A comédia Hysteria toca sem nenhum pudor em fatos históricos pitorescos e que vistos hojes nos parecem inacreditáveis
Em tempos de acalorados debates em torno do fenômeno editorial 50 tons de cinza, surge no cenário cinematográfico, como um azarão, o filme Hysteria, da diretora americana Tanya Wexler, que fez até então, segundo informações da crítica especializada, apenas outros dois longas de pouco destaque (no Brasil temos como conhecido apenas Ovelha negra). A diretora vem roubando a cena com o filme Hysteria, conforme notícias sobre os acontecimentos do Festival de Toronto. A obra também esteve presente no Festival do Rio 2012. Entre atônitos, sorridentes ou indignados, seguem a crítica e espectadores. Protagonizado pela atriz sempre magistral Maggie Gyllenhaal, que em sua trajetória já nos havia brindado com, no mínimo, outro filme bem polêmico, mas muito divertido, Secretária, dirigido por Steven Spielberg, que aborda de forma singular as práticas conhecidas pela sigla BDSM (BD = Bondade e Disciplina); DS = Dominação e Submissão; SM = Sadomasoquismo), tema abordado pelo livro citado que vem agitando homens e mulheres e lançando novamente a pergunta: "afinal, o que querem as mulheres?"
Assinam o roteiro de Hysteria Jonah Lisa Dyer, Stephen Dyer e Howard Gensler, trazendo no elenco principal, além de Gyllenhaal, os atores Hugh Dancy, Jonathan Pryce, Rupert Everett, Felicity Jones e Gemma Jones.
Época "vitoriana"
Todo o enredo se passa em épocas inscritas um pouco antes do aparecimento da Psicanálise e narra a invenção desse aparelhinho voltado primeiramente ao público feminino, descoberto por acaso, como decorrência de um tratamento prescrito para o que então se pensava como uma doença que acometia as mulheres, seu diagnóstico ligado a distúrbios no útero e que provocariam dores abdominais e reações de nervosismo, desânimo ou enlouquecimento. Tudo que estava fora da compreensão da Medicina marcada pela mão do masculino dominador, época conhecida como "vitoriana", em que a moral ditava estreitos padrões de comportamento e onde sequer se pensava que as mulheres pudessem ter desejos sexuais. Sigmund Freud ainda não havia chegado trazendo "a peste", tudo fora do esperado para uma mulher, diga-se que na verdade muito pouco, era então compreendido como histeria, uma alteração fisiológica no aparelho reprodutivo feminino. Esse diagnóstico em termos fisiológicos só será retirado dos manuais de diagnóstico lá por meados dos anos 50 do século XX. Estava longe ainda da transformação em psiconeurose sem gênero determinante, que esse conceito ganharia a partir da formulação dos constructos psicanalíticos, as "bocas de ouro" ainda gritavam como "loucas" (vale muito assistir também ao chocante Ópio - Diário de uma louca). Freud já "no outono de 1886, ao discorrer sobre a histeria masculina e propor etiologias psicológicas para ela, perante a associação médica de Viena, encontrou uma audiência variada" (GAY, P.).
Acompanharemos nessa obra, a trajetória do médico idealista, que queria realmente minimizar o sofrimento de suas pacientes, o Dr. Mortimer Granville (Hugh Dancy), no início do século XIX, um seguidor atento das, à época, recentes descobertas científicas sobre a existência de micro-organismos e a consequente formulação da necessidade de assepsia para paciente e ambiente. Interessante notar e traçar um paralelo irônico com os dias atuais na questão dos xaropes milagrosos que eram vendidos à larga com o nome de médicos que prescreviam as fórmulas para o alívio de sintomas. Desentende-se com o chefe da clínica onde trabalhava, que prescrevia seu xarope para tudo, é demitido e, desanimado, procura refúgio junto ao amigo e protetor, Edmund St. John-Smythe (Rupert Everett), um jovem muito rico e aficionado por inventos e pela geração de energia que movimente geringonças. Nesse encontro, o personagem Edmund faz comentários a respeito do telefone recém-instalado em sua casa, que provocam risos quando pensamos nos dias atuais e a facilidade de comunicação não com o outro lado da cidade, mas com o outro lado do mundo, pequenos detalhes que ao longo do filme são como uma fala ao espectador: "Ei, psiu, isso aí foi há muito tempo, há muitas descobertas atrás!" Entre elas o conceito de libido que Freud ainda na virada do século irá trazer para o debate no mundo científico, sofrendo com isso, como nos conta suas biografias, o desprezo por grande parte do meio onde circulava com suas ousadas descobertas.
Paroxismos e alívios
Se o filme não se pretende uma grande obra para constar das prateleiras dos cinéfilos mais exigentes, traz, entretanto, um grande interesse como o de olhar de bem mais perto, de forma muito direta, para a cultura que desembocou na formulação da Psicanálise, tornando-se, assim, muito interessante para o público do campo psi e interessados no tema. Chega a ser risivelmente chocante verificar que não se pensava a mulher como sujeito investido de desejo, os orgasmos que aliviavam aquelas mulheres sofredoras da tal histeria eram nomeados pomposamente pelo Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce) como "paroxismos", como ele explica ao seu novo assistente, Dr. Mortimer Granville (Hugh Dancy). Contratato para trabalhar para o Dr. Dalrymple, Mortimer inicia suas atividades de massagens pélvicas nas pacientes que lotavam o consultório à procura de alívio para suas angústias, pesadelos, dores do corpo e da alma.
Dr. Mortimer Granville logo se encantará pela doce e prendada filha do seu empregador, a encantadora Emily Dalrymple, e, ao mesmo tempo, ficará surpreso com a fúria e rebeldia da irmã, a impetuosa Charlotte Dalrymple. Ao sermos apresentados a essas duas mulheres, de certa maneira somos conduzidos a pensar em todas as transformações ao mundo da mulher que já começavam a se manifestar enquanto reivindicações que vieram a tomar efetivo vulto e realidade ao longo do século XX. Temos ainda a pitada abertamente erótica da personagem Fannie (Ashley Jensen), que testará pela primeira vez a engenhoca que inventarão, trazida aos nossos dias como um brinquedo erótico, mas que já foi vendida em catálogos e lojas de departamento como um massageador feminino, como um aparelho médico ou eleetrodoméstico em lojas como Sears, ou através de revistas como Good Housekeeping. Entra em cena o reconhecimento da mulher também como um sujeito do gozo, e o aparelhinho vai parar em sexshops, provocando a partir disso, para muitas mulheres, o pudor em comprá-lo. A diretora Tanya Wexler conta, em entrevista, que levou muitos aparelhos para dar de lembrança a toda a equipe, e foi parada na alfândega londrina. Quando perguntada por que tantos dispositivos eletrônicos na bagagem, explicou do que se tratava e rapidamente foi dispensada de abrir suas valises para verificação. Os pudores ainda persistem, ainda mais quando se fala do mundo da mulher, da mulher que goza, que encontra na atividade sexual também o caminho da sua construção no mundo. Certo desconforto trazido por esse filme talvez remeta a essa questão. Charlotte grita tudo isso a todos, recusa-se a aceitar os apertados "espartilhos sociais" que lhe estão destinados, busca, indaga, enfrenta, questiona. Transforma-se em uma histérica que poderá ser confinada em um asilo e ter seu útero retirado para que possa ser curada de ousar ser sujeito.
"Os destinos da mulher nos tempos originários nos são ocultos por uma obscuridade especial" (FREUD, S.).
Questão de gênero
É fato que o papel da mulher ao longo da história da cultura se assenta em silêncios, o tal "continente negro" ao qual Freud se refere e que também o cega, que o lança à indagação do que desejariam as mulheres como se houvesse aí um sujeito diferenciado por gênero. E o que desejam os homens hoje? E como se desejam os gêneros? Então voltemos ao nosso filme aqui tratado, porque assistiremos nosso protagonista Mortimer balançar entre duas figuras do feminino, completamente opostas, Emily e Charlotte, as duas irmãs que escolhem seu papel social de forma absolutamente diferenciada uma da outra, a doce Emily cordata e feminina e a impetuosa Charlotte, que olha para o mundo de um patamar muito mais abrangente do que apenas o gênero que o biológico e a cultura a colocaram. O que escolhe Mortimer? O que desejam os homens? Unidos pelo ideal de um mundo mais justo e melhor, se espantam com o mútuo reconhecimento os futuros cunhados. Em seu novo status, encanta-se Mortimer pela possibilidade de união com Emily oferecida pelo pai Robert Dalrymple, seu empregador. Afinal, o que desejam os homens quando amam? Vale ainda ler Freud em seu texto "Contribuições à Psicologia do amor". Que fratura ainda é preciso remeter o feminino ao silêncio e a tons obscuros e fragmentados? O discurso oficial fálico sempre se apressa em assumir as conclusões finais.
O filme tem mesmo um traçado jocoso, mas como sabemos o chiste em Psicanálise traz muito do recalcado, uma forma de expor o inconfessável, e assistimos ao longo do que nos é contado uma sucessão de boas cutucadas nem tão datadas assim como poderíamos supor por seu foco histórico. No mínimo, além do entretenimento e boas risadas, poderá investir de energia um bom debate, atualizando tudo que se esconde hoje por detrás de um liberação em torno do que se fala da sexualidade feminina, ainda marcada pelo discurso dominante masculino. Ao tocar o sexo feminino e suas insatisfações, a Psicanálise abre também as portas para o masculino em sua busca de prazer e felicidade. Talvez a irreverência de Tania Wexler possa desarrumar um pouco a Psicanálise bem-comportada que vemos crescer no Brasil, quase que evangelizada.
Ainda há uma proximidade sutil com o que há quase dois séculos se pensava sobre o corpo feminino e seu lugar na construção da relação entre os gêneros, lugar onde a dor e a submissão marcavam tudo, gemidos e discursos. Em entrevista, Hugh Dancy disse que o que mais achou engraçado foi "o fato de que os médicos (em 1880) diagnosticavam a sério uma doença não existente (a histeria) e faziam o que faziam sem nenhuma preocupação e sem ver nada de sexual nisso". Podemos então refletir que se o movimento feminista foi uma construção histórica necessária, talvez hoje haja necessidade de se pensar mais na relação entre os gêneros para que encontremos um pouco da tal felicidade. Mortimer e Charlotte encerram a história contada pelo filme nos dando alguma esperança nesse sentido. E nos atestam que, antes de sermos um gênero, somos um ser social, unido por expectativas e visão de mundo onde os papéis de gênero pouco ou nada deveriam importar.
(texto publicado na revista Psique nº 83)
Trailer do filme Hysteria
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