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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Papel de palhaço: Vladimir Brichta - Fernando Silva


Após uma crise de meia idade com a profissão, Vladimir Brichta volta às novelas e interpreta no cinema uma versão de Bozo

Vladimir Brichta, 40, percorreu um longo caminho até voltar às novelas. Em uma década longe dos folhetins, foram cinco séries de TV, dez filmes e seis anos de análise. Agora, reencontra o formato que o alçou à fama na pele do temperamental músico Gui Santiago, protagonista de "Rock Story", prevista para estrear em 9 de novembro na Rede Globo, na faixa das 19h. Nela, canta (ao vivo, de verdade) e toca guitarra (na vida real, só arranha).

Nas cenas, ele usa roupas pretas, mesma cor da camiseta que veste no dia da entrevista. Faz 33ºC no Rio, e o ator, de cabelos amarrados, comenta: "Podíamos ter marcado na praia, hein?". Estamos em um shopping em São Conrado. Ele fala manhã adentro sobre música, reflete sobre a infância e lembra do momento em que descobriu ser um palhaço.

Às vezes, literalmente, como no filme "O Rei das Manhãs". O longa inspira-se na trajetória de Arlindo Barreto, intérprete do palhaço Bozo nos anos 1980, hoje pastor evangélico. Dirigido por Daniel Rezende, montador de "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite", o longa, previsto para 2017, faz Brichta embarcar em uma trama de cocaína, álcool, mulheres, crianças e conflitos da fama. "Ele arrebenta", diz o diretor.

O ator, porém, nem era a primeira opção. A produção foi criada com o plano de ter seu amigo Wagner Moura como protagonista. O envolvimento do ator com a série "Narcos" abortou o plano. Receoso no início com o novo candidato, Daniel se surpreendeu.

"Poucas vezes trabalhei com alguém que tenha se entregado tanto a um projeto. Foi muito além do que eu poderia imaginar", afirma. Escalado, passou três meses em São Paulo, terra de seus pais.

Preparou-se com Fernando Sampaio, palhaço e cofundador da companhia teatral La Minima, a mesma da qual Domingos Montagner fazia parte. Pintou a cara e atuou anônimo em um circo na Cidade Tiradentes, zona leste da cidade, e até contracenou com Arlindo Barreto em um encontro entre intérprete e personagem. A experiência frente ao respeitável público o marcou. "Tudo o que havia feito até então flertava com a ideia de palhaço, mas naquele dia eu me assumi como um."

Era esse então, o papel que buscava? "Era. Há ali uma história que todo ator quer, o paradoxo de ser o palhaço mais famoso do Brasil e ninguém saber quem ele é", responde Brichta.

Roqueiro decadente

Ele já fez muita graça na TV, como o peão Nélio ("Coração de Estudante") e o empresário ARmane ("Tapas & Beijos"), indo também ao romance com o sonhador Ary ("Amor em 4 Atos") e ao drama no criminoso Celso ("Justiça").

Agora, no retorno a uma novela, faz um roqueiro de sucesso nos anos 1990, hoje decadente. Para o papel, buscou inspiração em Renato Russo, Cássia Eller e Paulo Miklos. "Ele é um fio desencapado, de coração grande e temperamento difícil", diz o ator.

Como em cena, transita entre entre o leve e o denso na conversa. Ora narra aos risos um caso de infância, ora usa Téspis, o primeiro ator da história, para dar um exemplo.

"Sou um galã cômico. Não persegui isso, mas acho legal", afirma ele, marido da atriz Adriana Esteves, 46, com quem tem um filho de 9 anos (também tem uma filha de 19 com a cantora Gena, morta em 1999).

Nascido em Diamantina (MG) e criado em Salvador (BA), ele recebia suspensões por encrencas na escola. "Era destemperado e não aguentava provocações." Uma delas lhe rendeu três pontos. "Um colega me deu uma gravata e me jogou com a testa na quina de uma carteira", relembra, com um sotaque baiano.

Em sua opinião, o teatro o salvou. "Seu valor na socialização é enorme. Sou prova disso. Por isso, ao contrário do governo, que quer extinguir a cultura nas escolas, acho que tem de se investir mais nela", afirma, fazendo menção à medida provisória de reforma do ensino médio.

Mas as artes dramáticas não lhe deram só certezas. Nasceu no palco, numa noite de 2002, uma crise. No meio de uma sessão da peça "Mamãe Não Pode Saber", de João Falcão, notou que o público o havia reconhecido e ficou em dúvida.

Por se tornar famoso, tinha ficado com a impressão de que a plateia não acreditaria mais em seus personagens. Logo viria outra crise, quando era uma das estrelas de "Começar de Novo", em 2005. "Depois da quarta novela em quatro anos, meu trabalho na TV não me agradava mais. Cadê o ator que eu tinha orgulho de ser?".

Ainda fez "Belíssima" e, incomodado, decidiu se afastar. Negociou com a Globo a suspensão do contrato e partiu para a análise. Ao lembrar do período, faz um longo silêncio. Até se sair com um clássico de Raul Seixas.

"Foi [um momento] 'Ouro de Tolo' ("Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego/Sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês): 'E agora eu me pergunto: e daí? Me sentia acomodado com tudo o que conquistei e fui à terapia. Perguntava se havia 'coisas grandes para conquistar'. Aí descobri que sou muito ambicioso."

O divã ajudou. Voltou ao teatro, em projetos como "Os Produtores" (2007, de Mel Brooks e logo já estava com a agenda cheia. Mas sem muxoxo. "Nunca gostei do discurso 'ah, artista trabalha muito'. Não. Todo mundo que tem ambições - sejam elas pagar as contas ou crescer na profissão - trabalha muito."



(texto publicado na revista Serafina, encarte do Estado de São Paulo de 30 de outubro de 2016)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Adeus à novela - Walcyr Carrasco



Meus personagens “falam” comigo toda hora. “Brigam” comigo. Com o fim da novela, eles partem. Sofro de saudade

Passei os últimos meses escrevendo a novela Eta mundo bom!, exibida pela TV Globo. Novela demanda tempo e esforço. Inicialmente, entrega-se uma sinopse, com a trama, os personagens e cenários. É um momento em que não se pode errar. Em cima da sinopse é definido o orçamento. São construídos os cenários e contratados os atores. Se, mais tarde, eu quiser inventar um hospital, por exemplo, não há como construí-lo na cidade cenográfica repleta de gravações. É possível fazer externas, em hospitais reais. Fica difícil em novela de época, como Eta mundo bom!, que se passava no final dos anos 1940. É preciso ter uma boa ideia da trama e de suas necessidades. Mas é um momento criativo, onde tudo é definido. Principalmente o tom da história. No caso, foi mais fácil, com a magnífica direção do Jorge Fernando, com quem já trabalhei muito e que entende perfeitamente meu texto.

Quando a novela vai ao ar, não se pode perder o ritmo. Em uma novela das 6, como Eta mundo bom!, são mais de 20 páginas por dia. Na novela das 9, o número ultrapassa as 30. Se eu e minha equipe perdermos um dia, não há como recuperar. Impossível escrever 50 páginas sem desmaiar sobre o teclado. E, ainda mais, cativantes! É árduo, mas apaixonante. Os personagens tomam forma. Quando eu, como autor, assisto à novela, eles se incorporam a minha vida como pessoas reais.

Eles “conversam” comigo, a toda hora, na minha cabeça. Calma. Parece uma incorporação espírita, mas não é. (Nada contra os espíritas, só que é diferente.) Quanto melhor um personagem, mais ele assume sua própria personalidade. “Briga” comigo, se quero levá-lo para um caminho com que não concorda. Vejam bem, não estou falando de conversa com os atores. Toda relação autor-personagem ocorre no imaginário. O personagem torna-se uma pessoa com quem partilho a vida. Na novela, são entre 40 e 50. Passei a “conversar” com eles todos os dias! A novela foi baseada no filme Candinho, de Mazzaropi. Mas o roteiro de Abilio Pereira de Almeida inspirava-se em Cândido, de Voltaire. Um livro do século XVIII foi a base de um estrondoso sucesso na televisão atual, sem falsa modéstia. Mas, feitas as homenagens a Voltaire e Mazzaropi, devo dizer que os personagens se tornaram meus. Tenho o hábito de escrever de noite e na madrugada. Ao terminar o capítulo, não conseguia desligar, porque eles continuavam vivos. Nesse processo meio doido, cada um conta sua história, fala de suas emoções, revela seus caminhos. Eu só ponho no papel.

Ao mesmo tempo, há um profundo diálogo interior. Quando eu era menino, morava em Marília, interior de São Paulo, então uma pequena cidade. Meu pai, João, ferroviário, me levava ao cinema quase diariamente. Cineminha à antiga, com dois filmes diferentes por dia. Ainda lembro de mamãe, decifrando as legendas para mim, antes que eu aprendesse a ler. Assisti a todas as chanchadas da Atlântida: Oscarito, Grande Otelo, Ankito. Os filmes de Mazzaropi. Tudo isso ficou em algum lugar dentro de mim. Agora, com Eta mundo bom!, essa memória saltou para fora, delineou os personagens. E a novela se tornou parte da vida! Confesso: só sei se uma cena é boa se me emociona. Quem convive comigo se assusta, ao passar pelo meu escritório e me ver chorando ou às gargalhadas diante do computador. Parece desvairado, solitário? Não é. Todos os personagens estão lá, compartilhando as emoções. Talvez um psiquiatra pudesse diagnosticar alguma síndrome muito séria, mas não vejo como alguém pode escrever sem uma entrega absoluta.

Agora, com o fim da novela, vivo o mais depressivo momento. Os personagens vão embora, quem sabe seguir suas vidas em algum lugar que não conheço. Acabou-se o diálogo diário. É como se um navio afundasse e só eu me salvasse. Tenho saudades de muitos personagens, como a Aninha (Mariana Ximenes) de Chocolate com pimenta. Depois do casamento, estará bem? Que faz agora, tantos anos depois? E Angel (Camila Queiroz), de Verdades secretas? Aprontou mais alguma? Nesta última novela, já sofro com grandes saudades. Meus amigos, meus queridos personagens partiram. Deixaram um vazio imenso, que só outro escritor consegue compreender. Sentirei falta, sim, de todas essas pessoas – para mim, vivas – que povoaram minha vida. Mas é preciso se conformar. Uma novela tem de ter um fim. O jeito é lembrar com carinho a máxima de Candinho, o protagonista: “Tudo que acontece de ruim na vida da gente, é pra meiorá!”. Quem sabe?

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Diário de vida: Domingos Montagner e atores que nos deixaram durante a novela


Fiquei muito triste com a partida do ator Domingos Montagner. Quando assistimos a uma novela os personagens entram todos os dias em nossas casas e passam a fazer parte de nossas vidas. 

Quando fiquei sabendo do ocorrido, me lembrei imediatamente da primeira vez em que senti a partida de um ator. Foi em 1972 quando o grande ator Sergio Cardoso faleceu em decorrência de um ataque cardíaco. Estava no auge da fama e interpretava o professor Luciano na novela O primeiro amor. Eu tinha comprado o vinil com a trilha sonora e mais recentemente adquiri o CD. 

Temos depois o ator Jardel Filho que também foi vítima de ataque cardíaco durante sua participação na novela Sol de Verão em 1983. 

Temos também uma morte inesperada e violenta, a da atriz Daniela Perez em 1992 durante a novela De corpo e alma na qual interpretava a personagem Yasmin.

E tivemos duas perdas muito grandes na mesma novela: Velho Chico. Primeiro partiu Umberto Magnani que interpretava o Padre Romão e agora Domingos Montagner, o Santo dos Anjos. 

Quero assim deixar aqui a minha homenagem a todos esses atores que brilharam em nossa telinha fazendo o que mais gostavam.



sábado, 20 de agosto de 2016

Senhora atriz - Dirceu Alves Jr.


Veterana do teatro e do cinema, a paulistana Selma Egrei conhece o sucesso na novela Velho Chico

Na contramão dos bisturis e tratamentos estéticos, a atriz paulistana Selma Egrei, de 67 anos, viu seu talento e as marcas naturais de expressão valorizados pela TV. A profissional formada pela Escola de Arte Dramática, experiente nos palcos e no cinema, sempre foi bissexta no vídeo e só ganhou papéis de destaque nos últimos tempos. Entre 2012 e 2014, interpretou a psicóloga Dora no seriado Sessão de Terapia, do canal GNT, e emplacou na sequência a série Felizes para Sempre? e a novela Sete Vidas, exibidas em 2015 pela Rede Globo. A coroação dessa fase se dá com Velho Chico, trama da emissora carioca do horário das 9. Sua escalação para o folhetim de Benedito Ruy Barbosa foi defendida com veemência pelo diretor Luiz Fernando Carvalho. Afinal, a megera Dona Encarnação começou a história com pouco mais de 60 anos e ingressou já centenária na segunda fase - e esse despudor tão necessário deixaria pouco à vontade muitas estrelas da casa.

Para representar a conservadora mãe do Coronel Afrânio (vivido por Antonio Fagundes, que tem a mesma idade dela), Selma enfrenta quarenta minutos de maquiagem antes das gravações. Logo ela, que dispensa o mais discreto dos batons em sua rotina. A dedicação tem valido a pena. As constantes cenas em que humilha a atenciosa nora Iolanda (papel de Christiane Torloni) chamam a atenção do público, que, pela primeira vez em tais proporções, a aborda nas ruas, e lhe garantem elogios de seu satisfeito diretor. "Selma é uma profissional que me oferece uma leitura sensível e poética da personagem, em que a vaidade e o ego não têm vez", diz Carvalho.

O desapego à imagem contrasta com a estrela de mais de quarenta filmes, a maioria pornochanchadas realizadas na Boca do Lixo nas décadas de 70 e 80. As sequências de nudez ficaram na memória dos espectadores e alimentaram o preconceito em torno do seu talento dramático. "Grande parte desses longas era porcaria e não me rendeu quase nada de dinheiro", reclama. "Dessa fase, destaco aqueles em que fui dirigida por Walter Hugo Khouri, como O Anjo da Noite e O Desejo", completa. Seu porte europeu vem dos avós italianos e portugueses. Selma nasceu no Ipiranga, foi criada na Mooca e mora há quarenta anos no Butantã com o marido, um ex-fotógrafo e administrador de empresas, além de "dono de casa", como a mulher o define, bem-humorada. Sem filhos, eles compartilham a paixão pelos animais. Cinco cachorros e 23 gatos circulam pela casa, e a atriz está sempre disposta a recolher uma nova mascote. "Minha vida é pé no chão, com tarefas iguais às de qualquer mulher", afirma. "Eu não teria talento para interpretar uma dondoca com um copo de uísque na mão. Recorreria a tanta composição, que soaria falsa diante do público."


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 25 de maio de 2016)

sábado, 16 de abril de 2016

Andréia Horta está à altura da heroína das onze - Cristina Padiglione


Atriz se encanta ao falar de Joaquina, filha de Tiradentes, e de seus valores no delicado contexto político atual

Mineira como sua nova personagem, Andréia Horta está feliz com o aplique que tem feito a cabeça de Joaquina - "nunca tive cabelos tão compridos", celebra a protagonista da nova novela das onze, Liberdade Liberdade, que entra no ar hoje. Filha de Tiradentes, figura mítica cuja herdeira mal deixou rastros para registros históricos, Joaquina é prato cheio para uma atriz que sabe se valer de técnica e intuição para ocupar as linhas criadas pelo autor. E o autor, Mario Teixeira, já avisa que a trajetória traçada por ele é ficção pura, até porque, diz, "seria muito pouco provável que a herdeira de Tiradentes fosse levada por um fidalgo para crescer na Corte".

O Estado conversou com Andréia em um intervalo de gravações da nova novela, nos Estúdios Globo. Natural de Juiz de Fora, a atriz vestia figurino próprio, mas ostentava cabeleira de sua heroína. Joaquina surge na tela num momento em que o País carece de heróis na vida real. Não que ela espere preencher essa lacuna, ainda que ilusoriamente, mas mostra-se satisfeita em, quem sabe, provocar na plateia um interesse pelas causas daquela mocinha que questiona as liberdades do povo, a exploração e a corrupção vigentes no País. As bandeiras, infelizmente, chegam a ser muito atuais, embora o comando da época fosse ainda da Família Real portuguesa.

"Espero que (a novela) possa trazer alguma reflexão para as pessoas, muitas das nossas reivindicações já vêm daquela época. Ela fica indignada com o que vê quando chega de Portugal, não tolera a exploração, os maus tratos que testemunha com o povo, com escravos, enfim, ela traz as mesmas indignações que levaram o pai à forca", diz.

E ressalta o valor da palavra "justiça". Ela tem uma interpretação muito pura, na essência mesmo, do que é 'Justiça', sabe? Não é um termo relativizado ou tratado dentro de determinado contexto, no entender dela. Tem um significado no seu estado puro, sem contaminação".

A salvação da menina Joaquina, vivida por Mel Maia, logo após a morte de Joaquim da Silva Xavier (Thiago Lacerda) será obra de Raposo (Dalton Vigh), amigo do condenado, que oculta a condição de herdeira do "traidor" da Coroa para criá-la em Portugal. Na volta, ela será chamada por Rosa, para driblar as perseguições ainda latentes em Vila Rica.

Andréia se esmerou em aulas de equitação, tiros e esgrima. "A minha arma é linda, tem um cabo de madeira, é superbonita", derrete-se. Mas, se achava que tiraria de letra o manuseio de tais objetos cênicos, não foi assim tão destemida que ela se viu na hora de colocar a mão no gatilho ou de empunhar espadas. Bateu uma fragilidade, admite. "Descobri que sou mais mulherzinha do que imaginava."

Durante nossa conversa, Andréia escorrega com elegância para um "bocadim" discreto de seu acento mineiro, som que será usado de forma mais que moderada em Liberdade Liberdade, até porque a musicalidade presente naqueles dias era bem mais lusa - o que será evidenciado pela presença do português Ricardo Pereira, o coronel Tolentino.

Para Andréia, o privilégio do ofício, sem igual em qualquer outra profissão, é dar de cara com os sotaques, valores e histórias de um Brasil da Família Real, pouco depois de deixar o set de Elis, o longa-metragem de Hugo Prata, previsto para o segundo semestre. Trafegar entre universos tão distintos em tão curto espaço de tempo não é para qualquer um. Ela se comove ao lembrar de seus dias como Elis. Não se esquivou de cantar em cena, mas espera que o diretor insira no áudio a voz da própria cantora. "Acho que as pessoas vão ver o filme esperando ouvir a voz dela".

Encerrada nossa entrevista, vamos ao prédio de pós-produção, a bordo de um daqueles carrinhos elétricos que você vê no Vídeo Show. Andréia quer dar uma espiada no trabalho de edição da novela. No meio do caminho, passando diante de outro set, avistamos a adorável Rogéria. "Ah, vamos parar um minuto?", ela pede. As duas se abraçam e Rogéria não se cansa de festejar a atriz, a quem admira desde Alice, série da HBO que a lançou na TV. "Linda, linda, não se esqueça: nunca saia de casa sem rezar, porque você é uma es-tre-la", destaca a veterana, em bênção que só as divas conhecem.


(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo de 11 de abril de 2016)





Apresentação do elenco da novela das 11, "Liberdade Liberdade"



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Crônica da Xênia: Os dois lados do passado


Êta Mundo Bom! tem relembrado um tempo gostoso, mas difícil em certos pontos

Eu andava um tanto melancólica, suspirando, mexendo no passado que mora em mim - e me perguntando o porquê de tanto saudosismo. Foi então que me dei conta: é efeito da novela Êta Mundo Bom!, de Walcyr Carrasco.

Cara leitora, volto a ser a moça bonita, cheia de esperanças e à procura de um grande amor! O cenário é maravilhoso. Me vejo caminhando pelas ruas de pedra de uma São Paulo bonita, elegante. As mulheres bem vestidas e os homens, de terno e gravata. Lembro com saudade do magazine Mappin, loja de departamentos inglesa onde os balconistas falavam em inglês. As ruas, limpíssimas, eram lavadas às 6h da manhã.

Eu ia para o trabalho subindo a Avenida São João... Usei muitas roupas iguais às de Anastácia (Eliane Giardini) e o cabelo, não na cor, mas no penteado de Sandra (Flávia Alessandra). Aí, minha vizinha vem dar uma sacudida nas minhas lembranças e comenta comigo: "Eu não sabia que as mulheres eram tão maltratadas, dessa forma cruel!".

Pois é. Só existiam na moral retrógrada daquele tempo dois tipos de mulher: a para casar, a santa, e a para usar, a prostituta. Que fique claro: uma moça mãe solteira ou não mais virgem entrava na segunda categoria.

Tenho saudade de determinadas delicadezas daquela época, mas sinto horror ao lembrar que mulheres se juntavam para apedrejar uma menina porque era filha de uma mulher separada. Walcyr Carrasco, brincando, brincando, está mostrando os dois lados da moeda.



(texto publicado na revista Ana Maria nº 1009 - 12 de fevereiro de 2016)



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Book Rosa - Walcyr Carrasco


Fora do eixo Rio-São Paulo, milionários tornam-se sócios de agências menores só para ter acesso às bonitas

Quando fui convidado para escrever uma novela inédita das 11 da noite para a Globo, eu não tinha ideia alguma na cabeça. Mas disse sim. Eu sou fascinado por desafios. Prometi uma ideia para dali alguns meses. Em geral crio de maneira intuitiva. Mas desta vez resolvi fazer diferente. Fui repórter durante boa parte da minha vida. O mundo fashion sempre me fascinou. Como jornalista, eu era especializado em comportamento e moda. Mas também sempre estive do lado glamouroso do mercado. Desfiles, tendências. Mas eu precisava de uma boa ideia e voltei ao meu passado de repórter. E pesquisei algo de que já tinha ouvido falar: o book rosa. Ou, como alguns preferem, ficha rosa. Ou seja, a modelo que aceita também prestar serviços sexuais ao cliente. Book azul no caso dos rapazes – também há clientela. Antes de mais nada, esclareço. Existe. Nem todas as agências fazem. Nem todas as modelos fazem. Mas muitas sim. Em geral meninas e garotos de boa aparência são garimpados pelos olheiros (ou scouters) em lugares distantes. Até algum tempo atrás, com 13 anos já estava bom. De um tempo para cá, internacionalmente se convencionou que modelos não podem ser tão jovens. Fotos de moda flertavam com a pedofilia. A idade média dos modelos aumentou. Mas, sim, 16 já está ótimo. O interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina é um celeiro para quem procura futuros modelos. A genética italiana-alemã é incrível. Mas no Ceará também há mulheres belíssimas. Muitas vezes, das pequenas cidades do interior, saem excursões de ônibus de jovens interessadas em ingressar no mundo da moda. Quem organiza cobra a viagem. De fato, a oportunidade existe. As grandes agências recebem, fazem um filtro. E, se gostam, contratam imediatamente. Uma das mais famosas modelos do mundo foi descoberta assim.

Trazidos por olheiros ou através de excursões, esses jovens são contratados. O que significa? Só que acabam de contrair uma dívida. São hospedados em cinco, seis, dez, em apartamentos. Pagam pelas vagas. Pagam por um book fotográfico. Com futuros trabalhos, óbvio. (Há falsas agências que só fazem books de incautos para ganhar dinheiro. Cobram e ficam na promessa.) No universo das agências profissionais, há catálogos de moda, eventos, desfiles. Distribuir amostras grátis de perfume em um shopping é trabalho de modelo, tanto quanto desfilar para uma grife. O dinheiro às vezes não chega. Mas há formas de fazer dinheiro, não?

Primeiro fui na internet. Descobri um Facebook de Book Rosa e outro de Ficha Rosa. Óbvios demais. Eu queria ir mais longe. Meu lado repórter falou alto. Todo jornalista sabe que existem pessoas que gostam de ser fonte. De dar notícias. Não sei por que, até se prejudicam. É a secretária que grava o próprio chefe fazendo maracutaia. O assessor que tira cópias de um documento e entrega ao repórter. Encontrei um dono de agência de língua comprida. Foi a minha casa. Servi pãezinhos de queijo e café, enquanto ele passava a tarde prejudicando o próprio negócio. Para minha surpresa, descobri que boa parte dos trabalhos de book rosa é paga não pelo, digamos, beneficiário. Mas pelo dono da empresa. Vejam bem. A empresa faz um evento. Contrata as modelos. No trabalho delas (ou deles), está embutida a sequência, num fofo quarto de hotel. A agência dá nota fiscal. Tira comissão de 20%! Fica na verba do evento, o dono da empresa às vezes nem desconfia. Ah, sim, em convenções de políticos com frequência também sobram mulheres. Quem paga? Você, eu. O dinheiro não é entregue diretamente à jovem. Às vezes sim, mas é chamado de “presente”. E o que o dono da agência, ou booker, que programa os trabalhos, mais costuma dizer é:

– Eu gosto de ajudar as modelos.

Em cima disso, sem preconceito, eu construí uma história. Voltei com minha ideia. Foi aprovada. Está aí Verdades secretas. E o país todo descobriu que existe o book rosa. Tornou-se comum falar nisso, e sabe-se como é o jogo para convencer uma garota a fazer. Sei de um empresário importante que chegou, há anos, a ser processado pela mãe de uma garota de 13 anos. Em agências menores fora do eixo Rio-São Paulo, muitas vezes milionários tornam-se sócios para ter melhor acesso às bonitas.

É raro saber de onde surge uma história. Desta vez ficou fácil. Da vida real. Tem gente furiosa comigo porque, repito, nem toda modelo faz, nem toda agência faz. Mas o book rosa existe. Essa é a verdade que eu escrevo e deixou de ser secreta.

domingo, 22 de março de 2015

Homenagem a Claudio Marzo, o galã dos anos 70

Irmãos Coragem (1970)



Minha doce namorada (1971)



Terceira parceria de Claudio Marzo com Regina Duarte na novela Carinhoso (1973)