terça-feira, 23 de agosto de 2016

Gabbianella salvata dal gatto: diventa reale la storia di Sepulveda (La Spezia)


La Spezia - Le è spuntato nel giardino, chissà da dove.Un piccolino di gabbiano, ancora incapace di volare. Piangeva. Chiedeva da mangiare. La donna ha aspettato, come si deve fare in questi casi. Spesso, i genitori tornano a prendere il piccolo, e la natura fa il suo corso. Solo che di adulti, lì attorno, non ce n’erano. Ha cercato, invano.

Forse, la mamma ha avuto un incidente, è stata uccisa. Fatto sta, c’era solo il piccolo. E - piangi e piangi - ha trovato una mano, insperata, da parte degli umani. Non si può nutrire un animale selvatico, o adottarlo.Lo impedisce la legge. Si può però - e si deve - dare un primo soccorso: se una vita rischia di morire. E così è avvenuto.

Il gabbianetto s’è accomodato, in mezzo ai gatti di casa, che vivono all’esterno, nel giardino. S’è trovato degli amici, sia pure di specie diversa. Un po’ come nel film di animazione, “La gabbianella e il gatto”, ispirato al romanzo di Luis Sepulveda. La proprietaria del terreno, ha lasciato fare. Non se l’è sentita, di cacciare“Pullin”, come l’ha soprannominato.

Ora, il gabbiano è cresciuto. Cammina, tenta i primi voli. Quando si sentirà abbastanza forte, prenderà la sua strada, e cercherà un posto nel mondo. E magari ritornerà a trovare la sua amica umana, e gli amici gatti, con i quali ha trascorso questa infanzia così particolare. L’immagine è di Loredana Parodi, presidente dell’associazione “Il cuore degli animali”.

Non è il primo caso di amicizia fra umani e gabbiani. L’amicizia con i gatti, però, è qualcosa di davvero insolito. E commovente. In quel piccolo, i gatti non hanno visto né una preda né un pericolo. Certo, era molto diverso da loro: e magari, chissà, in un contesto diverso, questo legame non sarebbe stato possibile. E’ successo. E conferma il fatto che fra gli animali non ci sia violenza, se non c’è necessità di sopravvivere. In questo caso, tutti avevano di che nutrirsi, e non hanno sentito l’istinto di sopraffare l’altro. E così “Pullin” ce l’ha fatta.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Paulistanos Nota Dez: Simone Marcio Berti - Júlia Gouveia


Nome: Simone e Marcio Berti
Profissão: consultora e empresário
Realidade que transformaram: estimularam por meio de aulas de gastronomia mais de 300 crianças e jovens com deficiência intelectual

É comum que o engajamento em projetos beneficentes surja após uma experiência pessoal ou de amigos e parentes. Não foi essa, porém, a motivação do casal Simone e Marcio Berti, fundadores da ONG Chefs Especiais, que dá aulas gratuitas de culinária para adolescentes e adultos com deficiência intelectual. "Só queríamos retribuir pela vida bacana que temos", conta Marcio, que não conhecia ninguém com problema semelhante quando os dois iniciaram os trabalhos da entidade, em 2006. De lá para cá, mais de 300 alunos passaram por suas lições.

Dono de uma fábrica de panelas em São Paulo, ele já dividia a aptidão por criações na cozinha com a mulher, que é consultora empresarial. Nas oficinas realizadas mensalmente, eles recebem chefs renomados para as aulas. Olivier Anquier, Henrique Fogaça e Carlos Bertolazzi estão entre os profissionais convidados para ensinar o preparo de pratos, que devem ser simples e exigir muita mão na massa. "Para eles, às vezes, conseguir quebrar um ovo sozinho é um desafio vencido", relata Simone. O efeito na vida dos aprendizes é, com frequência, radical. Laura Basílio, de 22 anos, participou da ONG por cinco anos e acaba de se formar em gastronomia pela Hotec. "Eles me incentivaram a ter uma carreira", agradece. Hoje, seus sonhos são atuar com Alex Atala no premiado D.O.M. e se especializar em confeitaria. A garota tem síndrome de Down, assim como Natália Evangelista, de 16 anos, que ganhou no projeto ânimo para enfrentar aos 10, o tratamento contra leucemia. "O médico ficou impressionado com a melhora que ela teve", recorda a fundadora.

Depois de sete anos ministrando os cursos em locais emprestados, o casal inaugura em junho uma sede no Pacaembu. Mesmo com o apoio de algumas empresas do ramo (a Danúbio, por exemplo, paga os 8.000 reais de aluguel), não é fácil bancar os custos de 30.000 reais mensais, mas eles não desanimam. "Um  trabalho desses você faz pela dor ou pelo amor", resume Simone. "E amor nós temos de sobra."


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 15 de maio de 2015)

Paulistano Nota Dez: Braz Rodrigues Nogueira - Júlia Gouveia


Nome: Braz Rodrigues Nogueira
Profissão: educador
Realidade que transformou: fez com que um colégio cercado de violência em Heliópolis se tornasse a semente de um polo de lazer e cultura aberto à população

Quando Braz Rodrigues Nogueira assumiu a direção da Escola Municipal Presidente Campos Salles, na favela de Heliópolis, em 1995, o local estava mergulhado em violência. A praça em frente era palco de crimes como tráfico de drogas e estupro (certa vez, até encontraram por lá um cadáver). "Nas classes, havia cinco ou seis agressões físicas entre alunos todos os dias, e sobrava cadeirada até para mim", lembra. O ambiente se tornou ainda mais assustador em 1999, com o assassinato de uma estudante logo após sair da aula. Foi o momento do basta. Nogueira passou, então, a organizar caminhadas anuais pela paz nas ruas da região e investiu em um programa de aproximação do colégio com a vizinhança. Se antes os estudantes, funcionários e professores viviam às voltas com problemas de segurança, hoje o Campos Salles nem sequer tem muros. "Percebi que os problemas da escola são os do bbairro, e vice-versa", conta Nogueira.

A transformação começou com a criação de comissões de pais para debater melhorias. Em paralelo, o diretor incentivou professores a ir aonde moram os matriculados. "Aos poucos, a aproximação mostrou bons resultados", afirma. Em 2002, ao ser surpreendido com o roubo de 21 computadores, saiu pela vizinhança dizendo quanto as máquinas fariam falta. Três dias depois, elas reapareceram. Em 2010, ocorreu a inauguração do Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis que surgiu a partir de uma ideia de Nogueira de integrar a praça antes problemática a um polo de ensino infantil. Hoje, o complexo agrega outros cinco colégios e equipamentos abertos à população, como teatro, cinema e quadra. Na estratégia pedagógica do Campos Salles, uma recente iniciativa vanguardista aboliu paredes e as aulas expositivas deram lugar a grupos de aprendizado tutorados pelos docentes. Conseguir um bom resultado com a inovação é a nova meta do filho de lavradores pobres. Nascido na zona rural da região de Araçatuba, no interior do estado. Nogueira andava diariamente 12 quilômetros para estudar e se formou em filosofia e pedagogia. "Minha motivação era dar orgulho aos meus pais", relembra ele, com a certeza do objetivo alcançado.


(texto publicado na revista Veja São Paulo de 17 de abril de 2013)

Ficar de boca fechada: Um dos segredos da vida - Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz (Conti Outra)


Nunca, nunca, nunca fale mal dos outros; mas, principalmente, não fale mal de si mesmo, não fique contando suas misérias, problemas e tristezas para encontrar conforto na ‘pena’ alheia. Atrair os olhos da piedade é desejar e invocar sobre si condições dignas de piedade.

Indivíduos sem um ‘centro’ falam demais, estão sempre prontos a opinar, criticar, espalhar, reproduzir, acrescentar e fomentar falatórios de maneira irrefletida e desorganizada; eles não sabem, mas esta é a maneira mais rápida de se perder totalmente o Poder da Palavra.

Não manter a boca fechada é caminho certo para desperdiçar energia e vitalidade.

Ao ministrar cursos de Oratória, sempre insisto que inexiste melhor mecanismo de se ampliar essa capacidade do que ‘Calar a Boca!’. E manter a boca fechada não significa apenas não proferir palavras a esmo, mas estar atento a como nascem e se processam os pensamentos, a como eles podem ser canalizados e dirigidos favoravelmente.

Não raras vezes, uma ‘língua solta’ vem acompanhada de uma mente tíbia, um raciocínio raso e um temperamento descontrolado.

No Plano Astral, uma pessoa que não domina o Poder da Palavra apresenta-se em uma Aura turbulenta, onde as Forma-Pensamentos giram pra todos os lados sem lei e ordem. São soldados desgovernados, frágeis e completamente desarmados, susceptíveis a qualquer influência ou ataque externo. Trata-se espiritualmente de alguém que, desguarnecido, tende a sentir-se constantemente desanimado, desmotivado, cansado, oprimido e deprimido.

Quem não controla o Falar, não controla o Pensar e portanto não domina o próprio Existir.

Se cuidar e expandir a própria existência é o melhor Serviço que podemos prestar para a humanidade, ‘Calar’ é prática mais proveitosa que podemos aplicar em nossa própria vida.

Quem desenvolve a capacidade de Silenciar aproveita maravilhosas oportunidades de, no mínimo, não falar bobagens.

Parece algo óbvio e fácil mas não o é, a dificuldade em saber a hora de sair de cena, descer do palco e permitir que o Universo termine o espetáculo, é uma das razões para tanto stress e desajustes.

Quando se permite dominar pela ânsia de ‘responder a altura’, dar o troco, fazer-se ouvir, impor-se, gritar mais alto, se fazer presente a todo e qualquer custo vai se criando ‘ralos’ que sugam a Energia Pessoal

Desinstale do coração o hábito de reproduzir acontecimentos desagradáveis, tragédias, desastres e catástrofes; evite mergulhar nas ondas de raiva coletiva, de fofoca comunitária, de falatórios generalizados.

Aprenda a Silenciar.

Silenciar é manter a mente concentrada sobre o que é verdadeiramente importante para si, é abster-se de colocações desnecessárias e dizer apenas aquilo que condiz com o que se deseja ver manifesto no próprio Universo.

Silenciar é ser Grato.

Silenciar é colocar em palavras a Força, a Abundância, o Equilíbrio, a Saúde, a Iluminação, a Felicidade e o Bem.

Silenciar é também brigar pelos direitos, é ir pras ruas e entrar no campo de batalha se necessário for; mas é igualmente saber voltar ao estado de Paz e Centralidade.

Silenciar é a única maneira de adquirir o Poder da Palavra.

domingo, 21 de agosto de 2016

Michel Melamed (Programa A Máquina)


Michel Melamed conversa com Aderbal Freire-Filho


O amor é necessário? - Walcyr Carrasco

O amor romântico, a união de almas, está desaparecendo. Sonham com ele, mas os relacionamentos ficam mais fluidos

Após um relacionamento, um amigo português se presenteou com uma viagem às Ilhas Maldivas. Foi sozinho para um hotel fantástico. Pretendia passar seu aniversário calmamente. Estava bem. Mas, ao chegar, fornecera seus dados pessoais. Por tradição, o hotel comemora o aniversário dos hóspedes. Ao final de seu jantar, uma comitiva de garçons com um bolo de velas acesas aproximou-se de sua mesa solitária cantando “Happy birthday”. Foi um horror.

– Era horrível suportar os olhares de piedade dos turistas nas outras mesas, diante de minha solidão.

A pessoa sozinha é vista como uma fracassada. Alguém que não conseguiu encontrar alguém. Há algo de errado com ela, pensam. A crítica gastronômica americana M.F.K. Fischer, autora de Cozinha de A a Z, fala da experiência de ir sozinha a um restaurante, comum em sua vida. A tendência é sentar a pessoa em algum lugar ao fundo. Quem quer contemplar um pobre solitário? Uma vez, eu mesmo, cometi a loucura de ir sozinho a um rodízio na Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo. Era freguês, comia lá sempre, pois morava muito perto. Mesmo assim, os garçons passavam voando com os espetos diante de mim, até que tive de gritar, implorar, para receber um pedaço de alcatra.

No passado, a mulher que não se casava era tratada como uma espécie de empregada da família. O maior terror das garotas era ficar para tia, ou seja, solteirona. Era ela quem cuidava dos pais velhinhos. Depois, ia morar na casa de algum irmão ou irmã, onde era tratada como um estorvo, embora cozinhasse, lavasse e passasse. Na divisão da herança, ficar com um pedaço de terra para quê, se era sozinha? No máximo, um enfeite de porcelana que pertencera à mãe. O preconceito continua, sob formas disfarçadas. Alguém consegue ficar sozinho numa festa? Sempre alguém se aproxima, às vezes instigado pelos amigos.

– Vai dar um apoio para ela, está sozinha! Quebra o galho da coitada!

Uma família é definida pelo encontro de duas pessoas que se amam e constroem um lar. Mas se as famílias estão mudando, o amor também não? A transformação começa já no vocabulário. Antes namorada era alguém com quem se pretendia um compromisso. Hoje, pode ser simplesmente uma pessoa com quem o rapaz esteja saindo, uma espécie de amiga íntima, sem outros planos. Um casal se apresenta como “meu marido” e “minha mulher”. Mas de fato seriam, no conceito de antigamente, namorados. Estão juntos, mas em casas separadas. A relação é profunda, sim. Mas pode acabar a qualquer momento. As palavras foram se tornando fluidas. “Ficar” é uma agarração sem compromisso. “Ficante” é alguém que se vê até com frequência, mas não é namoro. Mas a ficante às vezes é apresentada como namorada ou mulher. Apresenta-se uma amiga que de fato é namorada. Palavras que possuíam significados objetivos foram ganhando gradações, coloridos. Certa vez fui fazer uma reportagem sobre casais que moram separados. Falei com uma amiga, que possuía uma relação estável e pública. Apresentava-o como seu marido a todos, e ele a ela como sua mulher. Mas não queria dar entrevista. De repente, a resposta:

– Sabe o que é? A mulher dele não sabe de nós!

Ahnnn? Bem, em termos jurídicos já fora do palavreado comum, ela seria amásia. No dia a dia, amante. Mas alguém fala em amante? Ui, amásia? É namorada. Ou até noiva. Mas o noivado não é resultado de um compromisso. Só de um dia especialmente mais amoroso. Assim como “noivaram”, param de se falar. Ou a pessoa diz que está namorando. E depois descubro que ainda não conheceu o par. É só pela internet. Os mais sólidos dizem ter companheira, companheiro. Mas isso não dá a impressão de que o amor virou uma encontro de escoteiros?

A confusão de significados mostra que o amor romântico, a união de duas almas dos poetas, está desaparecendo. As pessoas sonham com ele. Mas relacionamentos são fluidos. Basta uma noite para dizerem que estão casadas! Ninguém suporta ficar sozinho. Cada vez com mais frequência, ficam sozinhas junto com alguém! Ou se apaixonam, mas só dura algumas semanas. O amor não é duradouro nem fator de união das famílias, como no passado. Para “casar”, basta emprego. Mas se os dois têm, é fácil separar. Não é necessário um par para sobreviver. Mas todo mundo quer um amor, dá para entender? Ninguém quer ser o solitário num restaurante no dia do aniversário. Só que eu vejo, cada vez mais, as pessoas tendo relações fugazes. E já se preparam para uma vida solitária, de eternos “namorados”.


(texto publicado na revista Época nº 910 - 16 de novembro de 2015)

Mãe drogada - Walcyr Carrasco


"Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos e meio. Estava voltando pra casa do trabalho, à noite, e foi assaltado numa rua de Niterói. Reagiu e foi morto. Ainda lembro minha mãe telefonando para os parentes, porque ele não voltava pra casa. Só encontraram o corpo um dia depois, no Instituto Médico Legal. Minha mãe nunca tinha trabalhado. Meu pai era tudo pra ela. Ficou comigo e meu irmão um ano mais velho que eu. Foi aí que tudo desandou."

Ouço o motorista do carro que peguei no aeroporto Santos Dumont, do Rio de Janeiro. O trânsito estava ruim, começamos a conversar, e ele me contou sua história. Tem 22 anos, voz calma. Desabafou.

"Minha mãe começou a usar drogas. No início como usuária. Depois se envolveu mais, inclusive com traficantes. Eu sentia falta do meu pai, precisava de apoio. Meu irmão e eu, crianças, é que tínhamos que segurar a barra lá em casa."

Já escrevi uma peça de teatro sobre viciados, Êxtase, e um livro sobre o uso de crack na adolescência, Vida de droga. Nunca havia pensado sobre o tema do ponto de vista do filho de uma drogada. À medida que ele falava, fui construindo um retrato assustador: a pensão de viúva era gasta com drogas e homens, os meninos muitas vezes não tinham o que comer, o clima doméstico era pura violência e a mãe desaparecia durante dias. Voltava machucada. Os parentes queriam retirar as crianças. A mãe não permitia. Gostava, principalmente, de cocaína. Vendeu móveis, não pagava as contas, viveram semanas sem energia elétrica, no escuro.

Os dois irmãos cresceram nesse clima. Na adolescência, cada um se refugiou na casa de uma tia. Com remorsos. "Eu pensava que devia estar lá, pra ajudar minha mãe. Não conseguia mais. O pior é que meus estudos e de meu irmão ficaram comprometidos."

Demorou muito mais tempo que o usual para ele concluir o ensino fundamental. Tentou vários cursos técnicos, com o apoio financeiro de parentes. Matriculava-se, mas não comparecia sequer a uma aula. "Desistiram de me ajudar." Finalmente, cada um dos irmãos recebeu, de uma tia mais bem de vida, um pequeno apartamento num bairro periférico de Niterói. Ainda morando com parentes, o motorista queria alugar o seu para pagar um curso profissionalizante. Não pôde. A mãe não tinha mais onde morar. "Cedi meu apartamento a ela. Mas morar junto ficou impossível." Aparentemente, a mãe deixou as drogas. Os sentimentos continuam embaralhados. "Meu irmão mora no apartamentinho dele e não quer nem falar com ela. Eu visito, mas a gente não se entende."

Ele me confessa que gostaria de tentar uma faculdade. Pretende trabalhar como motorista uns dois anos para juntar dinheiro. Também trabalha em eventos. Ainda busca equilíbrio para realizar seus planos. "Sinto falta do meu pai, mas não lembro exatamente as feições dele. Com tudo o que aconteceu, ainda estou tentando tomar pé na vida."

Para quem teve uma família comum, como eu, onde no máximo os pais ficavam emburrados um com o outro, sua história mexe comigo. Simplesmente não consigo imaginar o que é ter uma mãe drogada, nas mãos de traficantes - que, segundo ele deu a entender, também se envolveu na venda de drogas. Recentemente, quando o governador Geraldo Alckmin, do PSDB paulista, instituiu a internação compulsória de viciados em crack, minha reação foi de revolta. Tive a sensação de que as liberdades individuais seriam violadas. Ao ouvir o relato do rapaz de Niterói, tive outro sentimento. Quando se fala em drogas, pensa-se só no viciado. Mas essas pessoas têm pai, mãe, marido, mulher, filhos. São suas vidas que se tornam dramáticas. Atos de violência e problemas financeiros são inevitáveis. O pior é a falta de compromisso. De qualquer laço. O usuário rouba a própria mãe. Adolescentes drogados vendem objetos de valor da casa e põem a culpa na empregada. O viciado perde a noção de humanidade. A mãe drogada perdeu o carinho pelos filhos, que deveria proteger.

Chego a meu destino. Ao me despedir, o rapaz ainda me conta que a namorada mora na mesma rua em que o pai morreu. Triste coincidência. "Quando passo por lá, penso que, se meu pai fosse vivo, nada disso teria acontecido." Pergunto se pretende se casar logo. Ele responde que sim. "Quero ter a família que nunca tive. Ficou um vazio dentro de mim, uma falta de amor que preciso preencher."

Ele parte e me deixa com uma sensação melancólica. A dor desse filho, nunca vou esquecer.


(texto publicado na revista Época nº 770 - 25 de fevereiro de 2013)

A administração da vida mental - Pe. Fábio de Melo


Durma bem - Pe. Fábio de Melo


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