domingo, 19 de junho de 2016

Quando surgiu a pasta de dente?

Há cerca de 4 mil anos, no Egito. Tratava-se de um creme altamente abrasivo e adstringente, à base de pedra-pomes pulverizada e vinagre. O preparado era esfregado nos dentes com um pequeno ramo de árvore. Os romanos, no século I, acrescentaram um insólito anti-séptico na sua fórmula: urina humana, para deixar os dentes mais brancos. Isso ocorria - descobriu-se recentemente - devido à ação detergente da amônia (NH3). Hoje em dia, as pastas contêm basicamente uma substância aromática, uma substância abrasiva e, evidentemente, sabão.


(texto publicado na revista Super Interessante nº 5 - ano 3 - maio de 1989)

A espinha humana

A coluna é composta de 33 vértebras, mas como ela suporta nosso corpo e, ao mesmo tempo, proporciona tanta flexibilidade?

A espinha humana é composta de 33 vértebras, 24 das quais são articuladas (flexíveis) e nove que normalmente se fundem na maturidade. Situa-se entre a base do crânio e a pélvis, onde termina no cóccix - um traço remanescente da cauda que nossos ancestrais tinham.

As funções primárias das vértebras são suportar o torso e a cabeça, que protege nervos vitais e a medula espinhal, e permitir a mobilidade do indivíduo. Situando-se próximas uma das outras, separadas apenas por discos intravertebrais que funcionam como ligamentos e compõem juntas entre os ossos, as vértebras formam uma coluna que mantem a cabeça na posição ereta. Também fornecem uma base para as costelas se unirem e protegerem os órgãos vitais internos do corpo humano.

As vértebras não são fundidas, pois precisam se mover. Elas são agrupadas em cinco tipos - cervicais, torácicas, lombares, sacrais e coccígeas. As sacrais se fundem durante a maturidade (na infância e na adolescência) e se tornam ossos sólidos na base da espinha. As vértebras coccígeas fundem-se em alguns casos, mas estudos revelaram que, de fato, elas permanecem separadas. Coletivamente, são chamadas de cóccix. O restante das vértebras permanece separado, com os discos entre elas permitindo que se movam em várias direções sem desgastar os ossos. As vértebras cervicais do pescoço possibilitam grande movimento, fazendo que a cabeça se mexa para cima e para baixo e de um lado a outro. As torácicas são bem mais estáticas, pois as costelas resistem ao movimento. As vértebras lombares permitem pouca rotação e movimento modesto de um lado a outro. Uma característica da coluna vertebral é sua curvatura, necessária para distribuir o peso do corpo, a fim de garantir que nenhuma vértebra receba todo o impacto.

Curvatura espinhal

Se você olhar a coluna vertebral humana, verá algumas curvas distintas. As razões básicas disso são a distribuição do peso através da coluna vertebral e a sustentação do corpo. A curva mais familiar é a lombar, entre as costelas e a pélvis. Ela se desenvolve quando começamos a caminhar, entre os 12 e os 18 meses, e ajuda a distribuir o peso durante a locomoção. Antes disso, desenvolvemos a curva cervical, que nos permite suportar o peso da nossa cabeça, ao redor de três a quatro meses de vida, e as duas curvas menores e menos óbvias na coluna vertebral (as curvas torácica e pélvica) são desenvolvidas durante a gestação.

Medula e nervos espinhais

A medula espinhal humana é uma estrutura composta de células nervosas e de tecido protetor. Divide-se em 31 seções diferentes e tem cerca de 40-45 cm desde o cérebro até entre a primeira e a segunda vértebras lombares. Embora mais citada com relação ao cérebro, há tanto matéria branca como cinzenta na medula espinhal. A matéria branca contém traços de axônio cercados de gorduras e vasos sanguíneos. Já a cinzenta possui mais células neurais, como dendritos, mais axônios e células de glia. As lesões na medula espinhal são, em geral, causadas por trauma - que, se quebra os discos intravertebrais e as vértebras, pode perfurar a medula espinhal, resultando em perda de sensibilidade. O rompimento da medula pode causar paralisia.

Como o crânio é ligado à coluna vertebral

O crânio é ligado à coluna vertebral por meio da junta atlanto-occipital, criada pela vértebra C1 (atlas) e o osso occipital situado na base do crânio. Essa vértebra singular não tem "corpo" e mais parece um anel que uma vértebra. Fica no alto das vértebras cervicais e se liga ao osso occipital por meio de uma junta elipsoidal, possibilitando movimentos para cima e para baixo e a rotação da cabeça. A junta elipsoidal é onde uma conexão ovoide (neste caso, o osso occipital) se posiciona em uma cavidade elíptica (a vértebra C1). O restante das vértebras cervicais também ajuda a suportar o peso da cabeça.



(texto publicado na revista Como funciona nº 3 - ano 1)






Por que cães enterram ossos? - Gabriela Ingrid

Por herança genética. Os lobos, seus ancestrais, enterravam restos de presas para sobreviverem quando a caça era escassa. Hoje, embora isso não beneficie cães domésticos, que comem ração, é difícil que desapareça. "É preciso muito tempo para o comportamento sumir. Os genes transmitem informações que se tornam naturais aos descendentes", explica Denise Falck, especialista em comportamento de cães e gatos pela PUC-PR. Além de enterrarem ossos, os cães também dão voltas e afofam lugares antes de se deitarem, como os lobos checavam o solo e se preveniam de algo que pudesse machucá-los. "Esse é outro hábito herdado que perdeu a função para cães domésticos", acrescenta Falck. Lamber a cara do dono também pode ser herança genética. Filhotes lambem a boca da mãe para pedir comida; é por ali que, nos primeiros meses de vida, recebem o alimento regurgitado. Os cães também lambem a boca do líder para exprimir submissão - no caso, o dono seria tratado como dominante pelo animal de estimação.


(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 158 - outubro de 2014)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A felicidade na simplicidade - Valdir Reginato

Existiu na antiga Grécia um filósofo chamado Epicuro, a quem ficou relacionado o conceito de um modo de vida voltado aos prazeres. No entanto, o que de fato Epicuro defendia era uma vida muito simples. Os seus maiores prazeres estavam em conviver com os amigos, alimentar-se de legumes e frutas, sendo o queijo considerado por ele um manjar. Além disso, afirmava que deveríamos ter autonomia para não dependermos muito das necessidades dos bens materiais. Para concluir sua tese para a felicidade, recomendava que refletíssemos, com frequência, sobre o sentido que dávamos ao nosso comportamento na vida.

Apesar de alguns criticarem ainda hoje seu estilo um tanto hedonista (o prazer por centro da vida), em Epicuro verifica-se o ditado popular: ninguém é tão pobre que não possa dar algo, assim como ninguém é tão rico que nada possa receber". Ou seja, ainda que se critique o antigo filósofo nos seus hábitos - ele viveu há mais de 2 mil anos - não podemos negar que ele ainda tem o que contribuir ao estilo de comportamento que muitas pessoas vivem no século XXI.

O cotidiano frequentemente leva a nos acostumarmos com muitas situações que perdem a sua "graça" por se tornarem rotina. Quando dispomos de um tempo, vamos em busca de algo mais sofisticado, diferente, que possa nos distanciar do comum. Será que assim alcançamos momentos de maior alegria, ou mesmo a felicidade? Nem sempre. O esforço desproporcional pode contribuir para a frustração do que se desejava. Exemplo marcante está no almoço de domingo. Verifica-se com antecedência um lugar. Procura-se chegar mais cedo. Até economiza-se para se pedir um prato mais caro. Consegue-se uma mesa, que pode demorar horas, almoça-se com os olhos apressados do garçom pela fila, com o filho olhando mais no celular do que falando com você, e corre-se o risco do cozinheiro ainda não estar no seu melhor dia.

É evidente que quebrar a rotina e esforçar-se por oferecer algo diferente e melhor à família é muito recomendável. Contudo, Epicuro dizia que mais importante que o lugar e a própria comida, era pensar na companhia com quem se faz a refeição. De fato, uma boa macarronada com frango, no quintal de casa (para se dizer que almoçou fora), sem pressões, e muita conversa (sem celulares), com doce de banana de sobremesa e um bom café, podem criar um ótimo ambiente, se houver alegria na participação dos que estiverem à mesa.

É preciso encontrar o encanto do "macarrão com frango" em tantas circunstâncias da vida, que a tornam mais simples, com menores dependências e sofisticações, principalmente nos dias que se andam nos últimos tempos. Insisto que não se nega, quando se pode, o valor de empenhar-se por algo diferente que possa agradar mais. O que não se pode esquecer é que podemos e devemos encontrar a felicidade nas coisas simples da vida, como agradecer a beleza da flor do jardim (que passamos todos os dias sem notar), o "bom-dia" sorridente do vizinho idoso sentado na porta de casa, quando saímos; o sol que, pontualíssimo, se apresenta todos os dias; o emprego que nos permite ganhar o pão; a saúde que nos permite trabalhar; a fé que nos alimenta a esperança do por que estamos aqui.

Simplicidade de vida, ou seja, ser o que se é, independentemente de onde estamos, procurando comportar-nos melhor a cada dia, sabendo que a vida depende de descobrir a riqueza da felicidade nas coisas simples, e não aguardar que a felicidade só se encontrará nas riquezas.



(texto publicado no jornal O São Paulo edição 3106 - ano 61 - 15 a 21 de junho de 2016)

Momentos para refletir - Júlio Machado



Era uma vez um fazendeiro que descobriu que tinha perdido o relógio no celeiro. O relógio não era um objeto qualquer;ele tinha um valor sentimental. 

Após buscar por todas as partes entre o feno, ele desistiu e recorreu à ajuda de um grupo de crianças que estava brincando do lado de fora do celeiro. Ele prometeu a elas que a pessoa que encontrasse o seu relógio seria recompensada. 

Ao ouvir isso, as crianças correram para dentro do celeiro e entraram no meio de toda a pilha de feno, mas ainda assim não conseguiram encontrar o relógio. 

Quando o fazendeiro estava prestes a desistir, um menino aproximou-se dele e pediu mais uma chance. O fazendeiro olhou para ele e pensou: Por que não? Afinal de contas, esse garoto parece sincero o suficiente. 

Então, o fazendeiro mandou o menino de volta ao celeiro. Depois de um tempo, o menino saiu com o relógio em sua mão! O fazendeiro ficou feliz e surpreso ao mesmo tempo. Então perguntou ao menino como ele havia conseguido encontrar já que todos os outros meninos não conseguiram. 

O menino respondeu: Eu não fiz nada a não ser ficar sentado no chão escutando. No silêncio, eu escutei o tique-taque do relógio e apenas olhei para a direção certa. 

Uma mente em paz pode pensar melhor do que uma mente  confusa. Dê alguns minutos de silêncio à sua mente todos os dias,  e veja o quanto isso lhe ajuda a definir a sua vida  da maneira que você espera que ela seja!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Onde fica a paisagem do papel de parede do Windows XP? - Verônica Fraidenraich


Fica na região de Napa Valley, no norte da cidade de São Francisco, no estado da Califórnia (EUA). A imagem se chama Bliss ("felicidade" ou "alegria") e ficou famosa em 2001 ao ser usada como fundo de tela padrão do Windows XP. Ela foi feita pelo fotógrafo norte-americano Charles O'Rear em janeiro de 1996. Ele dirigia pela Highway 12 rumo à casa de sua namorada quando percebeu que a grama estava bem verde e o céu azulado e com poucas nuvens, e decidiu parar para tirar algumas fotos. Cerca de 1 bilhão de pessoas, usuários daquele sistema operacional, já viram a imagem, cujo valor de venda nunca foi divulgado. Estima-se que a foto foi a segunda mais bem paga da época, perdendo apenas para a do então presidente norte-americano Bill Clinton abraçado com a secretária Monica Lewinsky.


(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 181, junho de 2016)






terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma lenda budista sobre os gatos - Valéria Amado (A mente é maravilhosa)


Para o budismo, os gatos representam a espiritualidade. São seres iluminados que transmitem calma e harmonia e, por isso, costuma-se dizer que quem não se relaciona bem com seu inconsciente nunca chega a se conectar por completo com um gato, nem tampouco entenderá seus mistérios.

A verdade é que ninguém se surpreende ao saber que a figura desses animais está unida ao budismo. Tanto é assim que na Tailândia existe uma lenda sagrada que transcendeu o tempo para converter os gatos em seres únicos de paz e íntima união, havendo vários em muitos templos dos países asiáticos. É por isso que é tão comum ver tantos gatos dormindo e enrolados nos braços das múltiplas estátuas sagradas de Buda e outros temas que enfeitam os jardins dos santuários.

Os gatos veem muito além de nossos sentidos. Entre suas horas de sonecas e seus momentos de brincadeiras e exploração, olham nossas almas com seu olfato refinado. Aliviam tristezas e nos preenchem com seus nobres e reluzentes olhares.

Frequentemente costuma-se dizer que ter um cachorro é ter o companheiro mais fiel que pode existir. Isso é totalmente certo. Mesmo assim, quem conhece o caráter de um gato sente que a conexão é mais íntima e profunda, e por isso diversos monges budistas como o mestre Hsing Yun falam do poder curativo desse animal. Convidamos você a descobrir-lo conosco.

Uma lenda budista sobre os gatos originária da Tailândia

Em primeiro lugar temos que saber algo muito importante. O budismo não está organizado em uma hierarquia vertical, como já sabemos. A autoridade religiosa descansa sobre os textos sagrados, mas, por sua vez, existe uma grande flexibilidade em seus próprios enfoques. A lenda que vamos mostrar tem suas raízes em uma escola específica: a do budismo theravada, ou o budismo da linhagem dos antigos.


Foi na Tailândia e dentro desse contexto que foi escrito “O livro dos poemas do gato”, ou o Tamra Maew, conservado hoje em dia na biblioteca Nacional de Bangkok como um autêntico tesouro que deve ser preservado. Em seus antigos papiros se pode ler uma encantadora história que conta que quando uma pessoa havia alcançado os níveis mais altos de espiritualidade e falecia, sua alma se unia placidamente ao corpo de um gato.


A vida poderia ser então muito curta, ou o quanto a longevidade felina permitisse, mas quando chegava o fim essa alma sabia que subiria para um plano iluminado. O povo tailandês daquela época, conhecendo essa crença, mantinha também outra curiosa prática…

Quando um familiar falecia, enterrava-se a pessoa em uma cripta junto com um gato vivo. A cripta tinha sempre um espaço por onde o animal poderia sair, e quando o fizesse tinham por certo que a alma do ser amado já estava no interior daquele nobre gato… Deste modo, alcançava a liberdade e esse lugar de calma e espiritualidade capaz de preparar a alma para o caminho posterior, o caminho de ascensão.

Os gatos e a espiritualidade

Dizem que os gatos são como pequenos monges capazes de trazer a harmonia a qualquer lugar. Para a ordem budista de Fo Guang Shan, por exemplo, são como pessoas que já alcançaram a iluminação.

Os gatos são seres livres que bebem quando têm sede, que comem quando têm fome, que dormem quando sentem sono e que fazem o que deve ser feito a cada momento sem necessidade de agradar ninguém.

Não se deixam levar pelo ego, e algo especial desses animais segundo esse ramo do budismo é que os gatos aprenderam a sentir o que vem do homem desde eras muito antigas na história do tempo. No entanto, as pessoas ainda não aprenderam a sentir o gato no presente.

São leais, fiéis e afetuosos, e suas demonstrações de carinho são íntimas e sutis e, ainda assim, tremendamente profundas. Só aqueles que sabem olhar para o seu interior com respeito e dedicação entenderão o seu amor inquebrável, mas as pessoas que são desequilibradas ou que frequentemente elevam sua voz para gritar jamais serão do agrado dos gatos.

Para concluir, sabemos que não é preciso recorrer aos textos budistas para entender que os gatos são especiais, que seus olhares nos transportam para universos introspectivos, que com suas estranhas posturas nos convidam a praticar a ioga, que são um exemplo de elegância e equilíbrio… Queremos o bem desses animais e até os veneramos e, ainda que eles mesmos se acreditem autênticos deuses lembrando quem sabe de seus dias no Antigo Egito, permitimos que eles sejam orgulhosos.

Todos temos nossas próprias histórias com esses animais, momento inesquecíveis que nos permitiram aproveitar pequenos instantes cheios de magia e autenticidade. Esses que seguramente serviram de inspiração para criar essa charmosa lenda budista que ficou impressa em tinta, papel e misticismo. A mesma que hoje nós queríamos contar e compartilhamos em nosso espaço com você.

“O tempo passado com gatos nunca é um tempo perdido.”
-Sigmund Freud-

O que quer dizer o "i" de iPhone e iPad? - Verônica Fraidenraich

Segundo Steve Jobs, significava "internet". O falecido CEO da Apple disse isso na apresentação do primeiro produto da empresa com a letra "i", o iMac, em 1998, época da explosão da web e dos computadores pessoais. O atrativo da linha de produtos era a promessa de acesso à internet de modo simples e rápido. Na mesma apresentação, Job disse que o "i" também poderia ser associado a outras palavras, como "individual" (individualidade), "instruct" (educação), "inform" (informação) e "inspire" (inspiração). Na época, Jobs estava retomando a empresa com a missão de salvá-la da falência e procurava um nome de impacto para alavancar o novo produto. Foi o então diretor de criação da Apple, Ken Segall, e sua equipe que sugeriram o uso do "i" na frente da palavra Mac. O "i" apareceu ainda em produtos como iPhone, iPad e iTunes. Mas na fase do atual CEO, Tim Cook, em vez da letra minúscula, os lançamentos trazem o nome do fabricante, a exemplo do Apple Watch e da Apple TV.


(texto publicado na revista Mundo Estranho edição 181, junho de 2016)

A crise na carne - Walcyr Carrasco



Convidei um amigo desempregado para fazer refeições na minha casa. Solidariedade é o que nos resta

Sou um rato de livraria. Sempre vou a livrarias, grandes, pequenas, todas! Passeio pelos títulos. Compro mais do que consigo ler. As prateleiras das livrarias continuam cheias, mas as editoras andam lançando menos títulos. Boa parte é de livros lançados há tempos. As editoras estão desovando estoques antigos. É uma retração visível, que afeta o cotidiano de um devorador de livros como eu. Mais ainda: fechou a editora Cosac Naify, conhecida pela qualidade de seus lançamentos. Outras, sabe-se, não estão em boa situação. A crise econômica está corroendo nosso cotidiano. Até mesmo meus hábitos pessoais.

Jantar fora era um desses hábitos. Mas, com duas novelas seguidas, Verdades secretas e Eta mundo bom!, fiquei um tempo sem ver amigos, sem sair. Recentemente, voltei a um japonês que frequentava muito com um velho amigo. Pedimos os mesmos pratos das outras vezes, porque adoramos carpaccio de salmão, sashimi. A conta veio quase o dobro de seis, sete meses atrás. Foi um susto! Outra noite, resolvi jantar em três num lugar mais elegante, aonde também já fui várias vezes. Tinha uma ideia do valor da conta. Saiu o dobro. Francamente, ultrapassou os R$ 1.000 e nem bebemos vinho! Quase desmaiei quando entreguei meu cartão de crédito. Eu, incauto, havia convidado os dois amigos! Enquanto tentava recuperar a respiração, eles se levantaram rapidamente para pedir o carro. Conta alta faz os melhores amigos fugir da mesa na hora de pagar! Pior. Havia um restaurante em São Paulo do qual eu gostava especialmente, o Momotaro. Na parte de baixo, japonês comum. Na de cima, o chef Adriano servia somente dez pessoas, com um menu-degustação criado na hora. Uma maravilha! Tentei marcar. Ninguém atendeu ao telefone. Descobri: fechado para reforma. Reforma?

A Escola de Danças Ruth Rachou existia havia 43 anos. Ruth Rachou em sua época foi uma das mais importantes bailarinas de São Paulo e uma das introdutoras da dança moderna no país. Seu filho Raul e eu estudamos juntos. Nunca dancei. Mas tenho uma ligação emocional com a dança, devido a essa amizade. Há pouco mais de um ano, a escola mudou de seu antigo endereço para a Rua Augusta, em São Paulo. Oferecia aulas de pilates também. Danças de salão. A crise da escola de dança não ocorreu só por causa do momento econômico. Houve uma época em que as pessoas davam prioridade a se expressar com o corpo. Hoje, querem malhar e cresceram as academias. A escola transformou-se em “studio”. No final do ano passado, fechou. Uma antiga aluna assumiu, deu novo nome e está tentando reerguer. Para piorar, a escola ficou com uma dívida em impostos. Pessoas do mundo da dança, como a crítica Helena Katz, tentam levantar dinheiro por meio de crowdfunding. Solidários, os amigos estão depositando para atingir o valor do pagamento. Mas uma escola de 43 anos fechada! Dói de falar.

Nos supermercados, os preços sobem sem parar. Mas as grandes grifes, antes do Natal de 2015, ofereceram promoção a 40%! Imaginem, a liquidação costuma ser depois do Natal. Se foi antes, é porque as compras caíram. Eu me pergunto quantas vão resistir. Com o preço do dólar, está difícil importar roupas a preço competitivo. Eu me pergunto: se até as grifes poderosas estão correndo atrás de compradores, e os mais modestos?

Confesso. Há mais de um ano tenho um andar comercial inteiro, novo, para alugar. Economizei muito para entrar na construção. Era parte do meu futuro projeto de aposentadoria. Há tenho 64! Queria uns aluguéis, para reforçar o orçamento. Do prédio inteiro, até agora alugaram só um conjunto. Em vez de ganhar, pago condomínio e impostos! Meu projeto de aposentadoria? Foi para o despenhadeiro, eis tudo.

De cortar o coração, foi a observação de um amigo que mora na Espanha, ao andar em São Paulo.

- Nunca vi tanta gente pedindo esmola.

Muitos perderam o emprego. Foram obrigados a deixar suas casas. Morar na rua. Não está longe de mim. Tenho pelo menos dois amigos, profissionais, desempregados. Um come na casa da tia e toma ônibus de graça porque é maior de 60 anos. O outro pensa em ir para o exterior, de tão mal. Por enquanto, convidei-o para fazer as refeições em casa. Solidariedade é o que nos resta, não é?

Os pobres estão mais pobres, a classe média já não consegue manter o nível de vida. O medo nos contamina. A crise abraçou nossas vidas. Mais e mais, a gente sente na carne.


(texto publicado na revista Época edição 920 – fevereiro de 2016)