domingo, 5 de junho de 2016
sábado, 4 de junho de 2016
Cortando o cordão umbilical: Os problemas de sua família não são seus - Thais Lopes Trajano (Fãs da Psicanálise)
A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.
Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais.
Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação.
Veja alguns que estão recentes em minha mente.
1. Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;
2. Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;
3. Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;
4. Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;
5. Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles;
Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.
Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.
Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.
Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado).
A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto.Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário.
O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares.
Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar.
Por que 2 de novembro é Finados? - Maria Carolina Cristianini
Feriado cristão tem influência de religiões da Antiguidade
Na tradição da Igreja Católica, em 1º de novembro é comemorado o Dia de Todos os Santos, quando se reza por aqueles que morreram em estado de graça, com os pecados perdoados. O dia seguinte foi considerado o mais apropriado para fazer orações por todos os demais falecidos, que precisam de ajuda para serem aceitos no céu. É por isso que no dia 2 de novembro se celebra o dia de Finados.
A data é inspirada em diversas tradições da Antiguidade. "A relação com quem morreu está presente em quase todas as culturas antigas. O cristianismo herdou esse costume principalmente do judaísmo", afirma Volney Berkenbrock, professor de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. Os primeiros registros de orações pelos cristãos falecidos datam do século 1, quando era costume visitar túmulos de mártires. "Aos poucos, a prática ficou mais frequente. Por exemplo, no livro Confissões, Santo Agostinho (354-430) pede que Deus interceda por sua mãe morta", diz o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano 732, o papa Gregório III autorizou os padres a realizar missas em memória dos falecidos. No século 10, a abadia de Cluny, em Paris, estabeleceu uma data fixa para essa cerimônia.
Não demorou para o 2 de novembro ser adotado em toda a Europa. "A rápida expansão do costume está ligada à proximidade do ano 1000, quando se pensava que o mundo acabaria. Era preciso rezar para as almas saírem do purgatório antes disso", diz Berkenbrock. A partir do século 15, o feriado se espalhou pelo mundo. Em alguns lugares, o costume foi fundido à cultura local. No México, por exemplo, todo ano é realizado o festival do Dia dos Mortos, que une a celebração católica a antigos rituais astecas.
(texto publicado na revista Aventuras na História edição 64 - novembro de 2008)
O cachorro e a espiritualidade - Márcia Fenandes (O Segredo)
Quando se pergunta, quem é o melhor amigo do homem?
Logo se responde: “o cachorro”.
Pois é, analisando energeticamente o cachorro, chegamos à seguinte conclusão:
O cachorro busca sempre em um ambiente os locais de maior concentração de energia positiva. Inclusive, na Radiestesia, dizem que a melhor maneira de descobrir o melhor local para se colocar a cama é deixando que um cão passe a noite no quarto vazio; o lugar escolhido por ele, o seu repouso, sempre é a melhor indicação.
Em toda ocasião é sempre bom estar atento ao cão, em toda sua forma de agir, desde a mais óbvia até a inexplicável. Se ele late para as paredes e lugares vazios, é hora de providenciar uma limpeza energética para o ambiente.
Quando ele se achega a um desconhecido ou se comporta de forma repulsiva também é algo digno de observar e providenciar a limpeza.
Acariciar um cachorro é como se descarregássemos nossa energia em um ímã. O cão é considerado o melhor amigo do homem por ter a alma bela, não guarda rancor de seu dono, afinal ele é fiel até a morte.
Mesmo que aconteça de você brigar com seu cachorro, chutar ou até mesmo prendê-lo como castigo, ao se aproximar dele, a sua fidelidade faz com que ele demonstre o amor incondicional, pois você o conquistou uma vez e será para sempre.
Além do convívio e da alegria, esse animal nos presta o favor da limpeza, nada nesta terra está desprovido de propósito do Divino.
Você sabia? Aniversário de Jesus já foi celebrado em várias datas - Bruno Vieira Feijó
Até o século 4, a data era festejada em 6 de janeiro
Houve um tempo em que a Igreja não comemorava oficialmente o Natal - entre outros motivos, por não saber o dia em que Jesus nasceu. Embora o período tivesse sido mais ou menos calculado (a data seria no ano 6 a.C.), em nenhum momento, nos primeiros 200 anos do cristianismo, o dia é mencionado. A especulação só começou por volta dos séculos 3 e 4, em resposta aos festejos promovidos pelos romanos com orgias e banquetes em reverência a divindades pagãs.
Nessa época, pelo menos oito datas diferentes foram propostas para o nascimento de Cristo. Duas datas, entretanto, prevaleceram e são usadas até hoje. Primeiro, veio o 6 de janeiro, uma comemoração feita no Oriente para o suposto dia em que Jesus fora batizado - a Igreja Ortodoxa armênia comemora o "natal" nesse dia.
A partir do ano 336, quando o imperador Constantino já havia declarado o cristianismo como a religião do Império Romano, veio o 25 de dezembro, adotado pela Igreja ocidental. O 6 de janeiro ficou, então, reservado ao dia em que Cristo teria aparecido aos três Reis Magos, herança das lendas epifânicas, nas quais os deuses se manifestam aos seres humanos.
As escolhas das datas não foram aleatórias. Ambas rivalizavam com festas pagãs realizadas no mesmo período, como a da religião persa que celebrava o Natalis Invicti Solis, a do deus Mirra e outras decorrentes do solstício de inverno e dos cultos solares entre os celtas e germânicos. "O 25 de dezembro foi uma conveniência para facilitar a assimilação da fé cristã pela massa de pagãos", admite Mario Righetti, um dos mais renomados intelectuais católicos, em sua obra História da Liturgia, de 1955.
Vai rolar a festa?
Igreja relutou em celebrar o Natal
Se o nascimento de Cristo tivesse sido comemorado desde o início do cristianismo, não haveria tanta confusão. Mas, naquela época, era comum celebrar a morte de pessoas importantes e não o nascimento. A Igreja sempre fez questão de lembrar o sacrifício do filho de Deus. Solenizar o aniversário de Cristo com festa "da mesma forma como se honrava um faraó ou Herodes", nas palavras do teólogo Orígenes de Alexandria (185-253), era indecência para os puritanos. Mesmo depois de aprovada, várias vezes se cogitou terminar com a festa pelo nascimento de Jesus. Algumas reformas protestantes, a partir do século 15, conseguiram fechar igrejas que insistiam na celebração do Natal.
Então é Natal...
Moda pagã na festa cristã
Troca de presentes
Existia em Roma na Saturnália, festa para o deus Saturno. Depois, ficou ligada aos Reis Magos e seus presentes dados a Jesus.
Árvore de Natal
Tribos celtas e germânicas adoravam as árvores que suportavam o inverno, como o carvalho e o pinheiro, e as enfeitavam com frutas e doces.
Comilança
A esperança da volta da luz, com o fim do inverno, era festejada com orgias, danças, banquetes e muita, mas muita bebida.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 54 - janeiro de 2008)
Torre de Babel
Países não se entendem na hora de mexer com o português
Era pra gente começar 2008 escrevendo diferente. Arquitetada pela CPLP (Comissão de Países de Língua Portuguesa), a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa previa, entre outras alterações, o fim do trema e de alguns acentos e a incorporação das letras k, y e w ao alfabeto oficial.Mas as mudanças - criadas para padronizar o idioma e facilitar a comunicação entre os oitos países que o adotam - correm o risco de não vingar. De novo. A história registra que nunca houve consenso quando uma reforma foi proposta. "Desta vez, é Portugal quem resiste a abandonar as consoantes mudas [como as de 'contacto' e 'direcção'], diz o gramático Evanildo Bechara, presidente da Academia Brasileira de Letras.
Até o século 16 sequer existia um padrão na língua portuguesa. Cada escritor grafava as palavras da forma que lhe convinha. "É a fase fonética, em que se escrevia de acordo com o som. Uma mesma palavra era encontrada de modos diferentes: cinco e cinquo, algem e alguém, muyto e muito", exemplifica a professora Nelly Carvalho, linguista da Universidade Federal de Pernambuco. Do século 16 ao 20, influenciados pelo renascentismo e desejosos do status de "língua de cultura", intelectuais lusitanos abusavam das clássicas consoantes duplas e do y (pharmacia, collega, lyrio), herdado do latim.
Aquela do português
Desde o século 20, vive-se o período simplificado. Conheça as outras fases históricas da nossa língua
Período fonético
Até o Renascimento (metade do século 16) a escrita era pautada pelos sons das palavras. Não havia padrão, embora fosse comum que a duplicação das vogais indicasse sílaba tônica, como em ceeo (céu), consoantes aparecessem juntas (fficar), e o h indicasse hiatos (cahir).
Período pseudo-etimológico
Do século 16 até os primeiros anos do século 20, predomina a influência do latim e da cultura grega. A grafia respeitava, na medida do possível, sua origem etimológica. É o auge dos grafemas ph, th, ch, rh e y (philosophia, theatro, sepulchro, cysne).
O vira-não-vira
Reformas ortográficas são marcadas por reviravoltas
1904
O filólogo Gonçalves Viana propõe a simplificação para valorizar aspectos da fala e se distanciar do latim. A novidade é oficializada em 1911, em Portugal. Em 1915, o Brasil se ajusta aos padrões.
1919
Por influência do acadêmico Osório Duque Estrada, autor da letra do hino nacional, o Brasil cancela as mudanças. Voltamos a usar "ph" e "ch".
1931
Volta a simplificação com o primeiro acordo ortográfico entre Brasil e Portugal, iniciativa da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa.
1934
Getúlio Vargas anula o acordo de 1931. O Brasil volta com todas as consoantes duplas. Por pressão dos professores, a imposição tem fim quatro anos depois.
1943
Lisboa realiza a convenção ortográfica com a intenção de unificar o idioma. Mas só o Brasil faz mudanças como, por exemplo, o "s" em "casa", antes com "z".
1945
Nova convenção luso-brasileira. Dessa vez é o Brasil quem não aceita as consoantes mudas ("óptimo" e "direcção") e o fim do trema. Só Portugal faz as mudanças.
1971
Na era Médici, caem alguns acentos circunflexos diferenciais (almôço, enderêço) e graves (sòmente, últimamente), além de tremas em palavras como saüdade e vaïdade.
1986
O encontro dos países de língua portuguesa, no Rio, é o embrião das mudanças pleiteadas até hoje. Mas Portugal só aceita abrir mão das consoantes mudas a partir de 2017.
2007
Decide-se pressionar os outros países a realizar em 2008 o acordo ortográfico, já assinado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
(texto publicado na revista Aventuras na História edição 54 - janeiro de 2008)
Como fazíamos sem... feriado - Fred Linardi
Demorou para o homem ter um dia de folga que não fosse religioso
Não é de hoje que dedicamos certos dias do calendário a homenagens. Na Roma antiga, já havia feriados religiosos como os conhecemos hoje. Divindades como Vênus eram celebradas em procissões e jogos de gladiadores. Romanos importantes, próximos ao império, também ofereciam festas particulares nesses dias, convidando pessoas do seu círculo de amizade para um banquete - que normalmente terminava em orgia. "No entanto, isso era uma manifestação às divindades, especialmente a deuses como Dionísio, que simbolizavam um desregramento", explica Pedro Paulo Funari, historiador da Unicamp que mantém um blog semanal sobre curiosidades da Roma antiga no site de História.
Na Antiguidade, havia apenas os feriados religiosos para quebrar a rotina da sociedade. Mesmo os dias que honravam imperadores (somente depois de mortos) eram buscados no divino. Só em 1789 surgiu o primeiro feriado civil. O dia 14 de julho, data da queda da Bastilha, que marcou o início da Revolução Francesa, é comemorado desde então como dia nacional do país. Mas os feriados laicos só ganharam força 100 anos depois, devido às sucessivas lutas operárias e à solidificação da classe média. A Revolução Industrial, durante um século, obrigara homens, mulheres e crianças a passar até 16 horas trabalhando por baixos salários, sem folgas e fins de semana. As sucessivas rebeliões ocorridas em diversos países no fim do século 19 acabaram por originar o Dia do Trabalhador, comemorado em muitos países no 1º de maio, dia em que, em 1886, a cidade de Chicago, nos Estados Unidos, parou por causa de uma greve geral.
O Brasil, que tem 12 feriados nacionais, é palco de rixas e picuinhas entre os estados acerca do ócio de seus habitantes. Há paulistas que dizem que no Rio há mais dias de folga, enquanto a Bahia é alvo nacional desse tipo de provocação. Todos os três têm, na verdade, apenas um feriado estadual. O estado que tem mais datas comemorativas é o Acre, com quatro.
(texto publicado na revista Aventuras na História edição 51 - novembro de 2007)
Como Steve Jobs matou osnerds - Alexandre Versignassi eTiago Cordeiro
O Jobs dos anos 70 inventou a cultura geek. Três décadas depois o fundador da Apple acabaria com ela. Sem dó.
Steve Jobs tinha 12 anos e um problema: queria montar um frequenciômetro - aparelho essencial quando você precisa construir seu próprio circuito em casa. O menino não tinha todas as peças que precisava, então decidiu telefonar para alguém que certamente teria: Bill Hewlett, dono da HP. Era a maior empresa da região onde Jobs morava, naquele ano de 1967. Graças à Hewlett -Packard, aliás, aquele lugar na Califórnia, nos arredores de San Francisco, acabaria conhecido como Vale do Silício.
Jobs pegou a lista telefônica, encontrou um "William Hewlett" ali e ligou. O fundador do Vale do Silício e o jovem Da Vinci conversaram por 20 minutos. Jobs conseguiu o que precisava para montar seu frequenciômetro. E não parou mais. Alguns anos depois, conheceu sua cara-metade, outro jovem que sabia tudo de frequenciômetros, osciloscópios e circuitos integrados: Steve Wozniak. Juntos eles criaram um aparelho que enganava os computadores das companhias telefônicas e fazia ligações para qualquer lugar do planeta de graça. Uma vez ligaram para o Vaticano - Wozniak se apresentou com Henry Kissinger e pediu para falar com o papa (Paulo VI não atendeu).
Entre um trote e outro, os dois tiveram contato com o primeiro computador pessoal da história, o Altair 8800. Era basicamente uma super calculadora, vendida na forma de kit para montar. Jobs e Woz gostaram tanto que resolveram fazer sua própria versão do aparelho e pôr para vender. Desenvolveram um protótipo no quarto de Jobs mesmo e, em 1976, deram a ele o nome de Apple I. Esse primeiro Apple, por sinal, também vinha na forma de kit e não contava com certos luxos, como uma tomada, muito menos teclado, monitor ou gabinete. Era só placa-mãe, memória... A circuitaria pelada, que eles vendiam por US$ 666,66 (devem ter ficado bravos com o fora do papa...).
Enquanto isso, em Albuquerque, Novo México, outro fã do Altair 8800 montava sua própria empresa: a Microsoft. Bill Gates nunca construiria sua própria máquina, ficaria só nos softwares (e ninguém pode dizer que foi uma má decisão).
Jobs, por outro lado, não esperou nem um ano para lançar o Apple II - desta vez um computador completo. Aí o dinheiro começou a entrar para valer.
E no final dos anos 80 a coisa explodiu. Os computadores não eram mais exclusivamente de empresas e centros de pesquisa. As letras verdes sobre as telas pretas estavam em todo lugar. E a cultura nerd também. Ser bitolado agora era algo bacana. Até porque Jobs e Gates viraram magnatas antes dos 30. Passar o dia enfurnado escrevendo software e montando circuitos, então, não deveria ser de todo ruim...
O cinema refletiu bem a onda. Em Jogos de Guerra (1983), Matthew Broderick invade o sistema do Pentágono e quase começa a Terceira Guerra Mundial. Em Mulher Nota 1000 (1985), dois nerds escaneiam páginas da Playboy para criar a garota ideal. Os computadores ainda eram basicamente um equipamento para rodar planilhas de cálculo. Mas, na mitologia urbana da época, alguém perdi o bastante poderia mudar o mundo com aquelas máquinas de 1 MHz e 4 K de RAM.
Siglas assim, até então alienígenas, começavam a entrar no dia a dia. Aprender a operar um Apple II ou um IBM PC era algo que exigia dedicação, mas todo mundo achava natural. Fazia parte do processo de incorporar aquelas máquinas tão complexas que pareciam ter vindo do espaço. E, quanto mais conhecimento técnico você tivesse, mais essas máquinas do espaço fariam por você. Aqueles eram tempos nerds. Não os nossos. Hoje a cultura nerd está morta.
E o assassino foi Steve Jobs. O nerdicídio começou ainda em 1984, quando ele lançou o Macintosh. Era o primeiro computador que qualquer criança podia usar. Ainda assim a cultura nerd continuaria firme: memória RAM e velocidade de processador continuaram sendo assunto de mesa de bar por duas décadas mais. Agora acabou. Você tem ideia de qual é a memória RAM do seu "espertofone"? Pouca gente sabe. E não sabe porque isso deixou de ser importante. A gente não tem como trocar a memória do iPhone ou do iPad para que ele fique mais rápido. A destreza com eletrônicos também não faz mais diferença nenhuma... iPhone e iPad tornaram a nerdice menos necessária.
Um epílogo: aos 12 anos, Fidel Castro mandou uma carta para Franklin Roosevelt pedindo uma nota de dólar - "É que nunca vi uma, presidente", escreveu. A história do fundador da apple, que começou com aquele telefonema para o dono da HP, é ironicamente parecida. Com uma diferença: a revolução de Steve Paul Jobs foi global. E vai durar para sempre.
(texto publicado na revista Super Interessante edição 296 - outubro de 2011)
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