Você já passou por uma situação em que alguma coisa que queria muito não deu certo, e depois chegou à conclusão que foi melhor que não tivesse dado? Tipo uma viagem com amigos que você perdeu, e depois soube que foi a maior gelada, que choveu e rolou o maior barraco no grupo? Ou ainda aquele amor que parecia ser para sempre, mas acabou por uma bobagem, e permitiu que você conhecesse outra pessoa, que lhe faz muito feliz até hoje? Eu já. Várias vezes.
O problema é que a gente só sabe que foi melhor não ter acontecido tempos depois. Às vezes muito depois. Na vigência da expectativa, rola um sentimento de frustração. Por definição, frustração é exatamente o estado psicológico decorrente de uma expectativa não atendida, e não dá para dizer que é agradável.
Sentir-se frustrado é o mesmo que ficar triste pela não realização de algo, e também pela perda da confiança e da esperança. Além da sensação, também desagradável, de injustiça. Afinal, não é justo que eu não tenha conseguido algo que eu queria tanto. Que decepção... E, o pior, acho que nunca mais vou conseguir. Estou condenado à tristeza e à infelicidade. Sinto-me impotente, fraco e solitário. Ó vida...
Mas o tempo passa, outras coisas acontecem, nos refazemos emocionalmente e seguimos em frente. E, com frequência, concluímos que foi bom algo não ter dado certo.
A (escritora) Martha Medeiros tem um ótimo texto sobre isso, ao qual ela deu um título maravilhoso: A Melhor Coisa que Não Me Aconteceu. Ela atribui o título ao ator inglês Clive Owen, que teria dito a frase quando não foi escolhido para o papel de James Bond, depois dado ao ator Daniel Craig. Em sua visão, se tivesse incorporado o agente secreto, teria ficado estigmatizado e perdido muitos outros papeis legais, que vieram depois.
Martha aproveita para comentar uma viagem que não fez à Disney com a família por causa de um súbito imposto compulsório criado pelo governo para os viajantes ao exterior. Em vez disso, seguiram para a Bahia, onde ela conheceu as melhores amigas que têm até os dias de hoje. Só que a Martha não é ingênua. Ela sabe que isso pode parecer apenas uma desculpa para se sentir melhor. Então aproveita para comentar que essa atitude de ar um crédito positivo aos "não acontecimentos" significa ter o espírito mais aberto, minimizar o peso da palavra derrota e dar mais leveza à alma. O que não é o mesmo que forçar uma teoria pessoal e improvisada sobre o estado das uvas.
As uvas verdes
Esse tema tão humano, como tantos outros que povoam e assombram nossa alma, já interessou a vários estudiosos, principalmente da psicologia. Mas o primeiro a abordá-lo foi o grego Esopo. Citado em obras de Platão e Aristóteles, Esopo foi o responsável pela criação de um estilo literário chamado fábula. Trata-se de histórias fáceis de reproduzir oralmente, e cujos personagens são, em geral, animais que têm fortes características humanas, como a dúvida, o medo, a preguiça, e também seus opostos.
Daí terem surgido os tipos eternos, como a cigarra e a formiga, os ratos em assembleia e tantos outros. Não podendo usar exemplos humanos sem ofender alguém, Esopo partiu para o reino da bicharada, e criou uma inesgotável literatura, com cunho didático e forte apelo moral.
Entre as mais conhecidas fábulas de Esopo está a da raposa e as uvas. Tendo encontrado um saboroso cacho de uvas maduras, a raposa, com fome, tratou de alcançar o manjar. Mas, apesar de seus melhores esforços, não conseguia saltar até o cacho e desistiu da empreitada. Enquanto se afastava, disse, para quem quisesse ouvir, mas principalmente para si mesma: "Foi melhor assim, afinal, as uvas estavam verdes".
O grego acertou em cheio. Costumamos desdenhar do que não conseguimos, como meio de nos proteger e, dessa forma, sofrer menos com a frustração. As uvas não estavam verdes, mas é melhor se convencer de que estavam, e partir para outra.
A psicologia chamaria isso de mecanismo de defesa, uma reação normal, que minimiza os fatos que estão colocando em perigo a integridade do ego. Esse mecanismo de defesa chama-se racionalização, por meio do qual a pessoa procura encontrar razões lógicas para justificar o que faz ou o que não fez. Como isso acontece no nível inconsciente, a pessoa não sabe se o que está pensando, ou dizendo, é verdadeiro ou não passa de um ilusionismo providencial.
Olhando de relance, pode parecer que tanto faz. Se foi melhor não ter acontecido o que eu queria, ótimo, se teria sido bom que acontecesse e eu estou negando o fato, pelo menos estou reduzindo meu sofrimento.
Visto por esse ângulo, parece lógico. Mas é melhor ajustar o foco. Será que não seria melhor reconhecer que você queria muito aquilo, e que seria ótimo que tivesse acontecido? E que isso não se realizou por motivos que poderiam ter sido controlados antes? Será que essa atitude, por mais que não esconda a dor e prolongue o sofrimento, não pode ser a mola propulsora que vai projetar o futuro por meio do preparo e da responsabilidade?
As uvas maduras
Felizmente a personalidade saudável elabora bem essas questões, absorve o choque e segue em frente. É impossível atravessar a vida sem experimentar a frustração. E, em geral, é até bom que isso aconteça, pois esses choques nos tornam mais fortes, e de certa forma resilientes.
Pediatras, professores e psicólogos infantis chegam a aconselhar aos pais que não satisfaçam todos os desejos dos pequenos, pois eles não têm que aprender a conviver com a frustração como treinamento para lidar com a vida. Sim, ela é frustrante. Não nos dá tudo o que pedimos e, quer saber, é bom que não dê mesmo, pois às vezes nem sabemos bem o que que estamos pedindo. Além de muitas vezes desejarmos algo que não nos faria bem.
O duro é elaborar o pensamento para evitar injustiças com o fato em si, que não tem nada a ver com nossas escolhas. Insistindo no assunto: será que foi mesmo melhor que não tivesse acontecido ou sou eu que estou tentando me convencer de que foi melhor assim? Talvez essa pergunta não faça sentido, pois, afinal, estamos falando de algo do passado, que é imutável. Mas talvez seja melhor tentar responder para evitar frustrações futuras. Está disposto?
Pensando bem, tenho o hábito de considerar como sorte um monte de coisas que não aconteceram, e tantas outras que deixaram de acontecer depois de um tempo. Mas acho que considero sorte porque acabei construindo uma vida que faz sentir-me inteiro, realizado, feliz. Não tenho porque me queixar, pondero. E olho para o passado com complacência e gratidão pelos "não acontecimentos". Mas, e se minha vida não tivesse tomado um rumo legal? Que sentimento eu estaria nutrindo sobre o que não aconteceu? Não sei. Também é difícil ponderar sobre o que não aconteceu quando o que se passou depois foi tão bom.
Confesso que comecei a escrever este texto com a intenção de explorar apenas o que ele propõe na abertura: que foi bom que não tenha acontecido o que não aconteceu. Entretanto, enquanto escrevia, meu pensamento foi desviando um pouco, depois me lembrei de Esopo, do Freud, da Martha. Agora acho que foi melhor que não tivesse escrito exatamente como tinha pensado no início, só enaltecendo os "não acontecimentos" para diminuir possíveis frustrações do leitor. Meu texto inicial foi um "não texto", veja só você como são as coisas.
E aproveito para propor uma releitura da história da raposa e suas uvas. Que tal criar uma versão em que ela, após saltar várias vezes sem sucesso, desiste, por hora? E, ao se afastar, pensa: "Já sei, vou voltar para a academia e caprichar nos exercícios para as pernas. Assim vou conseguir saltar mais alto, e da próxima vez essas uvas maduras não me escapam".
O problema é que a gente só sabe que foi melhor não ter acontecido tempos depois. Às vezes muito depois. Na vigência da expectativa, rola um sentimento de frustração. Por definição, frustração é exatamente o estado psicológico decorrente de uma expectativa não atendida, e não dá para dizer que é agradável.
Sentir-se frustrado é o mesmo que ficar triste pela não realização de algo, e também pela perda da confiança e da esperança. Além da sensação, também desagradável, de injustiça. Afinal, não é justo que eu não tenha conseguido algo que eu queria tanto. Que decepção... E, o pior, acho que nunca mais vou conseguir. Estou condenado à tristeza e à infelicidade. Sinto-me impotente, fraco e solitário. Ó vida...
Mas o tempo passa, outras coisas acontecem, nos refazemos emocionalmente e seguimos em frente. E, com frequência, concluímos que foi bom algo não ter dado certo.
A (escritora) Martha Medeiros tem um ótimo texto sobre isso, ao qual ela deu um título maravilhoso: A Melhor Coisa que Não Me Aconteceu. Ela atribui o título ao ator inglês Clive Owen, que teria dito a frase quando não foi escolhido para o papel de James Bond, depois dado ao ator Daniel Craig. Em sua visão, se tivesse incorporado o agente secreto, teria ficado estigmatizado e perdido muitos outros papeis legais, que vieram depois.
Martha aproveita para comentar uma viagem que não fez à Disney com a família por causa de um súbito imposto compulsório criado pelo governo para os viajantes ao exterior. Em vez disso, seguiram para a Bahia, onde ela conheceu as melhores amigas que têm até os dias de hoje. Só que a Martha não é ingênua. Ela sabe que isso pode parecer apenas uma desculpa para se sentir melhor. Então aproveita para comentar que essa atitude de ar um crédito positivo aos "não acontecimentos" significa ter o espírito mais aberto, minimizar o peso da palavra derrota e dar mais leveza à alma. O que não é o mesmo que forçar uma teoria pessoal e improvisada sobre o estado das uvas.
As uvas verdes
Esse tema tão humano, como tantos outros que povoam e assombram nossa alma, já interessou a vários estudiosos, principalmente da psicologia. Mas o primeiro a abordá-lo foi o grego Esopo. Citado em obras de Platão e Aristóteles, Esopo foi o responsável pela criação de um estilo literário chamado fábula. Trata-se de histórias fáceis de reproduzir oralmente, e cujos personagens são, em geral, animais que têm fortes características humanas, como a dúvida, o medo, a preguiça, e também seus opostos.
Daí terem surgido os tipos eternos, como a cigarra e a formiga, os ratos em assembleia e tantos outros. Não podendo usar exemplos humanos sem ofender alguém, Esopo partiu para o reino da bicharada, e criou uma inesgotável literatura, com cunho didático e forte apelo moral.
Entre as mais conhecidas fábulas de Esopo está a da raposa e as uvas. Tendo encontrado um saboroso cacho de uvas maduras, a raposa, com fome, tratou de alcançar o manjar. Mas, apesar de seus melhores esforços, não conseguia saltar até o cacho e desistiu da empreitada. Enquanto se afastava, disse, para quem quisesse ouvir, mas principalmente para si mesma: "Foi melhor assim, afinal, as uvas estavam verdes".
O grego acertou em cheio. Costumamos desdenhar do que não conseguimos, como meio de nos proteger e, dessa forma, sofrer menos com a frustração. As uvas não estavam verdes, mas é melhor se convencer de que estavam, e partir para outra.
A psicologia chamaria isso de mecanismo de defesa, uma reação normal, que minimiza os fatos que estão colocando em perigo a integridade do ego. Esse mecanismo de defesa chama-se racionalização, por meio do qual a pessoa procura encontrar razões lógicas para justificar o que faz ou o que não fez. Como isso acontece no nível inconsciente, a pessoa não sabe se o que está pensando, ou dizendo, é verdadeiro ou não passa de um ilusionismo providencial.
Olhando de relance, pode parecer que tanto faz. Se foi melhor não ter acontecido o que eu queria, ótimo, se teria sido bom que acontecesse e eu estou negando o fato, pelo menos estou reduzindo meu sofrimento.
Visto por esse ângulo, parece lógico. Mas é melhor ajustar o foco. Será que não seria melhor reconhecer que você queria muito aquilo, e que seria ótimo que tivesse acontecido? E que isso não se realizou por motivos que poderiam ter sido controlados antes? Será que essa atitude, por mais que não esconda a dor e prolongue o sofrimento, não pode ser a mola propulsora que vai projetar o futuro por meio do preparo e da responsabilidade?
As uvas maduras
Felizmente a personalidade saudável elabora bem essas questões, absorve o choque e segue em frente. É impossível atravessar a vida sem experimentar a frustração. E, em geral, é até bom que isso aconteça, pois esses choques nos tornam mais fortes, e de certa forma resilientes.
Pediatras, professores e psicólogos infantis chegam a aconselhar aos pais que não satisfaçam todos os desejos dos pequenos, pois eles não têm que aprender a conviver com a frustração como treinamento para lidar com a vida. Sim, ela é frustrante. Não nos dá tudo o que pedimos e, quer saber, é bom que não dê mesmo, pois às vezes nem sabemos bem o que que estamos pedindo. Além de muitas vezes desejarmos algo que não nos faria bem.
O duro é elaborar o pensamento para evitar injustiças com o fato em si, que não tem nada a ver com nossas escolhas. Insistindo no assunto: será que foi mesmo melhor que não tivesse acontecido ou sou eu que estou tentando me convencer de que foi melhor assim? Talvez essa pergunta não faça sentido, pois, afinal, estamos falando de algo do passado, que é imutável. Mas talvez seja melhor tentar responder para evitar frustrações futuras. Está disposto?
Pensando bem, tenho o hábito de considerar como sorte um monte de coisas que não aconteceram, e tantas outras que deixaram de acontecer depois de um tempo. Mas acho que considero sorte porque acabei construindo uma vida que faz sentir-me inteiro, realizado, feliz. Não tenho porque me queixar, pondero. E olho para o passado com complacência e gratidão pelos "não acontecimentos". Mas, e se minha vida não tivesse tomado um rumo legal? Que sentimento eu estaria nutrindo sobre o que não aconteceu? Não sei. Também é difícil ponderar sobre o que não aconteceu quando o que se passou depois foi tão bom.
Confesso que comecei a escrever este texto com a intenção de explorar apenas o que ele propõe na abertura: que foi bom que não tenha acontecido o que não aconteceu. Entretanto, enquanto escrevia, meu pensamento foi desviando um pouco, depois me lembrei de Esopo, do Freud, da Martha. Agora acho que foi melhor que não tivesse escrito exatamente como tinha pensado no início, só enaltecendo os "não acontecimentos" para diminuir possíveis frustrações do leitor. Meu texto inicial foi um "não texto", veja só você como são as coisas.
E aproveito para propor uma releitura da história da raposa e suas uvas. Que tal criar uma versão em que ela, após saltar várias vezes sem sucesso, desiste, por hora? E, ao se afastar, pensa: "Já sei, vou voltar para a academia e caprichar nos exercícios para as pernas. Assim vou conseguir saltar mais alto, e da próxima vez essas uvas maduras não me escapam".
(texto publicado na revista Vida Simples nº 151 - outubro de 2014)
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