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sábado, 3 de dezembro de 2016
domingo, 16 de outubro de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
Nazistas contra o papa - Rita Loiola
Invadir o Vaticano, sequestrar o papa Pio 12 e levá-lo para o norte. Foi por muito pouco que os nazistas não cumpriram essa missão.
O telefone acordou Karl Wolff bem cedo na manhã de 13 de setembro de 1943. Do outro lado da linha, o aviso de que Adolf Hitler queria vê-lo imediatamente. O general vestiu o uniforme com pressa e tomou o caminho que separava seu quarto do bunker do führer. Enquanto percorria os extensos corredores, imaginava o que estava por vir. Três dias antes, as tropas alemãs haviam entrado em Roma. Hitler tinha sede de vingança contra os italianos desde junho, quando eles depuseram seu aliado Benito Mussolini. Quando Wolff chegou ao bunker, o ditador foi direto:
"Tenho uma missão especial para você, Wolff", teria dito Hitler, conforme o depoimento de Karl Wolff anos depois. "Suas tropas devem ocupar o Vaticano o mais rápido possível, proteger seus bens e levar o papa e a cúria para o norte. Não quero o pontífice nas mãos dos Aliados. O Vaticano já é um ninho de espiões e um centro de propaganda anti-nazista. Arranje os detalhes mais importantes e dê notícias a cada duas semanas."
Comandante da SS na Itália, Karl Wolff saiu da sala decidido não a executar o plano de que Hitler lhe havia incumbido, mas a sabotá-lo. Essa é a tese do jornalista americano Dan Kurzman, especializado na 2ª Guerra Mundial e autor do livro Conspiração contra o Papa, recém-lançado no Brasil. Kurzman foi o primeiro jornalista a entrevistar o general Wolff logo depois de ele sair da prisão, em 1969. Baseado nessa e em outras entrevistas com embaixadores e generais nazistas, Kurzman tentou reconstituir os meses em que o führer quase invadiu o Vaticano. "O papa sempre soube que Hitler queria acabar com o cristianismo", diz Kurzman. "Mas o perigo se tornou real apenas no fim de 1943, quando o ditador italiano Benito Mussolini foi deposto. "Para Hitler, era preciso acabar com a dupla ameaça que o papa representava. Ele temia, por um lado, uma declaração pública de Pio 12 contra o massacra dos judeus, que poderia levar quase metade dos soldados, alemães católicos, a se voltarem contra o führer. Por outro, o ditador sabia que o papa era um forte líder espiritual - que poderia influenciar as almas.
Para o general Karl Wolff, porém, raptar o papa era loucura. A invasão do Vaticano poderia causar um levante da Itália e de todos os católicos do mundo contra a Alemanha. Incumbir-se dessa missão era ainda pior. Ocupando um cargo no alto escalão da SS, organização por trás do Holocausto, Wolff temia ter seu nome associado ao rapto e, possivelmente, ao assassinato de Pio 12. A única maneira de esse plano insano ser útil era sabotá-lo. Se a Alemanha perdesse a guerra, a bênção de sua Santidade poderia salvar a vida dele, que já tinha seu nome ligado à deportação e morte de milhões de judeus. Por isso, naquela manhã em que Hitler lhe passou a ordem, Wolff sabia exatamente com quem deveria falar.
Os sabotadores
A primeira atitude do general foi pedir ajuda aos colegas "anti-Hitler" de Roma. O primeiro a saber do projeto que deveria continuar em segredo foi Rudolf Rahn, o embaixador alemão na Itália. Os dois logo entraram em contato com Ernst von Weizsäcker, o embaixador alemão para o Vaticano. Todos concordavam que a invasão deveria ser cancelada. Mas, para isso, o próprio papa precisaria ajudar.
Em setembro de 1943, o Vaticano estava nas mãos dos nazistas. As saídas da sede da Igreja estavam frechadas pelo Exército alemão. No início do mês seguinte, Hitler ordenou a prisão dos judeus romanos. Os nazistas que tentavam salvar a vida de Pio 12 achavam que, se se prisões ocorressem, o papa não teria alternativa senão falar publicamente contra o massacre, provocando o próprio rapto. Por isso, para salvá-lo, era preciso mantê-lo quietinho.
A melhor forma de fazer isso era metendo medo no pontífice. Segundo Kurzman, o primeiro artifício que os nazistas da Itália usaram foi uma notícia sem muitos detalhes em uma rádio pirata fascista avisando sobre um suposto sequestro do papa. A mensagem pipocou em alguns jornais e chegou até Pio 12. No dia seguinte, o secretário dele chamou o embaixador Weizsäcker para uma audiência. Sua Santidade havia mordido a isca.
Anos depois, o diplomata escreveria que, assim que entrou no escritório do líder católico, a primeira coisa que notou foi seu olhar sereno. Quando tocou no assunto do sequestro, sua expressão não se alterou. "Ouvi rumores", teria dito Pio 12. "Mas permanecerei em Roma a qualquer custo." Weizsäcker, segundo instruções recebidas de Berlim, perguntou se ele faria um elogio público à boa conduta alemã. O papa teria garantido que sim, se os nazistas prometessem não tomar nenhuma atitude hostil contra o Vaticano. Em outras palavras, se o sequestro fosse cancelado, o papa confirmaria o "bom tratamento" alemão.
O embaixador deixou o Vaticano com a promessa de que entraria em contato com Berlim sobre a troca de favores. E o pontífice entendeu que a ameaça alemã era real e próxima - mas não passaria disso se ele honrasse seu voto de silêncio. Mas mandou esconder todos os arquivos pessoais e documentos do Vaticano sob pisos falsos. Membros da cúria prepararam as malas para acompanhar seu líder em caso de uma fuga de emergência. Ele precisaria dessas garantias para os próximos dias. O chefão da SS, Heinrich Himmler, já havia ordenado que os cerca de 8 mil judeus de Roma fossem presos em 16 de outubro de 1943.
O dilema
O bairro judeu de Roma ainda dormia quando a SS tomou as ruas naquele 16 de outubro de 1943. A chuva desabava enquanto 365 soldados da polícia alemã abriram portas aos chutes, gritando o nome dos procurados. Antes das 6 horas, homens, mulheres e crianças estavam enfileirados e jogados em caminhões, sob a chuva sem trégua. Ao fim, 1.256 dos 8 mil judeus de Roma foram presos e 1.002 foram deportados naquele dia. Uma semana depois, morreram em Auschwitz. Pio 12, como nunca se pronunciou publicamente sobre a prisão dos judeus, entraria para a história como "o papa de Hitler". Entre outros temores que o levaram a silenciar o massacre, estavam seu sequestro e a aniquilação do Vaticano. "Além dos mais, ninguém podia ter certeza de que o pronunciamento teria ajudado a salvar algum judeu", diz Antônio Marchionni, professor de teologia da PUC-SP. "O mais provável é que não somente ninguém fosse salvo como também as instituições católicas que abrigavam milhares de judeus fossem retaliadas."
Na época, esse também era o raciocínio da embaixada alemã no Vaticano. Em 1963, o embaixador alemão Albrecht von Kessel escreveu: "Estávamos convencidos de que um protesto do papa contra a perseguição dos judeus não terai salvado ninguém. Hitler reagiria com violência a qualquer ameaça que fosse enviada diretamente a ele". Existe ainda a possibilidade de que mais judeus fossem mortos se o papa se pronunciasse. Sabe-se hoje que, dos cerca de 8 mil judeus que restavam em Roma, entre 4 mil e 7 mil foram abrigados em 180 edifícios católicos, entre igrejas, monastérios, instituições de assistência e também no próprio Vaticano.
No entanto, o dever moral de lutar contra o assassinato de milhares colocava o líder da Igreja em um dilema. "Pelo lado prático, o papa Pio 12 sabia que seu pronunciamento não apenas não barraria o assassínio dos judeus mas somaria ao Holocausto o ataque aos católicos e o provável fim da instituição que defendia", afirma o jornalista Dan Kurzman. "Na verdade, Pio 12 não tinha escolha. Olhando pelo lado moral, porém, ele tinha a obrigação de se colocar contra o massacre."
De um lado, atemorizado pelas próprias inseguranças, de outro, pela chantagem alemã, Pio 12 permaneceu mudo. Duas semanas depois daquele sangrento 16 de outubro, o papa cumpriu sua promessa ao embaixador alemão. Publicou no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, um comunicado expressando sua gratidão às tropas alemãs por terem respeitado a Igreja. O artifício do embaixador Weinsäcker havia funcionado. Mas o papa ainda teria que passar por cima de seus interesses mais uma vez até o fim da guerra para garantir sua segurança.
O encontro final
Em março de 1944, o Exército russo chegou a Roma. Uma bomba dos comunistas atingiu o exército alemão que marchava pela Via Rasella, em Roma. Os estilhaços mataram 32 soldados alemães. As ordens do führer foram expressas: para cada morto, 10 italianos deveriam ser sumariamente executados. Weizsäcker e Wolff haviam conseguido silenciar o papa durante a prisão dos judeus. Mas ele permaneceria calado frente a um massacre italiano? O plano do rapto, que estava dormente, voltou a assombrar a embaixada alemã.
Wolff havia chegado à cidade na noite do massacre com ordens expressas para levar a cabo a deportação dos romanos. E, diante desses fatos, tinha certeza, o papa não continuaria impassível. O único modo de evitar uma tragédia no Vaticano - e salvar o futuro de Wolff - era conversar pessoalmente com o pontífice.Como apenas o embaixador Weinzsäcker estava autorizad a entrar no Estado da Igreja, a reunião teve que ser secreta. O encontro clandestino entre o líder da Igreja e o comandante da SS na Itália aconteceu no dia 10 de maio de 1944.
O general Karl Wolff reservou ao papa a mesma deferência que tinha para Adolf Hitler. Recebeu seus protestos em silêncio e garantiu que faria o possível para impedir prisões e deportações, acalmando os ânimos do führer. No entanto, ainda temendo seu sequestro, o pontífice deixou claro que não sairia do Vaticano de jeito nenhum, nem deixaria de lutar pelos princípios cristãos de sua Igreja. Wolff assegurou com veemência que tentaria cancelar qualquer projeto de sequestro ou sabotagem de Roma. Acreditando no compromisso do general, o líder da Igreja Católica deu sua bênção ao amigo íntimo de Heinrich Himmler, e um dos executores do Holocausto. Wolff se despediu juntando os joelhos e erguendo o braço - o cumprimento nazista. Pouco mais de um mês depois do encontro, as tropas americanas entraram em Roma, expulsando os nazistas. A missão secreta de Karl Wolff nunca chegou a ser cumprida. Pio 12 deixou o Vaticano apenas em 1958, quando morreu.
Karl Wolff
Depois de evitar o sequestro do papa Pio 12, Wolff foi um dos principais negociadores da Operação Sunrise, que articulou a rendição completa dos nazistas que ocupavam a Itália. Preso pelos aliados em 1945, foi condenado a 5 anos de prisão em 1947 acusado de ser membro da SS. Em 1962, foi condenado mais uma vez, por ter contribuído para mandar 300 mil judeus para o campo de Treblinka. Em 1969, foi posto em liberdade por causa de problemas de saúde. Morreu em 1984.
Ernst von Weizsäcker
Preso em 1947, foi condenado a 5 anos de prisão, morrendo em 1951. Sua condenação ocorreu sob protestos - alguns políticos, entre eles Winston Churchill, eram contrários à prisão de Weizsäcker porque ele teria trabalhado contra a vontade de Hitler. Seu filho Richard von Weizsäcker foi chanceler da Alemanha entre 1984 e 1994.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 225 - agosto de 2008)
segunda-feira, 16 de maio de 2016
As vitórias de Barone - Boris Schmaiderman
O livro 1942: O Brasil e sua Guerra quase Desconhecida nos surge particularmente oportuno, pois trata do Brasil na Segunda Guerra Mundial e expressa um protesto contra a ignorância generalizada no País em relação à participação de uma força expedicionária brasileira. O contato que mantenho com estudantes confirma estas afirmações do autor. Ainda recentemente, um rapaz, em vias de ingressar na Universidade Católica de São Paulo, me dizia: "É verdade, eu soube que vocês chegaram a desembarcar na Itália, mas não entraram em combate, não é mesmo?"
Tudo isto parecia ainda mais estranho, ao lembrarmos que nossa imprensa tem registrado com destaque as datas correspondentes aos feitos da FEB. Será que não se leem jornais ou mesmo os resumos na tela do computador?
O livro inicia com uma evocação do pai do autor, o soldado João Lavor Reis e Silva, que lutou nas fileiras do Regimento Sampaio, do Rio de Janeiro, quando este já se tornara o Primeiro Regimento de Infantaria da FEB. João Barone se lembra do pai calado e reticente quanto à sua participação na guerra. Este livro surge, pois, como uma homenagem comovida e reconstituição das histórias que ele deixara de contar.
O autor é baterista do Paralamas do Sucesso, mas aquela vontade de reconstituir o que seu pai havia silenciado levou-o a empenhar-se a fundo no tema da Segunda Guerra Mundial. Assim, além de elaborar este livro, realizou um documentário sobre o ás brasileiro da aviação, Pierre Clostermann, que participou da cobertura do desembarque aliado na Normandia, o tão esperado Dia D, e escreveu sobre esta e outras vivências na guerra no livro O Grande Circo. Além disso, Barone fez outro filme, Um Brasileiro no Dia D, com a última entrevista de Clostermann, pouco antes de sua morte em março de 2006.
Esta obsessão com o tema levou-o também a descobrir outro brasileiro entre os participantes do Dia D, Arthur Scheibel, que se engajou na marinha marcante norte-americana e, depois, no exército ianque, sendo morto na operação de desembarque.
O livro dá o devido destaque à perplexidade dos brasileiros diante da devastação e penúria que encontraram na Itália e lembra que eles repartiam sua comida com a população.
Tendo visitado a região dos combates num grupo de entusiastas da história da FEB, pôde constatar o carinho com que a população lembrava ali o convívio com os brasileiros. Ocorre, pois, uma situação paradoxal enquanto no Brasil bem poucos lembram a atuação da FEB, os habitantes da região em que se travaram os combates recordam com afeto a passagem dos brasileiros por ali. Claro que nada disso deve resultar numa idealização e que as duras contingências daqueles dias deixaram sua marca tanto em nós como na população, mas, feito o balanço, as lembranças positivas são muito mais fortes.
O livro traça um histórico dos brasileiros nas guerras e, neste sentido, constitui um documento valioso. Além de tratar da FEB, aborda com o devido destaque a ação de nossa esquadrilha aérea e a da marinha de guerra. Neste sentido, detém-se particularmente no episódio do cruzador Bahia, que afundou depois de se chocar em mina, pouco após o término da guerra. (Leia-se sobre este episódio o romance escrito por um dos sobreviventes, Moacyr C. Lopes, Maria de cada porto, que teve grande repercussão quando saiu, mas está bastante esquecido.) Lendo esta parte do livro, estranhei a falta de uma constatação: nossa marinha de guerra teve quase o dobro de mortes em relação à FEB, conforme se verifica numa visita ao monumento-mausoléu no Rio de Janeiro.
O livro contém ainda um bem material iconográfico. Duas das fotos documentam o embarque da tropa brasileira no transporte norte-americano General Mann, que partiria em 2 de julho de 1944. São bem expressivos ali os rostos preocupados de nossos soldados, vergados sob o peso do Saco A, que reunia os objetos de uso imediato. Pois bem, um dos soldados aparece com o enorme saco na cabeça e segurando na mão direita seu violão. Isso acabou constituindo uma característica de nossos homens, nos momentos mais difíceis, em meio à neve e ao gelo, eles carregavam um pouco do Brasil quando entoavam sambas (é verdade que isto se tornava impossível nos abrigos da infantaria, onde se procurava não revelar a posição da tropa).
Aliás, uma das lembranças boas que me ficaram da guerra é a de uma jovem italiana entoando com sotaque inevitável a Aquarela do Brasil.
Ainda em relação ao material iconográfico do volume, deve-se destacar a foto do monumento erguido na Base do Monte Castello, nos arredores de Gaggio Montano, em homenagem à FEB. De autoria de Mary Vieira, inaugurou-se em junho de 2001, mas a escultora já havia falecido. (Quando visitei a região, em 1965, havia ali um monumento provisório.)
Um dos méritos do livro está em lembrar o sacrifício de tantos brasileiros na assim chamada "Batalha da Borracha". Na época, os Aliados se defrontaram com a escassez de borracha, devido ao avanço japonês no Sudeste asiático e recorreram ao Brasil, que se encarregou de produzi-la em quantidade suficiente.
Segundo o autor, cerca de 57.000 nordestinos foram então transportados para a Amazônia, onde trabalharam em condições deploráveis de exploração pelos donos dos seringais. No entanto, devido à retirada dos japoneses, o Sudeste asiático voltou a produzir borracha para os Aliados e o preço desse produto caiu drasticamente, situação agravada ainda pelo início da produção de borracha sintética.
Nossos homens e suas famílias ficaram então reduzidos à miséria, morrendo cerca de 31.000.
Enfim, recordando triunfos e misérias, este livro se constitui em documento indispensável para o conhecimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
(texto publicado no jornal O Estado de São Paulo - Caderno 2 - C5 - 9 de maio de 2016)
sábado, 31 de outubro de 2015
domingo, 25 de outubro de 2015
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Spielberg entra na guerra fria - Jack Coyle
Com estreia em outubro, "Ponte de Espiões" traz Tom Hanks no papel principal
Os quase três anos de espera desde o último filme de Steven Spíelberg (Lincoln, de 2013) terminarão em outubro com o filme de suspense e espionagem Bridge of Spies.
Para sorte dos cinéfilos, não haverá tão cedo outra pausa tão grande entre as produções do diretor. Depois de terminar Ponte de Espiões, ele vai montar seu próximo filme, The BFG, baseado na história O Grande Gigante Bonachão, de Roald Dahl, e está na pré-produção de Ready Player One (Jogador nº 1), uma aventura de ficção científica baseada no popular livro de Ernest Cline.
É um ritmo que Spielberg, aos 68 anos, diz que pretende manter. "Terei um grande período de direção nos próximos anos", afirmou. "Nossa última filha, a menor, entrou na universidade na semana passada, e minha esposa (Kate Capshaw) e eu estamos desfrutando do ninho vazio."
Segundo Spielberg, a folga também permite maior tempo livre à mulher. "Isso lhe dá a possibilidade de envolver-se mais em sua arte, ela que é uma pintora maravilhosa", observa. "E, agora, tenho a oportunidade de dirigir filmes sequencialmente."
Para Spielberg, Ponte de Espiões, que estreia em outubro, é um novo capítulo da história que ele conhece pessoalmente: a guerra fria. Tom Hanks interpreta James Donovan, um advogado recrutado pela CIA para resgatar um piloto espião cujo avião foi abatido na ex-União Soviética.
Numa entrevista recente, durante uma folga da edição de The BFG, o diretor falou sobre o filme, baseado em fatos reais, o inesperado sucesso de Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, e sua falta de interesse por filmes de super-heróis.
O que o levou a realizar Ponte de Espiões?
Sempre quis fazer um filme de espiões, mas este não é James Bond. Só James Bond pode ser James Bond. Sempre me fascinou o valor de entretenimento da série de filmes de espiões de Bond, assim como os romances sérios sobre espiões de John Le Carré, especialmente o filme de Martin Ritt, O Espião Que Saiu do Frio. Também filmes de espiões como A Morte Não Manda Aviso, e Ipcress - Arquivo Confidencial, além de Cortina Rasgada, de Hitchcock.
Estava interessado em fazer um filme que se desenvolvesse durante a guerra fria?
Vivi durante a guerra fria e estava muito consciente da possibilidade de andar pela rua, ver um flash branco e ser atomizado. Tinha igualmente muita consciência da insegurança nesse tempo, principalmente para os jovens. É algo que me impressionou muito quando criança. Filmes de 16 milímetros nos diziam o que fazer, em caso de um ataque aéreo. Quando começassem a tocar as sirenes ou se víssemos o flash, deveríamos nos esconder debaixo da escrivaninha, se possível com um livro bem grosso na cabeça.
Encontra alguma relação entre esta época e agora?
Há muitos pontos importantes entre o fim dos anos 1950 e agora. Hoje, usamos drones, enquanto, naquela época, eles usavam aviões espiões U2 sobre a União Soviética. Nossa história também fala do avião U2 de Gary Powers e a prisão de um espião soviético que trabalhou neste país por dez anos, Rudolph Abel. E o negociador, uma raridade, um advogado de seguros que era um dos promotores nos julgamentos por crimes de guerra de Nuremberg, foi convocado para defender um suposto espião soviético. Além disso, há o clima denso que ele se dispõe a suportar em sua luta para que se fizesse justiça. É uma história sobre um indivíduo de princípios, honesto, feito sob medida para Tom Hanks.
É seu quarto filme com ele.
Cada colaboração é melhor que a anterior. Nos divertimos muito juntos.
Você causou sensação há dois anos quando disse que Hollywood caminhava para uma implosão pelo excesso de filmes de grandes orçamentos. Ainda pensa assim?
Sim, ainda sinto o mesmo. Estávamos por aí quando morreram os filmes de vaqueiros, e haverá um momento em que os filmes de super-heróis terão o mesmo destino dos westerns. Não significa que não haverá outro momento no qual voltarão os filmes de vaqueiros e os de super-heróis. Claro que, neste momento, os filmes de super-heróis fazem o maior sucesso. Eu só falei que estes ciclos têm tempos específicos na cultura popular. Chegará o momento em que as histórias mitológicas serão suplantadas por outros gêneros e, quem sabe, algum cineasta jovem pensará em descobri-lo para todos nós.
Você ficou surpreso com o sucesso de Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, o filme do qual foi produtor executivo?
Estou de volta ao negócio dos dinossauros. Prometemos que haveria mais dentes e nos recompensaram por isto. Teria sido genial se tivéssemos conseguido o que o pessoal esperava, um fim de semana de US$ 100 milhões em três dias. Isso teria dado para o ano inteiro, para mim. Mas o fato de ter ganho mais do dobro do que os especialistas esperavam, me deixou muito feliz.
Ponte de Espiões é o primeiro filme em anos que fez sem trilha musical de John Williams, seu colaborador habitual. Por quê?
John Williams voltará para fazer The BFG. Somente duas vezes não trabalhamos juntos em 42 anos. A primeira foi em A Cor Púrpura, em 1985, que teve música de Quincy Jones, e a segunda foi porque Johnny teve de se submeter a um pequeno procedimento médico, que lhe impediu de compor para o meu filme no prazo que ele pensava. Agora está bem, está 100% de volta para trabalhar em Guerra nas Estrelas, mas, infelizmente, não pôde trabalhar em Ponte de Espiões. Pude trabalhar com Thomas Newman, de quem sou fã. Este foi somente um tropeço e ambos ficamos tristes com isso, mas nos emociona voltar para The BFG.
(texto publicado no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo de 9 de setembro de 2015)
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
"Fui contrabandeado para a Europa" - Jacyara Azevedo
A angustiante viagem de 12 dias do sírio Moutassem Yazbek em um barco que partiu da Turquia para a Itália, em uma travessia que já matou 1,5 mil pessoas somente este ano
Até onde o desespero pode levar alguém? Existe um limite? Enquanto você lê estas palavras, há milhares de pessoas tentando atravessar o inquieto Mar Mediterrâneo, amontoadas em botes infláveis ou em porões de navios cargueiros. São jovens, outros nem tanto, gestantes, idosos e crianças que passam dias à mercê de ondas furiosas, quase sem comida ou água. Estão fugindo de seus países de origem, contrabandeados, escolhendo arriscar a vida em busca de esperança. Muitos fracassam. Outros têm mais sorte, como o refugiado sírio Moutassem Yazbek, que concluiu a travessia da Turquia para a Itália em dezembro de 2014, em sua segunda tentativa. E é uma rara jornada bem-sucedida. Eis sua história...
O árabe pagou 6,5 mil dólares para um contrabandista colocá-lo em uma embarcação longe o suficiente da guerra civil de seu país, que já dura quatro anos e não tem perspectiva de solução. A viagem de 12 dias, que em condições adequadas levaria apenas dois, foi uma odisseia. "Eu teria feito qualquer coisa para chegar à Europa. Por mais difícil que seja acreditar, valeram a apena o risco, os maus-tratos e o medo. Tenho uma vida melhor agora", afirmou em depoimento a CNN Moutassem, um ex-executivo de vendas corporativas de uma empresa de aluguel de carros em Dubai, Emirados Árabes Unidos. Atualmente ele está na Alemanha, em Illingen, município da região do Sarre, onde ajuda voluntariamente outros recém-chegados da Síria.
Voltar para a Síria, jamais
Ano passado, Moutassem perdeu o emprego em Dubai. Seu visto de trabalho havia expirado e ele não tinha um lugar para ir. "Voltar para a Síria não era uma opção. Retornar significaria ter de matar ou morrer", ele explica. Assim, escolheu a Turquia (os sírios não precisam de visto para entrar naquele país) como ponto de parada antes de viabilizar um antigo sonho: o de chegar à Europa. Já em Istambul, procurou informações sobre o contrabando ilegal de pessoas e, sinal dos tempos, descobriu muitas páginas do gênero acessíveis via Facebook. Todas apontavam para a cidade portuária de Mersin, na fronteira sul da Turquia, como o local de partida das embarcações rumo à Itália. No hotel onde estava hospedado, conheceu um conterrâneo que planejava partir dentro de alguns dias. O novo amigo indicou-lhe um contrabandista. "Acertadas as condições de pagamento, o homem me disse para estar pronto. A qualquer momento eu receberia uma ligação para partir." Recebeu, poucos dias depois. Era noite e começava a jornada.
Ele perdeu tudo
Cerca de 100 homens e mulheres em cinco ônibus foram levados para um ponto de contrabando, distante de Mersin. Depois, todos tiveram de caminhar na escuridão por meio de fazendas de plantação de laranja, para evitar serem descobertos pela polícia. Moutassem andou por 30 minutos ao lado de gente como uma senhora e seus dois filhos. "Ela tinha muita dificuldade para seguir o grupo e foi informada que, se não caminhasse mais rápido, os barcos iriam embora sem eles", relembra. O plano era colocar os fugitivos em três barquinhos em direção ao navio principal. "Qualquer pessoa com um passado, mas sem nenhum futuro, seria capaz de fazer coisas insanas", justifica Moutassem, que esperou mais três dias no meio do oceano, já em águas internacionais, até receber outros dois grupos de fugitivos. No quarto dia, um total de 300 pessoas partiram. "Não havia como voltar atrás", diz. Oito horas depois, entretanto, o motor da embarcação quebrou e as ondas começaram a empurrá-la em direção à Chipre, ilha situada ao Sul da Turquia, até bater em rochedo e ficar preso. O grupo foi resgatado por um navio da guarda costeira e deportado de volta à Turquia - foram fichados e liberados mais tarde. "Eu já tinha perdido tudo e sonhava em ser tratado com dignidade. Decidi arriscar de novo, mesmo sabendo que aquela loucura muitas vezes termina em tragédia, cheia de infelizes sem nome empilhados uns sobre os outros", confessa Moutassem.
Renascimento
Em apenas 48 horas, ele recebeu uma nova chamada para o já conhecido ponto de contrabando. Dessa vez, encontrou um navio de carga, maior, talvez com 85 metros de comprimento. Esperou cinco dias até formarem o novo grupo, com 391 passageiros (todos refugiados de diferentes cidades da Síria - em 2014, foram 70 mil sírios atravessando o Mediterrâneo). A etapa seguinte foi inesquecível: "Estávamos no porão, não havia colchões, ondas gigantes invadiam o teto e o chão de metal. Passamos cinco dias sem comida e com pouca água. O 'banheiro' era um pneu velho de carro coberto por um pedaço de pano'. No 11º dia, o barco chegou a uma distância de 200 milhas da costa sul da Itália. "Guias" da embarcação tentaram alertar as autoridades italianas de sua presença, alegando que tinham sido deixados à deriva, sem um capitão ou uma tripulação (não era uma inverdade, pois o piloto não possuía registro).
Um navio islandês resgatou Moutassem junto de seus companheiros de viagem. "Os refugiados agitavam as mãos como crianças (...). Foi como um renascimento", lembra Moutassem que pisou em terra firme na província de Catânia, Sicília. Encaminhado para um campo de refugiados, o sírio ouviu que teria de fornecer suas impressões digitais para, então, ser simplesmente liberado. Seguiu para Milão com dois outros sírios. O trio passou por Paris e decidiu fincar bandeira na Alemanha.
Moutassem está em Illingen e tocando a vida. Diz a amigos e familiares em seu Facebook que está bem e sinaliza na rede social seu novo local de moradia. Compartilha vídeos como o de Angelina Jolie em favor dos sírios nas Nações Unidas e cenas de um seriado que gosta: Big Bang Theory. Por enquanto, sua vida de refugiado discretamente "escondido" é essa, até que consiga um visto oficial e realize o sonho de viver tranquilamente na Europa, como tantos outros.
(texto publicado na revista Contigo nº 2069 - 14 de maio de 2015)
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Na guerra e na paz, na alegria e na tristeza - Isabel Clemente
Duas mulheres que começaram a namorar há 72 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, se casam nos EUA e dão exemplo de relacionamento duradouro
Alice Dubes e Vivian Boyack se conheceram em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. Enquanto milhões de homossexuais, judeus, deficientes, ciganos e tantas outras minorias morriam em campos de extermínio na Europa, numa tragédia nascida da intolerância, duas jovens estudantes se apaixonavam numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Davam início ali a uma trajetória de vida nada convencional e condenada ao silêncio.
No sábado, dia 6 de setembro, 72 anos depois daquele primeiro e decisivo encontro, Alice e Vivian, de mãos dadas e sentadas em suas cadeiras de rodas, selaram a união com as bênçãos de uma cerimônia religiosa. Alice, de 90, vestia um terninho creme enfeitado com uma flor na lapela. Vivian, de 91 anos, usava um tailleur cor-de-rosa. Ao redor do casal estava um pequeno grupo de amigos e familiares. "Esta cerimônia deveria ter acontecido há muito tempo", disse a reverenda Linda Hunsaker, da Primeira Igreja Cristã, que celebrou o ato em Davenport, cidade do Estado de Iowa onde as duas moram desde 1947.
Os cabelos brancos e as veias saltadas no dorso das mãos sobrepostas eram testemunhas de uma história que desafiou o tempo e o preconceito. Iowa não é exatamente um bastião dos direitos de lésbicas e outros grupos com orientação sexual diferente da maioria (reunidos na sigla LGBT). Na verdade, é um dos poucos Estados americanos onde menos da metade (46%) dos eleitores aceita esse tipo de união, de acordo com uma pesquisa nacional divulgada neste ano. A proporção dos que preferem a proibição (45%) é elevada. Vivian e Alice começaram a namorar 67 anos de o Estado admitir o casamento de pessoas do mesmo sexo, legalizado em 2009.
O jardineiro Jerry Yeast, de 73 anos, que trabalha para o casal desde os 18, estava emocionado, segundo uma reportagem de um jornal local. "Conheço essas mulheres toda minha vida e posso dizer: elas são muito especiais".
Quando instadas a contar detalhes do primeiro encontro, Alice e Vivian divagam, divergem, riem e finalmente chegam a um acordo. O ano foi 1942, informaram ao jornal inglês The Guardian. Enquanto milhares de famílias viam seus homens partir (muitas vezes sem volta) para a guerra, Alice e Vivian começavam uma relação não convencional, cercada de tabus, mas que frutificou com a ajuda do silêncio e da discrição dos que as conheciam. "Muita gente sabia, mas nunca nos perguntaram nada, e nunca contamos", diz Alice. "Sempre nos divertimos muito juntas."
A história de Alice e Vivian foi contada por jornais no mundo todo. Atraiu, como era de se esperar, centenas de comentários elogiosos, assim como ataques e críticas, que ajudam a entender as dificuldades por que passam pessoas em busca de respeito por suas opções sexuais.
Em junho de 2008, duas mulheres fizeram história como o primeiro casal gay da Califórnia a usufruir a legalização da união homossexual. Phyllis Lion e Del Martins tinham 84 e 87 anos, respectivamente, quando registraram o casamento de mais de 50 anos em cartório, numa cerimônia simbólica, organizada pelas autoridades da Califórnia. As duas foram pioneiras na defesa dos direitos de homossexuais ao fundar, nos anos 1950, uma associação para defesa de lésbicas. O casamento homossexual ainda é proibido na maior parte dos países do mundo. No Brasil, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, de 2011, estabeleceu a legalidade da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Quando se leva em conta a rapidez com que os casamentos se desfazem nos dias atuais, longos relacionamentos como o de Alice e Vivian são raridades. Nos países integrantes da OCDE (organização que inclui as principais economias do mundo), as uniões duram em torno de 14 anos. Não é muito diferente no Brasil, onde casais se desfazem após 15 anos, em média, segundo o IBGE. O prazo é calculado da data do casamento ao divórcio.
O segredo para um casamento longo e feliz, dizem Alice e Vivian, é amor e muito trabalho. Surpresas com a boa receptividade diante da decisão de assumir publicamente o casamento, as nonagenárias afirmam que nunca é tarde para escrever um novo capítulo na vida.
(texto publicado na revista Época nº 850 - setembro de 2014)
quinta-feira, 2 de julho de 2015
sábado, 16 de maio de 2015
Irena Sendler e a resistência à desumanização - Suzane Camargo (Planeta Sustentável)
Poucos momentos históricos da humanidade são tão emblemáticos ao revelar o quanto o homem pode se capaz de atos de barbárie e atrocidade quanto o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Seis milhões de judeus foram assassinados em campos de concentração.
Mas enquanto consciente ou inconscientemente muitos se silenciaram sobre o que estava acontecendo, outros se levantaram contra o terror. Uma destas vozes foi a de Irena Sendler. A jovem enfermeira polonesa montou uma operação de resgate no gueto de Varsóvia e conseguiu salvar do extermínio mais de duas mil crianças.
Especialista em História Judaica, o professor universitário e diretor educacional do Projeto Marcha da Vida Universitária Celso Zilbovicius conhece a fundo a trajetória de Irena Sendler.
Na entrevista abaixo, Zilbovicius fala sobre como Irena Sendler foi capaz de resistir e lutar contra a barbárie e como todos nós podemos fazer o mesmo.
Dentre tantas histórias e relatos de heroísmo durante o Holocausto, por que a de Irena Sendler se tornou tão especial?
Temos de fato inúmeros relatos de pessoas que salvaram judeus, mas Irena tem duas questões principais que se destacam na história dela. A primeira é que antes da operação de salvamento das crianças, ela já tinha uma estratégia de ajudar pessoas que estavam morando no gueto de Varsóvia. Irena trabalhava numa associação de bem-estar social na capital da Polônia que conseguiu documentos para poder entrar no gueto e levar alimentos, roupas e medicamentos. O outro ponto que torna a história dela tão especial é a coragem de uma moça civil, sem vínculo com nenhum corpo diplomático como outros relatos que conhecemos, ter salvado milhares de vidas no maior gueto da Europa, onde moraram quase meio milhão de pessoas.
Além de salvá-las da morte, o que mais Irena Sendler fez pelas crianças judias do gueto de Varsóvia?
Ela não só salvou, mas fez questão de manter a identidade das crianças. Cada uma delas que era retirada do gueto, Irena guardava os dados (nome, filiação, data de nascimento) porque tinha a intenção de, terminada a guerra, entregar as crianças a seus familiares originais ou ao menos que soubessem de onde tinham vindo. Não era somente um salvamento físico, mas um salvamento de identidade.
A religião teria sido um dos motivos a motivar a polonesa a salvar tantas vidas?
Eu diria que o estímulo não foi somente do catolicismo - sem dúvida nenhuma Irena vinha de uma sociedade extremamente católica, como era a polonesa, mas acho que havia o fato dela vir de uma casa extremamente politizada. O pai dela era médico e filiado ao partido socialista polonês. A questão da ajuda ao próximo está ligada tanto ao catolicismo quanto ao ativismo político. Grande parte das crianças salvas acabou sendo entregue à famílias cristãs e conventos.
O senhor acredita que Irena Sendler teve noção da grandiosa dimensão do que fez?
Acho que sim. O que a levou de fato a começar a operação de salvamento foi perceber que as pessoas não se salvariam do gueto, principalmente as crianças. Entre 1942 e 1943, quando o gueto de Varsóvia já estava no auge da eliminação pelos nazistas, Irena tinha noção absoluta do que estava fazendo porque sabia que os judeus seriam exterminados. Quando a guerra terminou e o mundo tomou consciência do que realmente tinha acontecido, acho que ela percebeu ainda mais o quão importante foi aquilo que havia feito. Todavia, nunca se considerou uma heroína por conta disso. Ela dizia que deveria ter feito mais, salvado mais pessoas.
Na sua opinião, qual seria o maior legado da história da jovem polonesa?
Estamos falando de um momento na Europa do auge do processo de desumanização ou o que alguns chamam de banalização do mal. Ao mesmo tempo em que havia um processo histórico de absoluto extermínio - não havia um elemento político neste extermínio, é um componente absolutamente de preconceito e da forma como foi perpetrado nos campos de extermínio, num continente que nos deu um legado completamente oposto a isso. Era o mesmo território que nos deu o Iluminismo, os ideais da liberdade e filosofia. Então ter um gesto como esse, corajoso, de uma mulher, sem ajuda, frente a um regime totalitário, militarizado e salvar milhares de crianças, é um evento da resistência contra o processo de desumanização e barbárie. Quando escutamos histórias sobre o genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, percebemos que ao mesmo tempo que o ser humano foi capaz de construir cientificamente o processo de extermínio, houve seres humanos que tiveram o poder de resistir - não com armas, a este processo.
Que lições as gerações atuais podem ter com esta história?
Elas têm o compromisso de lutar contra a formação de regimes como esse que aconteceu na Segunda Guerra, capazes de gerar a barbárie e a desumanização de um outro semelhante. Acho que a memória de tudo isso serve como um alerta permanente de que precisamos ter todos os radares e antenas ligados. Ainda vemos hoje um crescimento de partidos de extrema direita na Europa com discursos xenófobos, muitas vezes com discursos antissemitas, mas também em relação a outras culturas e religiões, como o islamismo.
Irena Sendler nos provou que o ser humano pode ser mais forte do que imagina?
Sim, ela nos mostrou que temos capacidade de resistir frente a estas situações de barbárie. E infelizmente, nos revelou o quanto não fazemos também. Desde que a Segunda Guerra Mundial terminou, já nos deparamos com situações semelhantes como na guerra civil em Ruanda nos anos 90... E o que fizemos? Quanto o ser humano fez? Percebemos então o quanto o gesto de Irena é cheio de simbolismo. Ela era uma jovem de 30 anos que acabou sendo presa e sentenciada à morte. Irena ensinou a todas as gerações o quanto é importante sair da zona de conforto e enfrentar a barbárie.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
domingo, 16 de novembro de 2014
sábado, 15 de novembro de 2014
terça-feira, 4 de novembro de 2014
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