula ao ar livre para as crianças, na Cidade das Abelhas todos os ambientes são temáticos. As cores preto e amarelo predominam e em cada canto há boneco ou desenho desse inseto que trabalha em prol da vida.

Com palestras e teatro interativo com o biólogo e 'abelha rainha', as crianças aprendem a importância das abelhas no transporte de pólen de uma flor para a outra, a chamada polinização, processo onde as flores são fecundadas, iniciando o desenvolvimento de frutos e sementes. Por ser mais rápida, a abelha é o animal que melhor faz a polinização, isso porque ela consegue voar em ziguezague e, após um tempo com a colônia instalada em certo local, consegue saber qual o melhor horário para coletar pólen. Para envolver as crianças no mundo das abelhas, o Parque conta com várias atividades que falam a mesma língua dos pequenos. No Abelhão - um boneco com 3 metros de altura e 18 de comprimento - a criançada aprende sobre a anatomia do inseto. Com paredes de vidro, no Apiário Modelo elas podem ver as abelhas produzindo. No Museu de Apicultura e Mel, os visitantes mirins aprendem sobre a história desse delicioso doce natural e batem um papo com os técnicos apicultores. Já na Casa do Mel, eles podem degustar os méis das floradas da Cidade e ainda conferir pratos, meleiras, canecas e outras pelas exclusivas com abelhinhas.

As crianças também podem brincar no 'LaBEErinto'; se aventurar no 'Arbelhismo' - arvorismo não radical com desafios com vários graus de dificuldade - e nos tobogãs fechados no alto da 'Abelha Gigante'. A diversão continua no 'pula-pula da abelhinha', na cama elástica e na "Colmeia Gigante', que reproduz o som original das abelhas.

As crianças ainda têm contato mais próximo com a natureza durante o passeio pelas trilhas do parque ecológico e conhecem as minas d'água. "A Cidade das Abelhas tem três nascentes que desaguam no rio Embu Mirim e seguem para a Bacia Hidrográfica do Guarapiranga", lembrou Donnini. Tudo isso para mostrar aos pequenos cidadãos a importância das abelhas para a vida humana.

Donnini afirma que a maioria das crianças chega ao Parque com medo das abelhas, mas, segundo ele, a situação muda até o final do passeio. "Quando elas saem, após as palestras e a aproximação com as abelhas, as crianças geralmente perdem o medo e se tornam defensoras das abelhas". Já são 36 anos de vida. Segundo Donnini, por ano, cerca de 15 mil crianças e adultos visitam o Parque Ecológico, Cultura e de Lazer Cidade das Abelhas, certificado oficialmente pelo Projeto Oásis de conservação de mananciais e reconhecida pelos órgãos estaduais e entidade internacionais. Seu Museu de Apicultura e Mel, com biblioteca e a história do mel, das abelhas e dos apicultores no mundo, foi oficializado e faz parte do Cadastro Nacional de Museus do IBRAN-Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura/Governo Federal.

Mel in natura

Donnini explica que todo mel 'in natura' provem de plantas, onde as abelhas recolhem o néctar, transformam em seu pré estômago e depois regurgitam pela boca. Assim o mel é um produto do organismo da abelha. Todo mel, conforme a florada original, deverá cristalizar (açúcarar na linguagem popular). Alguns demoram muito e outros mais rapidamente, conforme a época do ano e principalmente no inverno. "Todo mel tem um odor da florada que o originou, um perfume característico. Ele deve ser comercializado em potes ou vidros de boca larga, para ser retirado mais fácil quando começa o processo de cristalização". Donnini ainda faz um alerta. "Para o mel voltar ao estado natural, nunca deve-se utilizar o microondas, mas derretê-lo em banho-maria leve". Ele ainda avisa que na embalagem do mel deve constar o Serviço de Inspeção Federal (SIF) - responsável por assegurar a qualidade de produtos de origem animal comestíveis e não comestíveis destinados ao mercado interno e externo - ou o Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Estado de São Paulo (SISP).



(texto publicado na revista Viver nº 39 - outubro/novembro de 2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Paulistana Nota Dez: Tatiane Ishida - Jussara Soares


Nome: Tatiane Ishida
Profissão: psicóloga
Atitude transformadora: coordena uma ONG que leva cachorros para visitar idosos e crianças em abrigos e hospitais da capital

A partir de outubro, Bruce Lee, de 7 anos, começará a atuar como terapeuta no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP. Esse sheepdog usará sua infalível técnica de lambidas para arrancar risos e conquistar a confiança dos pacientes. Ele tem experiência no assunto. Há quatro anos, na Fraternidade Irmã Clara, entidade da Barra Funda que atende pessoas com paralisia cerebral, destacou-se com um feito não atingido nem pela equipe médica: fez uma garota de 18 anos prestar atenção em suas estripulias. "Foi uma vitória, pois ela não reagia a nda", lembra a psicóloga Tatiane Ishida, de 35 anos, dona de Bruce e presidente da ONG Cão Terapeuta, que atualmente promove visitas de cachorros a idosos e crianças em cinco abrigos e hospitais da capital. "O animal só precisa que você esteja aberto para ele entrar na sua vida e receber seu carinho."

A Cão Terapeuta surgiu em 1998 como um braço social da empresa de adestramento Cão Cidadão, criada pelo zootecnista Alexandre Rossi, o Dr. Pet dos programas de TV. "Na época, a pet terapia não era levada a sério', relata Rossi, que se debruçou sobre estudos científicos para convencer as instituições de saúde da importância do trabalho. Tatiane só chegou ao grupo em 2006, quando procurou ajuda para treinar Bruce. Encantanda, entrou para o projeto e, em 2008, virou sua coordenadora. Em 2013, a entidade ganhou o status de ONG.

Sua matilha inclui quarenta missionários de quatro patas, entre vira-latas, goldens, labradores e outras raças, que vão ao encontro de cerca de 160 pessoas por mês. Todos os bichos têm ao menos 2 anos, passam por preparação para responder aos comandos, são vermifugados e podem ou não estar acompanhados por seus donos nas visitas. Tatiane concilia a atividade voluntária com o consultório de psicologia, na Vila Mariana, e a família (ela é casada e tem um filho de 8 meses). "Aliar minha profissão aos cães, que são uma paixão desde criança, é a realização de um sonho."




(texto publicado na revista Veja São Paulo de 25 de setembro de 2013)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Paulistano Nota Dez: Luis Davantel - Aretha Yarak


Nome: Luis Davantel
Profissão: empresário
Atitude transformadora: criou o Projeto Amplitude, que atende crianças autistas de famílias de baixa renda

O empresário Luis Davantel, de 48 anos, que atua em uma companhia do setor imobiliário, lançou seu maior investimento há quatro anos. Em uma casa alugada de 400 metros quadrados, no bairro da Vila Mariana, fundou o Projeto Amplitude, um centro de tratamento gratuito para crianças de até 7 anos diagnosticadas com autismo. No local, são atendidas apenas famílias com renda mensal inferior a seis salários mínimos. As terapias são feitas duas vezes por semana por uma equipe de vinte profissionais das áreas de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e pedagogia. "Meu objetivo é oferecer o melhor tratamento possível a custo zero. Por isso, todos os professores são contratados e precisam mostrar resultados", conta. Atualmente, quarenta menores frequentam aulas por lá de segunda a quinta. Desde que começou, a iniciativa atendeu 150 casos.

O Amplitude nasceu de uma experiência pessoal do empresário. Pedro, seu primogênito, foi diagnosticado com autismo quando tinha 18 meses (hoje está com 11 anos). "Com as terapias e atendimento especializado, ele apresentou um progresso fantástico", conta Luis. O tratamento, no entanto, é dispendioso e inacessível a pessoas carentes. Buscando preencher essa lacuna, ele pôs de pé o projeto, hoje referência no meio médico. Para manter os atendimentos, Davantel conta com a ajuda de oitenta doadores. O orçamento de 2015 está previsto em 1,4 milhão de reais. "Se eu puder ajudar essas crianças por 100 anos, farei isso."


(texto publicado na revista Veja São Paulo)

domingo, 7 de agosto de 2016

Ensinar e aprender mudou de forma. Mas segue o desafio de formar cidadãos conscientes


A era digital está transformando estilos de vida, comportamentos, relacionamentos familiares e sociais.

Crianças e adolescentes vivem em dois mundos, o real e o virtual. Nascidos a partir do ano 2000, são conhecidos como Geração Z.

O avanço da tecnologia mostra que o caminho da informação ao toque de um dedo chegou para ficar. Os nativos digitais têm uma relação inédita com todo o conteúdo que a rede tem para oferecer. De acordo com estudo da consultoria norte-americana Qmee, a cada minuto que passa são gerados, em média, 72 horas de vídeo no YouTube, 41 mil posts no Facebook e 3,6 mil fotos no Instagram.

As recomendações sobre o que fazer para transformar o uso da internet numa fonte mais segura, ética, educativa e saudável de conhecimentos e como ponte de diálogo entre as gerações devem fazer, agora, parte da rotina das escolas e famílias.

Verdadeiros desafios para os profissionais da educação e os pais, que precisam acompanhar as novidades criando formas de equilibrar o uso dessas inúmeras ferramentas de comunicação.

Nesta edição especial de Educação pedimos ajuda a educadores da região para abordar diferentes temas sobre esses comportamentos.

"Educar a criança e o jovem a viver presencialmente é um dos grandes desafios da educação. Temos experiências virtuais, mas nosso dia a dia é presencial, nós somos globais, mas acordamos em nossa casa, vivemos na nossa comunidade, mas vamos para a escola ou para o trabalho. Temos de ensinar as crianças a olhar nos olhos; a saber argumentar e a ser resilientes", explica Esther Carvalho, diretora-geral do Colégio Rio Branco. Esther defende que a criança precisa construir valores com base em reflexões que devem ser estimuladas na escola e dentro de casa, para que ela venha a ter uma experiência ética no ambiente virtual.

A educadora ressalta que os adultos têm o importante papel de apresentar referências positivas que estimulem o foco, em meio á crença da multitarefa, preservando a profundidade nas relações e nos saberes.

A idade ideal

Esther Carvalho atenta par os aplicativos voltados para os pequenos. "Para manter a atenção do bebê num restaurante, os pais lhe entregam um iPad, mas depois querem que o filho largue o celular ou o videogame. Então eu pergunto: que tipo de experiência você quer que seu filho tenha com a internet? Organizar o seu tempo online e ajudá-lo a administrar as atividades enquanto está navegando é fundamental", afirma ela.

Educar a atenção num mundo onde as crianças estão super estimuladas é um desafio. Criar mecanismos de foco em meio à crença da multitarefa - teoria que a neurociência desconstrói - (para a neurociência, o que existe é uma mudança rápida de uma tarefa para outra). Isso, certamente, prejudica o foco e a profundidade. "Os adultos são as grandes referências. E sabemos que não existem problemas nas redes sociais apenas com jovens e crianças", conclui.

No limite

Os limites tecnológicos são necessários. Se a criança precisa de foco, sono, organização e o celular ou o  computador não estão permitindo isso, os pais e os professores devem atuar. É uma organização que vem da escola e da família. "Nós usamos o celular em sala de aula com os mais velhos, mas deixando claro que a utilização é pedagógica. Em outros momentos não será permitido", conta a diretora-geral do Colégio Rio Branco.

Situação

Um pai com três filhas adolescentes recolheu os celulares das filhas antes de elas dormirem, pois não estavam tendo uma boa noite de sono e, consequentemente, acordando atrasadas.

"A criança nasce num ambiente digital onde é filmada o tempo todo e é o centro das atenções; ela cresce com este jeito facebook e instagram de ser; então, a gente vai criando personas e papéis neste novo contexto", explica Esther. Por isso, defende que a criança deve construir valores, a partir de reflexões que devem ser estimuladas na escola e dentro de casa, para que ela venha ater uma experiência ética no ambiente virtual.

A profissional encontrou uma forma inteligente de, literalmente, conectar a família, a escola e os alunos. Em encontros periódicos com os pais, a pauta em discussão é o uso de WhatsApp e Snapchat. "Uma escola conectada é uma escola consciente", deixa o recado.

Esther Carvalho - Colégio Rio Branco

A verdade nua e crua

Os desafios da tecnologia para crianças, jovens e educadores

- Estar no Facebook é permitido para maiores de 13 anos. E a família, muitas vezes, autoriza o menor a mentir a idade para se conectar à rede social.

- O cyberbulling é um pesadelo que ajuda a comprovar que o que se posta é para sempre e desperta para a responsabilidade nas redes.

- O relacionamento humano não permite a conexão e a desconexão em um clique. Desconectar-se de alguém, na vida real, pode ser doloroso e difícil. Valorize o olho no olho, mas incentivar todas as formas de relacionamento e interação é importante.

- Separar o que é novo do que é novidade. Para Esther, a escola deve se atentar ao que é novo, mas não necessariamente ao que é novidade.

- Não é preciso substituir o livro pelo iPad, mas usar todas as possibilidades e linguagens: a brincadeira, o lúdico, o vídeo, a internet, os livros, os desenhos. O que faz a diferença é o resultado que se quer tirar disso. Como eu construo formas consistentes de aprender e ensinar neste novo ambiente?

O fenômeno selfie nude

A troca de fotos com sugestão sensual, ou até mesmo em poses nuas, tornou-se comum, principalmente entre adolescentes. Eles acreditam que possuem domínio sobre aquela informação, que pode ser compartilhada em poucos minutos. Como abordar este assunto com alunos e pais? O que é escrito no WhatsApp vale como prova jurídica, o que é compartilhado no Snapchat se apaga, mas pode ser salvo por outras pessoas, o que é postado no Facebook, no Twitter e no e-mail pode ser visto e rastreado para sempre. O fenômeno selfie nude, popular entre os jovens, surgiu nos EUA e consiste em produzir e enviar fotos sensuais usando o celular. O artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece pena de 3 a 6 anos de reclusão para quem produzir, divulgar ou manter imagens pornográficas envolvendo menores de 18 anos.

Mas o que fazer quando é o próprio adolescente quem compartilha?

Dialogar e monitorar são as únicas opções. Tanto famílias como as escolas precisam ampliar o nível de consciência das crianças e dos adolescentes em relação ao assunto. O acesso precoce aos celulares e à sexualização são fatores que contribuem para o aumento dos casos. Como expor sua sexualidade para si e para o grupo? Compartilhando cenas íntimas! Quando a família dá ao seu filho um celular, deve discutir as regras, combinados e alertas. No entanto, a dimensão entre público e privado, idade adequada e responsabilidade, muitas vezes, não são abordadas.

Assim, as histórias se repetem. Uma menina que atendeu ao pedido do "Manda nudes!", quando tem aquela foto "vazada", fica exposta na classe, na escola e no mundo. A família e a escola, muitas vezes, tentam abafar ao invés de acolher, em uma tentativa ingênua de apagar uma história que a rede pode retomar sempre.

Cláudia Siqueira - Colégio Sidarta


(texto publicado na revista Circuito especial de educação - edição 200 - ano 16 - agosto de 2016)

sábado, 25 de junho de 2016

Educando para o futuro - Leandro Karnal

A concepção tradicional de ensino sempre foi uma espécie de taxidermia. O que é isso? Taxidermia é a arte de empalhar animais. Enchia-se um animal morto, colocavam-se olhos de vidro e ele aparentava estar vivo. Os professores tradicionais faziam algo similar: empalhavam o saber, davam aparência de vida e apresentavam aos alunos.

O grande desafio do passado era como passar o conhecimento acumulado da humanidade para que o aluno pudesse enfrentar bem suas funções profissionais e sociais. Educar era empalhar e apresentar como vivo. Os livros eram a fonte, a aula o método e a identificação o verbo principal de avaliação.

O mundo mudou de forma estrutural. O saber fica datado não mais em 50 a 1000 anos, mas em poucos meses. As gerações de conhecimento são rápidas. Educar para o futuro é deixar de lado o taxidermista e despertar a vida em transformação. Não era ruim a educação tradicional, apenas era adequada a um mundo que não existe mais. Servia bem, como um dia serviu o telégrafo ou o trem a vapor.

Hoje, preparamos alunos para aprender, mais do que para repetir. Damos ferramentas de busca mais do que respostas prontas. Hoje, despertamos a curiosidade para que ele enfrente um mundo para o qual, nem ele nem nós, temos consciência de como será.

Assim, ao invés de um conceito fixo, trabalhamos com o processo de selecionar, reorganizar, criticar e restabelecer o conhecimento. Ensinamos a aprender.

É um desafio, porque nós professores não fomos treinados para isso. Mas é uma aventura fascinante, pois além de proporcionar uma educação mais orgânica, tem o poder de desinstalar também as nossas convicções como educadores.

Educar, hoje, é criar, muito mais do que empalhar. Ao invés do animal que pareça vivo, mostramos a vida pulsante e inquieta. Para isso, nós, educadores do século XXI, temos de abandonar várias certezas. Haverá algo mais fascinante do que aprender a criar, em lugar de somente repetir?


(texto publicado na revista The Bear - A revista das escolas Maple Bear nº 8)

sábado, 11 de junho de 2016

O problema do mundo sem bullying - Bruno Romani

A palavra bullying faz qualquer pai se arrepiar de medo. Mas uma linha de especialistas diz que não há o que temer: crianças e adolescentes precisam passar por apuros, e sozinhos. Do contrário, poderão cair numa enrascada ainda pior.

Era coisa de criança

Colar chiclete na cadeira dos outros, fazer cuecão no nerd da turma, rir do cabelo cortado do colega. Mas agora brincadeiras como essa ganharam um nome sério: bullying. E passaram a ser resolvidas por adultos: pais, mestres e até, em alguns casos, polícia.

O termo bullying significa a prática de agredir alguém fisicamente, verbalmente, até por atitudes (como caretas). Mas tem sido usado como um alarme, um chamado para que adultos interfiram no relacionamento de seus filhos e alunos. Uma nova linha de pesquisadores, no entanto, vem defendendo que o bullying não é necessariamente um problema para gente grande. Segundo eles, as picuinhas entre crianças e adolescentes devem ser resolvidas pelos próprios envolvidos. Sem adultos como juízes.

Esses especialistas não dizem que crianças devem trocar socos na saída da escola. Nem que apanhar faz bem. Afirmam, sim, que  disputar é como um rito, pelo qual passamos no início da vida para saber enfrentar as encrencas maiores do futuro. Afinal, fazemos isso desde os tempos mais remotos. "Em boa parte da história da humanidade a agressão foi um traço adaptativo", escreve Monica J. Harris, professor de psicologia da Universidade do Kentucky, em Bullying, Rejection and Peer Victimization (sem tradução em português). No passado, os homens disputavam comida para garantir a sobrevivência. O conflito definia quem ia perpetuar a espécie e quem ficaria para trás. "Aqueles humanos mais agressivos em termos de buscar as coisas e proteger seus recursos e parentes tinham mais chances de sobreviver e reproduzir", afirma Monica. Enquanto os homens teriam aprendido a usar a força física, as mulheres desenvolveram habilidades mais sutis, como agressões verbais, fofocas e rumores.

Se antes essas táticas garantiam a sobrevivência hoje nos ajudam no convívio social. Quando as crianças deixam o conforto do lar para frequentar o colégio, descobrem que nem sempre suas vontades são atendidas. E que precisam negociar o tempo todo, como por um brinquedo ou por um lugar para sentar. Sem passar por isso, será mais difícil lidar com um desafeto no futuro, como um chefe, o síndico do prédio ou aquele amigo que empresta dinheiro e nunca paga.

O resultado da superação desses primeiros embates aparece cedo. Um estudo com 2 mil crianças com idade de 11 e 12 anos feitos pela Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou que aquelas que tinham algum rival na turma da escola eram vistas como mais maduras pelos professores. As meninas que reagiam a alguma antipatia foram consideradas donas de maior competência social. Os meninos com inimizades foram classificados como alunos com melhor comportamento. Nesses casos - que não envolviam agressões físicas, segundo a pesquisa -, as crianças não só aprenderam a reagir a menosprezo, pressão e sarcasmo como ainda ganharam status no colégio. "Tanto para meninos quanto para meninas, ter uma antipatia mútua com alguém de outro sexo é associado a popularidade", escreve a pesquisadora e autora do estudo Melissa Witkow, hoje professora de psicologia da Universidade Willamette, nos EUA.

Medo: o rival dos pais

A recente onda de crimes ligados a bullying, no entanto, criou o temor de que crianças e adolescentes talvez não deem conta da briga sozinhos. A comprovação disso estaria em casos como o de Wellington Menezes de Oliveira, que guardou por anos o rancor das humilhações que passou em um colégio em Realengo, no Rio de Janeiro - até voltar lá, em abril, e disparar contra alunos, deixando 13 mortos. O  resultado de histórias assim foi uma pressão de pais, mestres e legisladores para que o comportamento das crianças seja mais controlado. E para que até a polícia seja chamada para impedir as agressões. Em junho, o Senado brasileiro aprovou um projeto de lei determinando que as escolas inibam atitudes e situações que possam gerar bullying (o projeto segue para a Câmara). Em maio, um americano de 17 anos, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi preso por dar notas às colegas de turma - altas para as mais bonitas, baixas para as mais feias - e publicar a avaliação no Facebook.

Essa reação é chamada de superproteção pelos pesquisadores que defendem a não intervenção dos adultos nas disputas entre crianças e adolescentes. "É como se o mundo inteiro estivesse sofrendo de amnésia. Os adultos se esqueceram de que passaram pelas mesmas disputas no colégio", diz Helen Guldberg, psicóloga e professora de desenvolvimento infantil na Open University, Inglaterra. Segundo Helen, estamos julgando as atitudes das crianças com base nos valores de adultos. "O comportamento das crianças - as palavras que usam, o jeito brusco com que, por exemplo, excluem outros de suas brincadeiras - está sendo julgado com a seriedade com que encararíamos o relacionamento entre adultos em um escritório", afirma.

Essa linha de não intervenção defendida por gente como Helen Guldberg é polêmica. Para os críticos, desavenças simples podem ser o início de conflitos mais graves - eventos que poderão deixar marcas físicas e psicológicas. "O bullying é um problema sério que precisa ser combatido", diz Aramis Lopes Neto, pediatra e estudioso do tema. Mas em um ponto as duas linhas concordam: quando a briga se repete e se prolonga por um tempo, e só um lado sai sempre perdendo, é porque a criança já está derrotada. E é hora de os adultos entrarem em ação.

Prestar atenção ao comportamento da criança ajuda a descobrir se é o caso de intervir. Mudanças repentinas, como queda no desempenho escolar ou aumento da agressividade, são sinais importantes. Se o problema não for resolvido, alguns efeitos podem se estender. "Muitos adultos trazem da infância dificuldades de relacionamento social e baixa autoestima", afirma Lopes Neto. Isso atrapalharia a vida profissional e pessoal, como a capacidade de manter relacionamentos estáveis. "Há vítimas que não se desenvolvem profissionalmente por medo de se expor e se tornar alvo de bullying no trabalho", diz o médico. É como se elas não conseguissem nunca sair da zona de conforto. Exatamente o que pode acontecer com quem passa a infância na sombra dos pais, sem enfrentar uma briga sozinho.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 294 - agosto de 2011)