quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Front of the class - sem legendas


Primeiro aluno da classe (front of the class) - dublado


É verdade que cães e gatos enxergam em branco e preto? (Revista dos Curiosos)


Os cães conseguem distinguir tons de azul, amarelo e cinza. "Eles possuem menos cones, estruturas dos olhos responsáveis pela distinção das cores, e mais bastonetes, que identificam tons de cinza", explica Fábio dos Santos Teixeira, veterinário do Hospital de Clínica Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assim, eles não vêem diferenças entre verde, laranja e vermelho."Se uma bolinha vermelha é jogada num gramado, ele não sobressai. Se for azul, chama mais atenção", afirma. 

Já para os gatos a situação é ainda pior: eles têm mais bastonetes e, por isso, diferenciam ainda menos o amarelo e o azul. Por outro lado, essas estruturas possuem um pigmento, a rodopsina, que permite uma maior adaptação dos olhos à escuridão - o que é fundamental para criaturas noturnas como os bichanos. O jabuti é o mais sortudo dos animais, pois tem cones mais desenvolvidos e enxerga todas as cores.



(texto publicado na revista Revista dos Curiosos nº 9 - ano 1)



Como abrir as portas da intuição - Wilson Weigl


- Medite. A prática da meditação ajuda a limpar a mente e abrir os canais receptivos.

- Aprenda a dar ouvidos a si mesmo e prestar mais atenção ao que fala seu coração. Analise como estão se encaminhando seus sonhos, desejos e metas.

- Crie em sua casa um espaço sagrado ou um local especial onde possa meditar e pedir a ajuda dos guias interiores.

- Coloque sua intenção em abrir os canais intuitivos e usar o conhecimento para servir a propósitos elevados e não só conseguir poder e benefícios pessoais.

- Experimente testar suas habilidades intuitivas em assuntos sem importância, como descobrir quem está chamando ao telefone, antes de atender. Quando não existe pressão, as capacidades costumam se desenvolver.

- Escreva um diário de suas experiências intuitivas. Procure descobrir padrões: em que horas do dia ou meses em que sua intuição se aguça. Descubra como a rotina, as emoções, os lugares ou as companhias afetam suas  capacidades psíquicas.

- Conheça a você mesmo. A busca do autoconhecimento ajuda a separar a intuição da projeção de desejos e medos. Meditação, psicoterapia e grupos de estudos são formas de mergulhar dentro de si.

- Pratique a solidão. Momentos de recolhimento e quietude são enriquecedores e ajudam a abrir os canais de comunicação interiores.

- Abra seu coração. Pratique a bondade, a compaixão e o perdão. Com isso você não só se abre para a intuição, como se torna um mensageiro de confiança das informações que vai receber.

- Faça a ligação com seu eu superior e coloque tudo nas mãos divinas. Confie na sabedoria cósmica (onde nada acontece por acaso) e aprenda a se comunicar com os anjos, santos ou mestres espirituais.



(texto publicado na revista Planeta nº 312 - setembro de 1998)


O Ben humorado - Ivan Finotti


Em alta após seus filmes terem faturado US$ 6 bilhões, o comediante Ben Stiller deixa a palhaçada de lado e mergulha em seu projeto mais pessoal, A vida secreta de Walter Mitty

Não é novidade para ninguém que tenha assistido às trilogias Uma Noite no Museu (2006, 2009 e 2014), ainda inédito) ou Entrando Numa Fria (2000, 2004 e 2010): Ben Stiller tem cara de boboca.



Uma noite no museu


Como se fosse filho direto do casal Debi & Lóide, de 1994, Ben se especializou em ser o bocó de sua geração, assumindo um personagem sempre patético, para quem tudo dá errado (menos no final) e, por isso, simpático à plateia.

Mas é claro que Ben Stiller não é um bocó na vida real. As franquias acima renderam mais de US$ 2 bilhões em todo o mundo (e custaram menos de um quarto disso), elevando seu nome ao patamar dos poderosos de Hollywood. Considerando os cerca de 30 longas em que atuou (incluindo vozes na trilogia Madagascar), Ben é o "boboca" que ajudou o cinema a faturar US$ 6 bilhões.



Starsky (Ben Stiller) e Hutch (Owen Wilson)


E é com essa moral de dez dígitos que ele se senta em frente a dez jornalistas estrangeiros, incluindo Serafina, em um hotel-butique, em Nova York, para falar sobre seu novo filme. Não é um blockbuster como Uma Noite no Museu 3, com estreia prevista para 2014, mas um projeto mais pessoal chamado A Vida Secreta de Walter Mitty, que ele protagoniza, dirige e produz, e que estreia no Brasil no fim de dezembro. "Eu seria só o ator. Mas o estúdio não tinha um diretor e eu me identifiquei com a história. Acabei pedindo para dirigir", conta ele.

Ainda que tenha passagens cômicas, A Vida Secreta se aproxima mais de um drama de autoconhecimento e superação: Walter Mitty é um homem que vive num mundo de fantasia, sonhando coisas que gostaria de fazer, mas não faz por timidez ou falta de motivação.

Tudo muda (ou não seria um filme) quando Mitty, arquivista de fotos da revista Life, perde o negativo da foto que irá estampar a capa do último número da publicação, que deixará de ser impressa para virar um site. Para recuperar a imagem, Mitty seguirá os passos de seu ídolo, um fotógrafo vivido por Sean Penn. Na vida real, a Life, nascida em 1936, realmente acabou como revista em 2000, numa das mais significativas derrotas do jornalismo na era da internet.

"A ideia de um cara que sonha acordado foi imediatamente interessante pra mim. Conecto essa fantasia com o fato de ter algo dentro de mim que ainda não expressei. A pessoa que você é dentro da sua cabeça não se traduz para o mundo da maneira que você pensa. As pessoas se identificam com isso."

O par romântico do ator em A Vida Secreta é a atriz Kristen Wig, que divide com Ben um momento memorável: ela pega um violão e canta Space Oddity, de David Bowie, enquanto ele corre e pula para um helicóptero em movimento em uma terra de gelo. A cena é bela e eletrizante, provavelmente a melhor que ele já filmou em sua carreira.

Aos 47 anos, Ben Stiller é uma das caras mais conhecidas de uma geração de comediantes que começou a brilhar nos anos 2000, mas cuja gênese está em dois filmes de 1996.

O primeiro é O Pentelho, segundo longa dirigido por Ben. Além de contar com os astros Jim Carrey e Matthew Broderick, o filme trazia pontas do próprio diretor e de dois novos amigos, Jack Black e Owen Wilson. O outro é Pura Adrenalina, com os irmãos Owen e Luke Wilson e dirigido por Wes Anderson.


Turminha

Ali estava formado o núcleo duro do Frat Pack, apelido dado pela imprensa para o grupo que seria responsável por três dúzias de comédias nos 17 anos seguintes. A inspiração da alcunha veio de Rat Pack (quadrilha de ratos), que incluía os amigos Humphrey Bogart, Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy David Jr., na Hollywood dos anos 1950 e 1960. Nos anos 1980, uma nova geração, formada por Emilio Estevez, Rob Lowe, Demi Moore e Molly Ringwald, virou a Brat Pack (quadrilha de moleques).

Já a Frat Pack tem suas origens nas fraternidades norte-americanas, aquelas congregações universitárias com nomes de letras gregas (alfa, zeta, ípsilon, pi, beta etc.) que batem ponto há três décadas nas comédias de Hollywood.

Elevado ao cargo de líder da Frat Pack, Ben afirmou, em 2006, que o rótulo não passava de invenção da imprensa, o que é verdade, mas também não é. O ator e seus amigos efetivamente formaram uma dessas irmandades dentro da indústria do cinema, sempre ajudando uns aos outros a conseguir papéis. Em 2004, por exemplo, toda a  turma se reuniu em O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy, Jack Black, Ben Stiller, Luke Wilson, Vince Vaugh, Will Ferrell e um novo integrante, Steve Carell.

Mas há também uma crítica velada no apelido, que deve incomodar a Ben: o humor um tanto rasteiro de vários de seus filmes, que lembra o "gênero fraternidades" dos anos 1980, como Porky's (1982) ou A Vingança dos Nerds (1984).

É isso que se vê efetivamente na maioria das obras da Frat Pack, como A Inveja Mata (2004) ou Trovão Tropical (2008). Ou no terrível Zoolander (2001), estrelado, dirigido, escrito e produzido por Ben.

O trunfo artístico que tanto faltava ao grupo acabou vindo de um agregado, o diretor Wes Anderson. Wes já havia sido notado quando dirigiu os irmãos Wilson em Pura Adrenalina. Martin Scorsese apontou o filme como um dos dez melhores dos anos 1990. Mas o diretor e a Frat Pack deslancharam mesmo após Os Excêntricos Tenenbaums (2001), com Ben e os Owen atuando em meio a grandes do cinema, como Gene Hackman, Anjelica Huston e Bill Murray.

Talvez seja com esse exemplo em mente que Ben tenha visto algo a mais no roteiro de A Vida Secreta de Walter Mitty. Walter é um personagem da minha idade, é o tipo de cara que faz parte de uma geração em transição. Temos uma conexão com o mundo pré-digital, onde nós crescemos, mas estamos totalmente imersos no digital agora. Viver nesses dois mundos e ver as mídias tradicionais, como o filme em película, irem embora é triste. Fiz questão de filmar em película. Era importante para mim que houvesse essa homenagem".

A transição parece ser mais profunda. Apesar de ter tido controle total do novo filme, Ben não chamou nenhum de seus colegas de confraria para fazer pontas ou aparições. Ao contrário, convidou um ou outro grande nome para contracenar. Além de Sean Penn, há Shirley MacLaine no papel da mãe de seu personagem. Após tanta palhaçada, Ben não quer mais brincar de ser boboca.



Walter Mitty (Ben Stiller)  e Sean O'Connell (Sean Penn)




(texto publicado na revista Serafina, suplemento da Folha de São Paulo, dezembro de 2013)

















Os irredutíveis gauleses - Tatiana Bina


Muito mais que divertidas aventuras, Asterix, Obelix e companhia representam, com sua heróica resistência aos romanos, uma metáfora histórica e social do povo francês

Os quadrinhos com as histórias de Asterix: o Gaulês, assinados pela dupla Albert Uderzo (arte) e René Goscinny (texto) são fenômeno de público desde a década de 60. Pelo menos 30 dos 33 álbuns estão traduzidos em mais de cem idiomas. Os dois filmes lançados em 1999 e em 2002 (com o conhecido ator Gérard Depardieu no papel de Obelix) arrecadaram milhões de dólares no mundo todo. Além deles, a série contou com oito animações em longa-metragem, como o recente Asterix e o Vikings (de Stefan Fjeldmark e Jesper Moller, 2006), que também obteve enorme sucesso.

A que se deve esse fascínio? Sem dúvida, a maior parte, ao talento cômico de seus criadores. Mas a insubordinação de Asterix, Obelix e os demais personagens da aldeia gaulesa ao poderoso império romano dão prazer especial aos leitores.


Obelix e Asterix


Apesar de as aventuras de Asterix se passarem em um tempo antigo, um pouco depois da conquista da Gália por César, muitas das situações cômicas são inspiradas por questões contemporâneas que não fariam sentido algum na Gália ou na Roma do século 1º a. C. ao 1º d. C. Muitas vezes os acontecimentos não têm nada a ver com a História e são usados como meros recursos literários. Há até muitos erros históricos. Por exemplo, o fato de César ser chamado de imperador, quando no período da conquista gálica ele ainda era um cônsul. Para poder localizar bem essas "licenças poéticas" é necessário compreender como era realmente a sociedade gaulesa nessa época. Desse modo, as inserções contemporâneas na História ficam mais claras e dão sabor ainda maior aos quadrinhos de Uderzo e Goscinny.


Toda a Gália foi ocupada

Grupo étnico cujo nome foi dado pelos gregos, os celtas estavam presentes em uma boa parte da Europa ao redor do ano 500 a. C. Esse território correspondia à atual França, o norte da Itália, a Áustria, a Espanha e Portugal. O nome galli, que originou o termo "gauleses", é romano e foi usado como designação geral para as populações da Gália (França). Com a conquista romana, o território ocupado por  essas comunidades foi dividido em três Gálias: a Alpina, a Cisalpina e a Transalpina. Esses territórios correspondiam quase exatamente aos limites do atual território francês.

A trama de Asterix se passa na Gália, pouco tempo depois de César completar a conquista dessas populações. Naquela época, César era procônsul, responsável pela administração da Gália Transalpina. Depois da conquista, ele escreveu a obra de Bello Gallico, até hoje considerada uma das principais fontes escritas a respeito da guerra gálica, que durou de 58 a 51 a. C. César ganhou o título de principes depois da guerra civil e, como reação ao aumento cada vez maior do seu poder, um grupo de conspiradores o assassinou em 44 a. C., entre os quais, seu filho adotivo, Brutus.

Apesar de eventuais revoltas, a conquista da Gália foi considerada uma empreitada bem-sucedida. Ao contrário do que apresentam os quadrinhos, não se sabe de nenhuma tribo que tenha escapado da influência romana no período posterior à conquista. Muitos autores consideram que essa vitória tenha se dado também devido à estrutura de organização gaulesa, dividida em "tribos" independentes, que mantinham traços culturais comuns mas viviam em constante rivalidade.

Dessa maneira, César obteve o apoio de algumas comunidades na luta contra outras. Houve tentativas de resistência, a mais importante foi liderada por Vercingetórix, chefe da tribo averna. Essa, como as demais, fracassou. Mas o nome de seu líder ganharia projeções históricas futuras.


Toda? Não!

Como Asterix na ficção, Vercingetórix é considerado o principal herói histórico da Gália. Esse reconhecimento se deu no período em que a Antiguidade gaulesa foi revisitada. Depois da Revolução Francesa, na época de Napoleão III, houve a atribuição de uma visão positiva ao chamado Terceiro Estado - os sans culottes e os camponeses que haviam exercido papel fundamental na destituição da nobreza e na criação do processo revolucionário. Essa valorização do Terceiro Estado teve como consequência uma perspectiva semelhante com relação aos gauleses. Afinal, segundo estudiosos da época, os reis eram descendentes dos francos, e o Terceiro Estado, dos galo-romanos. Ou seja, quem realmente ganhou importância foi a população gaulesa conquistada, que adotou os padrões culturais romanos.

Os gauleses foram vistos favoravelmente no esteio desse processo de recuperação histórica. Tanto, que Vercingetórix é um herói vencido, mas lembrado por sua coragem, bravura e sacrifício, e principalmente por ter aberto caminho, com sua derrota, para a integração da Gália à cultura clássica e ao nascimento da "civilização galo-romana". Apoiando-se em uma população que teria dado origem ao povo, e não à monarquia, procurava-se fortalecer a ideia de nação e reforçar o republicanismo.

A figura de Vercingetórix foi constantemente reinterpretada ao longo da História. Entretanto, um estereótipo que se tornou constante é a do "herói resistente", característica também presente em Asterix. Dessa forma, o personagem deve a Vercingetórix não apenas essa imagem, mas também a própria visão positiva do gaulês, nem constante, nem óbvia na História.



Asterix, Ideiafix e Obelix


Uma aldeia resiste ao invasor

Assim como em Vercingetórix, as aventuras de Asterix e de seu fiel companheiro Obelix são produto de um momento histórico e de uma construção condizente com ele. Apesar de não terem tido só essa finalidade, os autores produziram (e produzem) textos com traços políticos, sociais e culturais nos quais estavam imersos. Isso os obrigava a escrever de acordo com a mentalidade da época.

No período em que Asterix começou a ser escrito tinha-se, por um lado, a forte lembrança da ocupação nazista na França e do colaboracionismo com os alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Por outro, a intensa influência estadunidense era sentida como ameaça.

Em resposta, temos a personificação da ideia de que a França não se curva, por meio da representação de Asterix como um herói resistente, diante do qual César não consegue alcançar totalmente seu objetivo. E o herói, além de tudo, brinca com a identidade romana. Em Asterix nos Jogos Olímpicos, por exemplo, só os gregos - criadores da competição - e os romanos podem participar dessa celebração desportiva. Mas Asterix argumenta que, se a Gália foi conquistada por Roma, isso faz dele romano, mesmo que sua tribo não aceite ser subjugada.

As décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial foram marcadas pela perda de duas colônias francesas: a Indochina (Vietnã) e a Algéria (Argélia). E os quadrinhos de Asterix não estavam necessariamente apoiando essa separação. A obra representa ideais e concepções de mundo francesas. Nesse sentido também é possível vislumbrar o personagem como uma resposta à situação: a França teria resistido à colonização, ao contrário das colônias francesas que tinham se deixado conquistar.

Embora seja possível extrair elementos políticos da conjuntura da época, a principal função dos quadrinhos de Asterix é fazer rir. Os autores atribuem aos personagens em suas histórias os defeitos e as qualidades que também caracterizariam os franceses, fazendo projeções do presente histórico num passado ficcional. Assim, não são de estranhar as alusões a carros, à televisão, à ecologia, entre outras.

A análise dos quadrinhos de Asterix é um exemplo da importância de conhecer os vários períodos históricos apesar da sua dissociação em sala de aula. Afinal de contas, em uma obra contemporânea, todos os momentos históricos aqui discutidos - a Antiguidade, Revolução Francesa, guerras napoleônicas e o pós-guerra no século 20 - são parte essencial para entender o humor da obra de Uderzo e Goscinny.


O druida Panoramix



(texto publicado na revista Desvendando a História nº 14 ano 3)























A razão de se criar ídolos - Lou de Olivier, psicoterapeuta


A fuga da realidade mostra como nos esquivamos do enfrentamento de frustrações. Um comportamento cada vez mais frequente, que faz o sucesso das telenovelas e dos consultórios

O ator de TV ou cinema entra em cena e, sem que nada diga, é calorosamente aplaudido. Se sorrir ou acenar ainda jogar beijos, pode levar a plateia à loucura. O cantor que, às vezes nem canta tão bem, começa a dançar e as garotas já se excitam. Se eles fizer passos sensuais e/ou rebolar um pouco, lá estão elas gritando histéricas. Em meio a essa parafernália, quem vai perceber se o sujeito canta bem?

Pessoas até comuns, que têm seus 15 minutos de fama, e despem-se para fotos em revistas especializadas, bastam para que as edições esgotem-se rapidamente.

E o que dizer dos fãs que se emocionam e chegam aos prantos em aeroportos à espera de seus "ídolos"? Deixam, às vezes, de comprar algo que realmente necessitam para adquirir o recente lançamento ou o ingresso para um show, ocasião em que serão espremidos, destratados, acotovelados, inclusive correndo risco em meio a uma multidão em transe. Mesmo assim, os fãs continuam espalhando aos quatro cantos que "amam" artistas com os quais não têm nenhuma intimidade, muito menos motivos para amar. Mas de onde vêm esses sentimentos desenfreados?

Talvez se falássemos sobre a histeria coletiva, amplamente estudada, tanto por Freud quanto por Jung, podemos transcorrer sobre algumas respostas a esta questão, mas o debate acerca deste tema é complexo, e precisaremos de um novo artigo para isso.

O palco é projetado de tal forma que impõe distância. Seja qual for seu formato (italiano, grego, etc.) sempre é colocado com certa distância, num plano geralmente mais alto (ou ao mesmo destacado) que as cadeiras da plateia. Aí vem os sons e luzes que emitem mensagens e, de certa forma, despertam fantasias.

O cinema também, com sua tela gigante colocada a distância, transforma os atores em seres totalmente intocáveis. Tanto que, quando a tela se apaga e as luzes acendem-se, muitos se frustram ao terem de volta a realidade de forma tão rápida. No teatro essa frustração geralmente é substituída por excessivos aplausos, de forma prolongada, o que obriga os atores a voltar à cena. É uma forma inconsciente de prolongar o momento, forçando os atores a continuarem visíveis, ao menos para agradecer os insistentes aplausos.

A TV então, dispensa comentários, com sua fábrica de novelas e comerciais martelando o cérebro do público. E o bombardeio é tão poderoso que acaba fixando a ideia de que tudo o que aparece na telinha é perfeito, amável, desejável, soberano e deve ser imediatamente consumido.

Mas, além disso, existe outro fator: a necessidade inconsciente de que o ser humano tem de criar e sustentar ídolos. Até mesmo para melhor viver ou, ao menos, sobreviver. Quando criança, a necessidade de liberdade e autonomia faz com que sonhemos com o dia em que estaremos livres das imposições de nossos pais e sociedade, e transferimos nossos desejos a algum super-herói do momento, ou talvez, numa transferência mais masoquista, a algum mártir desses sofríveis contos de fadas que atravessam os tempos. Lembrando que, neste período, a criança passa pelas fases simbióticas em que ela se imagina um mesmo ser com a mãe e, na sequência, percebe sua mãe como um ser independente dela, dando início ao objeto transicional e edipiano ao genitor do sexo oposto, fazendo dele uma espécie de ídolo, pelo menos por este período da vida.

No início da adolescência, isso muda completamente de figura. Ainda sonhamos com a liberdade, mas, também brigando com o corpo/mente em transformação, sonhamos com ídolos de carne e osso, mas que, protegidos pelo escudo da fama, nos sejam intocáveis e, portanto, não nos causem mal. Já que, nesta fase, estamos frágeis e qualquer mágoa pode nos desestruturar. Dessa forma, podemos amar de  forma plena, com uma entrega total, sem corrermos o risco do abandono. Afinal, em nossa imaginação, nosso ídolo age e reage da forma como estipulamos e jamais nos trairá ou abandonará, já que nós estamos no comando da relação.

Na passagem da adolescência para a juventude, o normal é que comecemos a construir uma relação mais verdadeira, então passamos a flertar, "ficar", namorar, e aí vêm as primeiras decepções com a realidade. Então, seguimos nossas vidas, consumindo revistas de fofocas televisivas ou fotos sensuais, vivendo as cenas de um filme como se fizessem parte de nossa vida. E a vida real? Esta pode esperar ou até acontecer em paralelo, desde que não atrapalhe a novela...

Podemos entender a fuga da realidade como uma tentativa de amenizar a frustração, ou seja, diante de algo que não gostamos, ou não nos satisfaz, procuramos algo que, apesar de ilusório, nos agrada. Nos deparamos então com a velha batalha entre o princípio da realidade e o princípio do prazer. Freud demonstrou que tanto os sonhos quanto as fantasias são processos visando avaliar a angústia.

A grande realidade é que tanto público quanto artistas seguem inconscientes desse jogo estabelecido em função da fama. A relação intocável firmada entre os dois parece ultrapassar o tempo; mudam os ídolos e o público, mas a relação continua a mesma. Provavelmente nunca mude. É o círculo da mente humana que se adapta à fantasia da época e segue sua fuga desenfreada das frustrações reais!



(texto publicado na revista Psique nº 83 ano VI)