sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ariano Suassuna fala da vida e suas obras (Programa Provocações)















Antônio Abujamra entrevista o ator Michel Melamed








Um outro jeito de curar



Mais suaves e nada invasivas, as terapias alternativas roubam clientes da medicina oficial. Mas ainda têm muito a explicar

A medicina convencional, baseada na alopatia, no combate aos sintomas e em intervenções de modo geral agressivas ao organismo do paciente, está aos poucos perdendo a sua posição hegemônica nos países ocidentais. Surpreendida pela revolução comportamental que varreu o Ocidente nas últimas décadas do século XX, questionando vários dos princípios iluministas que regem a cultura europeia - e seus herdeiros nas Américas -, a medicina convencional passou a dividir espaço com a homeopatia, a acupuntura, a ioga, a meditação e dezenas de outras práticas terapêuticas não-invasivas, quase todas de origem oriental, antes confinadas entre nós ao terreno do curandeirismo.

Chame-se a isso de medicina alternativa ou complementar, integrativa ou holística, a verdade é que algo está mudando numa área vital para as pessoas: a manutenção da saúde. E a tendência de mudança não reflete apenas o interesse dos indivíduos por tratamentos mais suaves e com menos riscos de efeitos adversos. Há aí também indícios de uma abertura em direção a um novo paradigma científico, cujo impacto na maneira de o homem lidar com a medicina, com as doenças e com sua própria vida promete ser avassalador.

A velocidade com que as coisas estão acontecendo espanta. Atualmente, 75% das escolas de medicina dos Estados Unidos oferecem cursos de especialização em terapias alternativas ou desenvolvem estudos sobre o tema. Calcula-se que metade dos 270 milhões de americanos costuma recorrer a algum tipo de tratamento nã-convencional, o que representa um enorme fator de pressão sobre os prestadores de serviços de saúde. Sem falar nos lucros de um mercado que se constrói à margem da medicina convencional e que já movimenta 30 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos. É o próprio governo americano, através do Instituto Nacional de Saúde (NIH), um órgão equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil, que comanda um mutirão de pesquisas para medir a eficácia dessas terapias. Na Inglaterra já há hospitais formados apenas por homeopatias e o Canadá acaba de tornar-se o primeiro país das Américas a reconhecer a medicina tradicional chinesa como especialidade médica e a autorizar a formação regular de profissionais nessa área.

O fenômeno se repete no Brasil, ainda que em menor escala. O país possui cerca de 14.000 médicos homeopatas, 48 vezes mais do que há duas décadas, quando a homeopatia foi reconhecida como especialidade médica pela Associação Médica Brasileira. Mais de 5.000 médicos se dedicam à acupuntura no país, outra terapia alternativa só há pouco elevada à condição de especialidade médica. Da mesma forma, sob o pretexto de debater a humanização da medicina, cresce o número de médicos alopatas, formados à luz da medicina oficial, que promovem reuniões discretas e encontros públicos nos quais as terapias alternativas são apresentadas como métodos substitutivos de tratamentos baseados em drogas e cirurgias. "Está na hora de admitirmos que existem outras formas de curar doenças", diz a cardiologista Diana Ribeiro Dantas, que coordenará o próximo encontro, a ser realizado em Natal, no mês de junho.

O adjetivo holístico é, com certeza, o que melhor expressa a natureza desses novos tipos de cura. O holismo é uma teoria que vê o homem como um todo indivisível, impossível de ser explicado como se seus componentes físico, psicológico e espiritual pudessem existir separadamente. A medicina holística é, assim, a antítese do modelo biomédico, mecanicista, que se concentra no estudo isolado das partes da "máquina" humana e dos processos químicos específicos que a fazem funcionar. Diante de um doente qualquer, um terapeuta holístico subestimará a classificação da doença, voltando a atenção para o estilo de vida do doente, suas relações sociais, seu estado emocional, sua alimentação. Esse processo de interação com o paciente faria toda a diferença. As entrevistas demoradas, um traço marcante da medicina alternativa, transformam consultas simples em verdadeiras sessões de terapia psicológica nas quais laços de confiança e afeto unem o doente ao terapeuta.

As principais terapias holísticas compõem o repertório de recursos da medicina tradicional chinesa e da medicina ayurvédica, da Índia, com seus sistemas inspirados no taoísmo e no hinduísmo. A grande exceção é a homeopatia, criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann no século XVIII. A rápida expansão de todas elas, no entanto, só foi possível depois que algumas descobertas da ciência, no século XX, proporcionaram outro tipo de sustentação às ideias holísticas.

"As teorias da física quântica, dos sistemas auto-organizadores e da psicologia transpessoal demonstraram, com as próprias ferramentas da ciência cartesiana-newtoniana, que somos parte de algo mais vasto que os nossos organismos", afirma o neurocirurgião fluminense Francisco di Biase. Ele é um dos autores do livro Science and The Primacy of Consciousness (A ciência e a primazia da consciência), em parceria com especialistas americanos em física quântica e psicologia transpessoal, ainda inédito no Brasil.  O grande aval foi dado pela teoria quântica, ao demonstrar que as unidades subatômicas da matéria são abstratas e podem se apresentar ora como partículas, ora como ondas. Tais padrões dinâmicos, segundo a teoria, formam as estruturas estáveis que constituem a matéria e lhe conferem o aspecto sólido, no nível macroscópico, que percebemos a olho nu. Ou seja: tudo o que enxergamos, inclusive nossos corpos, seria resultado da condensação de energias, padrões dinâmicos imateriais. Uma explicação muito semelhante à cosmovisão de antigas doutrinas místicas.

"É  bobagem", rebate o neurofisiologista Renato Sabbatini, da Unicamp. "Os princípios da mecânica quântica só se aplicam ao mundo subatômico e não existe nada que comprove efeitos quânticos na consciência e nas estruturas macromoleculares. "Verdade? "Sim, mas só em parte", treplica o indiano Harbas Lal Arora, doutor em física pela Universidade de Waterloo, no Canadá, e terapeuta holístico com atuação em hospitais de Fortaleza. O próprio Einstein, autor da equação que demonstra que a matéria é energia condensada, no último ano de sua vida, segundo Harbas, admitiu a existência de formas de energias sutis que ainda não podem ser medidas diretamente mas que são muito poderosas. Tais energias, deduz Harbas, manifestar-se-iam, entre outras formas, como emoções, sentimentos, vontades e intuições. E seus efeitos no corpo poderiam ser mensurados por meio de mudanças nas ondas cerebrais, nos ritmos respiratório e cardíaco e nas secreções glandulares. "São energias que atuam no nível subatômico. Seus campos transcendem as limitações do espaço, do tempo e das energias físicas. E elas têm extrema relevância nos estados de doença, saúde e bem-estar", diz Harbas.

Ao espetar agulhas em pontos estratégicos do corpo, um acupunturista chinês se propõe desbloquear as trilhas, conhecidas como meridianos, por onde fluiria a energia vital, o chi. Um médico convencional dirá que ele apenas estimula pontos especiais do sistema nervoso capazes de provocar a liberação, pelo cérebro, de endorfinas, neurotransmissores de ação sedativa cujas moléculas se assemelham às da heroína. Já a homeopatia, aos olhos da medicina convencional, não conta com explicações plausíveis. A tese homeopata parte do princípio de que qualquer mal pode ser curado por uma substância vegetal ou mineral que produza em um homem são o mesmo sintoma da doença (exatamente o oposto do que faz a alopatia), mas, nesse caso, utiliza-se apenas a quintessência do princípio ativo, ou seja, a sua energia.

"Medicina alternativa é apenas o nome politicamente correto para o que normalmente chamamos de fraude", diz Leon Jaroff, ex-editor da revista americana Discover, especializada em ciência. O rápido crescimento da medicina alternativa e a livre prática de suas modalidades, de fato, trazem embutido o risco do surgimento de picaretagens ou, no mínimo, de esquisitices como a urinoterapia, que consiste em o paciente beber a própria urina, um excremento rico em toxinas. Só que, de um lado, há doutrinas orientais com milhares de anos de eficácia. E, de outro, até defensores ferrenhos da medicina alopática admitem que as terapias holísticas produzem, sim, um benefício, mesmo que não exatamente por causa de suas propriedades intrínsecas.

"O que funciona é o efeito placebo", afirma Renato, numa referência aos resultados obtidos com grupos de controle em pesquisas de medicamentos alopáticos. Tais indivíduos, tratados com substâncias sem ação específica sobre os sintomas da doença, como pílulas de farinha e açúcar, acabam apresentando sinais de melhoria simplesmente por suporem estar recebendo o remédio real. "A crença do paciente no tratamento é fundamental e sabe-se, hoje, que ela responde por 50% da eficácia de qualquer medicamento, inclusive antidepressivos", diz Renato. O assunto ganhou tamanha importância no meio científico que o NIH promoveu, em novembro passado, um painel com cientistas das principais universidades americanas com o único propósito de debater a adoção de placebos na rotina médica. Seria um meio de evitar o uso excessivo ou desnecessário de drogas. "O efeito placebo é uma consequência da participação do estado psíquico na cura do paciente, o que nos leva a inferir que a saúde física resulta do bem-estar psicossomático. Infelizmente essa interrelação entre corpo e mente é praticamente desprezada na medicina convencional", afirma Harbas.

Holistas como o psicólogo Giulio Vicini, membro da equipe que implanta, no Senac de São Paulo, um curso de graduação em medicina tradicional chinesa, e a especialista em alimentação e educação Hildegard Richter preveem que a medicina do futuro será totalmente "vibracional",baseada nas energias sutis e nos processos psíquicos. Mas, a médio prazo, o que se espera é uma composição entre sistemas médicos divergentes. "A medicina acadêmica e a medicina alternativa não são antagônicas, mas complementares", lembra o homeopata paulistano Antonio César Ribeiro Deveza da Silva. O único receio de boa parte dos terapeutas holísticos é que a medicina oficial acabe assimilando as terapias alternativas, adaptando-as ao modelo biomédico e restringindo seu exercício aos médicos. "Isso desfiguraria por completo aspectos terapêuticos que são parte de um sistema coerente", afirma Eduardo Alexsander Amaral de Souza, terapeuta oriental e reichiano no Rio de Janeiro.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)

Instinto, não. Investimento - Maria Fernanda Vomero


O instinto materno, aquela atitude generosa que acreditamos naturalmente programada, não existe. Segundo uma visão revolucionária da maternidade, o que há é uma predisposição biológica para o investimento no filho - determinada pela fria relação entre custo e benefício

Você, com certeza, se lembra de alguma campanha publicitária que tenha recorrido à imagem de um bebê e sua mamãe amorosa para vender fraldas ou amaciantes de roupas. A figura materna aparece também nos comerciais de margarina, de desinfetante, de pasta de dente. A mãe prepara a comida dos filhos, lava as roupas, deixa a casa em ordem, cuida da saúde da garotada, dá presentes e está sempre sorrindo, feliz por ser mãe. Como a natureza foi sábia ao dotar as mulheres de um instinto tão poderoso. Amor incondicional? Só o de mãe.

Mas, então, os intervalos comerciais acabam e vem o telejornal. Um garoto conta que foi espancado pela mãe. Você se revira na cadeira. Casos envolvendo agressões de mulheres contra os próprios filhos são chocantes. No entanto, acontecem com mais frequência do que você pode imaginar. Vão desde o abandono em cestos de lixo até queimar o bebê com pontas de cigarro ou castigá-lo privando-o de comida. Em geral, essas mães são classificadas como desnaturadas, "exceções à regra", e, rapidamente, a sociedade tenta encontrar motivos que justifiquem tamanha barbaridade - desequilíbrio mental, pobreza, desemprego, desespero. Afinal, mãe que é mãe carrega, escrito nos genes e inoculado pela evolução, o instinto materno - que jamais permitiria atrocidades desse tipo. Certo?

Não é bem assim, afirma a sociobióloga americana Sarah Blaffer Hrdy, da Universidade da Califórnia, em Davis, em seu livro Mãe Natureza - Maternidade, Filhos e Seleção Natural, recém-lançado no Brasil.  Depois de reunir farto material sobre a maternidade nas mais variadas espécies e culturas, Sarah chegou a uma conclusão surpreendente: as mulheres não amam instintivamente seus bebês. Como as outras fêmeas do reino animal, elas não se afeiçoam de maneira automática a cada filho que nasce. O instinto materno, tal como o concebemos - uma determinação genética inevitável -, não existe. Tampouco o amor incondicional de mãe para filho baseia-se numa exigência biológica.

As intrigantes pesquisas de Sarah, casada e mãe - amorosa, segundo ela mesma - de três filhos, mostram que a evolução não presenteou a espécie humana com um chip especial, instalado em cada cérebro materno, ordenando que todas as mães vivam em função dos filhos e ofereçam colo a cada vez que eles caem no choro. A genética apenas predispôs as fêmeas a gerar seus bebês e oferecer-lhes condições de um crescimento adequado - aí a mesma regra vale para uma aranha-mãe, para uma gestante primata ou para uma humana profissional de classe média.

"Existe, sim, uma prontidão biológica para o cuidado dos filhos", afirma a etóloga Suemi Tokumaru, da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. "A fisiologia, a anatomia e, provavelmente, alguns circuitos neurais preparam a mulher para gerar e amamentar o filho. Mas a maneira com que ela cuidará do bebê vai depender de fatores circunstanciais." Esses fatores resultam da interação com o ambiente, das influências culturais e do equilíbrio entre as ambições daquela mulher e as demandas da maternidade. No modo de zelar pelos filhos, portanto, não há nada de instintivo.

A dedicação ao filho, no fundo, é uma questão de investimento. Esta é a palavra que explica o zelo materno e que garante à prole de qualquer espécie condições de sobreviver até a independência. "A fêmea tenta, assim, passar seus genes adiante', diz o etólogo César Ades, da Universidade de São Paulo. Não que as mães humanas pensem conscientemente em investir no recém-nascido para preservar o próprio patrimônio genético. "Mas, quando uma mulher se dedica ao filho ao filho, desejando que ele cresça perfeito e saudável, que vá bem na escola, que tenha amigos, que se case e lhe dê netos, está traduzindo em linguagem social o propósito fundamental de perpetuar seu próprio DNA e, como consequência, manter viva a espécie", afirma César.

"A concepção de amor materno varia de cultura para cultura e recebe a influência do momento histórico e das circunstâncias sociais", diz o antropólogo Benedito Miguel Gil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Cada sociedade tem o seu modelo de mãe e os papéis que cabem a ela desempenhar - papéis que são, na verdade, as "regras culturais" de como investir na prole. As mães dos comerciais de margarina ou de fraldas revelam muita coisa daquilo que esperamos da figura materna. Por outro lado, as madrastas malvadas dos contos-de-fada personificam atitudes que execramos - por exemplo, a punição. "O amor materno pode ser entendido como uma forma culturalmente moldada de proteção à criança a fim de transformá-la num adulto apto", diz o antropólogo Mauro Cherobim, da Unesp. "Demonstra que a mulher está investindo na sobrevivência de seu grupo social, de sua parentela." Enfim, dela mesma.

Para ter ideia da dimensão do investimento da mãe no filho, para a espécie humana, basta pensar na fragilidade do bebê, que nasce totalmente imaturo e demora cerca de 15 anos par alcançar a independência. "Trata-se de uma tarefa pesada", afirma Ades. "Imagine se não houvesse motivação para isso." Mas não são só as mães que apresentam uma prontidão biológica para esse envolvimento. O médico e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990), criador da chamada Teoria do Apego, descobriu que os bebês nascem programados para formar um estreito vínculo emocional com a mãe ou com os primeiros adultos que tomam conta deles - em outras palavras, para apegar-se.

"A função biológica do sistema de apego é justamente aumentar as possibilidades de sobrevivência da criança, oferecendo-lhe proteção e segurança", diz a psicóloga e terapeuta familiar Gilda Franco Montoro, do Centro de Estudos e Assistência à Família, em São Paulo. A qualidade desses primeiros vínculos constitui a base emocional do futuro adulto. Sentimentos de desamparo e de perda não passam em branco. "A criança pode crescer segura, com boa auto-estima, ou ansiosa e insegura quanto às suas relações afetivas, ou ainda com extrema dificuldade de se ligar a alguém, a partir da relação que a mãe estabelece com ela", afirma. "Não podemos pensar somente na sobrevivência física. O bem-estar emocional garante o crescimento de um adulto mais auto-confiante e produtivo."

Como o mundo não é um eterno comercial de TV, pode surgir um conflito: às vezes o cuidado com o filho acaba prejudicando o projeto de perpetuação genética da mãe (quando os recursos são insuficientes para mãe e filho, por exemplo, ou quando há filhos demais). Entra em cena, então, o cálculo entre custos e benefícios. Ok, custo/benefício não é um raciocínio muito maternal. Mas essa equação garante a sobrevivência da espécie, mesmo que ela implique em atitudes radicais. "O infanticídio é muito comum entre grupos tribais que temem por um desequilíbrio demográfico. Entre os índios Tapirapé, por exemplo, que vivem na região do Rio Araguaia, se o casal tem dois filhos de um mesmo sexo, o terceiro é morto ao nascer", diz Mauro Cherobim. Há casos na natureza, inclusive entre os primatas, de mães que praticam o aborto seletivo, protegem alguns recém-nascidos em detrimento de outros ou descuidam da cria quando entram no cio e buscam um macho. Para nós, que somos seres simbólicos e reflexivos, essas atitudes são um absurdo. "Mas o comportamento materno não pode ser entendido como uma força determinada apenas pelos genes", afirma César Ades.

Para compreender os casos de negligência ou infanticídio, é preciso adicionar ao componente biológico o cultural e o emocional. "Cuidar do filho não é um imperativo absoluto. É uma atividade influenciada pelo contexto e pelos interesses de sobrevivência da mãe", diz César. "Isso não quer dizer que a tendência materna de zelar pela prole não seja relevante - pelo contrário." Mães que abandonam o filho em cestos de lixo, quando são descobertas, em geral alegam que não tinham condições de criar a criança e preferiam deixá-la para adoção. Essas mães aceitam o princípio de que cuidar do bebê é fundamental, mas acreditam não conseguir garantir o desenvolvimento dele (o que não quer dizer, é claro, que o ato delas seja justificável). Afinal, as imposições culturais que a proíbem de cometer esse crime não existem por acaso).

"Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado - porque ela foi criada assim", afirma o psicólogo paulista Alberto Pereira Lima. "Essa mulher tende a reproduzir, com os filhos, aquilo que ela, dentro da sua família, apreendeu como amor materno." Cada um faz uma leitura pessoal da relação com a mãe e a toma, inconscientemente, como modelo de relação com o filho. Em vez de nutrir e zelar, aquela mulher pode privar e punir. Mas, apesar desse comportamento, a prontidão biológica para o investimento na prole continua presente. Nada impede que uma mãe negligente, em outras condições sociais e em outro momento de sua vida, se torne amorosa e protetora.

Por que, então, fala-se tanto em instinto materno se ele nunca existiu? Para Sarah Hrdy, a ideia propagou-se devido à crença comum desde o século XIX de que o desejo sexual feminino servia apenas para a procriação. As emoções maternas eram vistas como imposições da natureza à mulher, fatores desvinculados da sua sexualidade e de suas ambições. Nesse contexto, a ideia do instinto materno fazia todo o sentido. Acreditava-se que a função biológica e natural de toda mulher era ter filhos, amamentá-los e cuidar deles - se possível, dedicando-se integralmente à tarefa. Caso contrário, ela não cumpriria seu papel evolutivo.

Os estudiosos do comportamento humano e animal - conhecidos como sociobiólogos - hoje sugerem que a sexualidade feminina é muito mais do que um simples impulso reprodutivo. Ao contrário do que rezava a biologia do século XIX, não por acaso inteiramente dominada por homens, as mulheres têm desejo sexual e mecanismos de prazer muito complexos. A partir daí, ficou claro que os papéis que os cientistas atribuíam às mulheres eram determinados pela cultura, não pela biologia ou por leis naturais e imutáveis.

Prova disso é que os homens também são programados geneticamente para cuidar dos filhos. "Não há uma lei biológica que determine que a mãe tenha que cuidar mais da criança do que o pai", diz Suemi. "O quanto cada um pode contribuir varia, dependendo da sociedade em que o casal vive. Há tribos em que o homem fica com o filho porque a mãe vai trabalhar." Suemi reconhece, no entanto, que o investimento materno acaba sendo, em média, maior que o paterno, uma condição provavelmente favorecida por fatores como a gestação e a amamentação.

Que o zelo materno é fundamental para a sobrevivência e a saúde psíquica do filho, todo mundo está de acordo. A pergunta é: e se entre os seres humanos não houvesse esse investimento materno, também chamado de amor ou apego, e conhecido erroneamente como instinto? "A espécie não iria adiante, ficaria entregue ao sabor das casualidades", diz César. Todos os filhos, dos recém-nascidos aos marmanjões, viveriam ao deus-dará. Muitos não sobreviveriam, outros cresceriam emocionalmente fragilizados. A taxa de mortalidade seria alta e aqueles que restassem comentariam, tristemente, como o Brás Cubas do escritor Machado de Assis: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa existência".


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)

E se... a Terra parasse de girar?


Paralisar o nosso planeta seria uma verdadeira revolução cósmica, de consequências nada agradáveis. Dois dos mais belos fenômenos da natureza - a alvorada e o crepúsculo - só ocorreriam uma vez a cada seis meses. Ou seja, o dia terreno passaria a ter a duração de um ano, metade dele com luz solar e a outra metade nas trevas.

Tudo isso, porém, ainda seria fichinha perto de efeitos colaterais bem mais graves, que tornariam a vida na Terra se não impossível, extremamente difícil. Dois cenários alternativos - e radicalmente antagônicos - desenhariam para a humanidade um futuro duro de encarar: usar toda a ciência e a tecnologia possíveis para sobreviver num ambiente inóspito: ou gelado como Júpiter (temperatura média de -130º C), ou tórrido como Vênus (460º C).

"Se, durante a longa noite de um dos lados do planeta, houvesse acumulação de neve ou congelamento do oceano, a Terra se transformaria num mundo gélido", afirma o meteorologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). "Tudo dependeria do transporte de água do lado quente (dia) para o lado frio (noite). Como a metade noturna teria sempre temperatura abaixo de zero, qualquer vapor d'água que para lá fosse levado cairia como neve e viraria gelo na superfície."

As correntes oceânicas também desempenhariam um papel fundamental nessa troca, transportando calor dos mares quentes, do hemisfério diurno, para os mares frios, da outra face do planeta. Se essas correntes não dessem conta do recado, surgiria, boiando sobre o oceano, uma camada de gelo tão espessa que não derreteria - nem quando voltasse a amanhecer no lado noite. "Como o gelo é branco, reflete muita radiação solar: 50% a 60%, em média. Assim, a pouca luz absorvida seria insuficiente para provocar o derretimento dessa camada. Esse, aliás, é o mesmo mecanismo que faz com que, uma vez estabelecidas, as eras glaciais durem milhares de anos. E se a massa de gelo não derretesse totalmente durante o primeiro dia de seis meses, entraríamos numa eterna era glacial", diz Carlos.

A outra alternativa seria o exato oposto: um calor infernal. Como haveria uma evaporação intensa de água dos oceanos do lado dia, boa parte desse gás permaneceria na atmosfera. "O vapor d'água é um forte gerador de efeito estufa: quanto mais vapor, mais alta ficaria a temperatura próxima à superfície; e, quanto mais alta essa temperatura, ainda mais vapor seria produzido", afirma o meteorologista. O aumento brutal desse efeito estufa poderia chegar ao ponto extremo de fazer evaporar toda a água dos oceanos. Nesse caso, a temperatura terrestre atingiria centenas de graus Celsius - completamente imprópria para a vida.

Mesmo que não acabássemos torrados durante o dia, provavelmente morreríamos por inanição à noite. "Sem luz durante seis meses, os vegetais - que transformam a energia solar em alimento para si e para os animais - se extinguiriam. Assim, desapareceriam também os herbívoros e, logo em seguida, os carnívoros", diz o biólogo Wellinton Delitti, do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, num mundo gélido de um lado e causticante do outro, os únicos organismos com chance de sobrevivência são aqueles que vivem no fundo do mar, próximos às fendas que expelem calor e enxofre vindos das profundezas da Terra. "Essa comunidade de organismos tem sua vida baseada na quimiossíntese e não na fotossíntese: são seres que independem da luz solar", afirma Wellinton. Mas, se essa forma de vida chegaria ou não a evoluir a ponto de, um dia, colonizar todo o planeta, só bilhões de anos poderiam dizer.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)

Como ocorrem os gêmeos siameses?


Existem dois tipos de gestação gemelar, como a medicina chama a formação embrionária de gêmeos. O mais comum, que responde por cerca de 2/3 dos casos,surge da fertilização independente de dois óvulos diferentes. Nesse caso, é impossível os bebês nascerem unidos, malformação que caracteriza os gêmeos coligados (nome científico do que popularmente se batizou de "siameses"). Isso só acontece quando um único óvulo é duplamente fecundado. Em geral, em pouco mais de uma semana o embrião se separa em dois. "Mas se essa divisão demorar mais que 12 dias, será tarde demais", afirma a doutora Maria de Lourdes Brizot, do Departamento de Medicina Fetal, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "As células acabarão formando partes do corpo ou órgãos em comum", diz ela. Quando isso acontece em partes vitais, como pulmão, coração ou cérebro, um dos gêmeos tem de ser sacrificado. Se não, podem ser separados cirurgicamente. O termo "siameses" se originou da primeira ocorrência registrada desse fenômeno: os gêmeos Chang e Eng, que nasceram no Sião, Tailândia, em 1811, colados pelo ombro. Eles casaram, tiveram 22 filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Quando foi construído o Arco do Triunfo?


Em 1805, a cidade de Austerlitz, República Tcheca, foi palco de uma das mais importantes vitórias militares de Napoleão. Os seus 68.000 soldados derrotaram 90.000 combatentes da Rússia e da Áustria, que formavam uma coalizão contra seu império. A vitória deixou Napoleão eufórico a ponto de prometer aos seus soldados a mesma glória dada aos exércitos romanos: voltar para casa sob arcos triunfais. No ano seguinte, em Paris, foi lançada a primeira pedra do monumento, mas o império do francês não durou a ponto de vê-lo terminado. As obras foram concluídas em 1836, no reinado de Luís Filipe, Napoleão, ironicamente, passou sob seu monumento triunfal apenas uma vez: no seu cortejo fúnebre, em 1840.

O arco ganhou novo significado quando a Primeira Guerra Mundial acabou e o vitorioso exército francês marchou debaixo dele. Para homenagear os heróis da guerra, o corpo de um soldado foi enterrado no subsolo. A marcha vitoriosa se repetiu em 1944, liderada pelo general De Gaulle, para comemorar a libertação de Paris do controle alemão na Segunda Guerra Mundial.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 1 - ano 15 - janeiro de 2001)


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Retratos de um mundo estranho - Marcelo Spina


Como surgiu e como funciona o Guiness Book, um dos livros mais vendidos - e mais cheios de esquisitices - do mundo

O norte-americano Ray Macareg fez uma demonstração e tanto no ano passado: provou ser possível soprar bolas de chiclete com uma tarântula na boca. Em 1998, outro americano, Mark Hogg, demonstrou seu arrojo de forma ainda mais indigesta: engoliu 62 minhocas em apenas 30 segundos. No mesmo ano, foram medidas as unhas do indiano Shridhar Chillal, que, juntas, somaram mais de 6 metros de comprimento. Voltando 400 anos no tempo, na Transilvânia, Romênia, damos de cara com Elizabeth Bathori, a maior assassina de toda a história: acreditando que assim preservaria sua juventude, ela teria matado mais de 600 meninas e se banhado em seu sangue. Essas histórias poderiam compor um livro de ficção de segunda categoria se não tivessem acontecido de verdade. Trata-se de alguns dos feitos registrados no Guiness Book, o Livro dos Recordes, que registra as marcas humanas mais notáveis em ciência, esportes, artes, grandes viagens, riqueza, fama e, como você já percebeu, em extravagância também.

O Guiness Book nasceu de uma discussão travada em 1951 entre Sir Hugh Beaver, diretor da tradicional cervejaria Guiness, e amigos que participavam de uma caçada na Irlanda: seria a tarambola (espécie conhecida no Brasil como lavadeira ou maçarico) a ave de caça mais veloz da Europa? Três anos depois, o assunto ainda causava polêmica no grupo. Uns argumentavam que outra ave, o tetraz, seria mais veloz. Foi quando Beaver chegou à conclusão de que polêmicas como aquela poderiam estar acontecendo diariamente nos pubs da Grã-Bretanha e que um livro que desempatasse as disputas teria um valor inestimável. Assim, contratou os irmãos McWhirter para uma detalhada pesquisa sobre números e fatos e, em agosto de 1955, lançou o primeiro Guiness Book of Records. Aquela edição, com 198 páginas, teve sucesso imediato e, até o final do mesmo ano, já figurava como best-seller no país. Hoje, a empresa Guiness World Records Ltd., sediada em Londres, conta com um arquivo de 40.000 recordes - no livro anual cabem apenas 10% deles. O Guiness também alcançou grande audiência em programas de televisão, mostrando o que há de mais espetacular e esquisito ao redor do mundo.

O Guiness Book detém, ele mesmo, um recorde: é o livro que mais lucra com direitos autorais no mundo. São mais de 80 milhões de exemplares vendidos desde a sua primeira edição - só a edição 2000 já vendeu 5 milhões de cópias. Distribuído ao redor do mundo em 20 idiomas, o Guiness representa para muitos o sonho de notoriedade internacional. Recordes geram reconhecimento que, por sua vez, pode atrair patrocínio para novas façanhas. A editora garante que qualquer pessoa pode se tornar um recordista e receber um certificado oficial da entidade. "Nós somos muito democráticos", diz Neil Hayes, do Departamento de Marketing da Guiness. "Damos o mesmo espaço para um sujeito que equilibra galões de leite na cabeça, para campeões olímpicos ou estrelas de Hollywood."

Para bater um recorde, as condições devem ser exatamente as mesmas da marca estabelecida anteriormente. E o aspirante precisa apresentar provas documentadas que deem credibilidade ao feito. Entre elas: imagens em vídeo, fotografias, artigos de jornal, duas testemunhas (que devem ser autoridades ou pessoas respeitadas na comunidade) e, dependendo do caso, o aval de especialistas na modalidade. Para obter o recorde de uma modalidade que ainda não existe é necessário enviar um projeto para a Guiness explicando com o máximo de detalhes a façanha almejada. Aí dependerá de a empresa decidir se o recorde merece ou não o seu aval. Se você quer tentar a mão, o meio mais eficiente de entrar em contato com a Guiness é por email. Mas é preciso insistir. Os editores estão sempre muito ocupados. "Nos últimos 12 meses recebemos pelo menos 20.000 consultas do mundo inteiro", diz Hayes.

O Brasil figura em diversas páginas do Guiness. O paulista José Carlos Ryoki Inoue, de 54 anos, detém um recorde que pode ser considerado bastante honroso: de acordo com o Guiness, ele é o escritor mais prolífico do mundo, com 1.046 livros publicados entre os anos de 1986 e 1996. "Figurar no Guiness foi uma consequência natural do meu trabalho", diz Ryoki, cuja produção literária é marcada por livros de bolso assinados com pseudônimos - George Fletcher, Jesse Taylor, James Monroe. Outro brasileiro, bem mais famoso, que está se empenhando para juntar as evidências necessárias e ter um recorde aprovado pelo Guiness é o cantor sertanejo Daniel. Ele teria gasto 25 horas autografando para mais de 30.000 fãs em setembro do ano passado. Haja Bic.

É nós na fita

Há vários recordes brasileiros registrados no Guiness Book

- O menor jornal do mundo é o Vossa Senhoria, publicado pela primeira vez em 1935, medindo apenas 3,5 x 2,5 centímetros.

- A novela mais cara e com mais atores até hoje gravada foi Torre de Babel, escrita por Sílvio de Abreu. O custo foi de 17 milhões de dólares e empregou 300 atores.

- A maior formação em queda livre teve 588 pára-quedista e aconteceu no Rio de Janeiro, em abril deste ano.

- O soldado mais jovem da história foi Duque de Caxias, que ingressou no Exército aos 5 anos de idade, em 1808.

- O maior carnaval do mundo é o de Salvador, atraindo 2 milhões de pessoas e gerando uma receita de 254 milhões de dólares.

- O maior público em um jogo de futebol foi 199.854 pessoas, na final da Copa de 50, entre Brasil e Uruguai, no Maracanã.

- A maior bandeira já hasteada foi a brasileira. Media 70 x 100 m e tremulou em Brasília.

- O maior show de rock aconteceu em Copacabana, onde Rod Stewart cantou para 3,5 milhões de pessoas no Réveillon de 1994.

- O cemitério mais alto do mundo fica em Santos. O Memorial Necrópole Ecumênica, construído em 1983, tem 10 andares.

- O peixe mais feroz, a piranha, o mamífero mais lento, o bicho-preguiça, e o maior roedor do mundo, a capivara, também são brasileiros.

Festival de excentricidades

O Livro dos Recordes é também um coquetel de esquisitices

- A norte-americana Teighlor é a modelo mais pesada do mundo: no início da década de 90, ela pesava 326 quilos e apareceu de biquíni em diversos pôsteres, calendários e cartões postais da Flórida.

- Em 1998, Jim Chichon, do Estado da Pensilvânia, EUA, conseguiu lançar um jato de lágrimas a quase 2 metros de distância.

- O texano Jackie Bibby sentou em uma banheira com 35 cascavéis (sem retirar as presas nem o veneno), em junho de 1998.

- O maior funeral espacial ocorreu em 1997: as cinzas de 24 pessoas foram lançadas em órbita.

- O britânico Andy Green andou a 1.227 km/h dentro de um automóvel no deserto de Nevada, Estados Unidos, em 1997.

- O terremoto com mais fatalidades da história teria matado mais de 1 milhão de pessoas no Mediterrâneo, no ano de 1201.

- O cachorro mais rico da história foi um poodle chamado Toby, que, em 1931, recebeu uma herança de 15 milhões de dólares de sua dona em Nova York.

- O maior jogo de pôquer registrado deu a Huck Seed, de Las Vegas, 2,3 milhões de dólares, em 1996.

- O automóvel mais longo do mundo é uma limusine montada pelo californianos Jay Ohrberg. Ela mede 30 metros e tem até piscina com trampolim no seu interior.

- A maior caminhada de todos os tempos foi feita por Arthur Blessitt, da Flórida. Em jornada iniciada em 1969, ele andou 53.000 quilômetros ao redor do mundo.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 11 - ano 14 - novembro de 2000)

E se... a Terra tivesse a gravidade de Marte? - Evanildo da Silveira


Para começar, aquela famosa maçã inglesa teria caído na cabeça de Newton com sua força reduzida em duas vezes e meia. Será que assim ele teria dado menos importância ao fato, atrasando a descoberta da Lei da Gravidade? Bem, nem perca tempo pensando nisso: não há nenhuma comprovação histórica de que o episódio da maçã tenha realmente ocorrido. O certo é que se, de uma hora para outra, o nosso planeta passasse a ter uma força gravitacional igual à de Marte - 3,7 m/s² contra os atuais 9,8 m/s² -, toda a vida terrestre caminharia para a extinção.

Pouco a pouco, iríamos literalmente ficando sem ar. "Os gases da alta atmosfera escapariam da gravidade da Terra e se espalhariam pelo Universo", diz o  físico Odylio Aguiar, especialista em detecção de ondas gravitacionais da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe. Outro fenômeno apocalíptico ocorreria nos oceanos. "Com uma atmosfera mais rarefeita, a água entraria em ebulição a uma temperatura inferior a 100ºC", afirma Aguiar. "Bastaria um clima ameno de 25ºC para o mar ferver."

Como se não bastasse, nosso satélite natural, a Lua, se desgarraria da Terra. O mais provável é que acabasse capturada pela órbita do Sol, aproximadamente à mesma distância que nos encontramos dele. "A Lua eventualmente poderia ser recapturada pela órbita terrestre, várias voltas (anos) depois, ou até se chocar com nosso planeta. Tudo dependeria da direção em que ela estivesse se deslocando no exato momento dessa repentina alteração em nossa gravidade, e também da influência gravitacional dos outros planetas", diz o físico.

Outros fatores essenciais para a vida seriam afetados de maneira igualmente assombrosa. "A gravidade determina a pressão, a densidade e a temperatura - nada menos que as condições que dão forma aos elementos químicos. É a principal força, em escala macroscópica, que vai modelar física e geometricamente os seres vivos", afirma o astrônomo Othon Winter, da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista, UNESP, de Guaratinguetá.

Por causa disso, a Terra poderia abrigar bichos e plantas bem maiores que os atuais. "Se tivessem a mesma estrutura físico-química, eles poderiam ser realmente imensos", afirma o físico Roberto de Andrade Martins, do Departamento de Raios Cósmicos do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. "Se levarmos em conta apenas o fator de resistência física, um elefante deste mundo hipotético poderia ter um tamanho 2,5 vezes maior do que o elefante que conhecemos, mantendo as mesmas proporções!"

Martins lembra, no entanto, que não é apenas a gravidade que determina as dimensões dos seres vivos. "Podem existir fatores biológicos, e não físicos, que limitam o tamanho dos animais e dos vegetais", diz ele. Afinal de contas, existem na Terra desde camundongos minúsculos até grandes ratazanas, com estruturas físicas semelhantes; existiam no Brasil tatus e preguiças gigantes, que se extinguiram por motivos biológicos. Numa frase: o tamanho de um animal não é determinado apenas pela possibilidade física de que ele sustente o seu próprio peso.

Para completar, o próprio homem se tornaria um gigante - pelo menos em força. "Uma pessoa que consegue segurar ou erguer um objeto de 40 kg na gravidade normal, poderia com igual esforço, fazer o mesmo com um objeto de 100 kg", afirma Martins. "Um jogador de futebol num mundo desses, desde que com condições de respirar normalmente, daria um chute que forneceria exatamente a mesma velocidade à bola. A diferença é que ela poderia ir 60% mais longe." Ou seja: uma patada de fazer inveja a qualquer Netinho ou Éder Aleixo.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 11 - ano 14 - novembro de 2000)

Cinema: A fera dos efeitos: Fausto De Martini - Larissa Faria


O paulistano Fausto De Martini cria personagens digitais para blockbusters americanos, de Guerra nas Estrelas à continuação de Avatar

O espírito das brincadeiras de infância, em que gostava de criar maquetes de robôs e naves espaciais usando papel e argila, foi o mesmo que guiou Fausto De Martini quando ele decidiu dar os primeiros passos em redes sociais. Martini recorreu à internet em busca de tutoriais para aprender a criar imagens em 3D. Por diversão, fez a própria concepção de um personagem do jogo de videogame StarCraft e postou o resultado em um fórum. "Isso chamou a atenção da produtora americana Blizzard, a dona da história", lembra. O ano era 2003, e estava dado o play, até hoje sem pause, da escalada de uma carreira que inclui nove anos na empresa, na qual ele chegou ao posto de diretor de arte e de onde partiu, em 2012, rumo a Hollywood. Lá, conquistou espaço entre os nomes que contribuem em blockbusters na área de efeitos especiais. Quando vem a São Paulo e participa do lançamento de jogos, é tratado como herói dos geeks.

Hoje com 40 anos, o designer está envolvido na elaboração de alguns dos efeitos da continuação de Avatar, com estreia prevista para 2018. Por contrato, não conta a ninguém sobre suas tarefas no longa. Foi assim também em Star Wars - O Despertar da Força (2015). Durante sete meses, Martini ficou de boca fechada enquanto comandava a reformulação da nave TIE Fighter. Segundo estimativas de mercado, um profissional do seu nível chega a embolsar mais de 100.000 dólares por um trabalho do tipo (ele não comenta valores).

Tudo é desenvolvido em sua casa, na região de Los Angeles, onde ele vive com a mulher (brasileira) e dois filhos (de 14 a 20 anos). As horas vagas são dedicadas ao projeto de criação de um mundo 3D próprio, em um planeta do futuro abalado por conflitos entre nações e grave poluição, que Martini sonha em transformar em jogo ou filme. Da terra natal, o paulistano senta falta da pizza. "Ela não se compara a nenhuma outra no mundo", garante.


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 23 de março de 2016)

Paulistana Nota Dez: Alcione de Albanesi - Rafael Gonzaga


Nome: Alcione de Albanesi
Profissão: empresária
Atitude transformadora: fundou uma instituição que distribui donativos e implementa melhorias no sertão nordestino

A consciência da empresária Alcione de Albanesi para a necessidade de abraçar causas sociais vem de berço. Sua mãe, Guiomar, atua há anos no auxílio a onze creches na periferia da capital, onde são atendidas cerca de 2.000 crianças. Em 1993, Alcione resolveu iniciar a própria trajetória no voluntariado. Na ocasião, ela juntou-se a um grupo de vinte amigos e viajou para o sertão nordestino a fim de doar alimentos, roupas e brinquedos a famílias carentes. A iniciativa virou o ponto de partida para a criação, naquele mesmo ano, da Amigos do Bem, ONG que recolhe donativos e recursos para ser usados em melhorias naquela região. De lá para cá, o empreendimento construiu 380 casas e 112 cisternas, com 1,2 milhão de litros de água distribuídos por ano. Na área da educação, atendeu cerca de 10.000 crianças e adolescentes com acompanhamento escolar e cursos profissionalizantes, o que ajudou a encaminhar 150 jovens à universidade. Entre outras benfeitorias de infraestrutura e saúde, essas ações conjuntas já tiveram impacto na vida de 60.000 brasileiros. "Estamos quebrando um ciclo secular de miséria, abandono e analfabetismo", afirma a responsável pela iniciativa.

Com a participação de 5.000 voluntários, a instituição também foi responsável pela criação de 800 frentes de trabalho em setores como artesanato e cultivo de caju. "Não adianta ensinar a pescar sem viabilizar os meios para que as pessoas cheguem ao rio", diz Alcione. Uma loja com produtos da marca Amigos do Bem, localizada na Água Rasa, na Zona Leste, colabora na missão de angariar fundos para os projetos. A criadora da ONG dedica-se exclusivamente à instituição desde 2014, quando vendeu 80% das ações de sua empresa  de lâmpadas, a FLC. "Durante anos, consegui conciliar os dois trabalhos, mas, em dado momento, percebi que o projeto social era muito mais importante na minha vida", explica.


(texto publicado na revista Veja São Paulo  de 23 de março de 2016)