Ainda criança, Luisa Lina Villa queria saber como as coisas funcionavam por dentro. Hoje, ela é uma das principais cientistas ligadas à pesquisa do vírus HPV
A correria pela manhã é uma amostra do que é a sua rotina. Antes de conversar com a VivaSaúde, Luisa está em uma reunião com Raquel, secretária que ela chama de "anjo", e a ajuda a organizar a agenda no Instituto do HPV (SP), onde ocupa o posto de coordenadora há quatro anos. Mas as atividades administrativas não se reservam a um só lugar. Ela também atua na área de coordenação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e ainda leciona no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP). Lá, o "anjo" atende pelo nome de Stela. Desde a infância havia o interesse em saber como os objetos são por dentro. A entrada para o mundo no qual os micro-organismos são o foco foi a lente do microscópio de brinquedo que ganhou quando era criança. A partir daí, o caminho para o laboratório estava traçado. "A minha grande curiosidade era ver o que a gente não consegue ver", diz ela. Aliás, é onde os experimentos acontecem que ela se sente mais em casa. "Eu tinha uma maca no laboratório, na Cidade Universitária, porque eu dormia para fazer experimentos que demoravam horas e viravam a noite", conta com entusiasmo sobre os tempos de estudante de Ciências Biológicas na Universidade de São Paulo (USP). Por falar em lugares aconchegantes, é ao lado da irmã, sobrinhos e sobrinhos-netos, e sua fiel companheira, a cachorrinha Lucy, que Luisa adora passar seus poucos momentos de folga em São Roque, interior de São Paulo. Luisa não tem filhos, e acredita que o destino quis assim. Embora ela afirme que a mulher tem a capacidade de equilibrar carreira e maternidade, ela segreda que uma parte disso se deve à sua dedicação ao trabalho.
Luisa jamais poderia imaginar que tantas dessas mulheres seriam beneficiadas por suas pesquisas. Em 1984, no Instituto Ludwig, do A.C. Camargo Center (SP), ela começou a estudar sobre o papilomavírus humano por incentivo do mentor, o cientista Ricardo Bretani. "Um dia, ele chegou ao laboratório e disse: 'Eu estive com um alemão, meu amigo Harold [Hausen] - prêmio Nobel de Medicina em 2008 -, e ele disse que a gente deveria investigar esse vírus em câncer genital. Você não quer ver isso?'", relembra ela. Há 20 anos, o então desconhecido vírus causador do câncer do colo do útero estava longe de ser um problema de saúde pública. Hoje, a vacina ajuda a prevenir a doença, terceiro tumor mais frequente na população feminina, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Luisa é feliz profissionalmente, e ainda que já não passe tanto tempo no laboratório quanto gostaria, sente-se feliz com o sucesso de seus alunos, das pessoas com quem trabalha, do mérito em conduzir pesquisas, conseguir investimentos e supervisionar trabalhos científicos. "Eu me realizo vendo os meus alunos escrevendo suas teses e meus assistentes publicando seus trabalhos. Isso é fascinante."
A bióloga acredita que o papel que exerce para os seus pupilos vai além do aprendizado em sala de aula. "Hoje, o conhecimento está acessível praticamente a todos. O meu papel é muito mais o de passar-lhes uma experiência de vida do que propriamente ensiná-los", finaliza.
(texto publicado na revista VivaSaúde nº 137)
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