terça-feira, 24 de maio de 2016

Como funciona a acupuntura? - Carolina Almirón


A acupuntura tem como objetivo equilibrar a energia vital, conhecida como qi (lê-se "chi"), que flui pelo corpo em 14 meridianos e é formada pelo yin e yang. Se essas duas forças opostas não estão em harmonia, surgem distúrbios físicos e psicológicos. Embora tenha sido reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina em 1995, sua eficácia não é 100% comprovada. "Pesquisas já provaram que a estimulação de pontos no pé tem reflexos no córtex cerebral", defende Ruy Yukimatsu Tanigawa, diretor da Associação Médica Brasileira de Acupuntura. Algumas possíveis justificativas para os resultados são a elevação do nível de triglicérides, anticorpos e neurotransmissores, e a liberação de endorfina e vasodilatadores. A teoria mais popular, conhecida como gate control, diz que a percepção da dor é controlada por um "portão" no sistema nervoso. As fibras nervosas que carregam o impulso da dor são pequenas e os portões que o recebem seriam os primeiros a se fechar durante a acupuntura.

Técnica milenar

Os vários tratamentos e seus princípios de funcionamento

Auriculoterapia

Segundo a acupuntura, os abundantes nervos da orelha têm conexão com todas as partes do corpo. A correta estimulação dos pontos auriculares tem reflexos na saúde e no equilíbrio de um órgão enfermo ou dolorido. As agulhas devem permanecer na orelha por 5 dias, com um esparadrapo.

Tradicional

As agulhas, descartáveis, são inseridas numa profundidade de meio a 5 centímetros, em ângulos de 15 a 90 graus em relação à pele, e retiradas depois de um período que pode variar de poucos segundos a 1 hora, dependendo dos resultados pretendidos.

Reflexologia

Pontos na sola dos pé e nas juntas da região do tornozelo têm correspondência com órgãos internos. A estimulação desses pontos ajudaria no tratamento de problemas nas outras partes do corpo.

Moxabustão

O calor liberado pela queima de uma pequena quantidade da planta medicinal artemísia (que depois de trabalhada recebe o nome de lã de moxa) estimula o ponto da acupuntura diretamente sobre a pele do paciente.

Ventosas

Nesta prática - conhecida também como cupping -, o ponto da acupuntura é estimulado pelo acúmulo de sangue na área. Frascos de borda lisa com uma abertura estreita são aquecidos e usados para "sugar" a pele.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 221 - 16 de dezembro de 2005)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os benefícios da crise


Pesquisas recentes sobre traumas têm incluído um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, principalmente no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.

Alguns dos sintomas e sinais de uma crise e de uma trauma são semelhantes - por exemplo, tristeza, isolamento, confusão, oscilações de humor podem estar presentes nos dois casos. No entanto, a direção que uma ou outra situação toma não o é. Por isso, é de grande importância distinguir o enfrentamento de uma crise, em que se mantém viva a possibilidade de superação, transformação e crescimento, de um processo de traumatização, em que, ao contrário, a pessoa passa a viver a paralisia e o congelamento internos que a imobilizam em torno do evento que não foi possível elaborar.

Elisabeth Kübler-Ross (1983) trabalhou, por longos anos, com pacientes terminais e distinguiu cinco diferentes etapas possíveis de serem atravessadas no processo de enfrentamento da proximidade da morte, bem como do luto enfrentado pelas pessoas que perdem entes queridos. Se tonarmos o luto como a elaboração de perdas, quaisquer que sejam elas, podemos reconhecer essas etapas na base de várias diferentes crises a que estamos sujeitos em nossa vida humana.

De forma bastante resumida, a primeira fase é a da não aceitação e do isolamento. Em geral, num primeiro momento as pessoas ficam entorpecidas pelo choque ou pela dor. Podem surgir atitudes como negação e recusa de enfrentar a situação, que funcionam como um mecanismo de defesa contra aquilo que ainda não é possível suportar. Numa segunda fase, podem surgir raiva e tristeza pela perda sofrida. Nessa etapa, é comum que se manifestem sentimentos de vazio, irritabilidade e agressividade, questionamentos sobre o sentido da vida, desapontamento, preocupação, assim como a busca por culpados e perguntas do tipo: "Por que ele (a) se foi?". A raiva, nessa fase, é um sentimento natural de externalização da revolta e uma reação contra o sofrimento impingido. A terceira etapa do processo de luto é designada como fase da negociação ou barganha. Por vezes, está ligada a fortes sentimentos de culpa ou ao arrependimento por ações feitas, bem como por aquilo que não foi realizado. É possível que surjam fantasias, especialmente nas crianças, de que essas ações ou omissões foram determinantes para o que ocorreu - "minha avó se foi porque eu era malcriado com ela", "se eu tivesse sido mais amoroso, minha esposa não teria adoecido". Se a pessoa está doente e vê a proximidade da própria morte tenta fazer promessas ou negociações - com os profissionais que cuidam dela e até com Deus - com o objetivo de manter as coisas como eram até então.

Um possível quarto estágio do processo de luto é a depressão. Ela tanto pode ser reativa como preparatória. A depressão reativa ocorre quando surgem outras perdas devido à morte, por exemplo, prejuízos financeiros, mudanças de status e de padrão de vida, bem como a perda de papéis no âmbito do grupo familiar. Já a depressão preparatória é o momento em que a aceitação está mais próxima, porque há processos retrospectivos, de balanço e de reflexão que, embora possam produzir abatimento e tristeza, já significam a elaboração do ocorrido. O último estágio é, por fim, o da aceitação. Quando se chega a ele, surge uma maior serenidade frente à morte, à perda e à separação. É o momento em que é possível expressar de forma mais livre os sentimentos, emoções, frustrações e dificuldades enfrentados e com isso de fato elaborá-los. Esses estágios não são regulares e podem ser vividos ou não de acordo,  mais uma vez, com as características pessoais de cada indivíduo.

Todas essas etapas precisam ser adequadamente atravessadas para que uma pessoa supere a vivência difícil e a vida para prosseguir. Os recursos e suportes necessários para as diferentes etapas devem ser propiciados, a fim de facilitar a evolução do processo. Às vezes, são coisas bem simples, como haver liberdade de expressar a raiva e todos os sentimentos experienciados, por mais difíceis e negativos que eles possam parecer. Também a presença de uma rede de apoio, como familiares, amigos e profissionais bem preparados vinculados à pessoa ou à situação enfrentada, é de grande e fundamental importância.

Sintomas

Caso as etapas de elaboração de uma perda ou da confrontação com uma realidade difícil não transcorram de tal forma satisfatória, um trauma pode se instalar. BerndRuf (2014) aponta para quatro etapas de desenvolvimento e efetiva instalação de um trauma. Ele diz que depois de um evento potencialmente estressor e que representa uma sobrecarga para o indivíduo, segue-se uma fase de choque com duração de um a dois dias. Aí podem se manifestar sintomas diversos, como uma experiência distorcida do tempo e do espaço, distúrbios perceptivos e diversas reações psicossomáticas (alergias, cefaleias, problemas digestivos, queda da imunidade etc.). Amnésias ou, ao contrário flashbacks recorrentes podem ocorrer. Atendi uma senhora que perdera o marido repentinamente por conta de um câncer agressivo que já havia evoluído muito quando foi descoberto. O único filho do casal, que tinha então 12 anos de idade e era extremamente apegado ao pai, reagiu aos poucos à perda de forma positiva, no entanto não se lembra de absolutamente nada do período que compreende a internação do pai, sua morte dez dias depois e as duas semanas seguintes. Aparentemente, ele elaborou bem o ocorrido depois disso, mas todas as lembranças desse período se perderam, sendo parcialmente reconstituídas em função dos relatos das pessoas próximas.

As oito semanas seguintes (aproximadamente) costumam ser decisivas para um bom encaminhamento do processo de elaboração. Começa a haver uma confrontação com a realidade e uma tentativa de integrar o que ocorreu. No entanto, sintomas relativos ao choque podem continuar se manifestando, embora de forma cada vez mais intensa. São eles: paralisias ou hiperatividade, depressão ou agressividade, medos e preocupações, pesadelos ou sonhos com o que aconteceu, problemas de concentração, isolamento, distúrbios do sono e da alimentação. É comum que as pessoas passem a evitar tudo o que pode lembrar o evento impactante, sejam locais, objetos, outras pessoas ou mesmo pensamentos e sentimentos. Para muitos, a experiência é de um certo congelamento interno, um amortecimento, e de vazio. Esses sintomas podem desparecer paulatinamente e se perder no período de quatro a oito semanas. Caso persistam além desse tempo, é possível que a pessoa desenvolva um distúrbio traumático. Nessas situações, cada sintoma pode se transformar em uma doença independente. O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é uma das consequências mais comuns dos traumas e precisa de tratamento.

Mais a longo prazo ainda, no caso de persistirem e se repetirem as experiências traumáticas ou mesmo os sintomas desencadeados pelo evento estressor, indicando que a experiência não pôde ser transformada, a estrutura da personalidade como um  todo fica ameaçada e é possível que sofra mudanças profundas e permanentes.

Vítimas que chegam a esse estágio crônico podem se sentir sob constante ameaça e tensão. Por causa disso, é comum que apresentem atitudes como hostilidade, agressividade, conformismo extremo, perda de sentido da vida, fracasso profissional ou nos relacionamentos, isolamento social e quadros depressivos. Outra consequência possível é um distorção nos valores e traços de caráter. É frequente que vítimas se tornem algozes. De forma incontrolável essas pessoas repetem o que ocorreu, seja sofrendo novamente a mesma situação seja infligindo sofrimento aos outros.

Luto ou reação traumática?

Para que um evento traumático seja superado, deveria se seguir a fase inicial de choque, em que se fazem presentes um certo atordoamento e atitudes caóticas, uma fase de reação, na qual a pessoa já consegue confrontar com a realidade, na tentativa de integrar o que ocorreu. Então, tem lugar uma fase de adaptação, em que se procuram compreender e esclarecer o que foi vivido, o que, se for um processo bem-sucedido, implica na dissolução do trauma. Todos esses estágios encaminham-se para uma fase de reorientação, quando a vida é reorganizada e surgem novas potencialidades e possibilidades. Esses estágios são semelhantes à fase de elaboração do luto.

Apesar da grande semelhança entre os processos de luto e de trauma, há também diferenças marcantes. Segundo Levine e Kline (2010), ao passo que o luto nem sempre está relacionado a um trauma, todo trauma compreende um processo de luto.

Vejamos algumas diferenças marcantes entre um e outro. Enquanto que na reação de luto se manifestam sentimentos de tristeza sem que estes agridam a autoimagem e a autoconfiança da pessoa, a reação traumática conduz a sentimentos de impotência e perda de segurança e confiança no mundo e em si mesmo. Ao passo que o luto leva à tristeza, mas essa pode se expressar, é comum que no trauma as pessoas sofram em silêncio.

Os sonhos podem ser observados na fase que se segue a um evento difícil e trazem informações importantes sobre o processamento do ocorrido. Enquanto que nos casos de luto é comum que principalmente as crianças sonhem com os falecidos, nos sonhos que emergem em meio a processos de traumatização o que é frequente é que elas sonhem consigo mesmas como sendo as possíveis vítimas dos acontecimentos.

Finalmente, um importante traço a ser observado é que os sinais e sintomas que se apresentam ao longo de uma vivência de luto vão sendo amenizados e desaparecem com o tempo, ao contrário do que ocorre nas vivências traumáticas que não são elaboradas, nas quais, com o passar do tempo, se apresentam um aumento e a intensificação dos sintomas provenientes do choque.

Situações limitadoras

Ora, não são apenas situações extremas, de grave comprometimento psíquico, que afetam a vida das pessoas, limitando suas possibilidades e experiências. Muitos pacientes chegam ao consultório se perguntando qual é o seu trama, o que teve um poder tão forte de paralisar áreas inteiras da sua vida. Suas histórias de vida carregam, sem dúvida alguma, dificuldades, mas algumas áreas funcionam bem, enquanto outras estão comprometidas - por exemplo, é possível que alguém se realize profissionalmente, mas perceba uma enorme desordem em sua vida afetiva; ou pode ser que embora com uma vida familiar razoavelmente equilibrada, se desespere em não conseguir se expressar em outras áreas, como do trabalho, da sexualidade ou socialmente.

Muitas vezes essas pessoas já associam certos sofrimentos vividos aos bloqueios que experimentam no momento presente e vêm em busca de se certificar disso, entender melhor seus impedimentos e desatar nós, de modo a poderem viver de forma mais plena.

De fato, não são apenas traumas que paralisam ou tolhem nossas vidas. Em outros níveis mais brandos, as rupturas ocorridas no aparato psíquico que não tiverem sido completamente superadas podem continuar manifestando seus efeitos, principalmente sob a forma de bloqueios de energia psíquica e da criatividade, para viver de forma satisfatória e que corresponda às aspirações internas pessoais. O caminho para essa realização pessoal encontra-se repleto de obstáculos.

Tal como na teoria psicanalítica, Jung, discípulo de Freud, que depois se afastou dele, criando sua própria teoria, a Psicologia Analítica, estudou com especial interesse as situações traumáticas, chegando, então, a um conceito que hoje já faz parte de nosso vocabulário, a noção de complexos. Segundo Jung, os complexos são grupos de conteúdos psíquicos que se separam da consciência devido a situações traumáticas ou não elaboradas. Uma vez que a consciência não consegue lidar com tais conteúdos, precisa retirá-los do seu campo de ação.

Segundo Stein (2006), Jung descreve a estrutura do complexo como sendo composta por um núcleo formado por esses conteúdos que foram retirados da consciência - imagens associadas ao evento traumático e memórias congeladas e reprimidas -ao qual vão, então, se associando novas experiências de teor emocional idêntico. Por exemplo, à emoção decorrente da experiência de abandono paterno é possível que uma pessoa vá associando ao longo da vida outras experiências - e suas respectivas imagens e emoções - de abandono ou ruptura com outras figuras de autoridade e apego, sejam elas um chefe, o marido, amigos e assim por diante.

O efeito disso é que os complexos vão se fortalecendo e passam a restringir cada vez mais a liberdade de atuação da pessoa, roubando sua possibilidade de escolha e de decisão. Os conteúdos encapsulados e apartados da consciência irão determinar que a pessoa não disponha de seus recursos internos para lidar com determinadas  situações. A simples suposição de um abandono, por exemplo, pode disparar certas atitudes defensivas, que além de estarem repletas de ansiedade, medos e sofrimento, não são eficazes e talvez até desencadeiem de fato aquilo quer mais se deseja evitar.

Tal como os sintomas, os complexos são indicativos de bloqueios no curso de energia psíquica, são sinais de alarme de que algo essencial não está indo bem no campo da psique. Suspender o bloqueio e ampliar a consciência é de fundamental importância para lidar com as restrições e a falta de liberdade que sintomas e complexos impõem.

Amadurecimento

Se existe um ponto de confluência para todas essas diferentes situações é o potencial que  elas carregam de, uma vez atravessadas, representarem uma transformação indescritível na vida, um divisor de águas que representa um enorme crescimento, um ponto a partir do qual a vida realmente ganha sentido.

Retomando a analogia inicial da psique com o corpo físico, podemos dizer que assim como o organismo pode sair fortalecido de uma doença ou trauma que superou, também podemos amadurecer internamente e nos fortalecer ao atravessarmos uma crise. Muitas pessoas relatam mudanças realmente significativas em suas vidas depois que superaram experiências difíceis ou traumáticas. É possível que todos nós saibamos por experiência própria que crises existenciais e golpes do destino, quando elaborados positivamente, nos ajudam a crescer.

Por muito tempo, as pesquisas sobre traumas concentraram-se quase que exclusivamente nos efeitos psicopatológicos de tais experiências. Mais recentemente, no entanto, tem-se incluído nesses estados um olhar para as consequências positivas das experiências traumáticas, no que diz respeito aos efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade pessoal e o crescimento interior.

O que se tem verificado nos estudos científicos recentes é que o risco de distúrbios psíquicos guarda uma relação equitativa com a configuração de oportunidades e chances de desenvolvimento na vida das pessoas atingidas por situações indesejadas e impactantes. Isso significa que um choque ou trauma também pode mudar a vida positivamente.

Segundo Viktor Frankl (1998), o fator essencialmente impulsionador para o ser humano é a busca de sentido para a vida. No momento em que uma pessoa se pergunta sobre o sentido da vida, ela expressa o que há de mais essencialmente humano em si mesma.

Semelhante à noção de individuação de Jung, essa busca pelo sentido da vida diz respeito à tentativa de encontrar aquilo que exprime a própria unicidade e integralidade, a realização como indivíduo singular, capaz de viver da forma mais plena e autêntica possível.

Ora, um dos fatores essenciais da resiliência é justamente a possibilidade de constituir novos sentidos. É apenas quando a pessoa integra o ocorrido, simbolizando e interpretando o que ocorreu numa perspectiva de crescimento pessoal, é que ela volta a encontrar motivação para seguir vivendo.

Sendo assim, entendemos que tudo que propiciar e favorecer a retomada do sentido, incluindo aí uma revisão total de valores e a construção de novos significados e de entendimentos da vida, propiciará a retomada do equilíbrio psíquico e poderá significar até mesmo uma condição de mais saúde mental. Como muitas pessoas acabam descobrindo, a desconstrução e reconstrução desses sentidos podem ser fatores essenciais para a descoberta de uma real direção para a vida pessoal. Nesse caso, os perigos de ruptura interna e os sofrimentos enfrentados passam a representar uma verdadeira possibilidade de considerar a própria experiência de forma profunda e reformulá-la.

Crises e traumas, quando enfim elaborados e integrados, são uma oportunidade única na vida - difíceis, mas com um potencial incomparável de crescimento e evolução.

Consequências da superação

O amadurecimento produzido pela superação de situações reflete-se em novas possibilidades de via, que implicam num relacionamento diferente consigo próprio, com as outras pessoas, com o mundo e com os próprios fatos e condições de vida. Os efeitos biográficos positivos de psicotraumas vencidos estão relacionados a pelo menos quatgro dimensões da vida:

Relacionamentos humanos - após uma bem-sucedida superação de estresse intenso, com frequência, nota-se maior sensibilidade no trato com os outros e um aprofundamento nas relações com a família e com os amigos, valorizando-se essas relações e havendo uma maior abertura nas formas de comunicação e de vínculo.

Perspectivas de vida - após a superação positiva de experiências de vida difíceis, também pode haver uma ampliação da perspectiva de vida, com a descoberta de novos interesses e a elaboração de novas metas e planos. A própria vida é reconfigurada, incluindo-se aí valores e projetos mais significativos, positivos e de crescimento. Isso pode envolver a abertura, questionamentos e interesse mais profundo a respeito de temas existenciais, incluindo ou não interesses relativos à espiritualidade e à religiosidade.

Amadurecimento da personalidade - em geral, como resultado, da superação positiva de uma situação traumática, segue-se também um aumento de fatores pessoais positivos, como autoconfiança, autoconhecimento, força e segurança emocional, ou seja, um amadurecimento da personalidade como um todo. Lidar de forma bem-sucedida com uma situação difícil constrói uma sensação de segurança para enfrentar desafios futuros. A superação dá confiança de que será possível enfrentar outras situações da maneira igualmente positiva e construtiva.

Valorização da própria vida - é comum que depois da superação de uma crise ou situação traumática, as pessoas estabeleçam com mais facilidade aquilo que é prioritário para elas e diferenciem o que é importante daquilo que não tem importância. Com frequência se ouve nos relatos dessas pessoas que elas começaram a viver de forma mais consciente e a valorizar mais a vida, dando mais importância àquilo que antes não reconheciam como valioso em suas vidas. Esse redimensionamento dos fatos e circunstâncias é um dos efeitos mais significativos do enfrentamento de uma condição de impacto inicialmente negativo.



(texto publicado na revista Psique nº 113 - ano IX)

Não é a Grécia que tem de sair do euro. É a Alemanha - Alexandre Versignassi


Enquanto a Europa cai pelas tabelas, a Alemanha se dá bem. Não é só competência: é porque o euro trabalha a favor dela, e contra os países pobres do continente.

Dinheiro só vale dinheiro se tiver como lastro aquela coisa que vale mais do que dinheiro. Ouro não: PIB. Produção. Interna e bruta. Uma nota de R$ 50 só não é um mero pedaço de papel porque carrega em si valor das coisas que o Brasil produz. O dólar só é o dólar porque tem por trás os US$ 18 trilhões em produtos e serviços que brotam dos EUA. Quanto maior for a produção de um país, então, mais forte tende ser a moeda dele.

Mas tem outro lado nessa moeda. Quando o câmbio de um país fica forte demais, a indústria dele começa a tossir. A gente conhece bem essa história. O real hipervalorizado foi bom. Para a China: nossas construtoras e montadoras passaram a importar aço chinês, porque a defasagem do yuan em relação ao real deixou o aço oriental mais barato que o da Gerdau. Em outra  frente, nossas sacoleiras invadiram Miami e esvaziaram os outlets de lá, aproveitando o dólar barato. De quebra, ajudaram a derrubar o faturamento da nossa indústria têxtil.

Pois é: uma moeda forte às vezes revela as fraquezas de um país. Foi o que aconteceu aqui. E na Grécia também.

O lastro da moeda grega não é o PIB da Grécia. É o da zona do euro, que conta com 19 países. Junte todos e você tem um PIB de US$ 10 trilhões, igual ao da China (e cinco vezes maior que o nosso).

Mas esse pibão não tem nada de uniforme. A Alemanha responde sozinha por 40% do bolo. Se juntar ela e a França, dá quase 70%. É uma desigualdade brava: o PIB da Grécia, estacionado em US$ 237 bilhões, é menor que o a região metropolitana de São Paulo. Mesmo assim, ainda é um pouquinho mais gordo que o de Portugal e o da Irlanda, outros dois membros do infame PIIGS, o cordão de endividados da Europa (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha).

Antes do euro, os cinco porquinhos tinham histórico de inflação alta, gastança estatal e, consequentemente, pouca moral no mercado financeiro. Então eles tinham de pagar juros altos sempre que precisassem de moeda forte para importações. Por "moedas fortes" entenda dólares e marcos alemães.

E aí chegou o euro, na virada do século. Na prática, era como se o marco alemão mudasse de nome para "euro" e passasse a suprir o resto do continente (a maior parte dele, pelo menos). Parecia bom para todas as partes. Os governos dos países menos pibados passariam a receber os impostos dos seus cidadãos em euros, uma moeda garantida pelo PIB alemão. Impostos servem para pagar as dívidas dos governos - além da lagosta dos governantes. E agora os contribuintes pagavam em euros. Resultado: o mercado passou a emprestar para os países bagunçados da Europa a juros baixíssimos.

Aí choveu euro na periferia da Europa. A economia ali cresceu como nunca, mas os governantes gastaram como sempre. Além disso, não perceberam a arapuca em que tinham se metido: seus países eram pequenos demais para suportar o peso de uma moeda forte.

Grécia, Portugal e cia. têm indústrias miúdas, incapazes de concorrer com a da Alemanha. Cheios de euros nos bolsos, os gregos e portugueses correram a comprar BMWs, ó pá. Isso e tudo o mais que a Alemanha se desse ao trabalho de produzir, já que agora, sob a moeda única, os itens germânicos tinham ficado com preço de outlet. Os alemãos também passaram a consumir mais produtos dos periféricos. Mas se o seu país faz azeite e o país do outro, Audis, a balança comercial nunca vai pender para o seu lado. Foi o que aconteceu com a Grécia e a rapa.

A indústria dos países euro-pobres também não aguentou a concorrência com a dos euro-ricos, e teve o mesmo fado da nossa: encolheu, dispensou funcionários. Os desempregados passaram a consumir menos... Recessão.

Com os PIBs dos euro-pobres caindo, a arrecadação deles diminuiu. Menos arrecadação, mais problemas para pagar dívidas. Aí tome mais dinheiro emprestado para ir rolando a pendura, só que agora a juros menos fofos. E não deu outra: dívidas equivalentes a mais de 100% do PIB viraram carne de vaca. A do Brasil, para você ter uma ideia, é de 60%, e não chega a ser uma maravilha. E se mais de 100% já roça no limite do impagável, imagina na Grécia, que passou a dever 175%. Era o caos.

A escalada da pendura a um grau insustentável deixou os bancos europeus a perigo, já que eles são os credores dos euro-pobres. Um eventual calote em massa causaria uma quebradeira igualmente massiva no sistema financeiro todo. Para evitar um colapso, então, o Banco Central Europeu (BCE) "imprimiu" 1,1 trilhão de euros e emprestou para os bancos. É do jogo: não fosse isso, a crise europeia poderia ter feito com que a americana, de 2008, parecesse uma marolinha.

Mas os gastos do BCE têm ajudado mesmo os países que menos precisam: em especial, a Alemanha. Explico. Se você aumenta sua produção de dinheiro num ritmo maior que o da sua produção de coisas de verdade, sua moeda enfraquece. Perde valor em relação ao dólar. Foi o que aconteceu com o euro depois que o BCE ligou suas impressoras a todo vapor.

Nisso, os produtos alemães ficaram mais baratos do que nunca fora da zona do euro. Tanto que, no ano passado, a Alemanha exportou US$ 246 bilhões a mais do que importou - um superávit comercial que só perde para o da China.

A maior parte dessas exportações foi para fora do continente, já que o resto da zona do euro continua definhando. E a culpa aí não é só do endividamento dos euro-pobres. É do próprio euro, porque a moeda única cria uma situação surreal. O superávit alemão deveria fortalecer a moeda alemã, caso o país tivesse uma. Isso deixaria os produtos dos euro-pobres mais baratos para os germânicos. A Alemanha passaria a importar mais de seus vizinhos. E isso traria um gás novo para as economias de todos eles. Mas não. A moeda única impede esse reequilíbrio natural, e coloca a Alemanha num reino da fantasia: o de ser uma economia forte com moeda fraca. Um país livre para exportar à vontade - o oposto do Brasil, que agora é uma economia fraca com moeda proporcionalmente forte o bastante para atrapalhar o nosso comércio exterior. Aí fica fácil para Angela Merkel.

A Alemanha não está bem só por conta de sua tão alardeada produtividade - nem pela suposta superioridade ética frequentemente atribuída aos germânicos, que valorizariam mais o trabalho que gregos, portugueses, espanhóis. Não. A Alemanha virou uma ilha de prosperidade naquele mar de lama porque vive num sistema que a favorece, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença. Diante disso, a única saída talvez seja mesmo o fim desse casamento monetário, com a Alemanha saindo do euro. E voltando para a realidade.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 350 - agosto de 2015)

Cenas inéditas do tsunami ocorrido no Japão (Domingo Espetacular)


Como nasce uma língua? - Gilberto G. Pereira


Em primeiro lugar, é preciso compreender o que é um idioma. "É o conjunto organizado de signos linguísticos, com características fonéticas e vocabulares próprias. Além disso, ele deve ter um número razoável de falantes que o utilizem em textos de larga circulação. Do contrário, é só um dialeto", explica Jarbas Vargas Nascimento, professor de latim da PUC de São Paulo. Geralmente, uma nova língua nasce de outra já existente, num processo que pode durar séculos. O português e o francês, por exemplo, surgiram do latim. Mas também é possível que não haja uma só raiz. É o caso das chamadas línguas germânicas, como o alemão e o dinamarquês. "Elas podem ter se originado de forma independente, pois essas tribos nem sequer se conheciam", afirma Goez Kaufmann, especialista em dialetologia e professor convidado da Universidade de São Paulo.

"No caso das línguas neolatinas sabe-se que todas têm uma origem comum porque na época do Império Romano todos falavam o latim vulgar e quase ninguém estudava normas gramaticais", diz José Rodrigues Seabra, professor de língua e literatura latina da USP. Com o fim do domínio dos césares, os vários povos passaram a falar dialetos diferentes, que se transformaram em idiomas próprios.

Hoje o inglês é dominante, mas os especialistas acham difícil ocorrer um processo semelhante de fragmentação porque não só o idioma é bem estruturado como milhões de pessoas conhecem as regras gramaticais. "Ainda assim, o inglês falado na Índia é cada vez mais diferente do usado em outras partes do mundo e pode ser que no futuro ele seja considerado outra língua", diz Kaufmann.

Chinês

Origem: Pré-história, a partir de dialetos como o cantonês, o de Xangai e o de Pequim.

Curiosidade: Só em 1949, com o governo comunista, surgiu uma língua oficial, derivada da fala de Pequim. A escrita, ideográfica (refere-se a significados e não a fonemas), unificou culturalmente o país.

Grego

Origem: Nasceu de vários dialetos da península Balcânica no século 8 a.C.

Curiosidade: Foi a primeira língua internacional e com ele nasceram a filosofia e a cultura do Ocidente. Outros idiomas o utilizam em nomes científicos e em palavras como "fósforo" e "estética".

Japonês

Origem: Por volta do século 3, ao leste e ao sul do arquipélago japonês.

Curiosidade: Tem 3 sistemas de escrita: o hiragana, o katakana e o kanji (os ideogramas chineses). Por isso, um japonês que não fala uma palavra em chinês pode ler muita coisa nesta língua.

Árabe

Origem: Península Arábica, primeiros registros datam do século 5.

Curiosidade: Desenvolveu um alfabeto próprio, que depois foi adotado pelo persa (Irã) e o pashtu (Afeganistão). A língua responsável pelo desenvolvimento da civilização islâmica é falada em 22 países.

Latim

Origem: Por volta do século 7 a.C. na região do Lácio, onde Roma foi fundada

Curiosidade: Expandiu-se junto com o Império Romano e acabou dando origem a cerca de 10 línguas. Ainda hoje é o idioma oficial do Vaticano. Palavras latinas estão em todas as línguas modernas.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 221 - 16 de dezembro de 2005)

We bought a zoo (áudio em inglês)


Diário de vida: You only need 20 seconds of insane courage


Sou muito fã do Matt Damon e decidi rever o filme "Compramos um zoológico" (We bought a zoo) que conta a história real de Benjamin Mee e de seus dois filhos. 

Como as coisas nunca acontecem por acaso, fiquei muito tocada com a frase "você só precisa de 20 segundos de insanidade" para dizer e fazer as coisas. Acho que a maioria das incompreensões acontecem justamente por frases não ditas e ações não realizadas por puro medo.  

Eu me lembro que fiquei muito tocada pela cena de um outro filme "O casamento de meu melhor amigo" em que os personagens de Julia Roberts (Jules) e Dermot Mulroney (Mike) estão fazendo um passeio de barco e ele diz que se você ama alguém deve dizê-lo com todas as forças. Mas Jules acaba deixando a oportunidade passar e não confessa que o ama há 9 anos. Ela só descobre que não era só amizade a partir do momento em que descobre que seu melhor amigo iria se casar com outra, Kimmy (Cameron Diaz).



Como estudar para uma prova - Yaled Navtra


Esqueça o que você aprendeu sobre aprender: variar ambientes, misturar conteúdos e prêmios são essenciais para fixar conteúdo. Sem abandonar a disciplina, siga estas dicas cientificamente comprovadas - e boa sorte.

Mude de ambiente

Associamos o conteúdo com o ambiente de estudo. Pense: é mais fácil se lembrar do que come em restaurantes diferentes do que no mesmo refeitório. Forçar associações (1ª Guerra-sala/2ª Guerra-cozinha) torna a informação mais encontrável, quando você precisar dela.

Dê uns tempos

Uma sessão na sexta, outra no fim de semana e outra na segunda são melhores do que um domingo inteiro de dedicação. Quando você retornar o mesmo assunto depois de um tempo, seu cérebro vai fazer uma revisão automática para então aprender coisas novas.

De mal a melhor

A ordem das matérias deve ser da mais difícil para a mais fácil, ou da menos familiar para a mais  conhecida. O resultado é que a sessão de estudo vai se tornando menos chata conforme progride, prevenindo desistências.

Misture assuntos

Uma sequência de gramática, matemática e história exige mais do cérebro do que se concentrar em um assunto por vez. Esse esforço é bom: em vez de engatar no piloto automático e não muito concentrado, trocar de assunto faz com que ele retome a atenção a cada assunto novo.

Force a memória

Tente se lembrar do conteúdo sem consulta. Recuperar uma ideia é diferente de tirar um livro da estante: lembrar altera a forma como a informação será arquivada, tornando-a mais acessível e relevante quando precisar dela novamente.

Lazer incluído

Estudar pensando em diversão é tão ruim quanto não estudar. Inclua no seu planejamento prêmio por dever cumprido. Se você seguir sua programação, pode se dar ao luxo de uma sessão de cinema ou um barzinho.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 285 - dezembro de 2010)

Cristo Redentor - André Bernardo


Mais de mil toneladas de concreto (3,8 toneladas na cabeça, 8 em cada mão), algumas disputas e um milagre formam o Cristo Redentor, nossa maravilha carioca

Outra obra

O padre francês Pierre Boss foi o primeiro a vislumbrar, no século 19, um monumento a Cristo no Corcovado (ainda chamado de Pináculo da Tentação). Mas só em 1921, como comemoração dos 100 anos de independência, foi aberto um concurso para escolher um projeto. Segundo o desenho original, Jesus seguraria um globo terrestre e uma cruz nas mãos.

A religião

A cessão do terreno do Corcovado para o Cristo irritou a Igreja Batista. Mas o presidente Epitácio Pessoa autorizou a obra usando um argumento curioso: a Igreja Católica levou porque pediu primeiro. Pessoa não foi o único a se render à causa: o mestre de obras Heitor Levy era judeu quando começou o trabalho. Ao final da obra, se converteu ao cristianismo.

Melhor que a liberdade

O Cristo levou 5 anos para ser erguido, metade do tempo da Estátua da Liberdade. Também foi mais barato: custou 2 500 contos de réis (R$ 9,5 milhões) enquanto a Estátua de Liberdade custou 60 mil. E, embora seja um projeto perigoso - a 710 metros do chão - não houve acidentes graves entre os mil trabalhadores. Um milagre do Cristo.

Recadinhos

A coroa de espinhos na cabeça é, na verdade, um para-raios: o Cristo já perdeu sobrancelha, lábio inferior e um dedo para os raios. A estátua tem dois corações: um externo e um interno, onde está o nome da família de Levy. Há nome também atrás dos pedaços de pedra-sabão que a forram. São amigos e familiares das mulheres que fizeram o revestimento.

Nos tribunais

Não brinque com o Cristo: quando, em 2009, cartazes do filme 2012 mostraram a estátua sendo destruída, a Arquidiocese do Rio não ficou feliz. Notificou judicialmente a Columbia Pictures, que se retratou e tirou a montagem. É nos tribunais também que corre outro processo: até hoje, os herdeiros de Heitor Costa, o arquiteto, e de Paul Landowski, o escultor, brigam para saber quem é o "pai" do Cristo.


(texto publicado na revista Super Interessante edição 300 - janeiro de 2012)

Como namorar na Roma antiga - Ovídio (43 A.C. - 17), edição de Leandro Narloch


Há 2 mil anos, o poeta romano Ovídio escreveu um grande guia de paquera: o livro A Arte de Amar. As dicas eram para homens e mulheres da Roma Antiga - mas continuam válidas hoje em dia.

1) Ide para a rua

"A multidão é útil, jovens beldades. Levem sempre seus passos errantes para fora de casa. O acaso desempenha seu papel em todo lugar: jogue sempre o anzol na água. Onde você menos espera pegar um peixe, haverá um."

2) Bebei com moderação

"O vinho prepara os corações e os torna aptos aos ardores amorosos; as preocupações fogem e se afogam nas múltiplas libações. Qual a justa medida a ser conservada ao beber? Que sua inteligência e seus pés continuem exercendo o ofício deles."

3) Preparai-vos

"Esconda os defeitos, e, o quanto possível, dissimule suas imperfeições físicas. Se você é pequena, sente-se; em pé, evite que a  creiam sentada; e estenda sua miúda pessoa sobre o leito. Mesmo lá, deitada, para que não se possa avaliar seu tamanho, jogue sobre si uma roupa que esconda seus pés."

4) Na escuridão, enganai

"Não deixe a luz penetrar por todas as janelas no quarto de dormir; muitas partes do seu corpo são favorecidas não sendo vistas à luz do dia. E mesmo você a quem a natureza recusou as sensações de amoroso prazer finja, com inflexões mentirosas, apreciar os doces júbilos. Que seus movimentos e a própria expressão de seus olhos consigam nos enganar!"

5) Sede um corno manso

"O melhor é ignorar tudo. Deixe-a ocultar suas infidelidades e não a force a mudar sua fisionomia para fugir ao rubor da confissão. Razão a mais, jovens, para evitar surpreender suas amantes. Que elas os enganem, e que enganando-os elas pensem que os estão enganando!"

6) Se levardes um fora

"Evite reler as cartas de sua amante que você guardou; almas firmes ficam abaladas quando releem tais cartas. Jogue tudo impiedosamente no fogo, por mais que isso lhe custe, e diga 'Que esta seja a fogueira que amortalhará o meu amor!"


(texto publicado na revista Super Interessante edição 252 - maio de 2008)

Quais as maiores comunidades japonesas do mundo? - Anna Virginia Balloussier


É difícil calcular com precisão o tamanho dessas comunidades espalhadas pelo globo. Todas as pessoas com ascendência nipônica são consideradas japonesas, independentemente de onde estejam ou de quem tenha sido seu último parente nascido no Japão. Por isso, o governo japonês não tem controle sobre o nascimento e a movimentação de todos os seus descendentes. O que existe são estimativas feitas pelos países que recebem os imigrantes desde os primeiros fluxo emigratórios iniciados no final do século 19, quando a Revolução Meiji aboliu a classe dos samurais e começou uma modernização sem igual no país. Antes dela, o Japão ainda era uma nação rústica, enquanto as chaminés europeias iam a pleno vapor. O jeito foi pegar carona no bonde da modernidade e tentar inserir o país nessa realidade. A população japonesa, antes estável devido às altas taxas de mortalidade, crescia a galope. Ao mesmo tempo, a mecanização do campo trazia o desemprego. Foi justamente essa grande massa de desempregados que saiu à procura de trabalho mundo afora. E, como o Brasil precisava de mão-de-obra nas lavouras de café, boa parte dela veio parar por aqui, como você pode ver abaixo.

Aqui é o seu país

Brasil e EUA concentram mais de 80% dos nikkeis.

Brasil (46%)

Quantos são: 1,5 milhão
Quando começaram a chegar: em 1908
Por que vieram: enquanto o Japão tirava o emprego dos trabalhadores rurais, o Brasil precisava substituir os italianos nas lavouras de café.

Reino Unido (1,5%)

Quantos são: 51 mil
Quando começaram a chegar: em 1863
Por que foram: para estudar. Era a chance de difundir a cultura japonesa e aprender com a modernização ocidental

Peru (2,5%)

Quantos são: 81 mil
Quanto começaram a chegar: em 1899
Por que foram: para suar a camisa nas plantações de cana-de-açúcar e algodão nos vales da costa central

EUA (37%)

Quantos são: 1,2 milhão
Quando começaram a chegar: em 1858
Por que foram: os primeiros foram trabalhar nos canaviais do Havaí. Em 1924, quase 300 mil imigrantes moravam nos EUA

China (3,5%)

Quantos são: 115 mil
Quando começaram a chegar: em 1894
Por que foram: a princípio, para lugar por territórios como Coréia e Manchúria. Em 1932, o governo passou a incentivar a emigração com o intuito de levar a agricultura nipônica para a China e, assim, criar raízes definitivas por lá.

Canadá (2,6%)

Quantos são: 85 mil
Quando começaram a chegar: em 1877
Por que foram: para fugir da crise pós-Meiji. Em 1908, quando uma lei restringiu a imigração nipônica, os nikkeis chegavam a 18 mil.

Outros (6,9%)



(texto publicado na revista Super Interessante edição 252 - maio de 2008)