domingo, 16 de novembro de 2014

O poder de um sonho - Luara Calvi Anic


Mariana Da Cruz trocou o interior de São Paulo pela Europa com a ideia fixa de virar cantora. Já gravou quatro discos

A cantora mariana Da Cruz, 40 anos, mora na Europa há 15. É em Paranapanema, município de cerca de 18 mil habitantes no interior de São Paulo, que sua história começa. A caçula de sete irmãos nasceu em uma família modesta, em que o pai era cozinheiro e a mãe trabalhava no plantio de algodão. "Costumava ouvi-la cantar, o que para a gente era muito prazeroso. Mesmo com uma vida dura, não perdíamos a alegria", lembra. Tão contagiada a menina se sentia que quis fazer o mesmo, mas para um público maior. Passou a soltar a voz na igreja que frequentava. Ao concluir o ensino médio, foi morar com os irmãos em uma cidade maior, Campinas, onde cursou relações internacionais. Enquanto estudava, sempre tinha emprego e ainda se apresentava em bares e festas. Ao se formar, se mudou para a capital paulista e arranjou trabalho em uma empresa de autopeças. "Ganhava bem, mas havia uma coisa que me cutucava para viajar", diz referindo-se ao sonho que alimentava de conhecer o mundo. Juntou dinheiro por cinco anos e tomou coragem para partir. Primeiro, escolheu como destino os Estados Unidos. Como não obteve visto, sacou o plano B, a Europa, e foi. "Aos 25 anos temos muita coragem", diz.

Sozinha, ela voou para Londres. Mas percebeu logo que não conseguiria grande coisa com seu inglês ainda precário. Mudou-se para Lisboa. Ali, atuando como garçonete em um pub, emplacou uma noite por semana de música brasileira. Cantava bossa nova e sambas antigos. Seu show de quarta-feira fez tanto sucesso que passou a acontecer também às sextas. Em uma delas, conheceu o produtor suíço Ane Hebeisen, da banda música eletrônica Swamp Terrorists. Os dois se apaixonaram e estão juntos há dez anos. "Tive paciência para transformar cada não que recebia em sim", diz a cantora, instalada na Suíça desde 2003. Com a ajuda e a participação do parceiro, formou a banda com a qual já gravou quatro discos. O mais recente, o álbum duplo Disco e Progresso, foi apresentado no início deste ano ao Rio de Janeiro e a São Paulo. No mês passado, ela tocou no Montreal Jazz Festival, no Canadá.

Apesar de agora ser fluente em inglês e alemão, Da Cruz só canta em português. "Mesmo que viva 30 anos fora, nunca deixarei de ser brasileira", diz a cantora, ainda pouco conhecida por aqui. Da experiência de morar em outros cantos, tem procurado tirar lições. "Falta ao europeu o talento de fazer as coisas por pura paixão, como o brasileiro consegue", analisa. "Ao mesmo tempo, na Europa aprendi que é possível alcançar até mais sucesso com disciplina, organização, persistência e técnica do que só com paixão. "Mas ela bem sabe que melhor mesmo é juntar os dois mundos.



(texto publicado na revista Claudia nº 8 - ano 53 - agosto de 2014)






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