quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Melhor não tratar?! - Fernando Maluf, oncologista


O oncologista Fernando Maluf, chefe do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, em São Paulo, afirma que nem todos os tumores de próstata carecem de tratamento imediato. Nesta entrevista, ele explica o motivo

Cada vez mais se discute que certos casos da doença não precisam ser combatidos. Por quê?

Nós temos que levar em conta que esse é um dos tumores mais heterogêneos que existem. Há, na verdade, vários tipos de câncer de próstata. Em alguns, a doença é tão indolente, tão biologicamente favorável, que uma das opções é só acompanhá-la por meio de exames. Para alguns pacientes, essa alternativa é extremamente segura. Não é possível adotá-la em todos os cenários, mas, em uma parcela deles, ela é, sim, viável.

Como os médicos estão vendo a possibilidade de fazer apenas o monitoramento?

Essa discussão ganhou força nos últimos anos ao redor do mundo. Nós percebemos que vários pacientes estavam sendo super tratados. Ou seja, o efeito colateral das abordagens terapêuticas era mais significativo que qualquer melhora na doença.

Mas a quem cabe a decisão de tratar ou não: médico ou paciente?

É importante que a escolha seja compartilhada entre os dois. Até porque, muitas vezes, o sujeito não se sente psicologicamente confortável em saber que tem um tumor, mesmo que o problema seja pequeno e nunca ameace a sua saúde. Desse modo, ele pode preferir passar por radioterapia ou cirurgia.

E como funciona esse acompanhamento?

São feitos testes periódicos de PSA, de imagem e biópsias para conferir se o câncer sofreu mudanças. Caso o tumor que era bonzinho esteja ficando do mal, por assim dizer, temos que tomar uma atitude.

Qual a importância de fazer o teste de PSA e o exame de toque na rotina? Um exclui o outro?

Não. Em 80% dos casos, dosar o PSA no sangue já acusa as alterações. Porém, existe um risco de 20% de o teste não notar certas mudanças, mas o toque sinalizar um problema. Por isso é essencial realizar ambos.

O toque ainda é visto com preconceito. Como derrubá-lo?

O toque faz parte da avaliação física comum. Ele é tão trivial como auscultar os pulmões, o coração ou sentir o pulso. Eu sempre falo que homem que é homem se preza, preza sua família, seus filhos, e não vai ter sua masculinidade afetada por um exame desses.

A partir de que idade os testes devem começar a ser feitos?

Quem tem o histórico familiar de câncer de próstata - pai, avô ou irmão - deve começar aos 40, 45 anos. Indivíduos negros também, já que a incidência de tumores desse tipo neles é maior, além de a doença ser mais agressiva. Se não há fator de risco, o ideal é fazer a partir dos 50, todos os anos.

Por que os homens fora dos grupos de risco só precisam iniciar o rastreamento aso 50?

É raro um paciente de 40 anos ter câncer de próstata sem nenhum fator associado. Pode acontecer, claro, mas seria necessário rastrear milhares e milhares para ajudar poucos, que, ainda assim, seriam beneficiados da mesma forma se o tumor fosse diagnosticado três ou quatro anos mais tarde.



(texto publicado na revista Saúde é vital nº 382 - outubro de 2014)












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