quarta-feira, 29 de julho de 2015

Na guerra e na paz, na alegria e na tristeza - Isabel Clemente


Duas mulheres que começaram a namorar há 72 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, se casam nos EUA e dão exemplo de relacionamento duradouro

Alice Dubes e Vivian Boyack se conheceram em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. Enquanto milhões de homossexuais, judeus, deficientes, ciganos e tantas outras minorias morriam em campos de extermínio na Europa, numa tragédia nascida da intolerância, duas jovens estudantes se apaixonavam numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Davam início ali a uma trajetória de vida nada convencional e condenada ao silêncio.

No sábado, dia 6 de setembro, 72 anos depois daquele primeiro e decisivo encontro, Alice e Vivian, de mãos dadas e sentadas em suas cadeiras de rodas, selaram a união com as bênçãos de uma cerimônia religiosa. Alice, de 90, vestia um terninho creme enfeitado com uma flor na lapela. Vivian, de 91 anos, usava um tailleur cor-de-rosa. Ao redor do casal estava um pequeno grupo de amigos e familiares. "Esta cerimônia deveria ter acontecido há muito tempo", disse a reverenda Linda Hunsaker, da Primeira Igreja Cristã, que celebrou o ato em Davenport, cidade do Estado de Iowa onde as duas moram desde 1947.

Os cabelos brancos e as veias saltadas no dorso das mãos sobrepostas eram testemunhas de uma história que desafiou o tempo e o preconceito. Iowa não é exatamente um bastião dos direitos de lésbicas e outros grupos com orientação sexual diferente da maioria (reunidos na sigla LGBT). Na verdade, é um dos poucos Estados americanos onde menos da metade (46%) dos eleitores aceita esse tipo de união, de acordo com uma pesquisa nacional divulgada neste ano. A proporção dos que preferem a proibição (45%) é elevada. Vivian e Alice começaram a namorar 67 anos de o Estado admitir o casamento de pessoas do mesmo sexo, legalizado em 2009.

O jardineiro Jerry Yeast, de 73 anos, que trabalha para o casal desde os 18, estava emocionado, segundo uma reportagem de um jornal local. "Conheço essas mulheres toda minha vida e posso dizer: elas são muito especiais".

Quando instadas a contar detalhes do primeiro encontro, Alice e Vivian divagam, divergem, riem e finalmente chegam a um acordo. O ano foi 1942, informaram ao jornal inglês The Guardian. Enquanto milhares de famílias viam seus homens partir (muitas vezes sem volta) para a guerra, Alice e Vivian começavam uma relação não convencional, cercada de tabus, mas que frutificou com a ajuda do silêncio e da discrição dos que as conheciam. "Muita gente sabia, mas nunca nos perguntaram nada, e nunca contamos", diz Alice. "Sempre nos divertimos muito juntas."

A história de Alice e Vivian foi contada por jornais no mundo todo. Atraiu, como era de se esperar, centenas de comentários elogiosos, assim como ataques e críticas, que ajudam a entender as dificuldades por que passam pessoas em busca de respeito por suas opções sexuais.

Em junho de 2008, duas mulheres fizeram história como o primeiro casal gay da Califórnia a usufruir a legalização da união homossexual. Phyllis Lion e Del Martins tinham 84 e 87 anos, respectivamente, quando registraram o casamento de mais de 50 anos em cartório, numa cerimônia simbólica, organizada pelas autoridades da Califórnia. As duas  foram pioneiras na defesa dos direitos de homossexuais ao fundar, nos anos 1950, uma associação para defesa de lésbicas. O casamento homossexual ainda é proibido na maior parte dos países do mundo. No Brasil, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, de 2011, estabeleceu a legalidade da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Quando se leva em conta a rapidez com que os casamentos se desfazem nos dias atuais, longos relacionamentos como o de Alice e Vivian são raridades. Nos países integrantes da OCDE (organização que inclui as principais economias do mundo), as uniões duram em torno de 14 anos. Não é muito diferente no Brasil, onde casais se desfazem após 15 anos, em média, segundo o IBGE. O prazo é calculado da data do casamento ao divórcio.

O segredo para um casamento longo e feliz, dizem Alice e Vivian, é amor e muito trabalho. Surpresas com a boa receptividade diante da decisão de assumir publicamente o casamento, as nonagenárias afirmam que nunca é tarde para escrever um novo capítulo na vida.




(texto publicado na revista Época nº 850 - setembro de 2014)

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