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sábado, 27 de outubro de 2018

A assustadora história da mochila, em Londres - Concília Ortona (jornalista do Centro de Bioética do Cremesp)


Qual é a situação mais apavorante em uma viagem ao exterior ? A bagagem extraviar ? Fichinha. Passar mal e não saber como se explicar ao médico turco, grego... norte-americano ? ... argentino ? Dá-se um jeito. Perder o cartão de crédito ? Está ficando quente, mas multiplique isso por quinze: que tal perder "a mochila" ? Não uma caríssima, vagabunda mesmo.

Como assim ?

Filosofando como faz quem descreve uma pessoa... assim... sem atributos físicos: o valor está no  conteúdo. No caso, nos passaportes de todos os viajantes, além dos (parcos" euros, e das (minguadas) libras.

Explicando do começo. Como sempre, minha pequena família tira férias do tipo "pague por dois e leve três". Com o dinheiro pra lá de contado, pareceu boa ideia percorrer de trem, o trajeto até o aeroporto secundário de onde saem voos low cost de Londres até Edimburgo, rumo à nossa pousada já paga pela internet e, depois, para Paris.

Sejamos francos: até então, o paizão havia protegido com a própria vida "a mochila" do nosso destino. Mas, por estar distraído com a (costumeira) mala enorme, ou por culpa daquela loira que lhe deu uma piscada britânica - melhor esquecer -, ao descer do trem, nem notou estar mais leve.

Milésimos de segundos depois, meu espírito sinalizou algo errado - Cadê a mochila ? (grito). Três pares de olhos em direção às portas semicerrando do trem e, em seguida, o doloroso aviso sonoro em beep - que, se traduzido, significaria "ferrou". 

- Mãe, o que houve ? Silêncio. O pai, quase um metro e noventa, desabado no chão, em lágrimas.

A mim coube enviar ao cérebro os comandos: respire fundo. Pense. Pernas, controlem o tremor... Procure agora algum funcionário da estação disposto a nos ajudar a encontrar a mochila e a vossa fluência em inglês - aliás, a primeira a sumir.

Foi quando o conheci. Ele. Saint David, para quem, aliás, até hoje dirijo minhas orações. Tá bem: não sei bem qual era o cargo do moreno de bigodes e uniforme da estação. Devia ser importante, pois, rápido, passou a mexer seus pauzinhos (sorry, é um Santo!) para socorrer os brasileiros apavorados. Fez isso, porém, não sem antes soltar um compreensível e incrédulo "uau"! Passports, as well ? Oh, no!

Pragmático, David disparou: relax. Let's forget the fly, ok ? Continuou: "em que vagão estavam?". - Se os canhotos das passagens não estivessem na mochila, seria mais fácil responder. "Frente, meio, atrás" - Well...

Quando nada parecia funcionar, nosso David traçou sua estratégia sombria: como o trem era intermunicipal, nada poderia ser feito até que chegasse à próxima cidade, ou na outra, right ? "Ainda que sua bag esteja no lugar que nem sabemos qual, nada garante que as coisas estejam lá dentro". Alright ?

A essa altura, já estávamos todos em estado de inércia mental, pós-grandes sustos. Em - eterna - meia-hora, David voltou animadinho, well, para o padrão londoner de ser. "Acharam a mochila em um bagageiro para bolsas".

Sem energia para comemorar, fizemos menção de nos levantar do chão, mas, após olhar para a filha, com cara de "não, ainda não entendi" e para o marido, ainda em prantos (se aprume, homem!), sugeriu: "que tal só a senhora ir buscar ?".

E lá fui eu, rezando, até ver de longe o colega carrancudo do David, duas estações depois, com a mochila entre as pernas - e jeito de poucos amigos. No melhor estilo Scotland Yard, perguntou tudo o que havia dentro dela, inclusive, as frutas acondicionadas - no caso, uvas. "Orange ? Banana ? Apple ? Hello, não é mais simples confirmar se sou eu, no passaporte ?"

Enfim. Nem vou me prolongar no fato de que, para irmos a Edimburgo (ou dormir na Trafalgar Square e forget Paris), precisamos retornar à Victória Station e ir em pé, por seis horas, no último trem de linha da sexta-feira, recheado por alcoolizados torcedores de futebol americano (juro!) do Newcastle.

Basta dizer que, ao abrir a mochila, tudo estava lá: os passaportes e o restante dos documentos, bem como, as libras e os euros, contados e enrolados em papel celofane.

A última coisa que disse a São David foi um irônico "se fosse no Brasil...", ao que ele riu alto e respondeu "não esquenta, não roubaram sua mochila porque imaginaram que tivesse uma bomba dentro".

É... cada um com seus problemas...


(texto publicado na revista Ser Médico nº 84 - Ano XXI - jul/ago/set 2018)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Lições para dirigir bem - Daniel Haidar


Formado em economia, mas com uma longa carreira no serviço público, o inglês Peter Hendy, 61 anos, comanda há quase uma década a Secretaria dos Transportes de Londres. Foi ele o responsável pela monumental operação de manter a cidade locomovendo-se sem grandes transtornos durante a Olimpíada de 2012. Previa-se um caos, mas a impressão geral é que tudo funcionou a contento - tanto que, segundo o próprio Hendy, as faixas exclusivas para a passagem de atletas e autoridades, obrigatórias no protocolo olímpico, pouco foram usadas. A chave do sucesso foi uma vastíssima campanha prévia de orientação do público (além, claro, de um transporte público já bastante eficiente). Nesta entrevista concedida no Rio de Janeiro, a próxima sede olímpica, Hendy - que, sim, vai trabalhar todo dia de ônibus, "o nº 24" - relata detalhes da sua vitoriosa maratona, pela qual foi agraciado pela rainha Elizabeth com o título de sir.

Janela de ouro

Uma Olimpíada representa a grande chance de uma cidade concretizar obras vitais de infraestrutura que, de outro modo, não sairiam do papel. Isso porque é muito mais fácil obter financiamentos e tocar projetos quando existe um prazo bem definido e um motivador poderoso como os Jogos: seu palco se torna temporariamente a vitrine do mundo, em que tudo alta visibilidade, e por isso é mais interessante investir. O redimensionamento do transporte público fica como legado, talvez o mais importante de todos. Cada lugar tem os próprios desafios. No Rio, ampliar o metrô, algo imprescindível, esbarra em grandes obstáculos topográficos, que devem ser (e acredito que serão) vencidos. Na minha estada, enfrentei congestionamentos, mas não vi nada que não fosse esperado em uma cidade latino-americana em fase de crescimento. Orquestrar um bom plano de transportes exige obediência religiosa ao cronograma. Nós conseguimos concluir nossas obras - novas linhas, novos trens, mais ônibus - um ano antes da Olimpíada, e as melhorias são sentidas até hoje.

"Se o metrô estiver cheio, vá tomar uma cerveja"

Um dos aspectos mais bem-sucedidos dos preparativos londrinos para a Olimpíada foi manter uma comunicação permanente com a população. Primeiro cruzamos os dados dos compradores de passes do metrô, de ônibus e dos pedágios com os dos compradores de ingressos para as competições. Aí enviamos milhões de e-mails, tuítes e mensagens de texto, tanto ao público em geral quanto a estabelecimentos comerciais, explicando quando e onde os sistemas de transporte ficariam congestionados e pedindo que evitassem aqueles lugares, naqueles horários. O site do departamento fornecia informações atualizadas das alternativas. Falei até uma frase que me rendeu muitas críticas: "Se o metrô estiver muito cheio, vá tomar uma cerveja, e espere esvaziar". Não parece razoável? O próprio prefeito Boris Johnson gravou uma mensagem, transmitida nos alto-falantes do metrô, recomendando que os usuários planejassem a viagem para evitar transtornos. Deu muito certo: durante a Olimpíada, mais de 30% dos moradores de Londres mudaram seu trajeto. E não é porque nossa população seja especialmente disciplinada, não. Quando há informação precisa e confiável, as pessoas param para ouvir.

Central de comando

Criamos em Londres uma Central de Transporte Olímpico, formada por nosso pessoal, junto com representantes dos governos, da polícia e do comitê organizador - umas quarenta pessoas ao todo. Claro que tivemos de acomodar interesses diversos, mas isso não se sobrepôs ao resto. Numa organização de dimensões olímpicas, se cada um impuser sua agenda particular, a coisa desandará. E sempre tive muito claro que o tempo deve ser usado a favor: não deixamos para a última hora a necessária tarefa de fazer a manutenção da frota nem a de administrar as falhas do sistema, que acontecem o tempo todo. É o que já fazemos diariamente - afinal, Londres funciona, assim como o Rio, no limite da capacidade - mas, de modo muito amplificado. Aprendi também que, numa Olimpíada, a palavra-chave é informação. Quanto mais organizada e compartilhada, melhor. No centro de operações, tinha a visão completa da cidade em tempo real. O Rio já tem algo parecido.

Olhar para trás

A experiência da Copa do Mundo no Brasil foi boa e pode servir de espelho para a Olimpíada. Já os Jogos de Atlanta, de 1996, devem funcionar como contraexemplo: ali, convocados às pressas, sem planejamento nem treino, os motoristas de ônibus não sabiam sequer circular pela cidade, atrapalhando inclusive a locomoção dos atletas. Estive em Pequim em 2008, mas não posso dizer que tirei muitas lições. Era tudo bem diferente, desde as esferas de decisão até o próprio transporte, com muita ênfase nas bicicletas. As autoridades brasileiras estiveram em Londres, observando o que fizemos. É essencial revisitar o passado, para evitar os mesmos erros e reprisar os acertos.

Tempo é transporte

Congestionamentos roubam a produtividade das pessoas. Sem boa mobilidade urbana, a criação de riqueza se atrofia. Os congestionamentos custam 8% do produto interno bruto (PIB) da região metropolitana do Rio de Janeiro, o que é muito alto. Como as grandes cidades não têm espaço para acomodar os carros da população inteira, o transporte público se  torna fundamental. Hoje em dia, todas elas precisam de uma infraestrutura melhor de transportes, até as que iniciaram antes a expansão do sistema. Londres, por exemplo, tem um metrô muito antigo, que requer manutenção constante e clama por ampliação. O do Rio de Janeiro expansão. Acontece que, na hora de conseguir recursos, o transporte tem de brigar com outras prioridades, como moradia, saúde, educação, e frequentemente fica para trás.

De carro, paga

Uma das medidas mais controvertidas que tomamos foi implantar o pedágio urbano no centro de Londres - uma forma de, ao mesmo tempo, levantar dinheiro e diminuir a circulação de veículos em área crítica. Mas ela demanda, primeiro, a existência de transporte público eficiente, e, depois de uma prefeitura decidida a resistir às pressões. Demorou, mas hoje ninguém em Londres discute sua eficiência.

Caro, mas bom

Ouvi muitas vezes do prefeito Boris Johnson e dos que vieram antes dele: "Peter, você é a favor da tarifa cara". Sou mesmo, porque quero ter dinheiro para melhorar os transportes. Sei que é difícil aprovar esse tipo de coisa. É impopular, exige muita habilidade política. Por outro lado, uma cidade só tem condições de progredir se as pessoas puderem se encontrar, fazer negócios. E a tendência é elas se mudarem para mais longe, já que não há lugar barato para viver no centro. Então gastamos quase 2 bilhões de libras por ano em investimentos no metrô, por exemplo. Os custos de operar um sistema público de transporte são sempre maiores que a receita. É um problema mundial. No mundo moderno, o subsídio para estudantes, idosos e deficientes é obrigatório. Tem de haver de onde tirar recursos. Que outro jeito senão aumentar as tarifas?




(texto publicado na revista Veja edição 2401 - ano 47 - nº 48 - 26 de novembro de 2014)