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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Diário de vida: Uma breve história da mortadela - Marcos Nogueira (Bolonha)


Uma das coisas que me acontecem com muita frequência, para não dizer todos os dias, é que por onde eu vá atraio sempre algo que se refere ao italiano, idioma que ensino há 32 anos. Hoje encontrei uma revista no consultório do dentista e me deparei com uma reportagem sobre a mortadela e o artigo começa fazendo referência ao filme de 1971 estrelado por Sophia Loren que se chama simplesmente MORTADELLA. Assisti ao filme no cinema com os meus pais quando nem me passava pela cabeça estudar esse idioma tão lindo. 


Repudiada e tripudiada nas Américas, a mortadela é motivo de reverência na Itália - onde ela sustentou fidalgos medievais e financiou a primeira universidade da Europa.

MORTADELA, O FILME, é uma comédia de costumes de 1971 em que a protagonista italiana - interpretada por Sophia Loren - desembarca em Nova York com um item proibido na bagagem. Uma mortadela, obviamente.

Após o previsível flagrante dos agentes aeroportuários, a heroína da trama vira notícia de costa a costa nos Estados Unidos. Ela se recusa a se separar de seu embutido, gerando um incidente diplomático escandaloso.

As razões para a apreensão da mortadela de Sophia eram sanitárias - todo país é chato na fronteira com alimentos de origem animal -, mas revelam um abismo cultural e gastronômico que separa Itália e Estados Unidos.




Para os americanos, mortadela é sinônimo da carne processada da pior qualidade possível, chamada de bologna ou baloney. O sanduíche da tal bologna aparece nas mais fuleiras cantinas escolares e bibocas afins.

Não é muito diferente no Brasil. Aqui, mortadela tem péssima reputação. Lendas urbanas dão conta de que ela é feita com cavalos velhos demais para puxar carroça. Como a salsicha, a mortadela é aquela carne-mistério que nem procuramos saber do que é feita.

Melhor não saber, mesmo. A mortadela da padaria leva o rebotalho da indústria frigorífica - carnes que não servem nem para serem vendidas frescas, nem para rechear linguiça. E mais um punhado de temperos e outros aditivos para tornar o produto final minimamente palatável.

O resultado é gastronomicamente pífio e muito questionável no que diz respeito à nutrição, mas imbatível no preço. Barata, a mortadela virou uma favorita das classes menos abonadas.

Na Itália, a situação se inverte. Principalmente na cidade de Bolonha, onde nasceu o embutido. Lá, a mortadela é reverenciada por sua história. Ela representa a riqueza de mercadorias medievais e dos intelectuais que  fizeram de Bolonha uma espécie de oásis pensante na idade das trevas.

A mortadela de Bolonha tem o mesmo jeitão da nossa, mas a semelhança é só visual. O sabor é suave, sem a agressividade de especiarias do embutido brasileiro. A cor é rosada, mais viva e mais clara do que o nosso magenta acinzentado.

Os ingredientes são escolhidos a dedo - não se usa a sobra da desossa de animais. Mas o que realmente importa é aquele toque secreto do reclame de Sazón: o amor. Os bolonheses são apaixonados por mortadela, com toda a carga de pieguice que uma paixão italiana possa ter.

SABOR MEDIEVAL

Hoje, a Rua Pescherie Vecchie - viela no centro medieval de Bolonha onde, em outros tempos, concentravam-se os peixeiros - é um playground para glutões. Há quitandas, açougues, pastifícios, mercadinhos e até uma unidade da Eataly, loja de departamentos gastronômica que a Itália exportou para o mundo (e que faz sucesso no Brasil).

Foi lá que encontrei Davide Simoni, em uma manhã escaldante de sábado. A poucos passos de seu empório, na esquina com a Via Drappiere, fica a loja de seus pais, uma instituição bolonhesa. Na Salumeria Simoni, uma multidão majoritariamente italiana se acotovela com senha em mãos, à espera de delícias regionais: tortellini, tagliatelle, presunto cru, queijo parmesão, conservas, molhos, vinagres envelhecidos e, claro, mortadela.

Davide me mostra um quadro pendurado na parede: é um fac-símile de um decreto de 24 de outubro de 1661, assinado pelo cardeal Girolamo Farnese, representante do papa Alexandre 7º. O documento normatiza a produção e a venda de mortadela. É a segunda regulamentação de alimentos mais antiga no Ocidente - mais velha, só a reinheitsgebot, lei bávara da pureza da cerveja, de 1516.

O ato do cardeal Farnese impunha  penas draconianas a quem fraudasse a mortadela: multa de 200 escudos de ouro e um certo tratto di corda. Esse é o nome italiano de uma modalidade de tortura que pendura a vítima numa corda amarrada aos pulsos com os braços virados para trás. Quem tem ombros consegue imaginar a dor.

Além disso, o infrator perdia a licença para fabricar e/ou vender embutidos. Era, provavelmente, a mais dura das punições: naquela época, cerca de 1/3 dos 30 mil habitantes de Bolonha trabalhava direta ou indiretamente com mortadela e salame.

A importância da mortadela para os bolonheses vem dos tempos do Império romano, pelo menos. No Museu Cívico Arqueológico de Bolonha, há duas lápides antigas, uma de cada lado da porta principal. Com cerca de 2 mil anos de idade estimada, as pedras mostram cenas do cotidiano de então. A da esquerda mostra um homem tocando uma vara de porcos; à direita, um indivíduo amassando alguma coisa com um pilão enorme.

Os pesquisadores do museu supõem que as lápides pertenciam ao túmulo de um produtor de mortadela. O pilão servia para triturar os temperos e as carnes. Já a tigela de pedra em que se pilam os temperos, em italiano, chama-se mortaio - essa é a hipótese mais aceita para a origem do nome do alimento.

O processo de produção mudou muito e a bula do cardeal caducou, mas a mortadela segue no radar das leis europeias. O produto rotulado como mortadella di Bologna tem a chancela de um selo IGP - sigla de Indicação Geográfica Protegia -, que estipula a procedência, a composição e os procedimentos na fabricação do embutido.

Para receber o selo IGP de mortadela "oficial", a mortadella bologna não precisa ter sido produzida, necessariamente, na região, mas só pode conter carne suína proveniente de porcos italianos. Não é permitido usar carne de outros animais nem porcos de outros países.

Un prodotto può essere denominato a Indicazione Geografica Protetta quando presenta qualità, reputazione e caratteristiche determinate dalla loro produzione, trasformazione o elaborazione in un’area geografica delimitata.

L’attribuzione del marchio I.G.P. può avvenire solo se almeno una delle fasi di produzione, trasformazione o elaborazione di un alimento avvengono in una specifica area geografica delimitata.
Davide Simoni aprendeu a fazer mortadela com Ennio Pasquini, já morto, a maior autoridade no embutido de Bolonha - e, consequentemente, do mundo. Ele não faz segredo com a sua receita. As carnes são resfriadas a zero grau para otimizar a moagem; depois misturam-se cubos de gordura e as especiarias; a mistura é ensacada numa pele de bexiga suína ou bovina, a depender do tamanho da mortadela. A bexiga é amarrada com barbante e cozinha por vapor a 75º C por 20 horas. Eccola! Mangia la mortadella!

Os ingredientes são poucos. Carne do ombro e tripas do porco. Gordura da papada, que só derrete em temperaturas altas. Alho, pimenta branca e semente de coentro. Por último, mas não menos importante, sal. É com o sal que a história da mortadela começa.


SAL, PORCOS E RIQUEZA

É difícil para uma pessoa do século 21 conceber o valor que o sal - uma das mercadorias mais baratas da cesta básica atual - tinha no mundo antigo.

Humanos e animais precisam de cloreto de sódio para sobreviver. E, sem sal, somos incapazes de estocar alimentos decentemente - nas eras pré-geladeira, ele era o principal agente conservante de carnes, laticínios e legumes.

Embora tenha sempre sido abundante, o sal foi por muito tempo um item de disponibilidade limitadíssima. Longe da faixa costeira, alguns assentamentos humanos tinham a sorte de estar perto de jazidas terrestres de sal-gema. Os outros precisavam importar o sal. Sal era riqueza e poder.

Na Roma Antiga, o sal tinha valor de dinheiro - daí a palavra "salário". Uma das principais estradas do império, a vida Salária (hoje a rodovia SS4), ligava a capital às produtivas salinas do Mar Adriático, no outro lado da Península Itálica.

Até hoje, o sal usado nas boas mortadelas vem de Cervia, na Costa Adriática, a pouco mais de 100 quilômetros de Bolonha. É uma orla propícia para a atividade salineira porque o Rio Pó - o maior da Itália - deposita sedimentos que diminuem a profundidade do mar. Em águas rasas, a evaporação natural eleva a concentração salina.

O Pó também é responsável pela erosão que resultou na maior e mais fértil área agrícola italiana. Na planície padana, ficam algumas das cidades mais importantes do país: Turim, Milão, Parma, Módena, Veneza. E Bolonha.

Por sua localização e topografia, O Vale do Pó sempre foi uma rota quase mandatória para as caravanas na Europa meridional. O comércio de sal trouxe riqueza à Emília-Romanha (região que engloba Bolonha e Parma) - mas muito mais dinheiro entrou com os alimentos salgados.

Os empreendedores locais, ainda na Idade Média, perceberam o altíssimo valor agregado do queijo parmesão, do presunto cru, do salame, da mortadela. Em Bolonha, os salaroli - produtores de carne salgadas- ostentavam poder com uma guilda de mais de 300 associados.

Todo esse dinheiro fez da cidade um polo de artes e cultura, uma exceção no obscurantismo medieval. Foi em Bolonha que surgiu a primeira universidade da Europa, no ano de 1088 - um pioneirismo que seria impossível sem a mortadela.

VAPOR BARATO

Os métodos de produção de mortadela permaneceram quase inalterados até meados do século 19, quando a máquina a vapor chegou a Bolonha e foi adquirida pelos irmãos Zappoli, donos de um frigorífico.

"Os Zappoli foram visionários", diz Davide Simoni. "A mortadela que conhecemos é invenção deles." Ele confessa que ninguém sabe muito bem como era de verdade o aspecto da mortadela pré-industrial. Na prática, os irmãos Federico e Enrico criaram a indústria do embutido.

Para promover a mortadela dentro da Itália, eles contrataram o artista circense americano Buffalo Bill, num espetáculo cheio de caubóis, cavalos e índios cheyennes.

Graças ao Zappoli, a mortadela se tornou um alimento popular em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil.




Longe de casa, a mortadela degringolou e perdeu qualidade. Vejamos a composição de uma marca campeã de vendas no Brasil, considerando que o ingredientes em maior proporção vêm antes na lista: carne mecanicamente separada de aves, água, carne suína, toucinho, carne bovina, sal, açúcar, temperos e especiarias.

Carne mecanicamente separada, a infame CMS, são restos de músculos e tendões que ficam presos aos ossos depois que todas as partes comestíveis já foram removidas. Então as carcaças vão para uma máquina que extrai a raspa do tacho na marra.

Quanto mais baixa a qualidade da mortadela, mais coisa é misturada nela. A lei brasileira divide a mortadela em quatro tipos. As de maior qualidade, com regras mais rígidas de composição, são a "Mortadela italiana" e "Mortadela Bologna". Apesar do nome, elas têm regras bem diferentes do embutido original. Vale misturar carnes de diferentes tipos de animais, e é muito difícil encontrar mortadela no supermercado que não tenha carne bovina nos ingredientes.

Os outros dois tipos têm regulamentação ainda mais... flexível. Se a embalagem disser apenas "mortadela" ela pode ter até 60% de CMS, além de 10% de miúdos, tendões e pele. O resto é principalmente gordura e açúcar, principalmente na forma de amido adicionado.

A última categoria é a "mortadela tipo bologna" - uma categoria criada basicamente para confundir o consumidor. A inclusão da palavra "tipo' muda tudo. Ela é quase tão ruim quanto as piores mortadelas, mas com um limite máximo de 20% de carne mecanicamente separada. É versão da charcutaria do golpe do vinho "reservado" - um vinho ruim, com um nome que lembra o de um produto de melhor qualidade, o vinho de reserva.

As mudanças de receita, claro, são refletidas diretamente no preço - e foram elas que forjaram a tão manchada reputação do embutido no continente. Um quilo de "mortandela" nacional de terceira não chega a R$ 20. A mesma quantidade de mortadella com selo IGP custa R$ 200.

Aqui, enfim, a mortadela é feita de sobras. Como diz a sabedoria popular, é o que temos para hoje. Em Bolonha, ela sempre será a protagonista, a estrela principal, como Sophia Loren nas produções da Cinecittà. A mortadela é a Sophia Loren dos frios.



(texto publicado na revista Super Interessante edição 406 - agosto de 2019)









sexta-feira, 24 de março de 2017

Paulistano Nota Dez: Paolo Parise - Ricardo Rossetto


Tenho postado vários textos que fazem parte da coluna Paulistano Nota Dez da Veja São Paulo e me deparei com a reportagem com o Pe. Paolo Parise que trabalha na Paróquia Nossa Senhora da Paz (criada para atender à colônia italiana), onde fiz o 1º ano da escola fundamental (na época escola primária). Não sei quando a língua e a cultura italianas entraram em minha vida e com certeza não foi quando decidi assistir às aulas do professor Pedro como ouvinte. Dois anos depois prestaria vestibular para frequentar o curso regularmente. E já sou professora de  italiano há 30 anos.

No dia 10 de abril, São Paulo recebeu uma leva de 700 imigrantes haitianos em situação de emergência. Instalado anteriormente em Brasileia, pequena cidade no sul do Acre, o grupo teve de deixar o local às pressas após as enchentes no Rio Madeira. Sem casa, dinheiro nem emprego, os desabrigados foram acolhidos na Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Baixada do Glicério, no centro. Há quase um mês, lotam o pátio da instituição e, além de uma cama e almoço, recebem ajuda para regularizar sua situação no Brasil. O espaço, mais conhecido como Missão Paz, é comandado desde 2010 pelo padre Paolo Parise. Nascido em Marostica, no nordeste da Itália, ele começou a trabalhar com essa causa no sul daquele país em 1984 auxiliando moradores do norte da África que cruzavam o Mediterrâneo em botes atrás de uma vida melhor na Europa. Chegou ao Brasil em 1992 e atuou em missões no Guarujá, no litoral paulista, e no Grajaú, na Zona Sul, antes de se instalar no endereço atual.

Construída em 1940, a Paróquia Nossa Senhora da Paz nasceu originalmente para  atender à colônia italiana. Ligada à congregação católica scalabriana - cujo objetivo é oferecer assistência a imigrantes -, passou a acolher comunidades coreanas, vietnamitas, africanas e latinas a partir de 1968. Não são apenas os hóspedes que vêm de diversas regiões do mundo. Ao lado do italiano Parise, atuam na missão o colombiano Luis Espinel, o mexicano Alejandro Cifuentes e o brasileiro Antenor Dalla Vecchia. No apoio, um time de 39 funcionários e vinte voluntários trabalha em diferentes tarefas, como obtenção de documentos, atendimento psicológico, ministrando cursos de português e fazendo contato com empresas dispostas a oferecer emprego. Desde 2008, 53 300 estrangeiros receberam ajuda no local. "Acolher essas pessoas, entendendo sua história e identidade, dá a oportunidade de construir uma cidadania universal", diz Parise. "Precisamos vê-las como uma possibilidade de aprendizado de uma nova cultura."


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 7 de maio de 2014)


Pe. Paolo Parise


Com o uniforme da escola ministrada pela Paróquia Nossa Senhora da Paz





quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Diário de vida: A minha homenagem ao diretor italiano Ettore Scola


Fiquei muito triste ao saber da partida do grande Ettore Scola. Ele e Mario Monicelli que nos deixou em 2010 são meus diretores prediletos. 

Assisti a alguns filmes como Nós que nos amávamos tanto (C'eravamo tanto amati - 1974), A viagem do capitão Tornado (Il viaggio di capitan Fracassa - 1991), O jantar (La cena - 1998), Concorrência desleal (Concorrenza sleale - 2001), mas o meu preferido é A família (La famiglia - 1987). 

Tenho todos os filmes em DVD por gosto, mas também por dever profissional, mas me lembro de ter adquirido o filme A família em VHS. E depois comprei o DVD duplo que me trouxeram da Itália. No ano passado lançaram o filme no Brasil também. 

Abertura do filme A família com Vittorio Gassman e Stefania Sandrelli



Nós que nos amávamos tanto com Vittorio Gassman, Nino Manfredi e Stefania Sandrelli



A viagem do capitão Tornado com Massimo Troisi e Ornella Muti












quinta-feira, 13 de agosto de 2015

How an amateur built the world's biggest Dome (NatGeo)


6 Gafes a se evitar durante o Palio de Siena - Babi Campanaro (Viva Toscana)


O Palio de Siena é uma das festas tradicionais italianas mais famosas no mundo! Para os seneses os dias do Palio são dias de muita festa mas também de grande tensão. Por isto, em certas situações é melhor ter um pouco de prudência. O site Il Palio adverte os visitantes que querem participar das festividades o que não se deve fazer:

1. Não tentar em algum modo se aproximar dos cavalos

Em proximidade das baias dos cavalos de cada contrada, você encontrará bloqueio de barras e pessoas. Não tente ultrapassá-los. Também não incomode os cavalos com gritos durante o dia ou noite.

2. Não incomodar os "contradaioli" nos momentos de maior tensão

Durante o acompanhamento dos cavalos às provas, nos minutos antes da corrida e depois (caso estiverem tristes e bravos por terem perdido). Antes do Palio, não diga à um "contradaioli" que a sua Contrada é a favorita ou que vencerá, pois as reações podem ser imprevisíveis.

3. Não atrapalhar a vista de quem se encontra em praça

Dentro da praça, não levante nada que possa atrapalhar a visão das pessoas ao redor: crianças sobre os ombros, bandeiras, lenços, tablets, entre outros...

4. Não reclamar

Não faça comentários sarcásticos sobre a tensão dos "contradaioli" quando estiverem próximos à corrida. Não protestar com gritos ou assovios caso a operação na "mossa" (largada) leve muito tempo.

5. Seguir as orientações dos "contradaioli"

Se um "contradaioli" te pede para se afastar de uma certa área, siga a sua instrução sem reclamar, seja no dia do Palio que nos dias de provas.

6. Não se envolver em brigas entre as "Contradas"

Caso presencie alguma discussão ou briga entre "contradaioli" rivais, afaste-se rapidamente. Não tente filmar ou tirar fotos, pois caso te vejam, é muito provável que te danifiquem o aparelho.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Diário de vida: garimpagem pelos sebos e festa de Tanabata


Sábado passado combinei com o João de irmos a um dos sebos que mais frequentamos no centro da cidade. Eu já sou cliente há muito tempo, quando era muito mais difícil conseguir material em italiano e eu ainda não tinha ido para a Itália. Qualquer revista ou livro era motivo de alegria. Um dos itens que tenho até hoje é um Topolino (Mickey em italiano) de 1977 com o Tico e Teco na capa (Cip e Ciop). E foi lá também que achei um livro didático que me recusei a comprar quando morava na Itália e tive que adotar assim que voltei ao Brasil.

O João fez uma ótima garimpagem e adquiriu ótimos itens para as suas várias coleções, o que o deixou super feliz.  Eu comprei alguns números da revista Super Interessante e outros da revista Sci Fi todas com reportagens sobre o Arquivo X. Isso veio bem a calhar porque a série vai voltar depois de mais de 10 anos: estão filmando alguns episódios que farão parte da 10ª temporada. 

Estava bem contente em ter gastado pouco, quando passamos em um outro sebo e acabei me deparando com um livro sobre a mesma série (quando cheguei em casa constatei que tinha o mesmo livro só que escrito em italiano). E acabei adquirindo também a edição ilustrada do livro Inferno de Dan Brown, ambientado na Itália, mais precisamente em Florença. 

O que foi legal também é que era dia da festa de Tanabata e aproveitei para escrever o pedido no cartão (amarelo para prosperidade) e amarrei em um dos galhos das árvores espalhadas pela praça. 







sábado, 3 de janeiro de 2015

Italianos podem pagar contas de água atrasadas com trabalho voluntário (Planeta sustentável)


O que fazer quando as pessoas estão tão empobrecidas que já não conseguem pagar as contas de água? Não dá para cortar o abastecimento do recurso, simplesmente. Diante da crise econômica na Itália, a companhia pública Padania Acque Gestone encontrou uma solução inusitada - e muito bem-vinda - para lidar com o crescente número de inadimplentes entre os usuários de seus serviços: o pagamento por meio de trabalho voluntário.

A partir de janeiro de 2015, consumidores que estiverem com contas atrasadas poderão pagar o valor devido fazendo algum serviço social, como acompanhar idosos por algumas horas ou cuidar de jardins públicos de sua cidade. 

Batizado de Banco d'Água, o projeto auxiliará pessoas com sérias dificuldades financeiras, isto é, aquelas que já não conseguem pagar pelo consumo diário mensal de uma família de três indivíduos - de 25 a 30 euros, aproximadamente.

Funciona assim, usuários que se inscreveram no programa serão avaliados, caso a caso, pelo comitê ético da empresa. Quem for selecionado, deve praticar voluntariado para receber uma espécie de "crédito" em litros de água para consumo.

Apesar de certeira, a iniciativa não é inédita no país. Ela foi inspirada em uma ação aplicada pela cidade de Cremona, em 2009. No inverno rigoroso, inadimplentes de contas de gás e energia elétrica tinham a opção de fazer trabalhos voluntários para a comunidade para não morrerem de frio com a suspensão dos serviços.

A empresa é responsável pelo abastecimento de 115 cidades da província de Cremona, no norte da Itália. De acordo com o relatório da Câmara de Comércio da Província, a taxa média de desemprego no país é de 12% e a de desemprego juvenil é de 42,9%.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Gli italiani: un popolo di mammoni?


Secondo recenti statistiche, l'Italia è un paese popolato per lo più da veri "figli di mamma". Si calcola che oltre la metà degli italiani tra i 20 e i 34 anni vive ancora in famiglia e non ha nessuna fretta di andare via. Il desiderio di autonomia non esiste negli italiani. I dati dimostrano che, prima di sposarsi, i giovani italiani non vanno più via da casa per vivere da soli. Naturalmente ci sono doveri e diritti (come il servizio militare e l'università) che li allontanano da casa per lunghi periodi di tempo, ma non sono completamente autonomi perché i genitori finanziano totalmente i loro studi. In altri paesi d'Europa e del mondo, la situazione si presenta in maniera piuttosto diversa. In Francia, Germania e Svezia per esempio, è normale per i giovani intorno ai 20 anni lasciare la casa dei genitori e andare a vivere da soli. Lo stesso vale per gli Stati Uniti, dove tra i 16 e i 18 anni i giovani lasciano la famiglia d'origine senza la prospettiva di tornare a viverci. Va tenuto presente, comunque, che in altri paesi ci sono dei sussidi finanziari statali e borse di studio che permettono ai giovani una certa autonomia fuori dalle mura domestiche, mentre in Italia i sussidi statali non esistono. Si deve dire anche che molti problemi sociali sono più gravi proprio nei paesi in cui esiste un alto livello di autonomia dei giovani prima del matrimonio: problemi tipo gravidanze indesiderate, alcolismo, droga e suicidio sono molto più diffusi altrove che in Italia tra i giovani. Antonio Gambino, nel suo itinerario italiano (pubblicato nel 1998), sottolinea che in Italia prevale una mentalità, per così dire, "materna". Secondo Gambino è questo che porta al legame quasi patologico con il nido familiare. Gli italiani appaiono molto più legati alla figura della madre che a quella del padre, figura portatrice di solito di spirito di iniziativa e di autonomia che i giovani di oggi in Italia non sembrano desiderare così tanto. Ma il mammismo è un fenomeno molto più complesso di quanto si pensi. Esso preserva molti aspetti:

- difficoltà ad andare via di casa;

- l'attaccamento alla mamma continua anche durante il matrimonio tanto da influenzare molte decisioni future: di solito il maschio italiano tende a scegliere la fidanzata o la futura moglie sul modello fisico e psicologico della sua mamma. Egli pretende che la moglie si comporti come la sua mamma, si prenda cura di lui, cucini come la mamma ecc... Non è raro che quando lui litiga con la moglie va dalla mamma a raccontare tutto e a cercare conforto;

- l'uso paranoico del telefonino ha una connessione con il mammismo: non sarà raro vedere in Italia bambini di 5 o 6 anni con i cellulari di ultima generazione. C'è chi ha scritto che il cellulare è il nuovo collare delle mamme italiane. Sono loro che regalano il cellulare ai figli per sapere in ogni momento dove sono, cosa fanno, ecc...;

- il mammismo è la culla della mafia: pensate che la "donna" o la "mamma" ha un ruolo nascosto ma importantissimo nella cultura mafiosa. La mafia sembra più essere legata all'idea del "macho" più che alla mamma. Ci si immagina il mafioso come un uomo forte, maschilista. È anche questo ma non solo. La mamma ha avuto un ruolo fondamentale nello sviluppo della mafia. È la mamma che educa i suoi figli ai valori mafiosi e permette così la continuazione di questi valori che vengono tramandati di madre in figlio. Basta pensare che quando i primi mafiosi emigrarono negli Stati Uniti, in Sicilia, rimaste le donne, la mafia non si estinse perché queste continuarono ad educare. I figli secondo i principi mafiosi. Quando una donna sposa un mafioso è consapevole di ciò che fa e gli sarà fedele per sempre anche se il marito deciderà di collaborare con la giustizia. È accaduto che molti mafiosi si sono pentiti e le mogli, vergognandosi di loro, li hanno mandati via di casa. Viene così ribadito il ruomo forte della donna nella società italiana e in particolare nel Sud. Un ruolon nascosto, non evidente ma fortissimo. Forse se non ci fosse la "mamma" la mafia non sarebbe così forte. Ecco perché nella mafia siciliana, ruolo centrale ricopre l'appartenenza alla famiglia;

- il mammismo è all'origine del machismo: un ragazzo che ha subito per tutta la vita il ruolo forte della mamma non svilupperà mai la sua personalità in modo autonomo e soprattutto non crescerà mai. Avrà mai bisogno di punti di riferimento, di conferme e sarà debole. Ecco il ritratto del macho: un uomo aparentemente forte, che dà molta importanza all'aspetto fisico sino a diventare un maniaco del look, sicuro di conquistare tutte le donne del mondo. Solo una personalità debole e insicura cura in maniera maniacale il suo aspetto e si aspetta, spinto dal bisogno di avere conferme (come un bambino con i suoi genitori), che tuttte le donne cadano ai suoi piedi. La mamma è colpevole dell'alto tasso di disoccupazione italiana: la famiglia mantiene i figli per molti anni senza spingerli ad uscire di casa a trovare un lavoro. È evidente che solo quando la mamma avrà person un po' della sua forza ci sarà una società italiana migliore. Ma chi convincerà tutte le mamme italiane che sono all'origine di tutti questi problemi?




(testo pubblicato sulla dispensa Parliamo l'italiano! - Scuola Porta d'Oriente - Otranto (LE))


La Mafia e gli altri sistemi mafiosi


La mafia in Italia è una piaga sociale. Essa si estende da Nord a Sud. Non è vero che la mafia esiste solo in Sicilia. A Nord la mafia è meno evidente, esiste nel mondo della grande finanza, della borsa. In Sicilia la mafia si chiama "Cosa Nostra" o "Mamma", in Calabria si chiama "N'drangheta", in Puglia si chiama "Sacra Corona Unita", in Campania, cioè a Napoli, si chiama "Camorra". A Nord c'è la mafia veneta che si chiama Mafia del Brenta (Dolomiti).

La parola mafia deriva dalla lingua araba "maffio" che significa "non so". Infatti una delle caratteristiche della mafia è l'omertà. Famoso è il motto siciliano: "non vedo, non sento, non parlo"; cioè la gente non collabora con la giustizia perché ha paura.

La mafia è un sistema molto intelligente perché non ti colpisce direttamente ma colpisce la tua famiglia, per questo motivo la gente ha molta paura.

La mafia è uno Stato nello Stato. Lo Stato italiano è uno Stato molto debole, con molti problemi come la disoccupazione, non dà abbastanza protezione ai cittadini, la polizia non è molto efficiente. Allora la mafia ha pensato di costruire no Stato più efficiente, più attivo. Essa dà occupazione, protegge i cittadini e controlla il territorio. La mentalità mafiosa qui in Italia è molto forte: in politica, in economia, nella vita quotidiana.

Per esempio: il molti casi, per avere un posto di lavoro un italiano deve conoscere una persona potente e pagare questa persona. Per parcheggiare bisogna pagare il parcheggiatore abusivo, altrimenti si rischia di avere la macchina rubata. Ma non è così dappertutto, solo in alcune città.

Se rubano un'automobile, al sud, chi ha subito un furto non va dalla polizia ma dal mafioso del paese che sicuramente ritroverà l'auto.

La mafia nasce nell'800, quando l'Italia diventa una nazione. In questo periodo si crea una grande differenza tra Italia del Nord e Italia del Sud: L'Italiaq del Nord è molto ricca, l'Itali del Sud molto povera. Il primo mafioso è una persona buona, una specie di Robin Hood che ruba ai ricchi per dare ai poveri.

Le attività che controlla la mafia sono le seguenti:

- traffico di sigarette;
-traffico di droga;
- traffico di prostituzione;
- traffico di armi;
- edilizia: costruzione di case, opere pubbliche;
- politica.

C'è un legame molto forte tra MAFIA e POLITICA. Molti politici italiani prendono tanti oti grazie alla mafia durante le elezioni politiche. I mafiosi hanno molti amici. In Puglia, per esempio, dicono a questi amici di votare per un politico anziché per un altro. Oggi la mafia italiana non è la più potente:  c'è la mafia russa, albanese, cinese ecc.



(testo tratto dalla dispensa Parliamo l'Italiano! - Scuola Porta d'Oriente - Otranto (LE))


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

10 dicas de sobrevivência para um turista em Roma - Claudia Monteiro de Castro


1) Se for esperar alguém reduzir a velocidade para atravessar a rua, você não sairá do lugar. Acredite, os carros brecam em cima da hora, mas não atropelam. Vá com fé!

2) Use sapatos confortáveis e, sobretudo, evite salto alto. As ruas do centro de Roma são quase todas de paralelepípedos.

3) Se não quiser pegar fila em certas pizzarias e trattorias populares durante o jantar, chegue antes das oito.

4) Para ver os monumentos com o menor número de turistas possível, é preciso madrugar ou ir depois da meia-noite.

5) Aproveite o que Roma tem para oferecer grátis: dentro das igrejas há verdadeiros tesouros.

6) AS filas são bagunçadas. Para conquistar o seu espaço é preciso se impor.

7) Não se deixe abater por garçons ou vendedores rudes. Para cada mal-educado haverá um outro simpático, louco para fazer amizade com você.

8) Nos ônibus e no metrô, tome cuidado com duas espécies endêmicas: os "mão-leve" e os mano morta, o bom e velho "mão-boba".

9) Para mulheres: não se assuste com as cantadas descaradas dos romanos. Aqui, vale o ditado "cão que ladra não morde".

10) Cuidado para não cair no conto da coca-cola. Algumas lanchonetes para turistas cobram até 5 euros por uma latinha. Verifique os preços no cardápio antes de fazer o pedido. E lembre-se que em Roma o vinho da casa sai mais barato que refrigerante.




(texto publicado na revista Viagem e Turismo - Itália edição 164 B)




quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Culinária e bom humor


Aonde quer que se vá será possível encontrar boa comida na Itália. E o melhor: sempre acompanhada de muita alegria

Bons gourmants, apreciadores da arte de cozinhar e de comer bem, os italianos têm orgulho de sua gastronomia, considerada uma das mais saborosas do mundo. As massas, os risotos, azeites, antepastos, doces e vinhos são famosos internacionalmente. O jeito de comer é diferente do nosso. Primeiro vem o antepasto, uma entrada que pode incluir presunto cru, conservas de legumes, anchova, bruschette (pão italiano tostado e com coberturas). Depois a massa ou o risoto (primo piatto) e em seguida a carne ou o peixe (secondo piatto). A salada é o fecho da refeição. Um ditado italiano ensina que, para se temperar uma boa salada, são necessárias quatro pessoas: um sábio para pôr o sal; um avarento para adicionar o vinagre; um esbanjador para dosar o azeite; e um maluco para misturar. Uma aula de culinária e bom humor. Ensinamentos como esse são passados de geração a geração, assim como as receitas de massa caseira para o macarrão, da rozzetta, doce obrigatório nas mesas do Natal, e tantas outras. Tão tradicionais quanto essas delícias são a alegria, a boa conversa e os bons vinhos que sempre estão presentes nas refeições italianas. Mas, quando se trata de culinária, a Itália não é uma só. Há diferenças marcantes na cozinha dos vários cantos do país. 

Presentes do mar

A região do Veneto e Friuli, banhada pelo mar Adriático, onde se localizam, entre outras, as cidades de Veneza, Verona e Vicenza, abusa dos pratos à base de frutos do mar e peixes. Mexilhões, camarões, caranguejos e vieiras são antepastos tão comuns quanto o velho carpaccio (fatias de carne crua com molho). A enguia é um dos peixes mais populares. O vongole (tipo de marisco) emprestou o sabor e tornou famosas as massas que o levam no molho.

Quando se pergunta a um italiano o prato que associa a Veneza, ele responde que é o risi e bisi, um arroz úmido com ervilhas. Mais para o interior, nas proximidades dos grandes lagos, como o Garda, o maior do país, também se pode provar trutas inesquecíveis, especialmente com um molho simples, de manteiga e alcaparras.

Terra do risoto

Maior centro produtor de arroz do país, as regiões de Piemonte e Lombardia tornaram-se famosas pelos seus risotos. Preparados com queijos, verduras ou frutos do mar, entre outras variações, eles encantam moradores e visitantes. 

Um dos mais conhecidos , o risotto alla milanese, homenageia a cidade de Milão, onde foi criado. Alguns levam por cima uma leve camada de trufa branca ralada. Esse ingrediente raro e caro é caçado com a ajuda de cães e porcos farejadores nos bosques de carvalho perto da cidade de Alba, apenas entre os meses de outubro e dezembro. Para escapar dos altos impostos que recaem sobre a iguaria, os produtores costumam vendê-la no mercado negro, bem longe das vistas do governo.

Viva a vitela!

Embora seja uma região rica também em pratos a base de aves, como frango e faisão, a carne de vitela é encontrada na Lombardia em receitas diversas. Um corte chama a atenção, a costoletta, que traz juntos um pedaço do filé e do contrafilé, com o osso da costela. O prato conhecido como costoletta alla milanese é um dos mais antigos da região, apreciado desde o século XII, e talvez seja uma influência dos austríacos, que andaram por lá nessa época. Outra parte que faz sucesso é o ossobuco. Da região dos Alpes, paraíso de férias dos italianos que gostam de esquiar, vêm os queijos gorgonzola e mascarpone, consumidos como antepasto, em sanduíches ou usados no preparo de receitas. Manjericão, açafrão e alho frequentam muitos pratos, assim como o vinho. Já o vinagre balsâmico, originário da cidade de Modena, é considerado pelos italianos como um néctar dos deuses e há mil anos era oferecido como dote de casamento. Usado tanto em pratos quentes como em saladas, é feito de uvas maduras e doces. Mas não é comum em todas as casas. Trata-se de um refinamento.

Presunto muito especial

Por onde quer que você ande na Itália, os mercados e as feiras livres são uma atração á parte. Em Florença, o Mercato Centrale ocupa dois andares de um prédio antigo e é tão importante que faz parte das atrações turísticas da cidade. Nesse tipo de comércio vende-se de tudo: carnes, frutos do mar, queijos, salames, presuntos, frutas e verduras da época, todo tipo de ervas e até pratos prontos. É costume ir ao mercado para comprar em pequenas quantidades, por exemplo, o famoso prosciutto de Parma, um frio típico italiano, de fabricação especialíssima.

Originário da pequena cidade de Parma, na região da Emilia Romagna, uma das mais importantes na agricultura, esse presunto é feito com carne de porcos criados com sobras do soro usado na preparação do queijo Parmigiano-Reggiano - outra delícia apreciada no mundo inteiro. Os presuntos são postos para curar numa sala grande e arejada onde ficam por até dez meses. Depois de prontos, são marcados com o simbolo da antiga coroa do ducado de Parma, garantia de qualidade.

Cheio de recheio

As massas, principal marca da cozinha italiana, também mudam dependendo da região. Variam o tamanho, o formato, os ingredientes e os molhos que as acompanham. A receita de spaghetti al ragù, traduzido no Brasil como espaguete à bolonhesa, por ser originário da cidade de Bolonha, é um clássico. Na região que engloba a Toscana, a Umbria e Marche, que abriga cidade como Florença, importante centro cultural, San Gimignano e Siena, as massas ganham as versões recheadas com carnes e queijos, como o tortelloni e a lasagna.

Todo prato à base de espinafre é chamado alla fiorentina, numa referência á cidade onde a verdura é muito usada. A carne de javali também faz sucesso na região e os cogumelos frescos ou secos entram em diversos pratos. O ricciarelli, um biscoito de amêndoa, é campeão entre os doces. De Siena ninguém sai sem levar um panforte, pão firme, adocicado e com frutas cristalizadas, nozes e mel. Uma delícia.

Em Roma, como os romanos

Capital do país e da região do Lazio, Roma é um importante centro gastronômico. Sua culinária remonta ao tempo dos etruscos, criadores do queijo pecorino e do mais tradicional prato romano, a porchetta, um leitão grelhado inteiro. Roma oferece um pouco da culinária de todo o país, mas as massas e os risotos têm lugar cativo nos cardápios. O spaghetti alla carbonara, receita que leva queijo pecorino, azeite, bacon e pimenta-do-reino, além de ovos crus, que cozinham apenas no calor da massa, é típico. Verduras e legumes da estação são aproveitados de todas as maneiras: crus, fritos, grelhados ou empanados - como se costuma servir também as flores de abobrinha, recentemente descobertas pelo brasileiro. O supplì di riso (bolinho de arroz recheado com queijo parmesão) é outra marca registrada da cidade.

Pizza e azeite no sul

Dizem os historiadores que a pizza surgiu em Nápoles, na região da Campania, sul da Itália, por volta do século XVII. Era uma rodela de pão nem muito fina nem muito grossa coberta com queijo e tomate, produtos locais e portanto acessíveis a bolsos menos recheados. Muito popular, era devorada com as mãos a qualquer hora do dia.

Além da pizza, o sul da Itália é famoso por seu saboroso azeite, de primeiríssima qualidade, cujas  técnicas de preparo e o principal ingrediente, a azeitona, foram levados pelos gregos ao invadirem o país por volta do ano 700 a.C. Campania, Sicilia, Calabria, Abruzzo (onde se cultiva muito açafrão) e Puglia (que planta as melhores azeitonas) têm uma culinária rica em pratos à base de frutos do mar, peixes, queijo mozzarella feito com leite de búfala e molhos. Na ilha de Sardegna o agnello arrosto, ou cordeiro assado, é obrigatório.

Na Sicilia, o recheio de certos doces e biscoito traz a maravilhosa combinação de amêndoas, ricota e mel. No verão, a sobremesa predileta é a cassata, um sorvete enformado com camadas de vários sabores.

Vinhos: no copo e no prato

O italiano não dispensa uma taça de vinho durante a refeição. Antigamente costumavam dar às crianças uma pequena dose. Diziam que era essencial para um crescimento saudável. Hoje os médicos garantem que a bebida faz mesmo bem ao coração - quando tomada moderadamente, é claro. Na culinária italiana ela é um ingrediente importante - usado em carnes, peixes, risotos, molhos e mesmo doces. Há uma infinidade de tipos e sabores. Do Piemonte, noroeste do país, vem o tinto Barolo. O frizzante Asti nasceu na cidade do mesmo nome. O espumante Prosecco é feito na região do Veneto. O famosíssimo Chianti, primeiro vinho europeu a ter sua região de produção demarcada, surgiu na Toscana. E há muitos mais.



(texto publicado na revista Claudia Cozinha - edição especial)
























sábado, 15 de novembro de 2014

Os segredos da gôndola - Arthur Gillette


Assim como os clíperes ianques e os daus árabes (navios de um só mastro e vela latina), a gôndola veneziana é ao mesmo tempo uma embarcação e parte de um mito.

Curiosamente, o barco que passou a simbolizar Veneza, e que não existe em nenhum outro lugar do mundo, talvez não seja de origem veneziana. A origem da palavra gôndola é objeto de controvérsias. Alguns etimologistas a consideram uma deformação dos vocábulos gregos konkula (casca pequena e dura) ou khontilas (pequeno barco). Outros relacionam o formato da gôndola ao de um barco romano do século IV de nome hipotético fundula.

A primeira evidência incontestável da existência da gôndola em Veneza é um documento de 1094, pelo qual o doge Vito Falier concede a alguns habitantes da laguna o direito de construir uma gôndola. Se esse pergaminho for considerado como seu certificado de nascimento, a gôndola em breve completará mil anos.

Ao longo desses séculos, a construção naval não parou de evoluir, e a gôndola atual é o resultado de contínuas transformações e melhorias que refletem o desenvolvimento sócio-econômico da própria Veneza. Sua história é uma espécie de ilustração naval da teoria evolucionista de Darwin, uma relação dialética entre o barco e seu meio geográfico e humano.

A cidade de Veneza nasceu da aproximação progressiva de várias comunidades camponesas espalhadas pela laguna. À medida que a população aumentava, eram abertos canais, cuja rede foi sendo pouco a pouco organizada e estendida até se transformar no labirinto aquático que hoje conhecemos e que foi comparado pelo arquiteto e urbanista do século XX, Le Corbusier, a um "sistema cardiovascular perfeito". Essa forma muito particular de desenvolvimento urbano, que quase não permitia a utilização da tração animal, exigia um meio de transporte capaz de conduzir um número crescente de pessoas a longas distâncias e o mais rápido possível, por um labirinto de estreitos e intrincados canais. A gôndola se adaptou a todas essas exigências.

A gôndola é famosa por suas linhas elegantes, e seu casco possui agilidade de um cavalo de corrida. Entretanto, esse esquife construído para ser veloz tem sempre casco plano, característica já mencionada no documento de 1094. Esse pequeno calado se adaptava perfeitamente à vida anfíbia dos venezianos, primeiro sobre a laguna, depois nos canais da cidade, que eram sempre pouco profundos.

O primeiro desenho conhecido de uma gôndola foi traçado em 1555 pelos estaleiros do Arsenal. Mostra que após cinco séculos de existência, o barco já tinha um formato muito alongado, e essa tendência se reforçou mais com o tempo: a maioria das gôndolas atuais mede 10,87 m de comprimento por apenas 1,42 m de largura, isto é, uma propoção de 7,7 por 1.

Para transportar um número crescente de passageiros em um esquife cada vez mais estreito, os gondoleiros deixaram de ocupar o lugar ao centro do barco para se instalarem numa espécie de plataforma situada na popa, ao nível das perchas, o mais próximo possível da popa. Essa posição mais elevada do barqueiro, por sua vez, deu origem a dua inovações características da gôndola.

A primeira é o remo longo (4,20 m), fabricado de uma única tora de faia, que nunca pesa menos de 4,30 kg. Semelhante instrumento exige muita força e habilidade para ser manejado, mas funciona como uma extraordinária alavanca.

A segunda melhoria, devida à posição vertical do gondoleiro, consiste em um tolete especial chamado forcola (forquilha), talhado em um bloco de nogueira cuja forma lembra um tronco de nogueira cuja forma lembra um tronco de árvore estranhamente retorcido. Essa notável peça de madeira esculpida é também perfeitamente funcional: ao deslocar o remo de um a outro encaixe da forcola, o gondoleiro pode alterar a velocidade da embarcação.

Para equilibrar o peso (de 50 a 70 kg) do gondoleiro, foi necessário colocar um contrapeso na proa. Daí a existência do ferro (il ferro), pesada peça de metal com seis dentes horizontais. Dizem que eles simbolizam os seis bairros históricos de Veneza, assim como o topete metálico em forma de cornucópia, que encima o ferro, lembra o chapéu dos doges nas cerimônias oficiais.

Todas essas inovações haviam sido aparentemente incorporadas à gôndola até fins do século XVI. Mas o peso das embarcações, cada vez mais compridas, ocasionava um problema de atrito com o fundo. Para superá-lo os construtores aos poucos foram obrigados a elevar a popa e a proa sobre o nível da água. Atualmente só a parte central, que representa cerca de 3/5 do casco, entra em contato com a água, o que inspirou um poeta veneziano a comparar a gôndola a "uma meia-lua pousada sobre a laguna".

A gôndola continuou a evoluir até o século XX, quando atingiu quase a perfeição. Ao observar uma gôndola amarrada entre duas estacas, notamos que o casco está ao mesmo tempo desequilibrado (nitidamente inclina-se para estibordo) e torto (fica visivelmente assimétrico). Por que essa forma curiosa?

Desde o século XVII, mas particularmente após a queda da República de Veneza e a ruína de muitos dos nobres venezianos, o hábito de usar um único gondoleiro tornou-se cada vez mais popular, substituindo o dispendioso par utilizado inicialmente e por tradição. Ao remar, o gondoleiro não se situa no centro da pequena plataforma da popa, mas a bombordo, para transmitir o máximo de força propulsora ao remo, que gira em torno da forcola fixada a estibordo. Já no século XVI, para compensar esse desequilíbrio do gondoleiro, de pé, fora do centro, a bombordo, o casco era feito de modo a se inclinar para estibordo. Quando vazia, a embarcação se inclina para estibordo, e retoma uma posição normal desde que o gondoleiro suba a bordo e assuma sua posição.

Todavia, todos os problemas ocasionados pela fórmula do gondoleiro único ainda não foram solucionados. Como o remo é fixado a estibordo, é necessário imprimir-lhe um movimento especial em forma de J para evitar um desvio constante para bombordo. Mas esse movimento tem o inconveniente de reduzir a velocidade, contradição aparentemente insolúvel, mas que finalmente se conseguiu resolver de maneira inesperada, no final do século passado, por meio da deformação do casco. Hoje, este é claramente desviado para bombordo, com uma diferença de 24 cm na sua parte mais larga.

Desequilíbrio e assimetria não impedem que a gôndola seja extremamente graciosa e estética, o que também não exclui de modo algum sua eficácia, bem ao contrário. Um gondoleiro bem treinado pode impulsionar uma gôndola, carregando até 1.200 kg, a uma velocidade constante de quase três nós. O diretor do Museu de História Naval de Veneza, G. Rubim de Cervin, analisou a relação entre a velocidade obtida e a energia despendida, e considerou a gôndola "a embarcação mais rentável do mundo".

Apesar de ser uma autêntica maravilha do ponto de vista técnico, a gôndola não exerceria tanta fascinação se sua imagem não estivesse associada aos homens (e mais raramente às mulheres) que a conduziram no decorrer dos 10 últimos séculos.

Segundo um cronista de 1493, os primeiros gondoleiros eram frequentemente escravos negros, como atesta um célebre quadro de Carpaccio. Os gondoleiros ligados ao serviço das famílias ricas realizavam outros tipos de tarefas, e poucos diferiam dos demais criados.

Com o tempo os gondoleiros se tornaram um grupo com características próprias. Uma delas era seu orgulho profissional, manifestado abertamente desde que, por seu número, deixaram de ser uma classe marginal. Em fins do século XV havia em Veneza entre 15 a 30 mil gondoleiros, e em determinados períodos da história da cidade, chegaram a representar, com suas famílias, um quarto da população. Hoje, não passam de 400.

Os gondoleiros falavam uma língua muito peculiar, uma variante do dialeto veneziano que por sua vez era uma mistura singular de italiano, espanhol e árabe. Muitos dos termos que designam as dimensões da gôndola e suas 280 diferentes peças de madeira, assim como as ferramentas e técnicas usadas em sua construção, permaneceram inalterados vários séculos, apesar de incompreensíveis para os habitantes (inclusive construtores navais) de outras regiões da Itália. Um gondoleiro de hoje quase não tem dificuldade para decifrar as anotações anexadas ao plano de 1555 anteriormente mencionado. Em Veneza, nem sempre se distinguia os dias de festas e os dias de trabalho. Numerosos festivais civis e religiosos davam aos gondoleiros a oportunidade de associar esses dois aspectos fundamentais da vida dos venezianos.

A chegada de ilustres dignitários estrangeiros servia de pretexto a verdadeiras competições entre os decoradores de gôndolas. Em 1682, o embaixador francês, Monsieur Amelot, entrou em Veneza a bordo de uma embarcação barroca, assim descrita por um cronista contemporâneo: "Toda a gôndola é recoberta de relevos dourados... Nas quatro extremidades do casco, quarto estatuetas alegóricas representam as virtudes do embaixador, cada uma com seu atributo: a Vigilância é simbolizada por uma lanterna e um galo, a Fidelidade por um cachorro, a Discrição por uma chave selando os lábios, e a Eloquência pelo caduceu de Mercúrio e uma colmeia.

Os gondoleiros eram aficcionados pelas regatas, que lhes permitiam mostrar sua capacidade física e habilidade técnica para regozijo do público. As regatas de gôndolas e outras embarcações tipicamente venezianas eram acontecimentos muito populares desde fins do século XV. A Regata Anual, que havia sido abandonada há muitos anos, ressurgiu em 1976: nada mais justo, se considerarmos que a palavra regata é de origem veneziana. Desde então, centenas de profissionais e amadores entusiastas participam todos os anos de uma exaustiva maratona náutica de 32 km.

O número de gôndolas e gondoleiros vem diminuindo nitidamente neste século. A profissão tão pouco atrativa deixou de ser um privilégio hereditário. Certamente há sinais encorajadores, como a retomada dos jogos náuticos e da Grande Regata. Sob os auspícios da Unesco, um Comitê Internacional de Defesa da Gôndola está ajudando a restaurar um dos últimos estaleiros de construção de gôndolas em San Trovaso. Mas seu destino parece selado. Atualmente têm uma função meramente decorativa como objetivo de interesse turístico, e os próprios venezianos as utilizam em raras ocasiões, tais como casamentos e funerais. A finalidade principal da gôndola como meio de transporte de passageiros em Veneza deixou de existir há um século, com o aparecimento dos barcos a motor.

(traduzido por Andréa Corrêa Rodrigues)


Arthur Gillete é editor da Museum, revista trimestral publicada pela Unesco. Autor de vários artigos sobre barcos e navegação, foi marinheiro em barcos de pesca a vela nas Bahamas e em 1969 cruzou o Atlântico num cúter de 7,60 m.












quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ele vai despertar a Itália? - Pedro Marcondes de Moura


Impetuoso, Matteo Renzi se torna, aos 39 anos, o mais jovem primeiro-ministro da história do país. Seu desafio é imenso: debelar a crise econômica que se arrasta há quatro anos

Instabilidade econômica e política quase sempre andam juntas, como ensina a história. A Itália é uma eloquente prova disso. com o Produto Interno Bruto em queda e um índice recorde de desemprego, os italianos tiveram nos últimos três anos nada menos do que três primeiros-ministros. O quarto assumiu na semana passada. Trata-se do centro-esquerdista Matteo Renzi, ex-prefeito de Florença que, aos 39 anos, se  tornou o mais jovem premiê do país. Renzi chama a atenção pela velocidade com que chegou ao poder e pelo estilo pouco convencional. Há dois anos ele era um político florentino conhecido apenas regionalmente. Ganhou relativa fama ao abandonar os carros oficiais e ir ao trabalho a pé ou de bicicleta. Também fez certo barulho ao disparar frases de efeito ("É preciso jogar 90% dos políticos italianos na lata do lixo" foi uma delas), mas seu golpe de mestre começou a ser aplicado em dezembro do ano passado, quando assumiu a secretaria nacional do Partido Democrático (PD). Desde então, Renzi passou a bombardear publicamente o primeiro-ministro Enrico Letta, até obter uma moção de sua legenda exigindo um novo governo. Candidatou-se á vaga de Letta e obteve da Câmara Alta 169 votos favoráveis à sua indicação ao comando do governo parlamentarista.



Renzi é dono de um estilo político em que o popular e o populismo se misturam. Como prefeito de Florença, aposentou os comunicados oficiais e passou a interagir diretamente com a população por meio de redes sociais. Em um país com uma população cansada da classe política, nomeou um ministério formado por nomes pouco conhecidos. Ao evitar estrelas, evita dividir os holofotes ou dar visibilidade a futuros opositores. Uma das poucas concessões foi acatar o pedido do presidente Giorgio Napolitano, que indicou Pier Carlo Padoan para o comando da Economia. Apesar de dizer que vai desencadear profundas transformações no país, Renzi é um pragmático. Para governar até 2018, conforme planeja, precisa atrair o maior número de legendas. O novo primeiro-ministro já acenou para lideranças de diversos espectros, como o chefe da legenda Força Itália, Silvio Berlusconi. Expulso do Senado após uma série de polêmicas e uma condenação por fraude fiscal, o ex-premiê já deu declarações simpáticas ao centro-esquerdista. "Ele tem a metade de minha idade e isso é um bom sinal para o futuro do país e para sua classe dirigente", comentou Berlusconi.

Espalhafatoso na política, Renzi é discreto na vida privada. Isso se deve em grande medida ao perfil de sua mulher, uma professora substituta de literatura de 37 anos. Avessa a joias e maquiagens e fã de calça jeans e camiseta, Agnese Landini é uma espécie de antiprimeira-dama, especialmente num país como a Itália. Quando não está na escola, passa quase todo o tempo em casa, cuidando dos três filhos - de 12, 10 e 7 anos. Recentemente, ao ser abordada por jornalistas, saiu-se com esta: "Este é o momento do Matteo. Por favor, façam como se eu não existisse." As preocupações de Renzi estão agora direcionadas à situação econômica do país, mergulhado em um endividamento acima de 130% do PIB, uma das taxas mais altas da Europa. Para frear a crise, o primeiro-ministro disse que pretende reduzir a carga tributária e mudar a legislação trabalhista. O discurso é bonito, mas realizar as tais mudanças não é tão simples assim. Resta saber se Renzi será mais um falastrão de talento ou um político transformador de verdade.



(texto publicado na revista Isto é nº 2310 - ano 38 - 5 de março de 2014)