domingo, 28 de setembro de 2014
O primata que conta histórias - Jerônimo Teixeira e Marcelo Marthe
A ciência comprova que a arte da ficção não é supérflua: está, ao contrário, profundamente arraigada na natureza humana, e é necessária a ela
Em uma parede do escritório de John Green em Indianápolis, aparece, emoldurada, a capa de An Imperial Affliction (Um Sofrimento Imperial), de Peter van Houten. É o livro inexistente de um autor fictício: Hazel, a protagonista de A Culpa É das Estrelas, leitora culta sensível que conhece de cor versos de T. S. Eliot, é fascinada pela obra do recluso Van Houten (no filme, interpretado com antipatia impecável por Willem Dafoe). O romance de Van Houten ocupa um lugar especial na vida de Hazel, da mesma forma que, pode-se supor, os livros de John Green ocupam na vida de milhões de jovens leitores. Foi uma leitora entusiasmada de Green quem criou a capa para o livro falso, como que tentando dar um traço de palpabilidade ao mundo fictício de A Culpa É das Estrelas. Esta é uma singularidade espetacular da espécie humana: pelo exercício de contar e ouvir histórias - nos mais variados meios: conversação, livros, internet, cinema - homens e mulheres se importam com pessoas que não lhes são próximas, que não estão mais vivas, ou que nem sequer existem.
A ficção é um traço definidor da humanidade, e como tal se pode afirmar que ela tem raízes biológicas profundas. Cultivar o hábito da leitura (e, em especial, da boa leitura) surte efeitos nítidos: desenvolve a imaginação, o vocabulário e o conhecimento, a capacidade de associar - de usar a inteligência de forma mais plena, enfim. Não é acaso, por exemplo, que todos os jovens de grande promessa nos estudos e na carreira mostrados nesta reportagem sejam leitores vorazes. Mas os mecanismos específicos da ficção (assim como grande parte do funcionamento do cérebro humano) estão muito longe de ser satisfatoriamente compreendidos pela ciência. "Ainda que a ficção seja uma atividade exclusivamente humana, as razões pelas quais a apreciamos e seu impacto sobre o cérebro são mistérios que a ciência mal começou a desvendar", diz Krish Sathian, neurocientista da Universidade Emory, nos Estados Unidos.
O mistério da ficção está perfeitamente resolvido na fala de um dos maiores personagens de ficção da história da literatura. Na peça de William Shakespeare que leva seu nome, Hamlet observa um ator que chora ao apresentar uam cena sobre Hécuba, a rainha de Troia, que vê seu marido, o rei Príamo, ser morto por Pirro, guerreiro grego. Quando se vê sozinho em cena, Hamlet começa um de seus marcantes monólogos com uma pergunta: "Quem é Hécuba para ele, ou quem é ele para Hécuba, para que ele chore por ela?". Em algumas universidades americanas, uma nova vertente da teoria literária vem recorrendo à psicologia evolutiva - que estuda o comportamento humano a partir da biologia darwinista - para responder a essa pergunta de Hamlet. "Não é mistério saber por que informações verdadeiras importam para nossa sobrevivência. Mas é bem mais desafiador, para a ciência, entender por que nos importamos com os dramas de mentirinha de personagens inventados", diz Jonathan Gottschall, da Universidade Washington e Jefferson, autor de The Storytelling Animal (em tradução aproximada, O Anima que Conta Histórias). Gottschall levanta duas respostas possíveis, não totalmente incompatíveis entre si. Há quem argumente que a ficção é uma espécie de efeito colateral das adaptações pelas quais o cérebro humano foi moldado ao longo de nossa história evolutiva. O ser humano é uma espécie gregária e cooperativa - e, se nossa mente está configurada para ter empatia com a dor do próximo, talvez, por acidente, ela também se importe com a dor de figuras que não existem. Gottschall inclina-se para outra explicação: a ficção não é uma "falha de programação", mas um instrumento que traz vantagens para nossa sobrevivência. "Há estudos que mostram que a ficção melhora nossa capacidade para a empatia, nossas habilidades sociais e nossa inteligência emocional", diz Gottschall.
As emoções morais que facilitam a cooperação entre seres humanos são centrais em Comeuppance (Retribuição), ambicioso estudo de William Flesch, da Universidade Blandeis, que tenta explicar por que nos interessamos pelo destino de Hécuba ou Hamlet. "Costumamos pensar na cooperação como oposta à competição, mas não é necessariamente assim. Seres humanos competem para ver quem é mais cooperativo", diz Flesch. Nessas disputas cooperativas, é essencial ter não apenas empatia pelo próximo, mas também raiva de quem deliberadamente prejudica outra pessoa. "Não só isso: sentimos prazer nessa raiva, e por isso buscamos razões para ter raiva", diz Flesch. Estaria aí a raiz do prazer que sentimos em acompanhar a ação de vilões cheios de artifícios - seja o Iago de Otelo, de Shakespeare, seja a Carminha ou o Félix da novela das 9.
Empatia é um conceito-chave para entender as razões de sermos animais que narram histórias. O cérebro é ele mesmo empático. "Quando você lê um romance, coloca-se no lugar do personagem", diz Véronique Boulenger, do Laboratório de Dinâmica da Linguagem, na França. "Regiões do cérebro do leitor que seriam ativadas se ele estivesse fazendo o mesmo que o personagem entram em ação." Se o personagem, por exemplo, está caminhando, áreas cerebrais ligadas à motricidade são ativadas - mesmo que o leitor esteja estendido no sofá. Achados similares foram feitos por Krish Sathian em seus estudos sobre a linguagem figurada. Uma metáfora como "cantora com voz de veludo" ativa áreas sensórias do cérebro, como se estivéssemos apalpando um pedaço de veludo. O mesmo não se dá quando lemos ou ouvimos "cantora de voz agradável".
Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Toronto, no Canadá - e ele mesmo um autor de ficção - sustenta que o mergulho nas histórias produz uma simulação mental tão vívida nos leitores quanto as simulações de realidade virtual no computador. Ao lado do colega Raymond Mar, da também canadense Universidade de York, Oatley publicou estudos que comprovam um lugar-comum da educação: ler faz bem. "A ficção dota as pessoas de maior capacidade de empatia e compreensão dos outros", diz Oatley. Seu colega Mar é um tanto mais cauteloso. "Sou muito conservador na interpretação de resultados de pesquisa, e essa é uma área que ainda está nos seus primórdios. Mas a evidência de que a leitura ajuda a desenvolver habilidades sociais de crianças está, sim, se acumulando", diz. Mar conduziu testes com ressonância magnética em 86 pessoas, ora estimuladas pela leitura de ficção, ora por ações típicas do convívio social, e concluiu que há uma superposição substancial das conexões neuronais que são acionadas para compreender histórias com aquelas voltadas à interação real entre as pessoas.
O pesquisador adverte, porém, que nem todo gênero literário carrega o potencial de promover a empatia. Romances como os da inglesa Jane Austen (1775-1817), com sua observação sutil das nuances de caráter e das complexas manobras de heroínas desassistidas na rígida sociedade inglesa da época, estariam entre os mais apropriados para treinar habilidades sociais. Katrina Fong, aluna de Mar, aprofundou-se no estudo do impacto de diferentes variedades literárias - e concluiu que um gênero menos centrado nos sentimentos humanos, como a ficção científica, não influenciaria tanto nossa capacidade de empatia. Restam dúvidas ainda sobre a eficácia da ficção audiovisual. "Alguns estudos sugerem que crianças que assistem a muitas horas de televisão têm perdas na teoria da mente", diz Véronique Boulegner. "Teoria da mente" é o termo científico para a habilidade de assumir o ponto de vista do outro.
Nosso cérebro, portanto, está configurado para que choremos por Hécuba, que perdeu o marido na guerra. Algumas histórias - e as razões para tanto ainda estão por ser averiguadas pela ciência - são mais eficientes do que outras em produzir essa comoção, essa empatia que define o melhor de nossa humanidade comum. O talento do narrador certamente faz diferença: a história de Romeu e Julieta foi contada por uma plêiade de autores italianos hoje conhecidos apenas de especialistas em literatura renascentista, mas só a versão de William Shakespeare tem feito espectadores e leitores chorar há quatro séculos (em certo sentido, aliás, o best-seller de John Green pertence à matriz do amor trágico dos amantes de Verona, ainda que o título venha de outra peça de Shakespeare, Júlio César).
Os depoimentos que acompanham esta reportagem confirmam a importância da leitura de ficção para a realização na vida e na carreira - mesmo para quem opta por profissões que nada têm a ver com artes e humanidades. O sociólogo Max Weber, no início do século XX, observava que a ascensão da burocracia como forma de organização social estava mudando o ideal da educação europeia. Antes buscava-se formar homens de cultura, com amplitude de interesses e conhecimentos, mas a burocracia pedia outro tipo de pessoa: o especialista, estreitamente limitado a uma única área de conhecimento. A natureza humana, porém, resiste ao cabresto tecnocrático: precisamos de arte, de ficção, de boas histórias. É John Green, mestre em contar histórias para jovens, quem define: "Deveria ser impossível sair da própria cabeça. Mas, lendo ou escrevendo, fazemos isso.E parece um milagre".
A ficção é um traço definidor da humanidade, e como tal se pode afirmar que ela tem raízes biológicas profundas. Cultivar o hábito da leitura (e, em especial, da boa leitura) surte efeitos nítidos: desenvolve a imaginação, o vocabulário e o conhecimento, a capacidade de associar - de usar a inteligência de forma mais plena, enfim. Não é acaso, por exemplo, que todos os jovens de grande promessa nos estudos e na carreira mostrados nesta reportagem sejam leitores vorazes. Mas os mecanismos específicos da ficção (assim como grande parte do funcionamento do cérebro humano) estão muito longe de ser satisfatoriamente compreendidos pela ciência. "Ainda que a ficção seja uma atividade exclusivamente humana, as razões pelas quais a apreciamos e seu impacto sobre o cérebro são mistérios que a ciência mal começou a desvendar", diz Krish Sathian, neurocientista da Universidade Emory, nos Estados Unidos.
O mistério da ficção está perfeitamente resolvido na fala de um dos maiores personagens de ficção da história da literatura. Na peça de William Shakespeare que leva seu nome, Hamlet observa um ator que chora ao apresentar uam cena sobre Hécuba, a rainha de Troia, que vê seu marido, o rei Príamo, ser morto por Pirro, guerreiro grego. Quando se vê sozinho em cena, Hamlet começa um de seus marcantes monólogos com uma pergunta: "Quem é Hécuba para ele, ou quem é ele para Hécuba, para que ele chore por ela?". Em algumas universidades americanas, uma nova vertente da teoria literária vem recorrendo à psicologia evolutiva - que estuda o comportamento humano a partir da biologia darwinista - para responder a essa pergunta de Hamlet. "Não é mistério saber por que informações verdadeiras importam para nossa sobrevivência. Mas é bem mais desafiador, para a ciência, entender por que nos importamos com os dramas de mentirinha de personagens inventados", diz Jonathan Gottschall, da Universidade Washington e Jefferson, autor de The Storytelling Animal (em tradução aproximada, O Anima que Conta Histórias). Gottschall levanta duas respostas possíveis, não totalmente incompatíveis entre si. Há quem argumente que a ficção é uma espécie de efeito colateral das adaptações pelas quais o cérebro humano foi moldado ao longo de nossa história evolutiva. O ser humano é uma espécie gregária e cooperativa - e, se nossa mente está configurada para ter empatia com a dor do próximo, talvez, por acidente, ela também se importe com a dor de figuras que não existem. Gottschall inclina-se para outra explicação: a ficção não é uma "falha de programação", mas um instrumento que traz vantagens para nossa sobrevivência. "Há estudos que mostram que a ficção melhora nossa capacidade para a empatia, nossas habilidades sociais e nossa inteligência emocional", diz Gottschall.
As emoções morais que facilitam a cooperação entre seres humanos são centrais em Comeuppance (Retribuição), ambicioso estudo de William Flesch, da Universidade Blandeis, que tenta explicar por que nos interessamos pelo destino de Hécuba ou Hamlet. "Costumamos pensar na cooperação como oposta à competição, mas não é necessariamente assim. Seres humanos competem para ver quem é mais cooperativo", diz Flesch. Nessas disputas cooperativas, é essencial ter não apenas empatia pelo próximo, mas também raiva de quem deliberadamente prejudica outra pessoa. "Não só isso: sentimos prazer nessa raiva, e por isso buscamos razões para ter raiva", diz Flesch. Estaria aí a raiz do prazer que sentimos em acompanhar a ação de vilões cheios de artifícios - seja o Iago de Otelo, de Shakespeare, seja a Carminha ou o Félix da novela das 9.
Empatia é um conceito-chave para entender as razões de sermos animais que narram histórias. O cérebro é ele mesmo empático. "Quando você lê um romance, coloca-se no lugar do personagem", diz Véronique Boulenger, do Laboratório de Dinâmica da Linguagem, na França. "Regiões do cérebro do leitor que seriam ativadas se ele estivesse fazendo o mesmo que o personagem entram em ação." Se o personagem, por exemplo, está caminhando, áreas cerebrais ligadas à motricidade são ativadas - mesmo que o leitor esteja estendido no sofá. Achados similares foram feitos por Krish Sathian em seus estudos sobre a linguagem figurada. Uma metáfora como "cantora com voz de veludo" ativa áreas sensórias do cérebro, como se estivéssemos apalpando um pedaço de veludo. O mesmo não se dá quando lemos ou ouvimos "cantora de voz agradável".
Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Toronto, no Canadá - e ele mesmo um autor de ficção - sustenta que o mergulho nas histórias produz uma simulação mental tão vívida nos leitores quanto as simulações de realidade virtual no computador. Ao lado do colega Raymond Mar, da também canadense Universidade de York, Oatley publicou estudos que comprovam um lugar-comum da educação: ler faz bem. "A ficção dota as pessoas de maior capacidade de empatia e compreensão dos outros", diz Oatley. Seu colega Mar é um tanto mais cauteloso. "Sou muito conservador na interpretação de resultados de pesquisa, e essa é uma área que ainda está nos seus primórdios. Mas a evidência de que a leitura ajuda a desenvolver habilidades sociais de crianças está, sim, se acumulando", diz. Mar conduziu testes com ressonância magnética em 86 pessoas, ora estimuladas pela leitura de ficção, ora por ações típicas do convívio social, e concluiu que há uma superposição substancial das conexões neuronais que são acionadas para compreender histórias com aquelas voltadas à interação real entre as pessoas.
O pesquisador adverte, porém, que nem todo gênero literário carrega o potencial de promover a empatia. Romances como os da inglesa Jane Austen (1775-1817), com sua observação sutil das nuances de caráter e das complexas manobras de heroínas desassistidas na rígida sociedade inglesa da época, estariam entre os mais apropriados para treinar habilidades sociais. Katrina Fong, aluna de Mar, aprofundou-se no estudo do impacto de diferentes variedades literárias - e concluiu que um gênero menos centrado nos sentimentos humanos, como a ficção científica, não influenciaria tanto nossa capacidade de empatia. Restam dúvidas ainda sobre a eficácia da ficção audiovisual. "Alguns estudos sugerem que crianças que assistem a muitas horas de televisão têm perdas na teoria da mente", diz Véronique Boulegner. "Teoria da mente" é o termo científico para a habilidade de assumir o ponto de vista do outro.
Nosso cérebro, portanto, está configurado para que choremos por Hécuba, que perdeu o marido na guerra. Algumas histórias - e as razões para tanto ainda estão por ser averiguadas pela ciência - são mais eficientes do que outras em produzir essa comoção, essa empatia que define o melhor de nossa humanidade comum. O talento do narrador certamente faz diferença: a história de Romeu e Julieta foi contada por uma plêiade de autores italianos hoje conhecidos apenas de especialistas em literatura renascentista, mas só a versão de William Shakespeare tem feito espectadores e leitores chorar há quatro séculos (em certo sentido, aliás, o best-seller de John Green pertence à matriz do amor trágico dos amantes de Verona, ainda que o título venha de outra peça de Shakespeare, Júlio César).
Os depoimentos que acompanham esta reportagem confirmam a importância da leitura de ficção para a realização na vida e na carreira - mesmo para quem opta por profissões que nada têm a ver com artes e humanidades. O sociólogo Max Weber, no início do século XX, observava que a ascensão da burocracia como forma de organização social estava mudando o ideal da educação europeia. Antes buscava-se formar homens de cultura, com amplitude de interesses e conhecimentos, mas a burocracia pedia outro tipo de pessoa: o especialista, estreitamente limitado a uma única área de conhecimento. A natureza humana, porém, resiste ao cabresto tecnocrático: precisamos de arte, de ficção, de boas histórias. É John Green, mestre em contar histórias para jovens, quem define: "Deveria ser impossível sair da própria cabeça. Mas, lendo ou escrevendo, fazemos isso.E parece um milagre".
(texto publicado na revista Veja edição nº 2373 -ano 47 - nº 20 - 14 de maio de 2o14)
Os pais não enxergam a obesidade infantil - Jairo Bouer
As crianças brasileiras estão engordando, e muitos pais não percebem. Para piorar, o sedentarismo infantil, um dos maiores fatores de risco para obesidade, se torna um padrão habitual de comportamento em muitas famílias. Alguns trabalhos divulgados nas últimas semanas dão a dimensão do problema.
Diversos países têm identificado sobrepeso e obesidade crescentes entre crianças. O Estudo Internacional de Obesidade, feito com 6 mil crianças de 10 anos, em 12 cidades de diferentes países, mostrou que três em cada dez crianças estão nessa situação. Na cidade brasileira de São Caetano do Sul, o índice chega a quase quatro em cada dez crianças.
Nos EUA, um novo trabalho da Universidade da Carolina do Norte, divulgado no jornal The New York Times na última semana, contestou a divulgação recente de que a obesidade na infância (entre 2 anos e 5 anos) diminuiu no país entre 2004 e 2012. O dado foi interpretado como resultado de uma possível conscientização dos pais sobre a importância de dieta saudável e de atividade física dos filhos pequenos.
Os pesquisadores mostraram que, quando se estuda um intervalo maior de tempo (de 1999 a 2012), se percebe que essa redução de peso nunca ocorreu. Parece ter acontecido que, em 2003 e 2004, houve um pico de notificações. Isso levou, dizem eles, a um erro de interpretação dos dados no curto prazo.
No Brasil, outro estudo, feito pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, em Itupeva, interior do Estado, com 400 crianças menores de 3 anos, mostrou que quase um terço delas apresentava excesso de peso, mas só 20% das mães percebiam o problema.
Falta de atividade física regular, alimentação com excesso de calorias, mais tempo na frente das telas dos computadores e menos sono são alguns dos fatores identificados pelas pesquisas para explicar o aumento de peso entre as crianças.
Não é difícil entender o que ocorre. Com pais ocupados, falta de segurança, problemas de mobilidade nos centros urbanos e o fascínio que a tecnologia exerce sobre a garotada, fica difícil fazer o jovem sair de casa e se movimentar. As dietas mais fáceis de preparar e consumir costumam ser muito calóricas e pouco saudáveis.
Muitos pais não têm tempo nem paciência de mobilizar os filhos para atividades físicas e para comer melhor (em geral, isso dá mais trabalho). Para pais que, muitas vezes, também são sedentários, comem mal e estão acima do peso, o sobrepeso dos filhos pode ser menos importante. Até a percepção do excesso de peso fica comprometida. Criança sedentária e com excesso de peso tem muito mais chance de ser um adulto nas mesmas condições. No longo prazo, isso pode ser péssimo para a saúde.
Não é difícil entender o que ocorre. Com pais ocupados, falta de segurança, problemas de mobilidade nos centros urbanos e o fascínio que a tecnologia exerce sobre a garotada, fica difícil fazer o jovem sair de casa e se movimentar. As dietas mais fáceis de preparar e consumir costumam ser muito calóricas e pouco saudáveis.
Muitos pais não têm tempo nem paciência de mobilizar os filhos para atividades físicas e para comer melhor (em geral, isso dá mais trabalho). Para pais que, muitas vezes, também são sedentários, comem mal e estão acima do peso, o sobrepeso dos filhos pode ser menos importante. Até a percepção do excesso de peso fica comprometida. Criança sedentária e com excesso de peso tem muito mais chance de ser um adulto nas mesmas condições. No longo prazo, isso pode ser péssimo para a saúde.
(texto publicado na revista Época nº 830 - 28 de abril de 2014)
A minha homenagem ao cinegrafista Santiago Andrade: Crônica de uma tragédia - Marcelo Bortolotti e Isabel Clemente
A vida simples e a morte revoltante do cinegrafista Santiago Andrade
Seu perfeccionismo o levou a voltar à manifestação - onde foi atingido pelo rojão
O cinegrafista Santiago Andrade, de 49 anos, acordou às 4 horas da manhã na quinta-feira dia 6 e se sentou à beira da cama. Uma dor no ombro o incomodava. De tanto usar câmeras grandes e pesadas - ele as preferia porque deixavam as imagens menos tremidas -, Santiago estava com um princípio de hérnia de disco. A mulher sugeriu que tomasse um analgésico e voltasse a deitar. Ele seguiu o conselho e ficou na cama até mais tarde. Seu expediente na TV Bandeirantes só começaria à 1 e meia da tarde, e o dia prometia ser agitado, com manifestações marcadas pela cidade.
Santiago chegou ao trabalho meia hora antes do horário, como de costume. Preferia fazer tudo com calma. Pegou o equipamento no almoxarifado e partiu com a repórter Fernanda Corrêa para uma gravação no centro da cidade. A tarefa era tranquila, gravar chamadas para alguns telejornais da casa. Já eram 7 horas da noite quando Fernanda recebeu um telefonema da chefia: antes de voltar, deveriam passar numa manifestação que acontecia nas proximidades da Central do Brasil, apenas para um registro rápido. Black blocs e polícia se enfrentavam e todas as emissoras de TV já estavam no local. A dupla partiu de carro rapidamente e chegou já no meio do confronto. Bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral explodiam por todos os lados.
Santiago costumava ser cuidadoso nesse tipo de situação. Só saiu do carro quando as explosões diminuíram. Gravou cinco minutos de imagens, apenas para garantir o registro. Depois, Santiago e Fernanda, a repórter, decidiram ir embora, porque o conflito estava de novo mais intenso. Já estavam voltando para o carro, quando Santiago, conhecido por seu perfeccionismo, parou para fazer um último registro. Eram 7h40 da noite.
[...]
Santiago Andrade nasceu em Botafogo, na Zona Sul do Rio, numa família humilde. Seu pai trabalhava como porteiro. A mãe era dona de casa. Santiago estudou em escola pública a vida inteira e não teve dinheiro para fazer faculdade. Na juventude, quis servir no Exército, mas não se adaptou à carreira militar. Prestou concurso para os Correios e trabalhou por dez anos numa agência de Copacabana. Já casado, tinha um sonho: ser cinegrafista da televisão. Incentivado pela mulher, Arlita, Santiago abandonou o emprego. Com o dinheiro da indenização, comprou a primeira câmera.
Não foi fácil se firmar na profissão. Ele começou registrando casamentos e formaturas. Arlita trabalhava como assistente, segurava os cabos de iluminação. Mais tarde, conseguiu participar de uma oficina de filmagem na TV Globo e começou a ser chamado para fazer bicos como câmera de novelas. Também fazia pequenos trabalhos para produtoras, registrava eventos promocionais. Num deles, conheceu um diretor da TV Bandeirantes. Graças a ele, conseguiu seu primeiro emprego de cinegrafista com carteira assinada. Santiago começou trabalhando como câmera de estúdio nos programas de auditório da Band. Em pouco tempo, foi transferido para a reportagem. "Sempre foi sua paixão. Ele dizia que queria mostrar o mundo para as pessoas", diz Arlita.
Os dois se conheceram quando Santiago ainda servia no Exército. Ele era um garoto de 19 anos, Arlita já tinha 35, era divorciada e mãe de três filhos. A diferença de idade não atrapalhou. Santiago se dizia apaixonado e começaram a namorar. Logo tiveram uma filha, Vanessa, hoje com 29 anos e também jornalista. Santiago e Arlita moravam no bairro do Leme, onde Arlita tinha uma creche. Também tinham uma casa na Praia de Itaipuaçu, região metropolitana do Rio, para onde iam todos os fins de semana e feriados. Mantinham uma rotina trivial, cuidavam do jardim e do quintal.
Em dez anos como cinegrafista, Santiago participou de inúmeras coberturas. Registrou tragédias como a catástrofe na região serrana do Rio, em 2011. Na cobertura, saiu sem bagagem e passou duas semanas inteiras em Teresópolis. Teve de comprar roupas na cidade para se trocar. Ganhou dois prêmios por mostrar as mazelas do transporte público carioca - tema do protesto daquela quinta-feira fatídica. Acompanhava também operações policiais nos morros do Rio. "Ele dizia que gostava do factual, de tiro, porrada e bomba", diz a repórter Camila Grecco, de 36 anos, sua colega na Band. "Mas era um dos câmeras mais cuidadosos nesse tipo de situação. Só entrava numa favela se tivesse certeza de que todos estavam seguros."
Os colegas dizem que Santiago não reclamava nem das tarefas mais ingratas. Tinha fama de perfeccionista. Cinegrafista experiente, era um dos poucos com paciência para os repórteres novatos. Dava dicas de enquadramento, roupas e postura. Era popular na Band. Em setembro passado, quando promoveu um churrasco no botequim em frente à emissora para comemorar seu aniversário, toda a redação estava presente. "Ele fazia o que gostava. E batia no peito dizendo que, se morresse fazendo seu trabalho, morreria feliz", diz Arlita.
[...]
Na manhã de segunda-feira dia 10, os médicos constataram a morte cerebral de Santiago. Seu corpo foi cremado na quinta-feira, dia 13, às 11 horas, no Memorial do Carmo, no bairro do Caju, em cerimônia fechada para a família.
Editorial da Bandeirantes fala sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade
Floreando os pensamentos - Diana Corso
Por que fazemos dramalhões ridículos e até mesmo imaginários com fatos triviais do nosso dia a dia
Sempre me considerei uma daltônica funcional. Entro em pânico quando necessito combinar cores e estampas. Ninguém avaliou o desgaste que significa produzir bons encontros cromáticos a cada manhã, com o cérebro ainda adormecido. Só o preto salva. Essa dificuldade também comparece quando compro móveis.
Ao trocar as poltronas do consultório, escolhi umas de tecido alegre quadriculado. Na minha sala já havia um divã vermelho, floreado, mas ignorei o provável excesso de referências. Depois veio o rebote. Móveis levam um tempo para serem entregues, durante o qual cores berrantes e flores gigantes dançavam na minha frente.
Até que as poltronas chegaram: tinham uma estampa suave, e em nada conflitavam com as flores do divã. Meu mau gosto não seria, dessa vez, denunciado. Agora quem ria de mim era a realidade, revelando o quão inútil era toda aquela ansiedade.
Apesar do vasto currículo da minha própria neurose, a capacidade que temos de complicar ainda me assombra. Os neuróticos sofrem de excesso de sentido, emprestam demasiada carga aos pensamentos. Em agoniados devaneios, revestem de caráter dramático e transcendental certas miudezas ou diálogos insignificantes. Não há banalidade da vida frente a tanta criatividade.
A salvação dos psicanalistas, e dos neuróticos, está na descoberta de que não há pensamentos inúteis, apenas deslocados ou disfarçados. Minha preocupação com esses móveis nada mais é do que expressão da face exibicionista que tenho, mas renego. Quero que achem meu consultório um charme, mas me escondo atrás de argumentos pragmáticos como a ergonomia necessária. São aspectos fundamentais de se levar em conta, mas o desejo que me envergonha é o de causar admiração, se possível até inveja. Por isso, flores e quadrados tornaram-se enormes, do tamanho da importância que gostaria que tivesse, e não tem, a mera troca de móveis.
Ninguém se importa muito em como ajeitamos a casa, com as coisas que pensamos. Quando adultos, percebemo-nos desimportantes. Crianças sentem a forte presença dos adultos, que costumam envolver-se com tudo que lhes diz respeito. Depois que isso termina, só temos tanto protagonismo em nosso pensamento agoniado, onde tudo se amplifica. É triste ter um público tão exíguo. Para isso servem os pensamentos neuróticos, que colorem a mediocridade. Graças a eles, no teatro imaginário onde exibimos a trama da nossa vida, os ingressos estão sempre esgotados.
(texto publicado na revista Vida Simples nº 145 - junho de 2014)
Mentes livres - Lama Padma Samten
Atualmente, já está muito claro que nossas experiências mentais estão sempre criando estruturas cerebrais que facilitam a resposta rápida a futuras demandas semelhantes. O tema mais importante, no entanto, não é que as estruturas se ampliem sempre, é a liberdade natural da mente, que opera além das estruturas.
Um motorista não é seu carro, nem por onde circula. Ele tem a liberdade de deixar o carro e seguir por outros meios e também de repensar seus trajetos. Ainda assim, se as estradas ficarem bloqueadas ou o carro quebrar, ele terá dificuldade em andar a pé e usará o tempo arrumando o carro ou colocando a estrada em condições de uso. Só ao final de um tempo ele conseguirá ultrapassar as fixações estruturais internas e refazer suas opções.
Em verdade, a liberdade do motorista é tal que nem mesmo motorista ele é. Ele é um ser livre. A prática espiritual profunda conduz a essa liberdade, naturalmente presente. As fixações são o carma. As experiências comuns no mundo, eventos maiores e menores, vão se consolidando como trajetos e redes neurais internas e estruturas cármicas que balizam a operação da mente, estruturando recursos limitados como se fossem as únicas opções, ainda que, essencialmente, a mente siga livre.
As estruturas grosseiras como os espaços das cidades, as ruas físicas, e em um sentido mais amplo tudo o que aciona nossos sentidos físicos, surgem também como resultado das atividades mentais repetitivas, assim como a circulação da energia interna, que é o aspecto sutil. Um automobilista precisa de uma transformação interna e externa complexa para se tornar um ciclista; não é fácil. Já o tripulante do sofá tem dificuldade em incluir exercícios, novos hábitos de alimentação e mudanças na autoimagem - os desafios são idênticos.
Nossos melhores pensamentos constroem mundos melhores e também cérebros melhores. Já os pensamentos aflitivos constroem mundos piores e cérebros com estruturas que conduzem à aflição e à doença.
Tanto os aspectos grosseiros como os sutis flutuam; é visível. A única expressão incessantemente presente e disponível é a liberdade natural silenciosa dentro de nós mesmos. É dessa natureza que surge a energia que, livre de condicionamentos, cria novos caminhos neurais e novas configurações de mundo. Os mestres de sabedoria apontam-na como sempre disponível, mesmo durante experiências como a doença e a morte. É dessa região inabalável que irradiam sua sabedoria, compaixão e destemor.
(texto publicado na revista Vida Simples nº 148 - agosto de 2014)
Os sete piores hábitos para emagrecer (Melhor com Saúde)
Emagrecer é um desafio que requer muita disciplina e força de vontade. Uma dieta balanceada e alguns alimentos favorecem a perda de peso, mas é importante estarmos atentos em outros aspectos que influenciam muito nesse processo e que complementam a dieta para alcançar os resultados esperados.
Se você é o tipo de pessoa que passa o dia todo na academia e mantém uma dieta saudável, mas mesmo assim não consegue obter o peso que tanto sonha, com certeza está cometendo algum erro no processo de emagrecimento e, por esse motivo a balança não diz o que mais se espera dela: seu peso ideal. A seguir apresentaremos os sete piores hábitos que uma pessoa em fase de emagrecimento pode cometer. Se você identificar na lista algum erro que tenha cometido, ainda dá tempo de corrigir e obter melhores resultados. Vamos conferi-los!
Ingerir pouca água
A água tem um importante papel no organismo. Já que além de manter nosso corpo hidratado, também favorece o bom funcionamento do metabolismo, elimina as toxinas e os resíduos do organismo. Quando não ingerimos uma quantidade necessária para nossa dieta, o corpo não responde bem na queima de calorias e será menos eficiente na eliminação das gorduras. O recomendável para um melhor resultado é beber no mínimo 2 litros de água por dia.
Não tomar café da manhã
Ultimamente, muitas dietas recomendam consumir determinados alimentos em jejum para ativar o metabolismo e favorecer o processo de emagrecimento. Não obstante, há pessoas que cometem o grave erro de pular o café da manhã apenas por ter consumido outro tipo de alimento prévio com o propósito de acelerar o emagrecimento. O café da manhã é a refeição mais importante do dia, pois favorece o metabolismo, nos fornece energia e nos ajuda a começar o dia com mais disposição.
Reduzir o número de refeições
Reduzir o número de refeições ao dia é um dos maiores erros no processo de emagrecimento. Comer duas ou três vezes ao dia faz com que o metabolismo funcione de forma mais lenta e a consequência disso é não obter a queima de calorias. O ideal é fracionar a alimentação em pequenas porções de quatro a seis vezes ao dia. Obviamente que a alimentação deve ser saudável, evitando-se açúcar, excesso de sal e alimentos ricos em gorduras.
Atividade física limitada
Não é segredo que para perder peso o bom resultado está na combinação de uma dieta equilibrada com exercícios físicos regulares que juntos favorecem o funcionamento do metabolismo e eliminam os resíduos de nosso organismo. Algumas pessoas, por mais que se exercitem com frequência, não conseguem perder peso. Então, fica uma dica: se você quiser acelerar seu emagrecimento, evite praticar somente uma atividade física como caminhar, correr, andar de bicicleta. Recomenda-se combinar todos esses exercícios aeróbicos com a musculação.
Comer rápido
Um dos maiores inimigos de uma dieta, além de não consumir alimentos saudáveis por falta de tempo, é mastigar e engolir rapidamente. Esse mal hábito faz com que você sinta menos a sensação de saciedade e a consequência é querer comer mais. Outro fator negativo é o organismo não dirigir bem a comida, dificultando o processo de emagrecimento. Recomenda-se evitar comer em frente à televisão e não utilizar qualquer tipo de dispositivo eletrônico, centrando toda a atenção aos alimentos e à boa mastigação.
Não descansar
Pessoas que não descansam são mais propensas a sofrer de ansiedade e consequentemente engordam com mais facilidade. Noites de insônia normalmente altera em nosso organismo a produção de hormônios reguladores do apetite, o que nos induz a comer mais. Sabemos que é de suma importância dormir ao menos oito horas diárias seguidas e sem interrupções.
Situações estressantes são as piores inimigas no processo de emagrecimento. Esse tipo de situação gera ansiedade e como consequência logo vem a vontade de comer mais do que se está acostumado. Essa ação dificulta que você leve uma dieta saudável. Estudos revelam que os altos níveis de estresse aumentam a produção de cortisol, fazendo com que o corpo armazene gorduras ao invés de eliminá-las. Por isso, é muito importante aprender a controlar o estresse. Ser por alguma razão é inevitável passar por um período ou situação de estresse, a opção é acalmar a ansiedade com alimentos saudáveis, como uma garrafa de água, uma fruta ou um iogurte natural.
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