quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O frágil cerco ao Ebola - Cilene Pereira


A força com que o ebola se alastra pela África já havia demonstrado ao mundo como é preciso aprimorar muito mais as medidas de contenção de um dos vírus mais letais conhecidos. Na semana passada, porém, as falhas grotescas no atendimento do primeiro paciente com ebola diagnosticado nos Estados Unidos denunciaram de que forma enganos possivelmente cometidos por apenas uma ou duas pessoas podem colocar em risco toda a cadeia de detecção de casos montada por especialistas reconhecidos e experientes para impedir a instalação de epidemias.

No dia 25 de setembro, o liberiano Thomas Eric Duncan, 48 anos, estava hospedado no Ivy Apartments, em Dallas, quando procurou um hospital. Sentia febre e mal-estar. Foi levado por familiares ao Texas Health Presbyterian. Lá, contou à enfermeira que chegara havia poucos dias da Libéria, um dos países mais atingidos pela epidemia na África. Mesmo assim, foi liberado, com uma receita de antibiótico. Três dias depois retornou à instituição, em estado bem mais grave. Até a sexta-feira 3 permanecia internado, agora com o diagnóstico de ebola. Calcula-se que desde a chegada de Duncan até seu isolamento no hospital, mais de 100 pessoas tiveram contato direto ou indireto com ele. Ou seja, com maior ou menor risco, podem ter sido infectadas.

O erro primário cometido no primeiro atendimento deixou as autoridades de saúde perplexas. Afinal, Duncan contou que chegava da Libéria. Pelos manuais de contenção epidêmica, a informação preciosa deveria ter sido considerada e o liberiano, submetido a um teste para ebola. Mas o que se apurou é que a enfermeira não a repassou ao médico. Ele o submeteu a um exame sanguíneo padrão. "O hospital deixou a peteca cair", disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA.

Mas as falhas se estendem. Até a quinta-feira 2, o apartamento ocupado por Duncan não havia sido limpo. Lençóis e toalhas por ele usados ainda permaneciam lá simplesmente porque as autoridades não encontravam quem pudesse fazer a limpeza correta e o descarte dos utensílios que ele tocou. Esse tipo de problema pode até fazer sentido em regiões pobres e insalubres africanas, mas espanta saber que está ocorrendo nos EUA. Entre outras razões, porque lá estão alguns dos maiores especialistas do mundo em evitar epidemias, boa parte deles reunida no famoso Centro de Controle de Doenças, o CDC. Sempre que o planeta é ameaçado por micro-organismos perigosos, é a esse serviço que se costuma recorrer em busca de ajuda. Equipes de CDC foram enviadas a Dallas assim que saiu o diagnóstico, mas ao que parece são insuficientes para auxiliar na superação dos pequenos erros banais que podem destruir grandes esforços.

Esquema de proteção

Apesar das falhas no atendimento nos EUA, o risco de ocorrer uma epidemia naquele país, na Europa e no Brasil continua pequeno. Entre outras coisas porque:

- Estão circunscritas à África as espécies de morcegos que carregam o vírus;

- Não é tão intenso o trânsito de pessoas vindas dos países mais atingidos;

- O contágio existe pelo contato com fluidos corporais contaminados (sangue, por exemplo). Nos EUA e no Brasil, dificilmente um profissional de saúde faria o atendimento sem portar a proteção necessária, como luvas e máscara;

- Além disso, na África muitas famílias decidem cuidar dos doentes em suas próprias casas, o que facilita ainda mais o contágio.




(texto publicado na revista IstoÉ nº 2341 - ano 38 - 8 de outubro de 2014)









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