sábado, 4 de junho de 2016
sexta-feira, 3 de junho de 2016
O que são os números FPS no protetor solar? - Nathália Braga
Eles não estão relacionados ao poder de proteção, mas ao tempo em que a pele fica protegida dos raios solares
O fator de proteção solar representa o tempo a mais que a pele fica protegida. Por exemplo, se sua pele leva cinco minutos para sofrer os efeitos do sol, ao passar um protetor com fator de proteção solar 15, a pele fica protegida por 15 vezes mais tempo (no caso, 75 minutos). O mesmo protetor sobre uma pele mais escura, que sofre os efeitos solares após sete minutos, protege por 105 minutos. Mas, cuidado. Isso não quer dizer que o FPS 60 seja quatro vezes mais poderoso que o FPS 15, mas que ele protege por quatro vezes mais tempo.
Mas o que é pele protegida? É aquela que, quando exposta ao sol, não apresenta danos visíveis como vermelhidão e queimaduras. Já a numeração dos protetores é uma convenção internacional regulamentada por órgãos reguladores de medicamentos, como a Anvisa. Os números são definidos em diversos testes. Um deles é o da dose mínima de eritema (DME), que é o tempo mínimo para a pele ficar vermelha após a exposição. Basicamente, o FPS é determinado ao dividir a DME das pessoas que aplicaram protetor no teste pela DME das que não passaram. Assim surgem números como 2, 4, 8, 20, 50 etc. Porém alguns deles vão sumir. Em junho, a Anvisa determinou que o FPS mínimo disponível no mercado deve ser 6. A indústria tem dois anos para se adaptar.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 311 - novembro de 2012)
O selo nas latas de cerveja ajuda ou atrapalha a higiene? - Rodrigo Ratier
Segundo um estudo que analisou latas de cerveja em contato com água suja, o selo (aquela proteção de alumínio que recobre a tampa de algumas marcas) atrapalha. Apesar de o teste ter sido realizado por um órgão considerado referência na área - o Centro de Tecnologia da Embalagem, ligado ao governo de São Paulo -, seus resultados causaram polêmica porque a pesquisa esconde uma disputa comercial. De um lado está o Sindcerv, que tem como associados 5 grandes cervejarias - a principal é a Ambev, que encomendou o tal estudo sobre o selo e que detém as marcas Skol, Brahma e Antarctica. Do outro está a Cervejaria Petrópolis, que fabrica a Itaipava e a Crystal, as duas únicas cervejas com selo de alumínio no Brasil. Deixando a briga de lado, alguns especialistas concordam que o selo permite a passagem e a retenção de água junto à tampa. "E a umidade é um dos principais fatores que favorecem a multiplicação das bactérias", diz o biomédico Eneo Alves da Silva Jr., consultor do Programa Alimentos Seguros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas nada de pânico com ou sem selo, a contaminação não passa de 4% do máximo tolerado. "Na literatura médica, não há registro de doença transmitida por latas de alumínio", afirma Eneo. Se mesmo assim você estiver grilado com as condições de higiene da lata, lave a tampa com água. O líquido elimina mais sujeira que o guardanapo, que só tira o excesso.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 250 - março de 2008)
Um outro jeito de curar
Mais suaves e nada invasivas, as terapias alternativas roubam clientes da medicina oficial. Mas ainda têm muito a explicar
A medicina convencional, baseada na alopatia, no combate aos sintomas e em intervenções de modo geral agressivas ao organismo do paciente, está aos poucos perdendo a sua posição hegemônica nos países ocidentais. Surpreendida pela revolução comportamental que varreu o Ocidente nas últimas décadas do século XX, questionando vários dos princípios iluministas que regem a cultura europeia - e seus herdeiros nas Américas -, a medicina convencional passou a dividir espaço com a homeopatia, a acupuntura, a ioga, a meditação e dezenas de outras práticas terapêuticas não-invasivas, quase todas de origem oriental, antes confinadas entre nós ao terreno do curandeirismo.
Chame-se a isso de medicina alternativa ou complementar, integrativa ou holística, a verdade é que algo está mudando numa área vital para as pessoas: a manutenção da saúde. E a tendência de mudança não reflete apenas o interesse dos indivíduos por tratamentos mais suaves e com menos riscos de efeitos adversos. Há aí também indícios de uma abertura em direção a um novo paradigma científico, cujo impacto na maneira de o homem lidar com a medicina, com as doenças e com sua própria vida promete ser avassalador.
A velocidade com que as coisas estão acontecendo espanta. Atualmente, 75% das escolas de medicina dos Estados Unidos oferecem cursos de especialização em terapias alternativas ou desenvolvem estudos sobre o tema. Calcula-se que metade dos 270 milhões de americanos costuma recorrer a algum tipo de tratamento nã-convencional, o que representa um enorme fator de pressão sobre os prestadores de serviços de saúde. Sem falar nos lucros de um mercado que se constrói à margem da medicina convencional e que já movimenta 30 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos. É o próprio governo americano, através do Instituto Nacional de Saúde (NIH), um órgão equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil, que comanda um mutirão de pesquisas para medir a eficácia dessas terapias. Na Inglaterra já há hospitais formados apenas por homeopatias e o Canadá acaba de tornar-se o primeiro país das Américas a reconhecer a medicina tradicional chinesa como especialidade médica e a autorizar a formação regular de profissionais nessa área.
O fenômeno se repete no Brasil, ainda que em menor escala. O país possui cerca de 14.000 médicos homeopatas, 48 vezes mais do que há duas décadas, quando a homeopatia foi reconhecida como especialidade médica pela Associação Médica Brasileira. Mais de 5.000 médicos se dedicam à acupuntura no país, outra terapia alternativa só há pouco elevada à condição de especialidade médica. Da mesma forma, sob o pretexto de debater a humanização da medicina, cresce o número de médicos alopatas, formados à luz da medicina oficial, que promovem reuniões discretas e encontros públicos nos quais as terapias alternativas são apresentadas como métodos substitutivos de tratamentos baseados em drogas e cirurgias. "Está na hora de admitirmos que existem outras formas de curar doenças", diz a cardiologista Diana Ribeiro Dantas, que coordenará o próximo encontro, a ser realizado em Natal, no mês de junho.
O adjetivo holístico é, com certeza, o que melhor expressa a natureza desses novos tipos de cura. O holismo é uma teoria que vê o homem como um todo indivisível, impossível de ser explicado como se seus componentes físico, psicológico e espiritual pudessem existir separadamente. A medicina holística é, assim, a antítese do modelo biomédico, mecanicista, que se concentra no estudo isolado das partes da "máquina" humana e dos processos químicos específicos que a fazem funcionar. Diante de um doente qualquer, um terapeuta holístico subestimará a classificação da doença, voltando a atenção para o estilo de vida do doente, suas relações sociais, seu estado emocional, sua alimentação. Esse processo de interação com o paciente faria toda a diferença. As entrevistas demoradas, um traço marcante da medicina alternativa, transformam consultas simples em verdadeiras sessões de terapia psicológica nas quais laços de confiança e afeto unem o doente ao terapeuta.
As principais terapias holísticas compõem o repertório de recursos da medicina tradicional chinesa e da medicina ayurvédica, da Índia, com seus sistemas inspirados no taoísmo e no hinduísmo. A grande exceção é a homeopatia, criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann no século XVIII. A rápida expansão de todas elas, no entanto, só foi possível depois que algumas descobertas da ciência, no século XX, proporcionaram outro tipo de sustentação às ideias holísticas.
"As teorias da física quântica, dos sistemas auto-organizadores e da psicologia transpessoal demonstraram, com as próprias ferramentas da ciência cartesiana-newtoniana, que somos parte de algo mais vasto que os nossos organismos", afirma o neurocirurgião fluminense Francisco di Biase. Ele é um dos autores do livro Science and The Primacy of Consciousness (A ciência e a primazia da consciência), em parceria com especialistas americanos em física quântica e psicologia transpessoal, ainda inédito no Brasil. O grande aval foi dado pela teoria quântica, ao demonstrar que as unidades subatômicas da matéria são abstratas e podem se apresentar ora como partículas, ora como ondas. Tais padrões dinâmicos, segundo a teoria, formam as estruturas estáveis que constituem a matéria e lhe conferem o aspecto sólido, no nível macroscópico, que percebemos a olho nu. Ou seja: tudo o que enxergamos, inclusive nossos corpos, seria resultado da condensação de energias, padrões dinâmicos imateriais. Uma explicação muito semelhante à cosmovisão de antigas doutrinas místicas.
"É bobagem", rebate o neurofisiologista Renato Sabbatini, da Unicamp. "Os princípios da mecânica quântica só se aplicam ao mundo subatômico e não existe nada que comprove efeitos quânticos na consciência e nas estruturas macromoleculares. "Verdade? "Sim, mas só em parte", treplica o indiano Harbas Lal Arora, doutor em física pela Universidade de Waterloo, no Canadá, e terapeuta holístico com atuação em hospitais de Fortaleza. O próprio Einstein, autor da equação que demonstra que a matéria é energia condensada, no último ano de sua vida, segundo Harbas, admitiu a existência de formas de energias sutis que ainda não podem ser medidas diretamente mas que são muito poderosas. Tais energias, deduz Harbas, manifestar-se-iam, entre outras formas, como emoções, sentimentos, vontades e intuições. E seus efeitos no corpo poderiam ser mensurados por meio de mudanças nas ondas cerebrais, nos ritmos respiratório e cardíaco e nas secreções glandulares. "São energias que atuam no nível subatômico. Seus campos transcendem as limitações do espaço, do tempo e das energias físicas. E elas têm extrema relevância nos estados de doença, saúde e bem-estar", diz Harbas.
Ao espetar agulhas em pontos estratégicos do corpo, um acupunturista chinês se propõe desbloquear as trilhas, conhecidas como meridianos, por onde fluiria a energia vital, o chi. Um médico convencional dirá que ele apenas estimula pontos especiais do sistema nervoso capazes de provocar a liberação, pelo cérebro, de endorfinas, neurotransmissores de ação sedativa cujas moléculas se assemelham às da heroína. Já a homeopatia, aos olhos da medicina convencional, não conta com explicações plausíveis. A tese homeopata parte do princípio de que qualquer mal pode ser curado por uma substância vegetal ou mineral que produza em um homem são o mesmo sintoma da doença (exatamente o oposto do que faz a alopatia), mas, nesse caso, utiliza-se apenas a quintessência do princípio ativo, ou seja, a sua energia.
"Medicina alternativa é apenas o nome politicamente correto para o que normalmente chamamos de fraude", diz Leon Jaroff, ex-editor da revista americana Discover, especializada em ciência. O rápido crescimento da medicina alternativa e a livre prática de suas modalidades, de fato, trazem embutido o risco do surgimento de picaretagens ou, no mínimo, de esquisitices como a urinoterapia, que consiste em o paciente beber a própria urina, um excremento rico em toxinas. Só que, de um lado, há doutrinas orientais com milhares de anos de eficácia. E, de outro, até defensores ferrenhos da medicina alopática admitem que as terapias holísticas produzem, sim, um benefício, mesmo que não exatamente por causa de suas propriedades intrínsecas.
"O que funciona é o efeito placebo", afirma Renato, numa referência aos resultados obtidos com grupos de controle em pesquisas de medicamentos alopáticos. Tais indivíduos, tratados com substâncias sem ação específica sobre os sintomas da doença, como pílulas de farinha e açúcar, acabam apresentando sinais de melhoria simplesmente por suporem estar recebendo o remédio real. "A crença do paciente no tratamento é fundamental e sabe-se, hoje, que ela responde por 50% da eficácia de qualquer medicamento, inclusive antidepressivos", diz Renato. O assunto ganhou tamanha importância no meio científico que o NIH promoveu, em novembro passado, um painel com cientistas das principais universidades americanas com o único propósito de debater a adoção de placebos na rotina médica. Seria um meio de evitar o uso excessivo ou desnecessário de drogas. "O efeito placebo é uma consequência da participação do estado psíquico na cura do paciente, o que nos leva a inferir que a saúde física resulta do bem-estar psicossomático. Infelizmente essa interrelação entre corpo e mente é praticamente desprezada na medicina convencional", afirma Harbas.
Holistas como o psicólogo Giulio Vicini, membro da equipe que implanta, no Senac de São Paulo, um curso de graduação em medicina tradicional chinesa, e a especialista em alimentação e educação Hildegard Richter preveem que a medicina do futuro será totalmente "vibracional",baseada nas energias sutis e nos processos psíquicos. Mas, a médio prazo, o que se espera é uma composição entre sistemas médicos divergentes. "A medicina acadêmica e a medicina alternativa não são antagônicas, mas complementares", lembra o homeopata paulistano Antonio César Ribeiro Deveza da Silva. O único receio de boa parte dos terapeutas holísticos é que a medicina oficial acabe assimilando as terapias alternativas, adaptando-as ao modelo biomédico e restringindo seu exercício aos médicos. "Isso desfiguraria por completo aspectos terapêuticos que são parte de um sistema coerente", afirma Eduardo Alexsander Amaral de Souza, terapeuta oriental e reichiano no Rio de Janeiro.
"As teorias da física quântica, dos sistemas auto-organizadores e da psicologia transpessoal demonstraram, com as próprias ferramentas da ciência cartesiana-newtoniana, que somos parte de algo mais vasto que os nossos organismos", afirma o neurocirurgião fluminense Francisco di Biase. Ele é um dos autores do livro Science and The Primacy of Consciousness (A ciência e a primazia da consciência), em parceria com especialistas americanos em física quântica e psicologia transpessoal, ainda inédito no Brasil. O grande aval foi dado pela teoria quântica, ao demonstrar que as unidades subatômicas da matéria são abstratas e podem se apresentar ora como partículas, ora como ondas. Tais padrões dinâmicos, segundo a teoria, formam as estruturas estáveis que constituem a matéria e lhe conferem o aspecto sólido, no nível macroscópico, que percebemos a olho nu. Ou seja: tudo o que enxergamos, inclusive nossos corpos, seria resultado da condensação de energias, padrões dinâmicos imateriais. Uma explicação muito semelhante à cosmovisão de antigas doutrinas místicas.
"É bobagem", rebate o neurofisiologista Renato Sabbatini, da Unicamp. "Os princípios da mecânica quântica só se aplicam ao mundo subatômico e não existe nada que comprove efeitos quânticos na consciência e nas estruturas macromoleculares. "Verdade? "Sim, mas só em parte", treplica o indiano Harbas Lal Arora, doutor em física pela Universidade de Waterloo, no Canadá, e terapeuta holístico com atuação em hospitais de Fortaleza. O próprio Einstein, autor da equação que demonstra que a matéria é energia condensada, no último ano de sua vida, segundo Harbas, admitiu a existência de formas de energias sutis que ainda não podem ser medidas diretamente mas que são muito poderosas. Tais energias, deduz Harbas, manifestar-se-iam, entre outras formas, como emoções, sentimentos, vontades e intuições. E seus efeitos no corpo poderiam ser mensurados por meio de mudanças nas ondas cerebrais, nos ritmos respiratório e cardíaco e nas secreções glandulares. "São energias que atuam no nível subatômico. Seus campos transcendem as limitações do espaço, do tempo e das energias físicas. E elas têm extrema relevância nos estados de doença, saúde e bem-estar", diz Harbas.
Ao espetar agulhas em pontos estratégicos do corpo, um acupunturista chinês se propõe desbloquear as trilhas, conhecidas como meridianos, por onde fluiria a energia vital, o chi. Um médico convencional dirá que ele apenas estimula pontos especiais do sistema nervoso capazes de provocar a liberação, pelo cérebro, de endorfinas, neurotransmissores de ação sedativa cujas moléculas se assemelham às da heroína. Já a homeopatia, aos olhos da medicina convencional, não conta com explicações plausíveis. A tese homeopata parte do princípio de que qualquer mal pode ser curado por uma substância vegetal ou mineral que produza em um homem são o mesmo sintoma da doença (exatamente o oposto do que faz a alopatia), mas, nesse caso, utiliza-se apenas a quintessência do princípio ativo, ou seja, a sua energia.
"Medicina alternativa é apenas o nome politicamente correto para o que normalmente chamamos de fraude", diz Leon Jaroff, ex-editor da revista americana Discover, especializada em ciência. O rápido crescimento da medicina alternativa e a livre prática de suas modalidades, de fato, trazem embutido o risco do surgimento de picaretagens ou, no mínimo, de esquisitices como a urinoterapia, que consiste em o paciente beber a própria urina, um excremento rico em toxinas. Só que, de um lado, há doutrinas orientais com milhares de anos de eficácia. E, de outro, até defensores ferrenhos da medicina alopática admitem que as terapias holísticas produzem, sim, um benefício, mesmo que não exatamente por causa de suas propriedades intrínsecas.
"O que funciona é o efeito placebo", afirma Renato, numa referência aos resultados obtidos com grupos de controle em pesquisas de medicamentos alopáticos. Tais indivíduos, tratados com substâncias sem ação específica sobre os sintomas da doença, como pílulas de farinha e açúcar, acabam apresentando sinais de melhoria simplesmente por suporem estar recebendo o remédio real. "A crença do paciente no tratamento é fundamental e sabe-se, hoje, que ela responde por 50% da eficácia de qualquer medicamento, inclusive antidepressivos", diz Renato. O assunto ganhou tamanha importância no meio científico que o NIH promoveu, em novembro passado, um painel com cientistas das principais universidades americanas com o único propósito de debater a adoção de placebos na rotina médica. Seria um meio de evitar o uso excessivo ou desnecessário de drogas. "O efeito placebo é uma consequência da participação do estado psíquico na cura do paciente, o que nos leva a inferir que a saúde física resulta do bem-estar psicossomático. Infelizmente essa interrelação entre corpo e mente é praticamente desprezada na medicina convencional", afirma Harbas.
Holistas como o psicólogo Giulio Vicini, membro da equipe que implanta, no Senac de São Paulo, um curso de graduação em medicina tradicional chinesa, e a especialista em alimentação e educação Hildegard Richter preveem que a medicina do futuro será totalmente "vibracional",baseada nas energias sutis e nos processos psíquicos. Mas, a médio prazo, o que se espera é uma composição entre sistemas médicos divergentes. "A medicina acadêmica e a medicina alternativa não são antagônicas, mas complementares", lembra o homeopata paulistano Antonio César Ribeiro Deveza da Silva. O único receio de boa parte dos terapeutas holísticos é que a medicina oficial acabe assimilando as terapias alternativas, adaptando-as ao modelo biomédico e restringindo seu exercício aos médicos. "Isso desfiguraria por completo aspectos terapêuticos que são parte de um sistema coerente", afirma Eduardo Alexsander Amaral de Souza, terapeuta oriental e reichiano no Rio de Janeiro.
(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)
Instinto, não. Investimento - Maria Fernanda Vomero
O instinto materno, aquela atitude generosa que acreditamos naturalmente programada, não existe. Segundo uma visão revolucionária da maternidade, o que há é uma predisposição biológica para o investimento no filho - determinada pela fria relação entre custo e benefício
Você, com certeza, se lembra de alguma campanha publicitária que tenha recorrido à imagem de um bebê e sua mamãe amorosa para vender fraldas ou amaciantes de roupas. A figura materna aparece também nos comerciais de margarina, de desinfetante, de pasta de dente. A mãe prepara a comida dos filhos, lava as roupas, deixa a casa em ordem, cuida da saúde da garotada, dá presentes e está sempre sorrindo, feliz por ser mãe. Como a natureza foi sábia ao dotar as mulheres de um instinto tão poderoso. Amor incondicional? Só o de mãe.
Mas, então, os intervalos comerciais acabam e vem o telejornal. Um garoto conta que foi espancado pela mãe. Você se revira na cadeira. Casos envolvendo agressões de mulheres contra os próprios filhos são chocantes. No entanto, acontecem com mais frequência do que você pode imaginar. Vão desde o abandono em cestos de lixo até queimar o bebê com pontas de cigarro ou castigá-lo privando-o de comida. Em geral, essas mães são classificadas como desnaturadas, "exceções à regra", e, rapidamente, a sociedade tenta encontrar motivos que justifiquem tamanha barbaridade - desequilíbrio mental, pobreza, desemprego, desespero. Afinal, mãe que é mãe carrega, escrito nos genes e inoculado pela evolução, o instinto materno - que jamais permitiria atrocidades desse tipo. Certo?
Não é bem assim, afirma a sociobióloga americana Sarah Blaffer Hrdy, da Universidade da Califórnia, em Davis, em seu livro Mãe Natureza - Maternidade, Filhos e Seleção Natural, recém-lançado no Brasil. Depois de reunir farto material sobre a maternidade nas mais variadas espécies e culturas, Sarah chegou a uma conclusão surpreendente: as mulheres não amam instintivamente seus bebês. Como as outras fêmeas do reino animal, elas não se afeiçoam de maneira automática a cada filho que nasce. O instinto materno, tal como o concebemos - uma determinação genética inevitável -, não existe. Tampouco o amor incondicional de mãe para filho baseia-se numa exigência biológica.
As intrigantes pesquisas de Sarah, casada e mãe - amorosa, segundo ela mesma - de três filhos, mostram que a evolução não presenteou a espécie humana com um chip especial, instalado em cada cérebro materno, ordenando que todas as mães vivam em função dos filhos e ofereçam colo a cada vez que eles caem no choro. A genética apenas predispôs as fêmeas a gerar seus bebês e oferecer-lhes condições de um crescimento adequado - aí a mesma regra vale para uma aranha-mãe, para uma gestante primata ou para uma humana profissional de classe média.
"Existe, sim, uma prontidão biológica para o cuidado dos filhos", afirma a etóloga Suemi Tokumaru, da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. "A fisiologia, a anatomia e, provavelmente, alguns circuitos neurais preparam a mulher para gerar e amamentar o filho. Mas a maneira com que ela cuidará do bebê vai depender de fatores circunstanciais." Esses fatores resultam da interação com o ambiente, das influências culturais e do equilíbrio entre as ambições daquela mulher e as demandas da maternidade. No modo de zelar pelos filhos, portanto, não há nada de instintivo.
A dedicação ao filho, no fundo, é uma questão de investimento. Esta é a palavra que explica o zelo materno e que garante à prole de qualquer espécie condições de sobreviver até a independência. "A fêmea tenta, assim, passar seus genes adiante', diz o etólogo César Ades, da Universidade de São Paulo. Não que as mães humanas pensem conscientemente em investir no recém-nascido para preservar o próprio patrimônio genético. "Mas, quando uma mulher se dedica ao filho ao filho, desejando que ele cresça perfeito e saudável, que vá bem na escola, que tenha amigos, que se case e lhe dê netos, está traduzindo em linguagem social o propósito fundamental de perpetuar seu próprio DNA e, como consequência, manter viva a espécie", afirma César.
"A concepção de amor materno varia de cultura para cultura e recebe a influência do momento histórico e das circunstâncias sociais", diz o antropólogo Benedito Miguel Gil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Cada sociedade tem o seu modelo de mãe e os papéis que cabem a ela desempenhar - papéis que são, na verdade, as "regras culturais" de como investir na prole. As mães dos comerciais de margarina ou de fraldas revelam muita coisa daquilo que esperamos da figura materna. Por outro lado, as madrastas malvadas dos contos-de-fada personificam atitudes que execramos - por exemplo, a punição. "O amor materno pode ser entendido como uma forma culturalmente moldada de proteção à criança a fim de transformá-la num adulto apto", diz o antropólogo Mauro Cherobim, da Unesp. "Demonstra que a mulher está investindo na sobrevivência de seu grupo social, de sua parentela." Enfim, dela mesma.
Para ter ideia da dimensão do investimento da mãe no filho, para a espécie humana, basta pensar na fragilidade do bebê, que nasce totalmente imaturo e demora cerca de 15 anos par alcançar a independência. "Trata-se de uma tarefa pesada", afirma Ades. "Imagine se não houvesse motivação para isso." Mas não são só as mães que apresentam uma prontidão biológica para esse envolvimento. O médico e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990), criador da chamada Teoria do Apego, descobriu que os bebês nascem programados para formar um estreito vínculo emocional com a mãe ou com os primeiros adultos que tomam conta deles - em outras palavras, para apegar-se.
"A função biológica do sistema de apego é justamente aumentar as possibilidades de sobrevivência da criança, oferecendo-lhe proteção e segurança", diz a psicóloga e terapeuta familiar Gilda Franco Montoro, do Centro de Estudos e Assistência à Família, em São Paulo. A qualidade desses primeiros vínculos constitui a base emocional do futuro adulto. Sentimentos de desamparo e de perda não passam em branco. "A criança pode crescer segura, com boa auto-estima, ou ansiosa e insegura quanto às suas relações afetivas, ou ainda com extrema dificuldade de se ligar a alguém, a partir da relação que a mãe estabelece com ela", afirma. "Não podemos pensar somente na sobrevivência física. O bem-estar emocional garante o crescimento de um adulto mais auto-confiante e produtivo."
Como o mundo não é um eterno comercial de TV, pode surgir um conflito: às vezes o cuidado com o filho acaba prejudicando o projeto de perpetuação genética da mãe (quando os recursos são insuficientes para mãe e filho, por exemplo, ou quando há filhos demais). Entra em cena, então, o cálculo entre custos e benefícios. Ok, custo/benefício não é um raciocínio muito maternal. Mas essa equação garante a sobrevivência da espécie, mesmo que ela implique em atitudes radicais. "O infanticídio é muito comum entre grupos tribais que temem por um desequilíbrio demográfico. Entre os índios Tapirapé, por exemplo, que vivem na região do Rio Araguaia, se o casal tem dois filhos de um mesmo sexo, o terceiro é morto ao nascer", diz Mauro Cherobim. Há casos na natureza, inclusive entre os primatas, de mães que praticam o aborto seletivo, protegem alguns recém-nascidos em detrimento de outros ou descuidam da cria quando entram no cio e buscam um macho. Para nós, que somos seres simbólicos e reflexivos, essas atitudes são um absurdo. "Mas o comportamento materno não pode ser entendido como uma força determinada apenas pelos genes", afirma César Ades.
Para compreender os casos de negligência ou infanticídio, é preciso adicionar ao componente biológico o cultural e o emocional. "Cuidar do filho não é um imperativo absoluto. É uma atividade influenciada pelo contexto e pelos interesses de sobrevivência da mãe", diz César. "Isso não quer dizer que a tendência materna de zelar pela prole não seja relevante - pelo contrário." Mães que abandonam o filho em cestos de lixo, quando são descobertas, em geral alegam que não tinham condições de criar a criança e preferiam deixá-la para adoção. Essas mães aceitam o princípio de que cuidar do bebê é fundamental, mas acreditam não conseguir garantir o desenvolvimento dele (o que não quer dizer, é claro, que o ato delas seja justificável). Afinal, as imposições culturais que a proíbem de cometer esse crime não existem por acaso).
"Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado - porque ela foi criada assim", afirma o psicólogo paulista Alberto Pereira Lima. "Essa mulher tende a reproduzir, com os filhos, aquilo que ela, dentro da sua família, apreendeu como amor materno." Cada um faz uma leitura pessoal da relação com a mãe e a toma, inconscientemente, como modelo de relação com o filho. Em vez de nutrir e zelar, aquela mulher pode privar e punir. Mas, apesar desse comportamento, a prontidão biológica para o investimento na prole continua presente. Nada impede que uma mãe negligente, em outras condições sociais e em outro momento de sua vida, se torne amorosa e protetora.
Por que, então, fala-se tanto em instinto materno se ele nunca existiu? Para Sarah Hrdy, a ideia propagou-se devido à crença comum desde o século XIX de que o desejo sexual feminino servia apenas para a procriação. As emoções maternas eram vistas como imposições da natureza à mulher, fatores desvinculados da sua sexualidade e de suas ambições. Nesse contexto, a ideia do instinto materno fazia todo o sentido. Acreditava-se que a função biológica e natural de toda mulher era ter filhos, amamentá-los e cuidar deles - se possível, dedicando-se integralmente à tarefa. Caso contrário, ela não cumpriria seu papel evolutivo.
Os estudiosos do comportamento humano e animal - conhecidos como sociobiólogos - hoje sugerem que a sexualidade feminina é muito mais do que um simples impulso reprodutivo. Ao contrário do que rezava a biologia do século XIX, não por acaso inteiramente dominada por homens, as mulheres têm desejo sexual e mecanismos de prazer muito complexos. A partir daí, ficou claro que os papéis que os cientistas atribuíam às mulheres eram determinados pela cultura, não pela biologia ou por leis naturais e imutáveis.
Prova disso é que os homens também são programados geneticamente para cuidar dos filhos. "Não há uma lei biológica que determine que a mãe tenha que cuidar mais da criança do que o pai", diz Suemi. "O quanto cada um pode contribuir varia, dependendo da sociedade em que o casal vive. Há tribos em que o homem fica com o filho porque a mãe vai trabalhar." Suemi reconhece, no entanto, que o investimento materno acaba sendo, em média, maior que o paterno, uma condição provavelmente favorecida por fatores como a gestação e a amamentação.
Que o zelo materno é fundamental para a sobrevivência e a saúde psíquica do filho, todo mundo está de acordo. A pergunta é: e se entre os seres humanos não houvesse esse investimento materno, também chamado de amor ou apego, e conhecido erroneamente como instinto? "A espécie não iria adiante, ficaria entregue ao sabor das casualidades", diz César. Todos os filhos, dos recém-nascidos aos marmanjões, viveriam ao deus-dará. Muitos não sobreviveriam, outros cresceriam emocionalmente fragilizados. A taxa de mortalidade seria alta e aqueles que restassem comentariam, tristemente, como o Brás Cubas do escritor Machado de Assis: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa existência".
"A concepção de amor materno varia de cultura para cultura e recebe a influência do momento histórico e das circunstâncias sociais", diz o antropólogo Benedito Miguel Gil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Cada sociedade tem o seu modelo de mãe e os papéis que cabem a ela desempenhar - papéis que são, na verdade, as "regras culturais" de como investir na prole. As mães dos comerciais de margarina ou de fraldas revelam muita coisa daquilo que esperamos da figura materna. Por outro lado, as madrastas malvadas dos contos-de-fada personificam atitudes que execramos - por exemplo, a punição. "O amor materno pode ser entendido como uma forma culturalmente moldada de proteção à criança a fim de transformá-la num adulto apto", diz o antropólogo Mauro Cherobim, da Unesp. "Demonstra que a mulher está investindo na sobrevivência de seu grupo social, de sua parentela." Enfim, dela mesma.
Para ter ideia da dimensão do investimento da mãe no filho, para a espécie humana, basta pensar na fragilidade do bebê, que nasce totalmente imaturo e demora cerca de 15 anos par alcançar a independência. "Trata-se de uma tarefa pesada", afirma Ades. "Imagine se não houvesse motivação para isso." Mas não são só as mães que apresentam uma prontidão biológica para esse envolvimento. O médico e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990), criador da chamada Teoria do Apego, descobriu que os bebês nascem programados para formar um estreito vínculo emocional com a mãe ou com os primeiros adultos que tomam conta deles - em outras palavras, para apegar-se.
"A função biológica do sistema de apego é justamente aumentar as possibilidades de sobrevivência da criança, oferecendo-lhe proteção e segurança", diz a psicóloga e terapeuta familiar Gilda Franco Montoro, do Centro de Estudos e Assistência à Família, em São Paulo. A qualidade desses primeiros vínculos constitui a base emocional do futuro adulto. Sentimentos de desamparo e de perda não passam em branco. "A criança pode crescer segura, com boa auto-estima, ou ansiosa e insegura quanto às suas relações afetivas, ou ainda com extrema dificuldade de se ligar a alguém, a partir da relação que a mãe estabelece com ela", afirma. "Não podemos pensar somente na sobrevivência física. O bem-estar emocional garante o crescimento de um adulto mais auto-confiante e produtivo."
Como o mundo não é um eterno comercial de TV, pode surgir um conflito: às vezes o cuidado com o filho acaba prejudicando o projeto de perpetuação genética da mãe (quando os recursos são insuficientes para mãe e filho, por exemplo, ou quando há filhos demais). Entra em cena, então, o cálculo entre custos e benefícios. Ok, custo/benefício não é um raciocínio muito maternal. Mas essa equação garante a sobrevivência da espécie, mesmo que ela implique em atitudes radicais. "O infanticídio é muito comum entre grupos tribais que temem por um desequilíbrio demográfico. Entre os índios Tapirapé, por exemplo, que vivem na região do Rio Araguaia, se o casal tem dois filhos de um mesmo sexo, o terceiro é morto ao nascer", diz Mauro Cherobim. Há casos na natureza, inclusive entre os primatas, de mães que praticam o aborto seletivo, protegem alguns recém-nascidos em detrimento de outros ou descuidam da cria quando entram no cio e buscam um macho. Para nós, que somos seres simbólicos e reflexivos, essas atitudes são um absurdo. "Mas o comportamento materno não pode ser entendido como uma força determinada apenas pelos genes", afirma César Ades.
Para compreender os casos de negligência ou infanticídio, é preciso adicionar ao componente biológico o cultural e o emocional. "Cuidar do filho não é um imperativo absoluto. É uma atividade influenciada pelo contexto e pelos interesses de sobrevivência da mãe", diz César. "Isso não quer dizer que a tendência materna de zelar pela prole não seja relevante - pelo contrário." Mães que abandonam o filho em cestos de lixo, quando são descobertas, em geral alegam que não tinham condições de criar a criança e preferiam deixá-la para adoção. Essas mães aceitam o princípio de que cuidar do bebê é fundamental, mas acreditam não conseguir garantir o desenvolvimento dele (o que não quer dizer, é claro, que o ato delas seja justificável). Afinal, as imposições culturais que a proíbem de cometer esse crime não existem por acaso).
"Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado - porque ela foi criada assim", afirma o psicólogo paulista Alberto Pereira Lima. "Essa mulher tende a reproduzir, com os filhos, aquilo que ela, dentro da sua família, apreendeu como amor materno." Cada um faz uma leitura pessoal da relação com a mãe e a toma, inconscientemente, como modelo de relação com o filho. Em vez de nutrir e zelar, aquela mulher pode privar e punir. Mas, apesar desse comportamento, a prontidão biológica para o investimento na prole continua presente. Nada impede que uma mãe negligente, em outras condições sociais e em outro momento de sua vida, se torne amorosa e protetora.
Por que, então, fala-se tanto em instinto materno se ele nunca existiu? Para Sarah Hrdy, a ideia propagou-se devido à crença comum desde o século XIX de que o desejo sexual feminino servia apenas para a procriação. As emoções maternas eram vistas como imposições da natureza à mulher, fatores desvinculados da sua sexualidade e de suas ambições. Nesse contexto, a ideia do instinto materno fazia todo o sentido. Acreditava-se que a função biológica e natural de toda mulher era ter filhos, amamentá-los e cuidar deles - se possível, dedicando-se integralmente à tarefa. Caso contrário, ela não cumpriria seu papel evolutivo.
Os estudiosos do comportamento humano e animal - conhecidos como sociobiólogos - hoje sugerem que a sexualidade feminina é muito mais do que um simples impulso reprodutivo. Ao contrário do que rezava a biologia do século XIX, não por acaso inteiramente dominada por homens, as mulheres têm desejo sexual e mecanismos de prazer muito complexos. A partir daí, ficou claro que os papéis que os cientistas atribuíam às mulheres eram determinados pela cultura, não pela biologia ou por leis naturais e imutáveis.
Prova disso é que os homens também são programados geneticamente para cuidar dos filhos. "Não há uma lei biológica que determine que a mãe tenha que cuidar mais da criança do que o pai", diz Suemi. "O quanto cada um pode contribuir varia, dependendo da sociedade em que o casal vive. Há tribos em que o homem fica com o filho porque a mãe vai trabalhar." Suemi reconhece, no entanto, que o investimento materno acaba sendo, em média, maior que o paterno, uma condição provavelmente favorecida por fatores como a gestação e a amamentação.
Que o zelo materno é fundamental para a sobrevivência e a saúde psíquica do filho, todo mundo está de acordo. A pergunta é: e se entre os seres humanos não houvesse esse investimento materno, também chamado de amor ou apego, e conhecido erroneamente como instinto? "A espécie não iria adiante, ficaria entregue ao sabor das casualidades", diz César. Todos os filhos, dos recém-nascidos aos marmanjões, viveriam ao deus-dará. Muitos não sobreviveriam, outros cresceriam emocionalmente fragilizados. A taxa de mortalidade seria alta e aqueles que restassem comentariam, tristemente, como o Brás Cubas do escritor Machado de Assis: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa existência".
(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)
E se... a Terra parasse de girar?
Paralisar o nosso planeta seria uma verdadeira revolução cósmica, de consequências nada agradáveis. Dois dos mais belos fenômenos da natureza - a alvorada e o crepúsculo - só ocorreriam uma vez a cada seis meses. Ou seja, o dia terreno passaria a ter a duração de um ano, metade dele com luz solar e a outra metade nas trevas.
Tudo isso, porém, ainda seria fichinha perto de efeitos colaterais bem mais graves, que tornariam a vida na Terra se não impossível, extremamente difícil. Dois cenários alternativos - e radicalmente antagônicos - desenhariam para a humanidade um futuro duro de encarar: usar toda a ciência e a tecnologia possíveis para sobreviver num ambiente inóspito: ou gelado como Júpiter (temperatura média de -130º C), ou tórrido como Vênus (460º C).
"Se, durante a longa noite de um dos lados do planeta, houvesse acumulação de neve ou congelamento do oceano, a Terra se transformaria num mundo gélido", afirma o meteorologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). "Tudo dependeria do transporte de água do lado quente (dia) para o lado frio (noite). Como a metade noturna teria sempre temperatura abaixo de zero, qualquer vapor d'água que para lá fosse levado cairia como neve e viraria gelo na superfície."
As correntes oceânicas também desempenhariam um papel fundamental nessa troca, transportando calor dos mares quentes, do hemisfério diurno, para os mares frios, da outra face do planeta. Se essas correntes não dessem conta do recado, surgiria, boiando sobre o oceano, uma camada de gelo tão espessa que não derreteria - nem quando voltasse a amanhecer no lado noite. "Como o gelo é branco, reflete muita radiação solar: 50% a 60%, em média. Assim, a pouca luz absorvida seria insuficiente para provocar o derretimento dessa camada. Esse, aliás, é o mesmo mecanismo que faz com que, uma vez estabelecidas, as eras glaciais durem milhares de anos. E se a massa de gelo não derretesse totalmente durante o primeiro dia de seis meses, entraríamos numa eterna era glacial", diz Carlos.
A outra alternativa seria o exato oposto: um calor infernal. Como haveria uma evaporação intensa de água dos oceanos do lado dia, boa parte desse gás permaneceria na atmosfera. "O vapor d'água é um forte gerador de efeito estufa: quanto mais vapor, mais alta ficaria a temperatura próxima à superfície; e, quanto mais alta essa temperatura, ainda mais vapor seria produzido", afirma o meteorologista. O aumento brutal desse efeito estufa poderia chegar ao ponto extremo de fazer evaporar toda a água dos oceanos. Nesse caso, a temperatura terrestre atingiria centenas de graus Celsius - completamente imprópria para a vida.
Mesmo que não acabássemos torrados durante o dia, provavelmente morreríamos por inanição à noite. "Sem luz durante seis meses, os vegetais - que transformam a energia solar em alimento para si e para os animais - se extinguiriam. Assim, desapareceriam também os herbívoros e, logo em seguida, os carnívoros", diz o biólogo Wellinton Delitti, do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, num mundo gélido de um lado e causticante do outro, os únicos organismos com chance de sobrevivência são aqueles que vivem no fundo do mar, próximos às fendas que expelem calor e enxofre vindos das profundezas da Terra. "Essa comunidade de organismos tem sua vida baseada na quimiossíntese e não na fotossíntese: são seres que independem da luz solar", afirma Wellinton. Mas, se essa forma de vida chegaria ou não a evoluir a ponto de, um dia, colonizar todo o planeta, só bilhões de anos poderiam dizer.
(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)
Como ocorrem os gêmeos siameses?
Existem dois tipos de gestação gemelar, como a medicina chama a formação embrionária de gêmeos. O mais comum, que responde por cerca de 2/3 dos casos,surge da fertilização independente de dois óvulos diferentes. Nesse caso, é impossível os bebês nascerem unidos, malformação que caracteriza os gêmeos coligados (nome científico do que popularmente se batizou de "siameses"). Isso só acontece quando um único óvulo é duplamente fecundado. Em geral, em pouco mais de uma semana o embrião se separa em dois. "Mas se essa divisão demorar mais que 12 dias, será tarde demais", afirma a doutora Maria de Lourdes Brizot, do Departamento de Medicina Fetal, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "As células acabarão formando partes do corpo ou órgãos em comum", diz ela. Quando isso acontece em partes vitais, como pulmão, coração ou cérebro, um dos gêmeos tem de ser sacrificado. Se não, podem ser separados cirurgicamente. O termo "siameses" se originou da primeira ocorrência registrada desse fenômeno: os gêmeos Chang e Eng, que nasceram no Sião, Tailândia, em 1811, colados pelo ombro. Eles casaram, tiveram 22 filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.
(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 15 - maio de 2001)
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